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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Economia e democracia podem sobreviver; mas e a soberania nacional? - Paulo Roberto de Almeida (Interesse Nacional)

 Mais recente artigo publicado sobre a ameaça à soberania nacional - https://interessenacional.com.br/portal/economia-e-democracia-podem-sobreviver-mas-e-a-soberania/ PRA


Economia e democracia podem sobreviver; mas e a soberania?

Em meio à polarização eleitoral, a soberania brasileira enfrenta riscos que podem superar os desafios econômicos e democráticos. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e a adesão ao “Escudo das Américas”, promovido por Donald Trump, poderiam comprometer a autonomia diplomática do país e aprofundar sua subordinação aos interesses dos Estados Unidos, em um cenário de crescente tensão geopolítica.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump durante encontro na Casa Branca (Foto: Divulgação)

O Brasil assistiu a um recrudescimento da polarização política no período recente, até se defrontar, no primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, com um resultado preliminar que surpreendeu, nos dois lados, os militantes engajados e os observadores interessados (como são os jornalistas). 

O eleitorado caminha agora para a encruzilhada do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro, quando, aparentemente, estaremos em face de dois projetos de governo nas antípodas das principais políticas públicas e setoriais em 2027-2030. Dúvidas persistem a esse respeito, mas vou me deter em um aspecto que me interessa pessoalmente, como diplomata, além e acima da questão democrática e a da economia.

Analisando de maneira objetiva, o cenário que pode se abrir em 2027 cabe, contudo, constatar que nem a economia, nem a política parecem perto de sofrer mudanças radicais. A economia porque, a despeito da inquietação de economistas e empresários com a questão fiscal e a do endividamento, e a ainda mais natural preocupação dos eleitores comuns com problemas econômicos mais prosaicos, os do dia-a-dia em feiras e supermercados, apresenta constrangimentos suficientes, nos terrenos macro e setoriais, para que um presidente, de esquerda ou de direita, tenha forçosamente de encontrar respostas credíveis aos desafios já colocados no plano da dívida pública em expansão, da persistência de uma inflação acima dos indicadores de referência, de um endividamento excessivo de núcleos familiares.

 

‘No terreno político, por sua vez, não parece existir nenhum risco maior à democracia – como se temeu no decurso do mandato anterior, sob Jair Bolsonaro’

 

No terreno político, por sua vez, não parece existir nenhum risco maior à democracia – como se temeu no decurso do mandato anterior, sob Jair Bolsonaro –, mas o aumento da representação da direita e da extrema-direita no âmbito legislativo vai provavelmente levar à possível cassação de um ou outro ministro da Suprema Corte, dado seu envolvimento direto na política partidária e em acusações de corrupção nas altas esferas do Judiciário. 

Também no terreno da política, torna-se altamente provável o reforço de medidas vinculadas à segurança pública, o aumento de medidas punitivas dada a expansão disseminada da criminalidade organizada, assim como, no campo das políticas sociais, uma propensão mais para negativa à continuidade de políticas assistencialistas implementadas desde o início do milênio. 

Existem, porém, preocupações latentes com uma mudança radical, dependendo da escolha em 25 de outubro, num campo extremamente relevante para a nação, mais exatamente para a sua reputação internacional e para a credibilidade externa de sua diplomacia. Essa mudança tem a ver com a postura do Brasil na definição de algumas definições básicas no tocante à política externa e à manutenção da plena soberania na escolha de alianças externas, tanto no campo do multilateralismo, das interações regionais e no tocante a certas relações bilaterais num contexto de fragmentação crescente do sistema internacional.

‘Soberania nacional é um termo um pouco difuso e quase abstrato para a maioria da população, mas o seu exercício e efetivação implicam pleno controle, pelo Estado e pelo seu governo, de todos os processos decisórios atinentes à determinação das principais políticas públicas’

Soberania nacional é um termo um pouco difuso e quase abstrato para a maioria da população, mas o seu exercício e efetivação implicam pleno controle, pelo Estado e pelo seu governo, de todos os processos decisórios atinentes à determinação das principais políticas públicas, ou de todas elas, sejam as domésticas, sejam aquelas voltadas para posicionamentos externos, em todos os planos: relacionamentos bilaterais, interação em nível regional, e no âmbito multilateral, ou internacional (nos organismos internacionais de que o Brasil é membro, ou de outros órgãos dos quais ele faça parte).

Sinteticamente, é a capacidade que o Estado possui de decidir de forma autônoma, pelos seus poderes constituídos, pelas suas instituições governativas, sobre todas as políticas, escolhas orientações na condução interna e externa dos seus negócios, sem ter de prestar contas ou de responder a quaisquer pressões externas, legítimas ou ilegítimas, sobre suas decisões próprias. 

‘A soberania não precisa sequer ser proclamada ou anunciada, ela se exerce, simplesmente, com base na força do Direito’

A soberania não precisa sequer ser proclamada ou anunciada, ela se exerce, simplesmente, com base na força do Direito – a Constituição e os tratados internacionais dos quais o país é parte ou signatário – ou com base no direito da força, ou seja, a defesa nacional, em todas as suas formas.

A soberania se exerce em primeiro lugar em todo o território nacional, e sabemos que o Estado nacional e os governos estaduais não detêm o controle efetivo sobre certas partes dos territórios em causa, o que pode criar alguma alegação de necessidade de intervenção externa ou internacional, o que de fato existe para alguns Estados falidos, vários na África, por exemplo, no caso da Jihad islâmica, ou aqui no hemisfério americano, no Haiti, com gangues criminosas detendo o controle de partes do território dessa ilha dividida com a República Dominicana. 

Recentemente, o governo expansionista e interventor dos Estados Unidos sob Trump, sob pressão de influenciadores brasileiros expatriados, julgarem dever decretar que dois grupos criminosos atuando no Brasil são, de fato, organizações terroristas, o que lhes daria o direito, unilateralmente, de intervir nos assuntos internos do Brasil, mediante a aplicação extraterritorial de sua legislação interna, aliás já exercida de forma ilegal no caso de supostos traficantes de drogas no mar do Caribe ou no Oceano Pacífico.

