Mostrando postagens com marcador Substack. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Substack. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de julho de 2026

A valorização do café e seu amargo legado - Edmar Bacha (Substack

 A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ E SEU AMARGO LEGADO

As tarifas de Trump sob a ótica da centenária política brasileira do café

Em entrevista recente, comparei as tarifas de Trump com a política de valorização do café do Brasil (Bacha, 2025). Argumentei que ambas poderiam ser vistas como tentativas de exploração do poder de monopólio para melhorar as relações de troca do país. Acrescentei que tais políticas poderiam funcionar no curto prazo — seja aumentando os preços das exportações, no caso do Brasil, seja reduzindo os preços das importações, no caso dos EUA — mas que, no longo prazo, acabavam voltando-se contra o próprio país, pois o poder de monopólio se diluía ao longo do tempo, restando apenas as distorções provocadas por seu exercício.

Esta reflexão sobre os limites do poder de monopólio nas relações comerciais tem especial relevância para o Brasil. Afinal, fomos pioneiros de uma das mais longevas tentativas de exploração desse poder na história econômica mundial. 

No início do século XX, Brasil era café e café era Brasil – e foi aí que teve início a política de valorização do produto, com o Acordo de Taubaté de 1906. Quase no final daquele século, a Federação Brasileira dos Exportadores de Café declararia que o Brasil não mais dependia do café e que o mundo não mais dependia do café brasileiro – e foi aí, em 1990, que se fechou o Instituto Brasileiro do Café (IBC).

No entremeio, decorreram quase cem anos da história econômica do país, marcados pela ascensão, auge e declínio da política de valorização do café — o mais importante marco de política econômica continuada de nossa história. Foi também responsável pela introdução do verbo valorize e do substantivo valorization na língua inglesa. Diz o dicionário Merriam-Webster’s (1998, p. 1305), em tradução livre:

valorize vt ... [Pg. valorizar...] (ca. 1906): aumentar ou tentar aumentar o preço, valor ou status de, por uma ação organizada e geralmente governamental <usando subsídios para valorizar o café> — valorization, s.”

A palavra “subsídio” deve ser entendida em sentido amplo, pois a valorização do café consistiu, tradicionalmente, na compra e estocagem pelo governo dos chamados excedentes de produção, a preços predeterminados, usando para isso uma combinação de impostos, empréstimos externos e financiamentos oficiais.

Em 1992, escrevi uma monografia sobre o papel histórico do café na economia brasileira (Bacha, 1992 [2012]). A monografia trata da expansão da produção desde o século XIX, mas enfatiza a política de valorização iniciada em 1906. Ela detalha a evolução dessa política ao longo do século XX, até sua extinção em 1990, no governo Collor.

A monografia propõe inicialmente uma reavaliação do comportamento dos preços do café no século XIX. Mostra que houve um desequilíbrio fundamental entre o rápido crescimento da demanda mundial e o lento crescimento da oferta, o que fez com que o preço real do café apresentasse uma tendência de aumento secular, de meados da década de 1840 até o final da década de 1880.

Delfim Netto (1959 [1979, p. 28]) sustenta que foi o salto dos preços nominais provocado pela bolha do Encilhamento (1889-1891) que gerou a superprodução da década de 1890. Em contraste, meu texto argumenta que a causa do excesso de produção foi a tendência de aumento secular dos preços reais do café — em libras esterlinas de poder de compra constante — ao longo da segunda metade do século XIX. Essa tendência, não captada pelos dados nominais de Delfim Netto – que não levam em conta a deflação de preços na Inglaterra --, foi parcialmente mascarada por acentuadas variações cíclicas, que o autor enfatizou. A extraordinária melhoria das relações de troca brasileiras de 1840 até 1890 é documentada em artigo recente de Bacha, Tombolo e Versiani (2025).

A superprodução fez os preços do café baixarem muito a partir de 1896. A valorização do café foi a resposta a essa baixa, em um contexto em que o Brasil respondia por 70% das exportações mundiais.

Introduzida em 1906, a valorização manteve-se como característica da política brasileira do café até 1990. Ao Acordo de Taubaté sucederam-se a segunda e a terceira valorizações, respectivamente em 1917 e 1921. Em 1924, a valorização se tornou “permanente” com a criação do Instituto Paulista para a Defesa Permanente do Café.

