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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O evangelho de Samuel [Pinheiro Guimarães] - Sérgio Leo (Valor Econômico, dezembro de 2009)

Resgato, de uma postagem neste mesmo blog, mas de dezembro de 2009, este artigo do jornalista Sergio Leo relatando um almoço-conversa com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, no momento em que ele deixava a SG do Itamaraty e começava a se encarregar dos "assuntos estratégicos", no governo Lula 2.

O evangelho de Samuel
Sérgio Leo, de Brasília
Valor Econômico, 23/12/2009

O que eu disse é que nem Jesus Cristo teve reconhecimento em sua própria terra, e olha que ele fazia milagres!
A leitura da Bíblia é fundamental para entender o pensamento dos neoconservadores nos Estados Unidos
Se nós tínhamos dificuldades em fazer planos para o Brasil, quanto mais pessoas que nunca moraram no país, sem experiência


"Jesus Cristo, segundo o evangelho de São Marcos, vai a Nazaré, sua cidade natal; as pessoas não acreditam nele, e diz: 'Ninguém é profeta em sua própria terra'." Esse é o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty, sacando uma frase bíblica que hoje é lugar comum, ao responder por que é tão criticada, no país, a política externa da qual foi, até outubro, um dos formuladores e operadores.

A diplomacia da era Lula se compara a Jesus Cristo? "Não, não é isso", responde, enfaticamente, com expressão preocupada. E sorri. "O que eu disse é que nem Jesus Cristo teve reconhecimento em sua própria terra; e olha que ele fazia milagres!"

Milagres parecem mesmo estar em falta em algumas áreas da política externa brasileira. Por exemplo, para fazer levantar e andar o Mercosul, abalado economicamente pelo agravamento do protecionismo, com a crise financeira internacional, e, politicamente, por divergências internas e regionais. Com a entrada da Venezuela no bloco, então...

Mas o ministro, acostumado à polêmica despertada por suas opiniões incisivas sobre política externa, pede que o tema não seja servido neste "À Mesa com Valor". É pedido que faz, nas entrevistas e conversas, desde que, prestes a alcançar 70 anos de idade e deixar automaticamente o quadro do Itamaraty, trocou o segundo posto na hierarquia do Ministério das Relações Exteriores pelo comando do Ministério de Assuntos Estratégicos, sucedendo a Roberto Mangabeira Unger.

O veto aos temas internacionais não tem adiantado, até porque Pinheiro Guimarães adora falar do assunto. Há alguns meses, só aceitava dar entrevista se reproduzida na íntegra, no modelo pergunta e resposta; e pedia para ler o texto antes da publicação. Como ministro, está bem mais à vontade; chega descontraído e falante ao restaurante Villa Tevere, na Asa Sul de Brasília, local habitualmente escolhido por políticos e outros frequentadores que preferem o ambiente mais discreto e o cardápio bem mais sensato que o de outros restaurantes famosos da cidade.

Nos últimos dias, foi possível ler opiniões de Pinheiro Guimarães sobre Honduras ("O Brasil agiu certo abrigando o presidente deposto, Manuel Zelaya; errado seria aceitar tratos com os golpistas"), Venezuela ("Há liberdade de imprensa na Venezuela, basta ver as bancas de jornais e livrarias"), Irã ("Outros países não pautam o Brasil na escolha dos interlocutores na esfera internacional"), globalização ("A globalização é um fato; a adesão ao credo neoliberal não, tanto que está em dificuldades quem mergulhou no neoliberalismo"). A lista de assuntos polêmicos abordados pelo diplomata é inesgotável - assim como são antigas suas convicções e a disposição para defendê-las.

Em matéria de nacionalismo e ação política, Pinheiro Guimarães comprou a primeira briga no governo aos 25 anos, na década de 1960. E antes ainda botou banca.

Diplomata em início de carreira, foi indicado por um superior para dirigir a área internacional da então poderosa Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste. Foi convidado por um ex-assessor da Organização dos Estados Americanos, João Gonçalves de Souza, nomeado para a superintendência da Sudene e cearense como o presidente da época, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco - o primeiro mandatário do que seria uma longa ditadura militar. "Eu disse: Aceito, se tiver carta branca", lembra Pinheiro Guimarães.

Com a carta que recebeu, o jovem Samuel infernizou assessores estrangeiros que queriam influir em programas do governo brasileiro. Eram os técnicos americanos, da Usaid, a agência de cooperação dos Estados Unidos.

Mas, antes, o jantar.
Pinheiro Guimarães diz que não quer vinho. "Não tenho tomado; acordo muito cedo; mas gosto de vinho argentino, Malbec", esclarece, e pede água, sem gás. O assessor do ministro, Walter Sottomayor, escolhe um modestíssimo Malbec argentino, da casa Tamari, safra 2008, a ser dividido solidariamente com o repórter, já que o fotógrafo também prefere água.

Depois de recusar o lombinho de cordeiro com crosta de ervas, sugerido pelo repórter, e cogitar um medalhão à Gianetti, ao vinho marsala e cogumelos shitake, acompanhado de risoto de açafrão com lascas de queijo tipo Grana, o embaixador, provocado por outro comentário do jornalista, escolhe o filetto della Mafia, com molho ao queijo brie, vinho tinto e bacon, acompanhado de fetucine - que ele picará sem piedade com a faca, antes de comer. Servida por engano pelo garçom, uma taça de vinho permanecerá invicta até o final da refeição, ao lado do prato.

"Para ter uma ideia do número de funcionários da Usaid, o tamanho do prédio deles era o mesmo do da Sudene", lembra o embaixador. Quando era diretor da Sudene, recusou-se a demitir pessoas de uma lista encaminhada pelo governo, e rechaçou as tentativas dos assessores americanos de participar da redação do plano de desenvolvimento do Nordeste. "Se nós tínhamos dificuldade em fazer planos para o Brasil, quanto mais pessoas que nunca moraram no país, sem experiência." Não convenceu os chefes, que o demitiram. Voltou ao Itamaraty, para cuidar de política comercial, menos de um ano depois de ter se mudado para Recife.

A carreira diplomática foi praticamente um desdobramento da atividade política, que começou na faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O nacionalismo é herança de família: também era nacionalista o pai, Samuel Pinheiro Guimarães Filho (o diplomata é Pinheiro Guimarães Neto, e o avô que lhe deu o nome surgirá logo adiante, na conversa com o Valor, entre um prato de buschettas, das quais ele come apenas metade, e a chegada do prato principal). Um tio, cunhado do pai, Aguinaldo de Freitas, era advogado e jornalista. Com coluna na "Última Hora" ("Coluna política importante, como as de hoje, como a da Dora Kramer"). Era quem o levava para assistir às sessões de comissões de inquérito, como o que resultou na encampação da Bond & Share britânica pelo governo Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul.
Pinheiro Guimarães Filho, carioca, foi despachante municipal, corretor de imóveis e dono de empresa de construção, na qual empregou o herdeiro como contínuo. Foi o primeiro emprego, aos 18 anos, do hoje ministro. Também marcante foi a influência política da avó de Samuel Pinheiro Guimarães Neto, dona Gabriela, sobrinha de um dos "pais" da República, Aristides Lobo, abolicionista e autor de famosa carta em que, ao contar a derrubada, por militares, do monarca Pedro II, descreve como o povo assistiu, "bestializado, atônito, surpreso", ao nascimento do novo regime político.

"Minha avó era uma pessoa interessante, muito politizada", recorda. A palavra "interessante" costuma ser convocada, com toda sua ambiguidade diplomática, para adjetivar a conversa de Pinheiro Guimarães Neto. Além da avó, são "interessantes" a teoria da modernização autoritária de Samuel Huntington, os amigos que conheceu na Cepal, como Maria da Conceição Tavares; a dimensão que a política externa ganhou no debate político interno; o salário que recebeu ao ser contratado como economista sênior de uma grande construtora, em uma passagem pelo setor privado; e até o filme "Eu Te Amo", de Arnaldo Jabor. Mas o cineasta e cronista, que o diplomata computa entre os amigos, entrará na conversa mais à frente, já quase na sobremesa.

O bisavô Francisco Pinheiro Guimarães foi deputado, alto oficial na Guerra do Paraguai, deputado e autor de teatro. Aristides Lobo foi tradutor de Rabelais. Não teriam os cromossomas marcado no diplomata alguma ambição literária? "Não penso em escrever ficção, exige talento", diz o autor dos livros de ensaio "Quinhentos Anos de Periferia" e "Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes" - que, em 2006, lhe valeu o prêmio Juca Pato, de Intelectual do Ano, pela União Brasileira de Escritores.

Solicitado a dizer quais os livros de sua preferência, Pinheiro Guimarães Neto sai-se com uma resposta vaga: os "clássicos". Repete "os clássicos" quando ouve a pergunta pela segunda vez, e, na terceira, cita "A Origem das Espécies", de Charles Darwin. Leu há oito anos a Bíblia, e, à parte as lições óbvias, diz que a leitura é útil até na política contemporânea. "Fundamental para entender o pensamento dos neoconservadores nos Estados Unidos", garante.

Entre os últimos livros que leu também não há romances. ("Leio menos do que gostaria, a maior parte ciências sociais, política internacional, para as aulas", diz. Ele leciona no Instituto Rio Branco, de formação de diplomatas). "O último que li, muito interessante, sobre a crise, chama-se 'One Trillion Dollar Crisis', que, na segunda edição, em poucos meses, tornou-se 'Two Trillion Dollar Crisis'".

"É de um ex-banqueiro, que conhece bem o mercado financeiro, e escreve para não especialistas." Está falando do elogiado livro "The Trillion Dollar Meltdown: Easy Money, High Rollers and the Great Credit Crash", do advogado, analista e historiador Charles R. Morris, publicado no Brasil como "O Crash de 2008 - Dinheiro Fácil, Apostas Arriscadas e o Colapso Global do Crédito". Morris, presidente de uma companhia de softwares para instituições financeiras, alertava, em 2007, quando escreveu a primeira versão do livro, para o rumo insustentável dos mercados financeiros mundiais.

