Mostrando postagens com marcador opera. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador opera. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Recrutamento para morrer na Ucrânia: como Putin caça carne de canhão - Alona Malakhaeva, Antonio Airapetov (Opera)

A pobreza estratégica: como o Kremlin reabastece o exército russo
Da blitzkrieg prometida à guerra longa: o empobrecimento da população como motor silencioso do esforço militar russo na guerra da Ucrânia
ALONA MALAKHAEVA E ANTONIO AIRAPETOV
Revista Opera, 9 de fevereiro de 2026

“Em uma guerra, a Ucrânia durará dois dias”, disse Margarita Simonyán, editora-chefe da Russia Today, o principal órgão de propaganda internacional do Kremlin, dois dias antes do início da invasão em grande escala na Ucrânia.

“Ocupar Kiev em dois dias”, “dois dias para ter toda a Ucrânia”, repetiam os políticos e apresentadores da televisão estatal. Esse era o plano quando cerca de 150 mil soldados profissionais russos cruzaram a fronteira ucraniana no dia 24 de fevereiro de 2022, 50 mil dos quais marcharam sobre Kiev. Mas tomar a capital da Ucrânia de assalto não fazia parte dos planos. Ninguém sabe ao certo com o que o Kremlin contava: se Zelensky concordaria rapidamente em negociar, se os militares ucranianos o destituíram com um golpe de Estado ou se a população ucraniana apoiaria os invasores. Nenhuma das três coisas aconteceu e a prometida blitzkrieg transformou-se numa interminável guerra de posições. Logo ficou claro que isso não poderia ser sustentado com os efetivos disponíveis, e os líderes russos recorreram à mobilização forçada em setembro de 2022.
A mobilização
Essa mobilização representou uma prova de fogo extraordinária para o regime russo. Apenas 302.503 pessoas foram mobilizadas (dados do Ministério da Defesa), mas o caos organizacional foi enorme e episódios abertamente insurrecionais, com tropas mobilizadas prendendo seus oficiais e parando trens, foram registrados às dezenas. Por outro lado, centenas de milhares de jovens, muitas vezes altamente qualificados, fugiram do país, deixando uma economia já caracterizada por um grave déficit de recursos humanos ainda mais descapitalizada e agravando o buraco demográfico cavado pela própria guerra.
A mobilização se transformou imediatamente em uma caçada baseada em batidas de legalidade duvidosa. Iván Chuviliaev, porta-voz da ONG “Idite Lésom”(“Fuja pela floresta”), que ajuda as pessoas a evitar o recrutamento forçado, bem como a fugir ou desertar aqueles que já foram recrutados, explica:
“Literalmente desde o primeiro dia, o próprio procedimento de mobilização começou a ser violado em todos os lugares. Em uma mobilização, a pessoa recebe uma intimação para se apresentar no centro de recrutamento. Essa intimação, de acordo com a lei, só pode ser entregue pessoalmente ao indivíduo pelos funcionários do comitê militar. Mas, na prática, elas foram entregues às mães, avós, amigos, namoradas, vizinhos e chefes. Além disso, muitas vezes, em vez de intimações em papel, as pessoas recebiam mensagens de texto, WhatsApp, Telegram ou telefonemas. A mobilização assumia a forma de batidas policiais. Chegavam às cinco da manhã a um albergue em Moscou, acendiam a luz, reuniam todos os homens, tiravam seus passaportes e, independentemente de estarem sujeitos à lei de mobilização, os levavam para o centro de recrutamento e, de lá, para a Ucrânia.”
Ficou provado que, embora os russos não estivessem em condições de organizar uma resistência ativa à guerra, o ânimo, é claro, também não era muito beligerante. Apesar de todos os recursos direcionados para a promoção da guerra contra a Ucrânia como uma “guerra popular”, ela nunca chegou perto da tão desejada imagem da “Grande Guerra Patriótica”. O regime interpretou bem os sinais de perigo de uma explosão social e, desde então, a consigna tem sido evitar a todo custo a mobilização forçada.
Embora seja difícil contar as baixas de forma confiável, sabemos que apenas a contagem feita por jornalistas da BBC e da Mediazonacontabilizou, com fontes abertas (como obituários, homenagens, condecorações, publicações nas redes sociais e indenizações para as famílias dos falecidos), mais de 135.100 militares russos que perderam a vida na Ucrânia (até 10 de outubro de 2025). Podemos afirmar sem medo de errar que as baixas definitivas, entre mortos e feridos, chegam a centenas de milhares. Para sustentar uma reposição dessa magnitude sem recorrer a uma nova mobilização, o Kremlin ativou todos os recursos ao seu alcance.
A roleta russa do serviço militar obrigatório
No dia 31 de março de 2025, Vladimir Putin assinou a ordem sobre o recrutamento de 160 mil cidadãos para o serviço militar obrigatório. Não é um fato extraordinário. Trata-se do recrutamento regular que ocorre todos os anos na primavera e no outono. O presidente do Comitê de Defesa da Duma Estatal, Andrei Kartapolov, declarou em 2022 que os recrutas não seriam enviados para a zona da “operação militar especial” na Ucrânia. Mas até que ponto isso é verdade?
