As duas primeiras décadas do século XXI: resiliência das autocracias e tropeços da globalização?
Paulo Roberto de Almeida
No ano divisor entre dois séculos, e entre dois milênios, 2000, eu escrevi, em Washington, um trabalho que pretendia resumir o sentido de duas décadas extraordinárias no plano das transformações estruturais da economia e da politica mundiais e portadoras da capacidade de colocar os primeiros fundamentos econômicos de uma nova era:
“As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”.
Bem, quanto ao fim do socialismo — entendido no sentido marxista de modo de produção capaz de superar o modo capitalista de produção, — creio que não existe possibilidade de uma reversão no processo histórico: kaput, c’est fini, acabou e não se fala mais nisso (Cuba e Coreia do Norte talvez devessem ser preservadas ao abrigo do Protocolo sobre espécies ameaçadas de extinção para estudo dos futuros arqueólogos políticos). Mas no seu sentido puramente político, o socialismo era a forma de dominação mais propensa a alimentar autocracias, daí a esperança de que estivéssemos numa espécie de “fim da história” e que o futuro seria radioso em termos de reforço de uma ordem liberal. Nisso fomos frustrados e continuamos a ter desafios importantes a uma ordem global liberal, sobretudo quando a principal potência criadora e defensora dessa ordem liberal se volta contra ela e passa a promover um retorno aos imperialismos brutais do passado.
Quanto à globalização, eu diria que no seu sentido micro, como indutora de inovações e de mudanças continuas no “modo de produção capitalista” (o que sobreviveu nos últimos séculos), ela não só se manteve como contínua em sua marcha transformadora do mundo. Mas, em seu sentido macro, aquela induzida ou sustentada pelos Estados e entidades multilaterais, essa enfrenta percalços no seu desenvolvimento e expansão. Mas nada que venha a obstaculizar sua essência mudancista.
Conclusão: parece que está na hora de retomar o espírito analítico e propor uma nova avaliação no sentido proposto ao início desta nota, com algum título talvez mais otimista.
O trabalho citado é este aqui:
749. “As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”, Washington, 21 set. 2000, 68 p. Revisão completa do trabalho n. 519, para servir como novo capítulo 8 do livro organizado por Flávio Saraiva, Relações internacionais contemporâneas. Publicado em José Flávio Sombra Saraiva, Relações internacionais: dois séculos de história, v. II: Entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias) (Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, IBRI; Fundação Alexandre de Gusmão, FUNAG; Coleção Relações Internacionais, 2001, v. II, p. 91-174). Republicado (sem atualização) In: José Flávio Sombra Saraiva (org.), História das Relações internacionais Contemporâneas: da sociedades internacional do século XIX à era da globalização (2a. revista e atualizada; São Paulo: Editora Saraiva, 2006, p. 253-316; ISBN: 85-88270-03-X); disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42863126/As_duas_ultimas_decadas_do_seculo_XX_fim_do_socialismo_e_retomada_da_globalizacao_2006_ ). Relação de Publicados n. 292.
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 27/04/2026
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