Essa política, entretanto, não resistiu à debacle de preços causada pela crise mundial de 1929. Foi então substituída pela queima de 80 milhões de sacas de café, conduzida pelo Departamento Nacional do Café, criado por Getúlio Vargas em 1933.

Durante a 2ª Guerra, os preços do café foram congelados em níveis atrativos pelos EUA. Depois, elevaram-se mais ainda com o boom mundial associado à Guerra da Coreia.

Quando os preços começaram a cair, Getúlio Vargas, novamente no poder, retomou a valorização em 1952 com a criação do IBC, que passou a regular tanto o mercado interno quanto o externo — neste último caso, por meio de sucessivos Acordos Internacionais.

Criticada por Delfim Netto e Andrade Pinto (1965), em razão das perdas de mercado para os concorrentes, a valorização ainda deu um último suspiro no governo Geisel. Acabou, finalmente, no governo Collor, com a extinção do IBC e a suspensão das cláusulas econômicas do Acordo Internacional do Café.

Graças à política de valorização, o café conseguiu escapar da tese de Prebisch (1950) sobre a tendência secular de queda dos preços relativos dos produtos primários. Enquanto os preços reais de quase todas as outras commodities tenderam a cair, isso não ocorreu com o café. De fato, a relação entre os preços do café e um índice geral de commodities triplicou ao longo do século XX.

Apesar disso, a avaliação da política é bastante negativa. Por causa da valorização, o café se manteve como produto de exportação dominante por mais um século, ao mesmo tempo em que o Brasil perdia participação no mercado mundial. De 70% no início do século XX, a participação caiu para 20% ao final da política. Esse foi um dos legados centrais.

No entretempo, outros produtos nacionais além do café tiveram enorme dificuldade de competir nos mercados estrangeiros. Esses produtos se tornaram “gravosos”, na linguagem da época — ou seja, sua exportação implicava ônus ou prejuízo. Pois o preço em dólares do café era muito atrativo e a taxa de câmbio se mantinha sobrevalorizada.

Em consequência, a participação das exportações totais no PIB reduziu-se dramaticamente: de cerca de 20% em 1906, quando a valorização foi introduzida, para apenas 6,5% em 1964, quando o café perdeu sua posição dominante nas exportações brasileiras. Paradoxalmente, uma política que supostamente se destinava a maximizar a receita de curto prazo das exportações resultou, no médio prazo, numa crônica escassez de divisas.

Essa escassez teve como contrapartida a chamada política do similar nacional: produtos com similar produzido no Brasil não eram importados. Por outro lado, esses similares não conseguiam ser exportados devido a seus altos preços e baixa qualidade. Gerou-se, assim, uma indústria voltada quase exclusivamente para o mercado interno.

As divisas geradas pelo café eram reservadas para a importação de insumos e bens de capital dessa indústria. Durante longo período, isso se fez por controles quantitativos e licenciamento das importações. Mais tarde, por câmbios múltiplos que favoreciam as importações “essenciais”. E, enfim, por tarifas elevadas, das quais se isentam bens de capital, informática e telecomunicações sem similar nacional.

Em nível ideológico, havia uma hostilidade permanente entre a elite rural, que reclamava contra uma indústria “artificial” – porque não derivava de matérias primas locais --, e a elite urbana, que clamava que a proteção era necessária para industrializar o país. Mas as elites se aliavam na defesa da taxa de câmbio apreciada, pois ela valorizava o café e reduzia os custos dos insumos importados pela indústria. Essa postura foi apoiada por sucessivos governos, que tradicionalmente usaram o câmbio como âncora para os preços internos.

Desenvolveu-se, então, uma aliança implícita entre os interesses dos cafeicultores e os dos industriais. Essa aliança derrotou a tentativa do ministro da Fazenda de Café Filho, José Maria Whitaker, em 1954, de acabar com a política de valorização e com o sistema de taxas múltiplas de câmbio, introduzindo um câmbio flutuante unificado.

Foi a derrota de uma visão de crescimento apoiada na diversificação das exportações e o triunfo da visão oposta — explicitada no mandato de Juscelino Kubitschek --, de aprofundar a substituição de importações e manter a supremacia do café nas exportações brasileiras.

Essa supremacia deixou de existir a partir de meados da década de 1960, quando, às custas de fortes subsídios, as exportações industriais ganharam fôlego. Esses subsídios, entretanto, se tornaram ilegais com a assinatura pelo Brasil do Código de Subsídios do GATT em 1979.