Se trata, nesse caso, de mais um sintoma da desagregação da ordem internacional por um dos Estados construtores dessa ordem, nos estertores da Segunda Guerra Mundial, o mais destruidor de todos os conflitos globais, de uma violação do Direito Internacional e da Carta da ONU, aliás precedida por violações ainda mais contundentes por parte de um verdadeiro êmulo dos czares absolutos e dos autocratas soviéticos, na tentativa de reconstruir o império que tinha existido por alguns séculos até quase o final do século XX. Movimentos e grupos nacionalistas costumam ser conservadores, ou de extrema direita, mas regimes autocráticos se distribuem pelos dois extremos do leque político-ideológico conhecido desde o século XIX. ‘

‘A soberania de potências médias, ou de Estados menores, pode ser ameaçada pela ação de grandes potências’

A soberania de potências médias, ou de Estados menores, pode ser ameaçada pela ação de grandes potências, de forma direta ou indireta, por ações agressivas ou por ameaças veladas, quando não pela sabotagem e pela intervenção armada direta, como golpes de Estado, invasões armadas, pressão econômica e uma combinação de todas essas ações. 

O Brasil só conheceu uma ameaça direta à sua soberania, no caso da guerra dita do Paraguai, um século e meio atrás. Depois teve embarcações afundadas no primeiro e no segundo conflitos europeus, o que motivou a cessação de nossa neutralidade, o rompimento de relações com as potências agressoras – nos dois casos a Alemanha, o Império e o Reich e nossa entrada nessas guerras que já tinham se tornado mundiais. 

As intervenções não explícitas em nossa soberania foram mais numerosas, como sempre por iniciativa de grandes impérios expansionistas, no entre guerras, por parte da Alemanha e da Itália fascistas, e antes e depois desse período, por parte dos Estados Unidos, já convertidos em grande potência mundial, neste caso de forma mais sutil. Uma intervenção direta em nossos processos eleitorais ocorreu pela primeira vez, de forma documentada, nas eleições estaduais de 1962, quando dinheiro americano e material da CIA, a agência de inteligência americana foram repassados a candidatos e partidos de oposição ao governo parlamentarista de João Goulart. O golpe de 1964 contou, obviamente, com todo o apoio do governo americano, de forma mais preventiva do que por alguma ação direta. 

Durante o regime militar, alguma coordenação existiu, quando não coordenação e troca de informações ou treinamento, entre a ditadura brasileira e órgãos de inteligência e de sabotagem dos EUA, contra governos “esquerdistas” latino-americanos, mais concretamente no caso da Bolívia, do Uruguai e, de forma ainda mais direta, contra o governo socialista de Salvador Allende, no Chile, em 1973. As ditaduras militares cooperaram amplamente entre si, com respaldo americano, na repressão aos movimentos esquerdistas e guerrilheiros. Tudo isso constituiu formas de intervenção nos assuntos internos de diferentes países, entre eles o próprio Brasil. 

Mais recentemente, o governo americano de Joe Biden pode ter atuado de forma menos direta, pelo envio de altos representantes – secretário da Defesa, conselheiro de segurança nacional e chefe da CIA – entre 2021 e 2022, para eventualmente dissuadir os comandantes das Forças Armadas, e o próprio presidente Jair Bolsonaro, de empreenderem qualquer aventura golpista antes, durante ou após as eleições, o que finalmente acabou se concretizando, nos moldes do ataque ao Capitólio de janeiro de 2021 contra o próprio Biden.

‘O ataque mais dramático contra a soberania do Brasil ocorreria num eventual governo de próprio Flávio Bolsonaro, se em janeiro de 2027 se concretizasse, como já anunciado formalmente pelo próprio, a adesão do Brasil ao chamado “Escudo das Américas”’

O ataque mais dramático – talvez consentido –, ainda que apenas hipotético pelo momento, contra a soberania do Brasil, ocorreria num eventual governo de direita, no caso, o do próprio Flávio Bolsonaro, se em janeiro de 2027 se concretizasse, como já anunciado formalmente pelo próprio, a adesão do Brasil ao chamado “Escudo das Américas”, o plano de subordinação imperial e de tutelagem direta de governos latino-americanos modelado pela nova doutrina de segurança nacional instituída pela administração Trump em 2025.

Exemplos desse tipo de submissão ao imperador hemisférico já tinham ocorrido durante dois anos de simultaneidade nos governos de Trump 1 (2017-2020) e de Jair Bolsonaro (2019-2022), quando logo ao início do governo deste último, ou ainda antes da inauguração, o dirigente brasileiro prestou toda a vassalagem vergonhosa à pessoa e às políticas do parceiro dos EUA, inclusive mediante um desonroso “I love you Trump”, durante a AGNU de 2019 em NY.

Caso alguma similaridade com 2018 se produza novamente no Brasil, estaríamos em face de um dos mais graves atentados à soberania do Brasil jamais vistos em toda a nossa história, uma vez que “nunca antes” – como aliás se tentou entre 2019 e 2020 – ocorreu essa possibilidade de uma submissão voluntária e gratuita. 

Cabe, com efeito, não esquecer que, no próprio dia da posse de Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, o chanceler acidental escolhido pela tropa bolsonarista, um inexpressivo júnior da carreira diplomática, concordou imediatamente com a instalação de bases militares americanas em território brasileiro, tendo sido imediatamente desmentido de forma humilhante pelos generais do governo Bolsonaro. Mas, outros gestos de adesão gratuita do governo brasileiro a ações do governo Trump foram por diversas vezes evidenciados em votações em órgãos da ONU ou por meio de canhestras notas emitidas pelo Itamaraty (ou pelo governo, em nome da chancelaria). 

