Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Como o Pix foi para o centro da guerra tarifária de Trump - Michael Pooler e Beatriz Langella (Financial Times)
Ameaça alfandegária por tratamento "injusto" causa tempestade em ano eleitoral
Michael Pooler e Beatriz Langella
Financial Times, 14/07/2026
No cerne da nova ameaça dos Estados Unidos de impor tarifas alfandegárias contra o Brasil há uma fonte de irritação de aparência inofensiva: um sistema de pagamentos instantâneos utilizado por milhões de pessoas todos os dias na maior economia da América Latina.
O Pix, serviço administrado pelo governo, tornou-se praticamente onipresente no território continental do país, das regiões remotas da floresta amazônica às favelas nas cidades.
Gratuita para os consumidores e de baixo custo para as empresas, a ferramenta de transferência digital de dinheiro é saudada por ter suscitado um grande impulso à inclusão financeira em uma das sociedades mais desiguais do mundo desde seu lançamento, no fim de 2020.
Integrado aos aplicativos de telefone celular dos bancos e das firmas de tecnologia de serviços financeiros, o sistema permite transferências diretas entre contas bancárias sem necessidade de cartões de crédito ou de débito. O Banco Central do Brasil informa que a ferramenta trouxe mais de 70 milhões de pessoas ao sistema financeiro.
"O Pix é ótimo porque você não precisa levar dinheiro [físico], você pode fazer tudo só com seu telefone", diz Cícero Alves, taxista de 79 anos, no Rio de Janeiro.
No entanto, apesar de ser um êxito do governo - ou talvez justamente por isso -, o Pix está entre as principais justificativas para a taxa de 25% que Washington ameaçou em junho impor sobre vários dos produtos que importa do Brasil.
Segundo apoiadores do governo de esquerda em Brasília, o motivo é que o popular instrumento de pagamento representa um desafio para as redes de cartões da Visa e da Mastercard, dos EUA, assim como para outras empresas de pagamentos e de tecnologia do país.
Uma investigação do Gabinete do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) em junho sobre as supostas práticas comerciais injustas acusou o Brasil de dar tratamento preferencial à "campeã nacional" à custa das empresas de meios de pagamento dos EUA, pois limita as tarifas cobradas para encorajar o uso do Pix, em vez dos sistemas concorrentes. Todas as instituições financeiras com mais de meio milhão de clientes são obrigadas a oferecer a ferramenta a eles.
O relatório descreveu as políticas relacionadas ao Pix como "injustas e discriminatórias". Também sustentou que há conflito de interesses pelo fato de o Banco Central (BC) atuar ao mesmo tempo como operador do sistema e seu regulador.
Embora nenhuma medida tenha sido proposta diretamente contra o Pix, as críticas a um patrimônio nacional tão apreciado desencadearam uma controvérsia política no Brasil, que deverá estar presente nas próximas eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou o principal adversário na disputa de outubro, o senador Flávio Bolsonaro - filho do ex-presidente Jair Bolsonaro,
atualmente preso -, de ter feito um convite para que houvesse interferência externa.
"Querem entregar o Pix a interesses estrangeiros. Não vão conseguir. O Pix é uma conquista do Brasil e não vamos abrir mão dele", publicou Lula nas redes sociais.
Flávio Bolsonaro, que visitou Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca poucos dias antes da divulgação do relatório do USTR, nega as acusações e pediu ao governo Trump para não impor novas tarifas antes da eleição. Ele argumenta que isso beneficiaria Lula politicamente.
Na semana passada, em Washington, Flávio defendeu o Pix. Disse que o instrumento "beneficiou diretamente empresas americanas, uma vez que o volume de transações processadas via cartões emitidos por redes dos EUA continuou a crescer".
No entanto, em um documento enviado ao USTR, ele também se dispôs a impedir que o Pix seja integrado a sistemas transfronteiriços de liquidação financeira de países não ocidentais - um aparente aceno às preocupações do governo Trump quanto a possíveis iniciativas para que o comércio internacional passe a depender menos do dólar, como defende Lula.
À medida que se aproxima o fim do prazo para o USTR tomar medidas contra o Brasil, que vai até 15 de julho, Lula vem recorrendo ao sentimento local de patriotismo para tentar repetir o impulso na popularidade que ganhou quando a investigação foi aberta pela primeira vez, há um ano. Na ocasião, ela veio acompanhada de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros - agora já revogada - que tentou sem sucesso impedir o processo contra Jair Bolsonaro, aliado de Trump, por acusações de tentativa de golpe de Estado.
Por sua vez, Flávio tenta creditar ao pai a criação do Pix. Embora o sistema tenha entrado em vigor durante o governo do pai, o projeto foi lançado por técnicos do Banco Central que haviam concebido a ideia anos antes.
"O Pix tem impacto na campanha de Lula porque é uma maneira de levantar o estandarte da soberania nacional", disse Creomar de Souza, fundador da firma de consultoria Dharma Political Risk and Strategy. "Do ponto de vista da campanha de Flávio, existe uma ameaça real de que suas ações sejam interpretadas como uma concessão aos interesses dos EUA."
O relatório do USTR traz ecos de algumas preocupações apresentadas em um documento do grupo lobista Information Technology Industry Council (ITI), que tem sede em Washington e reúne grandes empresas americanas de tecnologia e de meios de pagamento.
"É preciso ter ciência do fato de que o Pix é um substituto do [cartão de] débito. Definitivamente, é um problema para as redes de cartões no longo prazo", disse Dan Dolev, analista do setor financeiro no banco Mizuho.
A Mastercard não quis dar entrevista e a Visa não respondeu aos pedidos para se pronunciar.
Criado como alternativa às transferências entre bancos, que demoravam mais tempo e normalmente cobravam tarifas dos consumidores, o Pix tornou-se o meio de pagamento eletrônico mais utilizado no Brasil em número de operações.
No segundo semestre de 2025, representou mais da metade de todas as transações realizadas no país e pouco mais de um quarto do valor movimentado. Segundo o Banco Central, é usado por mais de 170 milhões de pessoas - cerca de 80% da população. Só em maio, o sistema processou R$ 3,48 trilhões (US$ 650 bilhões), em 7,9 bilhões de transações.
Os pagamentos via Pix são feitos na maioria das vezes pelo celular e requerem uma conexão com a internet e uma conta em banco ou instituição financeira. Para fazer uma operação, o pagador pode digitar a chave exclusiva do destinatário e o valor a transferir, ou o comerciante pode gerar um código QR para o pagamento.
