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Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Até onde vai o fôlego dos emergentes?
Se os investidores continuarem a se desfazer de dólares, ativos desses mercados têm muito a ganharNão é que a promiscuidade na corrupção de quase todos os integrantes dos chamados círculos dirigentes de Brasília, e do Brasil, me choque. O que me choca é que isso não tenha vindo à tona antes, tantas eram as evidências de que o ambiente era muito podre, mais podre do que pessoas de classe média, como eu e a maioria dos brasileiros bem informados, pudéssemos imaginar que fosse assim tão evidente, tão claro, tão transparente. Nas ditaduras tudo se passa nas sombras. Nas democracias, como a do Brasil, mesmo de baixa qualidade, as coisas acabam aparecendo...
Paulo Roberto de AlmeidaA Economist pergunta na sua edição de final de ano dedicada aos "prognósticos" para 2026:
As opções da ONU em seu futuro sombrio: uma revolução, decadência ou ‘trumpificação’
O Conselho de Segurança está praticamente paralisado e as missões de paz da ONU estão fora de moda
Por The Economist, 22/09/2025 | 14h30
A Organização das Nações Unidas passou por muitas crises desde sua fundação, em 1945: da misteriosa morte de seu secretário-geral, Dag Hammarskjöld, no Congo, em 1961, até a suposta “batida de sapato” de Nikita Khrushchev durante a Guerra Fria, os massacres de civis sob sua proteção na década de 1990 e a invasão americana do Iraque em 2003. Com os líderes se preparando para o 80º aniversário da ONU e a Assembleia-Geral em Nova York, os especialistas dizem que nenhum desses desastres parece tão calamitoso quanto o atual. Com o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, há muitos cenários traumáticos para a ONU, mas três se destacam: uma revolução interna, a decadência ou a “trumpificação”.
Ninguém na sede da ONU em Turtle Bay, Nova York, sabe ao certo o que as ideias do “America First” (América em primeiro lugar) de Trump trarão, em parte porque não há ninguém para lhes dizer. O Senado ainda não confirmou Mike Waltz, indicado por Trump para o cargo de embaixador. Todos estarão à procura de pistas nos discursos contraditórios de 23 de setembro, quando o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, adversário ferrenho de Trump, abrirá o debate na Assembleia Geral da ONU, seguido pelo próprio Trump.
O choque imediato é orçamentário. O governo Trump está privando a ONU de fundos antes mesmo de revelar sua prometida revisão das instituições multilaterais. Membro habitualmente inadimplente, os Estados Unidos não pagaram suas contribuições obrigatórias à ONU para 2025. A solicitação orçamentária do presidente para o ano fiscal de 2026, atualmente em tramitação no Congresso, “suspende” quase todos os pagamentos à ONU.
Enquanto isso, a ajuda externa dos Estados Unidos, grande parte dela encaminhada por meio de contribuições voluntárias a organizações humanitárias da ONU, foi drasticamente reduzida. Os orçamentos das agências da ONU encolheram em média cerca de um terço. Alimentos, medicamentos, ajuda a refugiados e outras formas de assistência a centenas de milhões de pessoas estão sendo eliminados. Abalado pelas tarifas dos Estados Unidos, o desenvolvimento econômico global pode entrar em retrocesso.
Mesmo com o esgotamento dos recursos financeiros, o Conselho de Segurança está praticamente paralisado e as missões de paz da ONU estão fora de moda. Os grandes membros zombam da proibição da Carta das Nações Unidas de tomar o território de outro Estado pela força: a Rússia, ao fazê-lo descaradamente, e os Estados Unidos, com suas declarações levianas sobre anexar a Groenlândia e absorver o Canadá como seu “51º Estado”.
O que acontecerá a seguir? Os Estados Unidos têm sido, há muito tempo, o ingrediente essencial nas tentativas de governança global. A primeira iniciativa mundial foi prejudicada desde o início pela recusa do Senado americano em ratificar a Liga das Nações, no final da 1ª Guerra Mundial. a Liga efetivamente morreu com a eclosão da 2ª Guerra Mundial. Sua herdeira, a ONU, perdurou em grande parte porque gerações de líderes americanos reconheceram que, apesar de suas falhas, ela promovia uma ordem liberal e o poder americano.
