(Em revisão para publicação no Jornal da USP)
Uma
luz aos bons ouvidos:
os
últimos presságios de George Kennan (1905-2005)
Daniel
Afonso da Silva
No sabemos lo que nos passa y eso es precisamente lo que nos passa.
José Ortega y Gasset (1883-1955)
L’homme est immortel ; son salut est
dans l’au-delà. L’État n’a pas d’immortalité ; son salut, c’est maintenant ou
jamais.
Cardeal Richelieu (1585-1642)
Forms of government are forged
mainly in the fire of practice, not in the vacuum of theory. They respond to
national character and to national realities.
George F. Kennan (1905-2005)
Fazia calor
naquele verão francês de 2005. Os dias eram bonitos, límpidos, agradáveis e
bons. Convidativos para passeios en plein air, encontros por pelouses
e conversas por varandas. O que motivou três veteranos da Guerra Fria –
Alexander Nikolaevich Yakovlev (1923-2005), Zbigniew Brzezinski (1928-2017) e Vladimir
Fédorovski (1950- ) – a reunir-se, para reminiscências, num bistrô
de Paris.
Esses senhores eram
amigos de muitos anos. Apreciavam-se mutualmente. Respeitavam-se e gostavam
estar juntos. Prezavam a capital francesa. Tinham por ela verdadeira predileção.
Especialmente em dias amistosos como aqueles, coerentes àquela estação.
O encontro
começou ameno. Risadas, ironias e pilhérias davam o tom. O esporte preferido
deles era falar bem e mal de si e de ausentes. Relatar anedotas novas e
antigas. Renovar chistes. Atualizar intimidades suas e alheias. Lamentar o
martírio de alguém. Deplorar a agonia de outro alguém. Lastimar a doença grave de
um terceiro. Condoer-se com o funeral de um amigo.
Escrutinavam,
assim, a sorte de fulanos e sicranos. Inclusive a sua.
Eram amigos constantes.
Ativos numa convivência que ultrapassava quarenta anos. Com, sim, altos e
baixos. Mas sem mágoas. A idade lhes fizera tudo superar e tornara-lhes convivas
de alto astral. Bons vivants e gourmands juntos. Devotos de mesa
e copo. E dedicados uns aos outros.
A conversa
começou, assim, agradável. Cheia de ânimo e bom humor. Sem pretensões. Avançando
sobre temas leves e frugais.
Até que o
assunto – não era pra menos – virou hard core e eles passaram a esmiuçar
conjunturas.
Era esperado que
fosse assim. Aqueles senhores traziam na memória e na retina o testemunho de momentos
densamente complexos de vidas nacionais e internacionais. Haviam combatido
muitos combates, completado a carreira e mantido a bravura. Era simples notar.
Eles traziam no semblante as cicatrizes de suas venturas. Eram homens de
convicção. Agentes políticos experimentados. Foram atores empedernidos dos
últimos momentos da Guerra Fria, dos últimos suspiros da tensão Leste-Oeste e
reunificação da Alemanha. Eram, ainda naqueles dias, estrategistas internacionais
reputados. Haviam exercido seus ofícios com devoção. Foram excelentes no que
fizeram. Serviram chefes e nações como Hades servira a Zeus. Influíram em
muitas coisas. Guardavam, em si e para si, informações de níveis variados de
sigilo. Singrando campo aberto ou arando o mar. Tudo custoso. Mas, conquanto o
tempo, mantiveram a disposição. Não ficaram fleumáticos nem retraídos. Reuniam uma
mistura de alegria, lucidez e realismo. Sabiam que muitos de seus esforços
malograram. Não eram indiferentes. Mas também não praticavam autocomiseração. Eram
muito cultos e muito profissionais demais para tanto. Sempre movidos pela ação.
Dificílimo, então, entre eles, reunidos, restringirem-se a assuntos simplesmente
amenos e frugais.
Yakovlev fora
tão somente um dos mentores da Glasnost e da Perestroika que abriram
caminhos para o fim da União Soviética. Brzezinski servira de conselheiro de segurança
nacional da presidência de Jimmy Carter (1924-2024) além de firmar-se, antes e
depois, como intérprete e ator de numerosas epopeias políticas nacionais e
internacionais. Fédorovski fora exegeta de Iúri Andropov (1914-1984), porta-voz
de Mikhail Gorbatchov (1931-2022), emissário soviético nas capitais europeias e
protagonista direto do fim da União Soviética.
Atinham,
portanto, passados plenos. Eram homem de visão e poder. Vivendo, a maior parte
do tempo, en coulisses e derrière la scène. Mas influenciando duradouramente
as viragens geopolíticas em todas as partes. Muita vez, atuando, às claras ou
às escondidas, em Paris. Cidade que, natural, marcou-os tanto. E, agora, naquele
bistrô, fazia-os, sonhar.
2005 – quando voltaram
a se encontrar em Paris – ia distante dos melhores dias de suas atuações. A
vida rude envelheceu seu semblante, mas não foi capaz de entorpecer seus
sentidos. Guardavam, assim, muitas convicções. Nutria predileções e
ideias-fixas. A principal delas situava-os aos pés do muro. Soterrados naqueles
eventos. Cientes de sua relevância e implicações. E convencidos da
impossibilidade de olvidar. Eles viviam, assim, mentalmente, lá: 1989-1991. Sem
arredar pé. Atormentados por passados que custavam passar.
Entendiam 1989-1991
como uma explosão e o dia seguinte – como fizera Hannah Arendt para 1914-1918. Consideravam,
porquanto, um momentum espetacular demais para minorar-se. O que os conduzia
a convergir no entendimento de que tudo aquilo – como depois endossaria o
presidente Vladmir Putin – representou, de fato, o maior sinistro
geopolítico do século XX. Um sinistro com conotações e desdobramentos que
fervilhavam em suas cabeças como cedro em brasa. Pois, para eles, 1989-1991,
fechava, mas não superava, um século inteiro de conflitos globais ideológicos,
políticos, geopolíticos, militares, culturais, econômicos e científicos
persistentes.
Um breve século que ruiu aos seus olhos. Bem ali. Aos pés do muro. Como um adeus,
Lênin. Que ampliou a variedade do mundo e impôs aos maiorais de outrora a
ter que reconhecer que “les autres ne pensent pas comme nous” [os outros
não pensam como nós]. O que gerou tensões permanentes e revelou fissuras
gigantescas. Como carmas e miasmas e chagas expostas. Que nada cura, nada
remedia e nada consegue superar.
O que veio
depois, na quadra seguinte, 1989-2005, trouxe, por certo, novidades, mas não
renovadoras deste estado de coisas. O muro seguia lá. Tudo remetia a ele. Fiel
a ele. Fixado nele. Reduzido a ele. Restrito a ele. Privando a essência de
vidas nacionais e internacionais de fluir. Impondo a entendidos nostalgia e
desacorçoo. Déjà vu. Eterno retorno. Que eles três, ali, naquele bistrô,
naquele ano de 2005 em Paris, procuravam contemporizar com alusões do tipo “The past is another country, but
it has left its mark on those who once lived there.” [O passado é outro país, mas deixou sua marca
naqueles que um dia viveram nele], “The past is therefore a
permanent dimension of the human consciousness [O passado é, portanto, uma
dimensão permanente da consciência humana], “We swim in the past as
fish do in water, and cannot escape from it” [Nadamos no passado como os
peixes na água e não podemos escapar dele], “The past is another
country. They do things differently there” [O passado é outro país. Lá as
coisas são feitas de maneira diferente.] Malgrado as aparências. Malgrado as diferenças. Malgrado o
surgimento de novos atores, novas ideias e novos desafios.
