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sexta-feira, 3 de abril de 2026

De novo a submissão ao Império? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

De novo a submissão ao Império?

Submissão

Submissão

A história do Brasil tem poucos, pouquíssimos exemplos de nacionais que se colocaram voluntariamente a serviço de um Estado estrangeiro. Na era colonial, submetidos que estavam os brazilienses, na expressão de Hipólito da Costa – isto é, os súditos da coroa portuguesa nascidos e criados em solo do Brasil, a principal e a mais importante colônia do vasto império ultramarino lusitano – se podia até compreender aqueles mais servis ao poder da monarquia metropolitana que se dispunham voluntariamente – ou por algum benefício pessoal – a continuarem fiéis aos mandatários da corte e aos seus representantes locais, colaborando com o poder estrangeiro. Foram raros esses casos, mas existiram, e seus nomes estão devidamente registrados nos anais do opróbio nacional.

Na era contemporânea, isto é, republicana, não existem casos devidamente notificados de uma tal submissão a um poder estrangeiro, pelo menos de maneira escandalosa. Houve, sim, um exemplo constrangedor de um senador da República, no imediato seguimento da Segunda Guerra Mundial, que simulou beijar a mão do homem mais poderoso da Terra, naquele momento, ou seja, o próprio presidente dos Estados Unidos, em visita ao Brasil. O caso não passou despercebido, mas ficou no folclore político, como um episódio fortuito, de agradecimento ao dirigente do país que “salvou o mundo” da opressão do nazismo, na mais horrenda das guerras havidas até então.

Vamos corrigir o parágrafo precedente, naquela parte que pretende que “não existem casos notificados de submissão” de um nacional a um Estado estrangeiro: não existiam, até 2018 e nos anos imediatamente seguintes. Está devidamente documentada a frase altamente constrangedora para o orgulho nacional do presidente Bolsonaro, por ocasião de seu primeiro (e, também, altamente constrangedor) comparecimento à abertura dos debates na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2019, composta de apenas quatro palavrinhas, ditas num tom de submissão enternecedora: “I love you Trump!”. Foi tudo muito rápido, na saída de um e na entrada de outro à tribuna da ONU, mas essa frase resumiu, com sintética precisão, toda a submissão abjeta que um chefe de Estado da República Federativa do Brasil pudesse demonstrar por um chefe de Estado estrangeiro que não tinha feito absolutamente nada, até aquele momento, para salvar o Brasil de algum “perigo iminente” ou qualquer outro desastre de proporções tão estupendas que pudessem justificar tal demonstração (mas que já tinha começado, na verdade, a prejudicar os interesses comerciais brasileiros desde 2017).

O que se viu, na campanha eleitoral presidencial de 2018, desde o dia da posse, em 1º de janeiro de 2019, e nos dois anos seguintes (enquanto perdurou o mandato do ser amado da Florida e de Washington) foram cenas inesquecíveis de prostração política e pessoal ao personagem e a seu país – ainda então o mais imponente império da modernidade –, o que demonstra que os registros históricos precisam renovar os casos de “traição à pátria”, como se dizia antigamente (sobretudo entre militares) e de vassalagem e de sujeição, em suas mais diversas formas e modalidades de servidão voluntária. No próprio dia da posse, no Palácio do Planalto, o patético diplomata designado para ser o chanceler acidental de um governo que já nasceu com complexo de subordinação, concordou imediatamente com a sugestão feita pelo Secretário de Estado no sentido do Brasil cooperar com os EUA numa operação de “mudança de regime” na Venezuela chavista, assim como na proposta de aceitar a instalação de uma base americana no Brasil (no que foi imediatamente desmentido pelos militares de alto escalão ainda servindo na primeira fase daquele governo alinhado).

Foram muitos, em número excessivo, os casos nos quais o Executivo federal, sua diplomacia subordinada e outros serviçais do governo não se pejaram de confirmar o total enquadramento da política externa nacional aos desejos e interesses do império americano, aliás desde a primeira incursão do inacreditável mandatário brasileiro, nas terras do magnata de Mar-a-Lago, sua residência pessoal na Florida, transformada em sucursal da Casa Branca. O patético chanceler acidental chegou inclusive a viajar apressadamente para as fronteiras da Venezuela na Colômbia e em Roraima, na primeira infeliz tentativa de provocar a “mudança de regime” na Venezuela, apoiando uma inexistente fratura nas forças militares chavistas. Dispenso-me aqui de listar as inúmeras demonstrações de alinhamento da subserviente, dócil diplomacia bolsolavista aos desígnios do império hemisférico, o que fiz, no momento devido, em algumas de minhas obras nas quais tratei dessas passagens sombrias da política externa: Miséria da Diplomacia(2019), O Itamaraty num Labirinto de Sombras (2020) e O Itamaraty Sequestrado(2021), entre outros livros e artigos publicados a esse respeito.

