Acabo de ler e resolvi retirar do Twitter e postar aqui, uma sequência de postagens do acadêmico, professor de Ciência Política na UFMG, sobre o Itamaraty sob nova direção.
Acrescentei algo ao retwitar no meu próprio Twitter.
Paulo Roberto de Almeida
Dawisson Lopes:
1) A convite do Itamaraty, participei de 2 eventos no ano passado. Os 2 tinham por objetivo discutir as principais questões da pol. externa brasileira no futuro. Nas ocasiões, usei meu tempo para discutir a relação entre DIPLOMACIA e CONHECIMENTO. Narro, na sequência, os fatos.
2) Em fevereiro, falei do lugar periférico do 🇧🇷 nas redes globais do conhecimento. Por várias métricas - de PISA a rankings universitários - nós ficamos para trás. Somos um país de poucos falantes de inglês. Produção científica volumosa, mas de baixo impacto. Investimento baixo.
3) Quando visitamos a história da política externa brasileira, contudo, encontramos a hipótese de que teria sido a "diplomacia do conhecimento", isto é, o investimento sistemático em saberes jurídicos e cartográficos, o que nos teria garantido um lugar à mesa. Ver a obra do Barão do RB.
4) O que expus aos presentes - embaixadores e acadêmicos - é que, talvez, aquele quadro cognitivo de 100 anos atrás ainda estivesse a balizar o nosso corpo diplomático. A aposta nos saberes clássicos, em oposição às novas técnicas e temas, nos limitaria possibilidades.
5) Fundamentei meu argumento em casos ao redor do mundo. Na forma como estadunidenses se relacionavam com o conhecimento para produzir política externa. Nos estudos que os chineses ora desenvolviam. Na maneira como indianos vinham mobilizando a academia e os think tanks, etc.
6) Temas como revolução industrial 4.0, nova corrida espacial, cibersegurança, biotecnologia, dentre outros, pareciam-me ainda distantes do universo cognitivo do diplomata brasileiro. Meu ponto: a "diplomacia do conhecimento", hoje, demandaria um acercamento dessas novidades.
7) Em outubro último, voltei a margear o assunto, ao tratar da relação entre fazer acadêmico e fazer diplomático. Enquanto a diplomacia não busca insumos acadêmicos para a fabricação de suas políticas, à academia faltaria, com certa frequência, mais conhecimento sobre a prática.
8) Entendo que a diplomacia brasileira poderia beneficiar-se dos conhecimentos sobre métodos e técnicas para acessar/analisar dados que a academia cultiva. Uma abordagem menos ensaística e mais embasada em metodologia científica poderia ajudar na consecução de melhores resultados.
9) Análise de política pública, estatística inferencial, big data, protocolos de comparação, dentre outros ferramentais, municiam toda a produção da atual política externa chinesa, por exemplo. Não tenho dúvida de que o ensaísmo diplomático do 🇧🇷 é um problema a superar.
10) Faço o longo prólogo para, enfim, debruçar-me sobre as mudanças propostas na formação do diplomata brasileiro, recentemente publicizadas. Houve diversas mudanças de terminologia disciplinar, de carga horária, de encadeamento na grade curricular, além de exclusões e inclusões.
11) Às principais mudanças: a) as disciplinas de História da PEB e de Pensamento Diplomático, enquanto tais, não existem mais. Foram fundidas; b) a disciplina de Planej. Diplom. perdeu metade da CH. Como professor, bem sei que esse é um jeito sutil de fazer o indesejado "sumir".
12) Tem mais: c) a disciplina de América Latina foi suprimida na grade; d) incluíram-se, por sua vez, duas disciplinas de Clássicos. A primeira, já em oferta, cobre de Platão a Kant. 25 livros que representariam, quero acreditar, a melhor tradição ocidental conforme o atual chanceler.
13) Ora: o novo 'homo diplomaticus', na verdade, não vai se aproximar do temário contemporâneo da política internacional, tampouco se atualizar sobre metodologia científica de ponta. Antes, mergulhará no ensaísmo diletante. Aperfeiçoará ainda mais a sua cultura de salão.
Paulo Roberto de Almeida:
“Diplomacia do conhecimento” é exatamento o título de um ensaio meu ainda não divulgado, mas que deve acompanhar a 3a. edição da obra “O Itamaraty na Cultura Brasileira” (1a. ed. em 2001, na gestão Celso Lafer; org. Alberto da Costa e Silva), agora em finalização. Aguardem.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Tesouro deve rever análise para garantir novo empréstimo aos Correios após críticas do TCU - Idiana Tomazelli (Jornal de Brasília)
O governo Lula aprofunda o que melhor sabe fazer: aumentar o déficit público e agravar a situação fiscal do país, no futuro imediato e no cu...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
Jair Bolsonaro evalúa prohibir que Huawei participe de la construcción de la red 5G de Brasil Un alto funcionario de Brasilia confió a l...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
UNE ANALYSE DE LA SITUATION RUSSO-UKRAINIENNE HORS PROPAGANDE ... Andreï Makine Le Figaro, 12/10/2025 FIGAROVOX/ENTRETIEN - L'académicie...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
José Guilherme Merquior não foi exatamente um dissidente, ou um transgressor, mas foi um pensador independente, original e, sobretudo, intel...
-
O Cônsul brasileiro em Hamamatsu, embaixador Aldemo Garcia, me envia o o artigo com o balanço das atividades e projetos que foram realizado...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
What Does China Want? Free David C. Kang , Jackie S. H. Wong , Zenobia T. Chan Author and Article Information Op International Secu...
Um comentário:
Agtadeco imensamente a transcrição. Acho deu blog ideal aos novos interessados na carreira.
Postar um comentário