Sob o manto da retórica...
Helga Hoffmann
Revista Será?, 14/08/2026
Uma reflexão oportuna de Helga Hoffmann expõe como privilégios, penduricalhos e mecanismos corporativistas corroem a legitimidade do Judiciário brasileiro. A autora recupera décadas de denúncias, critica a lenta superação da “aposentadoria-punição”, questiona códigos de ética sem sanções e mostra como a linguagem pode encobrir violações ao teto constitucional. Ao defender transparência, prestação de contas e explicações jurídicas em português claro, o texto convoca a sociedade a não deixar a Constituição apenas nas mãos de seus intérpretes oficiais.
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terça-feira, 18 de agosto de 2026
Sob o manto da retórica... (os privilégios do Judiciário) - Helga Hoffmann (Revista Será?)
sábado, 15 de agosto de 2026
Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre : Sobrados e Mocambos - Paulo Gustavo (Revista Será?)
Da valente, corajosa e interrogativa revista Será? (Com a qual colaboro):
Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre
Por Paulo Gustavo
Revista Será?, ago 14, 2026
Sobrados e Mocambos
Não tivesse Gilberto Freyre escrito “Casa-grande & senzala” (1933), “Sobrados e Mucambos” (1936) teria se fixado como sua obra-prima. O livro, como se sabe, é uma continuação da história social do patriarcado brasileiro iniciada pelo primeiro e, a rigor, “originalmente planejado para ser parte daquele” (Cf. “Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre”, de Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke; São Paulo: Editora Unesp, 2009). O subtítulo, por si mesmo, anuncia a vastidão do tema: “Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano”.
A propósito da importância dessa obra para o próprio Freyre, trago aqui, por curioso e pertinente, o testemunho pessoal do historiador e sociólogo Vamireh Chacon em sua palestra “Significado de ‘Sobrados e mucambos’”, inserida no livro “Sobrados e mucambos: entendimento e interpretação”, organizado por Edson Nery da Fonseca e publicado pela Editora Massangana em 1996. Confessa Chacon: “Eu mesmo perguntei a Gilberto Freyre qual livro seu da sua íntima predileção. Insinuou-me, apenas insinuação, ‘Sobrados e Mucambos’ ao lado de ‘Nordeste’, por mais que se sentisse preso a ‘Casa-grande & senzala’. Também ele fora menino de sobrado, não menino de engenho”… Mas não conta apenas nesse caso o passado infantil, conta mais, creio, a própria lucidez de Freyre. De resto, para alguns especialistas, “Sobrados e mucambos”, na esteira do autor, é que seria a sua verdadeira obra-prima.
Se há uma continuidade com o famoso “opus magnum”, a começar pela homologia dos títulos e pela sequência historiográfica, também, por outro lado, há, quanto a forma geral, uma descontinuidade, apresentando-se “Sobrados e mucambos” como um livro mais apolíneo que “Casa-grande & senzala”, ensaio que teve um ímpeto e um pioneirismo, por assim dizer, dionisíacos, para usar aqui uma distinção nietzschiana tão do gosto do autor.
Evidentemente, numa e noutra obra, o autor se detém numa de suas obsessões de antropólogo, sociólogo e historiador social: a casa, em especial em sua relação com a formação social do brasileiro. O tema voltaria a ser monograficamente retomado com a publicação, em 1979, de “Oh de casa! Em torno da casa brasileira e de sua projeção sobre um tipo nacional de homem”. Nesse livro, numa “Nota do autor”, Freyre reconhece que, ao lado do que é inédito, “Há repetições que são ênfases quanto a aspectos do assunto que o autor considera sob perspectivas porventura novas […]”. “Repetições”, grife-se, um assumido e inconfundível hábito estilístico-hermenêutico freyriano.
À semelhança do que vemos em “Casa-grande & senzala”, também em “Sobrados e mucambos” é um espírito proustiano que guia o autor. É ele próprio quem o diz na “Introdução à segunda edição”: “Do passado se pode escrever o que Proust escreveu do mundo: que está sendo sempre recriado pela arte. E quase como a arte pode ser a ciência, busca ou procura de realidade complexa que adormeça em fatos aparentemente mortos tanto como em naturezas chamadas igualmente mortas: uns e outros valorizados e incorporados ao conhecimento humano pelo impressionismo revelador de aspectos equívocos ou fugazes de realidade ostensivamente viva ou aparentemente morta”. Peço perdão por essa tão longa quanto necessária citação, uma vez que nela se vislumbra o próprio ânimo criador de Freyre, toda uma lente com que escreve as suas obras.
Se quero apresentar o livro aniversariante, sem a pretensão de falar para especialistas, devo dizer, embora numa síntese infinitamente redutora, que, entre os polos emblemáticos e icônicos do título, “sobrado” e “mucambo”, estende-se toda uma ampla paisagem social. Paisagem esta que recobre os séculos XVIII e XIX e é explorada em relação a personagens e tipos (pai e filho, mulher e homem, bacharel e mulato, brasileiro e europeu), além de pares como casa e rua, engenho e praça, Oriente e Ocidente, com destaque para a miscigenação do povo brasileiro, um tema sempre nuclear para o autor. Freyre nada de braçada no que os historiadores da Escola dos Anais chamaram de “longa duração”. A “Sobrados e mucambos”, suponho, também se aplicariam as palavras do grande historiador Fernand Braudel sobre “Casa-grande & senzala”: “O milagre crucial foi ter sabido como juntar uma narrativa histórica exata e cuidadosa com uma sociologia fina e impecável”, como mencionado por Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke no livro já citado.
