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quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Comércio China-EUA: Pequim é ágil para driblar tarifas - Tej Parikh Valor Econômico

 Pequim é ágil para driblar tarifas

Esforços protecionistas de Trump podem causar menos danos do que se imagina

Tej Parikh

Valor Econômico, 21/01/2025


Bem-vindo de volta. Donald Trump foi empossado como presidente dos Estados

Unidos ontem. Que melhor momento do que este para agitar os ânimos com uma

visão contrária aos planos de sua equipe para pressionar a China no comércio

exterior, indústria e tecnologia?

De forma compreensível, muitos entendem que as tarifas e restrições adicionais

sobre a China serão ruins para sua economia. Os esforços protecionistas de

Trump, contudo, poderiam causar menos dano do que se imagina. Na verdade, a

indústria chinesa pode ser capaz de prosperar apesar deles (ou mesmo por causa

deles). Aqui estão os contra-argumentos.

Comecemos com o impacto econômico direto e imediato das tarifas. A China

diversificou-se e passou a depender menos do mercado americano desde o

primeiro mandato de Trump. Hoje, a demanda total dos EUA por produtos

chineses representa cerca de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) da China, de

acordo com a firma de análises Capital Economics. Seus cálculos indicam que

um aumento na tarifa efetiva de cerca de 15% para 60% (no cenário extremo) -

como ameaçado por Trump - poderia fazer a economia chinesa encolher apenas

1%. Outros economistas têm conclusões semelhantes.

Esse impacto talvez seja menor do que muitos imaginavam e, além disso, não leva

em conta outros fatores neutralizadores.

A China pode desviar exportações para outros destinos onde a demanda está em

alta. Na esteira das tarifas aplicadas no primeiro mandato de Trump, as

exportações de Pequim para mercados emergentes de rápido crescimento

decolaram. A demanda por produtos chineses no mundo desenvolvido, excluindo

os EUA, também aumentou. Outros países - em particular, os da Iniciativa do

Cinturão e da Rota, também conhecida como Nova Rota da Seda, com os quais a

China passou décadas fortalecendo laços econômicos - desejarão manter o

comércio de baixo custo com Pequim.

Além disso, os produtos chineses ainda podem chegar aos EUA via reexportação -

envio por meio de um terceiro país - permitindo aos produtores driblarem as

tarifas. Trump já sabe disso e tentará fiscalizar países como México e Vietnã. Isso,

porém, não será fácil nem rápido. As empresas chinesas já vêm se protegendo

contra esse risco ao montar fábricas em outros países.

O yuan provavelmente também se desvalorizará quando as tarifas forem

anunciadas, mantendo as exportações chinesas competitivas. No primeiro

mandato de Trump, a desvalorização do yuan compensou o impacto das tarifas.

Levando em conta todos os fatores, o impacto econômico direto pode ser bem

inferior a 1 %.

As pressões no custo de vida e a urgência das mudanças climáticas fazem com

que a lógica econômica de importar produtos baratos da China (pelo menos fora

dos EUA) continue forte.

A competitividade cie preços da China vem de sua especialização na obtenção de

suprimentos, refino e produção de bens alinhados aos setores globais de alto

crescimento. Uma estratégia industrial de décadas guiada pelo Estado deu à

China um domínio vertical nas cadeias de suprimentos para veículos elétricos,

baterias e fontes de energia renováveis, desde as commodities de terras-raras até

os produtos acabados.

O país fabrica mais de 30% da produção industrial mundial (superando a soma

dos nove maiores produtores seguintes). A China possui vantagens comparativas

em uma ampla gama de produtos: não apenas nos tradicionais brinquedos e

roupas "Made in China", mas também em produtos complexos de alta tecnologia.

De fato, os esforços para restringir o poderio industrial da China costumam

subestimar seu grau de domínio e a capacidade de Pequim de usar o aparato

estatal para respaldar seus produtores. O economista chinês Lisheng Wang, do

Goldman Sachs, sinalizou que "as contínuas políticas de apoio à indústria de alta

tecnologia" e "o afrouxamento fiscal" ajudariam a suavizar o impacto das tarifas.

Pequim poderia usar o crescente protecionismo dos EUA como uma oportunidade

para melhorar relações comerciais com aliados frustrados dos EUA. Também

poderia retaliar vetando o acesso a materiais brutos vitais. A China detém 36%

das reservas mundiais de terras-raras, mas controla 70% da oferta mundial (daí a

obsessão de Trump com a Groenlândia).

Por fim, embora o Ocidente tenha vantagens na inteligência artificial (IA),

semicondutores e computação quântica, o protecionismo nessas áreas pode não

atrapalhar o avanço tecnológico da China tanto quanto se imagina.

Com controle federal sobre seu setor privado, Pequim se vale de subsídios,

diretrizes e incentivos para cumprir o objetivo de Xi Jinping de liderar o mundo em

inovação científica e tecnológica. A estratégia industrial liderada pelo Estado tem

suas falhas, mas a China é melhor do que qualquer outro país em executá-la bem.

Isso significa que os controles dos EUA sobre suas exportações podem motivar as

empresas chinesas - apoiadas por Pequim - a redobrar os esforços de substituição

de importações e de independência tecnológica por meio de soluções criativas,

da colaboração local e até de mercados paralelos. As fabricantes chinesas

enfrentam "competição ferrenha" entre si por apoio estatal.

"Em termos líquidos, as restrições americanas aceleraram o ímpeto chinês de

inovação", disse Dan Wanq, pesquisador no Pau Tsai China Center, da Yale Law

School. "Antes, Huawei e BYD compravam os melhores componentes no

mercado, mas agora seus incentivos estão alinhados aos do governo chinês. O

dinheiro da Huawei agora vai para as firmas locais de semicondutores".

Segundo o Australian Strategic Policy Institute, entre 2003 e 2007, a China liderava

em só 3 entre 64 tecnologias consideradas críticas. Entre 2019 e 2023, o país

tornou-se líder em 57 dessas tecnologias.

Pequim desenvolveu um processo local para impulsionar a inovação científica. O

país tem o maior número de formados do mundo nas áreas conhecidas como

STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e oferece capital de longo

prazo para pesquisa e desenvolvimento (que, como proporção do PIB, está cada

vez mais próximo ao dos EUA).

Ainda assim, a situação pode não se desenrolar a favor da China. Por exemplo, a

agenda protecionista de Trump poderia gerar uma incerteza internacional

generalizada, o que deprimiria a demanda e amplificaria o impacto das tarifas

sobre a economia chinesa. O resto do mundo também poderia adotar uma

postura mais rigorosa em relação às importações provenientes da China. Além

disso, o modelo de inovação guiado pelo Estado chinês não é uma nenhuma

panaceia. Depende de o governo tomar as decisões corretas na alocação (e na

retirada) cie recursos. Isso pode gerar desperdícios.

A China também se depara com grandes problemas econômicos estruturais. Sua

trajetória cie crescimento perdeu força e o país encontra dificuldade para

reanimar os "espíritos animais" e impulsionar o nível do consumo, depois da crise

do mercado imobiliário. Isso toma o país dependente demais do crescimento

alimentado pelos investimentos e pelas exportações.

Ainda assim, o argumento continua de pé. As tarifas de Trump podem não ser tão

prejudiciais para a indústria e a supremacia tecnológica da China como se previa.

Pequim tem problemas maiores com os quais se preocupar. 


(Tradução de Sabino Âhumada)

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