segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um diplomata, um General e o Febeapá - Sergio Florencio

 Sergio Florencio deixa a geopolítica de lado e nos faz rir em torno das agruras de um general no comando de uma embaixada:


Um diplomata, um General e o Febeapá


Sergio Florencio 

 

Acolhida

 

Era manhã de segunda feira do ano de 1972. Um jovem diplomata de vinte e sete anos tinha chegado a Georgetown no dia anterior.  Foi se apresentar ao Embaixador - um General linha dura, ex- Comandante do Primeiro Exército, no Rio de Janeiro.

-Que dia você chegou?

-Ontem à tarde.

-E por que não me ligou? Sabia que era sua obrigação me ligar?

-Sim, sabia. Era domingo. Devia estar com a família. Não quis incomodar.

-Isso não é explicação.

-E onde está hospedado? Park Hotel?

-Não. O taxista, que me trouxe do Aeroporto, sugeriu outro hotel. Bem próximo do Park Hotel, mais divertido, mais barato, e também com piscina.

-E que hotel é esse?

-Happy Days Hotel.

-Isso não é hotel. Isso é um puteiro!

-Que pena. Não sabia.

-Está fazendo gracinha?

-Não. Fiz um comentário.

-Pode se retirar.

 

Pedro II Condenado

Foi assim o amigável primeiro encontro com o General – Embaixador, que dirigia a Embaixada como comandava um quartel. Logo nos primeiros dias soube que brigou com um Oficial de Chancelaria (Ofchan) porque esse elogiou o Colégio Pedro II, onde havia estudado. O General replicou que o melhor ensino do Brasil era no Colégio Militar, e podia provar, porque lá estudou desde o CAD -Curso de Admissão até ingressar na AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras. O Ofchan ficou calado. O General, de índole assertiva, não acreditava no ditado popular “quem cala consente”. Exigiu definição. Silêncio. A partir o Ofchan daí virou desafeto.

 

Yogue na praça

 

Outro funcionário do quadro do Itamaraty era um divertido Assistente de Chancelaria, cargo administrativo logo abaixo de Oficial de Chancelaria na hierarquia. Negro, baixinho, magrinho, muito espirituoso, tinha a Yoga como religião.  O General não gostava nada daquele sorriso irônico de Daniel. Devia pensar que escondia sarcasmo contra sua autoridade, no que não deixava de ter alguma razão.

Mas tudo ia bem para o lado do Daniel até um incidente fortuito na praça em frente à Embaixada. Um amigo guianense do nosso funcionário pediu que ele demonstrasse umas posições de Yoga. Daniel explicou que era preciso estar num recinto mais reservado. O amigo insistiu,  Daniel resistiu mas acabou cedendo ao pedido. Ficou ereto, de cabeça para baixo, durante um bom tempo no centro da praça pública. Parecia um poste, era o homo erectus.  Mas o exercício físico-espiritual coincidiu com o olhar militarizado do General-Embaixador.  Chegou perto de seu funcionário, deu um grito “Componha-se!” De cabeça pra baixo, Daniel levou um susto do outro mundo, quase caiu, misturou Yoga com contorcionismo e se postou diante do General indignado, agressivo com a conduta indigna de um subordinado.  A partir dali conquistou a antipatia do chefe.

A primeira vez que conheci Daniel, meu grande amigo até hoje, ele sorriu e disse que queria fazer uma pergunta fundamental sobre meu currículo. Comecei a rir com aquele início inesperado de conversa. Ele estava sério, e acrescentou, pausadamente. É a pergunta mais importante para quem trabalha nessa Embaixada.

-Você estudou no Colégio Militar?

- Não, disse eu.

-Tá ferrado, Secretário. Você entrou no Quartel errado!

Ri muito. Algum tempo depois, me lembrei daquela música “O que dá pra rir dá pra chorar”. Daniel tinha razão.

 

O Presidente de pijama

 

Comecei a fazer o trabalho burocrático da Embaixada e a participar das reuniões do General com autoridades locais e com outros embaixadores. Quando saiamos de um coquetel com a presença do Presidente da República, entrávamos no carro oficial, dois comentários eram recorrentes.