Na Rússia, a idade de recrutamento para o serviço militar obrigatório está estabelecida entre 18 e 30 anos. Anteriormente, a idade máxima era de 27 anos, mas aumentou a partir de 1º de janeiro de 2024. A duração é de um ano. O processo de recrutamento inclui: a entrega de uma intimação, um exame médico; a apresentação no local e horário indicados para ser transferido para o local onde o serviço será prestado. Os critérios de aptidão estão especificados no “Catálogo de doenças” do Ministério da Defesa. Além disso, de acordo com a Constituição, os objetores de consciência têm direito a realizar um serviço civil alternativo.
O defensor dos direitos humanos do Movimento de Objetores de Consciência da Rússia e coordenador da Connection e.V., ONG alemã que defende os direitos dos objetores de consciência e desertores, principalmente da Rússia, Ucrânia e República da Bielorrússia, Artyom Klyga, deu uma entrevista para El Salto. Ele nos conta que a maioria das normas para recrutas na Rússia só existe no papel:
“A partir de 2022, foram implementadas uma série de reformas que mudaram completamente o formato do recrutamento para o serviço militar na Rússia. Em primeiro lugar, está a digitalização de todo o processo. Desde abril de 2023, além das intimações por meio dos sites eletrônicos dos serviços públicos, existe um registro eletrônico que interage com todos os órgãos estaduais e municipais, como hospitais, organizações educacionais e controles de fronteira. Se uma pessoa não comparecer ao escritório de recrutamento, em primeiro lugar, ela será impedida de sair do país e, em segundo lugar, serão impostas restrições econômicas, bloqueando o acesso à saúde pública, educação e outros benefícios. Antes, podíamos recorrer aos tribunais para suspender o processo de recrutamento. Agora, você tem que iniciar o serviço enquanto aguarda o resultado do recurso.”
Depois de se depararem com enormes recursos à sua disposição, os responsáveis pelo serviço militar obrigatório dedicaram-se a modificar o recrutamento de forma deliberada e sem muito controle por parte dos órgãos centrais do Estado, mais interessados na eficácia do que na legalidade do processo. Como comenta Artyom:
“Em toda a Rússia e em Moscou, começaram a ser introduzidas práticas arbitrárias de recrutamento, batidas violentas. Moscou tem uma polícia especial que trabalha para a comissão militar. Também dispõe da Rosgvardia (guarda nacional) e de unidades móveis que percorrem residências e escritórios. As batidas violam inúmeras normas federais. Os exames médicos tendem a superestimar a categoria de aptidão. Uma pessoa tem todos os documentos médicos e, mesmo assim, eles se esforçam para declará-la apta. Eles dizem: ‘Sim, você está doente, mas não tão doente assim. Acreditamos que sua doença não o isenta do serviço militar. A lei considera assim, mas nós não’”.
O serviço civil alternativo se tornou uma armadilha para objetores de consciência mal informados. Muitas pessoas se apresentam à comissão pensando que podem acessar o serviço civil e, assim, evitar tanto o serviço militar quanto a mobilização. Mas, como explica Artyom, “não se oferece serviço alternativo sob demanda. Em Moscou, você é rejeitado e ponto. Em outros lugares, a porcentagem de sucesso não é nula, mas quase. Para rejeitar o pedido, geralmente dizem: ‘você não demonstrou suas convicções, que é pacifista ou que acredita em Deus. Você não nos convenceu’”.
Uma das teses promovidas pelo Ministério da Defesa e pelo próprio Vladimir Putin é que os recrutas que prestam serviço militar obrigatório não são enviados para a frente de batalha e não entram em contato com a zona de conflito.
A resposta de Artyom é categórica: “É mentira. Os recrutas eram e continuam sendo enviados para zonas fronteiriças, especialmente para Belgorod e Kursk. A situação lá é tão complicada que tivemos que elaborar instruções com conselhos ilegais, como que, se tentassem enviá-lo para uma zona fronteiriça, você desertasse, porque é melhor ir para a prisão do que para a guerra. Por outro lado, o Estado russo encontrou nos recrutas um grupo populacional vulnerável sobre o qual exercer confortavelmente pressão física e psicológica para obrigá-los a assinar o contrato com o Ministério da Defesa. Intimidação, ameaças, tortura… essas são as principais denúncias que recebo. Muitos assinam por medo. E, às vezes, se não assinam, alguém assina por eles. O recruta fica sabendo do contrato quando um dia recebe em sua conta os pagamentos do Ministério da Defesa e já não há mais volta: ele será transferido para a Ucrânia imediatamente. No dia 20 de janeiro de 2025, o Tribunal Administrativo de Berlim proferiu a primeira sentença reconhecendo que o serviço militar na Rússia representa um perigo para a vida e a integridade física, e que os objetores de consciência russos podem solicitar proteção internacional. Na Espanha, até hoje, tivemos dois casos de objetores de consciência da Rússia e ambos tiveram o asilo negado.”