As pesquisas mostram que a maioria dos americanos ainda apoia a ONU, mas as opiniões estão polarizadas. Os governos republicanos há muito tempo desconfiam da instituição. John Bolton, ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU, chocou o mundo ao declarar: “O prédio do Secretariado em Nova York tem 38 andares. Se perdesse dez andares, não faria a menor diferença”. O nível de hostilidade republicana hoje é maior do que nunca e pode criar as condições para o primeiro cenário: que a ONU se torne adversária dos Estados Unidos, tornando-se “desonesta” em resposta ao radicalismo do America First.
Uma ruptura total com os Estados Unidos pode ocorrer em 2027, se seus atrasos orçamentários atingirem o valor de duas contribuições anuais, nível no qual um país perde seu direito de voto na Assembleia-Geral. Esse órgão deliberativo faz declarações em sua maioria não vinculativas, e os Estados Unidos poderiam vetar qualquer tentativa de forçá-los a sair do Conselho de Segurança. Mas a humilhação poderia provocar retaliação, se não a saída dos Estados Unidos.
A Palestina é outro catalisador potencial. Muitos membros da ONU a consideram a última grande causa colonial e a guerra de Israel como genocídio. Por sua vez, Israel e o governo Trump acham que a ONU está impregnada de antissemitismo. O último movimento para reconhecer a soberania palestina, liderado pela França e pela Arábia Saudita, pode crescer. O governo Trump negou vistos para a delegação palestina participar da reunião.
O governo Trump já está se recusando a participar da tomada de decisões globais. Os Estados Unidos pararam de financiar a UNRWA, a agência da ONU para refugiados palestinos. Estão saindo do Acordo de Paris sobre o clima, da Organização Mundial da Saúde, da UNESCO (a organização educacional e cultural da ONU) e do Conselho de Direitos Humanos. Retiraram-se das discussões sobre a resposta a futuras pandemias, a reforma do financiamento do desenvolvimento e a proteção de partes do alto mar. O governo agora se opõe aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um conjunto de 17 objetivos — desde a eliminação da pobreza extrema até a promoção da saúde — que são utópicos e abrangentes. Os Estados Unidos consideram esses objetivos como um governo mundial crescente, cheio de ideologias “woke” progressistas de gênero e clima, e um endosso às ideias chinesas.
Outros países poderiam tentar preencher o vácuo com dinheiro e esforços diplomáticos, alterando o equilíbrio de financiamento e pessoal dentro do sistema da ONU. A Europa poderia tentar defender os valores liberais, mas outros países não o fariam. Potências médias como a Turquia e os Estados do Golfo já estariam influenciando a entrega de ajuda em zonas de conflito com base em seus objetivos políticos, bem como em necessidades genuínas.
A ONU, especialmente a Assembleia Geral, poderia se tornar radicalmente antiamericana, como ameaçou fazer na década de 1970, quando muitos dos países recém-descolonizados a utilizaram para pressionar por uma “nova ordem econômica” para desfazer o capitalismo ocidental e o livre comércio. Ela poderia, por exemplo, começar a adotar exigências para que os países ricos paguem reparações climáticas ou compartilhem os impostos de forma mais equitativa. Mesmo que os Estados Unidos mantivessem seu veto no Conselho de Segurança, a ONU se tornaria um órgão para galvanizar a resistência contra eles.
Isso tornaria mais fácil para a Rússia e, especialmente, para a China reivindicar a liderança na ONU e em outros lugares. Eles já estão promovendo outros órgãos em paralelo, notadamente o clube econômico Brics e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), um fórum de segurança eurasiano. Em uma cúpula da SCO no início deste mês, com a participação da Índia, o líder da China, Xi Jinping, falou da necessidade de “tomar uma posição clara contra o hegemonismo e a política de poder, e praticar o verdadeiro multilateralismo”. Muitos países desconfiam da China, mas podem achar a oferta de Xi mais atraente do que a de Trump.