-Esses negros não têm vergonha. Viu como o Presidente do país estava vestido? De pijama! Onde já se viu uma coisa dessas! Falta de compostura.

O pijama que ele mencionava, na verdade era o traje nacional da Guiana e de outros países do Caribe e da América Central - a famosa Goiabeira. Era uma espécie de blusa ou camisa, em geral branca, de manga comprida ou  curta, com diferentes rendas ou desenhos. Comecei a dar essa explicação óbvia, mas ele nem quis saber.

- Lá vem você, como seus coleguinhas, com essas explicações sem sentido. Para mim o Presidente estava de pijama! Um absurdo.

Outra cena muito comum era quando o General entrava no carro oficial e dava ordem para o motorista seguir para casa. “Home!” Olhava para mim e dizia sorrindo. “Viu como meu inglês tá bom!” Eu comecei a ver um certo humor no General.

Traduz, Pimentel!

 

Como Embaixador, o General era obrigado a oferecer jantar na Residência, em algumas datas nacionais. Nessas ocasiões, depois do jantar e dos drinks, os diplomatas ficavam conversando e com frequência passavam do horário estabelecido pelo General – rígidas 22 horas. Acontecia então algo inesperado para mim, recém-chegado a Georgetown, mas que virou uma espécie de Protocolo do General.

Aqui preciso interromper e explicar que, nos anos 1970, num país pobre como a Guiana, aparelho de ar-condicionado era objeto de luxo, muito caro, nem sempre acessível. A residência do Brasil não tinha ar-condicionado, era uma casa ampla, gostosa, com janelas enormes, justamente para trazer alguma brisa fresca. Janelas abertas era, a assim, obrigatório, sob pena de sujeitar diplomatas a suar o pão que o diabo amassou.  

Quando o antigo relógio de parede tinha seus ponteiros se aproximando das 22 horas, o General interrompia qualquer conversa, com qualquer convidado, e iniciava sua rotina nos jantares oficiais. Começava a fechar janelas. Contam as más línguas que a primeira vez que isso ocorreu, foi um alvoroço. Ninguém tinha observado o gesto inusitado do General. Todos continuaram conversando, muito depois do horário regulamentar das 22 horas. Convidados conversando, o General fechando janelas e a temperatura subindo, subindo. Um gramático diria aqui – era o gerúndio da canícula.  

Foi então que um diplomata mais atento descobriu a pólvora. Viu o General fechando janelas. Brincalhão, naquele calorão, falou aos amigos, sorrindo. “Vocês não entenderam nada. Era Ordem Unida à tropa. Bater em retirada!” A partir dessa noite, nos jantares na residência do Brasil em Georgetown, quando os ponteiros se aproximavam das 22 horas, o diplomata brincalhão circulava rapidamente dizendo. “Atenção! O Marechal Relógio deu ordens ao General. Retirar Tropa!”

Outro episódio muito revelador da irreverência autoritária do General ocorreu na data nacional brasileira, quando ele oferecia um jantar formal. Os pratos com os diversos tipos de comida foram servidos numa gende mesa central.  O General ficou postado na parte final da mesa e começou a notar alo que chamou sua atenção. Os convidados se serviam normalmente, mas quando estavam em frente de um prato, paravam, olhavam e seguiam em frente não se serviam. Era um prato brasileiro famoso – o Tutu de Feijão.

Aquela atitude de desprezo por um ícone da cozinha brasileira começou a ser sentido pelo General como uma rejeição a nosso país. Isso mexeu com seus brios nacionalistas. O jantar transcorreu em clima ameno, até que chegou a hora do discurso. O General falava em português e o Pimentel, diplomata brasileiro em Georgetown traduzia. Terminados os agradecimentos de praxe, o General entrou propriamente na substância, no sentido literal mesmo. Fez um entusiástico elogio ao Tutu de Feijão, desde sua origem – a Feijoada, prato rejeitado pelas elites, apreciados pelos escravos, até ganhar personalidade própria, apreciada pela sociedade brasileira, como Tutu de Feijão.

Tudo ia muito bem, no melhor dos mundos. Alguns convidados demonstravam visível surpresa com a origem antropológica da feijoada. Nasceu entre os escravizados, se transformou em iguaria das elites e, enfim, em prato apreciado pelo conjunto da sociedade.

