A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco
Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco*. Org. Arno Wehling e Rogério Faria Tavares. Editora Miguilin, 2026.
Jurista, político, memorialista, ensaísta — Afonso Arinos de Melo Franco é figura das mais versáteis da cultura brasileira do século XX. Menos lembrado é o fato de que ele deu contribuições duradouras à historiografia econômica do país. São três os livros nesse campo: uma breve síntese da história econômica do Brasil, que chegou aos bancos escolares país afora; um estudo sobre a formação do patrimônio histórico-material do país, que se tornou referência para o Iphan; e uma história do primeiro Banco do Brasil, amplamente considerada o principal registro da fase inicial das finanças brasileiras.
## Das aulas na UDF às conferências em Montevidéu
Em 1936, Arinos aceitou o convite do reitor Afonso Pena para lecionar História do Brasil na recém-criada Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira. Após debater o programa com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, seus colegas na UDF, Arinos estruturou a história do Brasil em ciclos econômicos: pau-brasil, açúcar, ouro, café e, finalmente, indústria. Dois anos depois, em janeiro de 1938, Arinos foi a Montevidéu representar o Brasil num curso internacional de férias organizado pelo Ministério da Instrução do Uruguai. San Tiago Dantas fazia parte da mesma delegação — dois intelectuais, não diplomatas de carreira, como Arinos fez questão de sublinhar. De suas três conferências, baseadas no curso para a UDF, resultou, ainda naquele ano, a *Síntese da história econômica do Brasil*.
Em 1941, Rodrigo Melo Franco de Andrade — primo do autor e criador do Sphan (atual Iphan) — o convidou a ministrar cinco conferências para os técnicos do serviço. Delas nasceu, em 1944, o *Desenvolvimento da civilização material no Brasil*.
O terceiro livro tem origem peculiar. Ao ingressar no Banco do Brasil também em 1936 como advogado, Arinos recebeu, em fins de 1942, a incumbência de escrever a história da instituição. O trabalho foi árduo: dois assistentes pesquisaram jornais, avulsos e publicações do Primeiro Reinado e da Regência. Mas a publicação foi interrompida: Arinos foi um dos idealizadores do *Manifesto dos mineiros* de 1943, que defendia a restauração da democracia, e Getúlio Vargas o aposentou compulsoriamente do banco. O livro só saiu em 1947.
## *Síntese da história econômica do Brasil* (1938): os ciclos que foram à escola
A *Síntese* é um livro enxuto — 65 páginas na edição original —, mas com grande apelo pedagógico. Nela, Arinos propõe que a economia brasileira pode ser considerada em ciclos sucessivos, cada um com um núcleo dominante: pau-brasil, açúcar, ouro, café. A abordagem facilitou a organização da história do Brasil em fases claras, e sua adoção em livros escolares foi ampla.
Arinos acreditava ser pioneiro nessa abordagem. Não era inteiramente: Normano, em 1935, já falava em “produtos-rei”, e Simonsen usava livremente o termo “ciclo” em seu curso na Escola Livre de Sociologia na década de 1930. A originalidade de Arinos foi centrar toda a análise da história econômica brasileira na sucessão desses ciclos.
Seja como for, obras posteriores trilharam caminhos distintos e de maior impacto intelectual. Caio Prado Jr., em *Formação do Brasil contemporâneo* e em *História econômica do Brasil*, deslocou o foco para a evolução dos modos e relações sociais de produção — com a marca marxista que o caracterizava.Celso Furtado, em *Formação econômica do Brasil*, foi ainda mais “economicista”, organizando o livro estritamente em torno de conceitos econômicos, sem qualquer referência a “superestrutura política”.
Ainda assim, a *Síntese* de Arinos foi um marco. Antecipou estudos mais abrangentes, destacou a complexa relação entre economia, sociedade e política na formação do Brasil, e ofereceu uma visão integrada e acessível que permanece de interesse para os estudiosos da historiografia econômica.
## *Desenvolvimento da civilização material no Brasil* (1944): pedra e cal
O título pode enganar o leitor contemporâneo. “Civilização material” hoje remete à obra monumental de Fernand Braudel, que a usou para designar a economia de subsistência e o cotidiano pré-mercantil. Caio Prado Jr. usou a expressão em sentido diferente: o conjunto das atividades econômicas do país.
