De novo a submissão ao Império?

Submissão
A história do Brasil tem poucos, pouquíssimos exemplos de nacionais que se colocaram voluntariamente a serviço de um Estado estrangeiro. Na era colonial, submetidos que estavam os brazilienses, na expressão de Hipólito da Costa – isto é, os súditos da coroa portuguesa nascidos e criados em solo do Brasil, a principal e a mais importante colônia do vasto império ultramarino lusitano – se podia até compreender aqueles mais servis ao poder da monarquia metropolitana que se dispunham voluntariamente – ou por algum benefício pessoal – a continuarem fiéis aos mandatários da corte e aos seus representantes locais, colaborando com o poder estrangeiro. Foram raros esses casos, mas existiram, e seus nomes estão devidamente registrados nos anais do opróbio nacional.
Na era contemporânea, isto é, republicana, não existem casos devidamente notificados de uma tal submissão a um poder estrangeiro, pelo menos de maneira escandalosa. Houve, sim, um exemplo constrangedor de um senador da República, no imediato seguimento da Segunda Guerra Mundial, que simulou beijar a mão do homem mais poderoso da Terra, naquele momento, ou seja, o próprio presidente dos Estados Unidos, em visita ao Brasil. O caso não passou despercebido, mas ficou no folclore político, como um episódio fortuito, de agradecimento ao dirigente do país que “salvou o mundo” da opressão do nazismo, na mais horrenda das guerras havidas até então.
Vamos corrigir o parágrafo precedente, naquela parte que pretende que “não existem casos notificados de submissão” de um nacional a um Estado estrangeiro: não existiam, até 2018 e nos anos imediatamente seguintes. Está devidamente documentada a frase altamente constrangedora para o orgulho nacional do presidente Bolsonaro, por ocasião de seu primeiro (e, também, altamente constrangedor) comparecimento à abertura dos debates na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2019, composta de apenas quatro palavrinhas, ditas num tom de submissão enternecedora: “I love you Trump!”. Foi tudo muito rápido, na saída de um e na entrada de outro à tribuna da ONU, mas essa frase resumiu, com sintética precisão, toda a submissão abjeta que um chefe de Estado da República Federativa do Brasil pudesse demonstrar por um chefe de Estado estrangeiro que não tinha feito absolutamente nada, até aquele momento, para salvar o Brasil de algum “perigo iminente” ou qualquer outro desastre de proporções tão estupendas que pudessem justificar tal demonstração (mas que já tinha começado, na verdade, a prejudicar os interesses comerciais brasileiros desde 2017).
O que se viu, na campanha eleitoral presidencial de 2018, desde o dia da posse, em 1º de janeiro de 2019, e nos dois anos seguintes (enquanto perdurou o mandato do ser amado da Florida e de Washington) foram cenas inesquecíveis de prostração política e pessoal ao personagem e a seu país – ainda então o mais imponente império da modernidade –, o que demonstra que os registros históricos precisam renovar os casos de “traição à pátria”, como se dizia antigamente (sobretudo entre militares) e de vassalagem e de sujeição, em suas mais diversas formas e modalidades de servidão voluntária. No próprio dia da posse, no Palácio do Planalto, o patético diplomata designado para ser o chanceler acidental de um governo que já nasceu com complexo de subordinação, concordou imediatamente com a sugestão feita pelo Secretário de Estado no sentido do Brasil cooperar com os EUA numa operação de “mudança de regime” na Venezuela chavista, assim como na proposta de aceitar a instalação de uma base americana no Brasil (no que foi imediatamente desmentido pelos militares de alto escalão ainda servindo na primeira fase daquele governo alinhado).
Foram muitos, em número excessivo, os casos nos quais o Executivo federal, sua diplomacia subordinada e outros serviçais do governo não se pejaram de confirmar o total enquadramento da política externa nacional aos desejos e interesses do império americano, aliás desde a primeira incursão do inacreditável mandatário brasileiro, nas terras do magnata de Mar-a-Lago, sua residência pessoal na Florida, transformada em sucursal da Casa Branca. O patético chanceler acidental chegou inclusive a viajar apressadamente para as fronteiras da Venezuela na Colômbia e em Roraima, na primeira infeliz tentativa de provocar a “mudança de regime” na Venezuela, apoiando uma inexistente fratura nas forças militares chavistas. Dispenso-me aqui de listar as inúmeras demonstrações de alinhamento da subserviente, dócil diplomacia bolsolavista aos desígnios do império hemisférico, o que fiz, no momento devido, em algumas de minhas obras nas quais tratei dessas passagens sombrias da política externa: Miséria da Diplomacia(2019), O Itamaraty num Labirinto de Sombras (2020) e O Itamaraty Sequestrado(2021), entre outros livros e artigos publicados a esse respeito.
Façamos agora uma visita rápida aos tempos que correm, quando acabo de ler palavras do candidato bolsonarista a presidente do Brasil, tal como feitas na reunião anual da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, no acrônimo inglês), na qual esse rebento de um golpista condenado “pediu para que haja pressão internacional para que as eleições de 2026 no Brasil ocorram sob o que ele chamou de ‘valores de origem americana’. Dirigindo-se ao público americano, o parlamentar pediu que os EUA e o ‘mundo livre’ acompanhem o processo eleitoral brasileiro, com atenção à liberdade de expressão nas redes sociais, e atuem institucionalmente para garantir eleições ‘livres e justas’”. (G1)
Não estou inventando nada: sua alocução está devidamente registrada para a história no documentário feito em 29/03/2026 (“Flávio Bolsonaro na CPAC: O renascimento do Brasil começa agora”; https://www.youtube.com/watch?v=lKZTZhlmXGk). Na audiência, o ex-deputado Alexandre Ramagem, um dos fugitivos do processo no STF que levou boa parte dos golpistas do 8/01/2023 à cadeia no Brasil. Não cabe reproduzir aqui as mentiras e exageros pronunciadas pelo candidato, apenas confirmar o pedido expresso de interferência nos assuntos internos do Brasil, não apenas nas eleições, mas num eventual retorno ao poder.