Minh-Thu Pham, do Project Starling, um grupo que apoia a cooperação multilateral, afirma que o perigo não é tanto a ONU se tornar rebelde, mas sim os Estados Unidos. “A ONU está avançando sem os EUA, e não apesar dos EUA ou para contrariar os EUA”, diz ela; o abandono pelos Estados Unidos significa que a ONU se tornará mais “independente”.
Uma ONU zumbi
Um segundo cenário é um em que a ONU sobreviva — os Estados Unidos permaneçam nela e os países evitem antagonizar Trump —, mas o sistema se fragmente e entre em decadência. A China adotou o hábito americano de atrasar os pagamentos. Outros grandes contribuintes, principalmente os países europeus, estão cortando a ajuda externa para redirecionar os fundos para a defesa.
A OCDE, um clube formado principalmente por países ricos, projeta que seus membros cortarão a ajuda em 9% a 17% este ano, além do corte de 9% no ano passado. A resistência burocrática e os interesses conflitantes dos membros podem deixar o emaranhado de cerca de 140 órgãos da ONU praticamente intocado, embora com financiamento insuficiente. Tom Fletcher, chefe de assuntos humanitários da ONU, afirma que a organização recebeu apenas 19% dos fundos de ajuda solicitados em 2025.
A ONU também pode se tornar uma organização seletiva. Ela não teria garantia de fundos americanos, mas algumas de suas agências poderiam se beneficiar se, por exemplo, os Estados Unidos decidissem que sua agência para refugiados era útil para conter o fluxo de migrantes. Richard Gowan, do International Crisis Group, um think tank, argumenta que o Conselho de Segurança, em particular, poderia ficar meio morto, com apenas alguns espasmos reflexivos, por exemplo, para renovar o mandato das forças de paz da ONU em Chipre.
A assembleia poderia tentar reivindicar um papel maior em questões de paz e segurança. Algumas das agências especializadas da ONU — a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), por exemplo, ou a Organização Internacional da Aviação Civil — provavelmente continuarão existindo. “Poderíamos ver o surgimento de uma forma fragmentada de multilateralismo, sem um verdadeiro núcleo político, mas com muitas agências com um único objetivo”, diz Gowan. “Ela seria administrada principalmente a partir de Genebra ou Nairóbi, e não de Manhattan.”
O cenário final é uma reinvenção trumpiana. Waltz, o indicado por Trump para o cargo de embaixador na entidade, diz que pretende “tornar a ONU grande novamente”. Os Estados Unidos estão pressionando para restringir os direitos de asilo sob a convenção de refugiados da ONU de 1951; também querem que a ONU ajude a fortalecer a missão, liderada pelo Quênia, no Haiti devastado por gangues; e pressionaram a Europa a “retomar” as sanções ao Irã. Alguns países podem acolher com satisfação um maior foco na paz e menos tempo dedicado a questões sociais.
Trump gosta de pompa e pode buscar acordos ostensivos. Fontes internas da ONU esperam encontrar reformas, como um conjunto mais restrito de prioridades, que sejam boas para a ONU e agradem a Trump. Alguns diplomatas sugerem que a ONU deve se afastar da manutenção da paz para se ocupar da diplomacia da paz. Ou talvez algo mais prático possa substituir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que em grande parte não foram alcançados. Órgãos duplicados ou marginais poderiam ser abolidos.
Virando Maga
A votação do Conselho de Segurança dos Estados Unidos em fevereiro, com a Rússia e a China pedindo “uma paz duradoura” entre a Ucrânia e a Rússia, desanimou a Europa. Mas isso poderia levar a uma maior cooperação entre as grandes potências.
Depois de apoiar lados diferentes da guerra civil na Síria, os Estados Unidos e a Rússia estão apoiando o governo do ex-jihadista Ahmed al-Sharaa. O “acordo do século” para Trump, observa Pham, seria reformar a composição e os direitos de voto no Conselho de Segurança e redefinir o equilíbrio de poder global.
Muito depende dos caprichos de Trump e da habilidade do próximo secretário-geral da ONU. A campanha para substituir António Guterres em 2027 começa no final deste ano. Alguns candidatos, como Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, estão disputando a posição. Até recentemente, falava-se em uma mulher latino-americana. Os trumpistas podem achar isso muito politicamente correto. Brincando apenas pela metade, uma fonte interna propõe uma mulher querida por Trump: sua filha, Ivanka. Se é isso que é preciso para manter Trump envolvido, que assim seja. Tempos desesperados, medidas desesperadas.
