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terça-feira, 10 de março de 2026

Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026 - Maria Luiza Falcão (Brasil 247)

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Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026

Maria Luiza Falcão
Brasil 247, 09 de março de 2026, 15:37 h

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto

A eleição presidencial de 2026 se aproxima em um momento particularmente complexo da história brasileira e internacional. Não se trata apenas de mais um ciclo eleitoral em uma democracia consolidada. O pleito brasileiro ocorre em meio a uma combinação rara de fatores: uma transição turbulenta da ordem internacional, a erosão do sistema político que estruturou a Nova República e um ambiente doméstico marcado por conflitos institucionais e disputas de narrativas permanentes.

Em circunstâncias normais, eleições nacionais refletem principalmente dinâmicas internas — desempenho econômico, popularidade do governo, capacidade de articulação das forças políticas. O momento atual, no entanto, parece escapar a essa lógica tradicional. 

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto. A eleição de 2026 poderá ocorrer justamente no cruzamento desses dois movimentos históricos.

Alguns observadores já percebem esse ambiente como um momento de transição. O economista e escritor Paulo Timm sugere que estamos diante de um período que lembra outros momentos de inflexão histórica — como 1954, 1961 ou 1989 — quando mudanças profundas estavam em gestação antes mesmo de se tornarem plenamente visíveis. A sensação de que algo estrutural está se transformando, ainda que sem contornos completamente definidos, atravessa hoje o debate político em várias partes do mundo.

Essa percepção não é infundada.

A crise da ordem internacional

Desde o fim da Guerra Fria, o sistema internacional foi amplamente organizado em torno da hegemonia dos Estados Unidos. Durante três décadas, a chamada Pax Americana sustentou instituições multilaterais, cadeias globais de comércio e um padrão relativamente estável de governança econômica internacional. Durante algum tempo, chegou-se a acreditar que essa ordem teria caráter quase permanente. Hoje sabemos que não.

A reeleição de Donald Trump representa um dos sinais mais claros da crise desse modelo. Trump não é apenas um líder controverso ou uma anomalia política circunstancial. Ele expressa tensões profundas dentro da própria sociedade americana — desigualdades regionais, conflitos culturais, ressentimentos econômicos e desconfiança crescente em relação às instituições tradicionais.

A política externa americana sob Trump também revela mudanças importantes. O uso agressivo de tarifas comerciais, o abandono de compromissos multilaterais e a retórica nacionalista indicam uma inflexão significativa no comportamento da potência que durante décadas se apresentou como garantidora da ordem internacional liberal.

Esse movimento não representa apenas uma mudança de estilo político. Ele expressa uma transformação mais profunda na própria lógica da liderança americana. A chamada Pax Americana sempre combinou poder militar, influência financeira e legitimidade institucional. O trumpismo, ao contrário, opera frequentemente pela ruptura dessas mesmas engrenagens: enfraquece instituições multilaterais, transforma aliados em alvos de pressão comercial e introduz um grau de imprevisibilidade que fragiliza a própria arquitetura internacional construída após 1945. Em vez de estabilizar o sistema global, Washington passou a ampliar as tensões que já atravessam a economia e a política internacional.

Sob o comando de Donald Trump, o ataque recente ao Irã pelos Estados Unidos em conluio com Israel de Benjamin Netanyahu, lança o mundo numa situação de apreensão pelo risco de ser deflagrada uma Terceira Guerra Mundial. A morte do aiatolá Ali Khamenei no conflito — líder supremo do irã desde 1989, autoridade máxima do sistema político e controlador das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, do Judiciário, e das principais diretrizes da política externa e nuclear — é de gravidade incomensurável. Seu filho deverá sucedê-lo. 

O Irã contra-ataca. Ameaça com o fechamento do estreito de Ormuz, por onde circula um quinto do transporte do petróleo consumido no mundo, eleva o preço do petróleo a US$ 100 o barril, com perspectivas de aumentos ainda maiores, na casa de 50%. 

O Brasil não passaria ileso por uma escalada mais grave no Golfo Pérsico. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente atravessa o estreito de Ormuz, o que torna qualquer ameaça à navegação nesse corredor marítimo capaz de provocar choques imediatos nos preços da energia mundo afora. Para uma economia como a brasileira, os efeitos seriam múltiplos: aumento dos custos de transporte, pressão inflacionária e encarecimento de insumos estratégicos, especialmente fertilizantes, dos quais o país continua fortemente dependente das importações. O setor agropecuário — pilar das exportações brasileiras — sentiria rapidamente esses impactos, seja pelo aumento dos custos de produção, seja pela volatilidade nos mercados internacionais de commodities agrícolas. Em um mundo já marcado por incertezas geopolíticas, crises energéticas e disputas comerciais, um conflito ampliado no Golfo teria repercussões que ultrapassariam em muito as fronteiras da região.