Indo e voltando,
assim, ato contínuo, aos pés do muro, eles notavam, sim, novas conformações e
convergiam em impressões gerais sobre a quadra 1989-2005 que lhes tocava viver.
Nela, para eles, a convicção norte-americana de hiperpotência exclusiva,
isolada e altaneira durou pouco. Não mais que dez anos. De 1989-1991 a 2001.
O choque mental dos ataques de 11 de setembro de 2001 – o 9/11 – modificou
a integralidade daquele pretensioso estado geral das coisas e moveu de volta a
percepção geral do mundo ao seu estado de ruínas.
A guerra ao terror do presidente George W. Bush, logo em seguida e em
confirmação, deformou as linhas de apoio que conduziram ao muro, ao fim da
Guerra Fria e da União Soviética.
Tornando tudo menos claro e mais incerto. Conseguintemente, num par de semanas após
o 9/11, parceiros estratégicos, por assim dizer, eternos dos Estados
Unidos, foram agredidos, minorados e tornados inimigos naquela sinistra
tentação de “nós” ou “eles”.
Num par de meses, o fim da História deu lugar ao choque de civilizações.
E num par de anos, entre 2001 e 2005, o futuro virou um país completamente
estranho.
Evidenciando que, de fato, 1989-1991 não terminara bem e trazia nuvens escuras
ao fluir do mundo.
No torvelinho de
tudo isso, a fixação instantânea dos Estados Unidos pelo Oriente Médio, em
busca de Saddam Hussein (1937-2006), Osama Bin Laden (1957-2011) e et caterva,
mobilizou fundamentos existenciais e existencialistas e moveu água fluente sobre
os moinhos da tese do choque de civilizações que virou a ideia-força do argumento
norte-americano para renovar a sua presença no mundo. Indicando que o que ia
confuso e nada bom, tendia a piorar.
Não sendo difícil contemplar. Pois, em consoante, os arranjos de Yalta e
Potsdam – avariados pelo “Choque Nixon” de 1971 e desmoralizados pela operação Iraqi
Freedom à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 2003 – ficaram
densamente anacrônicos, exangues e impotentes.
Como consequência, a incontinência de gladiadores hobbesianos em teatros
internacionais renunciou à modéstia e reabilitou à sua ânsia de protagonista em
teatros internacionais.
Não como o retorno de impérios, nações nem da geopolítica – pois impérios,
nações e geopolítica, a rigor, jamais desapareceram das epopeias nacionais e
internacionais, apenas, por momentos, tornaram-se menos visíveis, mais
discretos e menos audíveis –, mas como a tensão entre antigos e novos
aspirantes a mestres inexoráveis do mundo.
Assim, para
eles, o muro, o 9/11 e aquele início de novo século, trouxeram, sim, novas
ideias e tendências. Mas todas encharcadas de passados, agora, renovados em
novos desafios. A começar pela ubiquidade da China.
Ingressada em
repentino na Organização Mundial do Comércio, OMC, naquele alvoroço do após 9/11,
a China veio decidida a baralhar as cartas do jogo e forçar a modificação de
todas as regras. A sua discrição de milênios perdia placidamente a valência. O
seu recato de sempre, rendia-se esmaecido. Ela, agora, no novo século, queria –
muito mais que recobrar aquele século de humilhação e o opróbio de ter-se,
voluntariamente, retirado da conquista e da partilha do Novo Mundo no século XV
– contar além-fronteiras, conquistar o seu lugar ao sol e fazer-se great
again.
A herança do momentum
Nixon-Kissinger de 1971-1972 dera início a esse processo e o senso de
oportunidade de Deng Xiaoping (1904-1997), a partir e 1978, desacorrentou o
país de seu Prometeu.
O nono e o décimo planos quinquenais, de 1996 a 2000 e de 2001 a 2005,
aceleravam atalantamente a sua modernização, urbanização e industrialização
dessa China, cada vez mais, positivamente, irreconhecível.
Ambiciosa e portentosa. Disposta a encerrar, de uma vez por todas, o parêntese
ocidental de dominação dos negócios do mundo.
Com a mesma
ambição, vieram juntos os “países-monstros”.
Aqueles anteriormente classificados como países de segundo ou terceiro mundo.
Subdesenvolvidos ou em processo de industrialização. Pobres em essência e meridionais
majoritariamente em posição. Transformados em emergentes nos estertores da
Guerra Fria.
Vastamente beneficiados pela “mondialisation
heureuse” [globalização triunfante] logo em seguida.
Considerados “países de apetite” pelo saudoso Tzvetan Todorov
(1939-1917). E entrados no novo século com muito ímpeto para vencer, afirmar-se
e convencer.
Adicionado a
tudo isso, ainda naquele frisson do 9/11, o influente grupo
financeiro Goldman Sachs inseriu-os – não todos, mas os principais – numa
cartografia de países potencialmente prósperos.
Dignos, doravante, de todas as atenções. Com tudo para brilhar e renovar in
perpetuum a nova face do mundo. Não ao acaso, mas em presença.
Eram gigantes e
promissores. E, por fortuna, ainda receberam como emblema o acrônimo
BRIC – tijolo, literalmente, em inglês – que ampliava a intuição de que eles
poderiam verdadeiramente quebrar as amaras do passado e remodelar as estruturas
projetadas pela Carta do Atlântico de 1941, pela convenção de São Francisco de
1945 e pelas tratativas de Bretton Woods de 1944-1946.
Nessa mesma
vazão e com a mesma intenção revisionista, a histórica e aguerrida Organização
da Unidade Africana, fundada em 1963, foi transformada União Africana 2002.
Fazendo-se, adiante, uma entidade mais arejada, mais atualizada e mais assertiva
frente aos desafios prementes.
Concomitante a
tudo isso – China, “países-monstros” e União Africana – vinham, também,
os movimentos favoráveis, contrários e alternativos à globalização. “Pro”,
“ante” e “alter”. Todos nostálgicos do espírito de Bandung. Aficionados
aos países não-alinhados. Depositários das instruções da Conferência das Nações
Unidas para Comércio e Desenvolvimento, UNCTAD. Afiliados ao G77. Desejosos,
portanto, de une place au soleil [um lugar ao sol]. Convencidos, em
tudo, do imperativo de uma outra globalização possível e desejável. Menos
perversa e mais condescendente aos pobres deste mundo.
Eis as
estruturas, conjunturas e acontecimentos que alimentavam a conversação daqueles
ilustres comensais naquele bistrô em Paris.
Malgrado com os
pés no muro, eles eram sensíveis para perceber a imensidão desses novos
desafios. Impressionavam-se com a sua latência em tão curto lapso, de 1989 a
2005. Investigavam suas razões. Todas remetidas aos escombros do muro. Notavam
as suas consequências: aceleração, multiplicação e empilhamento de episódios.