‘O Itamaraty possui diversos registros desse tipo de vassalagem que representam quebra da soberania brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro, e que podem voltar a ocorrer no caso de um possível governo do filho 01’

O Itamaraty, oficialmente ou não, possui diversos registros desse tipo de vassalagem que representam, de fato, quebra da soberania brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro, e que podem voltar a ocorrer no caso de um possível governo do filho 01, como antecipado, aliás, pelo próprio com respeito a adesão do Brasil ao “Escudo das Américas”, um programa teoricamente elaborado para contrarrestar a influência chinesa na região, mas que redunda, de forma objetiva, na tutela direta e indireta de governos participantes pelos interesses políticos, econômicos e militares da grande potência hemisférica e mundial, sob a ordens, no momento, de um dirigente arrogante, unilateral e demencial. 

Pressões geopolíticas já vêm sendo exercidas desde Trump 1, renovadas sob Trump 2, com o recrudescimento por vezes violento de ações diretas e o uso de toda sorte de pressões indiretas para obter a aquiescência de governos da região (e até fora dela, como são inúmeros os exemplos). 

Concluindo, venho à questão de como defender a soberania brasileira? Talvez se deva agora afirmar, de maneira explícita, que a comunidade nacional, todos os brasileiros, as suas elites políticas e econômicas, os seus servidores do Estado, em especial os militares e os diplomatas, repudiam de maneira clara e peremptória, toda e qualquer adesão às prescrições políticas e diplomáticas de qualquer governo estrangeiro, e que pretendem preservar com todas as forças nossa autonomia decisória sobre todas e quaisquer políticas de Estado e de governo, e que já denunciam preventivamente qualquer intenção de vincular nossa política externa e as demais políticas domésticas a qualquer potência estrangeira eventualmente atraída por nosso atual processo eleitor. Soberania não se proclama; se exerce, simplesmente, mas, no contexto atual, cabe e se deve fazer uma declaração clara e explícita nesse sentido. 

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A eleição presidencial e o Brasil - Rubens Barbosa (Interesse Nacional)

 

A eleição presidencial e o Brasil

Rubens Barbosa

Interesse Nacional, 2/10/2026


Tudo indica que vamos ter nos próximos quatro anos um difícil cenário interno político e econômico, o que tornará ainda mais crítica a resposta do futuro governo aos desafios externos, em vista da urgência da execução de políticas com uma visão estratégica de médio e longo prazo

(Foto: Agência Brasil)

Estamos a dois dias de uma das mais importantes eleições presidenciais das últimas décadas. A campanha eleitoral se desenvolveu em meio a dificuldades na economia e na governança política, pela crise do STF e pelo relacionamento entre os Poderes. A corrupção que tomou conta do noticiário e a violência preocupam a sociedade e aumentam a descrença na classe política. 

O mundo em grande transformação coloca desafios para o futuro governo e pouco ou nada os candidatos se referem a isso. A interferência externa nas eleições está acontecendo e, na hipótese de um segundo turno com diferença reduzida entre os dois principais candidatos, pode-se esperar a contestação do resultado pelo perdedor, com repercussão externa.

Nesse contexto, a lamentável disputa que ocorre entre alas do STF pode agravar a situação pela clara luta por sobrevivência política e pela continuação da presença delas na Suprema Corte, dependendo do resultado da eleição.  O próprio resultado eleitoral poderá ser influenciado por decisões de seus membros. Alguns já projetam a possibilidade de uma crise institucional, depois das eleições, dadas as precárias condições políticas internas.

‘Haverá pouco tempo para preparar um plano de governo para responder às demandas por reformas internas, por políticas emergenciais em setores vulneráveis e por uma definição dos interesses do país no cenário internacional’

Se o resultado da eleição for aceito por todos, haverá pouco tempo para o candidato que se eleger preparar um plano de governo para responder às demandas por reformas internas, por políticas emergenciais em setores vulneráveis e por uma definição dos interesses do país no cenário internacional.

A segurança econômica que EUA, Europa e China estão empenhados a anos a desenvolver e assegurar passa longe das preocupações da classe política e do setor empresarial. Segurança econômica, entendida como a capacidade do Estado de proteger a estabilidade, a resiliência e a continuidade de sua base produtiva, tecnológica, energética, alimentar, logística e financeira diante de choques externos, coerção, dependências críticas e riscos sistêmicos. 

A estabilidade econômica e política, além da segurança jurídica, são pressupostos para a atração de investimentos externos para complementar a baixa taxa (16%) de investimento interno em relação ao PIB e desenvolver e fazer crescer o setor industrial e a economia em geral, afetada pela avalanche de exportações da China em muitos setores. A rápida tomada de medidas, a exemplo do que estão fazendo os EUA e a Europa, para minimizar o impacto negativo dos produtos chineses de boa qualidade, baratos e financiados, será crucial na área de uma política de investimentos, industrial e de defesa comercial. 

‘Será difícil conseguir um mínimo de racionalidade para a definição das reais prioridades para a segurança econômica e a defesa do interesse nacional dentro desse quadro’

Será difícil conseguir um mínimo de racionalidade para a definição das reais prioridades para a segurança econômica e a defesa do interesse nacional dentro desse quadro. Correções na política econômica para reduzir o déficit fiscal, a queda da taxa de juros, as reformas administrativas e tributárias, uma efetiva política industrial e de absorção de tecnologia passarão ao largo dos primeiros meses do novo governo, seja ele qual for. 

Defesa e política externa, que tem de ver com os interesses nacionais, não estarão nas preocupações iniciais do futuro governo, apesar de um dos candidatos aparentemente estar propenso a implementar no Itamaraty reforma importada do governo Trump e fazer um grupo de trabalho com Washington na transição. A questão da governança e do relacionamento entre os três poderes estará no centro das preocupações no começo do governo, com poucas possibilidades de uma solução de curto prazo.