Mas aquela era uma paz aparente. Submersa, havia uma rebeldia indignada com o desprezo dos convidados diante do nosso Tutu.

-Não posso deixar de manifestar minha crítica a todos vocês. Não posso aceitar o desprezo de todos diante do nosso Tutu. Vocês, que olharam para ele, provavelmente acharam muito feio e nem provaram, não sabem o que perderam.

Pimentel pediu para o General interromper a fala para a tradução. Inconscientemente, talvez quisesse desviar o foco do General que, naquela altura, estava fixado na crítica aos convidados. Nosso diplomata dourou a pílula. Não traduziu para o inglês o “desprezo pelo nosso Tutu”. Preferiu falar da “curiosa atitude de todos ao passar pelo prato de Tutu”. O General não falava quase nada de inglês. Mas achou estranho  o tom plácido do inglês de Pimentel. Esqueceu e continuou sua investida contra convidados já um pouco transformados em adversários ou rivais de um prato-símbolo de nossa nacionalidade.

-Vou dizer uma coisa a todos vocês. Com toda sinceridade.

Nesse momento, os convidados - acostumados com as boas maneiras e a  gentileza do tradutor amigo de todos – notaram nele um suspiro profundo e uma vermelhidão no rosto. O General continuou a Marcha da Sinceridade.

-Com toda sinceridade. Vocês não sabem o que perderam, meus amigos. Uma iguaria nacional! O Tutu é o manjar dos Deuses!

Mais uma vez, Pimentel pediu tempo para traduzir. Afinal, eram apenas elogios. Mas o General começou a atravessar o Rubicão.

-Noto que não consigo convencer vocês. Pois bem. Vou lembrar um ditado muito popular no Brasil. Só no Brasil! E vou fazer uma comparação do desprezado Tutu com personagem desse ditado popular. Meus amigos – o General nunca deu importância à flexão de gênero – o Tutu é como nossa Raimunda – feia de cara, mas boa de bunda.

Pimentel ficou atônito. Não podia acreditar no que estava ouvindo. O General parou de falar. O tradutor não entrava em cena. Até que veio uma Ordem Unida.

-Traduz, Pimentel!

Nosso diplomata só tinha uma certeza. Nunca traduziria, ao pé da letra, a barbaridade dita pelo General.  E começou a florear a bomba .

-We have in Brazil a very nice young lady called Raimunda. Like Brazilian black beans, she is very popular, very pretty and very nice.

O General não falava inglês. Mas sabia o significado de algumas palavras. Ouviu o nome da Raimunda, e logo em seguida palavras que conhecia, como popular, pretty e nice. Sentiu que nosso tradutor omitiu muita coisa.

-Traduz de novo, Pimentel. Acho que você não traduziu o que eu disse.

Lógico que o diplomata não ia peitar o General. Ele estava no comando, em seu território e tinha a faca e o queijo na mão. Sobretudo a faca, pensou. Tentou nova fórmula. Ampliou o texto, usou palavras menos óbvias. A esperança era enrolar o General e seu limitado inglês.

- Let me tell you a very curious Brazilian story about Tutu and Raimunda. Tutu is like Raimunda. I will repeat very clear to all of you, dear friends. Tutu is like Raimunda.

Nesse delicado momento da vida de um diplomata, Pimentel se lembrou de negociações na ONU. A persuasão pela repetição. A convicção pela repetição. E lá foi nosso tradutor, escanteado no ringue, vítima de soco no queixo de um irado General. Partiu para um blitzkrieg – muitas palavras, pronunciadas rapidamente, acompanhadas do refrão de agrado do Chefe. Tutu is like Raimunda.

-Our Ambassador said. Let me be very frank. And I repeat – let me be very frank. Our Ambassador said. Tutu is like Raimunda. And I repeat to you all. Tutu is like Raimunda. A handsome, good looking, wonderful lady, very representative of the beauty of a Brazilian woman. My ultimate message to you all, friends of our dear Ambassador, friends of Brazil, is the following. Tutu and Raimunda have so much in common, you can´t imagine the ultimate result of such deep identity. They both became symbols of a multi-cultural , multi-ethnic society, a mixed-race people. Tutu and Raimunda are a combination of black beans (Tutu) with a white woman (Raimunda). Our ambassador is very pleased with your presence here and thank you all. You made this celebration an unforgettable evening!