Como diplomata, servi na Secretaria de Estado, na fase final de minha carreira, como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) nos dois anos e meio imediatamente anteriores às eleições presidenciais de 2018. Pela minha postura ativa no debate nacional sobre temas de política externa e de diplomacia brasileira, notadamente por meio de meu blog pessoal Diplomatizzando, eu tinha total certeza de que seria expurgado de minhas funções assim que o novo governo tomasse posse. Não demorou muito: no próprio dia da posse do chanceler acidental, em 2 de janeiro de 2019, recebi telefonema de um dos seus novos assessores (que havia servido comigo quando eu era ministro-conselheiro na embaixada em Washington, sob o embaixador Rubens Barbosa, entre 1999 e 2003) para, repito aqui palavras relembradas, “colaborar na reorganização do Instituto Rio Branco”, nossa academia diplomática, no sentido de “adaptar as disciplinas e o ensino” aos novos tempos. Recusei imediatamente, dizendo que eu já não era professor do IRBr (como tinha sido o caso durante a formação do dito assessor) e que eu não tinha nada a dizer sobre essa “reorganização”, sugerindo apenas que consultassem os alunos, os professores e os próprios responsáveis do Instituto (nessa ordem), para realizar as mudanças que desejassem.
A retaliação não demorou: fui exonerado de meu cargo e colocado na Divisão dos Arquivos, no segundo subsolo do “Bolo de Noiva” (o anexo II do Itamaraty), submetido a um primeiro secretário ao qual eu teria de pedir permissão para qualquer medida administrativa. Antes de me aposentar, voltei à Biblioteca (onde já havia encontrado refúgio numa época anterior de ostracismo funcional) e passei a redigir alguns dos livros já citados. Outras retaliações tiveram curso nos três anos seguintes, o que não vem ao caso relembrar. Grande parte de meu rigoroso registro dos numerosos casos de sujeição vergonhosa da diplomacia bolsolavista aos ditames do império e do seu imperador em primeiro mandato (até janeiro de 2021) encontra-se fartamente disponível nas postagens que fiz, nesse período específico, no Diplomatizzando. Dois meses depois, o patético chanceler acidental era expurgado do Itamaraty, não por decisão do próprio presidente pré-golpista, mas por choques repetidos com uma senadora do agronegócio, agastada com seus ataques à “China comunista”.
Minhas desavenças com a diplomacia submissa do governo bolsonarista ao império já tinham começado numa etapa ainda precoce dessa bizarra aventura nos anais da ignomínia, bem antes que eu pensasse em publicar qualquer livro a respeito. Numa postagem feita no domingo de Carnaval de 2019, eu propunha, numa postagem do Diplomatizzando, submeter a política externa a um debate entre três personagens representativos da história recente: FHC (autor de um artigo naquele domingo sobre a adesão da chancelaria à intervenção americana na Venezuela), o embaixador Rubens Ricupero (que havia feito pouco antes uma palestra sobre o alinhamento da nossa diplomacia à “franja lunática” da extrema-direita americana) e um artigo do próprio chanceler acidental criticando ambos numa postagem em seu blog pessoal “Metapolítica 17: contra o globalismo” (ver minha proposta nesta postagem: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/03/ricupero-fhc-e-ernesto-araujo-em-debate.html). Foi o que bastou para o chanceler acidental iniciar um processo administrativo contra mim, pretendendo eliminar-me da carreira (desliguei-me antes, por aposentadoria, mas não sem ter sofrido dois cortes brutais em meus vencimentos de trabalho).
Independentemente de meus entreveros pessoais com o governo aloprado dos golpistas, assusta-me a perspectiva de não só ver um candidato à cadeira presidencial pedir abertamente “uma intervenção institucional estrangeira” em nosso processo eleitoral deste ano, mas, se o pedido vingar, assistir a eventuais incursões indevidas em nossa soberania e, sobretudo, ter de me confrontar novamente com uma nova “miséria da diplomacia”, feita de sujeição total aos ditames do imperador em seu segundo mandato (teoricamente até o final de 2028), quando recém estaríamos no segundo ano do presidente eleito em outubro do corrente ano. Estou certo de retomar o teclado para opor-me frontalmente a tal possibilidade de um retorno às cenas vergonhosas de sujeição abjeta de um presidente ao atual “dono do mundo”. Muito do que eu já escrevi a respeito daquela primeira diplomacia talvez possa ser aplicado de forma quase automática em uma nova oportunidade.
Em agosto de 2020, eu publicava no jornal Zero Hora do RS, um artigo sobre os “Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”: ignorância, irrealismo, arrogância, servilismo, miopia, grosseria e inconstitucionalidade. Todos esses pecados se revelaram na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira e na relativização da noção de interesse nacional (ver no link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/sete-pecados-capitais-da-diplomacia.html). Assistiremos a esse triste espetáculo novamente?
Brasília, 5262, 31 março 2026, 4 p.