Mais tarde, a ascensão da China no comércio mundial reduziu os preços dos produtos manufaturados e elevou os das commodities, gerando a chamada reprimarização das exportações brasileiras.

Hoje, outras commodities assumiram o protagonismo na pauta de exportações, e o Brasil já não depende do café. Mas o setor industrial, em processo de encolhimento, continua voltado para dentro, incapaz de competir nos mercados externos.

Além da introversão da indústria, a política de valorização também esteve associada a uma extraordinária concentração do poder econômico no Estado de São Paulo. Tanto o café valorizado quanto a indústria protegida tiveram nesse Estado o seu habitat natural.

Amargo, de fato, foi o legado da política de valorização do café. Assim como deve ocorrer com as tarifas de Trump, políticas que exploram supostos poderes de monopólio podem parecer eficazes no curto prazo, mas revelam-se custosas e insustentáveis no longo prazo.

Referências

BACHA, E. L. Política brasileira de café: uma avaliação centenária. In: Edmar Bacha e Robert Greenhill. 150 Anos de Café. Rio de Janeiro: Salamandra Consultoria Editorial S.A./Marcellino Martins & E. Johnston, 1992. p. 13-133. Reeditado com revisões em Edmar Bacha, Belindia 2.0. Civilização Brasileira, 2012. p. 305-408.

BACHA, E. L. “A era da incerteza e o trumpeconomics de inspiração dilmista” (entrevista para Cristiano Romero). Vero Notícias, 18/08/2025. https://veronoticias.com/entrevistas/a-era-da-incerteza-e-o-trumpeconomics-de-inspiracao-dilmista/

BACHA, E. L.; TOMBOLO, G. A.; VERSIANI, F. R. “Secular stagnation? A new view on the Brazilian economy in the 19th century”. Revista de Historia Económica/Journal of Iberian and Latin American Economic History, 2025, pp. 1–30 doi:10.1017/S021261092510058X.

DELFIM NETTO, A. O Problema do Café no Brasil. Boletim n. 5. São Paulo: Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo, 1959. Reproduzido pela Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), 1979.

DELFIM NETTO, A. e ANDRADE PINTO, C. A. O Café do Brasil: Vinte Anos de Substituição no Mercado Internacional. Estudos ANPES n. 3, São Paulo, dezembro de 1965.

MERRIAM-WEBSTER’S Collegiate Dictionary – 10ª. ed. Springfield, MA: Merriam-Webster, Inc., 1998.

PREBISCH, R. The Economic Development of Latin America and its Principal Problems. Nova York: Nações Unidas, 1950.

sábado, 27 de junho de 2026

What the West doesn’t still understand about Russia - Olga Lautman (Substack)

What the West doesn’t still understand about Russia

Olga Lautman

Substack, June 26, 2026


Over the past few months, Western media have been flooded with headlines speculating that Vladimir Putin is under growing pressure, that a coup may be brewing, or that his grip on power is finally beginning to weaken. As Ukraine continues raising the costs of Russia’s genocidal war, systematically exposing vulnerabilities the Kremlin spent decades trying to hide, many are once again asking the same familiar questions: Could the regime be approaching a breaking point? Who might eventually replace Putin? And what comes after him?

Every time another one of those headlines appears, or someone asks me those questions, I give the same response. After repeating it for years, I decided to sit down and explain it in detail because it remains one of the biggest misconceptions shaping how journalists, policymakers, and people who closely follow Russia think about the country. Far too much of the analysis coming out still views Russia through a Western lens, assuming its institutions function like ours or that changing the face of the Kremlin somehow changes the system.

One of the things I have been saying for years is that Putin did not create this system. He is a symptom of a system that created the likes of Stalin, Brezhnev, and others. Long before Putin entered politics, Russia’s security services had already spent generations perfecting repression, bloody imperial conquests, information warfare, active measures, assassinations, agents of influence, corruption as an instrument of statecraft, and the systematic elimination of anyone viewed as a threat to the state. Putin inherited those institutions, strengthened and modernized them, and adapted them for the twenty-first century, but he definitely did not invent them. To understand Russia, you have to stop looking only at the man sitting behind the desk inside the Kremlin and start looking at the system that has survived tsars, revolutions, the collapse of the Soviet Union, and every leader who came before him.

