Mostrando postagens com marcador Substack. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Substack. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Novidade Monstruosa: Frankenstein, de Mary Shelley - Martim Vasques da Cunha (Substack)

 A Novidade Monstruosa

Um ensaio (completamente) inédito sobre o livro "Frankenstein", de Mary Shelley
MARTIM VASQUES DA CUNHA, APR 10

Alexandre Desplat on Creating the Score for Frankenstein with Guillermo del Toro | Netflix - YouTube
Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe, aí está o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate edifícios, desenraiza as árvores, suspende montanhas de água no mar, destrói falésias e arremessa grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que sopra, que geme, que ruge – o senhor o viu, pode vê-lo? No entanto, ele existe.

O abade, em “O Horla (segunda versão)”, de Guy de Maupassant.

1. Desde a juventude até a morte, Mary Shelley (1797-1851) ouviu apenas uma única pergunta em sua vida, uma pergunta que, de início, a irritava profundamente, mas depois acostumou-se a ela e decidiu que teria de respondê-la mais cedo ou mais tarde: “Como teria eu, então uma jovem, chegado a uma ideia tão horripilante e, depois, a elucubrar tão longamente sobre ela?”.

Os dois aspectos temporais do trecho acima – “então” e “tão longamente” – mostram que, na mente de Shelley, havia algo que a obcecava nessas décadas todas. Não era o fato do livro que surgiu da noite tenebrosa em que Lorde Byron a impeliu a escrever uma história de horror – o hoje mítico Frankenstein, ou: o Prometeu Moderno, escrito em 1816 e publicado em 1818 – se tornou um tremendo sucesso entre os leitores, influenciando o imaginário europeu; muito menos o próprio encontro em si, quando ela, uma moça precoce de 18 anos de idade, acabara de se casar com outro poeta famoso, Percy Shelley, dividiu uma casa em Genebra, na Villa Diodati, com o marido e Byron, e em um divertissement concebido numa madrugada fria e cheia de trovoadas, se sentia a pessoa menos importante daquele triângulo.

A sua obsessão particular, se podemos chamá-la assim, foi a descoberta de algo novo, uma novidade que deve ser classificada como monstruosa e a qual, articulada em um símbolo poderosíssimo (como a de uma Criatura nascida de restos de cadáver e ressuscitada por meios científicos próximos da magia negra), foi também vislumbrada pelos outros dois participantes presentes naquela mansão – sim, nunca é demais repetir: Byron e Shelley – e marcaram igualmente a vida e a obra de ambos.

Lorde Byron (1788-1824), ou George Gordon para os íntimos, era então a celebridade mais famosa daquele movimento literário que enfurecia a Europa chamado Romantismo (apelidado assim porque seus maiores idealizadores – Schelling, Coleridge, Fichte, Wordsworth, entre tantos que viviam na Alemanha e na Inglaterra – acreditavam recuperar a concretude verbal dos romanos, por meio do latim, em contraposição ao racionalismo filosófico dos Iluministas, em particular os franceses). Nobre decadente, na verdade, com pouco dinheiro nas algibeiras, ainda assim conseguia transitar com desenvoltura na alta sociedade britânica, e tinha um talento métrico fora do comum. Seus poemas têm uma força melódica impressionante, aliada a um conhecimento de formas poéticas que vão do épico (Don Juan, de 1819-22) até o intimista (a elegia “Darkness”, ou “As Trevas”, concebida em 1816, justamente na época do encontro com Percy e Mary Shelley e que veremos em breve), passando pelo autobiográfico (Childe Harold’s Pilgrimage, de 1812 a 1819). Se há um tema que unifica essa variedade de gêneros é o de que o ser humano é capaz de reformar a realidade, seja pelos meios políticos, pelos meios amorosos e até mesmo pelos meios luciferinos.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822) se via como um discípulo direto de Byron, e talvez estivesse certo, se não fosse o fato de que ele era infinitamente superior em talento e em vocação, comparado ao seu mestre. Era um poeta no sentido pleno da palavra, um verdadeiro vate, certamente alguém próximo do visionário, capaz de jogar com a flexibilidade dos versos ao modo de um Shakespeare ou de um John Milton, além de de refletir sobre os mistérios do real, antecipando-os verbalmente, como fica evidente ao lermos Prometeu Desacorrentado (1817, criado como complemento ou resposta ao Frankenstein de Mary), os sonetos brilhantes ao modo de “Ozymandias” (1819, uma meditação aguda sobre a futilidade do poder terreno) e o épico inacabado que é O Triunfo da Vida (1822). Em sua obra, o que lhe dá unidade é o vislumbre de que o mundo, apesar de petrificado pela máquina da modernidade, ainda é capaz de ser reencantado na sua origem, seja pelas mãos do próprio homem (mesmo que isto esteja fadado ao fracasso) ou por forças subterrâneas que atuam no mundo como se fossem “espectros” ou daimonion, demônios que nos apossam e que nos transformam em meros receptáculos dos desejos deles.

Percy e Mary Shelley, junto com Lorde Byron, eram a trupe insólita formada na Villa Diodati, quando no dia 16 de junho de 1816 (segundo alguns estudiosos, o que dá margem para ser um evento simétrico ao Bloomsday posteriormente celebrado por James Joyce em Ulysses), os três se reuniram (havia também o Dr. John Polidori e a irmã de Mary, Claire, respectivamente o médico e a amante de Byron) para aquela competição que já se tornou clichê na mente dos aficionados dos livros e dos filmes de horror (Ken Russell tiraria sarro disso em seu filme incompreendido, Gothic, de 1986): segundo o relato da própria Mary, foi num “verão úmido e desagradável, em que a chuva incessante com frequência nos confinava durante dias em casa”, quando, ao se divertirem com histórias macabras (entre elas, os trechos iniciais de Hamlet), a conversa “avançou noite dentro” e então Byron sugeriu o seguinte: “Cada um de nós escreverá uma história de fantasmas; e sua proposta foi acatada”.