Façamos agora uma visita rápida aos tempos que correm, quando acabo de ler palavras do candidato bolsonarista a presidente do Brasil, tal como feitas na reunião anual da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, no acrônimo inglês), na qual esse rebento de um golpista condenado “pediu para que haja pressão internacional para que as eleições de 2026 no Brasil ocorram sob o que ele chamou de ‘valores de origem americana’. Dirigindo-se ao público americano, o parlamentar pediu que os EUA e o ‘mundo livre’ acompanhem o processo eleitoral brasileiro, com atenção à liberdade de expressão nas redes sociais, e atuem institucionalmente para garantir eleições ‘livres e justas’”. (G1)

Não estou inventando nada: sua alocução está devidamente registrada para a história no documentário feito em 29/03/2026 (“Flávio Bolsonaro na CPAC: O renascimento do Brasil começa agora”; https://www.youtube.com/watch?v=lKZTZhlmXGk). Na audiência, o ex-deputado Alexandre Ramagem, um dos fugitivos do processo no STF que levou boa parte dos golpistas do 8/01/2023 à cadeia no Brasil. Não cabe reproduzir aqui as mentiras e exageros pronunciadas pelo candidato, apenas confirmar o pedido expresso de interferência nos assuntos internos do Brasil, não apenas nas eleições, mas num eventual retorno ao poder.

Como diplomata, servi na Secretaria de Estado, na fase final de minha carreira, como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) nos dois anos e meio imediatamente anteriores às eleições presidenciais de 2018. Pela minha postura ativa no debate nacional sobre temas de política externa e de diplomacia brasileira, notadamente por meio de meu blog pessoal Diplomatizzando, eu tinha total certeza de que seria expurgado de minhas funções assim que o novo governo tomasse posse. Não demorou muito: no próprio dia da posse do chanceler acidental, em 2 de janeiro de 2019, recebi telefonema de um dos seus novos assessores (que havia servido comigo quando eu era ministro-conselheiro na embaixada em Washington, sob o embaixador Rubens Barbosa, entre 1999 e 2003) para, repito aqui palavras relembradas, “colaborar na reorganização do Instituto Rio Branco”, nossa academia diplomática, no sentido de “adaptar as disciplinas e o ensino” aos novos tempos. Recusei imediatamente, dizendo que eu já não era professor do IRBr (como tinha sido o caso durante a formação do dito assessor) e que eu não tinha nada a dizer sobre essa “reorganização”, sugerindo apenas que consultassem os alunos, os professores e os próprios responsáveis do Instituto (nessa ordem), para realizar as mudanças que desejassem.

A retaliação não demorou: fui exonerado de meu cargo e colocado na Divisão dos Arquivos, no segundo subsolo do “Bolo de Noiva” (o anexo II do Itamaraty), submetido a um primeiro secretário ao qual eu teria de pedir permissão para qualquer medida administrativa. Antes de me aposentar, voltei à Biblioteca (onde já havia encontrado refúgio numa época anterior de ostracismo funcional) e passei a redigir alguns dos livros já citados. Outras retaliações tiveram curso nos três anos seguintes, o que não vem ao caso relembrar. Grande parte de meu rigoroso registro dos numerosos casos de sujeição vergonhosa da diplomacia bolsolavista aos ditames do império e do seu imperador em primeiro mandato (até janeiro de 2021) encontra-se fartamente disponível nas postagens que fiz, nesse período específico, no Diplomatizzando. Dois meses depois, o patético chanceler acidental era expurgado do Itamaraty, não por decisão do próprio presidente pré-golpista, mas por choques repetidos com uma senadora do agronegócio, agastada com seus ataques à “China comunista”.