The continuity becomes difficult to ignore once you begin looking for it. Even before the Bolsheviks seized power, the Tsarist Okhrana—the Russian Empire's secret police established in the late 1800s—had already developed an extensive security apparatus built around surveillance, infiltration, informants, political repression, covert operations, counterintelligence, espionage, and crushing dissent. The Bolsheviks seized it and simply expanded it. Felix Dzerzhinsky's Cheka institutionalized terror inside the country on an unprecedented scale before evolving into the GPU, NKVD, KGB, and eventually today's FSB and SVR. The names and uniforms changed, but the governing principles remained the same.

The security services were never simply intelligence agencies. They were the backbone of the Russian state. Another point Western policymakers have consistently failed to understand is that Russia’s security services are not the equivalent of Western intelligence or law enforcement agencies because they perform a fundamentally different role within the Russian state.

Over the course of more than a century, they embedded themselves into virtually every aspect of Russian society, extending their influence far beyond intelligence collection into politics, the military, law enforcement, the judiciary, state corporations, strategic industries, banking, the private sector, organized crime, the media, academia, think tanks, culture, the Church, and countless other institutions.

The same continuity can even be seen in institutions that many people would never associate with intelligence services. Long before the Bolsheviks seized power, the Russian Orthodox Church had already become deeply intertwined with the Tsarist state, with the Okhrana using clergy, informants, and church networks to monitor dissent and reinforce loyalty to the empire. After the Revolution, that relationship was violently dismantled as the new regime massacred thousands of clergy, burned, looted, and demolished churches, confiscated church property, and waged one of history's largest campaigns of state-sponsored persecution.

Joseph Stalin, an atheist, continued that persecution for years before abruptly reversing course during World War II, not because he suddenly discovered faith, but because he recognized the Church's value as another instrument for mobilizing patriotism, strengthening national unity during wartime, and projecting Soviet influence. The Church was restored under the watchful eye of the NKGB and, later, the KGB, which placed it firmly under state control by recruiting clergy, cultivating loyal hierarchies, and using religious institutions for intelligence gathering, espionage, influence operations, and propaganda both at home and abroad.

That relationship did not disappear with the collapse of the Soviet Union. It simply adapted once again. Today, the Moscow Patriarchate, led by Patriarch Kirill, who served the KGB during the Soviet era under the codename “Mikhailov,” remains one of the Kremlin's most effective tools of influence across Europe, the Balkans, the U.S., Africa, and beyond. Investigations in multiple countries have documented Russian Orthodox churches being used for espionage, influence operations, propaganda, and, in some cases, providing cover and logistical support for Russian intelligence officers.

The same pattern repeats itself throughout Russian history. Long before anyone had heard the phrase “hybrid warfare,” Soviet intelligence was cultivating agents of influence, financing front organizations, forging documents, interfering in democratic politics, manipulating foreign media, and conducting some of the largest disinformation operations. One example, decades before social media existed, was Operation INFEKTION, which falsely blamed the United States for creating AIDS. Today’s information warfare is not something Putin invented, but an evolution of methods that security services spent generations refining.

Soviet intelligence also supported many extremist movements and terrorist organizations across multiple continents while simultaneously portraying itself as a champion of “peace.” Even the methods of domestic repression have shown continuity. Under Stalin, then Leonid Brezhnev and Yuri Andropov, Soviet authorities diagnosed dissidents with “sluggish schizophrenia” and put them into psychiatric hospitals because criticizing the state was treated as evidence of mental illness. Decades later, psychiatric detention has returned under Putin, alongside the imprisonment, poisoning, assassination, and persecution of political opponents and journalists.

Nowhere is this misunderstanding more blatant than in discussions about Ukraine. Every February, countless politicians, journalists, and pundits speak about "Russia's invasion of Ukraine" as though this began in 2022. The more informed correctly point out that the invasion and war actually began in 2014. Both perspectives miss the much larger historical reality that Russia has occupied, partitioned, colonized, and repeatedly attempted to erase Ukraine and the Ukrainian identity on and off for centuries. Stalin's Holodomor genocide deliberately starved upwards of five to seven million Ukrainians. This was decades before NATO even existed and long before the Kremlin could manufacture today's familiar justifications for its genocidal aggression.

The propaganda that Russia is responding to NATO expansion collapses under even the most basic understanding of Russian history because Moscow's imperial ambitions toward Ukraine predate Putin.