Reparem que, ao contrário do que dizem por aí, Byron pediu uma “história de fantasmas”, e não uma “história de monstros”. Polidori escreveu um conto chamado “O Vampiro”, que teria suas ramificações mais famosas em outra obra célebre escrita por Bram Stoker (vocês sabem qual é, correto?), mas obviamente fracassou porque se recusou a atender o preceito. Shelley esboçou algumas linhas, daí desistiu (em compensação começaria a rascunhar o Prometeu Desacorrentado); Byron nem se mexeu, como bom superstar que era; e Mary e Claire ficaram batendo a cabeça entre si, incessantemente, tudo para agradar os dois grandes homens ali presentes em suas vidas.

2. A caçula Claire (um ano mais nova) idolatrava Mary acima de tudo, quando ambas eram filhas (ou enteada por parte do pai, no caso da primeira) de William Godwin e Mary Wollestonecraft, intelectuais britânicos de clara influência iluminista – e fiéis daquela seita informal que girava ao redor do genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O nome de Rousseau é importante porque ele é uma das chaves de leitura para entender corretamente Frankenstein...
(...)
O resto para os pagantes...

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco - Edmar Bacha (Substack)

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco

Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco*. Org. Arno Wehling e Rogério Faria Tavares. Editora Miguilin, 2026.

Jurista, político, memorialista, ensaísta — Afonso Arinos de Melo Franco é figura das mais versáteis da cultura brasileira do século XX. Menos lembrado é o fato de que ele deu contribuições duradouras à historiografia econômica do país. São três os livros nesse campo: uma breve síntese da história econômica do Brasil, que chegou aos bancos escolares país afora; um estudo sobre a formação do patrimônio histórico-material do país, que se tornou referência para o Iphan; e uma história do primeiro Banco do Brasil, amplamente considerada o principal registro da fase inicial das finanças brasileiras.

## Das aulas na UDF às conferências em Montevidéu

Em 1936, Arinos aceitou o convite do reitor Afonso Pena para lecionar História do Brasil na recém-criada Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira. Após debater o programa com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, seus colegas na UDF, Arinos estruturou a história do Brasil em ciclos econômicos: pau-brasil, açúcar, ouro, café e, finalmente, indústria. Dois anos depois, em janeiro de 1938, Arinos foi a Montevidéu representar o Brasil num curso internacional de férias organizado pelo Ministério da Instrução do Uruguai. San Tiago Dantas fazia parte da mesma delegação — dois intelectuais, não diplomatas de carreira, como Arinos fez questão de sublinhar. De suas três conferências, baseadas no curso para a UDF, resultou, ainda naquele ano, a *Síntese da história econômica do Brasil*.

Em 1941, Rodrigo Melo Franco de Andrade — primo do autor e criador do Sphan (atual Iphan) — o convidou a ministrar cinco conferências para os técnicos do serviço. Delas nasceu, em 1944, o *Desenvolvimento da civilização material no Brasil*.

O terceiro livro tem origem peculiar. Ao ingressar no Banco do Brasil também em 1936 como advogado, Arinos recebeu, em fins de 1942, a incumbência de escrever a história da instituição. O trabalho foi árduo: dois assistentes pesquisaram jornais, avulsos e publicações do Primeiro Reinado e da Regência. Mas a publicação foi interrompida: Arinos foi um dos idealizadores do *Manifesto dos mineiros* de 1943, que defendia a restauração da democracia, e Getúlio Vargas o aposentou compulsoriamente do banco. O livro só saiu em 1947.

## *Síntese da história econômica do Brasil* (1938): os ciclos que foram à escola

A *Síntese* é um livro enxuto — 65 páginas na edição original —, mas com grande apelo pedagógico. Nela, Arinos propõe que a economia brasileira pode ser considerada em ciclos sucessivos, cada um com um núcleo dominante: pau-brasil, açúcar, ouro, café. A abordagem facilitou a organização da história do Brasil em fases claras, e sua adoção em livros escolares foi ampla.

Arinos acreditava ser pioneiro nessa abordagem. Não era inteiramente: Normano, em 1935, já falava em “produtos-rei”, e Simonsen usava livremente o termo “ciclo” em seu curso na Escola Livre de Sociologia na década de 1930. A originalidade de Arinos foi centrar toda a análise da história econômica brasileira na sucessão desses ciclos.

Seja como for, obras posteriores trilharam caminhos distintos e de maior impacto intelectual. Caio Prado Jr., em *Formação do Brasil contemporâneo* e em *História econômica do Brasil*, deslocou o foco para a evolução dos modos e relações sociais de produção — com a marca marxista que o caracterizava.Celso Furtado, em *Formação econômica do Brasil*, foi ainda mais “economicista”, organizando o livro estritamente em torno de conceitos econômicos, sem qualquer referência a “superestrutura política”.

Ainda assim, a *Síntese* de Arinos foi um marco. Antecipou estudos mais abrangentes, destacou a complexa relação entre economia, sociedade e política na formação do Brasil, e ofereceu uma visão integrada e acessível que permanece de interesse para os estudiosos da historiografia econômica.

## *Desenvolvimento da civilização material no Brasil* (1944): pedra e cal

O título pode enganar o leitor contemporâneo. “Civilização material” hoje remete à obra monumental de Fernand Braudel, que a usou para designar a economia de subsistência e o cotidiano pré-mercantil. Caio Prado Jr. usou a expressão em sentido diferente: o conjunto das atividades econômicas do país.

Arinos a usa em sentido distinto de ambos. Para ele, “civilização material” é o objeto de trabalho do Sphan: o patrimônio histórico material do país — engenhos, igrejas, fortes, armazéns, casas rurais e operárias, câmaras e fazendas de café, caminhos e estradas. “Pedra e cal”, no jargão patrimonialista.

O livro conduz o leitor por uma viagem do século XVI ao século XIX, mostrando o lento povoamento do país, o surgimento de feitorias e cidades, o desenvolvimento das técnicas de produção e dos transportes. O tom coloquial do texto é convite à leitura.

Há um ponto discutível: na primeira conferência, Arinos afirma que o desenvolvimento da civilização material do país é de base portuguesa, pois os elementos negro e indígena seriam de difícil identificação. Essa conclusão soa estranha do ponto de vista econômico, pois desconsidera que foi com a mão de obra escravizada de indígenas e africanos que se construiu, em larga medida, o patrimônio material do país. A arquitetura poderá ter sido portuguesa, mas a engenharia foi obra das três raças — para usar a terminologia inadequada dos anos 1940.