Pinheiro Guimarães também leu recentemente "A Crise de 2008 e a Economia da Depressão", de Paul Krugman, e "The Rise of China and the Demise of the Capitalist World Economy", de Minqi Li, ex-preso político na China, hoje professor assistente de economia da Universidade de Utah. O livro, publicado por uma editora de esquerda americana, a Monthly Review Press, defende a tese de que, em lugar de abrir-se gradativamente à economia capitalista, a China vai levar o capitalismo ao colapso ao elevar os custos ambientais, do trabalho, do capital, na produção mundial. "É um livro interessante", resume Pinheiro Guimarães.

Foram dois livros de economia os responsáveis pela convicção desenvolvimentista do embaixador. Estava no primeiro ano da faculdade, nos anos 1960, quando ganhou de um amigo um exemplar de "Terceira Força", do escritor português Paulo de Castro, militante antifranquista, combatente contra o governo colaboracionista na França. Era um livro "extremamente interessante", que falava da Iugoslávia, da Argélia, de Israel dos kibutz e dos trabalhistas, e abriu os interesses do jovem estudante para o chamado Terceiro Mundo.

Nessa época, Pinheiro Guimarães passou a frequentar o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), criado nos anos 1950 por intelectuais de esquerda, que, até ser abatido pelo golpe de 64, reuniu algumas das cabeças mais brilhantes do pensamento nacionalista e desenvolvimentista. "Conheci muitas pessoas, o Cândido Mendes, o Roland Corbusier, grande Roland Corbusier", lembra, citando o intelectual e político (do PTB) que, como outros da época, começou carreira no integralismo.

O Iseb publicou outro livro considerado fundamental pelo diplomata: "Teoria Econômica e Regiões Subdesenvolvidas", de Gunnar Myrdal, economista, intelectual e político sueco. Pinheiro Guimarães recorda e descreve outro livro famoso de Myrdall, "Dilema Americano: O Problema do Negro e a Democracia Moderna". "Em qualquer sociedade, tem situações, comunidades que se desenvolvem e outras ficam no círculo vicioso da pobreza", resenha.

"Não há serviços públicos, as pessoas se alimentam mal, ficam doentes, têm dificuldade em sair da situação de subdesenvolvimento, de onde fogem os mais dinâmicos." O interesse em estudar economia o levou a ler David Ricardo, que mencionava Adam Smith, o qual, por sua vez, citava vários pensadores antigos. "A maior parte da tradição ocidental é de pensadores refutando anteriores; Aristóteles é refutação de Platão." Decidiu, por isso, "começar do começo". E passou a estudar Platão. "A leitura dos clássicos fora de ordem não é proveitosa, o melhor é que seja sistemática."

Sistemático, decidiu estudar economia, e, a conselho de um amigo, Márcio Rego Monteiro, pleiteou matrícula no mestrado da Universidade de Boston, cidade onde foi cônsul. Somada a temporada que passou depois na representação brasileira nas Nações Unidas, em Nova York, onde morou em um subúrbio com mulher e quatro filhos, Pinheiro Guimarães morou cinco anos e meio nos Estados Unidos.

Obteve o diploma de mestrado, fez as disciplinas do doutorado, mas não elaborou tese e, por isso, só inclui no currículo o mestrado por Boston. A partir dessa experiência, desenvolveu algumas teses antropológicas e sociológicas sobre a sociedade americana. "Coisa muito interessante, o sistema americano." As pessoas terminam o secundário e vão para a universidade, longe da cidade onde moram os pais, explica. O sistema de créditos, "implantado no Brasil depois de 64, para fraturar o movimento estudantil", dificulta a formação de turmas. "Quando termina a graduação, o sujeito, que se separa da família e só vê os país no Dia de Ação de Graças, se candidata a outra faculdade, em outro Estado. Há um estranhamento, ninguém sabe direito quem é quem. Você se torna um átomo, uma unidade do fator trabalho, o que garante mobilidade e, portanto, maior produtividade, maior eficiência."

A falta de uma rede de proteção familiar e de referências estáveis facilita a alocação de fatores de produção, mas fragiliza as pessoas e estimula o consumo de drogas e álcool, teoriza o diplomata, que teve poucos postos no exterior porque queria que o Brasil fosse uma referência forte para os quatro filhos - numerosos, porque via na família a importância de muitos parentes. "Na elite do poder isso ocorre, as famílias são maiores, frequentam os mesmos clubes, vão às mesmas universidades", diz, com um acento irônico na voz.

Livros puxam livros, e Pinheiro Guimarães resolve exigir dos subordinados, quando secretário-geral de Relações Exteriores, a leitura de três deles. Nega ter havido triagem ideológica. "Um era a vida do barão do Rio Branco; outro, do Moniz Bandeira, com prefácio elogioso de Rubens Ricupero; e o terceiro, de história do pensamento econômico, do Ricardo Bielschowsky, com prefácios do Roberto Campos e do Celso Furtado elogiando a imparcialidade." Ainda assim, as reclamações levaram o ministro Celso Amorim a determinar o fim da exigência de leitura. "Não me senti atingido, não; havia uma circunstância política que levou a isso, né?"

Mais de uma hora de conversa, sempre bebericando água, Pinheiro Guimarães resolve pedir algo mais forte. "Um suco de laranja, por favor." Beberá dois, até o cafezinho, que deixa de lado.

Circunstâncias. Outra palavra apreciada por Pinheiro Guimarães, que, no entanto, não cita o filosofo espanhol Ortega y Gasset, aquele para quem "o homem é ele e suas circunstâncias". Circunstancialmente, ao voltar ao Brasil, no governo Médici, foi recomendado por um amigo, Armando, irmão do economista Antônio Barros de Castro, à construtora Serete, para fazer estudos econômicos sobre os mercados de metais e o potencial da exploração madeireira na Amazônia. Circunstancialmente economista, escreveu artigos na revista "Visão", de Said Farhat. Também uma circunstância o levou, já separado, a conhecer a terceira mulher.

Militante do PT, documentarista da TV Senado, a socióloga e antropóloga Maria Maia sentou-se ao lado de Pinheiro Guimarães, ao voltar a Brasília, onde assistiram ao Festival de Cinema. Estão juntos há 12 anos. "Sempre tive enorme interesse em cinema, no Rio." Já quando militante estudantil, tornou-se amigo de cineastas também militantes, Leon Hirzmann e Cacá Diegues, que quase passou a ele a direção de um jornal secundarista. No Instituto Rio Branco conheceu Celso Amorim, uma turma adiante, e com ele conversava sobre cinema.

Quando Amorim dirigiu a Embrafilme, o hoje ministro foi seu segundo. Frequentador de cinema duas ou três vezes por semana, gosta de Fellini, anda apaixonado pelos cineastas argentinos e adorou "O Banheiro do Papa", do uruguaio Enrique Fernandez. Gosta do interessante "Eu Te Amo", do amigo Arnaldo Jabor.

Amigo? O Jabor desanca a política externa em suas colunas na imprensa e no rádio, lembra o repórter. "Encontrei-o recentemente, foi muito gentil." Ultimamente, Jabor "anda zangado", admite. Mas pode ser fita, puro personagem, concede.

Pinheiro Guimarães diz que não polemiza, que as críticas são bem-vindas, porque podem dar lugar a mudanças. Provocado, reluta em comentar recente nota de Élio Gaspari, que, escandalizado, reproduziu trecho de uma palestra na qual o ministro citou Alemanha e Japão como exemplos do alto preço pago por contestar a "hegemonia anglo-saxã".

"O nazismo não tem paralelo, um regime com perversão de valores, agressividade, absolutamente condenável", comenta, lembrando artigo de 2002, para a revista "Estudos Avançados", da USP, em que fala de nacionalismos, e cita a Alemanha de Hitler como exemplo negativo. "Porém, uma coisa é clara: a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas foi decidida antes de se descobrirem as atrocidades dos campos de extermínio, o horror das experiências com humanos. A guerra não foi montada em torno dessa questão, mas de uma disputa de poder."

Depois de esquivar-se de algumas perguntas sobre política externa, Pinheiro Guimarães acaba fazendo defesa enfática da importância de um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas ("Eles têm o monopólio da força, e têm expandido a competência para vários temas, e, se estamos ali, podemos defender melhor nossos interesses, que têm se diversificado"). Fica animado quando, finalmente, o repórter lhe pergunta sobre o ministério.

Está empenhado na tarefa de elaborar um plano para 2022, requisitado pelo presidente Lula. Conversou com quase todos os ministros. Não com Dilma Rousseff, da Casa Civil, que estava em viagem. "Falei com a Erenice Guerra." Será um plano com metas previstas, e "para cada meta vão se estabelecer instrumentos quantificáveis".

Que tema o apaixona mais? "Um país se desenvolve quando aumenta o número e a variedade dos bens que produz, como nos Estados Unidos", responde. São necessários conhecimento tecnológico, e muitos recursos, inclusive humanos, complementa. "Daí a necessidade muito importante de formar quadros, engenheiros das mais diversas áreas." Para formar engenheiros, são necessários bons cursos, e, para isso, bons professores de matemática. "Os chineses fazem isso, temos de começar agora", diz ele, que ainda ficará, por alguns minutos, à porta do restaurante, sem pressa de ir embora, lembrando histórias de sua formação política. Telefonará, depois, ao repórter, para aclarar dúvidas e contar os nomes dos filhos e enteados. Perdão, embaixador, o espaço acabou.

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Transcrito no blog Diplomatizzando com este título: 

1614) O profeta Samuel (nao fui eu quem disse...) 

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Ascensão e queda da hegemonia dos EUA - Martin Wolf (Financial Times-Valor Econômico)

Ascensão e queda da hegemonia dos EUA

Nas vésperas de seu 250º aniversário, os EUA e a ordem mundial que criou estão em crise.

Por Martin Wolf

FT-Valor, 25/06/2026


Os Estados Unidos foram os vitoriosos do século XX. Com o fim da União Soviética em 1991, o país não apenas possuía um poder econômico e político sem igual, mas também incorporava valores admirados, da liberdade e do governo constitucional. Isso não durou.