Minhas desavenças com a diplomacia submissa do governo bolsonarista ao império já tinham começado numa etapa ainda precoce dessa bizarra aventura nos anais da ignomínia, bem antes que eu pensasse em publicar qualquer livro a respeito. Numa postagem feita no domingo de Carnaval de 2019, eu propunha, numa postagem do Diplomatizzando, submeter a política externa a um debate entre três personagens representativos da história recente: FHC (autor de um artigo naquele domingo sobre a adesão da chancelaria à intervenção americana na Venezuela), o embaixador Rubens Ricupero (que havia feito pouco antes uma palestra sobre o alinhamento da nossa diplomacia à “franja lunática” da extrema-direita americana) e um artigo do próprio chanceler acidental criticando ambos numa postagem em seu blog pessoal “Metapolítica 17: contra o globalismo” (ver minha proposta nesta postagem: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/03/ricupero-fhc-e-ernesto-araujo-em-debate.html). Foi o que bastou para o chanceler acidental iniciar um processo administrativo contra mim, pretendendo eliminar-me da carreira (desliguei-me antes, por aposentadoria, mas não sem ter sofrido dois cortes brutais em meus vencimentos de trabalho).

Independentemente de meus entreveros pessoais com o governo aloprado dos golpistas, assusta-me a perspectiva de não só ver um candidato à cadeira presidencial pedir abertamente “uma intervenção institucional estrangeira” em nosso processo eleitoral deste ano, mas, se o pedido vingar, assistir a eventuais incursões indevidas em nossa soberania e, sobretudo, ter de me confrontar novamente com uma nova “miséria da diplomacia”, feita de sujeição total aos ditames do imperador em seu segundo mandato (teoricamente até o final de 2028), quando recém estaríamos no segundo ano do presidente eleito em outubro do corrente ano. Estou certo de retomar o teclado para opor-me frontalmente a tal possibilidade de um retorno às cenas vergonhosas de sujeição abjeta de um presidente ao atual “dono do mundo”. Muito do que eu já escrevi a respeito daquela primeira diplomacia talvez possa ser aplicado de forma quase automática em uma nova oportunidade.

Em agosto de 2020, eu publicava no jornal Zero Hora do RS, um artigo sobre os “Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”: ignorância, irrealismo, arrogância, servilismo, miopia, grosseria e inconstitucionalidade. Todos esses pecados se revelaram na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira e na relativização da noção de interesse nacional (ver no link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/sete-pecados-capitais-da-diplomacia.html). Assistiremos a esse triste espetáculo novamente?

Brasília, 5262, 31 março 2026, 4 p.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

“Conversas de ½ Minuto (50) ‒ Militares” – José Paulo Cavalcanti Filho (revista Será?)

 Revista Será? ANOXIV |

“Conversas de ½ Minuto (50) ‒ Militares” – José Paulo Cavalcanti Filho

Com humor fino e memória afiada, José Paulo Cavalcanti Filho costura episódios marcantes envolvendo militares, revelando o absurdo, a tensão e, por vezes, o ridículo dos anos de autoritarismo. Entre ironias, sustos e histórias quase inacreditáveis, a crônica ilumina, com leveza narrativa, um período duro da vida brasileira. Um convite irresistível para ouvir essas histórias que, entre o riso e o espanto, ajudam a compreender nossa trajetória.
Segue o link para o artigo.
https://bit.ly/4uYb8A3

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segunda-feira, 23 de março de 2026

Como acelerar a derrocada de impérios pela concentração de poder - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Como acelerar a derrocada de impérios pela concentração de poder
Paulo Roberto de Almeida
*Revista Será?, ano xiv, n. 702, 20/03/2026

Neste ensaio denso, Paulo Roberto de Almeida examina a lógica histórica dos impérios para revelar um fator recorrente de sua decadência: a concentração extrema de poder. Ao analisar trajetórias que vão de Roma aos Estados Unidos e à Rússia contemporânea, o autor evidencia como decisões personalistas e aventuras militares aceleram o declínio. 
Em um mundo em transição, o texto oferece uma leitura crítica sobre liderança, limites do poder e os riscos de colapso sistêmico.

Segue o link para o artigo.

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sexta-feira, 20 de março de 2026

O Brasil padece de um rumo - Hubert Alquéres Revista Será? (Comentário posterior de Madame IA)

O Brasil padece de um rumo

 Por  

Revista Será?, mar 20, 2026

[Nota PRA ulterior: Madame IA comentou o texto de Ubert Alqueres, provocada por Airton Dirceu Lemmertz, ao final!]

