quarta-feira, 8 de abril de 2026

Análise da pesquisa eleitoral de 7/04 por Paulo Baia, entre Lula, Flavio e Caiado

Estabilidade e vertigem: sociologia política e eleitoral da disputa presidencial em abril de 2026

              * Paulo Baía

A pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026 oferece mais do que números. Ela apresenta uma paisagem social em movimento, um país que não está parado, mas também não decidiu para onde quer ir. Realizada entre os dias 3 e 7 de abril de 2026, com 1.500 entrevistas telefônicas, margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, a pesquisa segue parâmetros clássicos da sociologia política e eleitoral. Trata-se de um levantamento quantitativo, com questionário estruturado, aplicado a eleitores acima de 16 anos, com base em dados do IBGE e do TSE. Isso significa que não estamos diante de impressões soltas. Estamos diante de um retrato metodologicamente consistente, capturado em um intervalo de tempo específico, em que o país respirava custo de vida alto, endividamento crescente, tensão institucional e reorganização do campo da direita.

O primeiro dado que organiza toda a análise é o seguinte. Lula lidera o primeiro turno com 40,4%, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 37%. A distância é pequena, mas existe. No espontâneo, essa diferença é maior. Lula tem 32,6%, Flávio 19,4%, com 25,3% de eleitores que não sabem e 3,2% de branco, nulo ou nenhum. Esse dado é sociologicamente poderoso. Ele mostra que Lula não depende apenas da lista de candidatos. Seu nome já está presente na memória política do eleitor. Na sociologia política e eleitoral, isso se chama capital simbólico sedimentado.

Mas a liderança de Lula não se explica apenas pela lembrança espontânea. Ela se sustenta por um fator ainda mais relevante. 73,4% dos seus eleitores dizem que o voto está decidido. Apenas 26,6% admitem a possibilidade de alteração. Isso significa que Lula tem uma base social com alta densidade de convicção. É um voto que já atravessou dúvidas, críticas e desgastes e, mesmo assim, permanece.

Quando se observa o conjunto do eleitorado, a situação muda de figura. 48,6% dizem estar decididos, enquanto 51,4% afirmam que ainda podem mudar de voto até outubro de 2026. A sociologia política e eleitoral ensina que esse dado é o coração da eleição. A maioria ainda está aberta, ainda escuta, ainda observa, ainda pode mudar. Mas essa abertura não está distribuída de forma homogênea.

No eleitorado de Flávio Bolsonaro, apenas 39,6% estão decididos, enquanto 60,4% podem mudar. No de Ronaldo Caiado, 30,6% estão decididos e 69,4% podem mudar. No de Romeu Zema, o dado é ainda mais radical. Apenas 20% estão decididos, enquanto 80% podem mudar. Renan Santos e Aldo Rebelo apresentam quadro semelhante, com 22,2% de decisão e 77,8% de possibilidade de mudança. A tradução sociológica desses números é direta. O lulismo está consolidado. A direita está em disputa.

E essa disputa se expressa claramente nos cenários do primeiro turno. O cenário central, aquele que estrutura a disputa, coloca Lula com 40,4% e Flávio Bolsonaro com 37%. Lula lidera, mas não domina. Flávio cresce, mas ainda não ultrapassa. A série histórica mostra isso com nitidez. Lula sai de 39,6% em janeiro, passa por 39,5% em fevereiro, chega a 40,3% em março e atinge 40,4% em abril. É uma linha quase reta, uma estabilidade alta. Flávio, por outro lado, cresce. Sai de 27,6% em janeiro, sobe para 33% em fevereiro, vai a 35% em março e alcança 37% em abril. Sua curva é ascendente. Na sociologia política e eleitoral, isso indica movimento de incorporação de eleitores, expansão de fronteira.

Mas esse crescimento convive com fragilidade. A maioria de seus eleitores ainda pode mudar. Isso significa que Flávio ainda precisa transformar intenção em fidelidade, entusiasmo em convicção, adesão momentânea em vínculo político duradouro.

Nesse mesmo cenário, a presença de Ronaldo Caiado altera a equação de maneira silenciosa, mas relevante. Caiado aparece com 6,5% no primeiro turno. À primeira vista, um número secundário. Mas a sociologia política e eleitoral exige olhar para o potencial. 42,6% dos eleitores dizem que poderiam votar nele. Isso é muito relevante. Caiado não tira votos de Lula de forma significativa. Ele disputa o mesmo território de Flávio. O eleitor antipetista que ainda busca o nome mais competitivo.