Finalmente, a propósito de mocambos (palavra cuja atual grafia é exclusivamente com a vogal “o”), relembro, “a latere”, que, durante o Estado Novo, Freyre polemizou com o governo do interventor de Pernambuco Agamenon Magalhães. Polêmica que se deu em 1939, quando Magalhães lançou a Liga Social contra o Mocambo, uma campanha pela erradicação desse tipo de habitação popular. O historiador Gustavo Mesquita, professor da Universidade de Brasília, em seu premiado livro “Gilberto Freyre o Estado Novo: região, nação e modernidade”, toca no polêmico ponto (Em “Oh de casa!”, um capítulo volta ao tema: “Mucambos do Nordeste como exemplo do tipo mais primitivo de casa popular brasileira”).
Segundo Mesquita, o sociólogo achava que “O poder público deveria resolver os problemas de insalubridade [no Recife, os casebres ficavam, geralmente, em áreas alagadiças] dos ambientes ao redor dos mocambos, mas não demolir as casas construídas com matéria-prima nativa e adequada ao clima tropical”. Freyre e intelectuais aliados buscaram a revogação de tal política cujo propósito “atendia o interesse do interventor de afastar o proletariado urbano da doutrina marxista da luta de classes, costurando certo consenso sobre a importância do saneamento básico […]”. Para o autor pernambucano, que correu o risco de ser mal interpretado e tido por pitoresco, “era algo negativo” “mudar a identidade afro-brasileira das duas cidades [Recife e Rio] sem observar a demanda pela valorização desse modo de ser autóctone e benéfico para a vida social sob o condicionamento agreste dos trópicos […]”.
Polêmicas à parte, celebremos os 90 anos deste clássico incontornável: “Sobrados e mucambos”.
domingo, 9 de agosto de 2026
Homenagem aos pais, no seu dia, por João Rego (Revista Será?)
Singela homenagem afetiva do editor da revista Será?, no seu dia, que partilho a seguir:
UM PAI
João Rego
Editor da Revista Será?
Perdi meu pai de forma abrupta e precoce quando eu tinha 13 anos. Ele, aos 45, morreu de um infarto fulminante. Mas o pouco tempo que convivemos formou em mim uma sólida base afetiva, construída pelo sentimento de proteção e pelo carinho que ele me dedicava. Levei muitos anos para conseguir escavar essas memórias que habitavam em mim — vivas e atuantes na formação do adulto que me tornei, embora ainda inacessíveis à minha consciência. Como um mecanismo natural de minha relação com a vida, fui, pela via da identificação, “encontrando” outros pais ao longo do caminho. Um deles, talvez um dos mais importantes, foi meu sogro, que tinha a mesma generosidade e o mesmo sentimento de proteção.
A função primordial de um pai, seja ele biológico ou adotivo — homem ou mulher —, é proporcionar ao filho, pelas poderosas vias do afeto, acolhimento, proteção e amor incondicional. Muitas vezes, esses vínculos afetivos se revelam mais poderosos do que os próprios laços biológicos. Trata-se de um exercício contínuo, voltado a ajudar o filho a dar os primeiros passos na vida e a acompanhá-lo mesmo quando o tempo e a distância já nos mostram que ele segue seu caminho por seus próprios meios. Assim, os filhos transformam-se em “patrimônios vivos” de nossa existência e constituem fortes elos da complexa e misteriosa cadeia da vida, que segue seu inexorável fluxo, tecendo o futuro.
Minha homenagem a todos e a todas que exercem essa função paterna, independentemente dos recursos de que dispõem e dos obstáculos que a vida, tantas vezes de forma tão desigual, lhes impõe.
Recife, 9 de agosto de 2026
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?); + Madame IA refaz a história
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais
Por Paulo Roberto de Almeida |
Revista Será?, jul 10, 2026 | Artigos

O Estado pantagruélico
Uma coisa me incomodava bastante, quando eu finalmente me instalei, com todos os meus apetrechos e bagagens, nestas terras que me eram prometidas desde que aqui aportou uma tropa de navegantes no caminho das Índias. Os navegadores, todos buscando as riquezas que Marco Polo tinha visto em Cathay, mas que sabíamos de outras, mais prosaicas, nas Índias, buscavam justamente confirmar o que um dos meus patrícios da terrinha, tinha antevisto ainda antes de Tordesilhas: havia terras mais além daqueles mares nunca de antes navegados. Mas tínhamos de agir rápido, contra as pretensões dos furbos espanhóis, ajudados por aquele papa corrupto e fornicador, que tinha antes feito uma partição muito em nosso prejuízo. O que tinha ficado de Tordesilhas era pouco, comparado à vastidão das novas terras, mas essa limitação foi sanada dois séculos e meio depois, quando mais um daqueles espertos brazilienses, servindo na Corte de Lisboa, foi a Madri tratar de alargar minhas paragens. E não é conseguiu, traficando alguns mapas feitos por um francês experiente nessas matérias?
O fato é que as terras era muitas, e passaram a atrair muitos lusitanos, ocorrendo inclusive uma invasão exagerada deles, quando por aqui começou a aparecer ouro, pedras de diamante, e outras preciosidades. Eu já estava afeiçoado aos novos ermos e achava que estas paragens bravias deveriam pertencer prioritariamente àqueles mestiços que realmente desbravaram os sertões desconhecidos e selvagens. A invasão se repetiu, já com gente de mais fino trato, quando, a pretexto de fugir daquele imperador dominador à outrance, tinham vindo para cá levas e mais levas de fidalgos incapazes sequer de defender o reino contra os trôpegos soldados de Junot, além de centenas de cortesãos que só sabiam viver às expensas do Tesouro Real.