The same misunderstanding shaped Western thinking after the collapse of the Soviet Union. Boris Yeltsin was widely celebrated as the "democratic reformer" who had finally broken with Russia's repressive and imperial past. As the West celebrated what it believed was its victory in the Cold War, far less attention was paid to the fact that the security services survived largely intact. Furthermore, the First Chechen War demonstrated that Russia’s imperial ambitions had not disappeared.

The chaotic privatization of the 1990s gave rise to a new mafia state in which organized crime, corrupt state officials, and current and former KGB/FSB agents became so deeply intertwined that separating one from the other often became impossible. Protected by krysha (a roof) provided by security services and political connections, criminal networks, political insiders, and emerging business elites accumulated vast state assets, creating a new class of oligarchs whose fortunes ultimately depended not on the rule of law or free markets, but on their relationship with the state.

If the West misunderstood Yeltsin, it completely missed the boat on Putin. He was presented as a reformer and anti-corruption figure who would restore stability after the violent chaos of the 1990s. His rise to power came alongside an FSB-orchestrated series of terrorist attacks. The apartment building bombings killed hundreds of Russians and were immediately blamed on “Chechen terrorists.” This became the catalyst for launching the Second Chechen War, transforming the little-known former KGB agent and FSB director into a leader who promised to restore order and protect the nation.

The subsequent Ryazan incident, in which local authorities discovered FSB agents planting what appeared to be explosives in another apartment building, together with the revelations by FSB agent Alexander Litvinenko, showed that the bombings had been orchestrated by Putin and then FSB director Nikolai Patrushev. After fleeing Russia, Litvinenko publicly accused the FSB of carrying out the attacks to help install Putin into power. In 2006, he was murdered in London with radioactive polonium-210 in an assassination that the British concluded was carried out by Russia. Whether through political assassinations, poisonings, covert operations, or campaigns of intimidation, the use of violence and fear as instruments also did not begin with Putin.

Long before Putin entered the Kremlin, Russia's security services had repeatedly relied on provocations, fabricated conspiracies, manipulated narratives, covert violence, and other forms of deception to justify repression, consolidate power, silence dissidents, and manufacture public support for state policies. Those tactics appeared under the Tsars, evolved under the Soviet Union, and continue to shape the Kremlin’s policies today.

Another misconception lies in the understanding that Russia’s oligarchs have some sort of control over Putin. The relationship works entirely in the opposite direction. Many amassed enormous fortunes through the privatization of state assets during the chaotic 1990s, but they kept those fortunes only with the Kremlin’s approval. Property rights in Russia have never truly belonged to the individual, and exist only as long as the state permits them to exist.

When Putin came to power, he replaced much of Yeltsin's elite with loyalists from his St. Petersburg criminal and KGB/FSB networks. Loyalty was rewarded with enormous wealth, but only for as long as it served the interests of the Kremlin. In return, Russia's wealthiest businessmen were expected to advance state interests, finance Kremlin priorities, use their international business, political, and financial networks whenever called upon, carry out malign influence operations, and perform any other operations demanded of them. Those who refused were stripped of their riches, prosecuted, imprisoned, or driven into exile. Anyone who mistakes immense wealth for political independence misunderstands how the Russian system operates. Russia's oligarchs are not above the state, but are another instrument of it. And when the Kremlin decides one of them has outlived his usefulness, become politically inconvenient, or simply possesses assets someone more loyal wants, yesterday's billionaire quickly becomes today's criminal—or, in Russia's fashion, another prominent businessman manages to fall out of a window before the state redistributes or simply seizes his assets.

While many in the West believed they had won the Cold War, Russia's hardliners never accepted defeat. Humiliated by the collapse of the Soviet Union, they blamed the West rather than the corruption, repression, and failures of the communist system. They retreated, regrouped, adapted to the new political and economic realities, and quietly began restoring the system many in the West believed had collapsed. The post-Soviet transition allowed the security services, their networks, and many of their methods to survive, evolve, and eventually reemerge.

One of the most revealing symbols of that continuity stands outside Russia's intelligence headquarters. When protesters pulled Felix Dzerzhinsky's statue down from Lubyanka Square in 1991, many celebrated it as the symbolic end of the Soviet security state. But it wasn't. More than three decades later, Russia unveiled a new statue of Dzerzhinsky outside the headquarters of the SVR, while Putin restored Dzerzhinsky's name to the FSB Academy. Instead of treating the Cheka's mass-murdering founder as one of the darkest figures in Russian history, the Kremlin openly celebrates him as part of its institutional heritage.