As conferências de Arinos impactaram fortemente a gestão do patrimônio no Brasil. Permitiram visualizar os bens e conjuntos urbanos a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes regiões do país, orientando os técnicos do Sphan na seleção do que deveria integrar o patrimônio histórico e artístico nacional.

## *História do Banco do Brasil (Primeira fase: 1808-1835)* (1947): crônica de um fracasso anunciado

É o mais encorpado dos três livros — 279 páginas, afora cinco grandes tabelas em anexo — e o único que envolveu pesquisa original extensiva. Nas palavras do historiador português José Luís Cardoso, oferece “um dos mais rigorosos e completos registros sobre a primeira fase da história bancária brasileira”. Caio Prado Jr. o definiu como “trabalho minucioso, que oferece um histórico seguro e bem traçado da fase inicial das finanças brasileiras”.

O banco foi criado por D. João VI em 1808 como banco emissor e de crédito — mas, na prática, serviu essencialmente para financiar a Coroa. Os poucos balanços disponíveis demonstram que o grosso de suas atividades consistia em empréstimos ao governo, financiados pela emissão de suas próprias cédulas. Era reduzida a atividade de desconto de letras privadas, o que lhe rendeu pouco apoio político e imprensa francamente desfavorável.

Dado o estado fortemente deficitário das contas do governo — tanto sob D. João VI quanto sob D. Pedro I —, a emissão de cédulas para financiar déficits levou à depreciação progressiva do papel-moeda. Em 1821, as moedas de ouro tinham um prêmio de 28% em relação às cédulas do Banco. Em 1831, por ocasião da liquidação, esse prêmio havia chegado a 210%.

A desvalorização dos bilhetes veio acompanhada de corridas ao banco, intervenções policiais e enorme alvoroço parlamentar. O desfecho foi a liquidação em 1829, processo que se arrastou por mais seis anos.

Arinos acompanha essa odisseia passo a passo, com riqueza de detalhes sobre os debates parlamentares, sua repercussão na imprensa, e algumas histórias paralelas deliciosas. Sua conclusão é que o progresso econômico do país não poderia prescindir de institutos provedores de crédito — e que a liquidação do banco foi um grave erro. Já em 1833 o governo tentou criar um segundo Banco do Brasil, sem sucesso; o segundo banco só viria em 1853, em condições políticas e econômicas mais propícias.

## Conclusões

Cada um à sua maneira, os três livros de Arinos deram contribuições importantes para o conhecimento do passado brasileiro. A *Síntese* mantém seu interesse para os estudiosos da historiografia econômica. O *Desenvolvimento* continua a ser saborosa viagem de descoberta do patrimônio material do país. A *História do Banco do Brasil* impressiona por sua pesquisa original e por nos expor, na pena leve e culta de Arinos, as entranhas financeiras e políticas do turbulento período em que a colônia se fez nação.

Jurista, político, memorialista e ensaista consagrado, Arinos deixou um legado sobre a história econômica do Brasil menos celebrado do que merece. Vale a pena redescobri-lo.


Não blefe com alguém que não sabe desistir - Arnaud Bertrand (Substack)

Não blefe com alguém que não sabe desistir

 arnaudbertrand.substack.com/p/dont-bluff-someone-who-cant-fold  

Arnaud Bertrand

9 de abril de 2026

A guerra contra o Irã ainda não acabou, mas parece que, na verdade, podemos estar diante de uma das maiores derrotas da história dos Estados Unidos e de Israel.

Como Ben Rhodes, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, disse: “É difícil perder uma guerra tão curta de forma tão abrangente.” Yair Lapid, ex-primeiro-ministro de Israel e líder da oposição, afirmou que “nunca houve um desastre político como este em toda a nossa história” e chamou-o de “colapso estratégico”.

Rhodes e Lapid estão certos. A magnitude dos danos que os EUA e Israel causaram a si mesmos em tão pouco tempo — e o quanto o Irã ganhou — é realmente impressionante.

Quero dizer, que loucura é essa: o JP Morgan calculou que, de acordo com o novo acordo de pedágio de Ormuz (que os países do Golfo confirmaram ser permitido no plano de cessar-fogo), o Irã pode obter US$ 70 a 90 bilhões em receita anual adicional, representando impressionantes 20% de seu PIB em receita extra. Curiosamente, Trump comentou no Truth Social que o acordo significa que “muito dinheiro será ganho” e que “o Irã pode iniciar o processo de reconstrução”. É verdade: eles conquistaram a renda geográfica mais valiosa do mundo, por uma margem enorme. Para comparação, o Canal de Suez rende ao Egito “apenas” US$ 9 a 10 bilhões/ano, e o Canal do Panamá cerca de US$ 5 bilhões.

Impressionante.

Impressionante também é a sequência de eventos. Na noite de terça-feira, Trump estava — aparentemente — à beira de lançar uma bomba nuclear no Irã, postando que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, apenas para basicamente se render poucas horas depois, concordando em negociar a paz com base no plano de 10 pontos do Irã (que ele chamou de “base viável”) — um plano que não faz praticamente nenhuma concessão aos EUA e representa uma vitória quase total para o Irã. Para ser justo, tratando-se de Trump, não está claro se ele sequer entendeu o que é o plano de 10 pontos do Irã, mas ele confirmou desde então que aceita o princípio de uma taxa iraniana no Estreito de Ormuz (embora agora diga que prefira que seja uma “joint venture” com os EUA).

O que levou disso a isso é uma incógnita — minha suposição é que ele tentou um último blefe gigantesco, e o Irã ainda assim não vacilou. O motivo, porém, não importa muito; o que importa mais é a mensagem que isso transmite: como afirma Jennifer Kavanagh, ex-diretora do programa de Estratégia do Exército da RAND (o think tank de defesa mais influente dos EUA): ao “elevar tanto as apostas de antemão, ele maximizou o dano à [...] percepção global do poder dos EUA”. Ela acrescentou: “esta é uma clara derrota estratégica para os EUA”

Há um ditado famoso no pôquer: “Não blefe contra alguém que não pode desistir.” No entanto, foi exatamente isso que Trump fez. O Irã literalmente não podia desistir. Sua própria sobrevivência como Estado dependia de não capitular. Portanto, a ameaça de Trump foi o pior tipo possível de blefe — apostas máximas, contra um adversário sem saída.