Bem, mas eu já contei essa história, assim que vamos passar adiante. O rapazote que fazia figuração de imperador vivia cercado desses cortesãos que por aqui haviam ficado, depois que o seu augusto pai tinha sido recambiado para a minha antiga metrópole (o que ele jamais aceitou de bom grado, pois se afeiçoara aos modos daqui). Afinal de contas, tinha sido um diplomata de um porto paulista que tinha alargado os meus domínios sobre algumas terras pretensamente espanholas, e tinham sido aqueles caçadores de índios da mesma capitania que foram abrindo caminhos nos ermos do planalto central, fazendo filhos com as índias das quais se apossavam. Quando veio a separação, era o caso de os lusitanos partirem, para que eu assim ficasse com os meus brasilienses, que tanto haviam lutado para tomar a si o comando do Estado. Mas muitos lusitanos teimavam em ficar, a mando do príncipe convertido abusadamente em imperador nos meus domínios. Bem fizeram os bravos pernambucanos que, por duas ou três vezes, andaram atacando aqueles que os exploravam no comércio e nos demais negócios, com a consigna até exagerada de “mata marinheiro!” Eles até tentaram a república, umas duas vezes, mas estavam muito longe da capital para serem bem-sucedidos. Foi uma pena, pois um Brasil pernambucano teria sido muito melhor.
Enfim libertos dos antigos reinóis – não sem antes deixarem o meu primeiro banco totalmente carente de lingotes e patacões –, passei a governar o que era finalmente o Brasil, mas tendo de me valer de uma nova malta de aproveitadores pretensamente patriotas: eram os velhos traficantes locais, os latifundiários que herdaram as antigas sesmarias, os arrivistas de toda espécie, alguns até de boa índole, que tinham estado nas Cortes, na Constituinte, e que depois se ajeitaram nos novos encargos do Estado em construção. Como não quiseram romper com o sistema monárquico – a pretexto de defender a unidade nacional, então sob ameaças separatistas de várias revoltas provinciais, ao norte e ao sul –, se arranjaram num sistema muito instável de regências, enquanto o rebento da dinastia bragantina não deixasse a tenra infância para alcançar a maioridade. Que só veio por um golpe, mais um, como parece ter virado um costume nestas terras de paixões desabridas.
Nas brigas entre os dois clãs políticos, liberais e regressistas, acabaram por fazer um ajuste próprio aos arranjos exóticos numa terra dada a todo tipo de expediente: promoveram o rapaz a imperador antes do tempo, com a vantagem de que ele tinha sido educado por aquele velho Andrada, que era tido por um dos “pais da pátria”. Pelo menos parece ter lhe dado um bom conhecimento da literatura e das coisas da natureza, por tinha sido membro de diversas academias europeias. E assim me instalei, de manto e coroa, ainda aprendendo esse ofício de governar, que não parece ser tão difícil numa terra em que se plantando tudo dá, como dizia um daqueles escrevinhadores dos primeiros tempos. Parece que se acertaram com aquela fruta etiópica, chamada de café, que me trouxe muita riqueza durante mais de 200 anos.
Não tardou quatro anos do início do novo reinado, para que eu, instruído por alguns oligarcas experimentados, me decidisse por dar fim aos tratados desiguais que nos prendiam aos astutos ingleses desde as priscas eras dos Braganças, muito em especial com o espoliador tratado comercial de 1810. O marquês de Caravelas – sim, todos os oligarcas bajuladores viraram barões, marqueses ou duques, vários mediante pagamento – arranjou uma nova pauta aduaneira que começou a sugar libras-ouro, patacões ou mil-réis para as minhas caixas exauridas, na tributação dos bens importados e, também, das matérias primas exportadas, com destaque para o café, que começava a desbancar os velhos produtos da terra, o açúcar, os couros e os demais. Fiquei à larga por alguns anos, com saldos crescentes nas contas externas, até que alguns malditos vizinhos, primeiro um tal de Rosas, ditador do Prata, depois um pretendente a Napoleão paraguaio, o tal de Lopez, viessem acabar com minhas reservas, em duas guerras sucessivas, que nos deixaram com o duvidoso epíteto de “imperialistas”.
Também tivemos vários entreveros com os arrogantes ingleses, que se acreditavam os donos do Atlântico e de outras paragens, apresando nossos navios negreiros, até em águas territoriais, nos forçando por todos os meios a terminar com o rendoso comércio. O tal de Lorde Aberdeen chegou inclusive a equiparar o tráfico à pirataria, com o que pretendiam jogar pela prancha, aos tubarões, os honrados capitães dos navios negreiros. Aquilo foi um verdadeiro absurdo, como argumentaram em notas ao Foreign Office os meus diplomatas, pois que o tráfico escravo era perfeitamente legal (pelo menos para nós) e ele não ameaçava o comércio legítimo como os verdadeiros piratas, microempresários do crime em causa própria. Tudo muito diferente dos corsários, médios empresários a serviço das coroas, sem esquecer que eles dividiam o botim com os soberanos que lhes davam cartas patentes. Sim, cabe não esquecer que foram corsários ingleses – Fulton, Drake, Cavendish – que infestaram as nossas costas durante séculos, saqueando portos e navios, antes de se aventurarem nos portos mais ricos do Pacífico e das ilhas do Caribe, de onde saíam ouro e prata nos galeões espanhóis.