Os Estados Unidos continuam a dispor de extraordinários recursos econômicos, tecnológicos e militares. Mas a estabilidade da ordem que ajudaram a construir tornou-se claramente muito mais frágil. Tensões comerciais, conflitos regionais e disputas estratégicas entre grandes potências se multiplicam.

Para países de renda média e democracias emergentes como o Brasil, esse ambiente internacional mais incerto cria desafios adicionais. Volatilidade financeira, mudanças nos fluxos de comércio e realinhamentos geopolíticos passam a influenciar diretamente as condições internas de crescimento econômico e estabilidade política. Afetam, sem dúvidas, processos eleitorais.

O esgotamento de um ciclo político no Brasil

Se o cenário internacional se torna mais turbulento, o sistema político brasileiro também atravessa uma fase de transição.

A geração que estruturou a política nacional desde a redemocratização praticamente desapareceu. Lideranças como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso foram figuras centrais na construção da Nova República. Representavam projetos políticos distintos, mas compartilhavam uma legitimidade derivada da experiência histórica da reconstrução democrática do país.

Hoje esse ciclo parece chegar ao fim.

O único líder nacional que ainda permanece no centro da política brasileira é Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), cuja trajetória se confunde com algumas das transformações sociais mais importantes ocorridas no país nas últimas décadas, já que está no poder por três mandatos e é candidato a um quarto. Mas a própria longevidade política de Lula também revela o vazio de lideranças estruturantes que caracteriza o momento atual.

Enquanto antigas referências desaparecem, novas lideranças ainda não se consolidaram plenamente. O sistema partidário permanece fragmentado e frequentemente dependente de arranjos regionais ou coalizões parlamentares de curto prazo. O resultado é um ambiente político mais fluido e menos previsível do que aquele que predominou nas primeiras décadas da redemocratização.

Essa recomposição incompleta do sistema político cria incertezas adicionais para a eleição de 2026.

As pesquisas de opinião já começam a refletir esse cenário de tensão política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda aparece à frente nas intenções de voto, mas a diferença em relação ao principal candidato da direita vem diminuindo. Esse candidato é o senador Flávio Bolsonaro, escolhido para representar politicamente o campo bolsonarista após a condenação e prisão de seu pai, Jair Messias Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional no país.

O avanço gradual de Flávio nas pesquisas indica que o bolsonarismo permanece uma força política relevante. Mais do que um fenômeno doméstico, ele se conecta a uma onda internacional de nacionalismo autoritário que ganhou novo impulso com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. A convergência política entre o trumpismo e setores da direita brasileira sugere que a eleição de 2026 também poderá refletir disputas ideológicas mais amplas que atravessam o cenário internacional.

Guerra política permanente

Outro elemento que marca o ambiente institucional brasileiro é a persistência de um clima de confronto político contínuo.

Desde a década passada, episódios sucessivos de judicialização da política, vazamentos seletivos e disputas institucionais intensificaram a polarização do debate público. O jornalista Luis Nassif observa que esse padrão continua a se reproduzir, com investigações e disputas políticas atravessando instituições-chave do Estado.

O episódio recente envolvendo o banco Master ilustra bem esse ambiente de tensão institucional. As investigações sobre as atividades do banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso, e suas conexões políticas rapidamente passaram a atingir diferentes esferas do Estado, incluindo segmentos do Judiciário e do sistema financeiro. 

Independentemente do desfecho jurídico das apurações, o impacto político é imediato: suspeitas, vazamentos e interpretações concorrentes passam a circular intensamente no espaço público, alimentando um clima de permanente disputa narrativa.

Esse ambiente torna-se ainda mais complexo quando combinado com a dinâmica das redes sociais. Rumores, acusações e escândalos — muitas vezes baseados em informações parciais ou não verificadas — circulam com enorme velocidade e alcançam milhões de pessoas antes mesmo de qualquer verificação factual.

O episódio envolvendo o filho do presidente Lula, conhecido como Lulinha — no caso, a reativação nas redes de antigas acusações sobre seus negócios empresariais durante os governos do PT — ilustra como temas antigos podem ser reativados estrategicamente no período pré-eleitoral. Independentemente da consistência das acusações ou de sua relevância jurídica, esse tipo de narrativa tende a ganhar enorme visibilidade nas redes digitais, alimentando ciclos de suspeita e desinformação difíceis de controlar.