O General ficou silente por alguns minutos. Mas logo retomou o ataque.

- Pimentel, repete a tradução. Mas a tradução do que eu disse!

Naquele momento, um amigo uruguaio, muito versado em portunhol, juntou um pequeno grupo de diplomatas, e explicou em inglês.

-Vocês não entenderam o drama do querido Pimentel. O General está forçando nosso amigo a traduzir uma frase ultrajante. Nem vou repetir para vocês. E o General vai passar a noite repetindo. Traduz Pimentel! Mas eu tenho a solução salomônica. No inglês compreensível para o General, vamos repetir “Very well, Ambassador”. Em inglês menos compreensível, vamos acrescentar. “Pimentel. You are our hero”. Mais importante de tudo. Vamos começar a aplaudir um aplauso sem fim. Tão alto que vai silenciar o grito de guerra do General “Traduz de novo, Pimentel!”

Moral da história. A batalha do General com o diplomata terminou com efusivos aplausos e abraços entre todos. E a doce ilusão do General de ter vencido a guerra.

 

Reflexões do General no Febeapá

domingo, 30 de agosto de 2026

Fechar os Correios, a única solução - Marcelo Guterman

 

Fechar os Correios, a única solução

E lá vamos nós outra vez.

Os Correios publicaram o balanço do 2o trimestre: R$ 2,4 bi de prejuízo. No ano? Não, só no trimestre. E patrimônio líquido de incríveis R$ 20 bi negativos. No Gráfico 1 mostro a evolução do patrimônio líquido da empresa desde 2001 (até 2016, valores de final de ano, a partir de 2017, valores no 2o trimestre de cada ano). Só nos últimos 12 meses, o PL da empresa encolheu mais de R$ 11 bi. Quem diria que entregar a direção da empresa para um advogado do Prerrogativas iria resultar nisso aí. Fomos todos surpreendidos.

Mas antes o problema dos Correios fosse somente má gestão. O buraco é bem mais embaixo. Observe o Gráfico 2, onde temos o faturamento da empresa atualizado pela inflação. Note como, a partir de 2017, temos o início de um processo de queda quase ininterrupta no faturamento, desconsiderando os anos de 2020 e 2021, distorcidos pela pandemia. O faturamento de 2026 (estimado com base no número do primeiro semestre) é pouco mais da metade do nível de 2014, o pico da série histórica. E isso não tem nada a ver com governo A, B ou C.

O fato é que os Correios vêm se tornando uma empresa cada vez menos relevante no cenário da indústria logística brasileira. De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Operadores Logísticos, o faturamento das empresas do setor cresceu 49% entre 2021 e 2025, período no qual o faturamento dos Correios recuou 35%.

O problema é que as despesas operacionais, principalmente com funcionários, não caiu na mesma proporção, como podemos observar no Gráfico 3, em que a linha azul mostra as despesas operacionais em moeda de 2026 (escala da esquerda), e a linha laranja essas mesmas despesas em proporção do faturamento (escala da direita). Quando essa proporção fica maior do que 100%, há um prejuízo operacional, mesmo antes das despesas financeiras. 

Observe como as despesas operacionais vão crescendo até 2015, e a empresa passa a ter prejuízo operacional já a partir de 2013. Com a mudança de governo, há uma queda das despesas operacionais a partir de 2016, vindo do pico de R$32,5 bi em 2015 até R$22,5 bi em 2020. O problema é que parece haver aí um piso para essas despesas, que se estabilizam neste patamar. Como as receitas continuaram a despencar, o prejuízo operacional explode. Em 2026, se o segundo semestre repetir o primeiro, as despesas operacionais serão 60% superiores às receitas. E isso, repito, antes das despesas financeiras.

E por falar em despesas financeiras, veja o gráfico 4. Com a explosão do prejuízo operacional, a saída foi se endividar mais, o que resultou em crescentes despesas financeiras. Projeta-se mais de R$ 2 bi só de despesas financeiras em 2026, de longe o maior volume da história.