 

Quando não funcionou, ele se viu — tolamente, inteiramente por sua própria culpa — preso entre duas opções impossíveis: cumprir a ameaça e se tornar a figura mais odiada da história moderna (ainda mais do que já é), ou desistir. Ele desistiu.

As implicações geopolíticas são quase grandes demais para serem contempladas.

Em primeiro lugar, correndo o risco de afirmar o óbvio, isso tornaria o Irã a potência dominante no Oriente Médio:

O país ao qual todos os outros agora precisam prestar homenagem pelo privilégio de exportar seus recursos naturais

O país que derrotou os EUA e Israel em pouco mais de um mês

O país que provou ser capaz de, sozinho, sufocar a economia global

O país que provou ser capaz de atacar todos os Estados do Golfo, bem como Israel, e que os EUA não poderiam fazer absolutamente nada para protegê-los

O país que, sozinho, pôs fim à “liberdade de navegação”, a vantagem estratégica mais importante das Forças Armadas dos EUA

O país que sobreviveu a todos os truques possíveis — ataques de decapitação, tentativas de revolução apoiadas pela CIA, instrumentalização de divisões étnicas, operações psicológicas constantes e guerra de informação — e saiu do outro lado mais forte e mais unido do que antes

Como diz o ditado, o que não te mata te fortalece. Com esta guerra, acabamos de testemunhar o (re)nascimento de uma grande potência: agora são a China, a Rússia, os EUA… e o Irã.

Foi isso que argumentei em meu artigo anterior intitulado “A primeira guerra multipolar” (que envelheceu muito bem!): que esta guerra estava revelando o Irã como um verdadeiro polo de poder — um que não pode ser subjugado por outros. O que parecia uma afirmação ousada há três semanas é agora simplesmente a descrição factual do que aconteceu.

Outra consequência provável, que sem dúvida ficará mais clara nas próximas semanas, é que as relações entre os EUA e Israel estão fadadas a ser fundamentalmente remodeladas pelas consequências da guerra, ou pelo menos deveriam ser.

O New York Times publicou na terça-feira um relato extraordinariamente detalhado de “como Trump levou os EUA à guerra com o Irã”, no qual explica que essa foi, essencialmente, uma situação de “a cauda balançando o cachorro”, com Netanyahu tendo conseguido persuadir Trump a entrar na guerra em uma apresentação confidencial na Sala de Situação em 11 de fevereiro.

De acordo com o relato, Netanyahu prometeu que “o programa de mísseis do Irã poderia ser destruído em semanas”, que o governo ficaria “tão enfraquecido que não poderia bloquear o Estreito de Ormuz”, que “a probabilidade de o Irã desferir golpes contra os interesses dos EUA nos países vizinhos era mínima” e que protestos de rua — fomentados pela Mossad — levariam a uma mudança de regime. Apesar do diretor da CIA, John Ratcliffe, ter chamado essas alegações de “ridículas”, Trump se convenceu e seguiu em frente.

O resultado que todos testemunhamos hoje: absolutamente tudo o que Netanyahu previu para Trump acabou se revelando errado. As alegações de Netanyahu eram, de fato, ridículas.

Uma advertência justa: por se tratar do New York Times, devemos ter cuidado ao aceitar a matéria pelo valor nominal. O NYT é, antes de tudo, um veículo para a construção de narrativas da elite — e, com tais narrativas, a questão mais interessante raramente é o que está sendo dito em uma determinada matéria (o que muitas vezes é errado ou enganoso), mas por que uma matéria é uma matéria em primeiro lugar.

O “porquê” aqui é difícil de ignorar: com razão ou sem razão, a narrativa está sendo montada para fazer de Israel o bode expiatório — Trump e o establishment de segurança dos EUA têm pouca influência nessa história; eles são vítimas infelizes enganadas por um líder estrangeiro manipulador.

 É uma história conveniente: a culpa recai sobre o exterior, o establishment mantém sua credibilidade — TODOS se opuseram à guerra (sendo o fracasso, como se sabe, um órfão) — e ninguém precisa fazer perguntas mais difíceis sobre o que poderia levar a um erro estratégico tão desastroso.

O que significa que o terreno político está mudando sob a “relação especial”, o que já ficou evidente pelo fato de que, como Yair Lapid apontou em seu post, Israel nem sequer estava à mesa quando Trump decidiu decretar o cessar-fogo e negociar com base no plano de 10 pontos do Irã.

Acima de tudo, porém, a consequência mais dramática desta guerra é o que ela significa para o poder dos EUA.

Como argumentei em meu artigo anterior, esta guerra é qualitativamente diferente de outras guerras dos EUA nas últimas décadas, como Vietnã, Afeganistão, Líbia, Iraque, Sérvia, etc. (a lista é, infelizmente, muito longa). Nessas guerras, o padrão era basicamente sempre o mesmo, com uma imensa diferença de poder entre agressor e vítima. Eram guerras imperiais, o império tentando esmagar um povo muito mais fraco cujo único recurso realista era a resistência guerrilheira.

Como escrevi, como espectadores dessas guerras, se você tivesse algum senso moral, a emoção dominante era uma espécie de repulsa impotente: você estava vendo um gigante pisoteando a casa de outra pessoa.

Esta guerra não foi nada assim: surpreendentemente, o Irã conseguiu se manter firme simetricamente e taticamente contra os Estados Unidos e Israel. Essa é uma diferença absolutamente crucial, pois muda o que significa perder. Quando os EUA perderam no Vietnã ou no Afeganistão, foi embaraçoso, mas, no fim das contas, administrável — o gigante saiu de lá com o ego ferido, e o mundo deu de ombros. Impérios perdem para guerrilheiros às vezes; isso não diz muito sobre a capacidade do império de travar uma guerra de verdade.

Mas perder simetricamente — perder quando seus caças stealth mais avançados são abatidos do céu, suas bases militares são neutralizadas em todo o teatro de operações, seus sistemas de defesa antimísseis mais avançados são destruídos, seu inimigo assume o controle da via navegável mais estratégica do mundo, sua marinha não consegue reabri-la e seus “aliados” são bombardeados impiedosamente apesar de sua “proteção” — isso é um tipo de derrota totalmente diferente.