Além do fato que os ingleses nos espoliavam mais sutilmente pelos empréstimos na City, o que éramos seguidamente compelidos a fazer, também com lucros extorquidos no próprio ato dos contratos de financiamento (e que nunca relutamos em pagar); antes de começar o meu segundo reinado houve até um empréstimo dito “ruinoso”, do qual só nos veio a metade do que foi contratado, pois isso foi logo depois que tive de encerrar o primeiro Banco do Brasil, completamente inadimplente em 1829.
Minha diplomacia não era sobranceira, nem descortês com os enviados que aqui arribavam, mas alguns dos ministros que por aqui chegavam como representantes de Sua Majestade Britânica se comportavam da forma mais arrogante possível. Tive até de romper relações diplomáticas, por esse mesmo motivo, com a Corte de St. James, por infelicidade ao mesmo tempo em que eu era obrigado a me meter em novas aventuras no Prata, o que nos privou de acesso à praça londrina durante algum tempo. Mas, quando se instalou a “maldita guerra” voltamos para novas contratações, inclusive sob a forma de funding loan, que era quando não podíamos resgatar o principal, e tínhamos de jogar tudo para a frente..
O fato é que os mesmos oligarcas que se locupletavam nos gabinetes (muitos) do meu Estado não fizeram quase nada para estimular novos negócios, além do café e poucos outros produtos de exportação. Não só eram inoperantes, como entravavam os negócios dos que queriam abrir novas frentes de trabalho, como o ativíssimo banqueiro e empresário Mauá (que chegou inclusive a atuar como provedor informal de empréstimos para nossos amigos no Prata, depois ressarcido com concessões na capital e em províncias longínquas). Tiveram até a petulância de expropriar o segundo Banco do Brasil que ele tinha criado com o seu alto tino de financista, sendo que o segundo e o terceiro banco do mesmo nome foram à falência ainda antes do final do meu reinado, pelos acintosos atos de corrupção que esses novos banqueiros de araque praticavam nos conluios políticos. Suspeito que essa mania perdurou…
Valendo-me do dispositivo constitucional do Poder Moderador – esperteza que o primeiro imperador buscara num dos manuais de Direito de um tal de Benjamin Constant –, eu não hesitava em acabar extemporaneamente com um ou outro gabinete de ministros, não importando que fossem Liberais ou Conservadores, e dele fiz tanto uso que meus críticos diziam que eu vivia numa monarquia presidencialista. Não me importavam os ataques, desde que eu consentisse que eles pudessem conservar a maldade mais renitente que assegurava a paz do reino, que era o nefando regime da escravidão. Tanto foi assim, que enquanto durou a iniquidade, a monarquia se manteve; foi só terminarem com esse esteio da nação produtora que o Império veio abaixo, num complô entre republicanos sonhadores e militares vingativos.
Mas como o Estado opressor é eterno – como eu já afirmei nestas minhas memórias, a que chamam de autobiografia – os mesmos oligarcas patrimonialistas continuaram, como de hábito, mandando no país, controlando todos os gabinetes do meu Estado, apenas que, depois de mais um golpe, terminou por ser o início de um novo regime. O velho monarca, que dizia me representar dignamente, foi embarcado às pressas para a Europa, deixando muitos monarquistas saudosistas, à espera de algum novo golpe regressista (essa mania nunca terminou por aqui, mas os Braganças que sobraram não prestavam para muita coisa).
Os nossos jacobinos quiseram imitar os franceses, introduzindo como saudação o slogan ridículo de “Saúde e Fraternidade” nas novas comunicações oficiais. Os republicanos ilustrados também quiseram imitar a grande república do Norte, trocando o meu nome para “Estados Unidos do Brasil”, num exagero de federalismo que tive de cortar mais adiante, pois os estados começaram a gastar à tripa forra, tomando empréstimos e mais empréstimos com os banqueiros da belle époque, o que logo se revelou insustentável (e tome mais funding loans, com a garantia das alfândegas, as únicas a produzir alguma receita).
Monarquistas saudosos, sobretudo os aristocratas da Armada, ainda tentaram um golpe, mas um segundo presidente militar, apodado de “Marechal de Ferro”, mandou combatê-los a ferro e a fogo. Tudo isso junto a uma tremenda crise econômica provocada pelo ministro da Fazenda inaugural do novo regime, chamada de “Encilhamento”, que deu início um ciclo de insolvências que perdurou por quase toda a extensão da República do “café-com-leite”. O “meu” Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5347, 9 junho 2026; revisão 8 julho 2026, 5 p.
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Madame IA refaz, a mando de Airton Dirceu Lemmertz, o meu relato acima, mas num tom jocoso e descontraído:
"Acesse o conteúdo/texto do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html (título, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)") e apresente um texto reescrito. O texto reescrito deverá ter, no mínimo, 3300 caracteres; deverá ser em linguagem coloquial; deverá manter a linha de pensamento e as ideias e opiniões.