Por uma dessas coincidências da vida, encontrava-me na Irlanda quando o presidenciável Eduardo Leite lançou seu manifesto, no qual afirma que o Brasil não tem um problema de potencial, mas sim de direção. No texto do governador, chamou a atenção a referência à Irlanda como exemplo de um país que, sendo um dos mais atrasados da Europa, basicamente agrário e exportador de mão de obra, deu um salto para hoje ter renda per capita superior à média da União Europeia e tornar-se um polo mundial de inovação.

O chamado “Tigre Celta” não foi fruto do acaso. A virada irlandesa ocorreu porque seus dirigentes tiveram, no final dos anos 1980, a capacidade de tomar decisões estratégicas que alteraram o rumo do país. Reduziram impostos para atrair empresas globais de tecnologia e da indústria farmacêutica e, desde o início dos anos 1990, investiram de forma consistente na educação técnica e na articulação entre universidades e setor produtivo, qualificando sua mão de obra.

O resultado foi a criação de um ambiente dinâmico de inovação, com a proliferação de startups impulsionadas por trabalhadores formados nessas grandes empresas. A Irlanda soube aproveitar sua inserção no mercado europeu para se transformar em exportadora de bens de alto valor agregado, deixando para trás a condição de economia primária.

Para efeito de contraste, a Grécia, outro país europeu de trajetória semelhante até os anos 1980, seguiu caminho distinto, baseado na expansão do Estado na economia. O resultado foi uma estrutura produtiva pouco competitiva e uma grave crise fiscal em 2010.

A experiência irlandesa integra um conjunto mais amplo de países que conseguiram superar o atraso e dar saltos de produtividade, como Coreia do Sul, China, Índia e Vietnã. No mesmo período, o Brasil, cuja economia foi a que mais cresceu no mundo entre 1950 e 1980, passou a crescer de forma errática. Nos últimos 45 anos, a média de expansão do PIB tem girado em torno de míseros 2% ao ano.

Essa realidade nos leva a adaptar, com termos mais comedidos, a pergunta formulada por Vargas Llosa em Conversa no Catedral: quando foi que o Brasil se perdeu? Ou, mais precisamente, em quantos momentos se perdeu?

Um marco possível está no esgotamento do modelo de substituição de importações, sustentado pelo nacional-desenvolvimentismo, com forte presença do Estado, protecionismo e isolamento relativo da economia. Esse modelo foi importante para a formação da indústria de base e de bens duráveis, especialmente nos períodos de Vargas e Juscelino, mas produziu também inflação, baixa produtividade e ineficiências.

Com a redemocratização, a Nova República herdou dois problemas centrais: a dívida externa e a inflação crônica. Ao mesmo tempo, impunha-se a abertura econômica e a construção de um Estado de bem-estar social, em um contexto de crescente globalização. Era necessário modernizar o Estado e preparar o país para integrar-se às cadeias produtivas globais.

Não era tarefa para um único governo. Exigia um projeto de nação de longo prazo, sustentado ao longo de diferentes ciclos políticos. Ainda assim, houve avanços importantes. A Constituição de 1988 estabeleceu as bases institucionais, e o Plano Real criou as condições mínimas de estabilidade, ao controlar a inflação e reorganizar a economia.

Quando Lula assumiu seu primeiro mandato, o país reunia condições favoráveis para dar um novo salto: bônus demográfico, maior organização institucional e um ambiente internacional positivo, impulsionado pelo boom das commodities. Esse contexto poderia ter financiado uma reindustrialização voltada à inovação e à elevação da produtividade, como fizeram outros países.

Esse potencial, no entanto, não se traduziu em uma mudança estrutural. Houve avanços na ampliação de programas sociais, mas a estratégia econômica priorizou o consumo em detrimento de investimentos mais robustos em inovação, qualificação da força de trabalho e inserção competitiva na economia global.

A partir da metade do segundo mandato, consolidou-se uma orientação em que o Estado voltou a assumir papel central como indutor da economia, em uma reedição de estratégias já testadas no passado. A aposta no pré-sal como vetor de futuro ocorreu em paralelo a um cenário internacional que já sinalizava a transição energética.