Tudo indica que vamos ter, nos próximos quatro anos, qualquer que seja o presidente eleito, um difícil cenário interno político e econômico, o que tornará ainda mais crítica a resposta do futuro governo aos desafios externos, em vista da urgência da execução de políticas com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Qual o Brasil que queremos e para onde vamos não está na agenda dos candidatos a presidente.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Qual Carney, Davos ou Nova York? - Gunther Rudzit Interesse Nacional

 

Qual Carney – Davos ou Nova York?

Gunther Rudzit 

Interesse Nacional

 https://interessenacional.com.br/portal/qual-carney-davos-ou-nova-york/

Premiê canadense fala em geometria variável, que poderia ser descrito como autonomia por sobreposição e acrescenta outra dimensão. As parcerias são organizadas segundo ecossistemas estratégicos distintos, nos quais tecnologia, segurança, energia, infraestrutura, finanças e produção passaram a se misturar. Um país não precisa escolher entre dois polos em todos os temas. Pode participar de arranjos diferentes, com parceiros diferentes, buscando impedir que uma única relação concentre todas as suas vulnerabilidades

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, discursa no Fórum Econômico Mundial de Davos (Foto: Fórum Econômico Mundial)

Carney em Davos

Em janeiro, no Fórum Econômico Mundial de Davos, o primeiro-ministro canadense Mark Carney não descreveu o sistema internacional como uma ordem em crise, à espera de recuperação. Foi mais longe. “Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição”, afirmou. A antiga ordem não voltaria e continuar invocando a “ordem internacional baseada em regras” como se ela ainda funcionasse da mesma maneira significava recusar-se a reconhecer a realidade.

O diagnóstico vinha acompanhado de uma explicação. A integração econômica, que durante décadas fora apresentada como fonte de benefícios mútuos, também havia se transformado em instrumento de poder. Tarifas podiam ser usadas como alavancas, infraestrutura financeira como mecanismo de coerção e cadeias produtivas como vulnerabilidades a serem exploradas. Quando a interdependência passa a produzir subordinação, argumentou Carney, as antigas garantias deixam de ser suficientes.

‘Carney utilizou uma expressão que voltaria a aparecer em seus discursos seguintes: autonomia estratégica’

Para as potências médias, isso criava um problema particular. Países como o Canadá não dispõem do tamanho de mercado, da capacidade militar ou dos instrumentos de coerção das grandes potências. Tampouco poderiam simplesmente construir “fortalezas” nacionais. A alternativa seria reduzir vulnerabilidades, aumentar opções e reconstruir soberania. Carney utilizou uma expressão que voltaria a aparecer em seus discursos seguintes: autonomia estratégica.

Essa autonomia, entretanto, não significava autossuficiência. Significava diversificar para reduzir a capacidade de coerção de qualquer parceiro e compartilhar os custos da resiliência com outros países. Energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias de suprimento passavam a ser componentes da própria capacidade de escolha de um Estado.

Davos também continha o método. O Canadá deveria construir diferentes coalizões para diferentes temas, reunindo países que compartilhassem interesses e valores suficientes para agir conjuntamente. 

Carney chamou essa estratégia de “geometria variável”. Na Ucrânia, uma coalizão; no Ártico, outra; nos minerais críticos, clubes de compradores; no comércio, novas articulações entre diferentes blocos; na inteligência artificial, cooperação destinada a evitar que países fossem obrigados a escolher entre hegêmonas e grandes empresas tecnológicas.

‘Para Carney, a política externa das potências médias deveria deixar de esperar pela restauração da antiga ordem e começar a construir aquilo que viesse depois dela’

Não se tratava, advertiu, de “multilateralismo ingênuo”, nem de simplesmente confiar nas instituições existentes. Tratava-se de construir coalizões capazes de funcionar, tema por tema, ao mesmo tempo em que se criava uma rede cada vez mais densa de conexões econômicas, políticas e estratégicas. Para Carney, a política externa das potências médias deveria deixar de esperar pela restauração da antiga ordem e começar a construir aquilo que viesse depois dela.

Nova York e o P4M

Oito meses mais tarde, às margens da Assembleia Geral das Nações Unidas, Carney apareceu entre os líderes que lançaram o Partners for Multilateralism (P4M). União Europeia, Austrália, Barbados, Brasil, Canadá, Índia e Quênia foram os copatrocinadores iniciais de uma iniciativa criada para defender o multilateralismo, o direito internacional, a paz e a prosperidade.

À primeira vista, a linguagem poderia sugerir uma mudança de direção. A declaração reafirma que o sistema multilateral fundado na Carta das Nações Unidas continua indispensável, defende o direito internacional e compromete seus integrantes a reformar e fortalecer as instituições multilaterais. As Nações Unidas permanecem no centro desse sistema, que deveria tornar-se mais efetivo, representativo e inclusivo.

Mas o diagnóstico que antecede essas propostas é menos convencional.

‘O documento reconhece explicitamente que a interdependência econômica passou a ser utilizada como instrumento de pressão, afetando comércio, cadeias de suprimento, investimentos e financiamento ao desenvolvimento.’

O documento não descreve apenas instituições enfraquecidas que precisam ser recuperadas. Reconhece um mundo marcado pelo retorno da política de poder, pelo protecionismo, pela coerção e pela ameaça ou uso da força. Mais importante, reconhece explicitamente que a interdependência econômica passou a ser utilizada como instrumento de pressão, afetando comércio, cadeias de suprimento, investimentos e financiamento ao desenvolvimento.

Há, portanto, no próprio documento do P4M, parte do diagnóstico que Carney apresentou em Davos.

Também chama atenção a forma escolhida para a iniciativa. O P4M não foi apresentado como uma nova organização internacional, dotada de estrutura permanente, regras de adesão complexas ou burocracia própria. Seus participantes propõem uma cooperação multilateral aberta, inclusiva, “em rede e prática”. António Costa, presidente do Conselho Europeu, um de seus articuladores, descreveu-o como uma plataforma aberta destinada ao diálogo, à formação de coalizões e à cooperação concreta.