Revista Será?, acompanhando o fluxo da história: "Autobiografia de um Fora-da-Lei", de Paulo Roberto de Almeida
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sexta-feira, 3 de julho de 2026
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)
Revista Será? ANO XIV
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente
Paulo Roberto de Almeida
Em seu quarto capítulo da série Autobiografia de um Fora-da-Lei, Paulo Roberto de Almeida revisita a transformação do Brasil de colônia a Reino Unido e, depois, a Império independente. Com fina ironia, sólida erudição e um original recurso narrativo, o autor oferece uma leitura instigante da formação do Estado brasileiro, convidando o leitor a revisitar alguns dos momentos decisivos de nossa história.
Segue o link para o artigo.
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segunda-feira, 29 de junho de 2026
Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)
Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a Grande Deformação da era contemporânea.
Publicado na revista Será? (vol. xiv, n. 716, 3/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/como-o-culto-do-estado-pode-inviabilizar-o-desenvolvimento-smithiano/). Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/como-o-culto-do-estado-pode.html). Relação de Publicados n. 1653.
O mundo político costuma ser dividido nas diferentes gradações entre dois extremos, numa tipologia herdada da Revolução francesa: esquerda e direita, com muitas variações no centro e exageros nos dois extremos. Essa é a perspectiva de um cenário dominado de forma estéril por uma luta pelo poder e pela dominação de alguns sobre muitos. Essa luta não cria riqueza ou prosperidade, apenas redistribui o estoque existente de riqueza entre os diversos contendores da luta política.
Antes da Revolução francesas, porém, um professor de Glasgow, Adam Smith, já havia delimitado alguns parâmetros sob os quais se moviam as paixões humanas, em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. Mas ele fez mais: no ano da independência americana da dominação britânica, 1776, autonomia sob o livre comércio, que ele preconizava, publicou o livro seminal da economia política, aquele que deveria guiar os verdadeiros estadistas do Estado, de qualquer Estado, na busca de prosperidade socialmente bem distribuída: Um Inquérito sobre a Riqueza das Nações, uma investigação sobre como se poderia criar e aumentar a riqueza social, ao mesmo tempo fazendo com que ela fosse bem distribuída entre os súditos ou os cidadãos de uma nação, de um Estado constituído em conformidade com as leis estabelecidas consensualmente, não pela força ou dominação de alguns poucos.
Seu livro se tornou influente nas ilhas britânicas e em alguns outros países do continente europeu (mas só chegou à China muito tempo depois, aliás “importado” por alguns comunistas esclarecidos que corrigiram os erros demenciais de Mao Tsetung, que produziram mais mortos entre os próprios chineses do que Stalin o havia feito entre seus “súditos” russos). O livro de Adam Smith foi “corrigido” por uma outra obra das mais negativas não só na história da economia politica, mas também na trajetória de boa parte da humanidade. Essa obra foi O Capital, de um radical hegeliano expatriado chamado Karl Marx. Esse livro, que pretendia colocar a economia smithiana sobre seus pés, as forças produtivas, alterava, na verdade, as bases de funcionamento da economia política pela via de uma política econômica que invertia completamente os fundamentos da criação de riqueza e prosperidade: seria o Estado, e não a liberdade dos agentes econômicos, quem deveria ordenar a organização da vida econômica, o “promotor” da prosperidade igualitária.
A mensagem era poderosa, numa fase em que o primeiro capitalismo explorava, literalmente, os esforços de trabalhadores em prol da acumulação de riqueza, criando continuamente uma desigualdade de tipo rousseauniano, pois que fundamentada no “pecado original” da propriedade privada. Estavam dadas as condições para o surgimento de uma nova forma de organização econômica baseada não exatamente na propriedade privada, mas na propriedade coletiva dos meios de produção, o socialismo dito científico, ou o coletivismo (que seria aplicado tanto por regimes supostamente de esquerda, como o bolchevismo, como por regimes declaradamente de direita, como o fascismo e o nazismo).
Estava criada a via para a implementação do “socialismo”, não exatamente nos países do primeiro capitalismo, na Inglaterra e na Nova Inglaterra, assim como em diversos países da Europa continental, mas num país autocrático, a Rússia atrasada dos mujiques e da nobreza czarista, vivendo num capitalismo incipiente, e sobretudo no despotismo brutal da aristocracia dos boiardos. Isso se deu por um pequeno “acidente” político, o famoso “trem blindado” que transportou o emigrado russo Lênine de volta à Rússia em meio a um processo revolucionário, iniciado em fevereiro de 1917: isso se fez por um ardil do Império alemão, que pretendia desmantelar a guerra no lado oriental da Prússia, para se concentrar nas frentes de batalha do lado ocidental, contra franceses, britânicos e, mais recentemente, americanos.
O putsch de outubro (ou novembro) de 1917 colocou no poder um novo regime despótico, desta vez guiado por bolcheviques que acreditavam piamente nas fabulosas teorias econômicas de Karl Marx, de que seria possível criar riqueza e prosperidade não pela via da liberdade econômica, mas pela via da monopolização total dos meios de produção nas mãos do Estado, criando um sistema imaginário, “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”, como afirmou o mesmo Marx na Crítica ao Programa de Gotha, em oposição ao recém criado Partido Social Democrata alemão, que pretendia criar, não um sistema de estatização completa da economia, mas um regime flexível, combinando propriedade privada e meios públicos de criação de oportunidades para todos.