A matéria abaixo é da Economist de FEVEREIRO DE 2024!!!
Não temos ideia de que tenha havido algum progresso. Lula já decidiu que Brasil ele quer? Parece que sim, já escolheu o seu lado, e não é obviamente o do Ocidente ou de outros países médios...A Economist refaz os cálculos dos respectivos PIBs per capita dos EUA (isto é, dos americanos) e da Noruega (isto, dos noriegueses), em termos reais. Os noruegueses são bem mais ricos que os americanos, independentemente dos valores nominais pelo câmbio.
O Livre Comércio é a melhor resposta contra tarifas
Contribuição do Livres
A ameaça feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros é uma medida profundamente equivocada. Em comunicação oficial, Trump declarou, com a decisão, buscar impacto sobre políticas internas do governo Lula e decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Na realidade, as tarifas não só falham nesse objetivo, como prejudicam fortemente consumidores americanos e produtores brasileiros.
Embora frequentemente empregadas como instrumentos de pressão política, sanções econômicas apresentam resultados mistos e, em muitos casos, não alcançam plenamente seus objetivos declarados. A ameaça de penalidades chantageia a política e a justiça local, e cola opositores do status quo a medidas que empobrecem o próprio povo. Ao afetarem a economia local e exporem a população à instabilidade econômica, as sanções reforçam narrativas de ameaças externas utilizadas pelas autoridades locais, rapidamente transformadas em defensoras dos interesses da nação. Assim, acabam por despertar ideologias nacionalistas, contrárias à cooperação internacional, às trocas voluntárias e aos princípios das sociedades abertas.
Donald Trump utiliza ameaças de punições tarifárias como ferramenta de pressão e negociação, atingindo aliados e adversários indistintamente, do Canadá ao México, da China à Coreia do Sul. O Brasil, ao apostar em estratégias diplomáticas vistas como hostis aos Estados Unidos, centradas no "Sul Global" e nos Brics, superestimou seu alcance econômico e político, minimizou a importância de uma ponte de negociação com o governo americano, e subestimou a disposição do nosso segundo maior parceiro comercial de impor tarifas punitivas sobre nossos produtos. É fundamental que os interesses dos brasileiros estejam no centro da ação diplomática do Itamaraty nas negociações que virão.
Tarifas aumentam custos para consumidores, reduzem o bem-estar social, prejudicam a competitividade dos produtores a jusante na cadeia produtiva, impactam negativamente a geração de riqueza e reduzem as oportunidades econômicas decisivas para a maior diminuição da pobreza global.
Mercados livres e abertos são o melhor caminho para a prosperidade econômica e para relações internacionais pacíficas. O Brasil deve reafirmar sua soberania e a independência de suas instituições, liderando pelo exemplo ao promover uma abertura econômica baseada em diálogo, negociação e no amadurecimento do debate público sobre os benefícios do livre comércio. Reduzir progressivamente as barreiras tarifárias e não tarifárias, de maneira consciente e acompanhada pela sociedade brasileira, fortaleceria a economia nacional e ampliaria nosso poder de negociação para assegurar maior acesso aos mercados internacionais.
Guerras comerciais geram preços altos para consumidores e dificuldades para que produtores possam exportar e crescer. Conflitos tarifários são jogos de destruição em que os derrotados sempre são os que mais precisam dos benefícios do comércio. Que o governo brasileiro responda à ameaça não com retaliação, inserindo mais um elo nessa corrente destrutiva, mas com pragmatismo, negociação e comércio com menos barreiras, em benefício do crescimento econômico e da prosperidade do Brasil.
Comunidade Livres
Este texto foi desenvolvido com a colaboração de
Sandra Rios
Economista, professora de Política Comercial na PUC-Rio e membro do Conselho Acadêmico do Livres.
Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, doutor em Ciências Sociais, mestre em Planejamento Econômico e membro do Conselho Acadêmico do Livres.
Como seria uma crise do dólar?
