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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Os mundos de Sir Siegmund Warburg Um homem de influência - Daniel Afonso da Silva (Meer)

 

Os mundos de Sir Siegmund Warburg

Um homem de influência

Meer 2 julho 2026, 
 
 
Reunião de diretoria do S.G. Warburg & Co., um influente banco de investimento britânico, por volta de 1980. Warburg foi fundamental na criação do mercado de Eurobonds e era famoso por sua cultura de trabalho intensa, muitas vezes descrita como quase monástica em comparação com outros bancos da época
Reunião de diretoria do S.G. Warburg & Co., um influente banco de investimento britânico, por volta de 1980. Warburg foi fundamental na criação do mercado de Eurobonds e era famoso por sua cultura de trabalho intensa, muitas vezes descrita como quase monástica em comparação com outros bancos da época

Fazia frio naquele dia em Londres. Era 12 de janeiro de 1983. Deu numa quarta-feira. Tudo seguia ordinário. Notadamente na City of London. Lugar de bancos e banqueiros. Tudo rotineiro e normal mesmo. Não fosse uma curiosa cerimônia na Guildhall em favor do Sir Siegmund Warburg (1902-1982).

Uma orquestra alternava melodias de Bach, Mozart e Haendel. Ária, adágio de um Concerto para violão e ária do Water Music. Peças preferidas do homenageado. Morto semanas antes. E que, agora, recebia uma imensa toalha com a pintura do seu rosto na parede principal daquela instituição que ele fundou. Nada menos que o primeiro banco de negócios europeu. Forte e potente. Único. Como seguia a cerimônia.

Tudo ia sensível e harmoniosamente. Emocionante. Um momento à altura do fundador. Apreciado, em memória, pelos olhares atentos de seus familiares. Sua esposa à frente. Logo em seguida, seus filhos. Todos na primeira fileira. Todos taciturnos. Mas inequivocamente muito honrados em seu interior. Visto que a cerimônia – malgrado sóbria, singela e quase simplória – matizava futuros, projetando no infinito a linhagem Warburg. Indicando que, mais que passado – que àquela altura já cumpria séculos –, a família dispunha de devir. Sem dúvidas suntuoso.

A gente do povo talvez desconheça os Warburg. Mas todos sabem que a Alemanha possui uma cidade com esse nome.

A verdadeiramente alta sociedade de qualquer parte do mundo, em contrário, sabe exatamente o que Warburg quer dizer. Um nome. Uma inspiração. Uma reputação multissecular. Muito sinceramente expandida pelos feitos de Siegmund Warburg.

Nascido em 1902, em Seeburg, na Alemanha, ele tornar-se-ia um dos homens mais influentes do século. Banqueiro, homem de ideias, negócios e muitos contatos. Conselheiro de reis e príncipes. Confidente de industriais e artistas. Fiador de políticos. Amigo muito próximo de gente da qualidade de Thomas Mann. Para ficar apenas num.

Mas, como todos, ele precisou de um momento de verdade na vida. E, em seu caso, esse momento foi durante a ascensão do Reich. Quando tomou todos os ricos e contrariou Hitler e os nazistas. Firmando-se como um dos mais destemidos opositores do regime.

Homem de envergadura e sem concessão. Um tipo em extinção. Que ficou sem chão naquele março de 1933. Naquela Berlim apática e condescendente que via a República de Weimar claudicar diante da fúria de Hitler. Foi naqueles dias de 1933. Naqueles 19, 20, 21 e 22 de março. Quando toda a gente de bem e de consciência seguia muito inquieta na Alemanha. O novo regime ia se instalando sem dissimular as intenções. Especialmente o seu ímpeto de exterminar judeus.

Os Warburg eram judeus e Siegmund Warburg sabia das implicações.

E, por tudo isso, seguia inquieto. Sobretudo porque naqueles dias, ele precisaria de ausentar de Berlim, em viagem de negócios para Nova Iorque. Para onde pretendia ir sozinho. Mas, frente às turbas, não lhe parecia seguro ausentar-se e deixar mulher e filhos à mercê da gente de Hitler. Uma gente mesquinha. Que, pouco a pouco, ia lançando o país no desconhecido. Pois, desde a entronização dos novos parlamentares – que Hitler fez questão de desconvidar os socialistas eleitos –, que ocorreu naqueles dias, a brutalização de todas as relações tomou conta de tudo e de todos. Especialmente porque o Reich começou a identificar, caçar, perseguir, cassar pessoas “politicamente suspeitas”. Hostilizando-as. Prendendo-as. Matando-as.

Siegmund Warburg via tudo aquilo com apreensão. Uma apreensão que beirava o temor. Malgrado o seu poder e malgrado a sua influência.

Por tudo isso, ele pediu audiência com o ministro das relações exteriores do regime, Konstantin Freiherr von Neurath, barão de Neurath. Seu amigo de infância. Cujas famílias nutriam relações havia séculos. Frequentando-se. Integrando-se. Namorando e casando entre eles. Fazendo negócios. O que permitia a Siegmund Warburg dirigir-se ao barão com naturalidade, proximidade e intimidade. E vice-e-versa.

