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segunda-feira, 24 de junho de 2024

Livro analisa trajetória da Editora Francisco Alves, a mais antiga do Brasil - Marcello Rollemberg (Jornal da USP)

  1. Livro analisa trajetória da Editora Francisco Alves
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Livro analisa trajetória da Editora Francisco Alves

Publicada pela Edusp e reunindo 14 artigos de oito pesquisadores, obra lança luzes sobre a história da editora há mais tempo em atividade no Brasil

https://jornal.usp.br/cultura/livro-analisa-trajetoria-da-editora-francisco-alves/

  • https://jornal.usp.br/?p=40426
 19/09/2016 - Publicado há 8 anos (2016)
Por Marcello Rollemberg

Obras clássicas publicadas pela Editora Francisco Alves
Fotos: Divulgação

A linhagem de grandes editores brasileiros que fizeram de seus nomes quase que um sinônimo para suas casas editoriais – como Ênio Silveira na antiga Civilização Brasileira e Caio Graco Prado na Brasiliense dos anos 1980 – tem em sua gênese um português que veio para o Brasil em 1863, aos 15 anos, e acabaria por se tornar um marco na vida cultural primeiro do Rio de Janeiro e depois do resto do País: Francisco Alves de Oliveira. Com seu nome encimando a fachada da antiga Livraria Clássica, fundada em 1854 por seu tio Nicolau Alves e da qual ele se tornaria proprietário, o editor fez da Livraria (e Editora) Francisco Alves um marco para as letras brasileiras durante o tempo em que ficou à frente do negócio, entre 1882 e 1917, quando morreu. Excetuando-se a Imprensa Nacional, que nasceu em 1808 como Impressão Régia, a Francisco Alves é a editora mais antiga em funcionamento no Brasil.

A antiga filial da Livraria Francisco Alves em São Paulo – Fotos: Divulgação

A trajetória de Francisco Alves acaba de ser resgatada em uma muito bem cuidada edição da Edusp – o Rei do Livro, organizada pelo professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), editor e ex-livreiro Aníbal Bragança. O volume – cujo título faz uma brincadeira, remetendo a outro Francisco Alves, o cantor, conhecido como o “rei da voz”; por isso é bom não se confundir as realezas culturais – reúne 14 artigos escritos por oito pesquisadores, divididos em duas partes, que analisam a trajetória de Francisco Alves como editor, a importância de sua livraria e editora para a cultura letrada brasileira e os principais livros que ele editou, entre eles os clássicos O Ateneu, de Raul Pompeia, e Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Mas os primeiros livros publicados pela (e por) Francisco Alves não eram obras que teriam seu lugar garantido no panteão da literatura nacional. O sucesso da editora começou e se solidificou com a publicação de livros didáticos, fazendo da Francisco Alves um nome influente no ainda nascente sistema educacional do Brasil.  O sucesso foi tamanho que ela foi a maior editora-livraria do País por quase meio século, entre as últimas décadas do século 19 e a primeira do século 20. E foi justamente graças a esse trabalho editorial muito bem feito tanto na parte didática quanto na literatura que rendeu grande reconhecimento e respeito ao editor.

Muito desse respeito veio também devido à sua relação com os autores, dando-lhes uma projeção ainda desconhecida no incipiente mercado editorial brasileiro. “Sua atuação como editor literário, embora sem a importância que teve como editor escolar, foi fundamental para o desenvolvimento da função autor no Brasil”, escreve Aníbal Bragança em seu primeiro artigo do livro – no total são seis – sobre Francisco Alves. “Ele, contrariamente ao que era habitual entre os editores de seu tempo, no Brasil, estabelecia contratos de edição, em que o interesse dos autores era respeitado, reconhecia-lhes o valor de seu trabalho, remunerando-os dignamente, mesmo para os padrões atuais.”

O editor Francisco Alves, Nicolau Alves, fundador da livraria, 
Paulo de Azevedo, sucessor de Francisco Alves, e 
um busto do editor - Fotos: Divulgação

Rei do livro

A Livraria e Editora Francisco Alves não restringiu suas atividades ao Rio de Janeiro, a capital federal que emanava cultura e política para todo o País. Em 1894, o editor abriu sua filial em São Paulo e, dezesseis anos depois, em 1910, inaugurou mais um braço de sua editora fora do Rio, dessa vez na ainda jovem nova capital mineira, Belo Horizonte. Inspirado na francesa Hachette e tendo como grande rival brasileira a também carioca Garnier, a Francisco Alves soube ampliar seus espaços e se tornar referência editorial desde finais do século 19. E sua expansão para São Paulo e Minas Gerais em muito auxiliou esse crescimento, chegando até a criar uma ponte editorial com a Europa, fato inédito na época. Mas essa expansão pelo País também foi uma via de mão dupla.