Que, em conjunto, tornavam o mundo ineditamente movediço. Exigindo análises
progressivamente mais robustas e precisas. Com tours du monde atentos e abrangentes.
Com sensibilidade aguçada para apreender as peculiaridades das complicações de continentes,
regiões e países. Como eles faziam ali. Escrutinando memórias e emoções. Sem
deixar de lado o caso, para eles, mais complexo que dizia respeito à Rússia.
A Rússia era, ao
fundo, o motivador daquele encontro. Ela e seus problemas que, ao fim das
contas, impunham a todos a presença fixa aos pés do muro. Restando, assim,
decisivo apreciá-la com perícia.
Nesse intuito, antes
de qualquer coisa, em simultâneo, por estarem na França e em Paris, eles
lembraram-se, mutuamente, naturalmente, em comunhão e rapidamente, daquela
importante expedição do general Charles de Gaulle (1890-1970) àquela Moscou de
Nikita Khrschchov (1894-1971), Leonid Brezhnev (1906-1982), Nikolai Podgorny
(1903-1983) e Alexei Kosygin (1904-1980) naquele distante ano de 1966.
Tinham em mente a
convicção de que ninguém com certa idade e instrução passara indiferente àquele
momento, em tudo relevante para a França, para Europa e para Rússia. Sobretudo
pela pugnacidade daquela manifestação do general francês que aduzia que “Je parle ici au nom de la France
de toujours à la Russie de toujours” (...) “dans
l’Europe, de l’Atlantique à l’Oural”. [Falo aqui em nome da França
de sempre à Rússia de sempre...numa Europa, do Atlântico aos Urais.].
Yakovlev e
Fédorovski tinham pra si que o general tinha razão e era pertinente em sua
percepção peculiar da Rússia na Europa e no mundo. Brzezinski, em contraponto, erguia-se dissonante. Ele conhecia
o argumento. Respeitava e tinha apreço pelo velho general. Mas discordava frontalmente
de sua concepção.
Esse antigo
conselheiro do presidente norte-americano era, notoriamente,
multidimensionalmente, complexo. Polonês de origem, norte-americano por adoção,
anticomunista em essência e russocético por convicção. Não confiava na Rússia
nem nos russos. Jamais esquecera-se das cenas marcantes do calvário de Katyn.
Tinha algo perto de ódio de Stalin e dos soviéticos. Considerava socialistas,
comunistas e esquerdistas causas perdidas. Gente mentalmente sem valor. Fazia,
então, de tudo para menosprezá-los, maculá-los e intimidá-los. Era um liberal
convicto. Não tinha pudor nem contrição em crispar amizades e relações para
fazer sobressair essas suas posições. Era um homem de outro tempo e
temperamento. Que preferia ter razão a ser feliz. Adorava provocar e divergir. Ainda mais entre
amigos. Ocasião e ambiente ideais para praticar a plenitude de seu franc-parler.
Frente a Yakovlev e Fédorovski, ele encontrou esse momento ótimo e, nesse
espírito, iniciou a sua explanação sobre a Rússia.
Primeiro
condenando a integralidade da atuação russa anterior e posterior ao momento
soviético. Em seguida, afirmando que norte-americanos, europeus e ocidentais,
após o muro, jamais endossariam a reabilitação da Rússia no concerto de nações.
Adiante, aduzindo que esses mesmos agentes – Estados Unidos, Europa e Ocidente
– fariam de tudo para neutralizar a dominância russa sobretudo sobre a Eurásia.
Daí, seguia o raciocínio, as razões da manutenção e a expansão insistentes da
Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, à Leste da Europa. Para fazer
a Rússia regredir às suas fronteiras. Voltar-se para dentro e para si. Restringir-se
a pretensões somente domésticas. Sem projeções além-fronteiras. Para o bem do
Mundo Livre, para o bem do Ocidente, para o bem da Europa e para o bem do império
norte-americano.
Yakovlev e
Fédorovski acompanhavam essa peroração sem esboçar emoção. Entreolhavam-se vez
ou outra tão somente para marcar posição. Simulavam algum espanto apenas como
mostra de empatia. Estavam, ao fundo, emudecidos na alma. Petrificados e soterrados
em seu ser. Jamais assustados. Apenas contemplando Brzezinski a auto-admirar-se.
Deixando-o praticar a sua loquacidade – que era real. Permitindo-lhe sentir-se
maioral, altaneiro e dono da razão. Ofertando-lhe, em suma, o que ele mais
queria: palco.
Mas num
instante, após muito ouvir, Yakovlev modificou o semblante. Cerrou o olhar. Franziu
o cenho. Virou moldura e plasmou-se à paisagem. Tornou-se, em súbito, ausente.
Introspectivo e absorto. Sequestrado em pensamentos. Típicos de gente de seu
temperamento e estatura. Gente calma e alheia a sobressaltos. Vinda de mundos
que não existem mais. Que faziam dele alguém impenetravelmente paciente. Com
gestos mansos e superlativos de exímio hermeneuta de olhares, momentos e
intenções.
Yakovlev era
assim: um espécime irretorquível. Político e diplomata em instinto e instrução.
Conhecido no Kremlin por diable boiteux. O maior cumprimento disponível
para russos como ele. Cujas qualidades – positivas e negativas – remetiam a Charles
Maurice Talleyrand-Périgord (1754-1838), “le prince immobile” [príncipe
imóvel], de longe o diplomata estrangeiro mais prestigiado na Rússia.
Yakovlev não era,
desse modo, qualquer um. Era o melhor entre os melhores. Impermeável a
intimidação e manipulação. Alguém muito sólido. Entrado, sim, em anos, mas
ainda muito lúcido. Com a cabeça puída das epopeias nacionais e internacionais
da Rússia, da Europa e do mundo. Friamente consciente dos sucessos e infortúnios
de seu país. Conhecedor profundo daquele tipo de história que não cabe em
livros. Aquela história que, entre os russos, remete às longas tradições de venturas
insondáveis de cossacos e mujiques imortalizados por Tolstói, Dostoiévski e
Garshin aos feitos memoráveis de Ivan, o Terrível, Catarina, a Grande, Lênin e
Stalin até chegar ao presidente Vladmir Putin.
Quando Brzezinski
silenciou, ele saiu desse transe e começou a retornar a si. Todos notaram a sua
ausência e o seu retorno. Miravam-no, agora, com ansiedade e apreensão.
Esperavam a sua reação. Ele era o ancião à mesa. Certamente o mais vivido e
sábio. Brzezinski e Fédorovski queriam saber de sua posição diante de tanta
provocação.
Nessa pressão, em
segundos, ele moveu seus olhos quase marejados ao encontro dos olhos agitados
de seus convivas. Fitou Brzezinski com a firmeza de quem investiga Caravaggio. Virou-se
a Fédorovski com um misto de compaixão e contrição. Contemplou o vazio. Fez-se
taciturno e caiu triste. Como tristes eram os presságios que povoavam a sua
imaginação. Voltou à presença. Maneou a cabeça. Resistiu a grimaces. Nada
em seu rosto movia. Respirou fundo. Suspirou. E lacônico, em resposta a Brzezinski,
disparou sem remorso: “não tem jeito, é a guerra”.
