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terça-feira, 26 de dezembro de 2006

667) Um autodidata na carreira diplomática

Respostas a questões colocadas por jovem candidato à carreira diplomática.

Frequentemente sou indagado por jovens candidatos à carreira diplomática sobre métodos de estudo, sobre indicações de leitura, sobre questões tópicas que têm a ver com deficiências localizadas de um ou outro aspirante e, de modo mais geral, sobre dicas para o sucesso nos exames de entrada. Em alguns casos, as questões se voltam para aspectos pessoais do meu ingresso nessa carreira, como é o caso das questões transcritas abaixo.
Como considero que minhas respostas podem vir a interessar mais de um desses jovens pretendentes à carreira diplomática – e para evitar duplicações ou repetições em respostas de caráter individual – sou levado a elaborar algumas respostas mais estruturadas e disponibilizá-las, de modo mais amplo, em um dos meus veículos de comunicação (site pessoal, ou um dos blogs que mantenho, com propósitos diversos). Será também o caso agora, como evidenciado a seguir.

1) Qual foi o motivo pelo qual o senhor ingressou no mundo da diplomacia e como foi sua trajetória até chegar lá, cursando a faculdade de ciências sociais?
Considero que apenas pessoas muito motivadas ingressam atualmente na diplomacia. No passado poderia haver, eventualmente, um ou outro caso de puro diletantismo, de busca de algum “dolce-far-niente” nas melhores capitais européias, de desejo de ocupar-se de literatura ou artes, ou simplesmente de viver “le grand monde” sem preocupações outras que não algum expediente rápido em dias alternados, com muitas recepções e “punhos de renda” a ocupar o seu tempo. Tudo isso, obviamente, é folclore, mas não é fácil desmantelar estereótipos. A realidade mais prosaica é feita de muito trabalho e de uma participação intensa e foros negociadores nos mais diversos formatos (bilateral, regional, multilateral), com uma enorme diversidade de temas a serem tratados, sucessiva ou simultaneamente.
Como a maior parte dos meus colegas, ingressei na diplomacia com uma forte motivação para conhcer, discutir e tratar de questões internacionais em conexão com os interesses nacionais do Brasil, ou seja, participando, de alguma forma, de processos decisórios que influenciam, de um modo ou de outro, os rumos não apenas externos, mas também internos que afetam o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil. Com poucas exceções – geralmente ligadas a fatores psicológicos que redundam numa opção pela diplomacia a partir de motivações de ordem essencialmente interna, ligadas a estilo de vida, desejo de viver no exterior pelo exterior e outros elementos do gênero – acredito que a maior parte dos meus colegas também ostente essa motivação de caráter funcional ou instrumental, qual seja, a busca de um trabalho que redunde numa expressão mais forte do Brasil enquanto nação no sistema internacional e a vontade pessoal de participar da construção de uma nova realidade no plano mundial.
São, de modo geral, motivações de ordem basicamente idealista, no melhor sentido da palavra: o interesse pelas questões internacionais (advindas de leituras, conhecimento de línguas, de contato com estrangeiros, de eventual estada prévia no exterior) combina-se a uma vocação de certo modo “nômade” ou fortemente “internacionalizada”, o que leva o jovem a orientar-se para a carreira diplomática. Essa orientação é geralmente despertada muito cedo, já na adolescência ou em seu final, contemporaneamente aos estudos universitários, fazendo com que a preparação para os exames de ingresso se dê em paralelo aos semestres finais dos estudos de graduação.
O ambiente geral da diplomacia é um pouco o das humanidades e das ciências sociais aplicadas, que constituem de forma preeminente o foco universitário de origem da maior parte dos candidatos à carreira. Eu ingressei em ciências sociais – na USP, em 1969 – pensando bem mais na transformação política e econômica do Brasil, enquanto nação, do que na defesa dos seus interesses enquanto Estado membro da ONU e ativo participante do sistema de relações internacionais. Uma estada no exterior, para o acabamento dos estudos universitários, facilitou, provavelmente, essa conversão de assuntos “internos” para “externos”, a partir de um certo momento, mas considero que nem os estudos de ciências sociais, nem a estada no exterior sejam indispensáveis para moldar vocações ou determinar o sucesso nos exames de entrada.
O ingresso na carreira depende de uma sólida cultura geral, de excelente conhecimento do Português, em primeiro lugar, e de uma outra língua também, de muito boa preparação nos demais temas setoriais – economia, direito, geografia, história – o que pode ser suprindo por intensas leituras da bibliografia recomendada (e mais além). Acredito que leituras de jornais internacionais sejam indispensáveis, assim como de revistas especializadas em temas nos quais incide o foco dos exames de entrada. Tudo isso pode ser suprido de forma bem mais fácil, atualmente, com o recurso intensivo dos materiais disponíveis na internet, algo inexistente no meu tempo de preparação. A seleção continua difícil, mas as possibilidade de acesso a materiais relevantes para o estudo ampliaram-se tremendamente em relação ao passado.