Se os investidores continuarem vendendo ativos americanos, um destino sombrio aguarda a economia mundialPutin é um cleptocrata e assassino serial, isso já sabemos. Ou seja, um perverso motivado, agindo racionalmente. Só pode ser contido pela força bruta.
Já Trump é um megalomaníaco imprevisivel, e portanto perigoso para todos, inimigos e “amigos” (mas ele não tem nenhum, só ele mesmo e o dinheiro).
Vamos ler o que a Economist tem a dizer… PRA
THE ECONOMIST
A armadilha que Vladimir Putin armou para Donald Trump
O presidente russo quer sugerir que a Ucrânia é apenas um detalhe em um relacionamento maior
Por The Economist
23/03/2025
Eles conversaram pelo telefone por mais de duas horas, mas Vladimir Putin deixou Donald Trump sem quase nenhum resultado para mostrar — um tapa na cara que somente um homem possuidor de coragem ilimitada poderia fingir que foi uma vitória. Uma semana antes, os negociadores dos Estados Unidos e da Ucrânia concordaram com um cessar-fogo de 30 dias em um conflito que já dura mais de três anos. Trump disse que, se a Rússia não assinasse, ele poderia atingi-la com novas sanções duras. No caso, ele cedeu. Até Boris Johnson, um ex-primeiro-ministro britânico que admira Trump, declarou que Putin está “rindo de nós”.
Em vez de um cessar-fogo incondicional, Putin propôs apenas que ambos os lados parassem de atacar a infraestrutura energética um do outro, uma área em que a Ucrânia tem desferido alguns golpes pesados contra o invasor. Para que algo mais aconteça, diz o governo russo, a Ucrânia deve aceitar um congelamento na ajuda militar estrangeira e o fim do recrutamento e treinamento, embora a Rússia não proponha tais restrições a si mesma. Putin também quer uma solução para as “causas-raiz” do conflito, com o que ele realmente quer dizer o fim da existência da Ucrânia como um país independente. Essas não são as palavras de um homem que está ansioso para fazer concessões.
Os otimistas podem extrair disso um pouco de conforto. Uma pausa nos ataques a alvos de energia, acordada em uma ligação com Volodmir Zelenski, presidente da Ucrânia, é um pequeno avanço. Trump também sugeriu que as usinas nucleares passem para a propriedade americana, para sua proteção, e disse que tentaria obter alguns mísseis Patriot da Europa. Em público, ele se absteve de endossar as exigências mais severas de Putin para a Ucrânia.
O verdadeiro perigo está à frente. Putin quer que o presidente americano acredite que, como estadistas, eles têm peixes maiores para fritar do que ficar brigando por um lugar abandonado como a Ucrânia. Contanto que isso não atrapalhe, a Rússia e os EUA podem realizar quase tudo juntos. A Rússia poderia ajudar a resolver crises no Oriente Médio e além, talvez pressionando seu amigo Irã a abrir mão da bomba. O investimento americano em negócios russos, como exploração de gás no Ártico, poderia avançar. As sanções seriam suspensas e a Rússia poderia voltar a se juntar ao G7. Imagine se a Rússia fosse separada de sua “parceria sem limites” com a China. A “terceira guerra mundial”, uma preocupação constante de Trump, teria sido evitada.
Tudo isso é uma fantasia projetada para fazer Trump cair na tentação de entregar a Putin o que ele quer na Ucrânia em troca de promessas vazias. A realidade é que a Rússia agora depende mais da China do que jamais dependerá dos EUA, e não será separada dela. A influência da Rússia no Irã é limitada. A economia da Rússia é menor que a da Itália e sujeita aos caprichos de um déspota, o que significa que as oportunidades de negócios são escassas.
Pelo contrário, se em busca dessa quimera Trump aliviar a pressão que o Ocidente impôs à Rússia, os EUA perderão. Para começar, isso criará uma nova divisão entre os EUA e a Europa, que não seguirá Trump. A Ucrânia será desestabilizada, representando riscos para toda a Europa. As alianças e valores que os Estados Unidos têm defendido por décadas serão degradados, e os próprios Estados Unidos ficarão mais fracos como resultado disso. Trump pode se importar pouco com essas coisas, mas certamente ficará preocupado com o risco de parecer fraco, como seu antecessor Joe Biden fez quando o Talibã tomou conta do Afeganistão.