As autoridades também preferem procurar contratados em vez da mobilização forçada por alguns aspectos legais. O contrato não tem duração determinada e pode ser prorrogado indefinidamente, uma vez que rescindir antes do tempo implica uma multa que pode ser superior ao rendimento de uma família durante os próximos 20 anos. Isso transforma qualquer contratado num devedor sem direitos. “É evidente que não se encontram lá moscovitas da classe média alta, assalariados de grandes empresas ou empresários de sucesso”, comenta Artyom.
A guerra é coisa de pobres
A busca por contratados é constante e desesperada, além dos jovens obrigados ao serviço militar, e se concentra nos setores mais desfavorecidos da classe trabalhadora. Assim, o Ministério do Trabalho colabora com a Defesa desde agosto de 2024, oferecendo o alistamento como uma oportunidade de emprego aos desempregados. Duas recusas significam a baixa na demanda por emprego e o fim do recebimento de benefícios.
A maioria dos que aceitam assinar o contrato o fazem por motivos econômicos, o que não é de se estranhar, já que os militares russos ganham em média cerca de 2.300 euros, quantia extraordinária considerando que o salário médio na Rússia é de cerca de 640 euros, e nas regiões mais pobres (como Inguchétia) é de 400 euros.
Como resultado, as regiões com mais baixas mortais em termos relativos são Tyvá (342 mortos por cada 100 mil habitantes) e Buriatia (264), regiões cujos povos indígenas pertencem a etnias turcas e mongólicas. A título de comparação, a opulenta e ocidentalizada Moscou, cuja população vive longe da guerra, apresenta apenas 11 mortes por cada 100 mil habitantes. Em termos absolutos, lideram o macabro ranking o Tartaristão e o Bascortostão, curiosamente também pertencentes ao que na Rússia se denomina repúblicas “étnicas”. Neste caso, trata-se de povos turcos de religião muçulmana.
Como se fosse uma experiência neoliberal distópica, o recrutamento tornou-se um mercado dinâmico. “Recrutador” acabou por se tornar uma profissão. A cadeia de intermediários se estende por vários elos, desde o Ministério da Defesa até os recrutadores comuns (comerciários desempregados, donas de casa que buscam um rendimento extra…), passando por empresas públicas, agências de emprego e campos de treinamento. Todos recebem uma porcentagem em troca de levar homens em idade militar, normalmente acossados por problemas financeiros, legais ou vícios, aos centros de recrutamento. O que o intermediário ganha varia de 50 a 3,5 mil euros, dependendo do lugar que ocupa na cadeia. Como não poderia deixar de ser, a fraude e a corrupção já marcaram presença, com vários escândalos de falsos recrutamentos.
Uma das fraudes mais populares é o esquema das chamadas “viúvas negras”: mulheres que se casam com homens que estão prestes a assinar o contrato e ir para a frente de batalha. Os contatos desses homens são vendidos dentro da rede mencionada. De acordo com uma investigação do jornal Svoboda, é um negócio popular tanto entre mulheres solteiras quanto casadas, já que a primeira renda instantânea é recebida no mesmo dia em que você traz um “voluntário” ao centro de recrutamento. A partir daí, todos os rendimentos do Ministério vão para a conta da família, seja ela real ou fictícia. E o prêmio maior: a “pensão estatal por perda do sustento familiar”, que começa com um pagamento inicial único de até 50 mil euros e continua com uma pensão vitalícia para a “viúva do militar”.
Todos os meses, dezenas de famílias na Rússia denunciam fraudes após não receberem o primeiro pagamento da pensão por um familiar falecido na guerra, porque este se casou no dia anterior à assinatura do contrato. A percepção das perdas na guerra na Ucrânia está muito bem refletida nas palavras de uma das “viúvas negras” que publicou em sua rede social: “Se a morte é paga, seria um desperdício que ninguém a cobrasse”.
Por sua vez, as regiões têm que cumprir indicadores de desempenho que incluem o número de recrutas enviados para o front. Para cumprir esses objetivos, e sendo o salário uma motivação insuficiente em um emprego tão incerto, o pagamento inicial foi ganhando cada vez mais importância: o rendimento único que é feito ao assinar o contrato. Esse pagamento permite ao contratado liquidar suas dívidas de uma só vez ou pagar a educação de seus filhos. As regiões competem entre si para oferecer o valor mais alto e os homens migram de um lado para outro em busca da melhor oferta. Em Rostov ou Krasnodar, esses pagamentosse multiplicaram por 10 ao longo de 2024 (de 1,1 mil para 11 mil euros). O Tartaristão liderava com 23,2 mil euros até recentemente, mas acaba de ser superado por Khanty-Mansi, com seus 33,7 mil euros, uma região siberiana muito pouco povoada com uma economia dedicada em 81% à extração de hidrocarbonetos. A elevada renda per capita da indústria petrolífera obrigou as autoridades a melhorar a oferta aos contratantes para poder cumprir as cotas de recrutamento exigidas pelo Kremlin.