A capa do livro lançado pela Edusp – Foto: Reprodução

Como ressalta Marisa Midori Deaecto – professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e colunista da Rádio USP – em seu artigo, a Francisco Alves se instala em São Paulo em um momento de crescimento da capital e também de florescimento das escolas públicas, colaborando muito para o desenvolvimento dessas últimas e da própria educação. “Podemos afirmar que a instalação da Livraria Francisco Alves em São Paulo deve ser analisada no âmbito da expansão do ensino de primeiro e segundo graus, o que lhe teria garantido condições bem favoráveis para a distribuição dos livros editados pela casa”, afirma a professora da ECA. “Além disso, a livraria se instalava na capital em um contexto de desenvolvimento do comércio de gêneros de consumo e, em especial, do comércio de bens culturais.”

O Rei do Livro é uma obra que lança importantes luzes não apenas sobre a trajetória de uma das mais importantes editoras brasileiras – que hoje vive uma fase de recuperação depois de ter passado por várias mãos desde a morte de Francisco Alves, em 1917 –, mas também sobre a história do mercado editorial do País, uma área que vem sendo cada vez mais esquadrinhada por pesquisadores do Brasil e do exterior.

Rei do Livro, Aníbal Bragança (org.), Edusp, 352 pág., R$ 50,00.


By Paulo Roberto de Almeida Paulo Roberto de Almeida at junho 24, 2024 Nenhum comentário:
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Labels: Editora Francisco Alves, Jornal da USP, livro, mais antiga do Brasil, Marcello Rollemberg
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Uma reflexão...

Recomendações aos cientistas, Karl Popper:
Extratos (adaptados) de Ciência: problemas, objetivos e responsabilidades (Popper falando a biólogos, em 1963, em plena Guerra Fria):
"A tarefa mais importante de um cientista é certamente contribuir para o avanço de sua área de conhecimento. A segunda tarefa mais importante é escapar da visão estreita de uma especialização excessiva, interessando-se ativamente por outros campos em busca do aperfeiçoamento pelo saber que é a missão cultural da ciência. A terceira tarefa é estender aos demais a compreensão de seus conhecimentos, reduzindo ao mínimo o jargão científico, do qual muitos de nós temos orgulho. Um orgulho desse tipo é compreensível. Mas ele é um erro. Deveria ser nosso orgulho ensinar a nós mesmos, da melhor forma possível, a sempre falar tão simplesmente, claramente e despretensiosamente quanto possível, evitando como uma praga a sugestão de que estamos de posse de um conhecimento que é muito profundo para ser expresso de maneira clara e simples.
Esta, é, eu acredito, uma das maiores e mais urgentes responsabilidades sociais dos cientistas. Talvez a maior. Porque esta tarefa está intimamente ligada à sobrevivência da sociedade aberta e da democracia.
Uma sociedade aberta (isto é, uma sociedade baseada na idéia de não apenas tolerar opiniões dissidentes mas de respeitá-las) e uma democracia (isto é, uma forma de governo devotado à proteção de uma sociedade aberta) não podem florescer se a ciência torna-se a propriedade exclusiva de um conjunto fechado de cientistas.
Eu acredito que o hábito de sempre declarar tão claramente quanto possível nosso problema, assim como o estado atual de discussão desse problema, faria muito em favor da tarefa importante de fazer a ciência -- isto é, as idéias científicas -- ser melhor e mais amplamente compreendida."

Karl R. Popper: The Myth of the Framework (in defence of science and rationality). Edited by M. A. Notturno. (London: Routledge, 1994), p. 109.

Uma recomendação...

Hayek recomenda aos mais jovens:
“Por favor, não se tornem hayekianos, pois cheguei à conclusão que os keynesianos são muito piores que Keynes e os marxistas bem piores que Marx”.
(Recomendação feita a jovens estudantes de economia, admiradores de sua obra, num jantar em Londres, em 1985)

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