O que estará realmente em jogo em 2026

A eleição de 2026 se aproxima em um ambiente de elevada tensão política. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta sustentar uma frente democrática que preserve as instituições reconstruídas após a crise política da década passada. De outro, o campo da extrema direita busca reorganizar-se em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro e alinhado internacionalmente ao projeto político representado por Donald Trump.

Nesse contexto, as eleições brasileiras deixam de ser apenas uma disputa doméstica. Elas passam a refletir um confronto mais amplo entre dois projetos políticos distintos: de um lado, a defesa de instituições democráticas e de uma inserção internacional cooperativa; de outro, a afirmação de um nacionalismo autoritário que encontra eco em movimentos semelhantes em diversas partes do mundo.

O pleito de 2026 será um momento de redefinição do projeto nacional brasileiro. O desafio será impedir que essa escolha histórica seja obscurecida por uma sucessão interminável de crises fabricadas, escândalos amplificados e disputas narrativas que pouco dizem sobre o futuro real do país.

As pesquisas mais recentes indicam que o risco de vitória de um projeto de direita não pode ser subestimado. Embora o presidente Lula ainda apareça à frente nas intenções de voto, a distância em relação ao senador Flávio Bolsonaro vem diminuindo gradualmente. Isso mostra que a extrema direita, longe de desaparecer após os acontecimentos que levaram à condenação e prisão de Jair Bolsonaro, mantém uma base social significativa e capacidade real de disputar o poder pelas urnas. 

A eleição de 2026 poderá, portanto, tornar-se um teste decisivo para a democracia brasileira: não apenas sobre quem governará o país, mas sobre até que ponto o sistema político e a sociedade serão capazes de resistir ao retorno de um projeto autoritário de direita que continua presente no cenário político nacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Alas do petismo saem em defesa das "eleições democtáticas" da ditadura chavista na Venezuela - Brasil 247

Dispensa comentários (PRA): 

Movimentos populares brasileiros lançam manifesto em defesa do processo eleitoral na Venezuela

O documento ressalta que "a nação latino-americana tem um sistema eleitoral democrático

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Itamaraty inicia nova gestão com adesão a acordo de migração e críticas a Israel (Brasil 247; Correio Braziliense)

 Mauro Vieira inicia gestão no Itamaraty com adesão a acordo de migração e críticas a Israel

Novo chanceler busca trazer o Brasil de volta ao mundo
Brasil 247, 5 de janeiro de 2023 

247 - O Itamaraty comunicou à Organização das Nações Unidas (ONU), nesta quinta-feira (5), que o Brasil voltará a fazer parte do Pacto Global para a Migração Segura. O País assinou o pacto em dezembro de 2018, mas, no mês seguinte, no início do mandato de Jair Bolsonaro, se retirou, alegando que o acordo lesava a soberania nacional.

O novo governo, que tem Mauro Vieira como chanceler, disse em nota que o Pacto está alinhado com a Lei da Migração brasileira, por exemplo, ao garantir o acesso de migrantes a serviços básicos. Ainda segundo a nota, “o retorno do Brasil ao Pacto reforça o compromisso do governo brasileiro com a proteção e a promoção dos direitos dos mais de 4 milhões de brasileiros que vivem no exterior”.

Política externa ativa e altiva
O Itamaraty já vem demonstrando que conduzirá uma diplomacia distinta do antigo governo Jair Bolsonaro. Em um comunicado divulgado na terça-feira (3), o MRE brasileiro criticou a visita do ministro de Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, à mesquita Al Aqsa, em Jerusalém.

Na mesma data, Gvir visitou o Monte do Templo, onde fica a mesquita Al Aqsa --um dos locais mais reverenciados pelo Islã. A visita provocou a condenação de grande parte do mundo muçulmano, incluindo Arábia Saudita, Catar, Jordânia e Emirados Árabes Unidos. O Monte do Templo é reverenciado como um local sagrado por todas as fés abraâmicas.