Para compreender por que os EUA triunfaram e como fracassaram, é preciso voltar ao menos até o século XIX. Em meados daquele século, as potências europeias - em especial, o Reino Unido, dono de um vasto império e do poder do vapor - dominavam o planeta. Depois, nos anos que antecederam 1914, houve uma “segunda revolução industrial”, encabeçada pelos EUA. Os avanços incluíram novos produtos químicos e farmacêuticos, a eletricidade, a telefonia, o motor de combustão interna, os voos motorizados e o rádio. Ocorreram grandes transformações, inclusive uma era de globalização.

Também houve mudanças no equilíbrio de poder. Dentro da Europa, o evento mais importante foi a ascensão da Alemanha imperial. Outro foi a ascensão do Japão. No entanto, a maior mudança de todas foi a ascensão dos EUA. Em 1914, o país já havia se tornado de longe a maior economia do mundo. A luta pela supremacia na Europa entre a potência ascendente da Alemanha e as potências dominantes do Reino Unido, da França e da Rússia imperial não era a questão central como elas imaginavam. Em vez disso, a verdadeira questão era quando os EUA se tornariam a potência dominante.

Ao fim da Primeira Guerra Mundial, os EUA eram os senhores da Europa. Infelizmente, apoiaram uma paz que, após a subsequente saída de cena do país, se tornou impossível de colocar em prática. A abdicação americana, somada às convulsões políticas internas, às inflações da década de 1920 e ao desemprego em massa da Grande Depressão, levou à Segunda Guerra Mundial.

Nessa ocasião, contudo, foi diferente. Os EUA continuaram em cena, estimulados em parte pela competição contra o comunismo soviético (ele próprio fruto do fermento ideológico do século XIX e da destruição do sistema imperial russo). Assim, começou a Guerra Fria. Nesse conflito, a Europa foi dividida, a parte ocidental tornou-se dependente dos EUA, os impérios europeus deixaram de existir e emergiu um consenso social-democrata. O laissez-faire havia desaparecido. O capitalismo administrado tornou-se a nova ordem. Apesar da revolução “neoliberal” da década de 1980, essa ordem continuou a predominar. A forma como era administrada apenas sofreu pequenos ajustes.

Entre 1989 e 1991, a União Soviética e o seu império ruíram. Os EUA chamaram o seu triunfo sobre as ideologias totalitárias do fascismo e do comunismo e sobre os seus rivais geopolíticos - Alemanha, Japão, o império britânico e a União Soviética - de o “momento unipolar”. A história deu risadas. Em menos de 35 anos após o seu triunfo, o papel dos EUA como poder hegemônico estabilizador desapareceu, assim como o do Reino Unido havia desaparecido por volta de 1900. Mais uma vez, as mudanças que vêm transformando a ordem em desordem e a vitória em derrota são simultaneamente econômicas, tecnológicas e políticas.

As mais importantes foram a ascensão da China, a revolução digital e o triunfo do populismo de direita.

A China foi sendo afastada aos poucos de sua aliança com a Rússia nos anos 1970. Pouco depois, Deng Xiaoping optou pela “reforma e abertura”. Outra superpotência emergiu. Pela primeira vez em mais de um século, os EUA tinham um concorrente à altura. Assim como no século XIX e início do século XX, uma era liberal, desta vez liderada pelos EUA, promoveu uma segunda globalização, turbinada pelas tecnologias da informação e da comunicação e pelas rupturas que estas provocaram.

    Donald Trump vem minando o poder dos EUA oriundo do Estado de direito, da liderança mundial em ciência, das alianças confiáveis e da estabilidade econômica e política. Para piorar, um governo baseado em leis vem sendo substituído por um baseado em caprichos

Entre outras convulsões, também houve crises financeiras e ondas de migração em massa. Assim como antes da Primeira Guerra Mundial, houve grandes transformações sociais e políticas, que em parte foram desencadeadas por (e que também desencadearam) lutas políticas. No fim do século XIX, essas lutas giravam em torno às demandas entre classes e entre países. Desta vez, essas demandas têm consistido mais em questões de gênero, de raça e de identidade. Em ambas as ocasiões, surgiram contrarrevoluções conservadoras (e nacionalistas).

Hoje, às vésperas de seu 250º aniversário, os EUA e a ordem mundial criada pelo país estão em crise. Nos EUA, o governo é corrupto, incompetente e, o mais relevante, hostil às normas e valores que moveram seus pais fundadores. A Declaração de Independência proclamou libertar-se dos tiranos. Donald Trump almeja ser um. Ainda pior, ele vem cortando as raízes do poder dos EUA - o Estado de direito, a liderança mundial em ciência, as alianças confiáveis e a confiança em sua estabilidade econômica e política. Um governo baseado em leis vem sendo substituído por um baseado em caprichos. No mundo, a democracia vem retrocedendo há 20 anos: de acordo com o V-Dem, apenas 7% da população mundial vive hoje em democracias liberais. Xi Jinping já pode abrir um sorriso.

Este mundo faz lembrar ao dos anos anteriores a 1914. Então, onde tudo isso poderia acabar?

A boa notícia é que as armas nucleares reduzem imensamente o risco de guerra entre as grandes potências. Além disso, nenhuma grande potência hoje sofre do militarismo do início do século XX e do militarismo ainda mais insano dos anos 1930 e 1940. Outra boa notícia é que se espera dos governos atuais, em sua maioria, que garantam a prosperidade de suas populações. O crescimento econômico sem paralelos da era pós-Segunda Guerra Mundial fomentou uma demanda por mais prosperidade, basicamente em todos os lugares.

A má notícia é que enfrentamos uma série de desafios que só podem ser superados em conjunto. O meio ambiente do planeta é um deles. Outro é administrar as implicações de novas tecnologias revolucionárias, em particular a inteligência artificial. Não menos importante, há a questão de saber se o despotismo arbitrário se tornará a norma mundial ou se a liberdade e a democracia ainda continuarão a prosperar.

O mundo que muitos de nós esperávamos há cerca de 35 anos, após o desmoronamento do despotismo soviético, o mundo criado em grande parte pelos EUA, está desaparecendo. O mesmo está ocorrendo com aquela versão dos EUA. Nós, aprendemos, sim, com a história. Mas, depois, esquecemos. 

(Tradução de Sabino Ahumada)

Martin Wolf é o principal comentarista econômico do Financial Times.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Brasil precisa repensar indústria de defesa, afirmam especialistas - Rafael Rosas, Francisco Góes (Valor Econômico)

 "Brasil já vai à guerra?", cantava Juca Chaves nos tempos do JK, música censurada depois. Mas o fato é que gastamos muito com as FFAA, mas grande parte para pessoal (e muito pessoal!). Talvez o Congresso devesse determinar que recursos para defesa deveriam ser NO MÁXIMO 35% com pessoal, o resto sendo equipamente e P&D. PRA


Comentário inicial de Mauricio David:
R$ 140,4 bilhões (para Defesa (????) Mon Dieu !!! E para gastos de pessoal : R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. My God ! E não podemos nem prender os narcotraficantes nas fronteiras... (MD)

Matéria:
..."Informações do governo mostram que, em 2025, foram empenhados R$ 132 bilhões para o Ministério da Defesa, dos quais R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Os investimentos receberam R$ 10,032
bilhões. Para este ano, a previsão orçamentária é de R$ 140,4 bilhões, dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. Ainda em termos de fontes de recursos, o BNDES destinou R$ 44,089 bilhões entre 2016 e 2025 para projetos de tecnologias de defesa e soberania."...

Brasil precisa repensar indústria de defesa, afirmam especialistas
Setor representa 4,3% do PIB, mas carece de ação mais articulada entre Forças Armadas, universidades e empresas privadas
Rafael Rosas e Francisco Góes
Valor Econômico, 6/04.2026