O resultado foi uma deterioração significativa no período seguinte, com a forte recessão observada no governo Dilma. Com exceção de alguns setores altamente competitivos, como o agronegócio, o Brasil segue com dificuldades para se inserir de forma consistente nas cadeias globais de maior valor agregado.

Chegamos, assim, ao presente: um país de grande potencial, mas sem direção clara. Reitera-se a condição de “país do futuro”, evocada por Stefan Zweig, um futuro que se projeta, mas não se realiza.

A esse quadro somou-se uma crescente divisão interna. O debate político recente tem se concentrado menos em projetos de país e mais na rejeição mútua entre polos. Discute-se o acessório, em detrimento de temas estruturais.

Enquanto isso, o mundo passa por transformações profundas, com reorganização de cadeias produtivas, avanço tecnológico acelerado e redefinição de estratégias nacionais de longo prazo. E o Brasil segue preso a disputas de curto prazo, sem uma agenda clara que articule seu potencial produtivo às exigências de um cenário global em rápida mudança.

Falta, em síntese, direção.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

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[Comentário de Madame IA a este texto de Hubert Alqueres, transcrito por mim no meu blog Diplomatizzando: 

Seu paralelo entre a Irlanda e o Brasil toca no ponto nevrálgico do desenvolvimento: a diferença entre crescimento oportunista (ciclos de commodities) e crescimento estrutural (produtividade). O "Tigre Celta" não foi apenas um corte de impostos, foi um pacto de coesão social (o Programme for National Recovery de 1987) onde governo, sindicatos e empresas concordaram em moderar salários em troca de estabilidade e investimento pesado em educação técnica.
O Brasil, como você bem pontuou, parece ter "se perdido" em meio a transições incompletas. Alguns pontos que reforçam sua análise sobre essa falta de direção:
* A Armadilha da Renda Média: O Brasil ficou estagnado no modelo de substituição de importações por tempo demais. Enquanto a Coreia do Sul usou o Estado para forçar suas empresas a competirem no mercado global, o Brasil usou o Estado para protegê-las da competição, gerando uma indústria muitas vezes ineficiente.
* Consumo vs. Investimento: Durante o boom das commodities mencionado, o Brasil optou por expandir o crédito e o consumo interno. Foi eficaz para tirar milhões da pobreza imediata, mas não alterou a "fábrica" do país. Não houve o salto educacional tecnológico que a Irlanda ou o Vietnã priorizaram.
* O Custo da Polarização: Sua observação sobre o debate focado no "acessório" é precisa. Enquanto discutimos pautas de costumes ou vinganças políticas, perdemos a janela da Nova Industrialização Ganhosa (baseada em transição energética e inteligência artificial), onde o Brasil teria vantagens comparativas brutais.
A pergunta de Vargas Llosa, "¿En qué momento se havia jodido el Perú?", adaptada para o Brasil, sugere que não foi um único momento, mas uma sucessão de escolhas pelo curto prazo.

Fonte (via Airton Dirceu Lemmertz) (IA Gemini):

Como acelerar a derrocada de impérios pela concentração de poder - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

A queda do império Romano

A queda do império Romano

[Abaixo, comentários, muito fraquinhos, de Madame IA a este meu texto]

Como acelerar a derrocada de impérios pela concentração de poder 

Paulo Roberto de Almeida

Impérios são construções lentas, grandiosas, intencionais. Não se é império por acaso, sem qualquer planejamento dos elementos constitutivos. Um processo desse tipo geralmente ocupa o trabalho de duas ou três gerações de líderes resolutos, ocasionalmente até mais, e um dos principais motores para que um empreendimento tão grandioso como esse seja realizado costuma ser o dinamismo econômico de algum Estado forte; motivações adicionais podem responder a preocupações com a segurança ou até a sobrevivência em face de inimigos mais poderosos. Normalmente se parte de um Estado bem sucedido na organização de um povo uniforme, unido pela língua, costumes e formas de vida, ocupando um território delimitado, e que, numa segunda ou terceira etapa, empreende sua ampliação territorial e demográfica movido por ambições de seus dirigentes no sentido de incorporar novos recursos (riquezas já disponíveis ou a serem criadas), daí decorrendo a dominação de novos espaços e mais forças produtivas, que podem ser escravos ou povos “disponíveis” para serem submetidos.