O comunicado do Itamaraty expressa a preocupação do Brasil com a incursão de Ben Givr na Esplanada das Mesquitas. “À luz do direito internacional e tendo presente o status quo histórico de Jerusalém, o governo brasileiro considera fundamental o respeito aos arranjos estabelecidos pela Custodia Hachemita da Terra Santa, responsável pela administração dos lugares sagrados muçulmanos em Jerusalém, tal como previsto nos acordos de paz entre Israel e a Jordânia, em 1994. Ações que, por sua própria natureza, incitam à alteração do status de lugares sagrados em Jerusalém constituem violação do dever de zelar pelo entendimento mútuo, pela tolerância e pela paz”, diz o Itamaraty.



Brasil volta ao Pacto para Migração da ONU, anuncia Itamaraty

Assinado pelo Brasil em 2018, o Pacto foi deixado de lado em 2019 pelo governo Bolsonaro. O texto prevê diretrizes para o trato aos migrantes

Victor Correia
Correio Braziliense, 05/01/2023 
   
O Ministério das Relações Exteriores anunciou nesta quinta-feira (5/1) o retorno do Brasil ao Pacto Global para Migração Segura, da Organização das Nações Unidas (ONU). O comunicado foi enviado pelo governo federal a dirigentes da ONU e da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

"O retorno do Brasil ao Pacto reforça o compromisso do Governo brasileiro com a proteção e a promoção dos direitos dos mais de 4 milhões de brasileiros que vivem no exterior", disse o Itamaraty em nota à imprensa.

O Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular foi assinado em 2018 pelos 164 Estados-membro da ONU, inclusive pelo Brasil. Em 2019, porém, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) declarou que não participaria. O chanceler à época, Ernesto Araújo, chegou a declarar que "a imigração não deve ser tratada como questão global, mas de acordo com a realidade e a soberania de cada país”.

"Compromissos já contemplados pela Lei de Migração Brasileira"
Segundo as Nações Unidas, o Pacto para Migração "não é vinculativo e fundamenta-se em valores de soberania do Estado, compartilhamento de responsabilidade e não-discriminação de direitos humanos". O texto estabelece diretrizes para o trato aos migrantes e cooperação internacional em prol do tema.

"O documento contém compromissos já contemplados pela Lei de Migração brasileira, considerada uma das mais avançadas do mundo, como a garantia do acesso de pessoas migrantes a serviços básicos", declarou também o Itamaraty

Empossada ontem, a secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, primeira mulher a ocupar o segundo cargo mais alto da pasta, declarou que "o Brasil terá de reconstruir pontes com países e grandes foros de debate, a começar pela sua própria região sul-americana, e na América Latina e Caribe, além de colocar em marcha uma nova dinâmica no relacionamento com a África, com a Ásia e com parceiros prioritários como a Europa, os Estados Unidos, a China e os demais membros do BRICS".


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Militares "têm juízo" e não embarcarão num golpe de Bolsonaro, diz Celso Amorim (Sputnik, Brasil 247)

 Militares "têm juízo" e não embarcarão num golpe de Bolsonaro, diz Celso Amorim


"Não vai haver golpe. Agora, pode haver um tumulto, pode haver uma tentativa", alertou o ex-ministro da Defesa, ex-chanceler e conselheiro de Lula para geopolítica

Brasil 247, 4 de agosto de 2022

Sputnik - Crítico implacável do direcionamento da política externa conduzida durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL), o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim não poupou o verbo ao fazer um balanço da condução do atual presidente em assuntos internacionais: "Não há nem como fazer balanço, porque não dá para fazer balanço de destruição".

O saldo negativo é dado pelo principal conselheiro em política externa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de cuja gestão foi chanceler entre os anos de 2003 e 2010, e que é o principal adversário de Bolsonaro na disputa pela Presidência da República nas eleições de 2022. Lula, no entanto, lidera com folga as pesquisas de intenção de voto.

"Digo isso com tranquilidade porque não estou só falando do governo Lula, no qual fui ministro, ou do governo Dilma, em que fui ministro da Defesa, mas do Brasil [de modo geral]."

Em entrevista exclusiva de pouco mais de uma hora concedida à Sputnik Brasil na última segunda-feira (1º), Amorim aponta os direcionamentos que devem coroar a diplomacia do Brasil no caso de Lula ser conduzido, novamente, à chefia do Executivo, como indicam as atuais projeções eleitorais.

"É difícil resumir, mas é preciso reconhecer que há três ou quatro grandes problemas que são globais e que, portanto, merecem a nossa atenção. Qual a nossa influência em cada um deles só a prática dirá. Eles são: uma mudança climática; as pandemias e ameaças globais à saúde; a desigualdade (que está na raiz de muitos problemas, inclusive refugiados e imigração, com isso criando problemas sociais e até conflitos); e, agora, uma coisa que eu não tinha incluído nas grandes ameaças [anteriormente]: as armas nucleares", elenca.