Segundo um estudo de 2022 publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), a tarifa média que os bancos cobram dos comerciantes por operações via Pix é de 0,22%, em comparação aos pouco mais de 1% para cartões de débito e aos 2,2% para cartões de crédito. (No caso de microempreendedores, a tarifa é zero.) O Pix também é mais barato do que as taxas de cartões de crédito cobradas nos EUA, no Canadá e na União Europeia, constatou o estudo.
Brasília rebate as acusações do USTR e argumenta que o Pix é uma infraestrutura pública aberta e não discriminatória, criada para melhorar a eficiência dos pagamentos e reduzir os custos das transações. O governo sustenta que a ferramenta permite às empresas desenvolverem serviços com base no Pix e que empresas estrangeiras também foram beneficiadas. Além disso, acrescenta que o Google Pay é o maior iniciador de pagamentos dentro do Pix e que uma subsidiária da Visa recebeu autorização para operar o sistema.
No entanto, uma decisão anterior do Banco Central também pode ter alimentado as críticas americanas. A autoridade monetária bloqueou uma plataforma de pagamentos do WhatsApp uma semana após seu lançamento, em 2020, por preocupações com a concorrência e a privacidade de dados. Permitiu seu relançamento apenas depois da implementação do Pix.
Hoje, o Pix é o segundo maior sistema de pagamentos em tempo real do mundo em número de transações, atrás apenas da Unified Payments Interface (UPI), da Índia, segundo a ACI Worldwide.
O Banco Central já declarou em outras ocasiões ter discutido a adoção do Pix com países vizinhos. A Colômbia possui um sistema de pagamentos instantâneos inspirado no modelo brasileiro.
O Banco Central do Brasil não quis conceder entrevista, mas declarou que sua "regulamentação tem como foco a abertura e a equidade em todos os segmentos do sistema de pagamentos".
O ambulante Douglas de Souza, de 35 anos, que vendia camisas da seleção brasileira na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, antes da eliminação do Brasil da Copa do Mundo, elogia a ferramenta de pagamentos.
Apesar de ter votado em Bolsonaro em 2022, ele disse não ter uma boa impressão do filho do ex-presidente e afirma que desta vez apoiará Lula. "Você não vê o presidente Lula nem ninguém mais indo aos EUA para entregar o país ou falar mal dele para os americanos."
quinta-feira, 25 de junho de 2026
Ascensão e queda da hegemonia dos EUA - Martin Wolf (Financial Times-Valor Econômico)
Ascensão e queda da hegemonia dos EUA
Nas vésperas de seu 250º aniversário, os EUA e a ordem mundial que criou estão em crise.
Por Martin Wolf
FT-Valor, 25/06/2026
Os Estados Unidos foram os vitoriosos do século XX. Com o fim da União Soviética em 1991, o país não apenas possuía um poder econômico e político sem igual, mas também incorporava valores admirados, da liberdade e do governo constitucional. Isso não durou.
Para compreender por que os EUA triunfaram e como fracassaram, é preciso voltar ao menos até o século XIX. Em meados daquele século, as potências europeias - em especial, o Reino Unido, dono de um vasto império e do poder do vapor - dominavam o planeta. Depois, nos anos que antecederam 1914, houve uma “segunda revolução industrial”, encabeçada pelos EUA. Os avanços incluíram novos produtos químicos e farmacêuticos, a eletricidade, a telefonia, o motor de combustão interna, os voos motorizados e o rádio. Ocorreram grandes transformações, inclusive uma era de globalização.
Também houve mudanças no equilíbrio de poder. Dentro da Europa, o evento mais importante foi a ascensão da Alemanha imperial. Outro foi a ascensão do Japão. No entanto, a maior mudança de todas foi a ascensão dos EUA. Em 1914, o país já havia se tornado de longe a maior economia do mundo. A luta pela supremacia na Europa entre a potência ascendente da Alemanha e as potências dominantes do Reino Unido, da França e da Rússia imperial não era a questão central como elas imaginavam. Em vez disso, a verdadeira questão era quando os EUA se tornariam a potência dominante.
Ao fim da Primeira Guerra Mundial, os EUA eram os senhores da Europa. Infelizmente, apoiaram uma paz que, após a subsequente saída de cena do país, se tornou impossível de colocar em prática. A abdicação americana, somada às convulsões políticas internas, às inflações da década de 1920 e ao desemprego em massa da Grande Depressão, levou à Segunda Guerra Mundial.
Nessa ocasião, contudo, foi diferente. Os EUA continuaram em cena, estimulados em parte pela competição contra o comunismo soviético (ele próprio fruto do fermento ideológico do século XIX e da destruição do sistema imperial russo). Assim, começou a Guerra Fria. Nesse conflito, a Europa foi dividida, a parte ocidental tornou-se dependente dos EUA, os impérios europeus deixaram de existir e emergiu um consenso social-democrata. O laissez-faire havia desaparecido. O capitalismo administrado tornou-se a nova ordem. Apesar da revolução “neoliberal” da década de 1980, essa ordem continuou a predominar. A forma como era administrada apenas sofreu pequenos ajustes.
Entre 1989 e 1991, a União Soviética e o seu império ruíram. Os EUA chamaram o seu triunfo sobre as ideologias totalitárias do fascismo e do comunismo e sobre os seus rivais geopolíticos - Alemanha, Japão, o império britânico e a União Soviética - de o “momento unipolar”. A história deu risadas. Em menos de 35 anos após o seu triunfo, o papel dos EUA como poder hegemônico estabilizador desapareceu, assim como o do Reino Unido havia desaparecido por volta de 1900. Mais uma vez, as mudanças que vêm transformando a ordem em desordem e a vitória em derrota são simultaneamente econômicas, tecnológicas e políticas.
As mais importantes foram a ascensão da China, a revolução digital e o triunfo do populismo de direita.
A China foi sendo afastada aos poucos de sua aliança com a Rússia nos anos 1970. Pouco depois, Deng Xiaoping optou pela “reforma e abertura”. Outra superpotência emergiu. Pela primeira vez em mais de um século, os EUA tinham um concorrente à altura. Assim como no século XIX e início do século XX, uma era liberal, desta vez liderada pelos EUA, promoveu uma segunda globalização, turbinada pelas tecnologias da informação e da comunicação e pelas rupturas que estas provocaram.