Assim, tão logo participado da demanda, o barão anuiu em receber – e receber imediatamente – o seu amigo sem maiores complicações. Mesmo que nos últimos tempos viam-se com menos frequência.

Siegmund Warburg chegou e foi direto ao assunto evocando dois temas: o novo Parlamento e o destino do país.

Sem pestanejar, abordou o caráter nitidamente aleatório, ilegal e imoral das prisões em massa realizadas naqueles dias. Lembrou que a Constituição de Weimar interditava aquele tipo de expediente. E indicou que aquela violação precisaria ser notificada ao presidente Paul von Hindenburg. Que, naquele caso, poderia e deveria utilizar o artigo 19 da Constituição de Weimar para inibir aquelas aberrações e, consequentemente, aquele “monstro” que era Adolf Hitler.

O barão Neurath ouviu tudo pacientemente. Sem interromper nem contrariar. Fazendo entender que Siegmund Warburg tinha em tudo razão. Mas declinou em auxiliar. Explicou ao amigo que era ministro do regime. Que era vigiado e visado por todos os lados. Que corria riscos também. Podendo ser enquadrado como “politicamente suspeito”. Ser hostilizado, destituído, cassado, caçado, preso, deportado e até assassinado.

Siegmund Warburg entendeu as justificações como covardia. E ficou ainda mais irritado quando o seu amigo, agora barão e ministro de Hitler, desejou-lhe friamente “boa sorte” e “adeus”.

Siegmund Warburg internalizou a mensagem. Não esbravejou nem retrucou. Levantou e partiu. Saiu da sala do ministro em silêncio. Sem se despedir. Saiu pensativo. Dispensou a limosine e voltou a pé pra casa. Meditando e murmurando a cada passo, rua e esquina. Com a decisão drástica e decisiva completamente materializada em sua cabeça. Seu destino era partir. Berlim e Alemanha não davam mais.

Chegou rápido em casa e entrou. Tomou a mulher de lado e comunicou. Disse que iriam todos embora. Naquele momento. Naquela manhã. Com os pertences que conseguissem levar. Rumo ao primeiro trem. Para jamais voltar.

Assim se fez.

Arrumaram-se e rumaram para a estação. Tomaram o primeiro trem Estocolmo, capital da Suécia e uma das sedes do banco dos Warburg.

A intenção era ter com Max Warburg. Ancião da família. Primo do pai de Siegmund Warburg. Homem de confiança e conciliador. Dono da última palavra.

Uma vez com ele, Siegmund Warburg reportou a situação de Berlim. A conversa com o ministro. A decisão de partir. “Hitler não passa de um maluco”, disse ele. E disse mais: “esse maluco vai matar todos os judeus”. Max Warburg ouviu pacientemente. Absorto em pensamentos. Como quem lê esfinges. Ao final, reagiu. Tentou acalmar Siegmund Warburg. Disse que a situação não era tão grave. Que Siegmund Warburg estava fora de si. Que tudo era fruição. Que as coisas, agora, que iriam melhorar. Sobretudo porque Hjalmar Schacht, amigo incomum de todos os banqueiros, acabara de ser escolhido para ministro da fazendo do Reich. O que prenunciava dias bons para todos e para os Warburg em todas as partes.

Mas nada disso dissuadiu Siegmund Warburg. Que, agora, novamente, contrariado, levantou-se, mais uma vez, mudo, virou as costas, fechou as portas atrás de si e partiu para Nova Iorque. Foi na primeira embarcação. Despachando mulher e filhos para Londres. Onde foi recuperá-los em seguida.

Foi em Londres que ele viu o mundo desabar.

Ele estava correto. Anteviu tudo. Inclusive a matança de judeus.

Diante de tudo, incorporou-se às forças britânicas para conter Hitler. Auxiliou notadamente nas discussões sobre esforços financeiros de guerra. Em seguida, participou ativamente da construção das instituições de Bretton Woods. Onde conhecia todos e era amigo de todos.

Após a guerra, firmou-se como banqueiro de referência na City of London. Talvez o mais relevante de seu tempo. O único a negociar literalmente com o mundo inteiro, em variados setores. Em seguida, criou o primeiro banco de abrangência europeia.

Morreu em fins de 1982. Naquele janeiro de 1983, recebia as honrarias que sua família, seus empregados e sócios imaginavam que ele merecia. Passou para a posteridade como um homem de influência. Aquele que anteviu a debacle e combateu o Reich.