O ex-chanceler defende a integração não apenas da América do Sul — tema de seu recém-lançado livro, intitulado "Laços de Confiança" — mas da América Latina como um bloco regional, algo que classifica como "vital".

Também indica um olhar especial para o continente africano.

"Vamos dar uma grande prioridade à África por razões históricas, étnicas, culturais e da própria formação do povo brasileiro", ressalta.

Faz certo mistério sobre uma eventual recondução ao posto de ministro das Relações Exteriores, mas, em caso da vitória de Lula, apela para uma "salinha" no Palácio do Planalto para tomar um cafezinho com o ex-presidente.

"Talvez isso seja até muita ambição da minha parte", brinca.

Amorim ironiza a cobiça do atual governo pelo ingresso na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e aponta que um eventual ciúme dos Estados Unidos por uma política externa brasileira independente da hegemonia norte-americana precisa ser lidado de "maneira adulta e pacífica".

Descarta, também, qualquer tipo de aventura golpista por parte do atual governo — temor que vem sendo ventilado na sociedade civil brasileira devido a falas do presidente.

Veja, abaixo, a terceira e última parte da entrevista cedida por Amorim à Sputnik Brasil.

Sputnik Brasil: Caso o ex-presidente Lula seja eleito em 2022, o senhor voltaria a ser o chanceler do Brasil?

Celso Amorim: Nós vamos cruzar essa ponte quando chegarmos lá. Agora, todo o trabalho é pela eleição. Nós vamos recuperar a democracia, recuperar a civilidade e o respeito internacional — para o que a eleição é fundamental. Eu tenho toda disposição para ajudar o presidente em tudo o que for necessário.

Agora, já houve todo o tipo de especulação e, se for uma mulher [escolhida como ministra], eu acharia ótimo. Nunca tivemos tantas mulheres embaixadoras em postos importantes quanto em nosso governo [Lula, de 2003 a 2010], então seria uma boa hipótese. Há também, a hipótese de pessoas mais jovens.

Eu digo de brincadeira que eu me daria por satisfeito se ele me oferecer uma salinha lá no fundo do Palácio do Planalto para tomar um cafezinho com ele de vez em quando. Talvez isso seja até muita ambição da minha parte.

SB: Com o mandato encerrando, como o senhor avalia a política externa conduzida pelo governo de Bolsonaro? Dá para se fazer um balanço a respeito?

CA: Não há nem como fazer balanço, porque não dá para fazer balanço de destruição. Ele tentou destruir ao máximo, algumas coisas ele não conseguiu, pois o Itamaraty revela ainda que tem uma atitude impositiva.

Mas em certos episódios, como esse recente da convocação de embaixadores estrangeiros para falar mal da Justiça Eleitoral, a chefia do Itamaraty não se comportou bem, na minha opinião. Enfim, cada um sabe da sua vida, de modo que eu não devo dizer o que a pessoa deveria ou não fazer. Mas eu fiquei um pouco decepcionado, porque achei que o atual chanceler, Carlos França, estava procurando ser mais moderado. Claro que com o Bolsonaro é impossível fazer uma boa política externa. Mas o chanceler pode agravar ou minorar. Ele estava tentando minorar. Mas essa reunião com a presença dele é muito lamentável.

Eu nunca vi isso na diplomacia, e para falar a verdade, nunca vi em nenhum país: o presidente convocar embaixadores estrangeiros para falar mal das próprias instituições, e na realidade, praticamente, até anunciar um possível golpe, induzindo a crer na possibilidade de um golpe. Isso é inacreditável. Tudo isso desmoraliza muito a nossa ação externa.

Agora, o Brasil é um país grande, de muita tradição. Não só nos governos Lula e Dilma, em que eu estive, mas em governos anteriores. Eles poderiam não ter, talvez, a mesma amplitude de ação em alguns casos, mas eram respeitados. O Brasil sempre foi respeitado internacionalmente. Fui embaixador, por exemplo, em Genebra, no GATT [Acordo Geral de Tarifas e Comércio], na época do Collor. O Brasil estava naquela confusão interna, mas a voz do Brasil no exterior era respeitada. Foi feita naquela época pelo meu xará, Celso Leifert, que era ministro (um homem de visão ideológica diferente da minha, mas um homem correto), a Rio-92. No GATT, nós defendemos posições dentro do contexto da época, que tinha suas limitações, como a prevalência do Consenso de Washington. O Brasil defendeu posições razoáveis, teve alianças com a Índia. Sempre o Brasil teve uma posição correta e razoável, e agora não.