Donald Trump vem minando o poder dos EUA oriundo do Estado de direito, da liderança mundial em ciência, das alianças confiáveis e da estabilidade econômica e política. Para piorar, um governo baseado em leis vem sendo substituído por um baseado em caprichos
Entre outras convulsões, também houve crises financeiras e ondas de migração em massa. Assim como antes da Primeira Guerra Mundial, houve grandes transformações sociais e políticas, que em parte foram desencadeadas por (e que também desencadearam) lutas políticas. No fim do século XIX, essas lutas giravam em torno às demandas entre classes e entre países. Desta vez, essas demandas têm consistido mais em questões de gênero, de raça e de identidade. Em ambas as ocasiões, surgiram contrarrevoluções conservadoras (e nacionalistas).
Hoje, às vésperas de seu 250º aniversário, os EUA e a ordem mundial criada pelo país estão em crise. Nos EUA, o governo é corrupto, incompetente e, o mais relevante, hostil às normas e valores que moveram seus pais fundadores. A Declaração de Independência proclamou libertar-se dos tiranos. Donald Trump almeja ser um. Ainda pior, ele vem cortando as raízes do poder dos EUA - o Estado de direito, a liderança mundial em ciência, as alianças confiáveis e a confiança em sua estabilidade econômica e política. Um governo baseado em leis vem sendo substituído por um baseado em caprichos. No mundo, a democracia vem retrocedendo há 20 anos: de acordo com o V-Dem, apenas 7% da população mundial vive hoje em democracias liberais. Xi Jinping já pode abrir um sorriso.
Este mundo faz lembrar ao dos anos anteriores a 1914. Então, onde tudo isso poderia acabar?
A boa notícia é que as armas nucleares reduzem imensamente o risco de guerra entre as grandes potências. Além disso, nenhuma grande potência hoje sofre do militarismo do início do século XX e do militarismo ainda mais insano dos anos 1930 e 1940. Outra boa notícia é que se espera dos governos atuais, em sua maioria, que garantam a prosperidade de suas populações. O crescimento econômico sem paralelos da era pós-Segunda Guerra Mundial fomentou uma demanda por mais prosperidade, basicamente em todos os lugares.
A má notícia é que enfrentamos uma série de desafios que só podem ser superados em conjunto. O meio ambiente do planeta é um deles. Outro é administrar as implicações de novas tecnologias revolucionárias, em particular a inteligência artificial. Não menos importante, há a questão de saber se o despotismo arbitrário se tornará a norma mundial ou se a liberdade e a democracia ainda continuarão a prosperar.
O mundo que muitos de nós esperávamos há cerca de 35 anos, após o desmoronamento do despotismo soviético, o mundo criado em grande parte pelos EUA, está desaparecendo. O mesmo está ocorrendo com aquela versão dos EUA. Nós, aprendemos, sim, com a história. Mas, depois, esquecemos.
(Tradução de Sabino Ahumada)
Martin Wolf é o principal comentarista econômico do Financial Times.
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Plano Trump I Love You Putin!: Capitulação completa da Ucrânia à Rússia (Financial Times)
Trump merece o Prêmio IgNobel!
E o Putin um outro, por ditar ao “negociador” do Trump as suas condições, inteiramente adotadas.
From: Financial Times, Nov. 20, 2025
1. Ukraine’s sovereignty will be confirmed.
2. A comprehensive and comprehensive [sic] non-aggression agreement will be concluded between Russia, Ukraine and Europe. All ambiguities of the last 30 years will be considered settled.
3. It is expected that Russia will not invade neighbouring countries and NATO will not expand further.
4. A dialogue will be held between Russia and NATO, mediated by the United States, to resolve all security issues and create conditions for de-escalation in order to ensure global security and increase opportunities for cooperation and future economic development.
5. Ukraine will receive reliable security guarantees.
6. The size of the Ukrainian Armed Forces will be limited to 600,000 personnel.
7. Ukraine agrees to enshrine in its constitution that it will not join NATO, and NATO agrees to include in its statutes a provision that Ukraine will not be admitted in the future.
8. NATO agrees not to station troops in Ukraine.
9. European fighter jets will be stationed in Poland.
10. US guarantee:
The US will receive compensation for the guarantee.
If Ukraine invades Russia, it will lose the guarantee.
If Russia invades Ukraine, in addition to a decisive coordinated military response, all global sanctions will be reinstated, recognition of the new territory and all other benefits of this deal will be revoked.
If Ukraine launches a missile at Moscow or St. Petersburg without cause, the security guarantee will be deemed invalid.
11. Ukraine is eligible for EU membership and will receive short-term preferential access to the European market while this issue is being considered.
12. A powerful global package of measures to rebuild Ukraine, including but not limited to:
a. The creation of a Ukraine Development Fund to invest in fast-growing industries, including technology, data centres, and artificial intelligence.
b. The United States will cooperate with Ukraine to jointly rebuild, develop, modernise, and operate Ukraine’s gas infrastructure, including pipelines and storage facilities.
c. Joint efforts to rehabilitate war-affected areas for the restoration, reconstruction and modernisation of cities and residential areas.
d. Infrastructure development.
e. Extraction of minerals and natural resources.
f. The World Bank will develop a special financing package to accelerate these efforts.
13. Russia will be reintegrated into the global economy:
a. The lifting of sanctions will be discussed and agreed upon in stages and on a case-by-case basis.
b. The United States will enter into a long-term economic cooperation agreement for mutual development in the areas of energy, natural resources, infrastructure, artificial intelligence, data centres, rare earth metal extraction projects in the Arctic, and other mutually beneficial corporate opportunities.
c. Russia will be invited to rejoin the G8.
14. Frozen funds will be used as follows: $100 billion in frozen Russian assets will be invested in US-led efforts to rebuild and invest in Ukraine. The US will receive 50% of the profits from this venture. Europe will add $100 billion to increase the amount of investment available for Ukraine’s reconstruction. The remainder of the frozen Russian funds will be invested in a separate US-Russian investment vehicle that will implement joint projects in specific areas. This fund will be aimed at strengthening relations and increasing common interests to create a strong incentive not to return to conflict.
15. A joint American-Russian working group on security issues will be established to promote and ensure compliance with all provisions of this agreement.
16. Russia will enshrine in law its policy of non-aggression towards Europe and Ukraine.
17. The United States and Russia will agree to extend the validity of treaties on the non-proliferation and control of nuclear weapons, including the START I Treaty.
18. Ukraine agrees to be a non-nuclear state in accordance with the Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons.
19. The Zaporizhzhya [sic] Nuclear Power Plant will be launched under the supervision of the IAEA, and the electricity produced will be distributed equally between Russia and Ukraine — 50:50.