A ligação Putin-Trump ocorreu quando um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em Gaza estava se rompendo em meio a ataques israelenses. O estilo pessoal de diplomacia de Trump pode quebrar impasses, mas a pacificação parece muito cansativa e detalhada para que ele a leve adiante. O comunicado da Casa Branca sobre a ligação com a Rússia falou de “enormes acordos econômicos e estabilidade geopolítica quando a paz for alcançada”. Está claro o que Putin quer. É estranho que Trump pareça tão pronto a entregar isso a ele.
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
A Europa é capaz de enfrentar sozinha a Rússia de Vladimir Putin?
A Europa é capaz de enfrentar sozinha a Rússia de Vladimir Putin?
Um exército independente, uma força aérea e uma bomba nuclear teriam um alto custo
The Economist, 03/03/2025
Poucas horas depois de seu partido vencer as eleições nacionais, Friedrich Merz, o provável próximo líder da Alemanha, soltou uma bomba. Donald Trump “não se importa muito com o destino da Europa”, disse ele. A prioridade era “passo a passo... alcançar a independência em relação aos EUA”. Este não era um objetivo distante. Ele não tinha certeza, disse ele, se a Otanainda existiria “em sua forma atual” em junho, quando os líderes devem se reunir nos Países Baixos, “ou se teremos que estabelecer uma capacidade de defesa europeia independente muito mais rapidamente do que isso”.
Quem pensou que Merz estava sendo alarmista foi rapidamente despertado para a realidade. Em 24 de fevereiro, em uma resolução da ONU que culpava a Rússia por invadir a Ucrânia, os Estados Unidos votaram contra seus aliados europeus, ficando ao lado da Rússia e da Coreia do Norte.
Merz não é o único “transatlanticista” convicto preocupado com o ataque de Donald Trump à Otan, a aliança que manteve a paz na Europa por quase oito décadas. “A arquitetura de segurança na qual a Europa confiou por gerações se foi, e não vai voltar”, escreve Anders Fogh Rasmussen, ex-secretário-geral da Otan, em um ensaio para a Economist. “A Europa deve aceitar o fato de que não somos apenas existencialmente vulneráveis, mas também estamos aparentemente sozinhos.”
Na verdade, pode levar uma década até que a Europa consiga se defender sem a ajuda dos Estados Unidos. A enormidade do desafio pode ser vista na Ucrânia. Os países europeus estão atualmente discutindo a perspectiva de uma mobilização militar ali para impor qualquer futuro acordo de paz. As negociações, lideradas pela França e pelo Reino Unido, preveem o envio de uma força relativamente modesta, de talvez dezenas de milhares de soldados. Eles não seriam mobilizados no leste na linha de frente, mas em cidades ucranianas, portos e outras infraestruturas importantes, de acordo com uma autoridade ocidental.
Qualquer implementação desse tipo, no entanto, exporia três fraquezas sérias. Uma delas é que isso sobrecarregaria as forças europeias. Há aproximadamente 230 brigadas russas e ucranianas na Ucrânia, embora a maioria esteja abaixo do efetivo previsto. Muitos países europeus teriam dificuldade para produzir uma única brigada com capacidade de combate cada. Segundo, isso abriria sérias lacunas nas próprias defesas da Europa.
Uma implantação britânica na Ucrânia, por exemplo, provavelmente engoliria unidades já destinadas à Otan, deixando buracos nos planos de guerra da aliança. Acima de tudo, os europeus reconhecem que qualquer implantação precisaria de apoio americano significativo, não apenas na forma de “facilitadores” específicos, como inteligência e equipamento de defesa aérea, mas também a promessa de apoio, caso a Rússia atacasse.
O fato de que a Europa teria dificuldade para gerar uma força independente do tamanho de uma divisão para a Ucrânia expõe a dimensão da tarefa prevista na visão de Merz. Atender aos planos de guerra existentes da Otan — com a presença dos Estados Unidos — exigiria que a Europa gastasse 3% do PIB em defesa, muito acima dos níveis existentes para a maioria dos países.
