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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação

Por Paulo Roberto de Almeida

Revista Será!, ago 21, 2026     

Sobre Canudos, uma ferida ainda não devidamente cicatrizada.

Minha lógica, como já revelado reiteradamente nesta autobiografia, é a de que o poder do Estado, isto é, o meu próprio poder, deve prevalecer em todas as circunstâncias, acima de quaisquer interesses particulares ou disposições pessoais, mesmo por parte de indivíduos que estejam a meu serviço (o que aliás ocorre muito frequentemente entre aqueles que deveriam supostamente defender as leis).


Enquanto eu ainda era português, ou misturado com certos povos e raças das mais distantes partes do globo (por onde acostaram meus indômitos navegadores, se amancebando com as nativas), essa lógica tinha difícil aplicação, pois havia casos nos quais pretensos servidores das minhas leis e das minhas ordens delas ousavam se aproveitar para servirem a si próprios. Em alguns casos se tratava apenas de má interpretação da minha vontade, noutros de pura gana e cobiça. Depois, ao estabelecer minhas próprias regras, ainda tive de suportar os interesses portugueses durante quase uma década: pagamento pela minha independência – como seu tivesse a obrigação de comprá-la –, incorporação dos tratados iníquos aceitos por Portugal no Ancien Régime, falência completa do meu primeiro banco, já dilapidado pela família reinante antes de partir, e, finalmente, algumas outras maquinações que tinham mais a ver com Portugal, e sua periclitante questão sucessória, do que com as necessidades da minha pátria em definitivo.


Ao me tornar legitimamente brasileiro, já na quarta década do século XIX, mas com dirigentes das mais diferentes qualidades que se sucediam esporadicamente, espoucaram umas e outras revoltas aqui e ali, as quais tive de responder da maneira mais severa possível, embora os gaúchos me tenham dado mais trabalho, por praticamente dez anos. A questão farroupilha me foi especialmente delicada pois que eles preferiam um regime republicano, ao qual eu também me inclinava, mas eu não podia permitir o fracionamento da nação, sobretudo em face de vizinhos extraordinariamente relutantes ao nosso sistema monárquico imperial, que eles consideravam deliberadamente imperialista.


De fato, andamos intervindo algumas vezes nas querelas internas dos uruguaios – que já tinham pertencido ao Império –, pois que blancos e colorados viviam às turras, no meio das quais roubavam gado dos nossos criadores dos pampas. Isso até serviu de pretexto para que tropas do Napoleão do Prata, o tal de Solano Lopez, decidissem intervir nas nossas terras do Mato Grosso, de acesso muito difícil e, também, atravessassem a Argentina para nos atacar nas lonjuras sulinas. Até apreenderam um barco levando nacionais para o Mato Grosso, pelo rio Paraguai. Foi aí que começou a maldita guerra, a da Tríplice Aliança – o que era raro – entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai contra os reais agressores, o que nos levou, sobretudo nossas forças, a cinco anos de contenda, até liquidar fisicamente o ditador paraguaio. Muito depois, historiadores enviesados nos acusaram de crimes de guerra, quando foi o ditador que levou mulheres e crianças para as frentes de batalha, ou que a Inglaterra é que tinha provocado o conflito, o que é simplesmente ridículo; até protegemos o Paraguai dos ambiciosos argentinos.


Esse episódio nunca deixou os anais da nossa história militar, mas ele não teve a dimensão horrenda que teve uma outra ocorrência militar, contra os meus próprios súditos e cidadãos, que deslustrou terrivelmente a reputação do Exército, a entidade mais autoritária de nossas forças armadas, sobre a qual os próprios militares não gostam muito de falar. Eu me refiro à guerra contra a “Troia de Barro”, o povoado de Canudos, na primeira década da República, uma atrocidade das mais bárbaras, que só ficou realmente conhecida por causa de um repórter com alma de militar, que enviou relatos diretamente do terreno desértico, onde tropas muito mal preparadas enfrentavam algumas centenas de camponeses pobres naquele fim de mundo do norte da Bahia, a maior parte dos quais, inclusive o líder messiânico que lhes encantava com sermões milenaristas, acreditava que ainda se vivia no regime monárquico, e que o bom imperador poderia lhes vir em socorro.


As tropas do exército republicano, acreditando por sua vez que ainda combatiam mais um complô monarquista, como na revolta da Armada alguns anos antes, investiram cinco vezes com fúria inaudita contra os pobres dos crentes, que só lutavam com espingardas de espoleta, foices e facões, os mesmos usados em sua dura labuta naquelas terras desoladas. A guerra de extermínio contra o povo ignorante do interior da Bahia teria passado em branco nos registros da história, não fosse pelo registro jornalístico daquele repórter, com pretensões de ser um homem de ciência, que reuniu suas matérias na terceira parte de um livro sobre aqueles sertões quase desconhecidos do Brasil e, obviamente, do mundo. Sua história começava por descrever a terra árdua na qual os combates se desenrolaram do final de 1896 ao final de 1897, um agreste seco e desprovido de terras mais favoráveis a uma agricultura extensiva. Depois ele se dedicou ao estudo do “homem” de Canudos, representado por alguns milhares de fiéis que seguiam as prédicas do beato Antonio Conselheiro, que fazia predições sobre o fim do mundo, quando o sertão viraria mar e o mar se transformaria em sertão. Na terceira parte, ele fala da luta, desigual, cruel, quase bárbara, que ainda assim exigiu cinco expedições de forças cada vez mais equipadas com armas mais poderosas, ainda assim canhões puxados a burros, com ordens para exterminar os moradores do pequeno e miserável reduto, que não queriam se entregar.