Fim do encontro
e fim da partida. Findou-se o ânimo para conversar.
Solicitaram e
quitaram a fatura. Deram boas recompensas aos garçons. Cumprimentaram, ao
longe, o maître. Recuperaram seus costumes. Caminharam tranquilos e cabisbaixos
até a saída. E despediram-se para nunca mais.
Brzezinski voltou
para Washington. Yakovlev, para Moscou. E Fédorovski ficou por Paris mesmo,
onde residia desde o fim da União Soviética.
Yakovlev morreu
meses depois. Brzezinski viveu mais, até 2017. Fédorovski continua vivo e
testemunha de que, tudo aquilo que previam, infortunadamente, aconteceu: o
Ocidente seguiu inclemente com a Rússia e a Rússia reagiu: fez-se a guerra.
*
Na reunião de
Munique de 2007, o presidente Vladmir Putin indicou não suportar mais aquele
estado de coisas e apresentou as novas diretrizes para a ação exterior da
Rússia.
No ano seguinte, em 2008, em consonância, a Rússia interveio na Geórgia. Em
2014, impiedosamente, ela anexou a Criméia e frações do Donbass. Adiante, ela
foi em apoio à Síria do presidente Bashar al-Assad, submerso nas recorrências
da Primavera Árabe.
De 2016 a 2021, ela interagiu, incitou e agravou a totalidade das tensões prementes
com a Ucrânia, a Europa, os Estados Unidos e o Ocidente. Como consequência, o
Ocidente impetrou-lhe sanções em catadupas.
Acuando-a como jamais se fizera depois do muro. Levando o Kremlin, em
consequência, a deliberar uma intervenção em larga escala sobre a Ucrânia.
Tragando a Eurásia e o mundo inteiro para o desconhecido do “é a guerra”.
Uma guerra
peculiar: continuação nítida da Guerra Fria, da tensão Leste-Oeste e dos
despojos não superados aos pés do muro. Uma guerra singular: com a participação
ativa dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Uma guerra apocalíptica: convencendo eslavos a lutar até o último homem para
preservar a sua existência. Uma guerra tecnológica: com a mobilização de todas as
inovações da Quarta Revolução Industrial, com destaque para drones e
inteligências artificiais.
Uma guerra
nitidamente do fim do mundo. Com duração espetacular: maior que da Segunda
Guerra Mundial. Com mortandade expressiva: centenas de milhares em campo de
batalha e dezenas de milhares de fome ou frio na Europa e na África. Com
deslocamentos emigratórios impressionantes. Com choques econômicos,
inflacionários, monetários e fiscais mundiais e agônicos. Com impactos
políticos desconcertantes: impondo descrédito imensurável à gente de
Washington, Paris, Bruxelas e Londres. Com golpes institucionais constrangedores:
levando OTAN, ONU, União Europeia, BRICS e BRICS+ a simplesmente não saber o
que fazer. Com impasses geopolíticos sem precedentes: pela primeira vez depois
do muro a gente de Washington cogita acertar os ponteiros de seus relógios no
mesmo pulsar dos ponteiros de Moscou em detrimento do resto do mundo.
Uma guerra, em
tudo, portanto, diabólica. Onde os fantasmas da Guerra Fria, prensados ao muro,
jogam dados com o destino e brincam em jogral com a esperança dos povos.
Subvertendo ao extremo aquelas máximas do general Charles de Gaulle que aludiam
que “On ne doit
pas jouer avec la souffrance des autres” [Não se deve brincar com o sofrimento dos outros]
e que “On
gouverne les hommes avec la tête. On ne joue pas aux échecs avec un bon cœur [Governam-se os homens com a cabeça. Não se joga xadrez com um bom
coração].
Contemplando
tudo isso do leito de morte, às voltas do seu fim que dar-se-ia no 30 de agosto
de 2022, o presidente Mikhail Gorbatchov (1931-2022) meditou muito sobre esses
adágios do general francês. Admirador da França e do general, ele seguia, como
todos, horrorizado com a sorte da Ucrânia, da Eurásia e da Rússia. Ele estava
lúcido, mas parecia preferir não estar. Era-lhe impensável e insuportável o que
ocorria. O fantasma de Stalin – vivo nas ações do presidente Vladmir Putin
– parecia visitá-lo em cada repouso e em cada solidão.
Nessa situação,
o último mandatário soviético, responsável direto pela abertura do muro e pela
deserção aparente do totalitarismo vermelho, simplesmente, não sabia o que
fazer, pensar nem dizer. Quando, em lapsos, recordou-se de outro magnânimo
francês: François Mitterrand (1916-1996). Mitterrand e ele estiveram firmes aos
pés do mundo. Foram conjuntamente responsáveis pela magnitude daquele fim. Já
frágil e perto de partir, em fins de 1995, o presidente socialista francês
mandou-lhe dizer, através de Vladimir Fédorovski, que não esmorecesse. E
complementou: “Aquilo que vocês pensaram e fizeram – a Glasnost e a ‘Maison
Commune’ – não pertencem ao passado, mas ao futuro. Assim como a ideia
de uma Europa do Atlântico aos Urais”.
François
Mitterrand morreu em janeiro de 1996 com uma certa ideia do lugar da Rússia na
Europa e no mundo. A presente tragédia russo-ucraniana-euroasiática evidenciava
que sua ideia não prevaleceu. Resultando em golpe duro naqueles últimos
suspeitos do presidente Mikhail Gorbatchov.
Havia muito que Gorbatchov
sucumbia em desamor. Raisa Gorbachev (1932-1999), seu alter ego, não
vivia mais. Alexander Yakovlev, seu mestre das sombras, também desertara para o
além. Zbigniew Brzezinski, com quem tinha boa relação, foi-se sem mesmo
despedir-se. Restando-lhe, naquela guerra entre irmãos, o desespero e a
desilusão. Mas, resistindo a isso, elaborou uma última advertência e mandou
espalhá-la pelo mundo. Arguiu que “sim: é a guerra. Mas é também o momento
mais temerário da história da humanidade.”
Vladimir
Fédorovski, junto dele naqueles momentos finais, recolheu a confissão e recebeu
a incumbência de fazê-la chegar a Henry Kissinger (1923-2023) com urgência. O
grande diplomata norte-americano do século XX deveria juntar-se a todos eles
aos pés do muro para meditar sobre o significado daquela tempestade de
tragédias sem fim.
No caso
euroasiático, depois do muro, o lance principal ocorreu, sim, naquele anúncio
do presidente Vladmir Putin em Munique em 2007. Mas o seu acelerador contumaz
veio no ano seguinte, em 2008, com a eclosão da crise financeira mundial.
*
Quando da crise
financeira estourou, um reputado economista norte-americano insistiu em reiterar
que “this time is different” [desta vez é diferente] e parece que ele
tinha razão.
O mundo inteiro caiu em queda livre.