20. Both countries undertake to implement educational programmes in schools and society aimed at promoting understanding and tolerance of different cultures and eliminating racism and prejudice:
a. Ukraine will adopt EU rules on religious tolerance and the protection of linguistic minorities.
b. Both countries will agree to abolish all discriminatory measures and guarantee the rights of Ukrainian and Russian media and education.
c. All Nazi ideology and activities must be rejected and prohibited.
21. Territories:
a. Crimea, Luhansk and Donetsk will be recognised as de facto Russian, including by the United States.
b. Kherson and Zaporizhzhia will be frozen along the line of contact, which will mean de facto recognition along the line of contact.
c. Russia will relinquish other agreed territories it controls outside the five regions.
d. Ukrainian forces will withdraw from the part of Donetsk Oblast that they currently control, and this withdrawal zone will be considered a neutral demilitarised buffer zone, internationally recognised as territory belonging to the Russian Federation. Russian forces will not enter this demilitarised zone.
22. After agreeing on future territorial arrangements, both the Russian Federation and Ukraine undertake not to change these arrangements by force. Any security guarantees will not apply in the event of a breach of this commitment.
23. Russia will not prevent Ukraine from using the Dnieper River for commercial activities, and agreements will be reached on the free transport of grain across the Black Sea.
24. A humanitarian committee will be established to resolve outstanding issues:
a. All remaining prisoners and bodies will be exchanged on an ‘all for all’ basis.
b. All civilian detainees and hostages will be returned, including children.
c. A family reunification programme will be implemented.
d. Measures will be taken to alleviate the suffering of the victims of the conflict.
25. Ukraine will hold elections in 100 days.
26. All parties involved in this conflict will receive full amnesty for their actions during the war and agree not to make any claims or consider any complaints in the future.
27. This agreement will be legally binding. Its implementation will be monitored and guaranteed by the Peace Council, headed by President Donald J. Trump. Sanctions will be imposed for violations.
28. Once all parties agree to this memorandum, the ceasefire will take effect immediately after both sides retreat to agreed points to begin implementation of the agreement.
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
US pushes for wider global dollar adoption - Claire Jones, Amelia Pollard, Joseph Cotterill (Financial Times)
Moedas não se tornam meios de pagamentos universais por determinação de políticos. Elas só devem essa posição à força de uma economia aberta e à existência de uma moeda estável, de aceitação voluntária pelos homens de negócios, capaz de preservar o seu valor nas turbulências da economia mundial. Elas se impõem como divisas voluntariamente, por elas mesmas, e não pbedecem a qualquer imposição política. PRA
US pushes for wider global dollar adoption
Officials in Washington explore how to encourage more countries to adopt greenback as their primary currency
Claire Jones in Washington, Amelia Pollard in New York and Joseph Cotterill in London
Financial Times, Nov 2 2025
Source: https://www.ft.com/content/fae0ec80-1d65-429b-9147-90bf911d9001
Trump administration officials are discussing ways to encourage other countries to adopt the dollar as their primary currency to counter a China-led charge to erode the greenback’s global dominance.
Staff from government departments — including the Treasury and the White House — met Steve Hanke, a professor at Johns Hopkins University and a leading expert on dollarisation, over the summer to discuss how the administration could promote the policy.
“This is a policy they are taking very seriously, but it is in progress. No final decisions have been made yet,” Hanke told the Financial Times.
Talk about dollarisation comes amid US involvement to try to calm a market crisis in Argentina. Some policymakers and economists view the Latin American economy as a prime candidate for dollarisation due to frequent losses of confidence in the peso — even though both the US and Argentina say it is not actively under consideration.
Administration officials have, however, become concerned by a push led by Beijing for emerging markets to use the dollar less in cross-border transactions. Hanke said a figure he described as a “political personality” with links to the White House outlined those concerns at a meeting in late August.
“[The political personality] made clear what was already clear to me: there was a group high up within the administration that was interested in bolstering the international role of the dollar,” Hanke said, adding that the interest in dollarisation was “in the same space” as the administration’s push for broader use of dollar-backed stablecoins. “The high and mighty had requested that all related issues be thoroughly examined, and that’s where yours truly comes in.”
A White House spokesperson confirmed officials had met Hanke, but emphasised the administration was yet to reach any official decision on whether to encourage dollarisation. “President Trump has repeatedly affirmed his commitment to maintaining the strength and power of the dollar. As it does on many other issues of national importance, the administration regularly seeks out insights from outside experts on this presidential priority,” said spokesperson Kush Desai. “These discussions and listening sessions, however, should not be seen as reflective of official policy positions or the administration’s policymaking.”
While the discussions began in August and predate the US Treasury’s extension of a $20bn financial lifeline to Argentina, Hanke told officials he believed the Latin American country would be one of the obvious candidates for the policy, along with Lebanon, Pakistan, Ghana, Turkey, Egypt, Venezuela and Zimbabwe.
Argentina maintained a “currency board” peg to the dollar from 1991 to 2002 but it collapsed after the country’s catastrophic 2001 default. Hanke’s two in-person meetings took place in mid and late August. Senior officials from the US President’s Council of Economic Advisers and National Economic Council, and the National Security Council attended both meetings.
The second also involved an official from the US Treasury and the White House political personality. Hanke, who has spent much of career advising on dollarisation, remains in regular contact with administration officials. But he says that the recent Argentine crisis has not sparked an intensification of discussions. Dollarisation has often been touted as a fix to Argentina’s repeated currency crises and was a core campaign pledge for libertarian Javier Milei before 2023’s presidential election. Argentina’s economy minister Luis Caputo earlier this month ruled out dollarisation as a short-term option, saying the country did not have the dollar reserves to make it work, but did not reject the idea outright.
Others also tout dollarisation as a potential solution for Argentina. “That’s what has to happen if you want to break the cycle,” said Jay Newman, a key figure in hedge fund Elliott Management’s long battle with Argentina for a payout on its defaulted debt. “Otherwise every time you put dollars into the economy they get sucked out by the oligarchy and everybody who has an offshore bank account.”
Other smaller Latin American economies, such as Ecuador and El Salvador, already use the dollar. However, the IMF believes dollarisation would condemn Argentina to low growth, by forcing it to adopt the US Federal Reserve’s monetary policies.
Argentina fell into its latest crisis last month, when a shock defeat for President Milei’s party in regional elections triggered a run on the peso that threatened the country’s fragile macroeconomic stability. But the turmoil has largely subsided after a landslide win for the government at national legislative elections last month.