O que aconteceria se os Correios fossem uma empresa privada? Vamos a uma comparação atual: Casas Bahia.

As Casas Bahia passam por uma situação semelhante aos Correios, perdendo mercado para os concorrentes da Internet. Depois de alguns anos tentando adequar sua estrutura à nova realidade e procurando alternativas para aumentar o faturamento. Nada disso funcionou de maneira suficiente, e a empresa entrou com pedido de Recuperação Judicial para reestruturar a sua dívida. Portanto, se os Correios fossem uma empresa privada, já teriam entrado com RJ. Ao contrário, os bancos emprestaram mais dinheiro (R$ 12bi), com o aval da União. Ou seja, com o nosso aval.

Com a queda do faturamento, os Correios precisariam cortar despesas proporcionalmente, o que parece ser muito difícil, dado o poder que os funcionários parecem ter sobre a empresa. No caso das Casas Bahia, a empresa tomou a decisão de fechar quase 300 lojas e demitir 3 mil funcionários. No entanto, a Justiça do Trabalho sustou as demissões, o que demonstra como é difícil uma empresa em dificuldades se ajustar.

Capitalizar os Correios com dinheiro dos nossos impostos é somente adiar o desfecho inevitável de uma empresa que perdeu a sua razão de existir, como vemos pela intensa queda de seu faturamento. Se é para colocar dinheiro nos Correios, que seja para fechar a empresa e estancar a sangria. 

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.

Por que o Itamaraty não faz uma nota sequer sobre os crimes de guerra russos na Ucrânia? - Paulo Roberto de Almeida sobre um relato de prisioneiro

 Um horror perpetrado por um Estado aliado da atual diplomacia lulopetista não é um horror: apenas casos a serem desprezados e ignorados. Creio que nunca se desceu tão baixo na escala da dignidade do Brasil como nação respeitadora do Direito Internacional 

Paulo Roberto de Almeida 


Creio que meus colegas diplomatas do Itamaraty não dão muita atenção a depoimentos como este. O Palácio do Planalto os instrui a não dar nenhuma atenção a casos de flagrantes violações do Direito Internacional e do direito humanitário, e assim continuamos a objetivamente apoiar o Estado terrorista russo em sua guerra de agressão ao povo ucraniano. Creio, pessoalmente, que este é um dos momentos de mais baixa dignidade do serviço diplomático brasileiro em toda a sua história, impedido, por decisão politica no mais slto grau — ou seja, da dupla Lula-Amorim —, obstando a que os diplomatas profissionais possam viver e trabalhar de pleno acordo com o que eles aprenderam nos bancos escolares, antes e durante o IRBr, sobre valores e princípios de nossa Constituição, da Carta da ONU e das mais elementares regras do Direito Intermacional: permanecemos totalmente silentes em face dos mais pavorosos crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados por uma ditadura das mais execráveis.

Acredito que muitos diplomatas devam se sentir muito desconfortáveis com o apoio dado pelo governo atual ao Estado terrorista russo. PRA

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“The russians handcuff your wrists to a bar and suspend you from it like meat on a spit. Under the weight of your body, the handcuffs dig into your joints. The guards call this the “moped.” Fifteen minutes of that, and you’ll confess to killing Kennedy.

This is how Yan “Avgust” Danilko, a 27-year-old Azov fighter who survived the Olenivka attack, describes russian captivity.

Avgust, in an interview: 

The guards call the initial beating “reception.” Zero out of ten. They made me stand in a basin on the floor and simply went at me with their fists and boots.

One of my cellmates suffered a stroke. The guards didn’t believe him. During every examination, they would hold a lighter to his skin or stick pins into his leg to see whether he reacted.

All day long, through the wall, you could hear guards beating other prisoners, trying to force confessions out of them. So instead, I studied German with a cellmate who had taught languages before he was captured. Nothing is impossible. It’s all in your head.

If I said now that Taganrog broke me, that I wasted those years, that I lost something there – it would mean they won. So I don’t consider a single one of those days wasted.

On Olenivka:

The explosion was so powerful that not everyone died immediately. I hope those who were at the epicenter didn’t suffer. Many of them were simply asleep – and that’s how they were found.