As mudanças na ordem global impulsionadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocam o Brasil diante do desafio de repensar o papel da indústria nacional de defesa, dizem especialistas ouvidos pelo Valor. O setor passou por altos e baixos nos últimos 50 anos e responde por 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB), mas carece de maior articulação entre as Forças Armadas, universidades, centros de pesquisa e empresas privadas. Essa é uma realidade apesar de as Forças disporem de um maior orçamento mesmo em um contexto de crise fiscal, o que limita gastos, afirmam os especialistas.
A indústria de defesa ganha relevância nos dias atuais, uma vez que deixou de ser vista apenas como a capacidade de produzir equipamentos bélicos - blindados, armas de fogo, mísseis, aviões, navios e submarinos - para considerar também o desenvolvimento de tecnologias estratégicas, caso da robótica, cibernética, da automação e de sistemas eletrônicos, diz Darc Costa, ex-vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES) no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003.
A questão que me parece mais relevante pra gente se preocupar é a nossa base industrial de defesa, que inexiste, disse Costa. Ele lança, no dia 16, no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, uma obra em dois volumes intitulada :Fundamentos para o estudo da guerra - a ética e a máquina no campo de batalha no século XXI (ver ao lado).
Embora o Brasil tenha tradição de ser um país pacífico - o último conflito no qual se envolveu foi a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, além do envio de tropas para a II Guerra Mundial, na década de 1940 -, ter uma base industrial de defesa é importante, dizem os especialistas, uma vez que funciona como estratégia de dissuasão e ajuda a reduzir a dependência de tecnologias e equipamentos estrangeiros em um momento em que a ordem global passa por transformações com a agenda imposta por Donald Trump.
Desde que assumiu, em 2025, Trump aumentou de forma unilateral tarifas de importação sobre outros países, privilegiou acordos comerciais bilaterais, atacou regras internacionais válidas desde a II Guerra Mundial e, em fevereiro, lançou os EUA, ao lado de Israel, em uma guerra contra o Irã, cujo desfecho é difícil de prever.
Costa, ex-coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra (ESG), disse que o Brasil precisa fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID). A sigla define um conjunto de instituições, públicas e privadas, indústrias e centros de pesquisa responsáveis pelo desenvolvimento e produção de tecnologias e equipamentos militares: A sua existência é essencial para garantir autonomia tecnológica, desenvolvimento econômico e capacidade de dissuasão de um país, disse Costa.
O principal documento orientador da Política de Defesa Brasileira é a Estratégia Nacional de Defesa (END), instituída em 2008 e revisada em 2012, 2016, 2020 e 2024. A END estabelece diretrizes para modernizar as Forças Armadas, fortalecer setores e integrar defesa e desenvolvimento nacional. O Ministério da Defesa diz que um dos pontos centrais da END é o fortalecimento da BID.
Um especialista do governo em defesa disse que o Brasil sempre teve produção de equipamentos militares, mas de forma assimétrica. Significa que nem todos os setores se desenvolveram igualmente. Algumas empresas cresceram e se tornaram exportadoras, caso de Embraer, Taurus, IDV (Iveco) e Helibrás. Mas a rede da BID é maior e deve incluir não só grandes, mas toda a cadeia de fornecedores. Há um trilema para implementar a BID e ele é formado por capacidade operacional, fabricação local e preço. Se os dois primeiros elementos [aspecto operacional e fabricação local] forem viáveis, mas o preço for muito alto ou muito baixo, a BID não vinga, disse o técnico do governo.
Outra questão é que são as compras governamentais e tecnologias (P&D) que viabilizam a BID. Nenhuma indústria de defesa se desenvolve em um país para atender mercado local e exportar se, primeiro, as próprias Forças Armadas não comprarem. Um exemplo está no cargueiro KC-390, fabricado pela Embraer, mas que é um projeto pertencente ao Comando da Aeronáutica do Brasil. Tanto é assim que a Aeronáutica recebe royalties sobre as vendas da aeronave.
A dificuldade, na visão desse técnico, é que para viabilizar a BID o orçamento das Forças Armadas deveria ser determinativo (gastar o previsto) e não autorizativo, dependendo de contingenciamentos de recursos.
O Ministério da Defesa disse que a construção da BID envolve desafios típicos de setores intensivos em P&D e a articulação entre governo, indústria e academia. Entre os principais desafios estão a falta de financiamento contínuo e previsível, essencial para um setor caracterizado por ciclos longos de desenvolvimento tecnológico, que compromete o planejamento de longo prazo, e gera a dependência tecnológica externa, que limita a autonomia nacional em áreas críticas, afirma o ministério.
O economista Rafael Barros Barbosa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), entende que o país não tem espaço fiscal para gastos de defesa se o objetivo for controlar o crescimento da dívida pública. Em 2025, o presidente Lula sancionou projeto aprovado pelo Congresso que autoriza o governo a gastar R$ 5 bilhões por ano pelos próximos seis anos por fora das regras do arcabouço fiscal. As exceções ao arcabouço têm sido diversas e somente por isso o governo conseguiu cumprir a meta fiscal do ano passado.
Esse tipo de compra tem ciclo longo e o negócio demora para ser fechado. Então o governo não quis comprometer o arcabouço. No entanto, para a dívida pública isso pouco importa. Gastos em defesa às vezes precisam ser realizados por caráter emergencial e, se este é o caso, talvez o governo deva fazer. Mas é preciso equilibrar as contas em outras áreas para manter o equilíbrio fiscal, afirmou.
Informações do governo mostram que, em 2025, foram empenhados R$ 132 bilhões para o Ministério da Defesa, dos quais R$ 119,2 bilhões destinados ao pagamento de pessoal, encargos sociais e outras despesas correntes, o equivalente a mais de 90% do total. Os investimentos receberam R$ 10,032 bilhões. Para este ano, a previsão orçamentária é de R$ 140,4 bilhões, dos quais R$ 8,675 bilhões serão destinados aos investimentos. Ainda em termos de fontes de recursos, o BNDES destinou R$ 44,089 bilhões entre 2016 e 2025 para projetos de tecnologias de defesa e soberania.
O setor de Defesa no país representa 4,29% do PIB, nas contas de Vinicius Mariano de Carvalho, professor do departamento de Estudos de Guerra do Kings College London. O Ministério da Defesa registra 327 empresas credenciadas e 2.345 produtos classificados como de defesa. Países emergentes como o Brasil devem buscar uma autonomia relativa em termos de produtos de defesa, precisamente para ganhar poder relativo e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros", afirmou Carvalho. Para o acadêmico, essa autonomia deve ser sobre o que é essencial: produção local de munição e armas leves, desenvolvimento de softwares militares nacionais, capacidade interna de manutenção e atualização de sistemas e domínio sobre ciclos críticos de operação, incluindo a integração de sistemas de comunicação e armamentos.
O país deve ter capacidade de produzir meios básicos essenciais que garantam certa autonomia em suprimentos no caso do emprego real das Forças Armadas. O Brasil pode ainda, via alianças estratégicas, tornar-se fornecedor de produtos de alta demanda na área de defesa, e desenvolver projetos de maior envergadura, afirmou.
Quando se fala em indústria de defesa, pensa-se imediatamente em grandes produtos, hardwares, como blindados, navios e submarinos, aviões de combate e mísseis. No entanto, a base industrial de defesa é muito mais do que isso. Sistemas e softwares que equipam quase todos os meios bélicos hoje são também parte deste ecossistema econômico, disse.
Carvalho entende que os investimentos na BID não podem viver de espasmos orçamentários: É irrealista pensar que se possa conduzir um programa como o do submarino convencional de propulsão nuclear sem uma regularidade orçamentária em investimentos. Esses programas industriais de defesa requerem regularidade e constância. Caso contrário, acabam saindo mais caros do que se previa e nunca conseguem entregar seus produtos em tempo.
O submarino nuclear, por exemplo, se tornou prioridade da Marinha pois é um instrumento para defesa da chamada Amazônia Azul, incluindo reservas de petróleo, disse o técnico do governo. No caso da Força Aérea, o caça Gripen, comprado da sueca Saab e construído nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto (SP), pode ser relevante para o país participar das Forças de Paz das Nações Unidas, o que reforça, por sua vez, a ambição brasileira de um dia ocupar assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Darc Costa entende que um dos principais pontos do fortalecimento da BID é a nacionalização de equipamentos de ponta, de forma a evitar transtornos como aqueles vistos na pandemia. Na ocasião, houve interrupção das cadeias logísticas de suprimento e muitos países ficaram sem a vacina contra a covid-19 e respiradores.
Na defesa, Costa cita o caso da guerra da Argentina contra a Inglaterra nas Malvinas, que este mês completou 44 anos. O arsenal da Argentina tinha como base equipamentos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), do qual o Reino Unido faz parte. Em defesa, fábrica de equipamentos é o relevante. Quando trata de gastos de defesa, precisa de uma tríade: 30% para pesquisa, 35% para compra de equipamentos e 35% de custeio. O Brasil hoje tem 85% de custeio. Os outros 15% servem para comprar equipamentos, afirmou.


sexta-feira, 6 de março de 2026

José Márcio Camargo: "Tática de terra arrasada do Irã ameaça juro e inflação" - Anaïs Fernandes (Valor Econômico)

 Tática de terra arrasada do Irã ameaça juro e inflação

Efeitos da guerra chegariam ao Brasil já afetado por problemas fiscais, afirma economista
Anaïs Fernandes
Valor Econômico, 6/03/2026

O maior risco para uma disparada no preço internacional do petróleo, o que pode gerar pressão inflacionária no Brasil e no mundo e levar bancos centrais aqui e lá fora a reverem políticas de afrouxamento monetário, é se o Irã decidir adotar tática de terra arrasada, destruindo a sua infraestrutura de petróleo e a do Oriente Médio de forma mais ampla e paralisando o estreito de Ormuz. Essa é a avaliação de José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos e professor da PUC-Rio.
Pelo estreito de Ormuz passa não só volume expressivo do petróleo mundial, mas também fertilizantes, dos quais o Brasil, enquanto potência agrícola, é bastante dependente, observa Camargo. Assim, além dos potenciais efeitos inflacionários com o choque no petróleo e a desvalorização cambial entre países emergentes, por causa da aversão global a risco, o Brasil pode sentir também alta nos preços dos alimentos. Antes dos conflitos no Irã e seu entorno, a Genial esperava que o Banco Central do Brasil iniciasse o ciclo de cortes da Selic com redução de 0,5 ponto percentual (p.p.) na reunião deste mês. Agora, diz Camargo, é possível que o BC comece mais devagar, com 0,25 p.p. Se a guerra continuar e tiver efeitos efetivos no mercado internacional, muito provavelmente o BC vai ter de manter o contracionismo um pouco, afirma. Outro problema é que a guerra chega em um ambiente em que o mundo tem sido mais leniente com desajustes fiscais como o observado no Brasil. Mas, nessa trajetória, em algum momento, dependendo da situação da economia mundial, pode ter uma instabilidade que gere um problema como aconteceu no fim de 2024, alerta Camargo. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Como economista, o sr. já viu diversas guerras, inclusive outras no Oriente Médio. Como tem acompanhado o atual?
José Márcio Camargo: Não é uma surpresa, existia uma série de indicações de que poderíamos estar chegando muito perto de uma guerra. Os Estados Unidos deslocaram para o Oriente Médio três navios grandes e quantidade enorme de aviões. Outra coisa importante é o fato de que, efetivamente, existia um risco de o Irã conseguir produzir bomba atômica. Existia uma preocupação também de que o Irã poderia construir mísseis balísticos que pudessem, inclusive, atingir os EUA. Aparentemente, teve um período de negociações que não funcionou, e parece que o presidente [americano Donald] Trump tinha a sensação de que, se ele não atacasse, o Irã, em algum momento, poderia começar a atacar. Os ataques de sábado e domingo passados foram muito fortes, mataram o líder supremo Ali Khamenei, destruíram parte significativa do aparato militar do Irã. Nesse momento, o Irã está no processo de escolha de um novo líder. No domingo, o substituto disse que demoraria um ou dois dias, mas, obviamente, não está acontecendo. Tem quase uma semana e eles não conseguiram escolher, o que é sinal de que eles estão, de alguma forma, negociando e existe algum tipo de problema no processo.

Valor: Quais as consequências?
Camargo: Aumenta o perigo de ter um Exército totalmente acéfalo e que pode começar a tomar decisões como destruir a infraestrutura de petróleo no Oriente Médio e atacar países vizinhos - como já começou a fazer, na verdade. Na minha avaliação, o maior risco é esse, de o Irã adotar um tipo de estratégia de terra arrasada, como a Rússia fez nas invasões napoleônicas e na Segunda Guerra Mundial.