Many holders of Argentina’s US dollar bonds believe that official dollarisation is a distant prospect, not least because it would need to be backed by a huge increase in depleted dollar reserves. With markets now stabilised after Milei’s victory, investors instead expect that his government will eventually shift the peso from an official exchange rate ‘band’ against the dollar towards greater flexibility — with US and IMF backing. Bondholders are worried that the policy of holding the peso in a trading range has kept the currency too strong, cutting inflation at the cost of bringing in dollars to rebuild reserves.
Hanke believes 76 per cent of the debt that Argentina has accumulated since 1995 has disappeared through capital flight due to chronic distrust in the peso. “All these bailouts are just a terrible deal — if only a quarter of the debt stays and is invested in productive activities, there’s nowhere near enough to produce enough free cash flow to service the debt,” Hanke said. “The rate of return would have to be at the moon.”
Additional reporting by Ciara Nugent and Michael Stott
Data visualisation by Ian Hodgson
Source: https://www.ft.com/content/fae0ec80-1d65-429b-9147-90bf911d9001
quarta-feira, 9 de julho de 2025
O ataque de Trump à grandeza americana - Martin Wolf Financial Times
quarta-feira, 19 de março de 2025
Quem aceitará um ‘Acordo de Mar-a-Lago’? - Martin Wolf (Financial Times, Valor Econômico)
Quem aceitará um ‘Acordo de Mar-a-Lago’?
Martin Wolf*
Valor Econômico,
O que está sendo proposto é a recriação de um sistema global de gestão das taxas de câmbio
A política comercial caótica de Donald Trump só pode levar ao caos econômico. Então, será que o governo Trump pode se deparar com algo mais coerente e menos prejudicial, e ainda assim atender aos objetivos protecionistas do presidente? Talvez. Alguns membros, incluindo Scott Bessent, secretário do Tesouro, e Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, acreditam que sim.
Se alguém quiser entender essa abordagem mais sofisticada, deve ler “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading”, publicado em novembro de 2024. O autor afirma que “este ensaio não é uma defesa de políticas”. Mas, se parece um pato, é um pato. Vindo de um homem em sua posição atual, isso dever ser interpretado como uma defesa de políticas.
Apoiando o argumento de Miran está uma proposta feita pelo economista belga Robert Triffin no começo dos anos 1960. Triffin disse que a demanda crescente por dólares enquanto ativo de reserva só poderia ser suprida por déficits em conta corrente persistentes dos EUA. Isso, por sua vez, significava que o dólar estava persistentemente valorizado em relação às necessidades de equilíbrio na balança de pagamentos.
Com o tempo, ele argumentou, esse desempenho comercial fraco minaria a confiança no preço fixo do dólar em relação ao ouro. E assim, de fato, ocorreu. Em agosto de 1971, em resposta a uma corrida ao dólar, o presidente Richard Nixon suspendeu a conversibilidade do ouro. Após duras negociações, um acordo foi firmado sobre novos conjuntos de paridades do dólar em relação a outras grandes moedas. Mas isso não durou. Logo, essas novas paridades colapsaram. O velho sistema de Bretton Woods de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, foi substituído pelas taxas de câmbio flutuantes de hoje.
Miran aplica essa perspectiva ao atual dilema dos EUA. Por isso, é preciso ver o que aconteceu nas décadas de 1960 e 1970 como um paralelo mais apropriado para o que está sendo discutido hoje, do que os acordos do Plaza e do Louvre da década de 1980. O último visava gerenciar um regime de taxas de câmbio flutuantes em um momento de desequilíbrio entre o dólar e outras moedas, especialmente o iene japonês e o marco alemão. O que está sendo proposto agora é a recriação de um sistema global de gestão das taxas de câmbio.
A justificativa para isso, segundo Miran, é que, assim como na década de 1960, o desejo da maioria dos outros países de manter o dólar como moeda de reserva está elevando seu valor, abrindo assim em enorme déficit em conta corrente. Isso pressiona a produção de bens comercializáveis, especialmente os manufaturados.
Isso cria um dilema para os EUA entre as possibilidades de financiamento mais barato e alavancagem internacional, de um lado, e os custos sociais e de segurança fundamental de um setor manufatureiro mais fraco, do outro. No entanto, Trump quer proteger a indústria nacional e manter o papel global do dólar. Assim, a política precisa atingir os dois objetivos.
Uma possibilidade pode ser uma ação unilateral dos EUA para enfraquecer o dólar. Uma opção aqui seria um aperto fiscal combinado com uma flexibilização monetária. Mas isso atrapalharia o desejo de Trump de estender os cortes de impostos concedidos por ele em 2017. Outra possibilidade seria forçar o Federal Reserve (Fed) a desvalorizar o dólar. Mas isso poderia ter efeitos devastadores sobre a inflação e o dólar, como aconteceu na década de 1970.
Uma outra possibilidade seriam as tarifas sozinhas. Mas, se outras condições forem mantidas, isso levaria a uma valorização do dólar, o que prejudicaria o setor exportador americano. Desse modo, diz Miran, as tarifas também deveriam ser usadas como arma nas negociações para um acordo global ou, se for considerado necessário, serem complementadas por tal acordo.
O desejo da maioria dos outros países de manter o dólar como moeda de reserva está elevando seu valor, abrindo assim em enorme déficit em conta corrente. Isso pressiona a produção de bens comercializáveis, especialmente os manufaturados e cria um dilema para os EUA
Assim, o objetivo de um setor industrial mais forte, a ser entregue por uma combinação de tarifas e um dólar mais fraco, precisa da cooperação global. Minha colega Gillian Tett descreveu os possíveis detalhes do que seria um “Acordo de Mar-a-Lago”.
Ele tem dois aspectos principais. O aspecto econômico é liberar as restrições econômicas discutidas acima. A maneira de fazer isso, sugere Miran, é transformar o endividamento de curto prazo em empréstimos de prazos ultralongos, “convencendo” os detentores estrangeiros de títulos do Tesouro dos EUA a trocar suas posições por títulos perpétuos em dólar. Isso daria aos EUA mais margem para buscar sua combinação desejada de políticas fiscal e monetária frouxas. O aspecto político é apontar que aceitar tal acordo seria o preço para ser visto como amigo. Caso contrário, um país seria visto como inimigo, ou no máximo, flutuando entre as duas posições. Em um sentido preciso, isso poderia ser visto como um “esquema de proteção”.
Esta proposta levanta quatro questões. A primeira é se a análise de Miran sobre as relações entre o papel do dólar como moeda de reserva, o déficit crônico em conta corrente dos EUA e a fraqueza do emprego e da produção industrial está correta. Deve-se duvidar dela, porque os EUA estão longe de ser o único país de alta renda com queda na participação do emprego na manufatura.