Agora, é uma coisa totalmente descabida, ofendem-se governantes estrangeiros, seja diretamente, seja (o que é pior ainda) através da cônjuge mulher. Eu nunca vi uma coisa semelhante. Falta decoro diplomático. O Brasil é um país isolado em sua própria região, porque o Brasil não tem contato com ninguém.

Teve a cúpula do Mercosul, em Assunção, onde não temos sequer um governo de esquerda, e o presidente não foi. O único interesse dele [Bolsonaro] é não perder a eleição.

SB: Quais os principais pontos de inflexão da condução da política externa no governo Bolsonaro?

CA: Ele mesmo disse que não veio construir, que ele veio desconstruir, e ele faz isso em todos os setores. Tudo aquilo que foi criado de institucional no Estado brasileiro ele tem procurado destruir.

Isso vai do IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] ao INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], passando pela Funai [Fundação Nacional do Índio] e pelo Itamaraty. Ele não destruiu mais o Itamaraty como instituição porque é difícil. A política externa se faz na base da confiança, e o Brasil jogou fora seu capital de confiança que foi criado ao longo dos anos.

Digo isso com tranquilidade porque não estou só falando do governo Lula, no qual fui ministro, ou do governo Dilma, em que fui ministro da Defesa, mas do Brasil [de modo geral].

Quando eu era embaixador na ONU, queriam que o Brasil presidisse uma comissão sobre a antiga Iugoslávia. Por acaso, estava de férias. E o embaixador do Japão, então presidente do Conselho [de Segurança da ONU], me ligou e pediu para vir, porque o Brasil tinha que estar [presente]. E eu perguntei: mas por quê? Ele me explicou que o Brasil é o único país que os EUA e a Rússia aceitam. Essa é a credibilidade diplomática que o país tinha. Isso não quer dizer que se concordasse com tudo dos Estados Unidos ou tudo da Rússia, pelo contrário, seria impossível.

Eles tinham confiança no que a gente fazia. Isso contrasta com essa situação atual em que o Brasil não é chamado a uma reunião do G7, em que são convidados outros países, e o Brasil não é convidado. Isso jamais se passaria no período do Lula. Pelo contrário, o Brasil participou de todas as reuniões — naquela época, era o G8 [quando incluía a Rússia, removida em 2014]. Hoje, nós estamos auto-marginalizados.

SB: O senhor acha que essas ameaças constantes do presidente Jair Bolsonaro em relação à democracia significam que ele seja capaz de dar um golpe com o uso das Forças Armadas?

CA: Não creio. Eu acho que pode causar muito tumulto ainda, porque não sabemos como vai se comportar. Até porque uma das coisas que caracterizam o Bolsonaro é a imprevisibilidade total do comportamento dele. Se você me dissesse que ele iria visitar a Rússia no meio de uma crise que, seis dias depois, levou a uma guerra. Claro que talvez ele não pudesse adivinhar, mas a informação corria nos serviços [diplomáticos]. Mas ele não só foi como prestou solidariedade. Então ele é imprevisível. Mas eu acho que não há condições.

Sempre que houve um golpe militar ou com apoio militar na América do Sul, em geral, e no Brasil, em particular, ele se deu com apoio da elite econômica, da grande mídia e de potências externas ocidentais, sobretudo pelos próprios Estados Unidos. Eu acho que nenhum dos três fatores, hoje, joga a favor [de um golpe], então torna isso muito difícil. São três grupos muito poderosos.

E quando o secretário de Defesa dos EUA [Lloyd Austin] vem aqui ao Brasil e diz na frente do nosso ministro da Defesa que o poder militar tem que estar subordinado ao poder civil, e defende a democracia. Antes disso, o próprio governo americano tinha dito que o sistema eleitoral brasileiro é um exemplo para o hemisfério e para o mundo. Não acho que vai haver golpe. Agora, pode haver um tumulto, pode haver uma tentativa.

Você vê declarações totalmente descabeladas de militares da reserva, às vezes, do Clube Militar. Mas isso tinha e sempre teve. Tinha uma pessoa que trabalhava comigo, um general de quatro estrelas, e ele sempre se referia à "reserva raivosa". Porque aí todos os ressentimentos, aquilo ali é um túmulo de fervura constante. Eu acho que não é isso o que predomina, o que vai predominar é o pensamento do alto comando. E o alto comando tem juízo.