Todas as conformações estabelecidas após o muro desapareceram para nunca mais
recomporem-se. Aqueles aspirantes a revisores do sistema internacional no frisson
do 9/11 tornaram-se inquestionáveis “global powers seeking influence
on global governance” [Potências globais em busca de influência sobre a governança
global]; e a China, a Ásia, a Eurásia, a União Africana, BRICS
e depois os MINTs – México, Indonésia, Nigéria e Turquia – reuniram-se em força
para ostracizar de vez os Estados Unidos, a Europa e o Ocidente.
Não foi
acidente. Foi pensado.
Todos eles,
naquele após 2008, pareciam agir em revanche àqueles que os deixaram de fora da
História diante do muro e seguiram iludindo-os com quimeras de prosperidade
depois.
A sua outra globalização estava, em parte, consolidada. Eles não eram mais “países
de apetite”. Com o tempo, eles se afirmaram competidores implacáveis daquele
mundo que Yalta, Potsdam e Bretton Woods legou.
Vivia-se a
quadra 2008-2011. Os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações
Unidas preservavam muita força, mas estavam mais divididos que nunca. A Europa,
a União Europeia e a zona do euro continuavam o espaço comercial e econômico
mais dinâmico do mundo, malgrado os avanços da China pela Ásia, Oriente Médio,
África e Américas. A crise do euro, a partir de 2009, destronou por completo as
suas ambições sobre a construção europeia e conduziu o grupo ao estágio de unhappy
union. Nos espaços africanos e médio-orientais, a agitação, após a crise
financeira, ficou imensa. Não apenas pelas Primaveras Árabes. Mas,
essencialmente, pelo fracasso integral da política europeia e norte-americana
de harmonização da região.
Aquele famoso e
bonito discurso do presidente Barack Obama no Cairo, em 2009, havia virado
pilhéria.
Da mesma maneira que aquele desastrado discurso do presidente Nicolas Sarkozy
no Senegal, na prestigiosa Universidade Cheikh Anta Diop, dois anos antes, que
dizia, literal e compassadamente, que “Le drame de l’Afrique, c’est que
l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire” [O drama da África é que o homem africano não
entrou suficientemente na História] foi recebido como insulto.
Para ouvintes com a cabeça puída de Hegel
(1770-1831), aquelas palavras do presidente francês guardariam verniz de
verossimilhança. Mas à gente sofrida, de mãos e rosto puídos pela lida bruta, aquela
alocução caía como imenso desrespeito e alucinação.
Da mesma forma e com o mesmo espírito, do outro
lado do Atlântico, aqueles militantes do Occupy Wall Street, reunidos em
solidariedades “pro”, “ante”
e “alter” mundialistas, consideravam desrespeitosas, insultantes e
alucinadas as manobras da administração norte-americana e da União Europeia
para salvar instituições too big to fail.
Tudo isso
evidenciava fatos: 1989-1991 não terminou bem, o 9/11 deixou tudo muito
pior, a crise financeira de 2008 eliminou todas as certezas e o segundo decênio
do novo século perpetuou essa ambiência soturna e aziaga.
*
A reação maciça
a esse estado de coisas veio de onde aguardava-se, mas da maneira menos
desejada:
veio dos Estados Unidos, com Donald J. Trump e et caterva, seus
fanatismos, seus ufanismos, seu nacionalismo à cotê de la plaque, sua
truculência e seu “peculiar frame of mind” [peculiar
estado de espírito].
À vrai dire, no entanto, as
presidências de Barack Obama concluíram-se lastimáveis. O entusiasmo das
eleições 2008 desapareceu quase subitamente. O impulso do Yes, we can
virou rápido frustração. O sonho de um país pós-imperial e pós-racial resultou
em cataclismos inimagináveis. As Obama’s wars foram tão ou mais constantes
que as guerras conduzidas pelos seus antecessores. As promessas de dias bons e
mundos melhores sucumbiram à concretude da vida incerta de norte-americanos e
ocidentais derrotados pela globalização e fragilizados pela impotência da
política.
O multilateralismo à Woodrow
Wilson (1856-1924), Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) e mesmo Bill Clinton,
sob a presidência de Barack Obama, não passou de ilusão. O prestígio dos
Estados Unidos no mundo erodiu. A intervenção internacional, chancelada pela
Casa Branca, para promover um indisfarçado regime change na Líbia
resultou num dos maiores sinistros humanitários desde as invasões no Iraque em
1991 e 2003. A petulância do presidente Barack Obama em fixar-se uma red
line para a utilização de armas químicas e biológicas na Síria redundou na
maior desmoralização de um presidente norte-americano desde tempos imemoriais.
Estraçalhando, em consequência, o que restava de credibilidade da classe
política e das instituições norte-americanas. Acoimando a normalidade do
bipartidarismo entre republicanos e democratas no sistema partidário dos
Estados Unidos e abrindo, por tudo, um vazio a ser preenchido pela incógnita.
Uma incógnita que não tardou a materializar-se no corpo, na alma e nas
intenções do especialista em empreendimentos imobiliários e na “arte da
negociação”, Donald J. Trump.
*
Crise financeira, crise
econômica, crise política, crise institucional, entropia de credibilidade,
impotência presidencial de Barack Obama e sucesso eleitoral de Donald J. Trump.
Não houve acaso em nada disso.
Sob a presidência de Barack
Obama, o eleitor norte-americano sucumbiu à vertigem dos argentinos de 2001 que
bradavam “¡Que se
vayan todos! ¡Que no quede ni uno solo!” [Que vão todos embora! Que não fique nem um só!], à fúria dos indignados
espanhóis de 2011 que advertiam “No nos representan”
[não nos representam] e ao desespero dos brasileiros das noites de junho de
2013 que
arguiam “não são pelos centavos”.
De maneira que o êxito de Donald J. Trump à Casa Branca não foi integralmente
uma surpresa.
A ideia-força de sua campanha
foi o “Make America Great Again” [Faça a América grande novamente], MAGA. Uma
plataforma conhecida e recorrente nos Estados Unidos. Utilizada, notoriamente,
por Franklin Delano Roosevelt em 1932, Richard Nixon em 1968 e Ronald Reagan em
1980, após o malaise da presidência de Jimmy Carter.
Que, agora, em 2015-2016, vinha renovada e reforçada por todos as inovações da Quarta
Revolução Industrial, especialmente nos campos da comunicação.
Uma vez entronizado, o
presidente Donald J. Trump entendeu que a maior ameaça à integridade, à
soberania e ao poderio norte-americano não estava aos pés do muro, mas bem
longe dali: na China.
Os sucessos chineses vinham
notoriamente esplendorosos. Após ingressar na OMC em 2001, o país asiático foi
multiplicando exponencialmente o seu produto. Ampliando consistentemente a sua
presença no mercado e no comércio internacionais. Alterando decisivamente os
fluxos de capitais para a Ásia. Deslocando o grosso das transações mundiais
para os mares do Sul e do Sudoeste de seu entorno. Avançando para todos os
continentes com força e determinação. Adquirindo e administrando a dívida
soberana de países europeus e norte-americanos. Fornecendo empréstimos e
investimentos a países esquecidos da África e das Américas. Tragando com
apetite de lontra commodities de todas as partes – e também do Brasil. Até
confirmar a constância de sua performance na imensa celebração dos seiscentos
anos da primeira expedição do almirante Zheng He (1371-1433) em 2005.