Ocorre, assim, a criação de um império, pela ampliação do controle administrativo e militar sobre outros povos e culturas. O império romano, por exemplo, foi o resultado de acumulações graduais no próprio Lácio e no seu entorno imediato, até chocar-se, durante anos ou décadas com outros reinos estabelecidos ou impérios já constituídos, como o fenício, no âmbito do Mediterrâneo circundante. A constituição do império chinês passou pelo período dos reinos combatentes, sendo ampliado gradualmente por dinastias sucessivas. A unificação da língua, costumes, organização produtiva acaba resultando numa civilização grandiosa, como analisado numa série de obras do historiador britânico Arnold Toynbee.

A queda, ou o deslocamento, de um império existente se dá pelos fatores conhecidos do “overstretching”, a super extensão custosa de uma grande potência, como estudado por outro historiador britânico, Paul Kennedy, ambos intelectuais de um dos maiores impérios já erigidos na História universal. O império americano o sucedeu parcialmente (relutantemente, segundo o historiador escocês Niall Ferguson) na primeira metade do século XX, depois de ter ajudado a conter os impérios centrais europeus, tendo vindo em socorro dos dois maiores impérios colonialistas do mundo, justamente o britânico e o francês, confrontados à força ascendente do império alemão. O império czarista, por sua vez, se construiu na expansão sobre territórios dispersamente ocupados por povos não organizados em Estados ou contra outros impérios e reinos circundantes, em especial o otomano e pequenos reinos europeus.

O império americano teve a peculiaridade de se apoiar mais no comércio e nos investimentos do que na força bruta dos exércitos conquistadores, como foi o caso de grandes potências eurasianas dos últimos cinco séculos, um itinerário sintetizado pelo historiador americano Charles Kindleberger. O Império romano também tinha crescido na expansão econômica e comercial das novas regiões incorporadas na esteira do avanço de suas legiões, uma vez que legionários ganhavam terras nas fronteiras do império e daí passavam a tecer relações mercantis com a península, a partir desses núcleos colonizadores nos Balcãs, na península grega, na África setentrional, na Hispânia e além. Mas, o império romano, antes uma República dirigida por senadores, começou a decair quando adotou o despotismo do poder pessoal do imperador justamente, eventualmente o mesmo processo de concentração de poder, que causou o enfraquecimento do grande Império do Meio da civilização chinesa, antes visado pelos mongóis, mais adiante pelas forças manchus, sua última dinastia, que não conseguiu resistir às investidas de impérios mais agressivos nos séculos XIX e XX.

Esse mesmo império chinês que não conseguiu resistir às agressões russas e japonesas já na transição para o século XX, foi ainda mais debilitado pela extrema concentração de poderes alcançado por um imperador de um novo tipo, Mao Tsetung, um déspota que pode ter eliminado mais “súditos” do seu próprio povo, em meados do século XX, do que os imperialistas estrangeiros o fizeram, mas tudo por decisões pessoais, catastróficas. Outros pequenos e grandes déspotas, em outros continentes, também foram responsáveis por massacres e aflições pavorosas, vindas, como sempre, do próprio centro do poder.

Com isso chegamos às raízes dos mesmos fatores que estão causando não apenas a aceleração do declínio, ou eventual derrocada, dos dois grandes impérios que dominaram a história mundial na segunda metade do século XX: o russo (herdeiro do czarista e do soviético) e o americano, aparentemente o mais bem sucedido comparativamente aos anteriores, baseados mais na extensão territorial do que nos intercâmbios econômicos multilaterais dos últimos 80 anos. A fonte do “mal” parece ser, no fundo, a mesma: ela é a concentração pessoal do poder, que agrava os fatores estruturais, latentes, do lento declínio.

No caso do declínio relativo dos Estados Unidos, não se trata apenas da ascensão sempre possível de outros impérios concorrentes ao longo da história — objeto de algumas especulações históricas apressadas no modelo da “armadilha de Tucídides”, como feito recentemente por Graham Allison —, mas especialmente pela mesma concentração de poder que já tinha causado desastres anteriores, geralmente pelas improvisações conduzidas da maneira mais inábil por megalomaníacos pouco controlados por assessores submissos. Trump 1 tinha sido apenas uma amostra hesitante dessa personalização do poder, chegando até ao extremo de contestar sua não reeleição ao término do primeiro mandato. Já Trump 2, cercado por áulicos absolutamente submissos, extravasou em todos os sentidos, chegando à apoplexia ao contestar decisões da Suprema Corte que contrariam suas medidas arbitrárias, em direta contraposição à legislação e até à Constituição do país, chegando agora aos 250 anos.