A segunda questão é se o novo acordo monetário proposto de fato permitiria aos EUA combinar a emissão de uma moeda de reserva com seus objetivos setoriais de forma mais eficaz do que qualquer outra alternativa plausível.
A terceira, é se há alguma probabilidade de acordo com Trump sobre o conjunto complexo de objetivos e instrumentos dessa proposta.
A última questão é se Trump é capaz de manter qualquer acordo firmado por ele. Afinal de contas, ele abandonou a Ucrânia, colocou em dúvida o compromisso com a Otan e atacou o Canadá.
Os últimos dois pontos são, evidentemente, os mais importantes. Seu governo é capaz de fazer um acordo em que qualquer pessoa ou país sensato possa confiar? Acho que não. No entanto, a análise dos aspectos econômicos também é importante. Pretendo abordar isso na próxima semana.
*Martin Wolf é o principal comentarista econômico do Financial Times.
domingo, 2 de março de 2025
TRUMP QUER UM MUNDO SEGURO PARA OS AUTOCRATAS - GIDEON RACHMAN (Financial Times)
Grato a Marcelo Halberg pela transcrição:
TRUMP QUER UM MUNDO SEGURO PARA OS AUTOCRATAS - GIDEON RACHMAN
Financial Times / Valor Econômico, 1/03/2025
A dura verdade é que Vladimir Putin e Donald Trump estão unidos em seu desprezo pelas democracias europeias
"O mundo deve se tornar seguro para a democracia. Sua paz deve ser estabelecida sobre os comprovados fundamentos da liberdade política." Essas foram as palavras do presidente Woodrow Wilson em abril de 1917, às vésperas da entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial.
Mais de um século depois, Donald Trump embarcou em uma missão global muito diferente. O presidente dos EUA está tornando o mundo seguro para a autocracia.
A afirmação de Trump de que a Ucrânia foi responsável por sua própria invasão e que Volodymyr Zelensky é um ditador trouxe clareza.
Ao se alinhar tão perfeitamente com a propaganda do Kremlin, o presidente americano demonstrou que os Estados Unidos de Trump estão perfeitamente satisfeitos em ver a Rússia vencer esta guerra e esmagar a Ucrânia.
Diplomatas europeus e ucranianos — excluídos das negociações entre EUA e Rússia — seguem verificando se é possível obter dos Estados Unidos apoio a garantias de segurança confiáveis para a Ucrânia. Mas o único interesse restante de Trump na Ucrânia parece ser predatório — basta observar sua exigência de que o país entregue grande parte de sua riqueza mineral aos EUA.
Reconhecendo que dinheiro é uma das poucas coisas que realmente motivam Trump, os russos chegaram às negociações na Arábia Saudita com uma longa lista de negócios tentadores. Espera-se que as sanções dos EUA contra a Rússia sejam suspensas em breve.
Ainda há quem, na Europa, tente racionalizar tudo isso. Argumentam, com base em muito poucas evidências, que Trump não deseja que a Rússia vença a guerra. Outros alegam que tudo isso faz parte de uma manobra inteligente dos EUA para isolar a China.
Mas a dura verdade é que Vladimir Putin e Trump estão unidos em seu desprezo pelas democracias europeias. No início de fevereiro, Putin disse que Trump "vai restaurar a ordem" na Europa e que os países europeus "se ajoelharão diante do mestre e abanarão o rabo docemente". Essas declarações foram republicadas por Trump nas redes sociais.
Admiração por Xi
Quanto à China, Trump expressou sua admiração por Xi Jinping quase tantas vezes quanto adulou Putin. Ele parece querer fechar um acordo com o ditador chinês. Portanto, parece altamente provável que Trump acabará traindo Taiwan do mesmo modo que traiu a Ucrânia.
O círculo de rumores em Washington já está fervilhando com conversas de que os EUA ameaçarão impor tarifas sobre Taiwan, a menos que este concorde em vender uma parte significativa da TSMC, a principal empresa de semicondutores do mundo, para um comprador americano. Se os EUA conseguirem reduzir sua dependência dos semicondutores taiwaneses, o caminho estará aberto para que abandone Taiwan.
Um mundo em que Rússia, China e Estados Unidos sejam hostis à democracia liberal (democracia constitucional) é inegavelmente intimidador para os europeus. Mas, embora haja motivos para alarme, não há necessidade de desespero. Os países europeus ainda têm recursos formidáveis para se proteger — e estão começando a perceber a realidade e a reagir a ela.
As fraquezas e os pontos fortes da Europa
Friedrich Merz, que está prestes a se tornar o novo primeiro-ministro após as eleições de domingo (23) para o Parlamento alemão, disse recentemente: "Devemos nos preparar para a possibilidade de que Donald Trump não mantenha mais incondicionalmente o compromisso de defesa mútua da Otan". Merz quebrou outro tabu ao sugerir que a Alemanha deveria conversar com a França e o Reino Unido sobre "compartilhamento nuclear" — para que os alemães não fiquem mais à mercê da proteção nuclear americana.
As fraquezas da Europa são bem conhecidas: crescimento lento, altas dívidas, exércitos pequenos, uma UE de movimento lento — e a ascensão de partidos extremistas inclinados para Putin e Trump.
Mas uma Europa unida também tem forças tremendas das quais precisa se lembrar e às quais deve recorrer. A UE e o Reino Unido, juntos, possuem uma economia cerca de 12 vezes maior que a da Rússia. A UE é a maior exportadora mundial de bens manufaturados e serviços e tem um poder comercial consideravelmente maior do que os EUA.
A Europa produz ciência de ponta. Tem uma base industrial sólida. Que os países europeus sigam o Estado de direito é crucial para os negócios e atrairá investimentos, na medida em que o desprezo da administração Trump pela lei se torna cada vez mais evidente.
O aumento acelerado dos gastos com defesa em uma base pan-europeia é totalmente viável. A cooperação entre Reino Unido, França e Alemanha está se intensificando e pode complementar a UE, que se move mais lentamente.
A Europa se sente perigosamente isolada no momento. Mas há uma rede de democracias liberais avançadas ao redor do mundo que desejará trabalhar com a Europa e o Reino Unido — incluindo Japão, Coreia do Sul, Austrália e Canadá.
Os europeus também devem considerar a ideia de que este período sombrio nos EUA não durará para sempre. As forças de esquerda nos EUA estão em retração, mas não desapareceram. A imprudência e a arrogância da administração Trump tornam perfeitamente possível que o movimento Maga imploda rapidamente.