Até sua composição é reveladora. Entre os copatrocinadores iniciais estão países de diferentes regiões, dimensões, níveis de desenvolvimento e inserções estratégicas: Austrália, Barbados, Brasil, Canadá, Índia e Quênia, além da União Europeia. Não formam um bloco tradicional e tampouco compartilham necessariamente as mesmas posições sobre os principais conflitos ou disputas internacionais.

Compartilham, entretanto, interesse suficiente para cooperar em determinadas questões.

Por isso, a pergunta sobre Carney precisa ser formulada com mais cuidado.

Carney mudou?

Se compararmos apenas duas frases — em janeiro, “a velha ordem não voltará”; em setembro, “o sistema multilateral continua indispensável” —, a resposta poderia parecer evidente.

‘O próprio P4M, embora reafirme instituições e princípios da antiga ordem, assume a forma de uma rede voltada à formação de coalizões e à cooperação prática em um mundo no qual a interdependência passou a ser utilizada como instrumento de poder.’

Mas Davos continha muito mais do que a primeira afirmação. Ali estavam também autonomia estratégica, redução de vulnerabilidades, diversificação, coalizões flexíveis, geometria variável e construção de redes. E o próprio P4M, embora reafirme instituições e princípios da antiga ordem, assume a forma de uma rede voltada à formação de coalizões e à cooperação prática em um mundo no qual a interdependência passou a ser utilizada como instrumento de poder.

A questão, portanto, talvez não seja simplesmente saber se Carney abandonou o diagnóstico de Davos.

É preciso descobrir o que ele fez depois dele.

A prática canadense

Para isso, não basta comparar discursos. É necessário observar a política externa canadense dos últimos oito meses.

Em fevereiro, Carney anunciou viagens à Índia, Austrália e Japão para ampliar relações nas áreas de comércio, energia, tecnologia e defesa. No mesmo mês, o Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a integrar o Security Action for Europe (SAFE), mecanismo europeu de compras de Defesa. Nos meses seguintes, aprofundou a aproximação com a Europa, combinando acordos em Defesa, minerais críticos, energia, inteligência artificial e tecnologias avançadas.

Na mesma direção, Ottawa ampliou acordos destinados a diversificar cadeias de minerais críticos. Canadá e Alemanha passaram a trabalhar em estoques estratégicos e integração de cadeias produtivas. No G7, novas parcerias aproximaram empresas e governos de países como França, Itália e Japão em projetos de mineração, processamento e fornecimento de minerais estratégicos, ao mesmo tempo em que Ottawa aprofundava a cooperação com outros parceiros, entre eles a Coreia do Sul.

Em julho, a lógica avançou em outras direções. Canadá, Alemanha e Noruega anunciaram uma parceria de longo prazo envolvendo submarinos, indústria de Defesa, energia, inteligência artificial, espaço e minerais críticos. Poucos dias depois, Carney realizou a primeira visita de um primeiro-ministro canadense à Arábia Saudita em 26 anos. Novamente, a agenda atravessou setores: energia, inteligência artificial, Defesa, infraestrutura, mineração e investimentos.

A geografia muda. Os parceiros mudam. As áreas de cooperação também. Mas existe uma lógica recorrente.

‘Carney afirmou que o Canadá estava construindo uma “rede densa de conexões”, formada por coalizões ad hoc capazes de funcionar tema por tema. Para enfrentar um mundo no qual a ordem baseada em regras estava sob pressão, utilizou uma expressão conhecida da diplomacia: “geometria variável”’

Carney a explicitou em junho, em discurso no Trinity College, em Dublin. O Canadá, afirmou, estava construindo uma “rede densa de conexões”, formada por coalizões ad hoc capazes de funcionar tema por tema. Para enfrentar um mundo no qual a ordem baseada em regras estava sob pressão, utilizou uma expressão conhecida da diplomacia: “geometria variável”.

Em setembro, voltou a formular a lógica de maneira particularmente direta. Ao apresentar a estratégia econômica canadense, afirmou que o objetivo central dessas parcerias era aumentar a “autonomia estratégica” do país. A razão também foi explicitada: vivemos em um mundo no qual a integração passou a ser utilizada como instrumento de poder.

Poucos dias depois, no Parlamento Europeu, Carney transformou essa percepção em uma proposta concreta. Soberania, argumentou, já não significa apenas capacidade de alimentar, abastecer ou defender um país. Exige acesso seguro a inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, sistemas de pagamentos, tecnologias energéticas, vacinas e comunicações espaciais.

Nenhum Estado possui sozinho todas essas capacidades.

Além da diversificação

A resposta canadense, portanto, não é autossuficiência. É construir resiliência coletiva por meio da diversificação. Canadá e Europa poderiam aprofundar sua integração em minerais críticos, indústria de Defesa, inteligência artificial e capacidade computacional, energia, espaço e pagamentos. Em alguns setores, as capacidades seriam complementares; em outros, sobrepostas.

Talvez esteja aí a chave para entender também o Partners for Multilateralism.

‘O que Ottawa parece estar fazendo é algo diferente: preserva relações existentes e, simultaneamente, cria outras conexões capazes de reduzir vulnerabilidades específicas.’

O Canadá não abandonou os Estados Unidos, nem pretende fazê-lo. Sua economia, sua geografia e sua estrutura de segurança tornam essa hipótese pouco realista. Tampouco substituiu Washington por Bruxelas, Nova Déli, Tóquio ou Riad. O que Ottawa parece estar fazendo é algo diferente: preserva relações existentes e, simultaneamente, cria outras conexões capazes de reduzir vulnerabilidades específicas.