Valor: E os riscos econômicos?
Camargo: É se a guerra continuar por longo período. O que é um problema, porque ninguém sabe o que significa longo período de tempo.

Valor: No caso recente da Venezuela, os EUA fizeram uma ação cirúrgica e pontual.
Camargo: Foi completamente diferente, porque tiraram o [Nicolás] Maduro, mas mantiveram o regime. Os EUA controlam a Venezuela de longe, porque eles estão dispostos a aceitar o fato de que Trump vai controlar o funcionamento da Venezuela. No Irã, não é assim. O Irã tem um regime teocrático antigo, no poder desde 1979. Tem institucionalidade já construída, você não consegue controlar isso a distância. Vai ter de, de alguma forma, entrar no país para redefinir as instituições. Isso é um problema. Trump, pelo que parece, está tentando destruir o máximo que pode, de tal forma que, mesmo que as instituições estejam lá, elas não tenham armas para lutar.

Valor: O que significa economicamente a persistência do conflito?
Camargo: Significa, por exemplo, parar o estreito de Ormuz, por onde passa entre 25% e 30% do petróleo mundial. E não só petróleo, também fertilizantes. É uma rota superimportante para o mundo. Se o estreito ficar fechado por três, quatro meses, provavelmente, o preço do petróleo vai ultrapassar US$ 100 o barril, o que vai gerar efeito inflacionário importante.

Valor: Como os bancos centrais podem reagir a isso?
Camargo: Estamos em um período em que os bancos centrais estão com política de afrouxamento monetário. Ainda que, no primeiro momento, nenhum banco central reverta a sua política, se realmente tiver uma tendência a aumento da inflação devido ao preço do petróleo, os bancos centrais, eventualmente, vão ter de voltar a aumentar juros. Tem o choque inicial do petróleo e eles não vão aumentar juros por causa disso. Mas há as consequências do choque para a economia. À medida que a inflação começa a extrapolar para outros setores - as condições secundárias nesse processo -, os bancos centrais vão ter de voltar a ter uma política monetária mais contracionista. Isso vai depender muito de quanto tempo vai durar essa guerra.

Valor: E quanto ela pode durar?
Camargo: É difícil avaliar o que significa quanto tempo. Três meses é muito? Quatro meses é muito? Dois meses é muito? Na verdade, ninguém sabe. É muito quando começar a afetar a oferta de petróleo efetivamente no mundo. Pode demorar quatro meses, pode demorar um ano, pode demorar só um, dois meses e passar rápido. Depende da capacidade do Exército iraniano de destruir a infraestrutura de petróleo do Oriente Médio. Se fizerem isso como estratégia, vai ser bastante complicado.

Valor: Especificamente para o Brasil, como esses eventos chegam ao nosso BC?
Camargo: O Banco Central brasileiro tem sido bastante contracionista. A taxa de juros chegou a 15% no momento em que a inflação estava próxima de 10%; nós já estamos com inflação de 4%, e a taxa de juros continua em 15%. Ou seja, tem algum espaço para reduzir a Selic. Antes da guerra, nosso cenário era o BC iniciar o processo com uma queda de 0,5 p.p. e continuar. A ideia era que o processo seria acelerando para 0,75 p.p., depois voltaria para 0,5 p.p. e para 0,25 p.p., fechando o ano com 12% de taxa de juros. Se a guerra continuar e tiver efeitos efetivos no mercado internacional, muito provavelmente o BC vai ter de manter o contracionismo um pouco. Ainda assim, acho que o BC vai ter espaço para iniciar o processo de queda. Muito provavelmente - se eu estivesse lá, pelo menos, eu faria - com mais cautela. Vale mais a pena começar com 0,25 p.p. e continuar caso a guerra acabe ou não esteja gerando tantos problemas no mercado internacional. Aí, aumentar [o corte] para 0,5 p.p. é possível. A reação inicial dos mercados [à guerra] foi muito negativa. Tem uma mudança de fluxo em direção aos EUA, em busca de segurança, saindo dos países emergentes, e isso gerou desvalorização cambial importante nas economias emergentes, derrubou ações. Depois, foi um pouquinho melhor. Grande parte do que está acontecendo é volatilidade. Se acalmar ao longo do tempo, pode seguir reduzindo a Selic. Se começar a ficar claro que a Guarda
Revolucionária Islâmica está destruindo a infraestrutura de produção e transporte de petróleo, muito provavelmente, o preço do petróleo vai disparar e gerar uma pressão inflacionária complicada que vai forçar o BC a ser mais cauteloso.

Valor: Outro ator importante para o Brasil nessa história é a Petrobras. Como acha que ela vai reagir?
Camargo: Tem um lado positivo para a empresa, que é o preço do produto da Petrobras aumentando fortemente sem que tenha aumento de custo. Mas, à medida que o preço do petróleo sobe e a Petrobras não aumenta o preço da gasolina, do diesel etc. aqui dentro, começa a trazer problema. Porque o preço do petróleo é mais elevado, mas o preço de venda está parado. Já tem defasagem do diesel ao redor de 16%, e da gasolina, de 14%. Além disso, tem problema complicado com fertilizantes.

Valor: Por quê?
Camargo: Aquela região do Oriente Médio é grande produtora de fertilizantes. E o Brasil é um grande consumidor de fertilizantes. Se esse processo demorar, o Brasil vai começar a ter problemas com fertilizantes e isso vai afetar a produtividade da agricultura.

Valor: Isso pode gerar aumento de preços dos alimentos?
Camargo: Pode ser repassado. Não agora, mas se ficar claro que esse processo vai durar dois, três, quatro meses. Isso aconteceu no início da guerra Rússia-Ucrânia, porque a Rússia também é grande exportador de fertilizantes. Esse é um ponto muito importante.

Valor: O alívio nos preços dos alimentos ajudou muito a desaceleração da inflação no ano passado, né?

Camargo: A inflação do ano passado dependeu basicamente de três coisas: valorização cambial.

Valor: Que estamos perdendo com a guerra.
Camargo: Sim, por enquanto, estamos perdendo. Segundo, safra muito forte, que não vai ser tão boa esse ano; e terceiro, deflação na China, que faz com que a gente importe deflação. Tem um quarto fator menos importante, mas também importante, que é a política monetária extremamente contracionista. Essa combinação foi muito positiva para a economia brasileira. Aliás, todos os países emergentes tiveram valorização cambial e redução das expectativas de inflação ao longo de 2025. O Brasil, na verdade, foi o que menos se apropriou dessa melhora. Teve desinflação, mas não foi tanto quanto poderia ter sido se a política fiscal não fosse tão expansionista.

Valor: Se a alta no preço do petróleo atrapalha a inflação no Brasil, fala-se, por outro lado, que ela pode ajudar no fiscal. No fim, qual é o resultado líquido?
Camargo: Eu acho que mais atrapalha. O aumento do preço do petróleo é bom, por exemplo, para a balança comercial, mas isso é uma coisa importante quando o país está com problema de demanda por dólares. Não é o caso do Brasil, pelo contrário. O Brasil tem superávit importante na balança. Não vai ter uma crise cambial por causa disso. Ficamos muito próximos de uma no fim de 2024 por causa do fiscal. Só não chegamos lá porque a reação do BC foi extremamente importante: aumentou a taxa de juros, prometeu mais altas nas reuniões seguintes, ou seja, conseguiu segurar. Ainda assim, o BC vendeu US$ 30 bilhões no mercado para segurar a desvalorização cambial, quase 10% das reservas. Se continuasse naquela trajetória, teria efeito muito negativo para a economia.

Valor: Além da guerra, quais outros riscos o sr. vê para a economia brasileira neste ano?
Camargo: Estamos em ano eleitoral e isso sempre gera instabilidade. O governo tem sido expansionista do ponto de vista fiscal. Isso compensa, em parte, o contracionismo da política monetária. Existe uma avaliação comum no mercado - que não é a nossa - de que, se, ao longo de 2026, o [pré-candidato] Flávio Bolsonaro começar a mostrar que pode ganhar a eleição, a reação do PT vai ser tornar a política fiscal ainda mais expansionista. E isso poderá forçar o BC a manter a política monetária extremamente contracionista, porque pode gerar pressão inflacionária. Pode gerar também fuga de recursos e desvalorização cambial, em um momento em que tem agora a questão da guerra, que complica a situação.

Valor: Com o que a avaliação de vocês diverge da do mercado?
Camargo: Nossa avaliação é que vai ser uma eleição muito difícil para os dois lados. Não vai estar nada claro o que vai acontecer. A pergunta é como o governo vai reagir. A minha avaliação, particularmente, é que, dada a dúvida em relação a quem vai ganhar, acho que o governo vai ter um pouco mais de cuidado. Ainda que se torne um pouco mais expansionista, acho que não vai ser o suficiente para criar um problema fiscal grave.

Valor: Até porque, como no fim de 2024, o mercado reage...
Camargo: Exatamente. Mas o que temos de um pouco diferente do consenso é que muitos dizem que, mesmo o Lula ganhando, ele vai fazer ajuste fiscal. Nós achamos que não. Nossa avaliação é que, se o Lula ganhar, ele vai continuar com um governo de expansão de gastos. As pessoas [do mercado] têm medo, porque o governo está aumentando a dívida em 3 p.p. do PIB a cada ano e, se continuar nessa trajetória, vamos estar com dívida parecida com a americana daqui uns dez anos. Mas, daqui até lá, muita coisa pode acontecer. Por enquanto, existe certa leniência com a dívida de todos os países. Nessa trajetória, em algum momento, porém, dependendo da situação da economia mundial, pode ter instabilidade que gere um problema como no final de 2024.
Nós, economistas, não sabemos quando vai acontecer, mas sabemos que pode acontecer. O que tem de fazer é minimizar a probabilidade. Só que o Brasil está aumentando a chance de uma crise cambial ou de uma recessão importante devido a crise de dívida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Como o Master invadirá o ano eleitoral - Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico); comentário inicial de Paulo Roberto de Almeida

 Comentário inicial a este importante artigo de Maria Cristina Fernandes, traduzindo meu horror pessoal com a política brasileira, contaminada no mais alto grsu, e em quase todas as instituições, pelos interesses espúrios de grande parte da casta política.

