sábado, 25 de abril de 2026

Marcelo de Paiva Abreu: “Não esquecer o que de fato importa” [a CORRUPÇÃO do PT] - artigo no Estadão (2016)

Mais um dos artigos de Marcelo de Paiva Abreu em sua coletânea montada a partir daqueles publicados no Estadão, de 1995 a 2016. Desta vez, ele trata da super corrupção do PT, o lado mais "brilhante" (digamos assim) do funcionamento do partido que prometia tirar dos ricos para dar aos pobres. Acho que não foi bem assim, mas vamos ler mais um artigo do grande economista historiador da PUC-Rio.


Marcelo de Paiva Abreu:
Não esquecer o que de fato importa” [a CORRUPÇÃO do PT]
O Estado de São Paulo, Quarta-feira, 13/04/2016

In: Da Gávea: Ensaios sobre o Brasil e a economia mundial, 1995-2016 (RJ: Eco-PUC-Rio, 2026), p. 49-50

Tão importante quanto apurar a extensão das práticas corruptas que se tomaram sistêmicas no Brasil do século 21 é a apuração da responsabilidade política para explicar a atual crise, sem precedentes na história, pelo menos desde a primeira década republicana. Embora nesta história não haja um só culpado, existem responsáveis principais. E é preciso uma visão bem distorcida da realidade para não colocar o foco na atuação de Luiz Inácio Lula da Silva. Dirigente máximo do Partido dos Trabalhadores (PT), foi vitorioso depois de quatro tentativas em eleições presidenciais. Juntou a pertinácia a outros atributos que permitiram a sua eleição: retirante nordestino, líder sindical renovador, fundador do partido que tinha compromisso com a justiça social.
Em 2002, e durante seu primeiro mandato, Lula seguiu à risca a Carta ao Povo Brasileiro e suscitou esperanças de que tivesse abandonado os estapafúrdios compromissos do PT, como os plebiscitos das dívidas, que tornariam o País simplesmente ingovernável.
Ledo engano. No segundo mandato, voltou a aflorar a opção por uma política macroeconômica, primeiro, imprudente e depois irresponsável, baseada na expansão de gastos e na generalização de subsídios. Paralelamente, escândalos como o mensalão avariaram seriamente qualquer pretensão que tivesse o PT de se apresentar como o partido que repudiava as práticas fisiológicas burguesas. O modelo de justiça social do PT mostrou-se dependente de práticas corruptas sistêmicas. Descobriu-se que Robin Hood cobrava comissões escorchantes.
Lula tratou de sobreviver à tempestade, mas optou por não fazer qualquer esforço sério de autocrítica quanto à forma de atuação do partido. Surfando no boom das commodities e no pré sal, tratou de administrar sua alta popularidade no Brasil e no exterior. A perda dos quadros mais importantes do PT, Dirceu e Palocci, nos embates de 2005-2006, e a impossibilidade de fazer aprovar um terceiro mandato levaram Lula ao dedazo de Dilma como candidata presidencial. Embora a presidente eleita em 2010 tenha confirmado a sua reputação de “poste”, em vista de sua obtusidade política, foi em relação à sua infundada reputação de “gerentona” que Dilma frustrou todas as falsas expectativas.
Revelou-se verdadeira anti-Midas: transformava tudo o que tocava em lixo. Decisões Da Gávea: Ensaios sobre o Brasil e a economia mundial, 1995-2016 lamentáveis afetaram a Petrobrás, o setor elétrico, os bancos públicos. Culminaram no estelionato eleitoral de 2014, com a falsificação de indicadores econômicos e financeiros, e na débâcle atual.
Dilma também se destacou pela inacreditável falta de faro na detecção de falcatruas. A generalização do petrolão fez o mensalão parecer uma história da Carochinha. Lula, que havia sobrevivido ao mensalão, está sendo agora investigado. E não é claro se quer ser ministro de Dilma para salvá-la ou para salvar-se. A situação econômica e política atual é terrível, mas nada impede que piore mais. A probabilidade de piora será menor se Lula, por seu retrospecto, for derrotado politicamente.
O cenário de sobrevivência de Dilma ao processo de impeachment e Lula tentando refundar o PT é bem improvável. O governo está para lá de capenga e dificilmente sobreviverá até 2018. Mas Lula não pode ser descartado como candidato em 2018. Seria a sobrevivência da desgraça. Mas no cenário que possa sobreviver às acusações de corrupção, Lula está fadado a enfrentar dificuldades quanto à sua ambiguidade. Para refundar qualquer coisa, teria de valorizar o seu lado Jekyll: líder sindical renovador, retirante bem-sucedido, entre outros atributos. Mas o lado de Lula que parece estar prevalecendo está mais para Hyde.
Mestre do escárnio, contador de lorotas sobre Atibaia e Guarujá, que se vangloria de ter a alma mais honesta do Brasil. Em momento algum tratou de criticar o mar de lama que submerge o País.
Continuamos, tristes, à espera de Godot.

(tem mais...)

 

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