Defesa pode exigir uma combinação de Estados Unidos, Europa e parceiros da Otan. Minerais críticos podem envolver Alemanha, França, Itália, Japão e Coreia do Sul. Inteligência artificial pode aproximar Canadá, Europa, Índia, Austrália ou Arábia Saudita. Comércio pode avançar com Asean e Índia. Energia produz outras combinações.

Não existe um único alinhamento capaz de responder a todas as necessidades.

‘O que Carney chama de geometria variável talvez possa ser descrita de outra maneira: autonomia por sobreposição’

O que Carney chama de geometria variável talvez possa ser descrita de outra maneira: autonomia por sobreposição.

A diferença não é apenas semântica. Diversificação tradicional significa ampliar parceiros para reduzir dependências excessivas. Autonomia por sobreposição acrescenta outra dimensão. As parcerias são organizadas segundo ecossistemas estratégicos distintos, nos quais tecnologia, segurança, energia, infraestrutura, finanças e produção passaram a se misturar.

Um país não precisa escolher entre dois polos em todos os temas. Pode participar de arranjos diferentes, com parceiros diferentes, buscando impedir que uma única relação concentre todas as suas vulnerabilidades.

Vista desse ângulo, a participação canadense no Partners for Multilateralism deixa de contradizer Davos.

Carney não precisa acreditar que a antiga ordem internacional será restaurada para considerar o multilateralismo útil. Organizações internacionais, direito internacional e coalizões multilaterais continuam sendo instrumentos importantes, principalmente para potências médias. Mas deixam de constituir necessariamente a arquitetura abrangente dentro da qual todas as demais relações são organizadas.

Passam a ser uma camada entre outras.

Talvez por isso os mesmos países possam participar do P4M por razões estratégicas diferentes. Para alguns, a iniciativa pode representar principalmente uma tentativa de preservar e reformar a institucionalidade internacional construída nas últimas décadas. Para o Canadá de Carney, porém, ela parece se encaixar em uma estratégia mais ampla: construir redes flexíveis, sobrepor parcerias e aumentar a capacidade de escolha em um mundo no qual interdependência e vulnerabilidade se tornaram inseparáveis.

Em Davos, Carney disse que a velha ordem não voltaria.

Oito meses depois, talvez ele não tenha mudado de opinião.

Talvez esteja apenas tentando descobrir como exercer autonomia depois dela.

 

Gunther Rudzit é professor de relações internacionais da ESPM, professor convidado da UNIFA, e membro do GACINT/USP.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


terça-feira, 14 de julho de 2026

Por que a democracia americana importa ao mundo? Gunther Rudzit (Interesse Nacional)

 

Por que a democracia americana importa ao mundo – A construção institucional dos Estados Unidos e sua contribuição para a Ordem Internacional


Gunther Rudzit

Portal Interesse Macional, 13 julho 2026

As crises políticas dos Estados Unidos costumam ser vistas como um tema essencialmente doméstico. O restante do mundo tende a acompanhá-las sobretudo por seus possíveis impactos econômicos ou diplomáticos. Raramente, porém, se faz uma pergunta mais profunda: por que a evolução das instituições políticas americanas deveria interessar à comunidade internacional? A resposta está na relação […]

As crises políticas dos Estados Unidos costumam ser vistas como um tema essencialmente doméstico. O restante do mundo tende a acompanhá-las sobretudo por seus possíveis impactos econômicos ou diplomáticos. Raramente, porém, se faz uma pergunta mais profunda: por que a evolução das instituições políticas americanas deveria interessar à comunidade internacional?

A resposta está na relação entre política doméstica e Ordem Internacional. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a liderança dos Estados Unidos não se apoiou apenas em sua superioridade econômica, militar, tecnológica ou científica. Ela também dependeu da credibilidade de suas instituições. 

A confiança de aliados e parceiros nunca decorreu exclusivamente do poder americano, mas da percepção de que esse poder era exercido dentro de regras relativamente previsíveis e por instituições suficientemente estáveis para limitar a ação de seus próprios governantes.

Essa dimensão institucional costuma receber menos atenção do que merece. Quando se discute a Ordem Internacional construída após 1945, o foco normalmente recai sobre a criação das Nações Unidas, do sistema de Bretton Woods, da OTAN ou, posteriormente, da Organização Mundial do Comércio (OMC). Todas essas instituições foram fundamentais. Mas elas não surgiram no vazio. Em larga medida, refletiam uma experiência institucional que os próprios Estados Unidos haviam desenvolvido ao longo de sua história.

‘Compreender a evolução da democracia americana significa entender como a construção gradual de suas instituições contribuiu para moldar a própria Ordem Internacional’

Por isso, compreender a evolução da democracia americana não significa apenas revisitar a história constitucional de um país. Significa entender como a construção gradual de suas instituições contribuiu para moldar a principal potência do século XX e, por consequência, a própria Ordem Internacional contemporânea.

As instituições americanas permitiram que uma sociedade profundamente dividida construísse, ao longo do tempo, uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional. Foi essa estabilidade — mais do que o poder econômico e militar isoladamente — que deu credibilidade à liderança internacional dos Estados Unidos.

Antes da França, Filadélfia

Quando se fala na origem da democracia representativa moderna, a maioria dos brasileiros pensa imediatamente na Revolução Francesa de 1789. Essa associação é compreensível. A França era uma das grandes potências europeias, e as guerras revolucionárias e, depois, Napoleão, projetaram seus princípios políticos por todo o continente. Os Estados Unidos, ao contrário, eram ainda uma jovem república, distante dos grandes centros de poder e com reduzida influência internacional.

A arquitetura institucional que serviria de referência para grande parte das democracias contemporâneas, porém, começou a ser construída antes. A independência americana foi declarada em 1776, mas somente reconhecida pelo Reino Unido em 1783, ao término da Guerra de Independência. A vitória militar, entretanto, não resolveu imediatamente o problema político. Os novos estados precisavam decidir que tipo de país pretendiam construir.