Isso diz ao mundo que o gigante não é mais tão gigante assim.

Está se tornando clichê dizer isso, mas imagine uma guerra convencional contra a China neste momento. Os EUA conseguiram resistir 40 dias contra o Irã: quanto tempo durariam contra a China? O próprio Pete Hegseth admitiu que a China poderia “afundar todos os porta-aviões dos EUA nos primeiros 20 minutos de um conflito”. E esse é um homem que, como o Irã deixou claro, superestima ENORMEMENTE o poder das Forças Armadas dos EUA.

Concretamente, isso significa que o próprio conceito de ser um “aliado” dos Estados Unidos tornou-se completamente sem sentido: de que adianta ser protegido por alguém que obviamente não pode protegê-lo?

Isso também significa, porém, que o inverso é igualmente verdadeiro, e talvez ainda mais consequente: o Irã acaba de provar que você não precisa de um protetor, para começar.

Aqui está um país que está sob sanções devastadoras há mais de quatro décadas, isolado da tecnologia ocidental, incapaz de comprar um único caça avançado — e acabou de lutar contra os EUA e venceu. Fez isso com mísseis produzidos internamente, defesas aéreas de fabricação própria e tecnologia de drones desenvolvida localmente. A lição para todas as potências de médio porte do mundo é extremamente óbvia: se o Irã consegue fazer isso nessas condições, praticamente qualquer um consegue.

Tive uma espécie de discussão com um amigo jornalista no início do conflito, que argumentou que a China não estava sendo uma boa “aliada” do Irã por não se juntar à luta ao lado deles. Um argumento também hilariamente apresentado pelo ex-embaixador dos EUA na China, Nicholas Burns, que literalmente zombou da China no início do conflito por ser o que ele chamou de “um amigo irresponsável” ao não ajudar o Irã a repelir os americanos. Isso diz muito sobre o quão sociopatas as elites americanas se tornaram, a ponto de um alto funcionário dos EUA zombar de uma grande potência com armas nucleares por não entrar em guerra com os Estados Unidos…

Eu ouvi novamente o que respondi ao meu amigo na época (em uma mensagem de voz no WhatsApp no dia 2 de março):

Você tem uma grande suposição aí: que o Irã vai perder. Eu não apostaria nisso. Pode ser o que você está dizendo, com o precedente estabelecido de que “resista aos Estados Unidos e seu destino estará selado” se, de fato, o Irã perder feio. Mas também pode ser que, desta vez, os iranianos dissuadam, em certa medida, os americanos, e então o precedente exatamente oposto esteja sendo estabelecido.

Além disso, talvez os iranianos simplesmente tenham algum senso de dignidade, querendo não depender de ninguém e traçar seu próprio caminho independentemente de qualquer outro ator.

De Gaulle tinha essa ótima citação de que os americanos tendem a confiar no que é brando em vez do que é sólido, no sentido de que eles realmente insistem que seus “aliados” sejam vassalos e representantes, não aceitando qualquer forma de independência. Isso fomenta fraqueza e brandura, sendo a União Europeia um exemplo muito claro disso. A abordagem de não ter aliados que a China está adotando é certamente muito menos gentil com aliados em potencial, porque é como se dissesse “você está por conta própria, lide com isso” — talvez eu esteja exagerando, mas há um pouco disso —, mas, por outro lado, também gera força.

Alguns países se oporão aos EUA, não porque sejam encorajados pela China, pela Rússia ou por qualquer outra coisa, mas simplesmente porque não querem ser vassalos de ninguém. A abordagem dos EUA fomenta a oposição porque insiste em ter representantes e vassalos, e a abordagem chinesa, que é o oposto disso, não fomenta a oposição à China porque todos ficam felizes em se limitar ao comércio. E isso também gera — a longo prazo — força, porque você precisa confiar em si mesmo, então precisa ser forte.

E aqui estamos nós, cinco semanas depois, com o Irã comprovando meu argumento além de tudo que eu poderia imaginar. Eles não precisaram da China para travar sua guerra. Eles precisaram de si mesmos — isso foi o suficiente, e torna o que cada vez mais parece uma vitória incontestável ainda mais honrosa e significativa.

Essa é a lição mais profunda da guerra, e a que tem a meia-vida mais longa: o modelo chinês de relações internacionais, em que os países se mantêm em pé com sua própria soberania em vez de se amontoarem sob o guarda-chuva de outra nação, acaba de receber a validação empírica mais espetacular da história moderna.

A distinção de De Gaulle entre o que é flexível e o que é sólido nunca foi tão vívida: o sistema de vassalagem dos EUA produziu Estados do Golfo que não conseguiam defender suas próprias refinarias; a lógica da autossuficiência produziu um Irã capaz de enfrentar os EUA e vencer.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Letter from Brasília: The Other War: Evacuating civilians from a war zone - Sergio Eduardo Moreira Lima Substack

Letter from Brasília

The Other War
Evacuating civilians from a war zone and what diplomats do while the bombs fall.
Sergio Eduardo Moreira Lima
Substack, mar 02, 2026
https://substack.com/home/post/p-189533142

Moments after an Israeli air strike destroyed several buildings in Dahia. Beirut, Lebanon. August, 2006. © Paolo Pellegrin | Magnum Photos
As I write, American and Israeli warplanes are striking targets across Iran. Tehran is burning. Iranian military is retaliating against US bases across the Gulf, in Qatar, Bahrain, the United Arab Emirates.
There are, no doubt, civilian casualties. According to the Iranian Red Crescent, over 500 people have been killed across Iran. More than 130 cities are under attack. The Iranian authorities claim a girls' school has been struck. The Doomsday Clock, which the Bulletin of the Atomic Scientists has been advancing closer and closer to midnight, has ticked forward. Fears of a wider conflict grow: Hezbollah has launched rockets and drones at Israel in retaliation for Khamenei's killing, and Israel has begun striking across Lebanon.

I know what is happening right now in embassies across the region, because I have lived it. Not the missiles. The other war. The one that never makes the news. The phone calls at three in the morning. The negotiations with a government that is simultaneously your host and may become the source of the danger. The weight of thousands of lives on your decisions, made in exhaustion and fear, with no guarantee that any of it will work.