Este artigo de Maria Cristina Fernandes confirma, uma vez mais, que a política brasileira é uma grande promicuidade de interesses pessoais essencialmente pecuniários prevalecendo sobre o interesse público. Dificilmente o meio político do país deixará de ser nos anos à frente essa pocilga na qual os porcos se refestelam nos despojos do Estado.  Não creio que tenha qualquer solução regeneradora a curto ou s médio prazo. Acredito mesmo que uma nova vitória da extrema-direita em outubro de 2026, será, como a vitória de 2018, a volta de todos os horrores a que já assistimos entre 2019 e 2022, inclusive na política externa, se por acaso Trump ainda estiver no poder. A degradação da política, em todas as suas vertentes, será a consagração da pocilga da qual temos ainda apenas uma dominação parcial do poder dos piores elementos da casta política que enlameia as atividades do Estado na vida da nação. Se achamos Trump um horror e uma degradação no caso da democracia americana, um trumpista na presidência do Brasil representará algo ainda pior: a promiscuidade com s submissão ao império corruptor.

Paulo Roberto de Almeida 

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Como o Master invadirá o ano eleitoral

Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico, 23/01/2026

Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula

A liquidação do Will, braço do grupo Master com clientela nas classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?

É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.

E é outra a arbitragem do rolo, se é que existe alguma. Em 2016, quem arbitrou (mal) o jogo foi o Supremo Tribunal Federal que, desta vez, para dizer o mínimo, está sem legitimidade para fazê-lo enquanto não tomar providências para afastar, para começo de conversa, o ministro Dias Toffoli do caso. Da visita do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ao ministro Flávio Dino, no Maranhão, sobrou, como única conclusão, a que a questão Toffoli é incontornável.

Nesse jogo de várzea, os investigados tratam de jogar lama uns nos outros e naqueles que os investigam. Aliados do Master na política tratam de garantir um fôlego ali outro acolá nas instituições de controle para que ninguém pense em delação. Com seu questionamento à liquidação do Master pelo Banco Central, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, cumpriu esta função, mas acabou enquadrado. Se ainda não fizeram o mesmo no STF é porque Toffoli conta com aliados dentro do próprio tribunal.

A origem da lama explica quase tudo. Aliados de Daniel Vorcaro têm se engalfinhado com aqueles de seu ex-sócio, Augusto Lima. Ambos foram presos na mesma operação. Soltos com tornozeleira eletrônica, continuam sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, mas seu ingresso no Master se deu a partir de negócio decorrente de uma privatização na Bahia pela gestão petista.

Este vínculo sempre preocupou o Planalto, mas não impediu que as operações seguissem. O sinal mais evidente desta preocupação foi a nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi o escolhido, de uma lista tríplice, para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador Jaques Wagner.

Ao fim de sua primeira reunião no Planalto, o novo ministro disse que o principal tema havia sido o Master, no que foi logo corrigido pelo ministro Sidônio Palmeira (Secom). Se é verdade que nenhum MJ controla a Polícia Federal, é razoável imaginar que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que não tem proximidade com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, cultive, pelo menos, a expectativa de ser melhor informado.

Na dita reunião, com Wellington, Sidônio, Costa, Andrei e Dario Durigan (Fazenda), Lula cobrou investigação. O presidente o faz com a mesma veemência de Dilma Rousseff no início da Lava-Jato. Como acredita que não tem nada a ver com tudo isso, manda ir pra cima, não sem antes garantir um melhor fluxo de informações.

Em 2016, os próceres do Centrão envolvidos derrubaram Dilma, subiram ao poder com Michel Temer e propiciaram a ascensão da extrema-direita bolsonarista. Entre os petistas presos, aquele que hoje governa o país é obcecado em vingar sua biografia. Se o presidente está escaldado, o Centrão sofisticou sua blindagem enredando o Legislativo e o Judiciário no crime e ampliou sua presença no Congresso tornando o Executivo mais dependente.

Basta ver como este bloco de poder foi capaz de envolver, na mesma trama, o escritório da família do ministro que enfrentou o golpismo, Alexandre de Moraes, e o filho que Bolsonaro quer colocar no Planalto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mora numa casa financiada a modestíssimos juros pelo BRB, sócio do Master.

Só será possível medir a temperatura com a qual o caso Master afetará a relação entre os Poderes neste ano eleitoral quando o Congresso voltar do recesso. Lula entregou o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a quem não apenas cabe chancelar uma eventual CPI como conduzir a aprovação do ministro Jorge Messias (AGU) para o STF. É tão incerto o desfecho de uma CPI e tão grandes as contas a pagar de suas lideranças, que o Congresso tende a se acautelar. Já a pauta governista na Casa passará por barganhas sem fim.

Lula conta com dois ativos para evitar que a imagem de seu governo seja contaminada por esta crise. Um se pauta numa política externa que administrará o bônus do acordo do Mercosul com a União Europeia ante o avanço de Donald Trump. O outro são as próprias eleições presidenciais.

Se, em 2016, a blindagem do Centrão foi alcançada pela derrubada de Dilma, desta vez, a melhor maneira de fazê-lo será pela derrota de Lula. Para convencer o eleitor de que a alternativa à sua eleição é a entrega do Estado brasileiro para o crime, Lula não terá como tergiversar na garantia de que a PF vai até o fim.


sábado, 15 de novembro de 2025

Brasil: um crescimento decepcionante em 40 anos - Silber, Luna e Zagha (Valor Econômico)

 Na edição do Jornal Valor de 24/09/2025, o artigo "Um crescimento decepcionante em 40 anos", de autoria de Luque, Silber, Luna e Zagha.

Valor Econômico, 14/11/2025


 No primeiro parágrafo:

O professor Hélio Dias, Presidente do Instituto de Valorização da Educação e Pesquisa do Estado de São Paulo, apresentou ao professor Carlos Luque, presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), um gráfico resumindo o crescimento de vários países nos últimos 40 anos, com a pergunta: o que explica a estagnação do crescimento no Brasil?

Enquanto a China, Índia, Indonésia e outros veem seu PIB per capita crescer a taxas que chegam a 4%-6% ao ano, o Brasil cresce muito lentamente, ao ponto de, como discutido em julho num artigo nesse jornal, o país estar se aproximando do grupo de países de baixa renda.

O crescimento brasileiro tem uma enorme dicotomia. Durante 80 anos, a economia brasileira teve a segunda maior taxa de crescimento do mundo. Duplicou sua renda per capita entre 1900-1940 e a quintuplicou entre 1940-80, saindo de um país pobre para um país de classe média.

Enquanto no período 1945-80, a média do crescimento do PIB per capita girou em torno de 4,5% ao ano, a partir de 1981 o crescimento da renda per capita cai para algo como 1% ao ano. Desde o começo dos anos 1980, o Brasil perdeu sua capacidade de crescimento.

Penúltimo e último parágrafos:

Partindo do princípio que o desenvolvimento é uma tarefa conjunta do setor público e privado, algumas etapas seriam importantes:

1. Recuperar o papel do planejamento econômico que foi perdido à medida que os orçamentos públicos começaram a ficar muito comprometidos;

2. Promover uma discussão mais ampla envolvendo todos os setores da sociedade, setor privado, Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, para fazer um esforço comum para superar nossas dificuldades. E tentar convencer o óbvio, de que com o crescimento econômico todos ganham;

3. Procurar reduzir a taxa de juros com o objetivo de ampliar os investimentos públicos e privados;

4. Recuperar a capacidade de crescimento da economia, que seja obtida com uma substancial melhoria da justiça social.

O ponto central da discussão é que não podemos pensar em desenvolvimento econômico pensando apenas no papel do setor público. O desenvolvimento depende tanto do setor público como do setor privado e é tarefa de todos.

Apresento abaixo uma nota para discussão interna, que fiz quando trabalhava no Inmetro, em 2020, intitulado "O Inmetro e o Índice de Ambiente de Negócio do Fórum Mundial Econômico", para as discussões que o órgão participava desde o governo Itamar Franco, que continuou no governo seguinte de Jair Bolsonaro, sobre a adesão do País à OCDE.

Muito ancorado nos pilares deste índice e de outros, como elaborado por aquela instituição, pelo Banco Mundial e pela própria OCDE. O objetivo é mostrar que os maiores gargalos que travam a economia brasileira podem ser resolvidos por uma administração pública mais técnica e menos ideológica! 

"O Inmetro e o Índice  ambiente de negócio do Fórum Mundial Econômico. 

Com a Quarta Revolução Industrial (4RI), a humanidade entrou em uma nova fase. A 4RI tornou-se uma realidade vivida por milhões de pessoas em todo o mundo e está criando novas oportunidades de negócios para governos e indivíduos.

Neste contexto, o Fórum Econômico Mundial introduziu um novo Índice de Competitividade Global (GCI 4.0), uma bússola econômica muito necessária. O índice integra aspectos bem estabelecidos com alavancas novas e emergentes que impulsionam a produtividade e o crescimento. Ele enfatiza o papel do capital humano, inovação, resiliência e agilidade, não só como impulsionadores, mas também como características definidoras de sucesso econômico no 4RI.

Apela para uma melhor utilização da tecnologia para saltar adiante, mas também adverte que isso só é possível como parte de uma abordagem holística com outros fatores de competitividade. Finalmente, ele oferece dados objetivos e análise para uma abordagem desapaixonada, orientada para o futuro e racional elaboração de políticas.

Os resultados do GCI 4.0 revelam uma conclusão sóbria de que a maioria das economias está longe da fronteira de competitividade, o ideal no agregado de todos os fatores de competitividade. De fato, a média global de pontuação de 60 sugere que muitas economias ainda precisam implementar as medidas que melhorariam seu crescimento e resiliência a longo prazo e ampliar as oportunidades para as suas populações.

Além disso, os países têm um desempenho misto nos doze pilares do índice e que o desenvolvimento de longo prazo, como instituições que funcionam bem, continuam a ser um atrito de longo prazo. No entanto, existem pontos brilhantes - sob a forma de economias que superam seus pares e apresentam casos valiosos estudos para aprender mais sobre métodos para implementar os fatores de competitividade.