O livro do repórter Euclides da Cunha – que ainda se meteu em outras aventuras pela Amazônia, a serviço do Barão do Rio Branco, e que tinha pretensões à Academia de Letras – se tornou um marco na literatura nacional, a despeito de carregar equívocos cientificistas que não deslustraram sua linguagem vibrante, tomando a causa dos seguidores do beato messiânico e pintando em cores vibrantes a resistência de mais de vinte mil residentes de Belo Monte, todos massacrados pelos soldados do Exército num dos maiores crimes que já possam ter cometido os militares contra o meu próprio povo. A obra, maçuda, continuou frequentando listas de leituras obrigatórias para a intelectualidade nacional e recebeu traduções primeiro em espanhol, depois em inglês, francês e em outras línguas. Um conhecido escritor peruano, Vargas Llosa, decidiu romancear o relato pretensamente científico de Euclides sob a forma de uma obra de ficção histórica, La guerra del fin del mundo (1981), que pode lhe ter garantido o futuro prêmio Nobel.


O que mais me chocou, no imediato seguimento do massacre de Canudos, foi a tentativa dos militares de procurar se salvar do opróbio que lhes deveria ter impregnado a consciência, mas do qual eles tentaram se safar, se apresentando como salvadores da República contra uma pretensa nova revolta monarquista. Esta só existiu na imaginação dos golpistas de 1889 e dos autocratas dos primeiros anos de um regime que eu acreditava ser o melhor para o país, mas que começou por duas ditaduras e por um crime horroroso, ainda mais indesculpável, pois que eles tentavam se livrar do vexame causado pela derrota das quatro primeiras expedições contra os pobres dos sertões da Bahia. No seguimento dessa história, outras ainda mais escabrosas se seguiriam, como o combate contra outros camponeses pobres, os do Contestado, nos limites da Paraná com Santa Catarina, acerca do qual, também vergonhoso para a “minha” República, procurarei falar em outra ocasião.


O que cabe registrar, para que fique claro para todos os leitores desta minha modesta e sincera autobiografia, é que eu prezo o poder do Estado, o meu próprio poder, mas pretendo que ele se exerça nos limites das leis, que são determinadas pelos meus súditos ou cidadãos, e que também desejo que esse poder se comporte dentro das boas virtudes republicanas, pelas quais eu me guio, ainda que eu tenha tido, por vezes, de recorrer a outros poderes quando turbulências e lutas políticas ameaçavam a estabilidade do Estado e o bem-estar dos meus conterrâneos. O que me cabe agora constatar é que paixões e interesses de grupos e clãs teimam em perturbar a ordem e a segurança da cidadania, e que os militares, sem que eu lhes pedisse, interviram mais do que o necessário nesses entreveros entre grupos políticos. Eles ultrapassaram várias vezes os limites constitucionais que estipulam muito claramente que eles deveriam estar devotados à defesa da nação, não a um entendimento especioso da tal “preservação de lei e da ordem”, que eles determinam como deve ser, no seu estilo truculento. Ainda recentemente tentaram fazê-lo.


Canudos foi o primeiro exemplo fático, brutal, de como corporações muito donas de si são capazes de atuar segundo concepções próprias de como se deve comportar o Estado do qual se apropriam ao menor sinal de turbulência, o que é próprio das instituições que devem lidar com os interesses gerais de indivíduos e grupos muito diferentes entre si, o que pode ocorrer também nos próprios núcleos familiares. Paixões e interesses são próprios das comunidades, até das mais homogêneas socialmente, e cabe ao Estado, representado por cidadãos eleitos, decidir sobre suas querelas internas. As Forças Armadas foram sempre muito afoitas em aplicar seus dogmas da hierarquia e da disciplina às mais ordinárias das rebeldias sociais, até mesmo dentro de suas próprias fileiras, combatendo protestos legítimos, derrubando presidentes, ajudando a construir uma ditadura, ou até instalando uma sua própria, achando que poderiam edificar um país melhor do que os civis: trouxeram dores e sofrimentos, mesmo que não tenham repetido uma tragédia como a de Canudos.

Essa história andava esquecida nos manuais estudantis. Eu pretendi relembrá-la nesta minha autobiografia sincera, para que não se diga que eu sou um fora-da-lei por vontade própria. Por vezes, meus subordinados ultrapassam os poderes que eu gentilmente lhes concedo para ver se eles conseguem bem administrar esta nação, que dizem ser de futuro (não sei quem disse isso, mas vou tentar recuperar entre as minhas memórias diligentemente anotadas). Até a próxima…

Paulo Roberto de Almeida (pelo Estado)

Brasília, 5430: 9 agosto 2026, Revisão, 16/08/2026, 4 p.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 7: O Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Madame IA examina o mais recente artigo da série "Autobiografia de um fora-da-lei, 7", uma biografia sincera do Estado brasileiro, destacando a atuação do Barão, e outros aspectos da política externa e da política econômica brasileira, do Império à República Velha.

O artigo pode ser encontrado aqui: 

Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; 

link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/ 

divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html  Relação de Originais n. 5396.

   
 
O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.
 
Análise Crítica e Multifacetada
🏛 Perspectiva Política e de Governança
O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma crítica os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo historicamente sabotaram o potencial geopolítico do país.
 
🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica
O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando a transição do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.
 
📉 Perspectiva Econômica e Financeira
Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).
 
⚖ Perspectiva Jurisdicional e Institucional
O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.
 
🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual
Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.
 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?); + resumo de Madame IA

 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados

Eu tive muitos servidores em minha atribulada carreira de guardião, preceptor, indutor, patrocinador e corregedor de tantos administradores que atenderam aos meus propósitos, nem sempre com a habilidade necessária para fazer o Brasil despontar entre os melhores do mundo, como era o meu desejo (nem poderia, com tantas deficiências de origem e com as deformações criadas por alguns desses atendentes provisórios na grande missão de governança de um país dotado pela natureza de bondades não aproveitadas). A todos concedi certa liberdade para administrar os assuntos correntes, não hesitando, porém, em lhes sabotar as ações, direta ou indiretamente, sempre quando percebia algum desvio da minha lógica implacável: o Estado, ou seja, eu mesmo, deve sempre prevalecer, em face de quaisquer outros objetivos alheios a mim.

