O mundo simplesmente não confia nos Estados Unidos
Da mesma forma que os americanos já não confiam em si mesmosFrancis Fukuyama, Persuasion (07/04/2026)
INTELIGÊNCIA DEMOCRÁTICA, ABR 7
Em 1995, publiquei meu segundo livro, Confiança: As Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade. Nele, argumentei que a confiança está entre as qualidades sociais mais preciosas, pois é a base da cooperação humana. Na economia, a confiança é como um lubrificante que facilita o funcionamento das empresas, das transações e dos mercados. Na política, é a base do que se chama de “capital social” — a capacidade dos cidadãos de se unirem em grupos e organizações para buscar objetivos comuns e participar ativamente da política democrática.
As sociedades diferem muito em seus níveis gerais de confiança. Na década de 1990, Robert Putnam, de Harvard, escreveu um estudo clássico sobre a Itália que contrastava o norte do país, marcado pela alta confiança, com o sul, onde a desconfiança era predominante. O norte da Itália era repleto de associações cívicas, clubes esportivos, jornais e outras organizações que davam estrutura à vida pública. O sul, por outro lado, era caracterizado pelo que um cientista social anterior, Edward Banfield, denominou “familismo amoral”: uma sociedade na qual se confia principalmente nos membros da família imediata e se tem uma atitude cautelosa em relação a pessoas de fora que, em sua maioria, estão tentando prejudicar os outros. As únicas grandes organizações no sul eram a Igreja Católica e, claro, a Máfia. Esta última era um produto direto da desconfiança: se você fosse um empresário, não podia contar com o Estado para proteger seus direitos de propriedade devido à fragilidade do sistema jurídico; se alguém lhe enganasse, você contratava um mafioso para quebrar as pernas da vítima.
Em Trust, caracterizei os Estados Unidos como uma sociedade de “alta confiança”. Essa visão tem uma longa história. Quando o observador francês Alexis de Tocqueville visitou os Estados Unidos na década de 1830 e viajou por grande parte da área povoada do país, notou que a América tinha uma alta densidade de associações cívicas, desde estudos bíblicos a clubes e sociedades de ajuda mútua, e que os americanos achavam relativamente fácil trabalhar em conjunto com estranhos diante de desafios. Isso, segundo ele, contrastava fortemente com sua França natal, onde, de fato, não se encontravam dez franceses dispostos a trabalhar juntos em um empreendimento comum. Na França, havia pouca da sociabilidade espontânea ou do capital social que ele encontrou nos Estados Unidos. Essa visão da América de alta confiança foi corroborada, em meados do século XX, por dados de pesquisas que mostravam que os americanos confiavam em outros americanos em um grau maior do que as pessoas na França e em muitos outros países.
Se eu fosse reescrever “Trust” hoje, não caracterizaria os Estados Unidos como uma sociedade de alta confiança. Mesmo quando o livro estava sendo publicado na década de 1990, a polarização política já havia começado a se espalhar, e os americanos começaram a se organizar de acordo com suas preferências políticas. Essa polarização só aumentou no período entre então e agora. Ela se transformou no que os cientistas políticos chamam de “polarização afetiva”, na qual os partidários não apenas discordam sobre questões, mas também passam a acreditar que seus oponentes são profundamente malévolos e desonestos. O capital social ainda existe entre os membros das diferentes tribos políticas, mas a desconfiança é generalizada em toda a sociedade. Não aceitamos um conjunto comum de fatos sobre questões como a segurança das vacinas ou a integridade das eleições, e vivemos sob uma série de teorias da conspiração que nos dizem que as coisas não são o que parecem.
A confiança e o capital social são construídos sobre uma base de virtude moral. Passamos a confiar em pessoas honestas e confiáveis, que cumprem seus compromissos e estão dispostas a oferecer apoio mesmo quando isso não lhes traz benefício imediato. A confiança leva tempo para ser construída por meio de um processo de interação repetida: se vemos outra pessoa cumprindo suas promessas e retribuindo favores, tendemos a fazer o mesmo por ela, criando um círculo virtuoso. Mas uma relação de confiança construída ao longo do tempo pode ser quebrada num instante, se uma das partes trair essa confiança e se aproveitar da outra. Assim como a confiança se constrói sobre si mesma, a desconfiança pode se tornar auto-reforçadora: se formos traídos, somos tentados a buscar vingança contra o traidor.
A confiança também é crucial nas relações internacionais. Passamos a confiar em outros países com base em seu comportamento observado, assim como fazemos com indivíduos. Não existe um órgão global que imponha regras ou um soberano que obrigue os países a se comportarem. O uso da força é limitado apenas pela expectativa de que será respondido com uma força contrária, em um ambiente onde a credibilidade é a moeda corrente.
É isso que me deixa extremamente preocupado com a situação global atual e com medo de para onde nossa ordem mundial está caminhando.
É difícil imaginar que a atual guerra com o Irã e a crise no Estreito de Ormuz não representem uma ruptura fundamental na estrutura de segurança do Atlântico Norte. A OTAN é uma aliança construída sobre a confiança: seu poder de dissuasão reside na crença de que os membros da OTAN se ajudarão mutuamente caso um membro seja atacado. Foi o que aconteceu após o 11 de setembro, quando vários membros da aliança defenderam os Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. A OTAN não é um compromisso universal de apoiar um parceiro que tenha empreendido uma guerra ofensiva contra um terceiro. Trump acusa os membros da aliança de traírem os Estados Unidos por não colaborarem para reabrir o Estreito — mas ninguém jamais se alistou para travar uma guerra ofensiva.
A verdade é que os Estados Unidos nunca estiveram tão isolados como hoje. Mark Rutte, o Secretário-Geral da OTAN, fez algumas declarações de apoio na crise atual, mas isso foi fruto de um cálculo cínico. Nenhum líder europeu sensato pode acreditar que o apoio aos Estados Unidos hoje será retribuído por um Estados Unidos sob o comando de Trump no futuro. E embora as ações americanas tenham beneficiado enormemente rivais como a Rússia e a China, eles dificilmente podem se iludir achando que os Estados Unidos servirão aos seus interesses de forma confiável no futuro.
Donald Trump afirmou que os Estados Unidos nunca foram tão respeitados como durante sua presidência. Dentre as inúmeras inverdades que ele proferiu ao longo de sua carreira, essa é uma das mais absurdas. Nunca houve um momento em que os Estados Unidos fossem tão vistos com desconfiança, tanto por aliados tradicionais quanto por rivais, como atualmente. Um negociador bem-sucedido precisa gerar um mínimo de confiança de que cumprirá sua parte do acordo. Mas a reciprocidade é uma virtude que Trump jamais compreendeu ou praticou.
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