SB: Quais devem ser os direcionamentos da política externa brasileira?

CA: Com Bolsonaro, não existe. Com Bolsonaro, é uma espécie de um buraco escuro que o Brasil caiu, e você tem que esquecer.

Você pode comparar com Fernando Henrique [Cardoso], você pode comparar até com o [Fernando] Collor, com o [José] Sarney, porque aí você está no domínio do mais ou menos racional. Mas o período de Bolsonaro está fora de qualquer possibilidade de comparação.

É difícil resumir, mas é preciso reconhecer que há três ou quatro grandes problemas que são globais e que, portanto, merecem a nossa atenção. Qual a nossa influência em cada um deles só a prática dirá.

Eles são: uma mudança climática; as pandemias e ameaças globais à saúde; a desigualdade (que está na raiz de muitos problemas, inclusive refugiados e imigração, com isso criando problemas sociais e até conflitos); e, agora, uma coisa que eu não tinha incluído nas grandes ameaças [anteriormente]: as armas nucleares. Esses são os grandes problemas que eu acho que devem ser enfrentados. Agora, como enfrentá-los? Qual é o tipo de relacionamento? Eu acho que buscando, apesar de tudo o que falamos aqui, das dificuldades, buscando contribuir para um mundo multipolar. Como o Brasil pode contribuir para um mundo multipolar?

Não só se relacionando bem com vários países, como já comentamos aqui (BRICS, EUA, UE), mas sobretudo fortalecendo a integração da América do Sul e da América Latina, para que ela também seja um bloco forte com capacidade de discutir com a União Europeia, com capacidade de discutir com os Estados Unidos sem ser uma submissão. Ela não pode ser objeto, ela não pode ser pátio traseiro, como dizem em espanhol, de nenhuma potência. Nem dos Estados Unidos, nem da China. Essas são as formas gerais.

Vamos dar uma grande prioridade à África por razões históricas, étnicas, culturais e da própria formação do povo brasileiro, e aí a gente vai vendo.

Queremos fortalecer o multilateralismo porque nós fizemos um esforço enorme na época do governo Lula em relação à Organização Mundial do Comércio, sabemos que ela está muito debilitada, mas o que se puder fazer para fortalecer deve ser feito. E, também, de uma forma geral, fortalecer o sistema multilateral.

Agora, é preciso ter a clareza de que o sistema multilateral tem que ser fortalecido, mas tem que ser modificado. Você não pode ter, 77 ou 78 anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, o mesmo sistema que foi criado naquela época. Isso é uma coisa absurda.

Eu gosto muito de uma comparação que faz uma analista norte-americana chamada Anne-Marie Slaughter que diz assim: "É só pensar que em 1950, por exemplo, o mundo fosse se reger pelas regras de 1860, 1870". É uma coisa que não dá para [se basear]. Os países não eram os mesmos, as regras não eram as mesmas, então não tem [como]. Então essa mudança [de mentalidade] eu acho que é muito importante.

Na mudança da governança global, você tem que ter instrumentos efetivos para levar adiante políticas importantes com relação ao meio ambiente, ao clima, enfim, esses temas todos que eu mencionei. Ao mesmo tempo, as questões da paz e da guerra você tem que ter um certo equilíbrio, que não é o que existe no Conselho de Segurança [da ONU] hoje.

A tendência, hoje, quando há um problema importante (e eu sei disso porque participei de um grupo importante sobre o ebola), a questão estava sendo levada para o Conselho de Segurança da ONU. Agora, veja bem: como é que você pode discutir um tema como a pandemia em um órgão sujeito a veto? Não tem nem cabimento uma coisa dessas. Como é que você vai discutir temas como aquecimento global em um órgão sujeito a veto? Inclusive um veto que não tem nada a ver com o poder dos países? É um poder relativo de cada país. Então essa mudança da governança global é absolutamente fundamental. Eu acho que precisaria ter alguma espécie de institucionalização de algo parecido com o G20, um G20 um pouco mais modificado, um pouco mais africano e um pouco menos europeu, e também com uma representatividade de Estados pequenos.

Hoje, o G20 é um fórum importante. Mas ele não tem poder direto: ele não diz ao Banco Mundial o que ele tem que fazer. São os burocratas do Banco Mundial que decidem. No máximo, talvez, eles escutem o governo norte-americano, alguns governos europeus que dão dinheiro. Mas não é isso que tem que ser. Tem que ser uma coisa mais equilibrada, mais democrática. Então, eu acho que essa governança mundial tem que ser modificada. É preciso que alguém tome a iniciativa disso.

