Confesso que nunca vi o professor Amancio como negro, apenas como um brasileiro. PRA
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UM SÉCULO DEPOIS DA FUNDAÇÃO DA USP FINALMENTE UM NEGRO NA REITORIA !O professor titular da USP (Universidade de São Paulo) Folha de S. Paulo, 25/04/2026
Amâncio Jorge de Oliveira, 58, novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, vê a chegada à administração da universidade como simbólica especialmente para os jovens negros que estão no ensino superior e que buscam uma carreira acadêmica.
A nomeação de Amâncio alça um homem negro ao alto escalão uspiano pela primeira vez em 92 anos de instituição. Para ele, após o ingresso de alunos e docentes negros, é necessário discutir a mobilidade nas carreiras e as oportunidades dentro dos espaços públicos.
O professor tem trajetória marcada por adaptações. Foi vice-diretor do Instituto de Relações Internacionais da universidade e vice-diretor do Museu do Ipiranga de 2020 a 2024, no bicentenário da Independência e quando o museu foi reinaugurado após anos em obras.
Agora, na administração central da maior instituição de ensino superior do país, diz que pretende intensificar a relação entre universidade e sociedade. Propõe aprimorar a contribuição em políticas públicas e em iniciativas de inovação, além de melhorar a comunicação com o contribuinte, maior financiador da USP.
Homem de meia-idade com barba e óculos, vestido com terno escuro e gravata, sentado em banco de madeira diante de parede de blocos vazados. Folhagens verdes aparecem acima da parede ao fundo.
Amâncio Jorge de Oliveira, pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP (Universidade de São Paulo), na capital paulista; ele também é professor titular do Instituto de Relações Internacionais - Karime Xavier - 25.mar.22/Folhapress
"A chegada de pessoas negras em posições institucionais de liderança, em qualquer segmento da sociedade, é carregada de grande força simbólica. Na universidade não é diferente. A ascensão na carreira carrega um peso simbólico porque indica, para os jovens que estão chegando, perspectivas possíveis", afirma o docente à Folha.
Ele ressalta que no grupo pequeno de docentes negros há discrepância entre os que estão na base e os do topo da carreira. Para ele, a inclusão precisa ser discutida não apenas no ingresso à universidade, mas deve incluir a progressão de carreira e a criação de oportunidades dentro das instituições de ensino.
"Façamos, por exemplo, um comparativo da proporção de docentes pretos, pardos e indígenas na base da carreira e no topo da carreira. O problema da mobilidade fica flagrante. Um estudo na USP mostrou que ocorre exatamente o mesmo quando falamos de equilíbrio de gênero na carreira acadêmica."
A dificuldade de progredir no mundo acadêmico é sintoma dos percalços para ingressar como docente na maior instituição da América Latina. Segundo o anuário estatístico da USP de 2025, são apenas 3,4% de docentes pretos e pardos. Entre os discentes, são 24,5% os autodeclarados negros.
As declarações ecoam outra entrevista ao jornal em 2022. O docente afirmou à época ter passado por diversos episódios de racismo, desde uma pichação após a mudança para Ribeirão Preto até situações veladas, já quando servidor da universidade.
"Da minha entrada na universidade à ascensão a professor titular, o que mais ouvi foi 'desista, não é para você, esse não é o seu lugar'. Escutava isso em conversas com colegas e em outras ocasiões", afirmou à época.
Amâncio afirma que a relação da USP com a sociedade é um dos principais desafios da instituição, especialmente em meio aos impactos da reforma tributária no modelo de financiamento das instituições de ensino superior públicas. O estado precisará alterar dispositivo constitucional que reserva um valor do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços).
"Todos os indicativos políticos são positivos no sentido da manutenção do modelo de financiamento e do reconhecimento do papel das universidades públicas paulistas como elemento central para o desenvolvimento. Mas, ainda assim, é momento de 'prestações de contas'", atesta.
Por isso, argumenta ser fundamental um maior investimento em extensão, já que, segundo o professor, as universidades são instadas a demonstrar valor para a sociedade. Para ele, a USP precisa ser capaz de mostrar que produz inovação, tanto em tecnologia quanto no campo das políticas públicas, por exemplo.
"A criação do Escritório Ciência e Sociedade, no marco desta gestão, será também uma contribuição importante na interface entre a universidade e a sociedade", diz ele, citando novo órgão que pretende ser um espaço de compreensão das demandas da sociedade à instituição.
Ressalta ainda a importância dos museus como o primeiro ponto de contato entre a USP e a população, especialmente com crianças e adolescentes. Ele foi vice-diretor do Museu do Ipiranga de 2020 a 2024, período coincidente com o bicentenário da Independência e no qual o local foi reaberto ao público após nove anos em reforma.
Nascido no Recife e docente da universidade paulista desde 2002, ele fez graduação na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mas guinou a carreira acadêmica para as humanidades. Titulou-se doutor em ciência política, estudando a relação entre o empresariado brasileiro e as negociações para a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), proposta americana de integração comercial do continente.
A mudança não se deu porque não gostava de medicina. Amâncio se viu, na verdade, mais interessado nas questões sociais que rondavam a área clínica. Queria conhecer o histórico e a experiência dos pacientes, e gostava de entender os aspectos sociais da vida humana– o que o fez ter contato com obras de sociologia e política e o levou a seguir as ciências sociais em definitivo.
Escolheu a ciência política, e mais especificamente as relações internacionais, diante do momento de consolidação da democracia brasileira. A efervescência das discussões sobre a integração do comércio nas Américas o fez mergulhar no estudo das negociações internacionais, suas técnicas e dinâmicas.
Essa intensificação da discussão acadêmica sobre política externa ganhou tração antes em Brasilia, com a UnB (Universidade de Brasília), e chegou depois em outros polos acadêmicos do Brasil. Na USP, o curso de relações internacionais foi criado em 2001, um ano antes de Amâncio ingressar na instituição.
Como docente e em meio ao momento de criação de uma nova área na universidade, colaborou para o aperfeiçoamento da graduação em RI e para a criação da pós-graduação na área. Fundou um centro de estudo e análise das negociações internacionais em 2005. Em 2019, foi a vez de lançar uma escola de diplomacia científica que estuda a relação entre o intercâmbio de pesquisa e desenvolvimento e colabora para o desenvolvimento das relações entre países ou regiões.
A experiência na chefia de uma unidade da USP o levou ao Museu do Ipiranga. Era mais uma mudança de rumos, já que não teve contato com a museologia. Foi convidado para uma chapa à diretoria do museu pela professora Rosaria Ono, da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). Ela também estava interessada na capacidade de internacionalização do museu e interlocução com o setor privado.
Não foi fácil lidar com a importância do museu e com o fogo político em que a instituição estava envolvida —ele era mais um flanco da disputa entre o então governador de São Paulo, João Doria (ex-PSDB), e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"Todo mundo sabe que o Museu do Ipiranga é um patrimônio cultural do país. Não vai pegar bem fazer uso político de maneira mesquinha, não vai colar", afirmou Amâncio em 2022 à Folha, sem citar nomes.
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