Indultos em troca de matar
Outra grande fonte de recrutamento tem sido a população carcerária. O alistamento de condenados em troca de indultos, impensável até então, foi permitido em 2022 e, em 2024, deu-se o passo seguinte: agora, um acusado pode livrar-se da condenação (e, portanto, dos antecedentes criminais) se, na mesma fase da investigação, se oferecer como voluntário para a guerra. Um dos primeiros a se beneficiar dessa graça foiSerguey Trifánov, ex-líder local da juventude do Rússia Unida, o partido do governo, que em 2022 havia roubado, matado e decapitado um deficiente, mas conseguiu a suspensão do julgamento ao se alistar para a guerra na Ucrânia.
De acordo com as estimativas mais modestas, pelo menos 48 mil condenados passaram ou continuam prestando seus serviços na frente de batalha em troca de um perdão. Até a rebelião militar deYevguény Prigozhin em junho de 2023, cerca de 40 mil passaram pelo grupo paramilitar Wagner. Mais tarde, diferentes unidades do Ministério da Defesa e outras empresas assumiram esse papel. De acordo com pesquisadores da Mediazona e da BBC, mais de 17 mil morreram apenas no massacre de Bajmut. Muitos dos que conseguem sobreviver e retornar à vida civil protagonizam homicídios e outros episódios de extrema violência que se tornaram habituais. Foram até documentados casos de um segundo alistamento por parte de indivíduos que, libertados da prisão e tendo cumprido seu serviço na linha de frente, voltaram à criminalidade ao retornar à vida civil.
Soldados importados
“Não temos necessidade de trazer ninguém de fora para a operação militar”, afirmou Vladimir Putin em 2023. O mercenarismo é formalmente proibido na Rússia, mas milhares de soldados foram importados de todas as partes do mundo.
Os imigrantes, ao passarem por um escritório de estrangeiros, recebem notificações com aviso de recebimento sobre a obrigatoriedade de comparecer ao centro de alistamento. “Os migrantes são o segundo grupo mais vulnerável na Rússia, depois dos recrutas do serviço militar obrigatório”, diz Artyom Klyga. “É fácil detê-los, acusá-los de infringir a legislação migratória, impor a eles e suas famílias a expulsão do país, mas, em seguida, oferecer-lhes um contrato que resolve todos esses problemas. Entre outras coisas, isso permite que obtenham a cidadania russa no prazo de um ano, sem passar pelos requisitos de idioma, duração da estadia no país, conhecimento da legislação, etc. A Human Rights Watch nos informa que houve casos em que, sob o pretexto de preencher os documentos para obter a cidadania, migrantes foram obrigados a assinar um contrato militar. Devido à barreira linguística, algumas pessoas caem nessa armadilha e os recrutadores se aproveitam disso.”
Também foram divulgados escândalos relacionados ao trabalho de agentes russos em países de origem de migrantes. Estados como Cuba, Nepal, Índia ou Tajiquistão tiveram que se pronunciar publicamente, abrir investigações sobre redes russas de recrutamento e perseguir seus próprios cidadãos pelo crime de mercenariado para evitar se envolverem no conflito. Investigadores do meio digital russo IStoriesrevelaram que, só entre abril de 2023 e maio de 2024, mais de 1,3 mil mercenários estrangeiros de 43 países foram dispensados por um escritório de recrutamento em Moscou. Muitos outros foram redirecionados para a Ucrânia por meio de empresas paramilitares e campos de treinamento privados. Merecem menção especial os milhares de soldados norte-coreanos, cuja presença nas fileiras russas foi negada durante meses até ser finalmente reconhecida pelo presidente Putin na cúpula do BRICS em abril do ano passado, o que causou preocupação até mesmo em Pequim.
Condições perfeitas
Não há dúvida de que entre as pessoas que vão para a guerra contra a Ucrânia também há pessoas ideologicamente motivadas, dado que a poderosa máquina de propaganda vem preparando, há muitos anos e com intensidade crescente, os russos para a violência que estamos vivendo. Ainda assim, fica claro que apenas o empobrecimento da população permitiu construir e repor o exército russo, em detrimento da doutrinação ideológica, patriótica, imperialista ou nacionalista.
O curioso é que, aparentemente, os próprios líderes russos não estavam plenamente conscientes disso no início. Assim como pareciam acreditar que os ucranianos receberiam seus tanques de braços abertos, eles também superestimaram o grau de comprometimento dos russos com seus objetivos. Prova disso tem sido a evolução das estratégias de recrutamento desde 2022 até hoje. Ficaram para trás a defesa do “mundo russo”, a “desnazificação” e a recuperação do orgulho patriótico, restando-nos um dia-a-dia de estimulação econômica banal e coerção brutal.
(*) Tradução de Raul Chiliani