Eles e seus aliados democráticos ao redor do mundo precisam resistir, confiantes de que, no final, seus valores prevalecerão, como aconteceu no passado.
Como Wilson disse em 1917: "Lutaremos pelas coisas que sempre trouxemos mais próximas aos nossos corações — pela democracia, pelo direito daqueles que se submetem à autoridade de ter voz em seus próprios governos, pelos direitos e liberdades das pequenas nações".
Os Estados Unidos estão do lado errado dessa luta, por enquanto. A UE e o Reino Unido podem — e devem — continuar a luta.
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Quem é Liang Wenfeng, fundador da IA chinesa DeepSeek - Financial Times
Usei o DeepSeek ontem, como revelei abaixo.
Deu no Financial Times : "Discreto e criado em um pequeno vilarejo: quem é Liang Wenfeng, fundador da IA chinesa DeepSeek
Financial Times, Feb 1, 2025
Discreto e criado em um pequeno vilarejo: quem é Liang Wenfeng, fundador da IA chinesa DeepSeek
Liang, que se mantém em silêncio desde que sua empresa abalou o mercado de tecnologia, foi recebido com homenagens em Mililing
Eleanor Olcott, Zijing Wu
Niseko (Japão) e Mililing (China) | Financial Times
Na China, Liang Wenfeng foi celebrado como um herói na última semana, um "Davi" digital lutando contra o "Golias" das big techs americanas, armado com um modesto conjunto de chips de IA (inteligência artificial) e uma pequena equipe de engenheiros.
Seu projétil computacional foi uma série de artigos lançados por sua startup de IA, DeepSeek, que pareciam mostrar que era possível construir modelos de linguagem poderosos com muito menos chips da Nvidia do que os rivais americanos.
Investidores globais retiraram quase US$ 600 bilhões da capitalização de mercado da Nvidia como resultado, questionando se era necessário investir centenas de bilhões de dólares em clusters gigantescos de computação de IA.
Essas preocupações estavam longe das mentes dos moradores de Mililing, uma pequena comunidade na província de Guangdong, no sul da China, onde Liang cresceu e para onde o bilionário de 40 anos voltou para o feriado do Ano Novo Lunar, escoltado por seguranças.
Mililing é tão pequena que até agora não havia nada escrito sobre ela em inglês na internet.
A recepção foi jubilante. "Liang Wenfeng retorna à sua cidade natal para espalhar bons resultados e somar energia à revitalização rural", dizia uma faixa adornando um arco vermelho inflável.
A casa da família de Liang tornou-se um local de peregrinação improvável para aqueles interessados em ver onde essa celebridade relutante foi criada. Mas, enquanto seus vizinhos elogiam suas conquistas, nenhum deles pode dizer muito sobre a vida atual do homem misterioso que provocou um pânico existencial no Vale do Silício. DeepSeek e Liang não responderam a um pedido de comentário.
Os locais dizem que Liang vem de uma família de educadores. Seus pais e avô eram todos professores.
"Seus pais são boas pessoas. Ele deixou a vila para estudar ainda jovem", diz um vizinho também de sobrenome Liang, mas sem parentesco. Mililing, ele diz, é uma vila "de mil Liangs".
Na escola secundária da cidade próxima, um de seus professores diz que Liang se destacou na turma de 50 alunos como "bem comportado e de maneiras delicadas". "Ele era um aluno de destaque, especialmente em matemática. Gostava de ler histórias em quadrinhos", acrescenta.
Liang deixou o ensino médio em 2002 e foi para a Universidade de Zhejiang para completar uma graduação e um mestrado em ciência da computação, onde escreveu uma tese sobre algoritmos de detecção de movimento. Após se formar em 2010, ele aplicou suas habilidades de computação no comércio automatizado de ações, primeiro como freelancer e depois em seu próprio fundo de hedge, High-Flyer, em 2015.
High-Flyer cresceu e se tornou um dos quatro principais fundos quants (conhecidos por aplicarem matemática e estatística ao mercado financeiro) da China, usando algoritmos para executar negociações. Depois de construir uma fortuna no comércio, Liang migrou para a IA generativa, utilizando tanto talento quanto recursos computacionais do High-Flyer para lançar a DeepSeek em 2023.
Um gerente de um fundo rival que conhece Liang há anos diz: "Ele se destaca entre nós porque é um verdadeiro engenheiro. Ele pensa e age como um. Enquanto estamos gerenciando pessoas e fundos, ele está codificando todos os dias."
O objetivo declarado de Liang com a DeepSeek é buscar a inteligência geral artificial, um santo graal que a OpenAI também está perseguindo, o que iniciará uma época em que os computadores serão capazes de pensar criticamente como humanos. O gerente do fundo diz que Liang finalmente "será capaz de remover completamente o fator humano" ao alcançar esse feito.
Os colegas quants de Liang estão felizes em vê-lo encontrar sucesso com a DeepSeek. "Espero que isso signifique que Pequim será mais amigável conosco", diz outro trader.
Enquanto os quants são reverenciados no ocidente como gênios financeiros da era digital, eles foram vilipendiados na China. Durante quedas no mercado de ações, os reguladores limitaram suas atividades, acusando os quants de lucrar às custas dos cerca de 200 milhões de investidores de varejo do país.
A indústria financeira mais ampla também experimentou alguns anos difíceis, com autoridades limitando salários em fundos estatais e criticando o setor por não contribuir para o desenvolvimento social.
Pequim tem uma atitude mais positiva em relação às empresas de IA e reconheceu as contribuições de Liang na DeepSeek. Antes do feriado, ele foi selecionado como o único líder de IA a participar de uma reunião pública com o segundo em comando da China, Li Qiang. Junto com um pequeno grupo de empreendedores, ele foi incentivado a fazer avanços tecnológicos para o país.
Em público, Liang permaneceu em silêncio, mesmo quando se tornou um ponto central das tensões entre os EUA e a China, com alguns legisladores americanos reagindo ao progresso da DeepSeek sugerindo mais restrições no acesso da China aos chips da Nvidia.
O silêncio de Liang é fiel ao seu caráter. "Para aqueles que o conhecem bem, ele pode falar muito quando é um assunto de interesse. Você precisa se acostumar com seu estilo de comunicação. Ele não está sendo rude quando de repente fica quieto, o que acontece com frequência. Ele está pensando", diz outro gerente de fundo. "Se ele não quiser falar com você, ele vai deixar você saber."
A DeepSeek não respondeu aos ataques dos rivais americanos, que vão desde acusações de roubo de tecnologia até alegações de que a empresa está sendo usada como um ativo de lideranças chinesas.