O intuito subliminar dessas
celebrações ao grande almirante chinês não era outro que afirmar que China
is back e que o parêntese ocidental de dominação
dos negócios do mundo estava, sim, terminando.
Consoante a
isso, no âmbito da gestão da crise financeira de 2008, ela juntou-se verdadeiramente
aos BRICs e aos demais emerging countries, deu o tom das negociações
multilaterais assentadas no G20 e acelerou a politização do acrônimo gestado
pela Goldman Sachs em 2001.
Adiante, na
discretíssima transição da presidência de Hu Jintao à de Xi Jinping, em fins de
2013, o país asiático apresentou o seu ambicioso projeto para o século XXI: o “Silk Road
Economic Belt” para integrar a economia chinesa à Ásia, ao Oriente Médio e
à Europa assim como a construção de uma “21st Century Maritime Silk Road”
para conectar o comércio chinês ao sudoeste asiático, ao Oriente Médio, à
África e, novamente, à Europa, ligando, ao todo, do Vietnã à Indonésia ao Sri
Lanka chegando ao Quênia à Itália, Alemanha, Holanda, descendo para a Grécia,
Turquia, Irã, Paquistão, toda a Rússia até retornar para a China. E, em inícios
de 2014, ela plasmou tudo isso na expressão “One Belt, One Road” ou,
simplesmente, BRI – “Belt and Road Initiative”.
Nesse entremeio todo, a
presidência de George W. Bush, soterrada no Oriente Médio, não teve força para
fazer frente a nada disso. A presidência de Barack Obama, imiscuída em inanição,
singrou por alternativas laterais sem efeitos nem consequências. Restando ao
presidente Donald J. Trump abordar o desafio em face. Não por virtude. Por
necessidade. O que o condicionou a, desde os primeiros momentos de seu primeiro
mandato, organizar uma verdadeira blitzkrieg ante o BRI, ante a China e
ante o presidente Xi Jinping.
O primeiro nível dessa guerra
implacável foi a construção de uma comunicação uniforme de negação e desmerecimento
aos sucessos, antigos e recentes, da China. Consoante a isso, o secretário de
estado Mike Pompeo multiplicou acusações ao BRI, indicando tratar-se de plataforma
desleal. O vice-presidente Mike Pence, quando do encontro da “Asia-Pacific
Economic Cooperation”, APEC, incentivou os países a “do not accept
foreign debt that could compromise your sovreignty. The United States deals
openly, fairly. We do no offer a constrictiong belt or a one-way road”.
[Não aceitem dívidas externas que possam comprometer sua soberania. Os Estados
Unidos negociam de forma aberta e justa. Nós não oferecemos um cinto de aperto
nem uma estrada de mão única.]. O conselheiro de Segurança Nacional, John
Bolton, replicou denúncias de que o BRI tinha um “ultimate goal of advancing
Chinese global dominance”. [Objetivo final de avançar a dominação global chinesa]. E o almirante Philip
Davidson, comandante naval norte-americano no Indo-Pacífico, naturalizou a
imagem de que o BRI era “a staling horse to advance Chinese security
concerns”. [Um cavalo de
Troia para avançar as preocupações de segurança chinesas].
O segundo nível da reação foi no
plano das instituições. Em outubro de 2018, o presidente Donald J. Trump assinou,
assim, a lei de “Better Utilization of Investments Leading to Development”,
BUILD, para criar a “Development Finance Corporation”, DFC, em
substituição à antiga “U.S. Overseas Private Investment Corporation”,
OPIC. Tão logo criada, a DFC recebeu um aporte de 16 bilhões de dólares
adicionados à integralidade do orçamento anual da U. S. Agency for
International Development, USAID, para inibir o mercado de crédito chinês e
promover aportes de crédito mais flexíveis, baratos e convidativos a países e
setores incorporados à zona de influência da China alcançados pelo BRI.
Além disso, a administração
norte-americana ainda mobilizou o “Export-Import Bank of the United States”,
U.S. EXIM, para reavaliar a balança comercial dos Estados Unidos versus
China.
Adiante, o Congresso
norte-americano estabeleceu o “Program on China and Transformational Exports”
para inviabilizar setores de tecnologias digitais relacionados à Huawei, 5G,
energia renovável e fintechs.
O terceiro nível dessa blitzkrieg
foi no plano político, teve início em novembro de 2019 e levou os Estados
Unidos a mobilizar a Austrália e o Japão na criação do “Blue Dot Network”,
BDN, para promover infraestruturas na Ásia-Pacífico. Em seguida, reuniram
dezenove países latino-americanos – entre eles, Chile, Guiana, Jamaica, Panamá
e Suriname – para animar o “Growth in the Americas”. Tudo para inibir a
presença chinesa na Ásia, na Oceania e nas Américas.
Ainda em 2019, os
norte-americanos ainda começaram a limitar a venda de semicondutores avançados
e chip para a Huawei chinesa e iniciaram uma ruidosa campanha de descrédito à
empresa chinesa. O que levou o secretário Mike Pompeo a anunciar, em 2020, a
criação da “Clean Network” como alternativa à 5G chinesa sob a promessa
de maior segurança e privacidade de dados.
O conjunto dessa estratégia
também resultou no estabelecimento do programa “Power Africa”, com
aporte de mais de 22 bilhões de dólares, para descontinuar a influência chinesa
no continente africano.
Em seguida, veio
a crise sanitária. O mundo fechou-se por completo. As tensões geopolíticas
precisaram arrefecer-se. Prioridades urgentes impuseram-se sob o lema do “quoi
qu’il en coûte” [custe o que custar]. Consequentemente, desafios latentes
simularam estar suspensos.
Nesse entretempo,
o presidente Joe Biden ascendeu à Casa Branca, minorou a pressão sobre a China
e retornou a tônica da ação exterior norte-americana sobre a Eurásia e sobre o
Oriente Médio. Como resultado – se não direto, sutilmente concreto –, logo após
a crise sanitária ocorreu a precipitação da invasão russa na Ucrânia em
fevereiro de 2022 e o horroroso assalto do Hamas antes Israel no 7 de outubro
de 2023.
*
Mikhail
Gorbatchov viveu para ver tudo isso. Só não viveu para contemplar o retorno das
guerras eternas no Oriente Médio.
Do leito de
morte, como visto, ele emitiu o seu espanto na forma de “sim: é a guerra.
Mas é também o momento mais temerário da história da humanidade” – e fez
chegar a Henry Kissinger. Mas, pensando bem, o destinatário final daquela
mensagem não era só Henry Kissinger, mas, também e sobretudo, o presidente Joe
Biden.
Segue incógnita se
o presidente Joe Biden recebeu a mensagem. Fato foi que Donald J. Trump,
derrotado em 2020, soterrado em litígios judiciais e preparando o seu regresso
à Casa Branca, sinalizou, após a invasão da Ucrânia, que, eleito novamente
presidente, daria prioridade ao mal-estar entre Washington e a Eurásia e
solucionaria todos as querelas russo-ucranianas urgentemente, em 24 horas. “Even
now I could solve that in 24 hours” [Mesmo agora, eu poderia resolver isso em 24 horas],
aludiu repetidas vezes.