When the guards unloaded our vehicle at the hospital, two of the men who had been with me were already dead. If we had arrived an hour earlier, I think they would have survived.

That day, the guards were taking prisoners out according to some kind of pattern. Every fourth or fifth man – only Azov fighters – and lining them up outside shortly before the explosion. That was when something began to feel strange.

After the explosion, I tore off my own bandage, twisted it into a tourniquet, and applied it to my leg myself. I lay there with that tourniquet on for nine hours before I reached the hospital. The doctor said: either we save you, or we save the leg.

On the second day after surgery, while I was still full of morphine, russian journalists entered my intensive care room. Cameras in front of me, armed men in balaclavas behind them. Whether they continued treating me depended on what I said next.

One nurse spent her own salary buying me antibiotics and eye drops at a pharmacy. She told the guards that a doctor had prescribed them so they wouldn’t ask unnecessary questions.

They didn’t torture me in the hospital. There was nothing left for them to take from me. But other wounded prisoners were subjected to electric shocks right in their hospital beds – by a separate russian security unit that came specifically to interrogate patients.

Later, I was already sitting on my bag, ready for a prisoner exchange. At the last moment, a russian major came in and told me that, for me personally, the exchange had been canceled. There was no medical transport available for a man with one leg.

Source: translated from the text of Tymofiy Mylovanov

Aprimorar o Parlamento - Valdir Santos (Inteligência Democrática)

 

Brincando de Arnold Toynbee - Paulo Roberto de Almeida

Brincando de Arnold Toynbee

Paulo Roberto de Almeida

Não tenho grandes teorias históricas a oferecer, mas tenho a impressão de que grandes impérios — que continuam a perecer, segundo um famoso historiador francês, Jean-Baptiste Duroselle — acabam sendo levados ao declínio e a graves crises transformadoras (como a Grande Guerra de 1914-1918, seminal para o resto do século XX) pelo fato de serem dominados, numa certa etapa de seus itinerários respectivos, por líderes muito velhos, mas ainda ambiciosos. 

Parece ser exatamente o caso de dois autocratas megalomaníacos, como Trump e Putin, mas não parece ser ainda o caso de Xi Jinping, imperial despótico como possa ser, mas auxiliado por uma tecnocracia weberiana-smithiana de muito boa qualidade.

Pode ser que estejamos no limiar de um desses processos seminais de mudança nas relações internacionais, que um outro grande historiador francês, Ernest Labrousse, chamou de “conjuntura histórica de transformação”, como foram as revoluções atlânticas do século XVIII.

Quem viver verá! Eu só espero as derrotas de Trump e de Putin, para expressar um pouco de otimismo a respeito de um começo de século que ameaça inaugurar uma nova conjuntura labrousseana. 

PRA (30/08/2026)


A História se repete, como farsa trágica? - Paulo Roberto de Almeida

A História se repete, como farsa trágica?

Paulo Roberto de Almeida


Com o recente anúncio de que os EUA trumpistas assumiram o controle operacional sobre boa parte das reservas venezuelanas de petróleo — a pretexto de “eficiência” na exploração —, o país caribenho retorna aos primeiros anos do século XX, quando empresas petroliferas americanas viabilizaram a entrada em vigor de uma pujante economia do petróleo na Venezuela, até a nacionalização dos recursos na era da OPEP, da qual a Venezuela foi uma das fundadoras nos anos 1960.

Não se trata mais da repetição da Doutrina Monroe, como pretende o trumpismo ignorante e imbecil, mas de um retorno ao “Corolário Roosevelt” (1904), quando o “nascente” imperialismo americano se juntava aos colonialistas trapaceiros europeus, mais antigos. O imperialismo ocidental se consolidava então, inclusive na China, cenário que só começou a mudar com a emergência de uma URSS mais poderosa no segundo pós-guerra e da China maoísta pouco depois.