O primeiro e o maior de meus servidores foi um verdadeiro intelectual, jornalista esclarecido, homem de muitas luzes, a quem não hesito em chamar de primeiro estadista legitimamente brasileiro, mesmo sem residir nestas paragens durante toda a sua vida adulta: quero me referir ao jovem Hipólito da Costa, perseguido em Portugal por essa entidade maléfica chamada Inquisição, e que teve de se refugiar na Inglaterra para escapar de uma prisão injusta; para servir à sua verdadeira pátria, deu início a um “armazém literário” que manteve sozinho por 14 anos, até a consecução de uma independência que ele já considerava inevitável desde 1808, quando lançou o seu empreendimento informativo, elucidativo, instrutivo e pedagógico. Poucos intelectuais brasileiros podem exibir, como Hipólito, a glória de ter formado mais de uma geração de estadistas brasileiros (alguns portugueses também), apenas pela sua atividade de leitor, de redator e de intérprete dos grandes acontecimentos do seu tempo, numa dimensão propriamente internacionalista (que não deixa de ser também, de certo modo, a minha, pois que como Estado constituído, membro fundador da ONU, tenho frequentemente de me confrontar a outros poderes regionais e às grandes potências desse nosso planetinha redondo).

Tive muitos outros aprendizes e assessores, ao longo do século XIX, e desejo destacar Luiz Gama e Joaquim Nabuco, que lutaram contra a instituição mais nefasta da história da nação, a escravatura, que ainda assim se manteve impérvia por muito tempo, mais até do que deveria. Entre aqueles que mais se distinguiram na defesa de meus interesses, econômicos, políticos, diplomáticos, esteve um certo José Maria da Silva Paranhos Júnior, bon vivant na juventude, passada entre farras e aventuras amorosas, ingressado pela janela na carreira consular (quando o Imperador viajou ao exterior e sua filha assumiu o trono), dedicado aos estudos históricos nos 20 anos durante os quais serviu como cônsul em Liverpool, o maior porto comercial da Inglaterra do século XIX (mas ele passava a maior parte do tempo em Paris), e que, por um golpe de sorte, foi convidado a defender a minha causa num entrevero com os hermanos a propósito de uma disputa pelo território das Missões, no sul dos meus pagos. Alguém se lembrou dele, como estudioso de velhos mapas e manuscritos coloniais, quando o Barão que defendia os meus interesses veio a bater as botas inopinadamente; ele foi retirado da boa vida, recebendo em libras esterlinas, no padrão ouro legítimo, e gastando em francos, mero padrão prata, minoritário.

Não é que o estroina da juventude se converteu no maior sábio com respeito às minhas fronteiras, muitas ainda não demarcadas, derrotando as pretensões argentinas sobre um pedaço considerável do território sulino lindeiro com aqueles arrogantes vizinhos? Ele se revelou tão competente nesse primeiro caso, que eu fiz os presidentes seguintes continuarem a usar de seus serviços de historiador e negociador de minhas fronteiras, também com a França (sobre o Oiapoque) e logo em seguida como preparador dos materiais documentais para que o amigo Joaquim Nabuco passasse a defender minhas fronteiras com a Guiana inglesa, as quais os ambiciosos britânicos querem vê-la estendidas até os nossos rios amazônicos. Nabuco continuavam monarquista, dez anos depois da inauguração da República por aqueles milicos ressabiados para comigo, quando eu era um Império meio decadente, da mesma forma como Paranhos Jr., convertido em Barão do Rio Branco – no seguimento do pai, que era Visconde sob o mesmo título –, mas ele foi esperto o suficiente para acrescentar Rio-Branco ao próprio nome, dispensando o título honorífico de barão. Todos sabiam que, sob a República (que abolira todas aquelas honrarias), só havia um barão, aliás com B maiúsculo, sem precisar mais nada.

Era Barão para cá, Barão para lá, sobretudo depois que o presidente de turno o chamou para ser o seu chanceler, o que ele aceitou com relutância, pois teria de sair do universo da libra britânica, como ministro em Berlim, para cair na miséria dos mil-réis na capital do Brasil. O Barão atravessou quatro presidentes, sem que nenhum ousasse dispensar seus serviços – eu também não o faria, e teria gostado de vê-lo como presidente em 1910, no lugar daquela mula fardada, um tal de Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do primeiro presidente-ditador – e morreu no gabinete que ocupava no velho Palácio do Itamaraty em 1912, ainda deitado sobre velhos mapas e manuscritos coloniais. O Barão – que depois figurou em todas as oito moedas que tivemos nos 140 anos seguintes – foi o servidor que melhor me ajudou a consolidar as minhas fronteiras, ainda objeto de cobiça e disputas com os vizinhos hispânicos, sempre hostis aos nossos interesses, como os espanhóis sempre foram com os meus avós lusitanos. Devo dizer que ele também gastava à tripa forra, para desgosto do meu ministro da Fazenda, que tinha de satisfazer o apetite de Paranhos por recepções nababescas para os visitantes estrangeiros, o envio de preguiçosos diplomatas para conferências na Europa, além de subornos a certos jornalistas, para que lhe enaltecessem a figura e as suas vitórias nas páginas dos diários da capital.

Eu também defendia o Barão todas as vezes que podia, sussurrando aos presidentes que deixassem a política externa e a diplomacia (duas coisas diferentes) sob o domínio exclusivo do filho do Visconde, de tão nobre memória nos tempos do Império e do velho Senado: até um escritor mulato, que depois se tornou muito famoso, como fundador da Academia de Letras, fez uma crônica estupenda sobre a figura do Visconde, estadista ainda superior em qualidades no confronto com o filho, que tentou continuar suas virtudes (e conseguiu). Fiquei extremamente consternado quando ele morreu, pouco antes do Carnaval de 1912, e até tentei postergar os folguedos, o que o tal de “mula fardada” cumpriu, deslocando os festejos para o mês de abril; mas o povo carioca, zombeteiro e rebelde como sempre foi, aproveitou para ter dois carnavais, o postergado, em fevereiro, e o “oficial”, em abril daquele ano. Fui compreensivo com a tramoia, tanto porque os patrocinadores dos desfiles queriam impulsionar um tal de “jogo do bicho”, que havia começado clandestinamente pouco antes, e não perdiam oportunidade de lucrar contra os impostos oficiais (mas, confesso que eu também fazia uma fezinha, de vez em quando).