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Daniel Afonso da Silva
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, pós-doutor em Relações Internacionais pela Sciences Po de Paris, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal da Grande Dourados.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Doutrina Kissinger avant la lettre - Daniel Afonso da Silva (Meer)

Kissinger e o novo tempo do mundo

Notícias da desideologização da ação exterior norte-americana

2 ABRIL 2026, 
O presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (à esquerda), e Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado, na Casa Branca
O presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (à esquerda), e Henry Kissinger, Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado, na Casa Branca

O Concílio do Vaticano II ainda vigia e os antigos ainda choravam a morte do Sir Winston Spencer Churchill em 1965 quando um afluente professor da Universidade de Harvard publicou The troubled partnership: A Reappraisal of the Atlantic Alliance (New York: McGraw-Hill Book Co., 1965), imediatamente vertido ao francês como Malentendus translatlantiques

Esse professor de Harvard chamava-se Henry Kissinger (1923-2023). Não estava em início de carreira e figurava bem longe de seu término. Publicou esse livro e chocou a opinião pública. Especialmente aquela atenta aos rumos da política e da diplomacia. Dessa maneira, cumprindo o propósito do livro, que foi feito para influir e incomodar. A obra esboça uma leitura inovadora do mundo e das relações internacionais, além de sugerir uma nova doutrina de política exterior para norte-americanos, europeus e ocidentais. Seu argumento é assentado sinteticamente em três premissas claras e simples.

A primeira admitindo que, depois de Stalin, morto em 1953, a União Soviética não era mais uma potência revolucionária. 

A segunda indicando que, desde o início da presidência de John F. Kennedy (1917-1963), em 1961, os Estados Unidos não dispunham de condições materiais, espirituais nem morais para conduzir e manter a estabilidade do sistema internacional. 

A terceira reconhecendo que, assim, restava adiante, aos Estados Unidos, abdicar de seu protagonismo absoluto sobre os negócios do mundo e forçar uma partilha pentagonal de responsabilidades, reunindo além de Washington e Moscou, a Comunidade Europeia, China e Japão, para cuidarem juntos da estabilidade do sistema internacional.

Uma leitura, sob quaisquer aspectos, arrojada para o momento e, portanto, uma provocação sem limites aos observadores europeus e norte-americanos nostálgicos dos tempos de Roosevelt, Churchill, Stalin e De Gaulle. Leitura e provocação que, assim, animaram intrigas em todos os lados. Especialmente entre aqueles que perceberam subitamente as suas idées reçusanacronizadas ao notar que o núcleo do argumento de Kissinger advogava que o moralismo messiânico, voluntarista e idealista dos tempos do presidente Wilson e do presidente Roosevelt não tinham mais razão de existir. Essencialmente porque nenhuma liderança norte-americana nem europeia seguia disposta a lutar até o último homem para garantir o world safe for democracy [mundo seguro para a democracia] como desejaram Wilson e Roosevelt. E, desse modo, beirava ao ridículo a pretensão da Europa e dos Estados Unidos de impor valores ocidentais em todas as partes. 

Primeiro porque, decididamente, a crise de 1946-1947, que impôs o “retorno” – em verdade, permanência – dos norte-americanos para a Europa na forma de Plano Marshall e OTAN, ao fundo, demonstrou que a tentação universalista de Wilson e Roosevelt na institucionalização de valores não passara de uma ilusão. 

Segundo que, agora, em 1965, em continuação ao que se vira em 1945-1947, ninguém além dos norte-americanos e europeus tinha alguma consideração positiva sobre a Europa, os Estados Unidos, o Ocidente e seus valores ocidentais. Fazendo-se, assim, necessário repensar-se os fundamentos da ação exterior norte-americana o mais urgentemente possível. Pois o mundo havia evoluído e mudado e a política exterior norte-americana parecia singrar no passado.

Eis a essência do argumento. Que chocou muita gente. Embora fosse natural aos leitores de Kissinger. Que desde A World Restored em 1957 caminhava nesse sentido.

World Restored: Metternich, Castereagh and the problems of peace, 1812-1822 (New York: Echo point books & media, 1957) foi, inicialmente, um livro interessado no passado, ambientado no início do século XIX e focalizado nas escaramuças do Congresso de Viena. Mas, lendo-o com vagar e com os olhos nos headlines dos jornais, era um livro carregado de presente e ideias de futuro. Como uma análise de conjuntura prospectiva. Que defendia a estabilidade internacional como fundamento da paz. Notadamente após a emergência da era nuclear. Fazendo entender que destino da potência norte-americana dependeria da capacidade do Estados Unidos de renovar-se diante do novo mundo que exigia mais estabilidade e menos valores morais de pretensões universais.

Juntando-se os dois livros, a mensagem deles sugeria em essência uma desideologização das relações internacionais norte-americanas com a União Soviética e com o mundo, a diminuição da participação voluntarista dos Estados Unidos nos negócios do mundo e a ampliação da participação de novos atores – estatais e não-estatais – na estabilização do sistema internacional para a manutenção da paz.

Ou, traduzindo-se brutalmente, Kissinger admitia, pela primeira vez, que Les autres ne pensent pas comme nous [os outros não pensam como nós].

E não pensam mesmo. Mas à época resistiu-se a perceber-se.

Mas era um mundo novo e irresistível que começava a florescer após Churchill, após o concílio e após De Gaulle. Um mundo – por falta de momento melhor – balizado em 1968. Não simplesmente pelos protestos de maio em Paris nem pelo assassinato de Martin Luther King Jr. (1929-1968) em abril tampouco pela torpeza do AI-5 em dezembro no Brasil. Mas pela eleição de Richard Nixon (1913-1994) em novembro e pela sua incorporação imediata das premissas de Henry Kissinger em sua administração.

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