Thanks for reading Letter from Brasília. Subscribe here:

pralmeida@me.com
password
pralmeida@me.com
Subscribe
Buses in the Bekaa Valley
I was Brazil’s ambassador to Israel from 2003 to 2007. In my first year, I was also accredited to Palestine. I arranged the opening of our office in Ramallah before a separate representative took over. It was, as anyone who has tried it knows, an impossible dual brief.

When I arrived in 2003, it was just before the Iraq war broke out. Because Israel was a potential target for Saddam Hussein’s Scud missiles, we worked with Brasília to prepare contingency plans to evacuate the Brazilian community if needed. We had to identify the leaders of our community quietly, without scaring people and revealing that we had a plan, because we did not know for sure what was coming. The anti-missile systems were being deployed everywhere. The Iron Dome was being developed then in cooperation with the Americans. We prepared for the worst, and the worst, that time, did not come.

It came later. In the summer of 2006, just as I was preparing to leave for my next posting in Norway, war broke out between Israel and Hezbollah. Israel invaded Lebanon. And the problem was no longer Brazilians in Israel. It was Brazilians in Lebanon.

To understand why there were thousands of Brazilians in the Bekaa Valley, you have to understand the depth of the connection between Brazil and Lebanon. In the nineteenth century, Brazilian Emperor Pedro II travelled to the Middle East and was captivated by what he found. His letters from Beirut survive to this day. The ties he fostered meant that whenever instability struck the Ottoman Empire, Syrian and Lebanese people came to Brazil. They prospered in São Paulo. Their success attracted more. Today, Brazil has the largest Lebanese diaspora in the world, larger than the population of Lebanon itself. We have had a president of Lebanese descent, Michel Temer. Brazilian Congress is known for the lobbying of Jewish and Sírio-Lebanese members. These groups believe that Brazil can make a difference. At least, have the diplomatic and historical credentials to do so. In 1947, Oswaldo Aranha’s presidency of the United Nations General Assembly was important for the creation of Israel. When Israeli bombs fell on the Bekaa Valley, they hurt people carrying Brazilian passports, people with grandchildren in São Paulo.

We had to get them out. Most were concentrated near the frontier with Syria. Brazil had established a provisional consular office in the Bekaa Valley. The shortest route to leave the conflict area was into Syria, half an hour across the border. Everyone wanted this solution. My colleague, the Brazilian ambassador in Beirut, understood it was a dangerous choice. I told the Foreign Minister that Israel’s Air Force had warned the military attaché: if buses cross into Syria, they will be targets. We suspected that they believed Hezbollah would infiltrate the convoy.

So we negotiated a route through Turkey instead, more than ten hours through unstable territory. Brazilian flags were put on the roofs of the buses. We shared the names of every passenger and the GPS coordinates of every vehicle with the Israeli government. And then, through the night, from midnight until five or six in the morning, I sat in the Residence in Herzliya Pituach, close to Tel Aviv, on the phone to the Israeli authorities, to our ambassador in Beirut, to the Brazilian Office in the Bekaa Valley, and with the Foreign Ministry in Brasília, all at once, waiting to learn whether the convoy would make it through safely.

I was exhausted. But the exhaustion was nothing compared to the fear and responsibility. We knew that other convoys, including United Nations vehicles, had been hit. The stakes could not have been higher.

But the Brazilian nationals were spared. About two thousand people, driven ten hours through the dark with flags on the roof, because a negotiation conducted in good faith held.

Dizengoff Square
I tell this story today because it illustrates something that the footage of missiles cannot show: that diplomacy is not the absence of action. It is the hardest kind of action there is.

During my years in Israel, I tried to build rather than merely observe. We organized a celebration of Brazilian Independence Day, the 7th of September, in Dizengoff Square in central Tel Aviv. Twenty thousand people came, at a time when bombings were a regular occurrence. The Israeli authorities provided security. The Hebrew press covered it widely. I was told nothing like it had ever been done before: a foreign ambassador filling the centre of Tel Aviv with a celebration, in the middle of a crisis.

We cultivated relationships across the divide. I met with Ariel Sharon. With Yasser Arafat. I built a close friendship with Shimon Peres, who, when we left, wrote that I had “kept my finger closely on Israel’s pulse, sensitive to its moods, watching its developments, sharing in its pain.” We acquired paintings by Brazilian-Israeli artists for the embassy. We worked, always, to reflect the full complexity of the region. Not to take sides, but to build bridges.

When we left Israel in October 2006, I published a book, A Time for Change, compiling my writings from the posting. Peres wrote that between the Iraq war at the start of my tenure and the Hezbollah war at the end, I had gained “a first hand experience of a region in turmoil, but on a quest for peace.”

That quest, as of this morning, is in serious danger.

The Failure of Good Faith
When I heard the news over the weekend, my first thoughts were for the Iranian People, and the Brazilian community in Iran, in Israel, across the region. The Ministry of Foreign Affairs issued guidance immediately. This is what we do: we protect our citizens. It is the most basic function of the state.

But behind that practical concern lies something that troubles me more deeply. It is the failure, once again, to create peace between peoples. True peace exists when there is dialogue, when there is cooperation, when trust is built over time. If you impose your will on others through brute force, you do not create peace. You perpetuate conflict.

What troubles me most is the sequencing. Talks between the United States and Iran were underway in Geneva only days ago. And now there are bombs. When diplomacy and force follow one another so closely, trust collapses. Negotiation depends on the presumption that dialogue is not simply a prelude to escalation. If that presumption disappears, the space for diplomacy shrinks dramatically.

One hopes that discussions were pursued sincerely, even amid deep mistrust. But when talks are followed almost immediately by strikes, the perception, fair or not, is that dialogue was instrumental rather than genuine. And once that perception takes hold, future negotiations become harder, riskier, and more fragile.

I watched Netanyahu closely during my years in Israel. He was a shrewd politician. Even then, 2003, 2004, 2005, he was already insisting that Iran was the existential threat, the nuclear danger that justified everything. It was his mantra then, and it is his mantra now. The settler movement, the wars in Lebanon and Gaza, and now this strike on Iran: they belong to the same logic. The vision of a Greater Israel that has driven Likud from the beginning. An Israeli friend once showed me a map comparing the original thirteen American colonies to the present-day United States, and said: this is our future too. Expansion by whatever means necessary.