Depois do Barão, a maior parte dos chanceleres foram mais ou menos medíocres, não tanto pelos diplomatas, que tinham boas virtudes – mas eles viviam no exterior, pouco sabendo das coisas do Brasil – e sim pelos parlamentares ou magistrados que ocupavam o cargo, sem que eu os fizesse compreender nosso potencial no novo mundo americano que se formava depois da Grande Guerra, mas alguns presidentes também foram excepcionalmente estúpidos, como um que veio das Minas Gerais, o teimoso Artur Bernardes, que fez o Brasil abandonar a Liga das Nações, nossa primeira experiência multilateral, desperdiçada pela ignorância do presidente. O único parlamentar com estatura de estadista que poderia se ombrear a Rio Branco, foi um gaúcho com tino de estadista, que foi ministro, embaixador e chanceler na perigosa década de 30, aliás, o verdadeiro líder da Revolução de 1930, pois que o candidato derrotado nas urnas fraudadas do pleito presidencial daquele ano, o também gaúcho Getúlio Vargas, governador do seu estado, muito temeroso de empreender ele mesmo a marcha sobre o Rio de Janeiro, para derrubar o paulista Washington Luíz.

Mas, eu me adianto muito no relato dos meus feitos e malfeitos, pois que estou justamente pulando o evento seminal do século XX, a Grande Guerra, aquela que trouxe todas as misérias de um breve século, de menos de cem anos, que começou estrepitosamente com o bolchevismo e o fascismo, continuou na Grande Depressão, e provocou, vinte anos depois, uma nova e terrível conflagração mundial, que mudou terrivelmente a vida de milhões de pessoas. Os europeus tinham lá as suas desavenças – restos de guerras até feudais, segundo um historiador – e começaram as terríveis matanças nos Impérios centrais, nos Balcãs e nos mares, e eu fiz questão de preservar nossa estrita neutralidade, até onde foi possível. Mas, de repente, os alemães (sempre eles), começaram a afundar alguns dos nossos navios, e tivemos de seguir os Estados Unidos e entrar naquela terrível hecatombe. Até chegamos a enviar soldados para a Europa, mas eles morreram antes de entrar em combate, vitimados pela, ainda mais terrível, Gripe Espanhola, que também deixou milhões de mortos, mundo afora, não só na Europa; no Brasil, a incúria dos meus servidores oficiais só servia para mandar as carroças carregar os mortos que iam perecendo nas ruas e calçadas.

Logo depois da guerra terminar em armistício, houve uma conferência em Paris, em 1919, que tratou de fazer a paz entre os impérios guerreiros, mas aquilo só conseguiu colocar toda a culpa na Alemanha, que tinha de pagar reparações durante 40 anos aos vencedores: nunca o fez, e um novo ditador ridículo, em 1933, declarou que não pagaria mais nenhum centavo. Em todo caso, aquela nossa participação nas negociações de Paris, e no tratado de Versalhes, ofereceu uma oportunidade nunca antes vista na história da República: eleger um novo presidente que jamais fez campanha, sequer estava no Brasil quando foi “eleito” pela famosa “comissão de verificação”: Epitácio Pessoa voltou triunfante de Paris, enquanto o “homem mais inteligente do Brasil” (segundo os baianos), Rui Barbosa, perdia pela segunda vez uma campanha à presidência; a primeira tinha sido justamente em 1910, contra a “mula fardada”, o já mencionado Marechal Hermes.

Pouco antes da guerra começar na Europa, em 1914, tínhamos feito um último funding loan, uma mania que vinha do Império, mas que nos permitia alguma folga financeira ante os déficits habituais, empréstimos exacerbados pela Constituição de 1891, que permitiu aos estados e municípios contrair empréstimos no exterior sem o aval da União, o que redundou numa orgia de lançamento de títulos até por capitais de pequenos e pobres estados. Mas esse é um episódio trágico em minha história de vida, que vou contar em detalhes num próximo capítulo desta minha autobiografia razoavelmente sincera.

Brasília, 5396: 10 de julho de 2026

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Madame IA comenta: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-

de-um-fora-da-lei-7-o.html

 

O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.


Análise Crítica e Multifacetada

🏛 Perspectiva Política e de Governança

O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma  os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o

constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo abotaram o potencial geopolítico do país.


🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica

O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e

cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.


📉 Perspectiva Econômica e Financeira

Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891a, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).


Perspectiva Jurisdicional e Institucional

O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.


🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual

Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?) + Madame IA

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República

O Estado

O Estado

Caros leitores: quem escreve sou mesmo, um velho conhecido de vocês, isto é, o Estado brasileiro, agora observando uma parada reflexiva, para reconsiderarmos o que eu andei fazendo até a inauguração da República para melhorar a vida de vocês (ou talvez não, mas pelo menos eu tentei). Concluí o meu relato anterior, por estas frases dubitativas: “O ‘meu’ Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.”

Pois bem, chegou o momento de maior responsabilidade no relato que eu mesmo empreendi, por caminhos controversos, sempre aumentando o meu poder sobre a nação, sobre a sociedade e sobre os indivíduos que a integram, como você, caro amigo, que me lê neste momento. Será que minha trajetória, até chegar na República foi virtuoso ou, pelo contrário, esteve contaminado por ações irrefletidas, mais pensando em mim mesmo, do que na sociedade que me sustenta? Sim, tenho a impressão de que o tratamento que eu lhes concedo é, em vários casos, altamente desigual, com alguns aproveitando ao máximo regalias concedidas por mim, por vezes até regiamente (que o digam os aristocratas do Judiciário e outros aproveitadores conhecidos). Mas vamos primeiro reconsiderar o trajeto percorrido.