Entretanto, de
retorno ao poder em janeiro de 2025, ele tomou pé da situação e notou ser
complexa demais para ser superada em tão poucas horas. Realizou contatos
diretos com o presidente Volodymyr Zelensky e com o presidente Vladmir Putin.
Recebeu o primeiro na Casa Branca e o segundo no Alasca. Tentou dirimir
contratempos. Mas a situação manteve-se sempre mais complexa que o previsto.
Especialmente porque a ação exterior norte-americana estava dispersa e submersa
em muitos fronts e, com isso, sem foco. O que levou o presidente Donald
J. Trump a, antes de tudo, organizar a estratégia geração da ação exterior
norte-americana. O que ocorreu a partir da promulgação, em novembro de 2025, da National Security Strategy of the United States of
America.
Para alguns,
esse documento era a reabilitação da Doutrina Monroe. Para outros, uma
atualização na forma de Doutrina Donroe. Mas, analisado com cuidado, essa novo
estratégia de segurança norte-americana era a síntese de um conjunto de
ordenamentos uniformes e hierarquizados com propósito único de conter a China.
Poucas semanas
depois de seu aparecimento aconteceu a intervenção norte-americana na Venezuela
em janeiro de 2026. Um mês e pouco depois, em fins de fevereiro, houve o
assalto ao no Irã. Ambas operações aparentemente dispersas. Mas, vistas pelo
prisma National Security Strategy of the United States of America, tiveram
o propósito de minorar a presença chinesa na América Latina e no Oriente Médio.
Enquanto isso, a situação euroasiática seguiu congelada. Como numa Cold
Peace. Que não avança nem retrocede. O que, novamente pelo prisma da National
Security Strategy, parece fazer parte do jogo de Washington.
Note-se sobre
isso que que às voltas do encontro do G7 de 2026, sediado em Évian, na França,
do 15 ao 17 de junho, o núcleo das preocupações foi, sim, o conjunto de
urgências advindas do Oriente Médio, do Irã e do Estreito de Ormuz. Mas a parte
substantiva da discussão envolveu o martírio euroasiático. Lideranças da Europa,
da União Europeia e da zona do euro avocaram-se fiadoras da Ucrânia. Em
contraponto, o presidente norte-americano, em dissonância, transitou por
cenários dispersos. Distantes das aspirações europeias e centrados nos
interesses nacionais dos Estados Unidos que voltaram, definitivamente, a rodear
a China. Não pelo receio da “armadilha de Tucidides”
tampouco de um post-American World.
Mas por razões existenciais. As hesitações norte-americanas sobre a situação
euroasiática possuem razão e método.
A centena de Executive
Orders firmadas imediatamente após sua segunda posse de 20 de janeiro de
2025, o remanejamento planetário de tarifas, a simulação de regime change na
Venezuela, a obsessão pela Groenlândia, a mutação da qualidade da aliança
transatlântica com a Europa, o aggiornamento constante vis-à-vis
do Oriente Médio, os allers-retours incessantes de simpatias e repulsas vis-à-vis
de Israel, a tentativa imponente de neutralização do Irã, a inconstância frequente
no trato com a Ucrânia, a Rússia e o presidente Vladmir Putin, na psiquê,
da nova administração norte-americana, possui como target a China. E só
ela.
Tudo porque, nos
corredores da Casa Branca, do Pentágono e de West Point cogita-se que, ceteris
paribus, uma confrontação armada direta com a China figura no horizonte. Na
eventualidade de uma monstruosidade dessa magnitude, os norte-americanos,
malgrado a sua superioridade bélica, militar e tecnológica, teriam dificuldades
em guerrear em dois fronts, o euroasiático e o asiático, capitaneados
pela Rússia e pela China. Justamente por isso a cautela do presidente Donald J.
Trump no tratamento da tragédia russo-ucraniana.
Em fato, a
erupção e o prolongamento desse infortúnio euroasiático a partir de 2022 desalinharam
a Rússia da Europa, dos Estados Unidos e do Ocidente e lançaram-na em
confidências profundas no Oriente Médio, na Ásia e na China. Nesse sentido, a rationalia
do presidente Donald J. Trump perscruta superar a problemática euroasiática com
ganho de causa para a Rússia para normalizar-se as relações
russo-norte-americanas e neutralizar ou fragilizar a participação da Rússia
numa eventual investida sino-norte-americana ulterior.
Regendo a
situação assim, o presidente Donald J. Trump parece, curiosamente, retirar a
ação exterior norte-americana do tropismo do muro e levá-la para outros tempos
e momentos. Tempos e momentos decisivos. Que envolveram a neutralização do
Reich de Hitler e a contenção do totalitarismo de Stalin. 1940 portanto. Quando
a conjunto de estratégias dominantes foi pensado e aplicado pelo presidente
Franklin Delano Roosevelt de 1941, pelos generais George Marshall (1880-1959),
Dwight D. Eisenhower (1890-1969) e Douglas MacArthur (1880-1964) de 1942 a 1945
e pelo diplomata George Kennan (1904-2005) de 1946 até o fim da vida.
Voltando no
tempo, desde a queda de Paris em 1940 e o rompimento do pacto germano-soviético
em meados 1941 que o presidente Roosevelt começou a confiar ao
primeiro-ministro Winston Churchill da impossibilidade de vencer-se Hitler sem
o apoio de Stalin. Churchill sempre resistiu a essa tese. Mas, ao fim das
contas, essa postura imperou e os acontecimentos futuros deram razão ao
presidente norte-americano.
Os desembarques
dos aliados na África, no Mediterrâneo e na Normandia, seriam, no conjunto,
inócuos sem a fúria sanguinária do Exército Vermelho contendo e acoimando Wehrmacht
no front Leste. A libertação de Paris e Roma em 1944, mais à frente,
seria mais incerta sem o Reich sangrando hemorrágico no inferno
germano-soviético. A rendição integral do Japão e da Ásia seria muito mais
humanamente custosa sem a aliança indigesta com a China de Chiang Kai Shek
(1887-1975). A contenção da União Soviética, estacionada em Berlim desde 1945,
seria praticamente impossível sem os alertas do The
Charge in the Soviet Union to the Secretary of State – doravante, Longo Telegrama – de George Kennan, da
formulação do Plano Marshall também idealizada por George Kennan e da criação
da OTAN projetada e negociada também por George Kennan e George Marshall
incorporados a Dean Acheson (1893-1971), Lester Pearson (1897-1972) e
Paul-Henri Spaak (1899-1972).
O presidente
Donald J. Trump parece inspirar-se nessa sequência daqueles momentos de guerra
e após-guerra para antecipar a reação norte-americana diante de um possível
confronto com a China. Fazendo assim, ele parece recuperar a essência da
inquietação do presidente Mikhail Gorbatchov e os fundamentos da percepção de
George Kennan sobre o lugar da Rússia na Eurásia e no mundo.