domingo, 10 de julho de 2011

Opera? Musical? Tudo vai bem na Broadway...

Opera? Musical? Please Respect the Difference
By ANTHONY TOMMASINI
The New York Times, July 7, 2011

MORE than ever, composers are busily breaking down walls between stylistic categories. Opera in particular has been a poacher’s paradise. We have had folk opera, jazz opera and rock opera. Bono, who collaborated with the Edge on the music and lyrics of “Spider-Man: Turn Off the Dark,” called the show “Pop-Art opera.” Whatever that means. But of all such efforts, mixing opera with the Broadway musical might seem by far the most natural combination.

Then why are so many efforts to crisscross that divide so bad? For one thing, composers from outside the field often have a distorted understanding of what opera actually is. They borrow the most superficially grand, inflated and melodramatic elements of the art form, whereas opera is actually a richly varied and often tautly narrative genre of musical drama.

Consider “Séance on a Wet Afternoon,” the first venture into opera by Stephen Schwartz, the composer and lyricist of “Pippin,” “Godspell” and the long-running “Wicked.” “Séance” was presented this spring by the struggling New York City Opera. The promise here was that a leading musical-theater artist might bring fresh energy to opera. But Mr. Schwartz’s tepid, sappy score had little of the spark and originality of “Wicked.”

Another much-discussed production this season, presented by the Lincoln Center Theater, earnestly tried to split the difference between opera and musical theater: “A Minister’s Wife,” with a book by Austin Pendleton, music by Joshua Schmidt and lyrics by Jan Levy Tranen. It was adapted from George Bernard Shaw’s play “Candida,” about an officious minister with Socialist convictions, his ebullient wife and a dreamy, dangerous young man who idolizes her. As performed by a chamber ensemble and a small, gifted cast, the musical score was alluring and nuanced, with intricate ensemble numbers and long-lined melodic writing cushioned by lush orchestral harmonies and rippling figurations. But “A Minister’s Wife” seemed a precious piece: either pretentious musical theater or tame quasi-opera; take your pick. And with Mr. Pendleton’s adaptation of Shaw’s brilliant dialogue, the musical numbers sometimes felt superfluous.