None of this is meant to suggest that Putin is not a central figure. He has undoubtedly shaped modern Russia, dramatically expanded its aggression against Ukraine, the West, and beyond, intensified global information warfare and political interference, and bears responsibility for countless crimes, war crimes, and genocide. But the mistake is believing that Putin created this system or that post-Putin Russia will somehow be fundamentally different. Long before Putin entered politics, Russia's security services had already embedded themselves into virtually every major institution of the state, perfected repression, political violence, information warfare, imperial conquest, and active measures, and survived every political transformation the country has undergone for centuries. Removing one man from the Kremlin does not dismantle the system that produced him.

That is precisely the analytical mistake the West made after the collapse of the Soviet Union, and one it cannot afford to repeat. Russia has changed tsars, general secretaries, presidents, flags, constitutions, and the names of its security services, yet the institutions, networks, underlying principles, and imperial worldview have shown remarkable continuity across generations. Until those institutions change, replacing Putin with another face in the Kremlin will not transform the Russian state.

The West has spent decades searching for Russia's next reformer while Russia's security services have spent those same decades ensuring the system survives whoever comes next. Until policymakers stop asking who comes after Putin and start asking whether the system that produced him has changed, they will continue repeating the same mistake.

------------------------

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Novidade Monstruosa: Frankenstein, de Mary Shelley - Martim Vasques da Cunha (Substack)

 A Novidade Monstruosa

Um ensaio (completamente) inédito sobre o livro "Frankenstein", de Mary Shelley
MARTIM VASQUES DA CUNHA, APR 10

Alexandre Desplat on Creating the Score for Frankenstein with Guillermo del Toro | Netflix - YouTube
Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe, aí está o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate edifícios, desenraiza as árvores, suspende montanhas de água no mar, destrói falésias e arremessa grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que sopra, que geme, que ruge – o senhor o viu, pode vê-lo? No entanto, ele existe.

O abade, em “O Horla (segunda versão)”, de Guy de Maupassant.

1. Desde a juventude até a morte, Mary Shelley (1797-1851) ouviu apenas uma única pergunta em sua vida, uma pergunta que, de início, a irritava profundamente, mas depois acostumou-se a ela e decidiu que teria de respondê-la mais cedo ou mais tarde: “Como teria eu, então uma jovem, chegado a uma ideia tão horripilante e, depois, a elucubrar tão longamente sobre ela?”.

Os dois aspectos temporais do trecho acima – “então” e “tão longamente” – mostram que, na mente de Shelley, havia algo que a obcecava nessas décadas todas. Não era o fato do livro que surgiu da noite tenebrosa em que Lorde Byron a impeliu a escrever uma história de horror – o hoje mítico Frankenstein, ou: o Prometeu Moderno, escrito em 1816 e publicado em 1818 – se tornou um tremendo sucesso entre os leitores, influenciando o imaginário europeu; muito menos o próprio encontro em si, quando ela, uma moça precoce de 18 anos de idade, acabara de se casar com outro poeta famoso, Percy Shelley, dividiu uma casa em Genebra, na Villa Diodati, com o marido e Byron, e em um divertissement concebido numa madrugada fria e cheia de trovoadas, se sentia a pessoa menos importante daquele triângulo.

A sua obsessão particular, se podemos chamá-la assim, foi a descoberta de algo novo, uma novidade que deve ser classificada como monstruosa e a qual, articulada em um símbolo poderosíssimo (como a de uma Criatura nascida de restos de cadáver e ressuscitada por meios científicos próximos da magia negra), foi também vislumbrada pelos outros dois participantes presentes naquela mansão – sim, nunca é demais repetir: Byron e Shelley – e marcaram igualmente a vida e a obra de ambos.