The Iranian regime is a brutal oppressive theocracy. But, according to international law, President Trump should not bomb Iran, kill its authorities and tell the Iranian people to “take over your government.” I will not speculate on what this language means to Americans. I can tell you what it means to a Brazilian diplomat: it is the message of force dressed as liberation. We have heard it before, many times, in many places.

The Brazilian School
Our school, the Brazilian diplomatic tradition, is one of law, peace, and dialogue. It has a basis in our history. Brazil shares borders with ten countries, and every one of those frontiers was settled by negotiation, not war, through the application of principles drawn from Roman law, argued by skilled diplomats and lawyers. The result is a degree of stability in South America that you will hardly find in any comparable situation where one nation borders so many others.

Brazil fought in both World Wars, the only Latin American country to do so. We developed a close relationship with the United States. Roosevelt wanted Brazil on the Security Council. The United States was the first country to recognize in 1824 our independence, and is a close partner and traditionally Brazil’s largest source of foreign direct investment. Thousands of American companies operate in Brazil. Our relationship is deep and structural. But within that relationship, Brazil has always worked to permeate unilateralism with the principles of law, to build multilateral frameworks that constrain the exercise of raw power.

Look at Europe. A continent that had wars every ten years is now at peace. How do you explain peace between France and Germany? That is what law and a logic of peace and cooperation can build.

I was asked today whether the rules-based order has broken. I do not believe it can. It is under immense strain, but it will hold. The majority of the world, particularly in developing countries, countries whose existence is built on law rather than force, has no alternative but to work toward diplomatic solutions. Our societies, our academies, our people must understand the strength of peace and the strength of law.

War destroys. But what is built through law — civilization, cooperation, principle — endures. It always has. These are stronger foundations than anything force can achieve.

The Call at Three in the Morning
Somewhere right now, in an embassy in Tehran or Doha or Manama, a diplomat is on the phone. Sharing the names of their citizens, drafting an agreement that the military may or may not honour. Placing flags on buses. Negotiating a route through hostile territory. They have little power. No strategic leverage, no missiles, no aircraft carriers. What they have is training, preparation, and the belief that even in the middle of catastrophe, the principles hold. Negotiate in good faith. Share information. Protect civilians. Hold to the law even when the powerful have abandoned it.

In the Bekaa Valley in 2006, a convoy of buses with Brazilian flags on their roofs drove ten hours through the dark and made it through. That happened because diplomacy worked. Not perfectly, but enough. It was a small but important victory — not the kind that makes the news.

In the long run, what is built through law is stronger than that which is destroyed by force. I have believed this my entire career. Whether the world still believes it after this week will determine what comes next.

This essay is the first in the series Letter from Brasília, based on a conversation with Luke Scheybeler recorded on 1 March 2026.

Brasília / London / 2 March 2026

Thanks for reading Letter from Brasília! Subscribe for free to receive new posts and support my work.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

How Beijing used state planning to build a scientific powerhouse - Hua Bin (Substack)

 « Inspired by the technical progress of the super powers, on March 3, 1986, four scientists from the Chinese Academy of Sciences (CAS) wrote a letter to suggest the program to Deng Xiaoping, who approved it within 2 days. »

https://huabinoliver.substack.com/p/how-beijing-used-state-planning-to 


How Beijing used state planning to build a scientific powerhouse

Introducing four decades-long Chinese national programs to promote basic research and groom talents

Hua Bin

Substack, Oct 9, 2025


China is producing more STEM graduates, publishing more high impact research papers, and filing for more patents than any other country today.

People are amazed with the seemingly sudden outburst of Chinese scientific and technological prowess. But few understand how this has happened.

I’ll dive into some arcane programs launched since Deng’s reform to explore the root of such progress. Unlike the Made in China 2025 plan or the Belt and Road Initiative, these are barely known outside of the country, even unfamiliar to many Chinese. However, their impact is profound and directly power the more visible high-profile programs.

Program 863

Program 863 (863计划 in Chinese), also known as State High-Tech Development Plan, was a program launched in March 1986 (86/3 in Chinese date format hence the name) to stimulate development of advantaged technologies in a wide range of fields.

The goal was to achieve technological independence amid superpower competition.

In 1983, US president Ronald Reagan proposed the Strategic Defense Initiative (SDI) and technological competition between the US and the USSR drastically intensified.

Inspired by the technical progress of the super powers, on March 3, 1986, four scientists from the Chinese Academy of Sciences (CAS) wrote a letter to suggest the program to Deng Xiaoping, who approved it within 2 days.

Those four scientists were Wang Daheng (optical physicist and founder of China’s optical engineering field), Wang Ganchang (nuclear physicist and leader of the nuclear weapons program), Yang Jiachi (aerospace engineer and father of China’s space programs), and Chen Fangyun (electrical engineer, pioneer in radio electronics, and leader of the Beidou satellite system).

The program was led by Zhao Ziyang, the Premier of the country at the time, and received a governmental fund of RMB 10 billion, which accounted for 5% total government spending in 1986.

In 2001, under the 10th Five Year Plan (2001–2005), the program was reevaluated and widened its focus to strengthen the country’s competitiveness in the global economy.


The program specifically focused on nine key technological fields:


- Space

- Information Technology

- Laser technology

- Automation

- Telecommunications

- Biotech

- Energy

- New materials

- Marine tech


Among the products to have directly resulted from Program 863 are the Loongson computer processor family, the Tianhe supercomputers, and the Shenzhou spacecraft.

Many other foundational technological indigenization projects broke earth as part of Program 863,


Program 973

973 Program (973计划), also known as National Basic Research Program, is a basic research program initiated by the State Science and Education Steering Group to achieve technological and strategic edge in various scientific fields and especially the development of the rare earth minerals industry.

The program was launched in March 1997 as a flagship initiative to advance fundamental scientific research.

The goal is to align innovations and technologies with national priorities in economic development, resource security, and technological independence to support the national strategy of “revitalizing the country through science and education” (科教兴国).