Atualmente, o cenário imperial mudou relativamente: um novo poder econômico imperial se afirma no mundo, o chinês, não necessariamente hegemônico, ao lado do ainda preeminente império americano, relativamente declinante (no plano industrial, mas vigoroso nos serviços), sendo que o imperialismo russo afunda no fracasso do “renascimento putinesco”, que conseguiu transformar a gigantesca Rússia num Estado vassalo da China, ao lado de um “meio-império” europeu dominado por uma UE em expansão, ainda importante economicamente, mas limitada no plano militar, e uma Índia crescentemente relevante nos planos econômicos e geopolíticos. 

O Brasil continua limitado na esfera das potências médias (onde estão também o Canadá, os nórdicos, a Indonésia, o México e poucos outros), com alguma importância econômica, mas sem muita presença tecnológica ou militar no cenário geopolítico. 

Depois da Venezuela, o trumpismo imperial gostaria de conquistar o Brasil, o que conseguiria facilmente se por acaso o bolsonarismo traidor sair vitorioso nas urnas de outubro, uma perspectiva verdadeiramente trágica na história farsesca das eleições brasileiras.

O mundo dá muitas voltas, não é? Já está dando, numa eventual derrota russa em sua guerra de agressão contra a Ucrânia, que está se revelando uma possível regressão do império russo em séculos.

De todos os equívocos que Marx cometeu, no plano de suas invenções econômicas e filosófico-políticas, uma única certeza ele pode ter afirmado: o caráter nefasto do imperialismo russo no domínio civilizatório, especialmente para a Europa central e oriental e para a China (marginalmente o Japão também), contra os quais abocanhou terras e impôs sua dominação autocrática. Esse avanço pode estar desaparecendo, ao contrário das predições de Emmanuel Todd sobre a “derrota” do Ocidente. De certa forma, a China é um “novo Ocidente”, mas por enquanto limitado ao domínio econômico, ao ser a fonte principal das inovações da quinta revolução industrial.

Marx teria gostado de analisar, no século XXI, o fortalecimento do modo capitalista de produção que ele analisou num tom muito pessimista na Europa do século XIX. Raymond Aron também faz falta na nova geopolítica em construção.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 30/08/2026


Lamento Brasil, mas a mediocridade oligárquica venceu - Renato Corrêa e Paulo Roberto de Almeida

 Meio século de mediocridade oligárquica?


Um protesto indignado de um eleitor, Renato Corrêa, descontente com a perspectiva de passar a vida inteira sob o dominio de dois clãs opostos, duas tribos inimigas, ambas medíocres, mas que conseguiram monopolizar a política brasileira nos últimos tempos, e que hipoteticamente podem ainda fazê-lo por décadas: o lulopetismo de um lado, o bolsonarismo de outro. A questão então se desloca da “burrice” do eleitor, que atua na “demanda” por dirigentes desses clubes políticos, para a “oferta” de políticos profissionais medíocres que dominam o mercado eleitoral brasileiro, isso sem contar a praga do evangelismo político-negocista, que compromete terrivelmente as perspectivas de se ter um país educado no Brasil, com essa tendência ao antidarwinismo educacional, o antiabortismo carola, e o negacionismo vacinal desses estúpidos. Acho que não conseguiremos escapar do desastre anunciado. PRA

Primeiro a transcrição:

“#CartaAberta

Petistas e bolsonaristas, vocês já tomaram tempo demais

RENATO CORRÊA

AGO 29, 2026

Se Lula vencer as eleições deste ano, teremos mais quatro longos anos de petismo. Se Flávio vencer, provavelmente só sairia em 2034, quando usaria toda a máquina — e a estupidez dos bolsonaristas a seu favor — para eleger um dos irmãos, Carluxo, que ficaria até 2042. Daqui a duas décadas, o mesmo seria feito para a eleição de outro irmão, Bananinha, que se estenderia até 2050. Ainda teríamos mais um do clã sobrando, Jair Renan, que poderia ser eleito e reeleito pelos mentecaptos que votam 22 até 2058.

No total, seriam 32 anos — ou 36, se contarmos o primeiro governo — de bolsonarismo. E isso sem levar em conta a Michelle no cálculo. O PT governou a nação por praticamente 20 anos. Eu estou com 45. Isso significa que, durante quase metade da minha vida — desde que me tornei adulto —, o Brasil esteve nas mãos do petismo. Daqui em diante— até eu ficar idoso — a política do país pode ser dominada pelo bolsonarismo. 