A internet também foi deixada para caçar pistas sobre Liang, dissecando as poucas informações públicas disponíveis.
Mas para os moradores de Mililing, ele representa algo mais inocente: um estudante trabalhador de uma pequena comunidade agrícola que conseguiu se destacar.
"Todos nós crescemos nesta vila", diz Leon Liang, que costumava jogar futebol com o jovem Liang. "Estamos muito orgulhosos dele."
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
What Trump unleashed means for America - Francis Fukuyama Financial Times
Meu comentário ao final. (PRA)
What Trump unleashed means for America
Republican is inaugurating a new era in US politics and perhaps for the world as a whole
Francis Fukuyama
Financial Times, November 8, 2024
The blowout victory of Donald Trump and the Republican party on Tuesday night will lead to major changes in important policy areas, from immigration to Ukraine. But the significance of the election extends way beyond these specific issues, and represents a decisive rejection by American voters of liberalism and the particular way that the understanding of a “free society” has evolved since the 1980s.
When Trump was first elected in 2016, it was easy to believe that this event was an aberration. He was running against a weak opponent who didn’t take him seriously, and in any case Trump didn’t win the popular vote. When Biden won the White House four years later, it seemed as if things had snapped back to normal after a disastrous one-term presidency.
Following Tuesday’s vote, it now seems that it was the Biden presidency that was the anomaly, and that Trump is inaugurating a new era in US politics and perhaps for the world as a whole. Americans were voting with full knowledge of who Trump was and what he represented. Not only did he win a majority of votes and is projected to take every single swing state, but the Republicans retook the Senate and look like holding on to the House of Representatives. Given their existing dominance of the Supreme Court, they are now set to hold all the major branches of government.
But what is the underlying nature of this new phase of American history?
Classical liberalism is a doctrine built around respect for the equal dignity of individuals through a rule of law that protects their rights, and through constitutional checks on the state’s ability to interfere with those rights. But over the past half century that basic impulse underwent two great distortions. The first was the rise of “neoliberalism”, an economic doctrine that sanctified markets and reduced the ability of governments to protect those hurt by economic change. The world got a lot richer in the aggregate, while the working class lost jobs and opportunity. Power shifted away from the places that hosted the original industrial revolution to Asia and other parts of the developing world.
The second distortion was the rise of identity politics or what one might call “woke liberalism”, in which progressive concern for the working class was replaced by targeted protections for a narrower set of marginalised groups: racial minorities, immigrants, sexual minorities and the like. State power was increasingly used not in the service of impartial justice, but rather to promote specific social outcomes for these groups.
The real question at this point is not the malignity of his intentions, but rather his ability to actually carry out what he threatens In the meantime, labour markets were shifting into an information economy. In a world in which most workers sat in front of a computer screen rather than lifted heavy objects off factory floors, women experienced a more equal footing. This transformed power within households and led to the perception of a seemingly constant celebration of female achievement.
The rise of these distorted understandings of liberalism drove a major shift in the social basis of political power. The working class felt that left wing political parties were no longer defending their interests, and began voting for parties of the right. Thus the Democrats lost touch with their working-class base and became a party dominated by educated urban professionals. The former chose to vote Republican. In Europe, Communist party voters in France and Italy defected to Marine Le Pen and Giorgia Meloni. All of these groups were unhappy with a free-trade system that eliminated their livelihoods even as it created a new class of super-rich, and were unhappy as well with progressive parties that seemingly cared more for foreigners and the environment than their own condition.
These big sociological changes were reflected in voting patterns on Tuesday. The Republican victory was built around white working-class voters, but Trump succeeded in peeling off significantly more Black and Hispanic working-class voters compared with the 2020 election. This was especially true of the male voters within these groups. For them, class mattered more than race or ethnicity. There is no particular reason why a working-class Latino, for example, should be particularly attracted to a woke liberalism that favours recent undocumented immigrants and focuses on advancing the interests of women. It is also clear that the vast majority of working-class voters simply did not care about the threat to the liberal order, both domestic and international, posed specifically by Trump.
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Comentário PRA:
sábado, 13 de julho de 2024
O retorno da geopolítica aos assuntos de investimentos - Financial Times (via Adam Tooze)
Geopolitics and investment
Adam Tooze (from FT), 12/07/2024
“Over the past 20 or 30 years, [geopolitics] has been deflationary, created lower risk and made it easier to invest,” says Ali Dibadj, chief executive of Janus Henderson, the British-American investment group that manages about $353bn in assets. “Going forward it is the complete opposite: it is probably inflationary; it is probably going to create more risk; and it is going to make it harder to invest.”
An industry that over the past two decades has been hoovering up mathematicians to devise new trading strategies is now leaning on political scientists for guidance. Most investors are used to dealing with pockets of instability and conflict, but many say the sheer number of recent shocks — even in traditionally stable democracies — and the long-term nature of conflicts represent a sea change. … Theodore Bunzel, head of geopolitical advisory at Lazard, says the firm set up a dedicated political unit in 2022 as clients were increasingly demanding advice on how to navigate investments in regions such as China. …. “In the past, the impulse was to remove politics from corporate decision making,” Bunzel says, but that is becoming impossible due to “tension between large, interconnected powers”. … Rothschild & Co Goldman Sachs followed suit last year with a geopolitical advisory unit … PR firm Brunswick — best known for advising clients on mergers and acquisitions situations — has hired a string of advisers with geopolitical expertise including a former president of the World Bank, a former director-general of the World Trade Organization, and a former director of the US National Security Agency. …
Boutique investment bank Centerview recently hired Richard Haass, the former head of the Council on Foreign Relations, as a senior counsellor. Lord Mark Sedwill, the former head of the British civil service, is a member of the risk committee at Rothschild, while Schroders has brought in former British ambassador to China, Sir Sebastian Wood, and Sir Nicholas Carter, former chief of the defence staff in the UK, to advise on geopolitics and navigating international conflict. … The number of funds offering investors a way to invest in emerging markets while excluding China has ballooned from eight at the start of 2022 to 20 today, according to Morningstar, and inflows have exploded as tensions between the US and China have worsened. Almost $1bn a month has been invested into EM ex-China funds this year, up from an average of about $500mn a month in 2023 and $200mn a month in 2022.
Others are turning to even more explicitly political funds. This year Tikehau Capital, the Paris-listed group that manages $48bn in assets, launched a “European Sovereignty Fund” as a response to “escalating geopolitical tensions and the repercussions of excessive globalisation”.
From FT
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