*
Mikhail
Gorbatchov nem George Kennan participaram pessoa daquele convescote do verão de
2005 em Paris, mas estiveram em espírito. Ambos também tinham os pés fincados
no muro e viam o mundo de modo peculiar. Como Raymond Aron e Henry Kissinger,
acentuavam a fruição do trágico na vida e do trágico na História. Entendiam
que, por pouco, o totalitarismo nazifascista não venceu o Mundo Livre na
Segunda Guerra Mundial e, por pouco, o totalitarismo soviético não virou
hegemônico no mundo inteiro após 1945. Esse quase jamais desertou do
espírito de Gorbatchov nem Kennan. Até o fim de suas vidas eles dois seguiram
ciosos da imperiosidade do mal. Por tudo isso, Kennan, mais que qualquer outro,
levava às últimas consequências as premissas do general Charles de Gaulle sobre
“uma Rússia de sempre” – superior e diferente daquela Rússia do momento
soviético – e um sobre uma “Europa, do Atlântico aos Urais” – com a
integração e normalização totais da Eurásia ao espaço europeu. Considerava ser
a única forma de equilíbrio duradouro na região e no mundo.
A ideia de “Casa Comum” ia no mesmo sentido. Propondo o reconhecimento
tácito da integração física, humana e espiritual de todo o eixo do Atlântico
aos Urais. Conduzindo Tolstói, Tchaikovsky e Dostoievski a integrar o banquete com
Dante, Shakespeare, Camões, Goethe, Flaubert e Fernando Pessoa.
Essas opções
estiveram presentes aos pés do muro. Henry Kissinger e George Kennan, entre
outros, advogaram fortemente por elas. Aduziam que o Ocidente, a Europa e os
Estados Unidos precisariam de prudência redobrada no tratamento da Rússia que
nascia após o totalitarismo soviético. Não era uma Rússia qualquer. Era a
Rússia de sempre. Um urso adormecido que, desperto, tenderia a tornar-se
indomável e, como sempre, disposto a lutar até o último homem para
salvaguardar a sua dignidade. Como se deu ante Napoleão e ante Hitler.
O presidente Mikhail
Gorbatchov, o presidente François Mitterrand e o chanceler Helmut Kohl seguiam
em linha com essas premissas de Kissinger e Kennan. Entretanto, o presidente
Ronald Reagan dos Estados Unidos e a primeiro-ministro Margareth Thatcher do
Reino Unido eram visceralmente contrários a essa solidariedade ocidental e
europeia à Rússia. Aquele “Mr. Gorbatchov, tear down this wall” [Sr.
Gorbatchov, derrube este muro] do presidente Ronald Reagan em 1987 em Berlim
deu o tom de todo o arrivismo europeu e norte-americano contrário à Rússia após
o muro. George Kennan percebeu rápido a manobra e advertiu que, naquele
momento, a não integração da Eurásia ao Ocidente representava o maior
equívoco do Ocidente desde a crucificação de Jesus Cristo.
*
Donald J. Trump talvez
não disponha da sapiência nem da agudeza de George Kennan. Mas ele parece
convencido de que, sim: “é a guerra”; sim: vive-se o “o momento mais
temerário da história da humanidade” e sim: foi um imenso equívoco a não
integração da Eurásia à Europa.
George Kennan
tinha, então, razão em seu desespero. Mas ia além. Como bom leitor dos escritos
do cardeal Richelieu, ele advertia que “L’homme est immortel ; son salut est
dans l’au-delà. L’État n’a pas d’immortalité ; son salut, c’est maintenant ou
jamais.” [O homem é imortal; sua salvação está no além. O Estado não tem
imortalidade; sua salvação é agora ou nunca.].
Essa advertência participou de seus últimos presságios sobre o meio
internacional. Poucos ouviram e deram valor. Por conseguinte, agora, todos
precisam decidir como operar esse “agora ou nunca”.
Foram os últimos
presságios de George Kennan. Que também encetava que “forms of government are forged
mainly in the fire of practice, not in the vacuum of theory. They respond to
national character and to national realities” [As formas de governo são
forjadas principalmente no fogo da prática, e não no vazio da teoria. Elas
respondem ao caráter nacional e às realidades nacionais.]
Restando, agora, aos bons ouvidos, ouvir.
Os principais feitos de Alexander Yakovlev registrados em livros podem
ser encontrados em YAKOVLEV, Alexander. USSR the
Decisive Years. New York: First Glance Books, 1991. YAKOVLEV,
Alexander. The Fate of Marxism in Russia. New Haven:
Yale University Press, 1993.YAKOVLEV, Alexander. Century of Violence in Soviet Russia. New Haven: Yale
University Press, 2002. YAKOVLEV, Alexander. Digging Out: How Russia Liberated Itself from the Soviet Union.
New York: Encounter Books, 2004. Zbigniew Brzezinski produziu obra imensa
e diversa. Distribuída em muitos livros, artigos, relatórios e depoimentos a
casas parlamentares. Entre os seus
principais livros, merecem destaque BRZEZINSKI, Zbigniew. The Permanent Purge: Politics in Soviet Totalitarianism. Cambridge: Harvard University Press, 1956. BRZEZINSKI,
Zbigniew. Power and Principle: Memoirs of the National
Security Adviser, 1977-1981. New York: Farrar, Strauss, Giroux, 1983. BRZEZINSKI,
Zbigniew. Grand Failure: The Birth and Death of Communism
in the Twentieth Century. New York: Charles Scribner's Sons, 1989. BRZEZINSKI,
Zbigniew. Out of Control: Global Turmoil on the Eve of
the 21st Century. New York: Collier, 1993. BRZEZINSKI,
Zbigniew. The Grand Chessboard:
American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. New
York: Basic Books, 1997. Vladimir Fédorovski, serviu sucessivas
presidências soviéticas como diplomata, emigrou para a França no fim da União
Soviética, tornou-se escritor, jornalista e romancista, publicou dezenas de
obras, várias delas best sellers mundiais. Suas obras de referência para
este relato são aquelas de cunho histórico-memorialístico, entre as quais se
destacam FÉDOROVSKI, Vladimir. Le fantôme de Staline.
Paris: Rocher, 2007. FÉDOROVSKI, Vladimir. Poutine,
l’itinéraire secret. Paris:
Rocher, 2014. FÉDOROVSKI, Vladimir. Poutine
et l’Ukraine : les faces cachées. Paris:
Balland, 2022. FÉDOROVSKI, Vladimir. Staline
& Poutine, dialogues d’outre-tombe. Paris:
Balland, 2024. FÉDOROVSKI, Vladimir. Le Roman
vrai de Gorbatchev. Paris:
Flammarion, 2021. FÉDOROVSKI,
Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin: Le vrai magicien de Moscou.
Paris: Balland, 2026.
HOBSBAWM, Eric. Interesting times: a
twentieth-century life. London: Knopf, 2007.
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Antonio Polito. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo: Cia das Letras, 2009.
O Massacre
de Massacre de Katyn foi a execução
em massa de cerca de 22 mil cidadãos
poloneses pela polícia secreta soviética, a NKVD, na primavera de 1940, por ordem da
liderança da União Soviética. Entre as
vítimas estavam principalmente oficiais do Exército polonês, além de policiais,
intelectuais, professores, médicos, engenheiros, advogados e funcionários
públicos. Vide DAVIS, Norman. O levante de 44 – A batalha por
Varsóvia. Trad. Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Record, 2006.
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