In some fields fusing different kinds of music is a potentially creative and liberating endeavor. But creators in musical theater and opera are better off working their native turfs. It’s fine to pull in other styles and influences as long you stay rooted in what you, and your art form, do best.

The reason attempts to combine opera with the musical have been problem prone, I think, is that these genres are too close for comfort. The differences, though slight, are crucial. So what are they, exactly? To begin with, in no way do I see the matter as a lowbrow-highbrow debate. Opera is not by definition the more elevated form. Few operas are as overwrought as Andrew Lloyd Webber’s “Sunset Boulevard.” And there is no bigger crowd pleaser than Leoncavallo’s impassioned “Pagliacci.”

Nor is the distinction dependent on musical complexity. Frank Loesser’s “How to Succeed in Business Without Really Trying,” currently enjoying a vibrant revival on Broadway starring a disarming Daniel Radcliffe, is a more musically sophisticated piece than Carlisle Floyd’s affecting opera “Susannah,” the story of a sensual young woman in rural Tennessee who is unfairly branded a temptress by her community. And you cannot argue that operas tell stories only through music, whereas musicals rely heavily on spoken dialogue. Lots of operas, and not just comic works, have spoken dialogue, including “Carmen” and “Fidelio.”

Here’s the difference: Both genres seek to combine words and music in dynamic, felicitous and, to invoke that all-purpose term, artistic ways. But in opera, music is the driving force; in musical theater, words come first.

This explains why for centuries opera-goers have revered works written in languages they do not speak. Though supertitles have revolutionized the art form, many buffs grew up without this innovation and loved opera anyway. As long as you basically know what is going on and what is more or less being said, you can be swept away by a great opera, not just by music, but by visceral drama.

In contrast, imagine if the exhilarating production of Cole Porter’s “Anything Goes” now on Broadway, starring the amazing triple threat Sutton Foster, were to play in Japan without any kind of titling technology. The wit of the musical is embedded in its lyrics like:

Good authors too who once knew better words

Now only use four-letter words,

Writing prose,

Anything goes.

(And this point leaves aside the whole issue that musicals like this one are also about dance.)

If you accept the distinction that words have the upper hand in musical theater but music does in opera, then lots of matters fall right into place: the nature of lyrics, singing styles, subject matter, orchestration, musical complexity. Theatergoing audiences may not care much whether a show is a musical or an opera. But the best achievements in each genre, and the occasional standout hybrid work (I’m thinking of Bernstein’s “Candide” and Adam Guettel’s “The Light in the Piazza”) have been from composers and writers who grounded themselves in a tradition, even while reaching across the divide.

To underscore this point, let me compare, of all things, Bernstein’s opera “A Quiet Place,” which had a revelatory production at the City Opera last fall, and the audacious hit musical “The Book of Mormon,” with book, music and lyrics by Trey Parker, Robert Lopez and Matt Stone.

“Mormon” is a show that proudly hails from the words-first heritage of Broadway musicals. For all the outrageousness of the blasphemous story and the foul-mouthed satire, at its core, as Ben Brantley argued in his review in The New York Times, “Mormon” is an “old-fashioned, pleasure-giving musical.” The opening song, “Hello,” an ensemble piece in which the fresh-faced Mormon missionaries introduce themselves, both mocks and embraces a lineage of similar numbers. Think of “So Long, Farewell,” the treacly goodnight greeting of the Von Trapp children in Rodgers and Hammerstein’s “Sound of Music.” Or even Stephen Sondheim’s bracing title song of “Company,” with its insistent refrains of “Bobby, Bobby, Bobby baby” over a rhythmic riff that evokes a telephone busy signal.

“A Quiet Place” is a special case. Here was Bernstein, who in earlier life was Mr. Broadway (“Wonderful Town” and “West Side Story”), striving to write a stylistically eclectic yet full-fledged opera, an epic family drama about a prosperous, unhappily married suburban couple and what happens to them and their two troubled children over 30 years.