Arinos a usa em sentido distinto de ambos. Para ele, “civilização material” é o objeto de trabalho do Sphan: o patrimônio histórico material do país — engenhos, igrejas, fortes, armazéns, casas rurais e operárias, câmaras e fazendas de café, caminhos e estradas. “Pedra e cal”, no jargão patrimonialista.
O livro conduz o leitor por uma viagem do século XVI ao século XIX, mostrando o lento povoamento do país, o surgimento de feitorias e cidades, o desenvolvimento das técnicas de produção e dos transportes. O tom coloquial do texto é convite à leitura.
Há um ponto discutível: na primeira conferência, Arinos afirma que o desenvolvimento da civilização material do país é de base portuguesa, pois os elementos negro e indígena seriam de difícil identificação. Essa conclusão soa estranha do ponto de vista econômico, pois desconsidera que foi com a mão de obra escravizada de indígenas e africanos que se construiu, em larga medida, o patrimônio material do país. A arquitetura poderá ter sido portuguesa, mas a engenharia foi obra das três raças — para usar a terminologia inadequada dos anos 1940.
As conferências de Arinos impactaram fortemente a gestão do patrimônio no Brasil. Permitiram visualizar os bens e conjuntos urbanos a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes regiões do país, orientando os técnicos do Sphan na seleção do que deveria integrar o patrimônio histórico e artístico nacional.
## *História do Banco do Brasil (Primeira fase: 1808-1835)* (1947): crônica de um fracasso anunciado
É o mais encorpado dos três livros — 279 páginas, afora cinco grandes tabelas em anexo — e o único que envolveu pesquisa original extensiva. Nas palavras do historiador português José Luís Cardoso, oferece “um dos mais rigorosos e completos registros sobre a primeira fase da história bancária brasileira”. Caio Prado Jr. o definiu como “trabalho minucioso, que oferece um histórico seguro e bem traçado da fase inicial das finanças brasileiras”.
O banco foi criado por D. João VI em 1808 como banco emissor e de crédito — mas, na prática, serviu essencialmente para financiar a Coroa. Os poucos balanços disponíveis demonstram que o grosso de suas atividades consistia em empréstimos ao governo, financiados pela emissão de suas próprias cédulas. Era reduzida a atividade de desconto de letras privadas, o que lhe rendeu pouco apoio político e imprensa francamente desfavorável.
Dado o estado fortemente deficitário das contas do governo — tanto sob D. João VI quanto sob D. Pedro I —, a emissão de cédulas para financiar déficits levou à depreciação progressiva do papel-moeda. Em 1821, as moedas de ouro tinham um prêmio de 28% em relação às cédulas do Banco. Em 1831, por ocasião da liquidação, esse prêmio havia chegado a 210%.
A desvalorização dos bilhetes veio acompanhada de corridas ao banco, intervenções policiais e enorme alvoroço parlamentar. O desfecho foi a liquidação em 1829, processo que se arrastou por mais seis anos.
Arinos acompanha essa odisseia passo a passo, com riqueza de detalhes sobre os debates parlamentares, sua repercussão na imprensa, e algumas histórias paralelas deliciosas. Sua conclusão é que o progresso econômico do país não poderia prescindir de institutos provedores de crédito — e que a liquidação do banco foi um grave erro. Já em 1833 o governo tentou criar um segundo Banco do Brasil, sem sucesso; o segundo banco só viria em 1853, em condições políticas e econômicas mais propícias.
## Conclusões
Cada um à sua maneira, os três livros de Arinos deram contribuições importantes para o conhecimento do passado brasileiro. A *Síntese* mantém seu interesse para os estudiosos da historiografia econômica. O *Desenvolvimento* continua a ser saborosa viagem de descoberta do patrimônio material do país. A *História do Banco do Brasil* impressiona por sua pesquisa original e por nos expor, na pena leve e culta de Arinos, as entranhas financeiras e políticas do turbulento período em que a colônia se fez nação.
Jurista, político, memorialista e ensaista consagrado, Arinos deixou um legado sobre a história econômica do Brasil menos celebrado do que merece. Vale a pena redescobri-lo.
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