Esse movimento altera o equilíbrio do primeiro turno. Flávio deixa de ser o único polo da direita. A escolha do eleitor antipetista deixa de ser automática. Passa a ser comparativa. Na prática, isso cria uma desvantagem relativa para Flávio. Ele precisa disputar votos dentro do seu próprio campo. Lula, nesse cenário, se beneficia indiretamente. Seu campo aparece menos fragmentado, menos tensionado por disputas internas.

As vantagens de Lula no primeiro turno são claras. Liderança, estabilidade e base decidida. Além disso, Lula tem melhor desempenho entre mulheres e eleitores sem religião. No segundo turno contra Flávio, ele vence entre mulheres por 47,7% a 41,5% e entre os sem religião por 66% a 20,1%. Esses dados não são acessórios. Eles revelam a base social do lulismo, uma base que combina memória política, identidade social e sensibilidade a temas de proteção e bem-estar.

Mas há um peso que atravessa essa liderança. 70,4% dos brasileiros dizem que o custo de vida aumentou. 40% dizem estar mais endividados. 74,7% afirmam que esses temas serão decisivos no voto. Na sociologia política e eleitoral, isso não é detalhe. É estrutura. É o cotidiano invadindo a política. É a economia doméstica entrando na urna.

Além disso, a avaliação do governo é negativa. Apenas 32,2% consideram ótimo ou bom, enquanto 46,4% avaliam como ruim ou péssimo. Na economia, apenas 28,1% veem como positiva, contra 44,6% negativa. Lula lidera, mas enfrenta desgaste material. Sua liderança convive com um ambiente de insatisfação difusa.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta crescimento, identidade e base forte em segmentos específicos. Entre homens, ele lidera. Entre evangélicos, domina com 57% contra 37,4% de Lula. Sua força nasce de um campo cultural, de valores, de pertencimento. Mas sua principal desvantagem é a instabilidade da base. A maioria pode mudar. Além disso, Caiado fragmenta o campo da direita. Flávio precisa consolidar sua liderança. Precisa transformar crescimento em segurança.

No segundo turno, o cenário se torna ainda mais sensível. Flávio aparece com 45,8%, Lula com 45,5%. Empate técnico, com leve vantagem numérica de Flávio. Mas a leitura sociológica é mais complexa. Lula tem base mais fiel. Flávio tem base mais expansiva. Lula vence entre mulheres e eleitores sem religião. Flávio vence entre homens e evangélicos. O país aparece dividido em camadas sociais, culturais e morais.

Quando Lula enfrenta Caiado, vence por 45% a 39%. Caiado é competitivo, mas não atinge o desempenho de Flávio. Isso reforça um ponto central. Flávio ainda é o nome mais forte da direita para enfrentar Lula. Mas Caiado é o nome que mais ameaça essa posição no primeiro turno.

A rejeição também estrutura o cenário. Lula tem 44,2% de rejeição, Flávio 37,5%. Lula tem maior teto de rejeição, mas também maior base consolidada. Na possibilidade de voto, 50% dizem que poderiam votar em Lula, 47% em Flávio. É um país dividido em dois grandes campos com fronteiras duras.

O ambiente social e institucional amplia essa tensão. 42,5% veem o Judiciário como principal ameaça à democracia. 52% dizem que eleições devem ser decididas por brasileiros. 41% são contra qualquer anistia ao 8 de janeiro. Isso mostra um eleitorado atento à ordem, à soberania e ao conflito institucional.

Ao mesmo tempo, a percepção de aumento da violência contra a mulher e o alto conhecimento sobre feminicídio ajudam a explicar o comportamento do voto feminino, mais favorável a Lula. A sociologia política e eleitoral mostra que o voto não é apenas racional. Ele é também afetivo, cultural, situado.

A projeção para os próximos meses exige cautela. Caiado tem potencial de crescimento. Flávio pode continuar avançando, mas precisa consolidar. Lula tende a manter posição, mas enfrenta desgaste do cotidiano.

O Brasil de abril de 2026 não está decidido. Está em disputa. Lula representa a estabilidade, a memória, o voto consolidado. Flávio representa o crescimento, a oposição, a mobilização identitária. Caiado representa a reorganização da direita, a dúvida dentro do campo conservador.

O eleitor, no centro de tudo, ainda observa. Mais da metade pode mudar. Mas não todos na mesma intensidade. A eleição será decidida não apenas por quem cresce, mas por quem consegue transformar intenção em convicção. E, no fundo, por quem consegue dialogar melhor com a vida concreta das pessoas.

A sociologia política e eleitoral mostra que o voto nasce no cruzamento entre o bolso, a crença, a experiência e a esperança. É nesse cruzamento que o Brasil vai escolher seu caminho em 2026.


             * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ


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