2) Seu tempo de estudante secundárista o influenciou de alguma maneira?
Provavelmente sim, mas isso depende muito das circunstância de vida de cada um e dos interesses intelectuais de cada candidato. Em função da trajetória política do Brasil em minha juventude – golpe militar em 1964, alinhamento da diplomacia com os EUA numa primeira fase, ambiente de Guerra Fria no cenário internacional –, a orientação para o estudos de problemas internacionais foi praticamente automática, tanto porque a América Latina em geral era agitada por golpes militares e por guerrilhas de orientação castrista, com experimentos diversos de nacionalismo ou de socialização em alguns dos países do continente. Os secundaristas e os universitários de minha época protestavam não apenas contra a ditadura militar, mas também contra o imperialismo americano, a dominação estrangeira na economia e tudo aquilo que nos parecia subordinação do Brasil ao capitalismo multinacional. Estávamos constantemente estudando as questões nacionais e internacionais que tivesse conexão com a situação do Brasil e tomando partido por uma ou outra orientação econômica, política ou ideológica – comunismo de tipo soviético ou chinês, guerrilhas de inspiração guevarista, nacionalização e planejamento de tipo socialista ou indiano, não-alinhamento etc. Tudo isso foi relevante para o que se chamava de “conscientização”, ou seja, a politização segundo linhas geralmente esquerdistas, ou mesmo totalmente comprometidas com soluções socialistas ou comunistas para o sistema a ser adotado no Brasil após a vitória da “revolução”.
Mesmo com as inevitáveis revisões posteriores de orientação político-econômica, toda a preparação alcançada nos debates de juventude – com intensa leitura dos “clássicos” brasileiros de interpretação de nossa trajetória nacional – foi extremamente funcional para os exames de ingresso na carreira diplomática, uma vez que a bibliografia recomendada recobre, de certa forma, a literatura já compulsada anteriormente. Todos nós (quase todos), jovens secundaristas ou universitários, líamos Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, com menor ênfase em autores considerados “reacionários” como Gilberto Freyre, José Maria Bello ou Hélio Vianna. Os livros esquerdistas eram lidos aberta ou clandestinamente, ademais de Marx, Engels e todos os clássicos do socialismo, obviamente. Em suma, já éramos “internacionalizados” muito tempo antes de pensar em ingressar na carreira diplomática.

3) Numa palestra o senhor comenta sobre o mercado de trabalho nesse ramo e coloca muita ênfase em ser um autodidata por inteiro; isso de ser um autodidata, o senhor emprega em sua vida desde os tempos do colegial?
Certamente, sempre fui autodidata, e considero, para qualquer jovem, motivado ou não para a carreira diplomática, ser esta uma atitude fundamental para o sucesso nos estudos e em qualquer profissão. Ser autodidata significa, antes de mais nada, não se contentar e não esperar pelas leituras orientadas em sala de aula, e buscar ativamente não apenas estar à frente dos demais colegas, mas em alguns casos à frente mesmo do próprio professor, contestando em aula algum aspecto que já foi objeto de leitura paralela. Ser autoditata significa construir o seu próprio conhecimento, aprofundá-lo pela pesquisa auto-induzida, conhecer sempre um pouco mais do que é demandado nos exames de rotina, do sistema escolar ou universitário.
Ser autodidata, numa palavra, significa ser livre, totalmente autônomo em relação ao conteúdo veiculado em classe, dotado de sua própria capacidade analítica e de julgamento, capaz de opiniões abalizadas e fundamentadas sobre uma grande variedade de assuntos. Ser informado é ser livre, e o autodidata alcança essa condição à frente e acima dos seus colegas, o que de certa forma é um privilégio e uma grande satisfação.
Praticamente, desde o colegial – ensino médio, na atual terminologia –, tornei-me um autodidata radical, isto é, completamente independente dos ensinamentos veiculados em sala de aula, e muitas vezes ausente da própria sala de aula. Não recomendaria essa atitude para os alunos em geral, mas recomendo, sim, ser autodidata, ou seja, cultivar o que eu chamo de “ceticismo sadio” em relação ao conteúdo das aulas e buscar complementar aquela informação mediante pesquisas próprias e leituras paralelas.
O conhecimento liberta, e ser autodidata, repito, é ser livre. Não pode haver melhor aspiração na vida do que esta.


Paulo Roberto de Almeida
(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)
1701: Brasília, 26 dezembro 2006, 2 p.

2 comentários:

Giuliano disse...

Com tantas dicas para orientar os candidatos a "carreira diplomática", assim o senhor já poderia fazer um "manual para aspirantes a diplomacia". Rs
E o manual deverá ser ao estilo pocket book, para estudantes lerem a caminho da faculdade, ainda mais se vai de ônibus, com o trânsito que enfrentamos todo dia.

Sara Rocha disse...

Oi!
O triste de ser auto-didáta é não ter com quem "trocar uma idéia" com alguém, o que que no meu caso, ajuda e muito, o jeito é fazer redações sobre o assunto ...
Mas as vezes eu encontro alguma "vítima", com ouvidos pacientes para ouvir o que eu tenho a dizer, para mim esse é o melhor tipo de memorização!
A vítima quase sempre é meu pai... ele é o único que não diz : Pára Sara! (risos)