That in Christopher Alden’s inspired production “A Quiet Place” came across as Bernstein’s most ambitious, personal and moving work was a surprise. For more than 20 years the piece had been considered a hodgepodge that folded a jazzy one-act opera from 1951 (“Trouble in Tahiti”) into an elaborate three-act structure, composed and revised in the early 1980s. Bernstein draws upon myriad styles here: atonal angst, contemplative Coplandesque harmonies, kinetic musical theater dance music, a trio of jazz vocalists. The libretto by Stephen Wadsworth (and by Bernstein in the “Trouble in Tahiti” scenes) is of course crucially important. Yet when Bernstein evokes diverse styles, even jazz, he does so for the musical and emotional resonances of the sources. He is not just switching on his musical-theater voice. Though “A Quiet Place” has design flaws, it is a music-driven opera in the grand tradition.

You would have thought that Stephen Schwartz had a good opera in him. The main problem with “Séance on a Wet Afternoon,” a psychological drama about an unstable middle-aged medium and her mousy husband who kidnap a little girl as a publicity stunt, is that Mr. Schwartz did not stay true to his own voice. He was approached by Opera Santa Barbara to write the piece, and my guess is that some well-meaning colleague sat him down and explained that the problem with contemporary opera is that those grating scores do not sing; they lack soaring melody, the supposed hallmark of great opera.

“Séance” sings all right. And sings and sings and sings, cloying aria after cloying aria. Mr. Schwartz would have been wiser to give us something closer to “Wicked” but more subdued and menacing and structured as a continuous musical piece.

Now, I am not suggesting that staying true to a words-first tradition of musical theater means a composer cannot stretch musically. The genre can carry a lot of musical complexity, as long as words do most of the heavy lifting.

Tom Kitt, for example, is a standout among the new generation of Broadway composers, and I admired his pop-infused music for “Next to Normal.” But I felt he was being cautious, letting his music animate the drama without getting in the way. I got a stronger sense of his capacity for invention from the multistyled, haunting incidental music he wrote for two productions at Shakespeare in the Park: “The Winter’s Tale” last summer, and now “All’s Well That Ends Well,” currently in a terrific production directed by Daniel Sullivan.

Mr. Sondheim has long offered exhilarating proof that you can be true to the musical-theater tradition and musically sophisticated at the same time. He is completely at home in the words-driven world. Consequently he can draw upon his ingenious compositional imagination, knowing that he will by instinct taper his voice to the demands of his lyrics and the needs of the story. “Sweeney Todd” is often considered his most operatic work. I might pick “Passion,” which, inspired by an Italian film about an unlikely and eerie love story, evokes somewhat the lush lyricism of opera. The songs are woven into an almost continuous musical fabric. Mr. Sondheim has described this flowing score as having “arioso passages that sometimes take song form.”

There was a time when musical-theater composers, impressed by the mega-success of Mr. Lloyd Webber, strove for pumped-up operatic grandeur. This was the era of the schlock-opera. But the success of Jonathan Larson’s “Rent," in the 1990s helped puncture the Lloyd Webber bubble and inspired a burst of pop-driven musical-theater scores.

Overall I am not so happy that pop-driven musicals have come to dominate Broadway. Many of those in Larson’s wake miss something about the achievement of “Rent.” Here was a work specifically inspired by Puccini’s “Bohème,” also a tale of young artists struggling with love affairs, poverty and disease. But Larson thought the best way to pay homage to “Bohème” was not to mimic opera but to write an up-to-date, pop-infused, sophisticated musical-theater score. Yes, Larson was attempting to bring rock and pop styles into the musical-theater heritage. But “Rent” is a words-driven musical in the honored tradition.

Attempts to draw from and blur the two traditions continue. This summer the Glimmerglass Opera in Cooperstown, N.Y., is presenting the premiere production of “A Blizzard on Marblehead Neck,” a one-act collaboration between the Pulitzer Prize-winning playwright Tony Kushner and the Tony Award-winning musical-theater composer Jeanine Tesori, part of a double-bill with “Later That Same Evening” by the composer John Musto and the librettist Mark Campbell.

Mr. Kushner and Ms. Tesori’s acclaimed work “Caroline, or Change” was definitely a musical. “Blizzard” is billed as an opera. What is the difference between the genres in the minds of the creators? This new piece will surely affect the debate.

Drawing from different genres and styles can, of course, produce dynamic results. In contemporary classical music, some of the most interesting young composers are those who unabashedly steal from the diverse musical styles that excite them — atonal modernism, punk, whatever — to fashion a quirky and personal voice. More power to them.

But opera and especially musical theater are art forms with specific needs and challenges. Composers with populist aspirations who merge traditions into some mushy middle ground are asking for trouble. Traditions, even those supposedly confining categories, have their value.

Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...