The program was managed by the Chinese Ministry of Science and Technology. Natural Science Foundation of China is involved in coordinating the research with the program whose key objectives are -

- Foster basic research: emphasize foundational studies that drive breakthroughs in applied sciences, rather than immediate commercial applications

- Build capacity: train top-tier scientists, establish high-level research bases, and enhance China’s global innovation edge

- Support national priorities: target areas critical to China’s development, such as sustainable resources and public health

Over the years the program has dedicated funding to areas such as agriculture, health, information, energy, environment, resources, population and materials.

The program has funded diverse fields, with central government support for multi-year projects. Major themes include:

- Agriculture – crop resilience, food security

- Health & Population – disease mechanisms, public health modeling

- Energy – renewable sources, efficient utilization

- Information Technology – AI foundations, data systems

- Environment & Resources – pollution control, rare earth minerals extraction and processing

- Materials Science – advanced composites, nanomaterials

- Oceans & Climate - Indo-Pacific oceanic channels, ecosystem responses to climate change (e.g., nutrient fluxes in the East China Sea)


By 2014, it had supported projects in synthetic biology, microbial engineering, and more, leading to over 9 dedicated initiatives in emerging fields like “microbial manufactures.”

Institutions like Tsinghua University have received funding for multiple projects.

Program 973 has been pivotal in elevating China’s R&D landscape, contributing to breakthroughs that underpin sectors like high-tech manufacturing and environmental sustainability.

It’s often credited with helping China close gaps in global science competitiveness.

During the 10th Five-Year Plan, the program adopted a “people-oriented” approach to boost innovation. Funding periods shifted from up to 5 years to a “2+3” model (initial 2 years, followed by assessment and up to 3 more years).

Program 863 and Program 973 were absorbed into the National Key R&D Program in 2016.


Project 211

Project 211 was initiated in 1995 by the Ministry of Education, to strengthen around 100 key universities and colleges for the 21st century and raise them to academic standards at top global universities. The total university count in China is roughly 3,200.

The project aimed to cultivate high-level talent, enhance national research capacity, and improve China’s overall competitiveness by providing funding and top-tier equipment to designated universities.

The project eventually included 115 universities and included high ranking institutions such as Tsinghua University, Wuhan University, and Fudan University.

The Chinese government invested significant funding and provided top-notch teaching and research equipment to these institutions.

Universities under Project 211 were responsible for a large percentage of China’s doctoral and graduate training, state-level key subjects, and scientific research activities.

Among the 12 million high school graduates who took the national college entrance exam (Gaokao), those universities are regarded as the holy grail for economic and social mobility.

In essence, Project 211 was a strategic investment by the Chinese government to build world-class academic institutions and foster national talent for the new century.


Project 985

Project 985 was a higher education initiative launched by the Chinese government in May 1998 to develop an even more select group of top-tier universities than Project 211 into “world-class” institutions.

The project was announced on May 4, 1998, during Peking University’s centennial celebration, with President Jiang Zemin’s personal endorsement.

This is the most prestigious group of schools in the country. Initially only 9 universities were included and now expanded to 39 top universities. All universities in Project 985 were also included in the earlier Project 211.

The program objective is defined as “cultivating leaders and researchers to compete internationally and address national priorities like tech independence and sustainability”.

The central and local governments allocated massive funding to the universities included in Project 985. This money was used to build new research facilities, improve existing infrastructure, attract top faculty, and increase international exchange and cooperation.

The project dramatically increased the international competitiveness and research output of the participating universities. It is widely credited with significantly boosting the quality of higher education and research in China.


The project went through 3 phases –

- Phase 1 (1999–2008): focus on infrastructure, faculty recruitment, and research capacity with substantial initial funding. For example, Peking and Tsinghua each received RMB 1.8 billion in the first year of the project

- Phase 2 (2009–2016): Emphasize global rankings, interdisciplinary research, and international collaboration

- Phase 3: integration. By 2017, Project 985 and Project 211 were merged into the “Double First-Class University Plan”, which broadened the focus to include more institutions and disciplines while maintaining the elite status of 985 universities.

The result of Project 985 was the emergence of elite universities such as Peking, Tsinghua, Zhejiang, Fudan, Shanghai Jiaotong, and Harbin Institute of Technology that are now world leaders in engineering, computer science, robotics, aerospace, and medicine.

These universities lead in patents, publications, and breakthroughs in AI, quantum computing, and green energy. They produce a significant share of China’s PhDs, researchers, and industry leaders.

Project 985 was a cornerstone of China’s ambition to rival global academic powerhouses like the Ivy League or Oxbridge.

Every one of the “Project 985 universities” is ranked among the top 100 global research institutions in the Nature Index ranking I wrote about in the last article.


https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xSju!,w_1300,h_650,c_fill,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep,g_auto/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F77f6a7a8-eb90-4da8-b61e-7deb6d3ffd13_600x371.png 


[Nature Index’s latest global science ranking

Hua Bin - Oct 7

Earlier this year, I wrote about the prestigious Nature magazine’s 2024 Nature Index ranking of global research institutions based on the quantity and impact of their research output in high end science journals. 

https://huabinoliver.substack.com/p/whose-universities-are-better-china ]

Even today, when Project 985 is officially completed, the prestige of a “985 degree” is still highly regarded in Chinese society by employers and even prospective spouses.

Together with Program 863 and Program 973, which funded specific basic research projects across institutions, Project 211 and Project 985 focused on institutional development—buildings, labs, faculty, and research publication.

The 985 and 211 universities often lead 863 and 973-funded projects due to their advanced research infrastructure. For example, Tsinghua has led numerous 863 and 973 projects in materials science and AI, leveraging resources as a participant of Project 985.

Interestingly, over the past 4 decades, Tsinghua’s engineering schools also graduated a large portion of the top leadership in the Chinese government, including President Xi, his predecessor President Hu Jingtao and former Premier Zhu Rongji.


Postagem em destaque

Intelectuais na diplomacia brasileira: a cultura a serviço da nação, organização Paulo Roberto de Almeida

Intelectuais na diplomacia brasileira: a cultura a serviço da nação Organização: Paulo Roberto de Almeida (Rio de Janeiro: Francisco Alves; ...