Eu já lhes expliquei por que eu decidi escrever minha própria biografia: foi para não deixar esse relato em mãos desavisadas e tendenciosas. Já falei de meu nascimento, aliás nas terras distantes dos meus avozinhos; lhes dei data e local do parto e a paternidade presumida. Também relatei minha criação por um método confuso, estilo tocata e fuga, sem qualquer partitura escrita, minha trajetória colonial; abordei a fuga da família real portuguesa em 1807 e sua instalação em 1808, o que me deu, pela primeira vez, vontade de me estabelecer sozinho, de cuidar de minha própria vida, de expandir meus poderes – o território já tinha sido ampliado, por um nativo da terra, a serviço de um monarca dominado por um ministro autoritário – e até gozei de um momento de glória, ao passar de colônia a Reino-Unido (que foi uma promoção merecida, reconheçamos), embora não tenha havido nenhum brasiliense no Congresso de Viena, que foi a minha iniciação na diplomacia multilateral (na verdade muito lateral, do ponto de vista dos meus preceptores). Reconheço, entretanto, que o príncipe regente, de nome João, fez algumas boas coisas, antes e depois de 1815.

Logo depois eu me encontrei em face do meu próprio destino, já a caminho da independência, mais negociada do que conquistada, e que durou alguns anos, até que eu me livrasse, finalmente, dos meus tutores. Eles foram embora, mas saquearam, ao partir, o meu primeiro banco, me deixando na penúria. O príncipe impulsivo que começou a tomar conta dos meus assuntos de Estado era muito afoito, mais ainda como imperador, e tinha muitos maus modos (sobretudo com as mulheres); começou fechando a minha primeira Assembleia Constituinte, que era uma chance que eu estava concedendo a meus súditos de deliberar eles mesmos sobre os mais importantes assuntos da vida prática. Não deu outra: ele acabou outorgando uma carta liberal-escravista, meu primeiro contrato constitucional, que acabou durando mais do que todos os outros: quando a escravidão acabou, tardiamente, acabou também aquele regime exótico, num hemisfério quase todo ele republicano.

Atravessei algumas revoltas, algumas bem violentas e cruentas, que esquartejaram o corpo da pátria: eram, digamos assim, revoltas e rebeliões “adolescentes”. Algumas, como naquela terra que já tinha lutado contra uma outra invasão estrangeira, Pernambuco, foram bem mais sérias. A insurreição de 1817, ainda no Reino “desunido”, foi selvagemente reprimida pelas tropas lusitanas; a de 1824, tentou corrigir aspectos pouco recomendáveis da Constituição de 1824, contra a qual se rebelou um religioso, conhecido como Frei Caneca, que até parecia um jurista respeitado. Ao fim e ao cabo, conseguiram, os agora brasileiros, expulsar o primeiro imperador, mas tiveram de passar pela confusa experiência das regências, um aprendizado de regime quase republicano. A partir daí, vivemos relativamente em paz com meu novo representante à frente do Estado: era um jovem inexperiente, mas de boas intenções, um rapaz muito lido e até sabichão em algumas matérias. Ele logo constatou como era duro reformar e modernizar um país que estava entregue aos conhecidos oligarcas que mandavam nestas terras desde o começo. As amarras conservadoras inviabilizaram todas as tentativas de abolir o tráfico, acabar com a escravidão, enfim, trazer progresso e indústria aos meus domínios (muitos ainda eram sertões completamente indevassados).

Não me estendo muito sobre os desafios externos, que também refletiam certa incapacidade interna; depois das guerras platinas, legado do precário imperialismo lusitano, tive de enfrentar alguns ditadores nos arredores, mas os perigos mais cruciais eram mesmo internos: os déficits fiscais criados com os desequilíbrios orçamentários, um mal crônico que redundou numa dívida externa impagável. Não posso dizer que o segundo imperador passou a sofrer de deliquescência senil, pois até começou a viajar muito ao exterior, mas parece que se agravaram os reumatismos de sua condição monárquica meio republicana (ele abusava um pouco do Poder Moderador). Os problemas maiores estavam mesmo no enfrentamento das questões sociais e políticas, embora os militares e os religioso tenham também passado a incomodar logo depois da guerra do Paraguai: meu genro, um francês pretensioso, não muito querido por meus súditos, por um momento no comando da ofensiva final, mandou perseguir até a morte o arremedo de Napoleão que tinha começado aquela maldita guerra: isso causou uma péssima impressão entre os vizinhos, que começaram a achar que eu era realmente um imperialista (um exagero, embora essa imagem tenha voltado a circular quando outros militares quiseram mandar na política interna e na externa, muitos anos depois).

O fato é que o nascimento da República se deu por meio de um golpe improvisado e algo canhestro, mas não quero entrar nos detalhes para não melindrar meus leitores. O fato é que, finalmente, eu virei “americano”, embora o adeus definitivo à velha Europa ainda teve de esperar mais um pouco. Em todo caso, minha primeira constituição “federativa” tinha vários artigos de imitação, copiando a primeira (até agora única) Constituição americana, inclusive no nome que deram ao Estado, só trocado várias décadas após a Constituição de 1891; ela tinha vários equívocos conceituais, que não pretendo discutir, para não me arvorar em jurista abusado. Ela começou a ser desrespeitada pelo próprio primeiro presidente, o mesmo marechal que tinha, sem o saber, dado o golpe republicano; depois foi desrespeitada múltiplas vezes pelo segundo marechal-presidente, um homem violento que achava que todos os problemas deviam ser, literalmente, resolvidos a bala.

O começo foi, portanto, difícil, mas com a eleição do primeiro civil para presidir o meu Estado, entramos, de alguma forma, na paz das oligarquias: foi aí que começou o café-com-leite do menu republicano, sobretudo paulista e mineiro, com algumas incursões de cariocas e outros pretendentes, mas sempre dentro dos arranjos oligárquicos que passaram a gerir nossa tradicional instabilidade político-econômica, feita de déficits e de dívida externa. O lado mais deprimente dessa sucessão de dirigentes civis era o percurso tradicional que eles tinham de fazer logo depois de eleitos, no mês de março (mediante aquelas falcatruas que vocês podem imaginar como era, com um mínimo de votantes alfabetizados): uma vez que a posse só se dava oito meses depois, em 15 de novembro, o eleito tomava um navio e ia para a Europa, negociar um novo funding loan com os banqueiros da City, ou implorar créditos, financiamentos e alguns investimentos no continente europeu. Aparentemente voltavam com mais alguns milhões prometidos, e assim continuou até o limite das possibilidades externas.