SB: Como o senhor avalia a possibilidade de retomada da integração latino-americana considerando essa guinada à esquerda, que, agora, inclui até a Colômbia, e com a eventual eleição do presidente Lula?

CA: Acho que a guinada à esquerda até ajuda e facilita pela afinidade. Mas, mesmo que não houvesse a guinada à esquerda, essa integração é necessária. Ela é vital. Volto a mencionar o meu livro porque até o título se chama "Laços de Confiança" do Brasil na América do Sul, e essa expressão me ocorreu quando eu estava saindo de uma reunião com o [ex-presidente da Colômbia, Álvaro] Uribe, que era o que pensava mais diferente da gente.

Mesmo dentro da pluralidade, tinha aquela visão comum, com variações, naturalmente, de que era importante estar junto. Isso, hoje em dia, é por um lado mais forte, porque essa necessidade de atuar em conjunto em temas como aquecimento global, pandemia, desigualdade é absolutamente fundamental, assim como em matéria de comércio como em outras matérias.

Assim como você disse, é mais fácil, porque é bom ter laços de confiança, mas melhor ainda ter laços de amizade e laços de afinidade. Eu vejo isso ocorrendo e temos hoje, no México, um governo muito progressista também, e é uma coisa que não ocorria desde o Lázaro Cárdegas, desde os anos 1940. Então isso é um fato de grande importância. Claro que o México, passe o que passa, tem uma relação muito especial com os Estados Unidos por causa da geografia. Mas, mesmo assim, tem tido atitudes muito corajosas e positivas.

Acho que temos que fazer isso [a integração regional da América Latina]. Tem coisas óbvias que precisam mudar, por exemplo, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que pela primeira vez, por causa do [ex-presidente dos EUA, Donald] Trump, [tem um comando que não é latino-americano]. Mas o [atual presidente dos EUA, Joe] Biden não fez nada para mudar, se o Biden quisesse fazer um gesto positivo em relação à América Latina tinha que mudar esse cara e botar um latino-americano, que é o que sempre foi. Mesmo na dominação, os EUA sempre foram mais sutis, escolhiam um latino-americano que não fosse hostil a eles, e ele também seria uma pessoa mais sensível às nossas necessidades. Então você ter dirigindo o Banco Interamericano de Desenvolvimento uma pessoa que é representativa do que há de mais reacionário nos Estados Unidos com a América Latina não é possível. Enfim, só estou dando um exemplo. Agora, quanto mais unidos nós estivermos, mais fácil é de conseguirmos.

SB: O que o senhor pensa a respeito da entrada do Brasil na OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]?

CA: Eu penso. Fico pensando (risos).

SB: Na entrevista de Lula para o UOL cedida na semana passada, ele falou que a única coisa que ele exigiria dos EUA seria respeito. O senhor acha que, com a volta do Lula e a retomada do projeto de liderança regional do Brasil, isso poderia causar algum tipo de incômodo para o governo norte-americano?

CA: Você sabe que, quando um país está em uma posição hegemônica, ele quer que todos obedeçam. Uma vez tive uma conversa com o Bill Richards, que era o embaixador deles na ONU, tinha sido governador do Novo México e foi, inclusive, pré-candidato à presidência, mas nunca conseguiu a nomeação. Eu disse para ele que o melhor aliado não é aquele que concorda sempre; o melhor aliado é aquele que tem valores parecidos, mas que tem outros caminhos e outras maneiras de dizer. E o Bill Richards, que era um homem muito inteligente e muito irônico, disse assim: "É, mas eu acho que preferimos aqueles que concordam sempre" (risos). Então isso aí mostra que há um potencial de controvérsia, mas tem que lidar com a controvérsia de maneira adulta e pacífica.

Eu acho que é isso que nós queremos que exista entre Brasil e EUA. São os dois maiores países do hemisfério. Claro que com uma enorme desproporção de riqueza, mas o Brasil tem um imenso território e um potencial enorme. Um tema central da política internacional do Brasil vai ser a questão do clima. E o Brasil é uma grande potência nisso, e tem que ser uma potência do bem para ajudar a superar esse temor que todos temos do aquecimento global chegar a níveis insuportáveis.

https://www.brasil247.com/poder/militares-tem-juizo-e-nao-embarcarao-num-golpe-de-bolsonaro-diz-celso-amorim

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