A Metodologia

Com os fatores de produtividade mais importantes determinantes do crescimento e da renda a longo prazo, o novo Índice de Competitividade Global 4.0 (GCI 4.0) lança luz sobre um novo conjunto de fatores críticos para a produtividade na Quarta Revolução Industrial (4RI) e fornece uma ferramenta para avaliá-los. O GCI 4.0 renovado resume a nova ferramenta, bem como os resultados revelados para os países em si e comparativamente a nível global e regional.

Novos conceitos e novos esforços de coleta de dados, o GCI 4.0 fornece insights novos e com mais nuances sobre os fatores que irão crescer em importância com a 4RI, que reúne: capital humano, inovação, resiliência e agilidade. Estas qualidades são capturadas através de um número de novos conceitos criticamente importantes (por exemplo, cultura empreendedora, empresas que abraçam ideias disruptivas, colaboração multistakeholder, pensamento crítico, meritocracia, confiança social), complementando componentes mais tradicionais (por exemplo, C&T e infraestrutura física, estabilidade macroeconômica, direitos de propriedade, anos de escolaridade).

Novos benchmarks. O GCI 4.0 introduz uma nova pontuação de progresso variando de 0 a 100. A fronteira (100) corresponde ao máximo da meta para cada indicador e normalmente representa um objetivo de política. Cada país deve visar maximizar sua pontuação em cada indicador, e a pontuação indica seu progresso atual contra a fronteira, assim como a distância restante.

Doze pilares de competitividade. Há um total de 98 indicadores no índice, derivados de uma combinação de dados de organizações internacionais, bem como do parecer executivo do Fórum Econômico Mundial Pesquisa. Estes são organizados em 12 pilares no GCI 4.0, refletindo a extensão e complexidade dos condutores da produtividade e do ecossistema de competitividade. São eles: instituições; infraestrutura; adoção de TIC; estabilidade macroeconômica; saúde; habilidades; mercado de produtos; mercado de trabalho; sistema financeiro; tamanho do mercado; dinamismo dos negócios; e capacidade de inovação.

Dos 98 indicadores que compõem estes doze pilares e, consequentemente, o GCI 4.0, 44 são provenientes do Fórum Pesquisa de Opinião Executiva e 54 baseiam-se em estatísticas fornecidas por fontes externas confiáveis. O cálculo do GCI 4.0 é baseado em sucessivas agregações de escores normalizados de indicadores (o nível mais desagregado) até ao nível global de pontuação do GCI. As pontuações infra pilar e no GCI são expressas em uma escala de 0 a 100 e são interpretadas como "pontuações de progresso", indicando quão perto um país está do estado ideal. A pontuação geral do GCI é a média simples dos 12 pilares, então o peso implícito de cada pilar é 8,3% (1/12).

Uma igualdade de condições para o desenvolvimento para todos os países parecia relativamente clara a partir da segunda metade do século XX: as economias de baixa renda deveriam se desenvolver através da industrialização progressiva, alavancando a mão de obra pouco qualificada. No contexto da 4RI, a sequência tornou-se menos clara, particularmente com relação aos baixos custos de tecnologia e capital, como nunca ocorreram na história, mas os seus usos bem-sucedidos dependem da reunião de um número de outros fatores.

O GCI 4.0 reflete essas complexidades da priorização de políticas através da ponderação de pilares da mesma forma, de acordo com a dinâmica particular de cada país em fase de desenvolvimento. Em essência, o índice oferece a cada economia uma igualdade de condições para definir o seu caminho para o crescimento. Enquanto o sequenciamento depende da prioridade de cada economia, o índice afirma que as economias precisam ser holísticas em suas abordagens à competitividade, em vez de se concentrarem em um fator específico sozinho.

Um forte desempenho em um pilar não pode compensar um fraco desempenho em outro. Por exemplo, investir em tecnologia sem investir em habilidades digitais não produzirá ganhos de produtividade significativos e nenhuma área pode ser negligenciada.

Resumo do resultado do Índice

Dez principais economias: Os Estados Unidos são a economia mais próxima da fronteira, o estado ideal, com um índice de 85,6, a 14 pontos da fronteira de 100. A economia mais bem classificada ainda tem espaço para melhoria. Seguem Cingapura (83,5) e Alemanha (82,8). Suíça (82,6) chega em 4º lugar, seguido pelo Japão (82,5), Holanda (82,4), Hong Kong (82,3). Reino Unido (82,0), Suécia (81,7) e Dinamarca (80,6).

A pontuação mediana é de 60,0, entre os EUA (85,6, 1º) e o Chade (35,5, 140º)

Alcançar a igualdade, sustentabilidade e crescimento juntos é possível, mas precisa de visão proativa e liderança. Há a necessidade de um modelo mais holístico de progresso econômico que promova padrões de vida mais altos para todos, respeitando os limites planetários. É possível ser pró-crescimento e pró-equidade.

A relação entre desempenho no GCI 4.0 e em medidas ambientais é menos conclusiva. As economias mais competitivas e as de maiores coberturas ecológicas não são as mesmas, e as mais eficientes nessas coberturas por unidade do PIB são as mais baixas. Isto é, portanto, a incumbência dos seus líderes é estabelecer prioridades e esforços proativos para criar ciclos virtuosos entre igualdade, sustentabilidade e crescimento.

Brasil: Desempenho no GCI 4.0

- 72º lugar, perdeu 3 posições em relação a 2017

- Manteve-se em penúltimo lugar no G20, apenas acima da Argentina e em último dos BRICs

- 5 lugares abaixo da África do Sul (67°), mesmo este país tendo perdido 5 lugares

- Seu índice atingiu 59,5, portanto, 0,5 abaixo da mediana

O Azerbaijão é o país que seu índice atingiu 60 e está 3 posições acima do Brasil, 69°. Mas o objetivo do Brasil, externado na última reunião do Fórum Econômico Mundial, é de ocupar uma das 50 primeiras posições no GCI 4.0. O 50° lugar é ocupado pelo Bahrein com o índice de 63,6, portanto, para figurar entre os cinquenta melhores países neste ranque, o Brasil deve superar a marca atual do Bahrein ou adicionar mais de 4,5 em seu índice, para subir 22 posições.

O Brasil, a maior economia da América do Sul, tem sua pontuação impulsionada pelo tamanho relativamente grande do mercado (80,9, ranque 10) e desempenho no pilar Saúde (79,6, ranque 73). No pilar da capacidade de inovação, o país está classificado em 40º no geral, porém permanece abaixo do seu potencial, por causa de sua integração deficiente de suas políticas e falta de coordenação entre os setores público e privado, que estão entre os fatores institucionais que inibem seu desempenho.

Por outro lado, o Brasil ocupa o 9º lugar na América e 108º no geral no pilar de dinamismo de negócios, com uma pontuação de 52,4. Promovendo a inclusão de mais empresas no ecossistema de inovação, o Brasil poderia capitalizar ainda mais o seu potencial de inovação e estimula…

[18:57, 11/11/2025] Paulo: O Inmetro e sua influência nos Pilares, nos Indicadores e nos Ranques do Brasil

O Índice:

- Pontos e Ranque por pilar do Brasil:

    - Mediana: 60 pontos

    - 69° (Ranque/Azerbaijão): 63,6 pontos

    - 50° (Ranque/Bahrein): 63,6 pontos

    - CGI4.0: 59,5 pontos (72° lugar, Brasil)

- Pilares:

    - Institucional: 49,7 pontos (93° lugar)

    - Infraestrutura: 64,3 pontos (81° lugar)

    - C&T: 55,6 pontos (66° lugar)

    - Estabilidade Macroeconômica: 64,6 pontos (122° lugar)

    - Saúde: 79,6 pontos (73° lugar)

    - Qualificação: 56,0 pontos (94° lugar)

    - Mercado de Produto: 51,0 pontos (114° lugar)

    - Sistema Financeiro: 63,2 pontos (57° lugar)

    - Tamanho de Mercado: 80,9 pontos (10° lugar)

    - Dinamismo dos Negócios: 52,4 pontos (108° lugar)

.O Inmetro tem participação importante nestes três pilares e nos cinco indicadores. As classificações do Brasil nos ranques de 4 destes 5 indicadores são preocupantes, especialmente no indicador de Ônus da Regulação Governamental, onde o país ocupa o último lugar, e no indicador de Prevalência de Barreiras não Tarifárias, onde o país beira o último lugar.

 Fiscalizam as importações e exportações, o peso do Inmetro é significativo. A reportagem com a presidente e com o Diretor Interino da Dconf do Inmetro publicada no Valor Econômico e no Estado de São Paulo e o estudo: “Os Custos dos Órgãos Anuentes no Comércio Exterior Brasileiro”, não deixam dúvidas da importância da atuação do órgão no comércio exterior e na classificação do Brasil neste indicador.

O seguinte trecho do sumário deste estudo dá um panorama deste ônus: “Os chamados órgãos anuentes são as instituições que participam do processo de concessão das licenças necessárias para as operações de comércio exterior, exercendo controle sobre certas mercadorias a serem importadas ou exportadas. Tal denominação, portanto, abrange todos os órgãos que exercem que exercem algum tipo de controle ou fiscalização no processo de obtenção da licença de importação ou registro de exportação.

Os encargos cobrados por órgãos anuentes são vistos pelo setor privado como um dos entraves mais críticos ao comércio exterior no Brasil. Dentre os obstáculos relacionados a trâmites aduaneiros, tais encargos não superam apenas o peso dos custos de uso de infraestrutura de portos e aeroportos, conforme a pesquisa “Desafios à Competitividade das Exportações Brasileiras” realizada pela CNI, em 2016, e que motivou o desenvolvimento deste estudo”.

Obviamente que o Inmetro, também, tem muito para melhorar a classificação do Brasil no indicador Eficiência no Desembaraço de Cargas,  na questão relacionada às licenças não automáticas de importações, que por sinal, inclusive pode ser não mais exigida

Finalmente, nos dois últimos indicadores – Custo e Tempo de Iniciar um Negócio – o Inmetro teria alguma ingerência quando o negócio em questão dependesse para seu funcionamento de avaliação de conformidade e registro de seus produtos pelo Inmetro."