Metade da minha vida foi pautada por sindicalistas, estudantes de filosofia, ONGs e artistas da Lei Rouanet. Agora o resto dela, até meus 77 anos, está prestes a ser pautado pelas tias do Zap, pelos fiéis dos pastores de palanque e pelas viúvas da ditadura militar.

Caros votantes de Flávio e de Lula, quero dizer uma única coisa: vocês estão em dívida comigo. Vocês me devem um país minimamente decente, no qual nunca tive a oportunidade de viver. Seu fanatismo transformou a minha vida numa sentença perpétua.” 

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Agora retomo, com desculpas pela insistência na negatividade:

PRA: se essa sequência de mediocridades se confirmar, o Brasil continuará sendo um país culturalmente atrasado, economicamente pouco dinâmico, educacionalmente dominado por tribos anticientificas, politicamente entregue a oligarquias corruptas, socialmente obrigado a conviver por longos anos ainda com pobres e miseráveis pelas ruas, nas quais também prevalecem os bandidos comuns, chamados de “pés-de-chinelo”, mas igualmente os influencers imbecis e aproveitadores da ingenuidade geral da população, ao lado das organizações criminosas mais sofisticadas e violentas, agora dotadas de ferramentas financeiras mais efetivas. Estou sendo muito pessimista?

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 30/08/2026

sábado, 29 de agosto de 2026

Debate eleitoral e entrevistas individuais: Lula vs Flavio (TV Globo, G1)

 Lula e Flavio Bolsonaro na TV Globo, quinta e sexta feira, 27 e 28/08/2026

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No primeiro debate eleitoral de 2026 entre os candidatos à Presidência do Brasil, realizado na Band TV (disponível no link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/o-primeiro-debate-eleitoral-de-2026.html- tanto o vídeo quanto a análise de Gemini) no último domingo, os dois primeiros colocados nas pesquisas eleitorais (Lula e Flávio) não estavam presentes. Porém, ambos compareceram, posteriormente, à entrevista eleitoral realizada na TV Globo (logo após o Jornal Nacional) nesta semana. Abaixo, trechos dessas duas entrevistas, em ordem cronológica (de publicação no YT), disponibilizados pelo canal G1 no Youtube. 

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* Lula (dia 27/08, quinta-feira): 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre acusações de corrupção que envolvem Lulinha: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre mensagens de lobista em que Lulinha é citado: 

Eleições 2026 - Lula responde sobre suposta atuação de Lulinha junto ao Palácio do Planalto: 

Eleições 2026 - Lula responde sobre mensagem em que lobista diz que recebeu oferta de cargo: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre pagamentos de lobista para ex-chefe de gabinete: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre conexão de ex-chefe de gabinete com lobista: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre escândalo no INSS: 

Eleições 2026 - Lula responde sobre relação com Lupi, ex-ministro demitido após fraude no INSS: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre fila do INSS: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre ajuste fiscal: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre caso Master e Jaques Wagner: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre educação: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre crise nos Correios: 

Eleições 2026 - Lula faz suas considerações finais: 

Eleições 2026 - Lula responde a pergunta sobre segurança pública e crime organizado: 

Lula responde sobre ação de ex-ministro demitido após escândalo no INSS: 

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* Flávio (dia 28/08, sexta-feira): 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre relação com Vorcaro: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre mensagens trocadas com Vorcaro: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde por que não apresenta mais explicações sobre 'Dark Horse': 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde sobre contrato do 'Dark Horse': 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre visita a Vorcaro: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre tentativa de golpe após eleições de 2022: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre urnas eletrônicas: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde sobre depoimentos de generais que confirmam plano de golpe: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde sobre fala de Eduardo de agradecimento aos EUA: 

Flávio Bolsonaro responde sobre homenagem a um dos maiores matadores do Brasil: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde sobre PIX e chance de negociação com os EUA: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde sobre tarifaço de Trump e declarações do irmão: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre salário-mínimo e aposentadoria: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro faz suas considerações finais: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre proximidade com Rodrigo Bacellar: 

Eleições 2026 - Flávio Bolsonaro responde a pergunta sobre aquecimento global: 

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