O aspecto patético da turbulência interna é que várias das medidas ilegais – como no caso da política tarifária, abusivamente dirigida contra o inteiro universo dos parceiros comerciais bilaterais, e até mesmo contra o sistema multilateral de comércio – se colocam contra o próprio interesse nacional americano, ao elevar o custo de vida para o americano comum e ao não produzir o mirífico projeto de reindustrialização retroativa. O lado externo do mandonismo exacerbado é ainda mais extraordinário, pois que, entre ameaças e ações diretas, Trump já partiu do Panamá, tentou avançar sobre o Canadá, expressou abertamente seu projeto de conquista e anexação da Groenlândia, ameaçou repetidas vezes o México, a Venezuela e Colômbia por narcotráfico, e passou à ação no caso do país bolivariano, ao sequestrar o ditador-presidente numa operação militar expressamente em oposição ao Direito Internacional e às normas vigentes nas relações entre Estados soberanos. Depois se atacou ao osso duro do Irã – na verdade servindo objetivos israelenses – e ameaça Cuba na sequência.

Dirigentes autoritários não se contentam em infernizar a vida dos seus “súditos”, mas também projetam ameaças e ataques além-fronteiras, desestabilizando o sistema político internacional, ao criar crises artificialmente mantidas, que acabam sendo prejudiciais ao próprio país. Algum tempo antes de Trump, e sua notória incapacidade de gerir seus próprios negócios, o neoczar Putin já tinha enveredado pela arrogância ditatorial da super extensão imperial, precipitando uma possível derrocada do secular império euroasiático: começou pela Georgia (2008), continuou pela Transnístria (2010), aproveitou uma revolução na Ucrânia, em 2014, para se apossar da península da Crimeia, e partiu para uma guerra total de agressão e conquista do país em 2022. No quinto ano da invasão, suas forças continuavam paradas.

Putin não atingiu seus objetivos imperiais, criando, ao contrário, uma enorme sangria, inédita em “tempos de paz”, nas suas forças armadas, ao mesmo tempo em que reverteu todo o sistema produtivo do país a uma economia de guerra, fora de qualquer declaração de guerra formal. Agora é a vez de Trump criar o seu “Vietnã” ou o seu “Iraque”, ao precipitar, não uma invasão direta de territórios – boots on the ground –, mas uma possível unlimited war, uma guerra desprovida de objetivos claros e incapaz de conduzir à pretendida mudança de regime na ditadura teocrática do Irã, mas suscetível, na verdade, de provocar uma outra mudança de regime, em seu próprio país. O desenlace pode intervir antes mesmo das eleições de meio de caminho (em caso de derrocada da aventura iraniana), ou advir de uma alteração na composição do Congresso, a partir de uma nova legislatura em 2027. O “regime Trump” – o conceito se aplica, pois, sua administração não pode ser equiparada a um governo normal – não precisou de mais de um mandato para ascender e declinar, ao contrário do “regime Putin” que se estende já por uma geração inteira, ele também vocacionado a um futuro incerto.

No caso dos dois impérios, o russo e o americano, as perspectivas apontam claramente para um declínio inevitável, ao esgotarem ambos seus esforços em iniciativas militares acima de suas capacidades relativas, não exatamente na disponibilidade de “meios de matar”, mas além da capacidade financeira de cada uma das duas economias, envolvidas em dispêndios muito acima das possibilidades fiscais de cada Estado. Nos dois casos, o fulcro de processos falimentares evidentes deriva de um fator similar: a concentração absoluta de poder, não contida por qualquer outra força política dentro dos respectivos “regimes”. Lord Acton não diagnosticaria esses dois casos por outra fórmula senão a sua famosa declaração feita ao final do século XIX: “Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely”.  