Lênin podia ser um gênio em política, ou pelo menos um lídes partidário astuto, mas ele era uma nulidade em economia. Seu programa de “coletivização total” da economia russa provocou de imediato uma contração terrível na oferta de bens e serviços, levando o povo a uma crise alimentar ao ponto da fome generalizada (refreada generosamente por americanos e outros europeus), com o que Lênin teve de improvisar uma “NEP”, permitindo a existência provisória de negócios privados em certos setores da economia. Imediatamente após o início da coletivização, um jovem economista austríaco, Ludwig von Mises, escrevia um “panfleto” contra os socialistas austríacos, intitulado sinteticamente O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista, explicando que o socialismo não poderia funcionar pois que ele ignorava completamente o mecanismo de formação de preços, baseado nas leis universais da oferta e da procura, da produção e do consumo. Não podia funcionar, como um elefante não pode voar, mas Stalin fez o “socialismo” se sustentar nos ares pela via de formas modernas da antiga escravidão, ou do antigo regime servil da própria velha Rússia.
O socialismo não morreu por ter sido combatido pelo capitalismo, longe disso: os “capitalistas” ocidentais até procuraram suavizar o sofrimento dos povos “socialistas” pela via de empréstimos ou algum apoio material sempre quando necessário, mas era difícil fazer o elefante voar; o sistema se desmantelou sozinho pela força de suas próprias contradições econômicas. Mas a mensagem socialista era muito poderosa: a “igualdade” deveria, pelas mãos do Estado, passar na frente da liberdade preconizada pelos liberais, e assim se fez em diversos países em diversos continentes, inclusive na América Latina, na qual as receitas keynesianas de luta contra as crises e as depressões cíclicas do sistema foram convertidas, de meios provisórios de inversão do ciclo econômico, em verdadeira teoria do desenvolvimento; essa foi a origem do prebischianismo, a versão original do desenvolvimentismo cepaliano.
O Brasil foi o país no qual essa nova “teoria” encontrou terreno fértil, inclusive porque ele já vivia, desde os anos 1930, numa especie de “capitalismo estatizado”, o que complementava o seu mercantilismo tradicional, um protecionismo que existia desde os tempos coloniais e que encontrou também terreno fértil no Império e da República. Nos anos 1950, o desenvolvimentismo conheceu grandes possibilidades de expansão, tanto que ganhou espaço ainda mais ampliado no regime semiautárquico da ditadura militar, perfeitamente estatizante e centralizado que o país conheceu entre os anos 1960-80. A industrialização em marcha forçada sob os anos JK foi realmente benéfica para os capitalistas amigos do Estado, contrariando as prescrições de uma política econômica com sólidos fundamentos no balanço fiscal das contas nacionais, como preconizavam economistas como Eugênio Gudin e o jovem Roberto Campos. O resultado foi a implantação de muitas indústrias, algumas estatais, outras com base no investimento direto estrangeiro, mas também uma forte aceleração da inflação, que seria a maldição do país, de toda a população, nos quarenta anos seguintes.
O bloqueio de um processo sustentado de crescimento econômico, pela via da indução estatal, já tinha sido alertado algum tempo antes, no quadro de um famoso debate econômico que, nos anos 1944-45, colocou face a face o mesmo economista neoclássico Eugênio Gudin e um industrial paulista, apreciador das teorias de Friedrich List e de Mihail Manoilescu, Roberto Simonsen. Do debate saiu-se vencedora, no plano puramente teórico, a solidez dos argumentos econômicos de Gudin, mas quem venceu, na prática, foi Simonsen, preconizando subsídios estatais à indústria, protecionismo no comércio exterior e intervenção estatal segundo os novos cânones do “planejamento para o desenvolvimento econômico”, em lugar da “mão invisível” do mercado para guiar os passos da iniciativa privada. Foi o que o Brasil conheceu desde então, combinado a um entranhado nacionalismo exclusivista, que o fez sempre desconfiar da “sanha” dos capitalistas estrangeiros, preferindo recorrer a empréstimos estrangeiros, como se fez desde a independência, do que aos investimentos diretos, sujeitos à “espoliação” dos dividendos e da remessa de lucros ao exterior (isso ficou evidente na carta deixada por Getúlio Vargas quando do seu suicídio, criando essa “herança maldita” do ódio aos capitais forâneos, sempre “sugadores” da riqueza nacional).
Na experiência concreta do Brasil do período contemporâneo o que tivemos foram acelerações esporádicas do impulso inflacionário, sempre causado por excesso de gastos públicos, combatidos oportunamente por planos bem ou mal sucedidos de estabilização econômica, e, sobretudo, um processo de desenvolvimento endógeno que resultou num cresimento dotado de baixo dinamismo sustentado, e um atraso relativo no confronto com outras experiências nacionais de abeertura econômica e de liberalização comercial, no quadro de um sistema mais baseado na força do livre empreendedorismo de mercado do que na suposta eficiência da condução estatal do jogo econômico. Enfim, como síntese, sempre fomos mais estatizantes do livre-mercadistas, o que talvez explique nossa longa estagnação de mais de quatro décadas num período que foi do fim do socialismo à globalização otimista e, agora, ao desmantelamento do multilateralismo político e econômico pela ação conjunta, mas não necessariamente combinada, de dois dirigentes imperiais que se acreditam ser os imperadores de seus respectivos continentes, quiçá do mundo. Ainda estamos nisso…
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5380, 29 junho 2026, 4 p.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida
Mais recente artigo publicado:
5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/ ). Relação de Publicados n. 1652.
Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente
Paulo Roberto de Almeida
Revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026)
No episódio anterior de minha autobiografia – 3: do nascimento a tempos incertos, aqui: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/ –, eu falei de minhas agruras iniciais: do parto por legitimação papal, do crescimento, enfrentando os pretendentes à ocupação, os mouros ao sul e os visigodos de Leão e Castela a leste, assim como dos meus próprios desbravadores, saindo ousadamente por mares nunca de antes navegados, chegando a me brindar com novas terras prometedoras, aonde, como me informou um dos primeiros escribas que por ali arribaram, “em se plantando tudo dá!” Era uma terra de bugres, assim que eu a deixei quieta por alguns anos, até que pretendentes de outros reinos começassem a frequentá-la, sem a minha permissão. Tratei, portanto, de me instalar, dando terras para que fidalgos remediados a ocupassem.
Não é que deu certo? Primeiro começaram a retirar uma madeira cor de brasa – que acabou dando o nome ao meu segundo lar –, depois plantando uma doce gramínea que fiz vir dos Açores, depois encontrando aquela “relíquia bárbara”, da qual falou um economista de tempos mais recentes, que enriqueceu meu Real Tesouro e permitiu construir alguns palácios suntuosos na velha terrinha e várias igrejas nas novas terras. Para lá mandei um primeiro governador-geral e depois um vice-rei, que logo teve de garantir que toda aquela riqueza mineral fosse carreada sob minha guarda, mas que também ordenou devassas e algumas condenações bem-merecidas. Os rapaces ingleses se apropriaram de umas partes do ouro, a pretexto de me proteger de meus inimigos na velha Europa.
O fato é que essa velha Europa não me dava sossego. Não é que um corso metido a maioral, no reino dos antigos Capetos, resolveu atacar todas as monarquias estabelecidas e avançou ardilosamente contra os reinos estabelecidos à direita e à esquerda da França revolucionária e seu exército popular? Para se vingar dos irredutíveis ingleses, Napoleão, já convertido em imperador, mandou um dos seus generais investir contra o meu pequeno reino, que vivia à sombra do Leão britânico, depois de ter destronado um primo meu na Espanha, Fernando VII. Foi o que finalmente me “convenceu” a partir para minhas imensas terras no Novo Mundo. Foi, posso dizer, o meu segundo nascimento.
Tive de me transladar rapidamente, com meus livros e apetrechos, ajudado inclusive pela Royal Navy, carregando em todos os barcos requisitados o que havia de fidalguia no reino, sem saber ao certo o que eu encontraria na nova capital do meu imenso império marítimo, escapando assim do triste destino do meu colega espanhol, confinado na França, seu reino dado na bandeja a um irmão do usurpador. Meu Estado foi preservado, embora em novo endereço e sob a guarda dos intrometidos ingleses. Era o que dava para fazer naquele momento de angústia e incertezas. De passagem para a nova capital do vice-reinado, parei na antiga, São Salvador da Bahia de Todos os Santos, onde tive o auxílio de um funcionário local das alfândegas, José da Silva Lisboa (ah, minha perdida capital), para assinar um decreto de abertura dos portos, que na verdade só beneficiava aos comerciantes ingleses. Estes passaram a enviar todos os tipos de trastes para aquelas terras desconhecidas para eles (mas não de seus corsários), chegando inclusive a termos nas docas do Rio de Janeiro patins de gelo, vejam que absurdo!
O problema é que não tínhamos onde acomodar todos aqueles inúteis nobres do meu reinado europeu, e começamos a expropriar as melhores casas disponíveis, chegando até a aproveitar uma cadeia pública. Como meus súditos palacianos passassem a pintar nas casas requisitadas o indicativo PR, que elas estavam doravante ao serviço do Príncipe Real, os locais, conhecidos por suas zombarias, interpretavam com o impositivo “Ponha-se na Rua!” Não foram poucas as troças e rebeldias que meus súditos brasilienses protagonizaram contra a minha Regência – sim, esqueci de mencionar que a Rainha legítima, Dona Maria I, minha querida mãe, estava afastada das funções por algumas fraquezas da mente – e eu só tive a glória de ser entronizado como o novo rei de Portugal e domínio dez anos depois da chegada à maior e mais rica colônia de meu magnífico e imenso império ultramarino.
A essa altura, por imposições da paz enfim negociada em Viena depois da segunda derrota do usurpador francês, meu domínio americano foi elevado à categoria de Reino Unido ao do meu próprio Portugal, com o que ganhei nova personalidade e também novas pretensões a ser eu mesmo, finalmente, dono do meu próprio Estado. Eu até queria ficar na nova sede do Império, que seria uma espécie de “imenso Portugal”, mas os comerciantes do Porto, numa revolução inspirada nas ideias liberais que reivindicavam monarquias adeptas da recente moda constitucional – baseadas em doutrinas francesas mais uma vez, Montesquieu e um tal de Benjamin Constant, um hugenote franco-suíço além de tudo –, passaram a exigir que eu voltasse à terrinha. Eu não queria, mas as Cortes constituídas em Lisboa ameaçaram me destituir, assim que eu tive de deixar o meu novo grande Estado aos cuidados do meu primogênito Pedro, um rapaz muito afoito e dado a aventuras de duvidosa reputação.