Mas antes de falar das crises externas, cabe mencionar, ainda que en passant, as controvérsias internas, bem mais complicadas que as externas, mas quase nada impedia o consenso das elites sempre em seu próprio favor. O povo continuou a assistir estupefato o espetáculo do poder dessas oligarquias, como já tinha sido o caso no golpe da República, e continuou a ficar assustado com a violência dos militares, no combate a algumas revoltas provinciais. A mais importante delas, nos sertões da Bahia, foi confundida com uma tentativa de insurreição monarquista, e devidamente massacrada até o último reduto daquela “Troia de barro”, como a chamou um jornalista atilado, que depois escreveu um maçudo livro, cientificista, mas em tons tolstoianos, sobre a incompetência dos milicos, que tiveram de empreender várias expedições até dar cabo dos rústicos “milenaristas”.

A característica principal da “Velha República”, como depois os historiadores alcunharam essa primeira fase de minha vida republicana, era o fato de as eleições serem perfeitamente falsas, muito embora a representação pudesse ser considerada “verdadeira”. Assim opinou, em suas tardias memórias, um jornalista de província, que começou sua vida política matando um crítico sincero de sua poesia desengonçada: ele se saiu melhor, bem mais tarde, como jurista internacionalista, amado ao que parece, dos diplomatas fidalgos que representavam a República no exterior (a despeito de serem clandestinamente monarquistas). O voto, como se sabe, era a “bico de pena”, e não valia muito, pois o que contava mesmo eram as contas da “comissão de verificação”, que já sabia de antemão quem merecia ser eleito. Essa toda poderosa instituição eleitoral, sabia exatamente como eleger um presidente, com um mínimo de votos, obviamente fraudando o que precisava ser fraudado.

Independentemente desses aspectos secundários na vida da nação, todo o resto marchava de modo tranquilo: os barões do Império, que deviam tudo, ou quase tudo, ao café, especulavam muito no câmbio e depois iam torrar a sua dinheirama nos cabarés de Paris, acendendo charutos com notas de 100 francos e tomando champagne nos calçados das demoiselles, que os fascinavam com danças provocantes. Bem, como a despeito de autossuficiente, sou também bibliófilo, relato o que encontrei num velho dicionário francês do início do século XX, num verbete intitulado “paulistade” (assim mesmo). E o que era a “paulistada”? Era exatamente o hábito de gastar à tripa forra nos cafés de Paris, a partir exatamente dos ganhos nababescos com a exportação do ouro verde, a base única das minhas receitas e da minha presença no mundo, até a segunda metade do século (e um pouco até hoje). Ou seja, eu devo tudo o que passei a ser, na era republicana, ao café.

Opa: faltou justamente explicar por que eu considero a República o desafio maior da minha auspiciosa trajetória: existem motivos suficientes, mas isso vou relatar nos próximos episódios destas minhas crônicas escritas em total sinceridade.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5394, 9 julho 2026, 4 p.

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 Madame IA reescreve esse capítulo da autografia do Estado em linguagem popular: 

Reescreva o conteúdo/texto da postagem do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html (título da postagem, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)"). O texto reescrito deverá ser em linguagem coloquial do Brasil; deverá ter, no máximo, 5500 caracteres. 

Abaixo está o conteúdo completo da postagem do blog retrabalhado exatamente conforme as suas instruções, adaptado para o português coloquial do Brasil, mantendo o tom irônico do texto original e respeitando o limite de tamanho:
Texto Reescrito: O Estado Brasileiro Conta Sua História:
Fala, pessoal! Quem está falando aqui sou eu mesmo, o Estado brasileiro. Dei uma parada para refletir sobre o que andei aprontando até a chegada da República. Quero ver se melhorei a vida de vocês (ou se só tentei e falhei!). No último papo, comentei que minha versão antiga ia aprontar mais sob uma nova roupagem. Eu agi como um verdadeiro fora-da-lei, mandando na base do capricho. [1, 2, 3, 4, 5]
Agora chegou a hora de falar a real. Sempre acumulei poder sobre a nação e sobre você, que está me lendo. Será que fui legal ou só pensei no meu próprio umbigo?. O jogo sempre foi meio desigual por aqui. Tem gente que aproveita regalias demais, tipo a elite do Judiciário e outros espertalhões. [1, 2, 3, 4, 5]
O Começo de Tudo: Da Colônia ao Império:
Escrevo minha própria biografia para ninguém contar mentiras sobre mim. Nasci em terras distantes, num parto bem confuso. Em 1808, a família real portuguesa fugiu para cá. Ali me deu vontade de virar dono do meu próprio nariz e expandir meus poderes. Viramos Reino-Unido, mas não apitamos nada no Congresso de Viena. O Rei Dom João até que quebrou uns galhos antes de ir embora. [1, 2, 3, 4, 5]
Depois veio a Independência, que foi mais comprada e negociada do que lutada. Os tutores portugueses foram embora, mas limparam o caixa do nosso primeiro banco. Dom Pedro I era bem afoito e meio sem modos. Fechou a Assembleia Constituinte e impôs uma Carta liberal-escravista. Quando a escravidão acabou, o regime exótico caiu junto. [1, 2, 3, 4, 5]
Revoltas, Regências e o Segundo Imperador:
Passei por várias rebeliões violentas na minha fase "adolescente". Em Pernambuco, o pau quebrou em 1817 e 1824. Frei Caneca peitou as ordens da Constituição e acabou virando mártir. Expulsamos o primeiro imperador e caímos na bagunça das Regências. [1, 2, 3]
Depois, assumiu o herdeiro novo: um rapaz muito lido e meio sabichão. Dom Pedro II logo viu como era difícil modernizar um país entregue às oligarquias. Os fazendeiros travaram o fim do tráfico, da escravidão e o progresso industrial. Tivemos crises fiscais graves e uma dívida externa que parecia impagável. Na Guerra do Paraguai, pegamos pesado demais com o ditador vizinho. Ficamos com fama de imperialistas na região. [1, 2, 3, 4, 5]
A República do Café com Leite:
A República nasceu de um golpe improvisado e bem esquisito. Nossa primeira Constituição federativa copiou os americanos descaradamente. O primeiro presidente marechal já nasceu desrespeitando as regras. O segundo marechal era pior: achava que problema se resolvia na bala. [1, 2, 3, 4]
Depois dos militares, veio a calmaria dos políticos civis. Entramos no esquema do café-com-leite entre paulistas e mineiros. A rotina dos eleitos era sempre a mesma: [1, 2]
  • Ganhavam a eleição em março com fraudes descaradas.
  • Pegavam um navio rumo à Europa antes de assumir.
  • Imploravam novos empréstimos para os banqueiros de Londres. [1, 2]
O povo assistia a tudo chocado, enquanto o exército massacrava revoltas provinciais. No sertão da Bahia, em Canudos, destruíram tudo até o último reduto. Um jornalista escreveu um livro enorme criticando a burrice dos milicos contra os sertanejos. Nessa Velha República, as eleições eram totalmente de fachada. O voto "a bico de pena" não valia nada. Quem mandava de verdade era a comissão de verificação que escolhia quem ia vencer. [1, 2, 3, 4, 5, 6]
Enquanto isso, os barões do café enchiam os bolsos com o ouro verde. Eles viajavam para Paris para torrar a dinheirama nos cabarés. Acendiam charutos com notas de 100 francos para ostentar com as francesas. Isso era a famosa "paulistada", que virou até verbete em dicionário francês. No fim das contas, eu devo tudo o que sou ao café. Mas por que a República virou meu maior desafio?. Isso eu conto nos próximos episódios!. [1, 2, 3, 4, 5, 6]