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Riscos de mais sanções que podem vir de Trump - Assis Moreira (Valor Econômico)

Riscos de mais sanções que podem vir de Trump

Assis Moreira (Genebra)
Valor Econômico, quinta-feira, 14 de agosto de 2025
A parte mais difícil de conversas com o governo americano parece sempre ainda estar por vir

Donald Trump já mostrou que, com ele, tudo é muito incerto e pode mudar para pior. No caso do Brasil, o tarifaço de 50% no acesso de produtos brasileiros nos EUA pode estar longe de representar o fim de sanções vindas de Washington.
Uma das ameaças em andamento é a investigação aberta pelo USTR (agência de representação comercial americana) com base na seção 301, uma arma poderosa que dá a Trump autoridade unilateral para retaliar outros países que considerar que impõem barreiras injustas contra produtos americanos.
É o tipo da investigação arbitrária em que o alvejado nada ganha e tem muito a perder. Empata, na melhor das hipóteses, evitando mais estragos. O Brasil corre riscos de mais sanção até pela amplitude da investigação, “sobre atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; aplicação de leis anticorrupção; proteção à propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal”.
Renew Kansas, uma organização que diz defender os interesses do bicombustível dos EUA, já submeteu um comentário ao USTR pedindo eliminação de tarifa no Brasil contra o etanol americano e defendendo imposição de medidas comerciais específicas contra produtos originários de áreas desmatadas no Brasil, a menos que o país reforce a fiscalização.
Alega que o Brasil tem usado “práticas de desmatamento ilegal e acordos preferenciais em detrimento de exportadores americanos de produtos agrícolas globalmente”. Como no mundo Maga (Make America Great Again) vale tudo, inclusive as contradições, Renew Kansas menciona uma nota do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) sobre um recente acordo da China justamente para comprar soja brasileira certificada.
Para o USDA, se o Brasil produzir essa variedade de soja especificamente desenhada para padrões chineses, sua fatia vai aumentar, provocando redução nas compras chinesas da soja americana e de outros produtores. Desde 2009, a fatia americana vem declinando, enquanto desde 2013 o Brasil se tornou o principal fornecedor dos chineses. Nas negociações com a China, Trump recentemente cobrou que Pequim quadruplique a importação da soja americana.
Outra ameaça sobre o Brasil envolve sanções contra países que importam certos produtos da Rússia. Trump aplicou tarifa punitiva adicional de 25% sobre a aliada Índia por causa da compra de petróleo russo. Para o Brasil, fica a espada no ar pelo momento. Cerca de 90% das importações brasileiras vindas da Rússia foram compostas por diesel e fertilizantes entre janeiro e julho deste ano. A dependência do agronegócio brasileiro é brutal: 85% do fertilizante usado no país é importado e um terço vem da Rússia. Com sanções contra a Rússia, outros compradores também correram atrás de outros fornecedores, como Marrocos e Canadá.
Portanto, além dos 50% de tarifa, essas duas enormes incertezas continuarão a contaminar o ambiente de negócios Brasil-EUA. Na investigação da seção 301, o prazo normal para sua conclusão seria de um ano. Mas estamos sob o governo Trump, e pode ser encurtada para eventuais sanções - a menos que, até lá, ocorram enfim negociações e o Brasil apresente um belo pacote de concessões aos americanos.
Trump anunciou recentemente tarifas adicionais para mais de cem países, indo de 10% a 50% (para Brasil e Índia). Mas mesmo os acordos já feitos são incertos. O chefe do USTR, Jamieson Greer, argumentou que “esta é uma situação em que estamos tentando controlar nosso déficit comercial”. Isso usando medidas por uma ordem da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional que Trump pode modificar conforme necessário, disse ele.
Nesse cenário, um frustrado primeiro-ministro do Japão, Shigueru Ishiba, disse a parlamentares que “em negociações como essas [com os EUA], implementação é bem mais difícil do que alcançar um acordo”, porque o negociado pode mudar rapidamente. E explicou, citado pelo jornal “The Washington Post”, que “a outra parte [Trump] não é uma pessoa normal”.
O novo “sistema comercial” de Trump passa por aumentar tarifas sobre produtos do parceiros e obter livre acesso para mercadorias americanas. Mas tudo continua opaco, apesar de anúncios feitos pela Casa Branca. Por exemplo, o governo Trump advertiu que os países enfrentarão tarifas ainda maiores, o dobro ou mais das taxas normais, se seus produtores tiverem muito conteúdo de “economias não de mercado” como a China. Mas até agora não publicou quanto de conteúdo chinês tornaria os produtos puníveis com alíquotas mais altas.
Outras interpretações de concessões sinalizam problemas à frente. Trump anunciou, por exemplo, que obteve dos japoneses praticamente um cheque de US$ 550 bilhões, “que é nosso dinheiro para investir como quisermos”. Já o primeiro-ministro japonês insiste que o acerto foi de oferecer o montante em empréstimos ou garantias, mas que não pode forçar empresas japonesas a investirem nos EUA.
A Suíça, que representa os interesses dos EUA em Cuba e no Irã, descobriu tarde demais que um acordo esboçado com negociadores americanos, pelo qual esperava tarifa de 10%, não valia nada. Trump elevou a taxa para 39%. Os suíços até agora tentam entender como ele chegou a essa cifra.
A parte mais difícil de conversas com a administração Trump parece sempre ainda estar por vir.

domingo, 27 de julho de 2025

Falta-nos o banho de capitalismo - José de Souza Martins (Valor Econômico)

 Falta-nos o banho de capitalismo

José de Souza Martins
Valor Econômico, sexta-feira, 11 de julho de 2025

A queixa de Mário Covas até hoje se manifesta na continuidade da escravidão em episódios tópicos e reiterados

Uma das explicações principais para o atraso político e social do Brasil não é a polarização entre esquerda e direita. A polarização explica apenas a pobreza da consciência crítica e política do povo brasileiro e a mais pobre ainda consciência da maioria dos políticos.
Mário Covas, que foi senador e governador de São Paulo, fundador do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), tinha o dom de sintetizar em frases curtas impressões densas e significativas do que é propriamente singular na realidade política brasileira.
Lembro-me de uma delas, a de que o Brasil precisa de um banho de capitalismo. Síntese perfeita do que tem caracterizado o Brasil por mais de um século, desde que o país aboliu a escravidão negra, em 13 de maio de 1888.
A abolição não viabilizou nossa transformação numa sociedade propriamente capitalista. Os escravos libertados, naquele mesmo dia, foram abandonados à própria sorte.
Quando logo de manhã, difundida pelo telégrafo, a notícia da assinatura da Lei Áurea foi chegando às estações ferroviárias do interior do país, onde as havia, e se difundindo pelas fazendas, muitos negros abandonaram o eito e as senzalas de seu cativeiro, à procura da liberdade que diziam ter-lhes chegado finalmente.
No fim da tarde, famintos, foram voltando às fazendas, como revelou Florestan Fernandes na reconstituição dos fatos, em “A integração do negro na sociedade de classes”, à procura de abrigo e comida.
Tinham sido transformados em pedintes. O ato da princesa Isabel libertara os senhores de escravos das irracionalidades e do ônus da escravidão sem de fato libertar seus cativos. Ao transformar a escravidão em coisa alguma, converteu o negro na nulidade social da anomia decorrente. O escravo não foi o sujeito de sua libertação. Foi-o o capital que carecia de urgente livramento para desempenhar suas funções capitalistas. O ex-escravo foi o descarte.
O capitalismo só seria possível por meio do trabalho livre. Baseado na igualdade jurídica entre o comprador e o vendedor da força de trabalho, supostamente assumiu a forma social de uma sociedade de pessoas juridicamente iguais, mas economicamente desiguais. Sem o que não pode existir.
Aqui, impregnado, porém, de um conjunto cada vez mais extenso de invisibilidades por meio das quais distribui indiretamente uma parte do lucro e, invisivelmente, as injustiças próprias da desigualdade social. E, ainda, as formas ocultas do lucro extraordinário, o que ultrapassa a taxa normal de lucro do capital.
O capitalismo brasileiro parece criativo do que é próprio do modelo capitalista de produção. Explora o trabalho no explicitado e no disfarçado para dele extrair uma taxa anômala de lucro. Só precariamente agrega e integra quem para ele trabalha.
A economia do capital é uma combinação contraditória de revelações e ocultações. É ele impossível sem a alienação social de quem perde e de quem ganha, de quem engana e se engana no processo de criação de riqueza.
Essas ocultações e invisibilidades, nesse quase século e meio de trabalho livre, ocultam também as grandes irracionalidades de um capitalismo imperfeito e inacabado. O capitalismo apenas nascia por aqui, e ainda éramos escravistas, quando já tornávamos anticomunistas.
Pelos dias do lançamento de “O manifesto comunista”, em 1848, de Marx, um filósofo, e Engels, um empresário industrial, ainda estávamos longe do trabalho livre e da possibilidade do socialismo. Marx sequer sabia que era marxista.
No entanto, um delegado de polícia do interior de São Paulo reprimiu um protesto de colonos suíços, católicos, da Fazenda Ibicaba, do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, acusando-os de serem comunistas.
No sertão da Bahia, em Canudos, em 1897, o poderoso Barão de Jeremoabo, senhor de terra e de gente, acusava Antônio Conselheiro e os sertanejos que, por motivos religiosos, o seguiam, de serem comunistas.
Sérgio Buarque de Holanda, na apresentação do livro do colono e professor primário Thomas Davatz, de Ibicaba, que narra os acontecimentos, observou que os fazendeiros livraram-se dos escravos, mas não se livraram da mentalidade escravista. Eram ricos, poderosos e ignorantes.
A falta do banho de capitalismo, de que se queixava Covas, até hoje se manifesta na continuidade da escravidão em episódios tópicos e reiterados. Manifesta-se, também, no rentismo anticapitalista do latifúndio que açambarca terras e territórios para compensar com a renda da terra o empreendedorismo de amadores que complementa o capital com a renda da terra. Por esses meios anômalos, e anticapitalistas, para lembrar de “Alice no outro lado do espelho”, do matemático Lewis Carroll, quanto mais caminhamos para o lá adiante, mais longe dele ficamos.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de “Sociologia do desconhecimento - Ensaios sobre a incerteza do instante” (Editora Unesp, São Paulo, 2022).

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