O Reino Unido deu um passo nessa direção em 25 de fevereiro, anunciando um plano para gastar 2,5% do PIB até 2027, mas mesmo isso pode ser insuficiente. Dizem que Mark Rutte, o secretário-geral da Otan, está propondo uma meta de 3,7%. No entanto, compensar os déficits americanos exigiria um valor bem acima de 4%.
Pagar por isso já seria difícil o suficiente. Traduzir dinheiro em capacidade também é mais difícil do que parece. A Europa precisaria formar 50 novas brigadas, calcula o centro de estudos estratégicos Bruegel, sediado em Bruxelas, muitas delas unidades “pesadas” com blindagem, para substituir as 300.000 tropas americanas que, estima-se, que seriam enviadas ao continente no caso de uma guerra. Os requisitos de mão de obra seriam proibitivos.
Fileiras de tanques
Esses números são estimativas. A sugestão do Bruegel de que a Europa precisaria de 1.400 tanques para impedir um avanço russo nos estados bálticos reflete suposições de planejamento tradicionais e provavelmente ;é um pouco exagerada. Em todo caso, esse tipo de contagem mostra apenas metade da história.
A Europa tem forças aéreas impressionantes, com muitos jatos modernos. Mas esses jatos não têm um estoque significativo de munições capazes de destruir as defesas aéreas inimigas ou atingir alvos distantes em terra ou no ar, explica Justin Bronk do Royal United Services Institute (RUSI), um centro de estudos estratégicos em Londres, em um artigo a ser publicado futuramente.
Apenas algumas forças aéreas, como a da Suécia, têm treinamento suficiente para guerra aérea de alta intensidade. Além disso, guerra eletrônica aerotransportada e inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento (ISTAR), ou a capacidade de encontrar e avaliar alvos, “são quase exclusivamente fornecidos pelos EUA”, observa Bronk.
Outro problema gritante é de comando e controle, ou as instituições e indivíduos que coordenam e lideram grandes formações militares na guerra. A Otan tem um amplo conjunto de quartéis-generais por toda a Europa, com o Quartel-General Supremo das Potências Aliadas da Europa em Mons, Bélgica, no topo da hierarquia, liderado pelo general Chris Cavoli que, como todos os Comandantes Aliados Supremos da Europa antes dele, é americano. “A coordenação da Otan é frequentemente um eufemismo para oficiais do estado-maior dos EUA”, diz Matthew Savill, um ex-oficial de defesa britânico agora no RUSI.
A experiência europeia na gestão de grandes formações é esmagadoramente concentrada em oficiais britânicos e franceses — ambos os países supervisionam dois “corpos” de reserva, que são quartéis-generais de altíssimo nível. Mas o Reino Unido provavelmente seria incapaz de executar uma operação aérea complexa na escala e intensidade da guerra aérea de Israel em Gaza e no Líbano. “Que eu saiba, não há nada que a Europa tenha que realmente se aproxime da escala do que os israelenses supostamente fizeram”, diz Savill.
Se os europeus forem capazes de gerar e comandar suas próprias forças, a próxima questão é se seria possível mantê-las alimentadas com munição. A produção de artilharia da Europa disparou nos três anos mais recentes, embora a Rússia, auxiliada pela Coreia do Norte, continue à frente. A Europa também tem fabricantes de mísseis: a MBDA, uma empresa pan-europeia com sede na França, fabrica um dos melhores mísseis ar-ar do mundo, o Meteor. França, Noruega e Alemanha fabricam excelentes sistemas de defesa aérea. A Turquia está se tornando uma séria potência industrial de defesa.
Entre fevereiro de 2022 e setembro de 2024, os estados europeus da Otan adquiriram 52% dos novos sistemas dentro da Europa e compraram apenas 34% dos EUA, de acordo com um artigo recente do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), outro centro de estudos estratégicos. Mas esses 34% costumam ser vitais. A Europa precisa dos EUA para artilharia de foguetes, defesa aérea de longo alcance e aeronaves furtivas. Mesmo para armas mais simples, a demanda supera em muito a capacidade, uma das razões pelas quais os países europeus se voltaram para o Brasil, Israel e Coreia do Sul.