‘O resultado foi a Constituição que permanece em vigor até hoje, tornando-se a mais antiga constituição escrita ainda vigente’

Após um período inicial marcado pelos Artigos da Confederação, considerados insuficientes para garantir a estabilidade da nova república, representantes dos estados reuniram-se na Convenção da Filadélfia, em 1787. O resultado foi a Constituição que permanece em vigor até hoje, tornando-se a mais antiga constituição escrita ainda vigente.

Foi naquele momento que surgiu um dos debates mais influentes da história constitucional moderna — ainda hoje amplamente estudado por cientistas políticos e constitucionalistas em todo o mundo. 

A questão central era simples, mas decisiva: quanto poder deveria ter o novo governo federal? Dessa discussão nasceu um modelo institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade, preservando um governo nacional suficientemente forte para manter a União, mas limitado por mecanismos destinados a impedir a concentração excessiva de poder. A partir daí, a grande questão deixou de ser a criação do novo Estado e passou a ser a definição dos limites de seu poder.

Quanto poder deveria ter o novo governo?

Na Convenção da Filadélfia, o principal debate não era sobre a forma de governo, mas sobre a distribuição do poder. De um lado, os federalistas, como Alexander Hamilton e James Madison, defendiam um governo nacional suficientemente forte para preservar a União e garantir a estabilidade da nova República. Do outro, os antifederalistas, representados por figuras como Patrick Henry e George Mason, temiam que um governo central excessivamente poderoso reproduzisse as mesmas formas de opressão contra as quais haviam lutado durante a independência.

Toda a discussão convergia para uma pergunta fundamental: quanto poder deveria ter o governo federal?

‘Os Pais Fundadores construíram um compromisso institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade’

A solução encontrada não representou a vitória plena de nenhum dos dois grupos. Os Pais Fundadores construíram um compromisso institucional que buscava equilibrar autoridade e liberdade. O governo federal recebeu poderes suficientes para preservar a União, conduzir a política externa, garantir a defesa nacional e regular questões de interesse comum.

Ao mesmo tempo, esses poderes foram limitados por um amplo sistema de freios e contrapesos (checks and balances). O equilíbrio não existia apenas entre os três Poderes, mas também no interior do próprio Legislativo, organizado em duas Casas com lógicas distintas de representação: uma representando diretamente a população e outra assegurando a igualdade política entre os estados, independentemente de seu tamanho. Somava-se a isso o federalismo, que preservava ampla autonomia para os governos estaduais.

Essa foi, provavelmente, a maior contribuição dos Pais Fundadores para a democracia moderna. Eles não criaram instituições destinadas a eliminar os conflitos políticos, mas instituições capazes de administrá-los e transformá-los em compromissos duradouros dentro da própria ordem constitucional. Ao longo dos mais de dois séculos seguintes, essa arquitetura institucional seria repetidamente colocada à prova pelas profundas transformações da sociedade americana.

Uma democracia em permanente construção

O compromisso institucional construído em 1787 não encerrou a formação da democracia americana. Ao contrário, deixou em aberto questões que continuariam a redefinir os Estados Unidos ao longo dos quase 250 anos seguintes. A própria Constituição convivia com a escravidão, restringia o direito ao voto e excluía da vida política mulheres, indígenas e amplos setores da população. A democracia americana nasceu como um projeto institucional; sua consolidação seria resultado de sucessivas transformações históricas.

‘A história dos Estados Unidos pode ser lida como a história da capacidade de suas instituições de adaptar-se às transformações da sociedade americana sem romper a continuidade constitucional’

A história dos Estados Unidos pode ser lida, em grande medida, como a história da capacidade de suas instituições de adaptar-se às profundas transformações da sociedade americana sem romper a continuidade constitucional estabelecida em 1787. Cada um dos grandes momentos da história americana pode ser entendido como um novo teste dessa capacidade institucional.

A primeira grande prova veio com a Guerra Civil. Mais do que preservar a União ou abolir a escravidão, o conflito definiu o tipo de sociedade que os Estados Unidos pretendiam construir. Consolidou uma economia nacional baseada no trabalho livre, fortaleceu a capacidade de coordenação do governo federal sem descaracterizar o federalismo americano e tornou irreversível a unidade política do país.

A Grande Depressão produziu outro momento decisivo. O New Deal, implementado por Franklin D. Roosevelt, redefiniu radicalmente a relação entre governo, sociedade e economia. Sem alterar a Constituição, ampliou a atuação do Estado, fortaleceu sua capacidade de regular mercados e consolidou a percepção de que o governo federal possuía responsabilidade direta pela estabilidade econômica e pelo bem-estar social.

Poucos anos depois, a Segunda Guerra Mundial projetou os Estados Unidos à condição de principal potência do mundo ocidental e abriu caminho para a política de contenção formulada pelo governo Truman. Pela primeira vez, a estabilidade das instituições americanas passou a constituir também um ativo estratégico para a liderança internacional do país.

‘O movimento pelos direitos civis ampliou novamente o alcance da democracia americana’

O movimento pelos direitos civis ampliou novamente o alcance da democracia americana. A Constituição permaneceu a mesma; foi o significado da expressão “Nós, o povo” que continuou a se expandir, aproximando a realidade institucional dos princípios proclamados na independência.

Nas décadas seguintes, novas transformações recolocariam antigas questões sob perspectivas diferentes. A eleição de Ronald Reagan simbolizou uma mudança na percepção sobre o papel do Estado na economia. Os atentados de 11 de setembro reacenderam o debate sobre o equilíbrio entre liberdade e segurança, ampliando os poderes de vigilância do governo por meio do Patriot Act. Já a crise financeira de 2008 demonstrou que, mesmo após décadas de valorização do mercado, continuava recaindo sobre o Estado a responsabilidade de preservar a estabilidade econômica em momentos de crise.