 

 

 

 

sábado, 4 de julho de 2026

Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

Como o culto do Estado pode inviabilizar o desenvolvimento smithiano

Adam Smith x Karl Marx

Adam Smith x Karl Marx

“Nota sobre a Grande Deformação da era contemporânea.”

O mundo político costuma ser dividido nas diferentes gradações entre dois extremos, numa tipologia herdada da Revolução francesa: esquerda e direita, com muitas variações no centro e exageros nos dois extremos. Essa é a perspectiva de um cenário dominado de forma estéril por uma luta pelo poder e pela dominação de alguns sobre muitos. Essa luta não cria riqueza ou prosperidade, apenas redistribui o estoque existente de riqueza entre os diversos contendores da luta política.

Antes da Revolução francesas, porém, um professor de Glasgow, Adam Smith, já havia delimitado alguns parâmetros sob os quais se moviam as paixões humanas, em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. Mas ele fez mais: no ano da independência americana da dominação britânica, 1776, autonomia sob o livre comércio, que ele preconizava, publicou o livro seminal da economia política, aquele que deveria guiar os verdadeiros estadistas do Estado, de qualquer Estado, na busca de prosperidade socialmente bem distribuída: Um Inquérito sobre a Riqueza das Nações, uma investigação sobre como se poderia criar e aumentar a riqueza social, ao mesmo tempo fazendo com que ela fosse bem distribuída entre os súditos ou os cidadãos de uma nação, de um Estado constituído em conformidade com as leis estabelecidas consensualmente, não pela força ou dominação de alguns poucos.

Seu livro se tornou influente nas ilhas britânicas e em alguns outros países do continente europeu (mas só chegou à China muito tempo depois, aliás “importado” por alguns comunistas esclarecidos que corrigiram os erros demenciais de Mao Tsetung, que produziram mais mortos entre os próprios chineses do que Stalin o havia feito entre seus “súditos” russos). O livro de Adam Smith foi “corrigido” por uma outra obra das mais negativas não só na história da economia politica, mas também na trajetória de boa parte da humanidade. Essa obra foi O Capital, de um radical hegeliano expatriado chamado Karl Marx. Esse livro, que pretendia colocar a economia smithiana sobre seus pés, as forças produtivas, alterava, na verdade, as bases de funcionamento da economia política pela via de uma política econômica que invertia completamente os fundamentos da criação de riqueza e prosperidade: seria o Estado, e não a liberdade dos agentes econômicos, quem deveria ordenar a organização da vida econômica, o “promotor” da prosperidade igualitária.

A mensagem era poderosa, numa fase em que o primeiro capitalismo explorava, literalmente, os esforços de trabalhadores em prol da acumulação de riqueza, criando continuamente uma desigualdade de tipo rousseauniano, pois que fundamentada no “pecado original” da propriedade privada. Estavam dadas as condições para o surgimento de uma nova forma de organização econômica baseada não exatamente na propriedade privada, mas na propriedade coletiva dos meios de produção, o socialismo dito científico, ou o coletivismo (que seria aplicado tanto por regimes supostamente de esquerda, como o bolchevismo, como por regimes declaradamente de direita, como o fascismo e o nazismo).

Estava criada a via para a implementação do “socialismo”, não exatamente nos países do primeiro capitalismo, na Inglaterra e na Nova Inglaterra, assim como em diversos países da Europa continental, mas num país autocrático, a Rússia atrasada dos mujiques e da nobreza czarista, vivendo num capitalismo incipiente, e sobretudo no despotismo brutal da aristocracia dos boiardos. Isso se deu por um pequeno “acidente” político, o famoso “trem blindado” que transportou o emigrado russo Lênine de volta à Rússia em meio a um processo revolucionário, iniciado em fevereiro de 1917: isso se fez por um ardil do Império alemão, que pretendia desmantelar a guerra no lado oriental da Prússia, para se concentrar nas frentes de batalha do lado ocidental, contra franceses, britânicos e, mais recentemente, americanos.