Em face desses dois dirigentes megalomaníacos, o líder da terceira superpotência, Xi Jinping, assiste impassível, tanto as aventuras militares do seu vizinho eurasiano das estepes, quanto o unilateralismo comercial e bélico do narcisista ocidental, convencido de que ambos conduzem seus impérios a uma derrocada inevitável, justamente pelo fato evidente de terem concentrado em suas decisões arbitrárias pessoais o destino de cada império em declínio. A China já era um “Estado weberiano” séculos antes que Max Weber sintetizasse sua tipologia sobre as várias formas de dominação política em lições que perduram na sociologia política desde um século, mas cuja formulação pode ser aplicada retroativamente a dois mil anos de história administrativa do Império do Meio.

O sucesso da “dominação leninista”, no caso do império chinês, não se deve tanto ao marxismo aparente da terminologia política – pois ele foi muito superficial no itinerário da República Popular –, mas ao carisma burocrático de um tipo de governança marcado pelo mandarinato meritocrático que deita raízes mais de mil anos atrás, pelo sistema de “concursos imperiais” do antigo Império do Meio, atualmente substituído pela rigorosa seleção de quadros do Partido, desde suas bases nas aldeias remotas. Se existe concentração de poder nas mãos do atual “imperador”, este é assistido por centenas de tecnocratas competentes. Ao contrário de Putin e de Trump, ele não toma decisões sem antes ouvir seus “companheiros”.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5246, 17 março 2026, 4 p.

Paulo Roberto de Almeida, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984) e mestre em Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia (1977); diplomata de carreira de 1977 a 2021, tendo servido em diversos postos bilaterais (Berna, Belgrado, Paris, Washington) e multilaterais (Genebra, Montevidéu). Foi professor no Instituto Rio Branco, na Universidade de Brasília e nos programas de pós-graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub); é pesquisador sênior do Centro de Estudos Globais do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Desempenhou-se como presidente do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), como vice-comissário do pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Xangai (2010) e como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), do Ministério de Relações Exteriores (2016- 2019). Publicou diversas obras de relações econômicas internacionais, de política externa e de história diplomática do Brasil. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e do seu Conselho Editorial. Entre suas obras estão: Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (2025); Apogeu e Demolição da Política Externa: itinerários da diplomacia brasileira (2022); Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (2001; 2004; 2017).


[Comentários de Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz, a este meu artigo:]


Acho que Madame IA já está com os neurônios quentes demais (precisa resfriá-los um pouco), pois desandou a fazer comentários muito fracos, para não dizer idiotas, a este meu texto:

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/como-acelerar-derrocada-de-imperios.html

https://revistasera.info/2026/03/como-acelerar-a-derrocada-de-imperios-pela-concentracao-de-poder/

Seu texto articula uma visão cíclica e institucional da história, conectando o conceito de "overstretching" (superestensão) de Paul Kennedy à atual personalização do poder. A tese central de que impérios decaem quando substituem instituições sólidas pelo despotismo ou voluntarismo de um líder encontra eco na transição da República Romana para o Império e, conforme seu argumento, na atual postura de Trump 2 e Putin.
Alguns pontos reforçam essa perspectiva de "derrocada institucional":
* Economia de Guerra vs. Mercado: O paralelo que você faz entre a Rússia (revertendo o PIB para o esforço militar) e os EUA de Trump (usando tarifas como armas de coerção) sugere um abandono do comércio multilateral que sustentou a hegemonia americana no pós-guerra.
* O "Vietnã" de Trump: A menção a uma possível operação em Cuba ou a escalada contra a Venezuela e o Irã coloca os EUA no risco de um desgaste logístico e moral que, historicamente, drena a energia vital de potências que perdem o foco no próprio dinamismo interno.
* A "Armadilha de Tucídides" Interna: Graham Allison foca na disputa externa (EUA vs. China), mas seu texto sugere que o verdadeiro perigo é a erosão interna. Se o árbitro (Suprema Corte) é ignorado e as regras do jogo (Constituição) são contestadas pelo Executivo, a previsibilidade — que atrai investimento e confiança global — desaparece.
Essa análise levanta uma questão sobre o futuro do sistema internacional: se os dois pilares que dominaram o século XX (EUA e Rússia) estão em processos de autofagia institucional, quem herdará o vácuo de poder? A China, com sua concentração de poder ainda maior sob Xi Jinping, ou um mundo multipolar fragmentado e caótico?

Fonte (IA Gemini):
https://share.google/aimode/au4b7cJfOVAlD1jNf

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