A sorte foi que ele escolheu para auxiliá-lo um inteligente súdito nascido naquelas paragens, no porto de Santos se não me falha a memória, que tinha passado longos anos estudando na Europa, chegando a fazer parte das mais famosas academias de ciências. José Bonifácio, esse era o seu nome, foi o mais atilado ministro do último gabinete português no Rio de Janeiro, último não por minha decisão, ou do meu filho regente, mas por imposição das circunstâncias, que foram ingratas para meu glorioso Império. As Cortes, atuando por ganância dos comerciantes e de cortesãos desejosos de retornar ao Ancien Régime de corte absolutista, acabaram por impor ao Brasil uma volta aos tempos coloniais, com o que os meus súditos d’além-mar se decidiram pela separação, aliás por impulso do Bonifácio e da esposa de Pedro, a austríaca Leopoldina, que deve ter atuado sob influência de um astuto autocrata dos Habsburgos, um tal de Metternich.
Finalmente, eu me encontrava naquela situação relativamente inédita na vida dos povos do mundo, a oportunidade de construir um novo Estado, só para mim, a partir do zero, ou de quase nada, a não ser o pouco que tinha sido deixado pelos antigos colonizadores: nenhuma fábrica que prestasse, nenhuma escola para os antigos súditos, agora convertidos em cidadãos conscientes e orgulhosos de dar início a uma nova etapa num imenso domínio muito mais rico do que o da mais velha monarquia europeia, ainda que dominada por uma segunda dinastia, depois do interlúdio castelhano, a dos Braganças, iniciada de 1640. Agora, sim, eu poderia partir de um Estado só meu, sem precisar conquistar nenhum território (o que ficou me bastava, com alguns ajustes aqui e ali), nem fazer qualquer revolução – só poucas escaramuças contra tropas lusitanas que tardaram em reconhecer que havia um novo Senhor naquelas terras –, até que enfim eu não mais precisaria receber ordens de algum rei distante, nem me inclinar para aqueles ingleses arrogantes (ainda que eu precisasse do dinheiro deles).
Mas o fato é que eu fiquei logo na penúria, pois meu augusto pai presumido me deixou algumas dívidas não declaradas – sobretudo a que ele mesmo havia contraído com os gananciosos banqueiros da City –, além de exigir que eu lhe pagasse umas propriedades que havia adquirido nas proximidades, coisas construídas pelos escravos que os seus aduladores continuava a trazer das costas d’África, a despeito da recomendação do Bonifácio para que se extinguisse imediatamente o tráfico e se substituísse a escravidão pelo trabalho livre, em médio prazo. O Bonifácio, José, e seus irmãos, sobretudo o Antonio Carlos, que se meteu a jurista, depois de andar a perturbar nas Cortes de Lisboa, começaram justamente a me causar alguns problemas, querendo, por exemplo, fazer uma Constituição de base excessivamente parlamentar, não me deixando muitos poderes, com o que eu tive de mandar fechar aquela nova bagunça, banir os Andradas do Brasil e ordenar que se fizesse uma Carta constitucional ao meu feitio, dando me “poderes moderadores” para poder controlar novos pretendentes a exercer o seu próprio arbítrio, não o meu, muito mais esclarecido.
Os reinos europeus tardaram a reconhecer a minha independência, não antes que o fizessem aqueles caipiras da América do Norte, uma república alegadamente democrática, mas separada em estados dotados de muita autonomia, o que não exatamente me convinha, pois poderia vir a ser a semente de alguma guerra civil no futuro. Ainda tive de pagar pelo reconhecimento diplomático da parte daqueles que primeiro mandaram nestas terras, o que abriu o caminho para que outros reinos, coalizados na Santa Aliança, também consentissem na formalidade, o que muito me custou em críticas de alguns recalcitrantes vocais, certamente republicanos enraivecidos, por não se ter adotado o seu regime favorito. Houve até um frade nas bandas do Nordeste que tentou uma confederação com outros tresloucados da região, o que teve de ser reprimido pouco meses depois que outorguei uma nova Carta do Império.
Se não bastassem os ruídos internos, causados por jornalistas muito abusados – aos quais eu tinha de aplicar uns corretivos volta e meia –, começou uma guerrilha lá pelos lados da Cisplatina, herança antiga dos tempos coloniais, que logo se transformou em guerra dos argentinos contra nós, uma das piores coisas na vida de um Império satisfeito de si mesmo. Os ingleses, metidos como de sempre, logo arranjaram para fazer daquela nossa província um “algodão entre cristais”, um Estadinho novo, pequeno, mas justo no caminho entre nós e os hermanos do outro lado do Prata. Os ingleses, aliás, continuavam a fazer exigências, com os seus tratados desiguais no comércio e nos privilégios de extraterritorialidade para os seus súditos, querendo que terminássemos de pronto com um comércio vital para a nossa vida e economia: os dos trabalhadores que comprávamos legalmente nas costas da África.
Nós até fizemos um “tratado para inglês ver”, mas eles não acreditaram na bazófia. Enfim, as querelas externas e domésticas foram tantas, que lá pelas tantas resolvi mandar de volta o rapazito importado com a família dos Braganças fugidos de Portugal, tanto mais que ele tinha umas pendências a resolver contra o irmão, metido a autocrata e usurpador. E foi assim que terminou, aos oito anos da autonomia conquistada, aquele meu primeiro reinado, passando o meu Império a viver sob constantes revoltas e regências das mais inconstantes, até que eu tratei de fazer um novo arranjo para governar por mais algum tempo, muito tempo. Mas isso é uma história que vou contar com mais vagar, assim que recompor meus poderes…
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5342, 6 junho 2026, 4 p.
Revista Será? Desde 2012 acompanhando o fluxo da história. ANO XIV Nº715 Recife, 26 de junho de 2026: artigos inteligentes é aqui mesmo
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