O putsch de outubro (ou novembro) de 1917 colocou no poder um novo regime despótico, desta vez guiado por bolcheviques que acreditavam piamente nas fabulosas teorias econômicas de Karl Marx, de que seria possível criar riqueza e prosperidade não pela via da liberdade econômica, mas pela via da monopolização total dos meios de produção nas mãos do Estado, criando um sistema imaginário, “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”, como afirmou o mesmo Marx na Crítica ao Programa de Gotha, em oposição ao recém criado Partido Social Democrata alemão, que pretendia criar, não um sistema de estatização completa da economia, mas um regime flexível, combinando propriedade privada e meios públicos de criação de oportunidades para todos.

Lênin podia ser um gênio em política, ou pelo menos um lídes partidário astuto, mas ele era uma nulidade em economia. Seu programa de “coletivização total” da economia russa provocou de imediato uma contração terrível na oferta de bens e serviços, levando o povo a uma crise alimentar ao ponto da fome generalizada (refreada generosamente por americanos e outros europeus), com o que Lênin teve de improvisar uma “NEP”, permitindo a existência provisória de negócios privados em certos setores da economia. Imediatamente após o início da coletivização, um jovem economista austríaco, Ludwig von Mises, escrevia um “panfleto” contra os socialistas austríacos, intitulado sinteticamente O Cálculo Econômico na Comunidade Socialista, explicando que o socialismo não poderia funcionar pois que ele ignorava completamente o mecanismo de formação de preços, baseado nas leis universais da oferta e da procura, da produção e do consumo. Não podia funcionar, como um elefante não pode voar, mas Stalin fez o “socialismo” se sustentar nos ares pela via de formas modernas da antiga escravidão, ou do antigo regime servil da própria velha Rússia.

O socialismo não morreu por ter sido combatido pelo capitalismo, longe disso: os “capitalistas” ocidentais até procuraram suavizar o sofrimento dos povos “socialistas” pela via de empréstimos ou algum apoio material sempre quando necessário, mas era difícil fazer o elefante voar; o sistema se desmantelou sozinho pela força de suas próprias contradições econômicas. Mas a mensagem socialista era muito poderosa: a “igualdade” deveria, pelas mãos do Estado, passar na frente da liberdade preconizada pelos liberais, e assim se fez em diversos países em diversos continentes, inclusive na América Latina, na qual as receitas keynesianas de luta contra as crises e as depressões cíclicas do sistema foram convertidas, de meios provisórios de inversão do ciclo econômico, em verdadeira teoria do desenvolvimento; essa foi a origem do prebischianismo, a versão original do desenvolvimentismo cepaliano.

O Brasil foi o país no qual essa nova “teoria” encontrou terreno fértil, inclusive porque ele já vivia, desde os anos 1930, numa espécie de “capitalismo estatizado”, o que complementava o seu mercantilismo tradicional, um protecionismo que existia desde os tempos coloniais e que encontrou também terreno fértil no Império e da República. Nos anos 1950, o desenvolvimentismo conheceu grandes possibilidades de expansão, tanto que ganhou espaço ainda mais ampliado no regime semiautárquico da ditadura militar, perfeitamente estatizante e centralizado que o país conheceu entre os anos 1960-80. A industrialização em marcha forçada sob os anos JK foi realmente benéfica para os capitalistas amigos do Estado, contrariando as prescrições de uma política econômica com sólidos fundamentos no balanço fiscal das contas nacionais, como preconizavam economistas como Eugênio Gudin e o jovem Roberto Campos. O resultado foi a implantação de muitas indústrias, algumas estatais, outras com base no investimento direto estrangeiro, mas também uma forte aceleração da inflação, que seria a maldição do país, de toda a população, nos quarenta anos seguintes.

O bloqueio de um processo sustentado de crescimento econômico, pela via da indução estatal, já tinha sido alertado algum tempo antes, no quadro de um famoso debate econômico que, nos anos 1944-45, colocou face a face o mesmo economista neoclássico Eugênio Gudin e um industrial paulista, apreciador das teorias de Friedrich List e de Mihail Manoilescu, Roberto Simonsen. Do debate saiu-se vencedora, no plano puramente teórico, a solidez dos argumentos econômicos de Gudin, mas quem venceu, na prática, foi Simonsen, preconizando subsídios estatais à indústria, protecionismo no comércio exterior e intervenção estatal segundo os novos cânones do “planejamento para o desenvolvimento econômico”, em lugar da “mão invisível” do mercado para guiar os passos da iniciativa privada. Foi o que o Brasil conheceu desde então, combinado a um entranhado nacionalismo exclusivista, que o fez sempre desconfiar da “sanha” dos capitalistas estrangeiros, preferindo recorrer a empréstimos estrangeiros, como se fez desde a independência, do que aos investimentos diretos, sujeitos à “espoliação” dos dividendos e da remessa de lucros ao exterior (isso ficou evidente na carta deixada por Getúlio Vargas quando do seu suicídio, criando essa “herança maldita” do ódio aos capitais forâneos, sempre “sugadores” da riqueza nacional).

Na experiência concreta do Brasil do período contemporâneo o que tivemos foram acelerações esporádicas do impulso inflacionário, sempre causado por excesso de gastos públicos, combatidos oportunamente por planos bem ou mal sucedidos de estabilização econômica, e, sobretudo, um processo de desenvolvimento endógeno que resultou num crescimento dotado de baixo dinamismo sustentado, e um atraso relativo no confronto com outras experiências nacionais de abertura econômica e de liberalização comercial, no quadro de um sistema mais baseado na força do livre empreendedorismo de mercado do que na suposta eficiência da condução estatal do jogo econômico. Enfim, como síntese, sempre fomos mais estatizantes do livre-mercadistas, o que talvez explique nossa longa estagnação de mais de quatro décadas num período que foi do fim do socialismo à globalização otimista e, agora, ao desmantelamento do multilateralismo político e econômico pela ação conjunta, mas não necessariamente combinada, de dois dirigentes imperiais que se acreditam ser os imperadores de seus respectivos continentes, quiçá do mundo. Ainda estamos nisso…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5380, 29 junho 2026, 4 p.

 

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