O nível de dependência em relação aos EUA não é uniforme em todo o continente. O Reino Unido, por exemplo, está unicamente interligada às forças armadas, máquinas de inteligência e indústria dos Estados Unidos. Se os Estados Unidos cortassem o acesso a imagens de satélite e outras informações geoespaciais, como mapas de terreno, as consequências seriam profundas.
Talvez a principal razão pela qual o Reino Unido exigiu o consentimento dos Estados Unidos para deixar a Ucrânia disparar mísseis de cruzeiro britânicos Storm Shadow contra a Rússia no ano passado é que os mísseis dependiam de dados geoespaciais americanos para direcionamento eficaz. A Grã-Bretanha teria que gastar bilhões para comprar imagens de substituição, diz Savill, ou recorrer à França. Por outro lado, o envolvimento britânico com os Estados Unidos também pode fornecer uma forma de pressão. Cerca de 15% dos componentes do jato F-35 usado pelos Estados Unidos são feitos na Grã-Bretanha, incluindo peças difíceis de substituir, como o assento ejetor.
Como se a tarefa de construir forças convencionais independentes não fosse assustadora o suficiente, a Europa enfrenta outro desafio. Por 80 anos, ela se abrigou sob o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos. Se a Europa estiver realmente “sozinha”, como Rasmussen afirma, então a questão não é apenas que as forças americanas não lutariam por ela, mas também que não sew poderia contar com as armas nucleares americanas.
“Precisamos ter discussões com os britânicos e os franceses — as duas potências nucleares europeias”, disse Merz em 21 de fevereiro, “e saber se o compartilhamento nuclear, ou pelo menos a segurança nuclear... também poderia se aplicar a nós”. Na prática, o Reino Unido e a França não podem replicar o escudo nuclear americano sobre a Europa com seus arsenais relativamente pequenos — cerca de 400 ogivas no total, em comparação com mais de 1.700 ogivas russas mobilizadas.
Os insiders americanos torcem o nariz para a ideia de que isso seja adequado para uma dissuasão, pois acreditam que a Rússia seria capaz de limitar os danos a si mesma (não importa a possibilidade de Moscou ter desaparecido) enquanto infligiria um estrago pior à Europa. Dobrar ou triplicar o tamanho dos arsenais anglo-franceses provavelmente levaria anos e canibalizaria o dinheiro necessário para construir forças convencionais; a dissuasão britânica já consome um quinto dos gastos com defesa.
Pensamento estratégico
Outro problema é que, embora a França tenha armas nucleares a bordo de submarinos e aviões, o Reino Unido tem apenas as primeiras, o que limita sua capacidade de se envolver em “sinalização” nuclear em uma crise, por exemplo, usando armas nucleares de baixo poder de destruição, pois isso arriscaria expor a posição de seus submarinos e, portanto, colocaria sua capacidade de dissuasão estratégica em risco.
Além disso, embora o Reino Unido possa disparar suas armas nucleares sem a permissão americana, ela aluga os mísseis dos EUA — aqueles que não estão a bordo de submarinos são mantidos em um pool conjunto no estado da Geórgia — e depende da cooperação americana para componentes-chave.
Esses problemas não são necessariamente insuperáveis. Conversas silenciosas a respeito da dissuasão nuclear europeia entre ministros da defesa europeus se intensificaram nos meses mais recentes. “O debate alemão está amadurecendo em alta velocidade”, observa Bruno Tertrais, um dos principais pensadores da Europa em questões nucleares. “Os britânicos e os franceses precisarão enfrentar o desafio.”
A dissuasão nuclear não é apenas um jogo de números, ele diz, mas uma questão de vontade. Putin pode levar mais a sério as ameaças nucleares vindas do Reino Unido ou da França, que têm mais em jogo do que os EUA. Essas são as questões que preocuparam os pensadores europeus durante a Guerra Fria; seu retorno marca um novo e sombrio período para o continente. “Agora”, pronunciou Merz em 24 de fevereiro, “é como se realmente faltassem cinco minutos para a meia-noite para a Europa”.
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
De volta para o passado? Back to the past? (Não, não é o filme do Bob Zemeckis ao contrário) Permito-me repostar uma nota que fiz recentemen...