Cada um desses episódios representou uma resposta diferente à mesma pergunta: como adaptar as instituições às transformações da sociedade sem romper a ordem constitucional. Talvez essa seja a principal singularidade da experiência americana. Ao longo de quase dois séculos e meio, sua democracia transformou-se profundamente sem abandonar a Constituição de 1787. Foi essa capacidade de adaptação que, mais tarde, se transformaria em um dos maiores ativos internacionais dos Estados Unidos.

Uma democracia que se tornou um ativo estratégico

A capacidade de adaptação demonstrada pelas instituições americanas ao longo de sua história produziu efeitos que ultrapassaram suas fronteiras. Ao final da Segunda Guerra Mundial, essas instituições já haviam demonstrado uma capacidade incomum de adaptação e estabilidade.

Naquele momento, os Estados Unidos reuniam condições materiais para exercer a liderança do mundo ocidental. Sua economia era a maior do planeta, seu poder militar havia sido decisivo para a vitória aliada e sua capacidade científica e tecnológica não encontrava paralelo entre as democracias. Esses fatores ajudam a explicar por que Washington assumiu a liderança da reconstrução internacional. Não explicam, porém, por que tantos países aceitaram essa liderança durante as décadas seguintes.

‘Ao longo de mais de dois séculos, as instituições demonstraram uma capacidade pouco comum de transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros’

A resposta também se encontra na evolução de suas instituições. Ao longo de mais de dois séculos, elas demonstraram uma capacidade pouco comum de transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros. Foi essa característica que permitiu aos Estados Unidos construir uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional, apesar das alternâncias de governo e das profundas transformações econômicas, sociais e internacionais.

Essa continuidade estratégica teve profundas consequências para a política internacional. Aliados e parceiros passaram a confiar menos nas decisões de um governo específico do que na capacidade das instituições americanas de sustentar compromissos internacionais ao longo do tempo. A criação das Nações Unidas, do sistema de Bretton Woods, da Otan, do Gatt e, posteriormente, da Organização Mundial do Comércio (OMC) refletia a liderança dos Estados Unidos, mas também a expectativa de que essa liderança seria exercida por um país capaz de manter compromissos internacionais de longo prazo.

Isso não significa que a política externa americana tenha sido isenta de contradições. Intervenções militares, decisões unilaterais e mudanças de orientação ocorreram ao longo da Guerra Fria e também depois dela. Ainda assim, predominava entre aliados e adversários a percepção de que existia uma continuidade estratégica capaz de sobreviver às disputas partidárias e às sucessivas mudanças de governo.

‘Foi essa capacidade institucional de produzir continuidade estratégica que conferiu aos Estados Unidos um ativo raramente disponível às grandes potências: credibilidade’

Foi essa capacidade institucional de produzir continuidade estratégica que conferiu aos Estados Unidos um ativo raramente disponível às grandes potências: credibilidade. A previsibilidade de sua atuação internacional era consequência dessa continuidade institucional, e não sua causa. Durante décadas, essa combinação entre poder material e instituições capazes de sustentar políticas de Estado relativamente estáveis tornou-se um dos pilares da Ordem Internacional construída após 1945. Essa relação entre estabilidade institucional e liderança internacional ajuda a compreender os desafios enfrentados pelos Estados Unidos na atualidade.

Quando as instituições deixam de produzir consenso

Durante grande parte de sua história, as instituições americanas conseguiram transformar conflitos políticos em compromissos duradouros. Essa estabilidade nunca significou ausência de divergências. Ao contrário, democratas e republicanos frequentemente discordaram sobre prioridades, instrumentos e estratégias. Ainda assim, existia uma compreensão relativamente estável do interesse nacional que conferia continuidade à atuação internacional dos Estados Unidos.

‘A crescente polarização política tornou mais difícil a construção de compromissos sobre questões fundamentais da vida americana’

Nos últimos anos, entretanto, essa capacidade passou a revelar sinais de desgaste. A crescente polarização política tornou mais difícil a construção de compromissos sobre questões fundamentais da vida americana, inclusive sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. Mudanças de governo passaram a produzir alterações mais profundas na política externa, reduzindo a continuidade estratégica que caracterizou boa parte do período do pós-guerra.

Nesse contexto, a atual presidência de Donald Trump representa menos uma ruptura isolada do que a manifestação mais visível de um desgaste institucional mais amplo. Os debates recentes sobre imigração, tarifas comerciais, extensão dos poderes presidenciais e decisões da Suprema Corte revelam que antigas perguntas voltaram ao centro da política americana: quanto poder deve ter o governo federal? Quais são os limites da autoridade presidencial? E como construir compromissos duradouros sobre o interesse nacional em uma sociedade cada vez mais polarizada?

Essas questões dizem respeito, antes de tudo, aos próprios americanos. Seus efeitos, porém, ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos. Se a estabilidade da Ordem Internacional dependeu, durante décadas, da capacidade das instituições americanas de produzir continuidade estratégica, qualquer enfraquecimento dessa capacidade tende a reduzir a previsibilidade da atuação internacional dos Estados Unidos e, consequentemente, aumentar a incerteza do próprio Sistema Internacional.

Talvez esse seja um dos principais desafios do século XXI. O verdadeiro teste das instituições americanas não está apenas em conter excessos ocasionais de um presidente ou de outro, mas em verificar se continuarão capazes de desempenhar a função que exercem desde 1787: transformar conflitos políticos em compromissos institucionais duradouros. Ao longo de quase 250 anos, foi essa capacidade que permitiu aos Estados Unidos construir uma compreensão relativamente estável de seu interesse nacional e, a partir dela, conferir credibilidade internacional ao exercício de seu poder. A questão que permanece em aberto não é apenas se essa capacidade continuará existindo, mas quais serão as consequências para a Ordem Internacional caso ela deixe de cumprir essa função. Talvez seja essa a principal razão pela qual a evolução da democracia americana continua interessando ao mundo.

Gunther Rudzit é professor de relações internacionais da ESPM e professor convidado da Universidade da Força Aérea (UNIFA).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


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