Lorde Byron (1788-1824), ou George Gordon para os íntimos, era então a celebridade mais famosa daquele movimento literário que enfurecia a Europa chamado Romantismo (apelidado assim porque seus maiores idealizadores – Schelling, Coleridge, Fichte, Wordsworth, entre tantos que viviam na Alemanha e na Inglaterra – acreditavam recuperar a concretude verbal dos romanos, por meio do latim, em contraposição ao racionalismo filosófico dos Iluministas, em particular os franceses). Nobre decadente, na verdade, com pouco dinheiro nas algibeiras, ainda assim conseguia transitar com desenvoltura na alta sociedade britânica, e tinha um talento métrico fora do comum. Seus poemas têm uma força melódica impressionante, aliada a um conhecimento de formas poéticas que vão do épico (Don Juan, de 1819-22) até o intimista (a elegia “Darkness”, ou “As Trevas”, concebida em 1816, justamente na época do encontro com Percy e Mary Shelley e que veremos em breve), passando pelo autobiográfico (Childe Harold’s Pilgrimage, de 1812 a 1819). Se há um tema que unifica essa variedade de gêneros é o de que o ser humano é capaz de reformar a realidade, seja pelos meios políticos, pelos meios amorosos e até mesmo pelos meios luciferinos.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822) se via como um discípulo direto de Byron, e talvez estivesse certo, se não fosse o fato de que ele era infinitamente superior em talento e em vocação, comparado ao seu mestre. Era um poeta no sentido pleno da palavra, um verdadeiro vate, certamente alguém próximo do visionário, capaz de jogar com a flexibilidade dos versos ao modo de um Shakespeare ou de um John Milton, além de de refletir sobre os mistérios do real, antecipando-os verbalmente, como fica evidente ao lermos Prometeu Desacorrentado (1817, criado como complemento ou resposta ao Frankenstein de Mary), os sonetos brilhantes ao modo de “Ozymandias” (1819, uma meditação aguda sobre a futilidade do poder terreno) e o épico inacabado que é O Triunfo da Vida (1822). Em sua obra, o que lhe dá unidade é o vislumbre de que o mundo, apesar de petrificado pela máquina da modernidade, ainda é capaz de ser reencantado na sua origem, seja pelas mãos do próprio homem (mesmo que isto esteja fadado ao fracasso) ou por forças subterrâneas que atuam no mundo como se fossem “espectros” ou daimonion, demônios que nos apossam e que nos transformam em meros receptáculos dos desejos deles.

Percy e Mary Shelley, junto com Lorde Byron, eram a trupe insólita formada na Villa Diodati, quando no dia 16 de junho de 1816 (segundo alguns estudiosos, o que dá margem para ser um evento simétrico ao Bloomsday posteriormente celebrado por James Joyce em Ulysses), os três se reuniram (havia também o Dr. John Polidori e a irmã de Mary, Claire, respectivamente o médico e a amante de Byron) para aquela competição que já se tornou clichê na mente dos aficionados dos livros e dos filmes de horror (Ken Russell tiraria sarro disso em seu filme incompreendido, Gothic, de 1986): segundo o relato da própria Mary, foi num “verão úmido e desagradável, em que a chuva incessante com frequência nos confinava durante dias em casa”, quando, ao se divertirem com histórias macabras (entre elas, os trechos iniciais de Hamlet), a conversa “avançou noite dentro” e então Byron sugeriu o seguinte: “Cada um de nós escreverá uma história de fantasmas; e sua proposta foi acatada”.

Reparem que, ao contrário do que dizem por aí, Byron pediu uma “história de fantasmas”, e não uma “história de monstros”. Polidori escreveu um conto chamado “O Vampiro”, que teria suas ramificações mais famosas em outra obra célebre escrita por Bram Stoker (vocês sabem qual é, correto?), mas obviamente fracassou porque se recusou a atender o preceito. Shelley esboçou algumas linhas, daí desistiu (em compensação começaria a rascunhar o Prometeu Desacorrentado); Byron nem se mexeu, como bom superstar que era; e Mary e Claire ficaram batendo a cabeça entre si, incessantemente, tudo para agradar os dois grandes homens ali presentes em suas vidas.

2. A caçula Claire (um ano mais nova) idolatrava Mary acima de tudo, quando ambas eram filhas (ou enteada por parte do pai, no caso da primeira) de William Godwin e Mary Wollestonecraft, intelectuais britânicos de clara influência iluminista – e fiéis daquela seita informal que girava ao redor do genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O nome de Rousseau é importante porque ele é uma das chaves de leitura para entender corretamente Frankenstein...
(...)
O resto para os pagantes...

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco - Edmar Bacha (Substack)

A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco

Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Arinos de Melo Franco*. Org. Arno Wehling e Rogério Faria Tavares. Editora Miguilin, 2026.

Jurista, político, memorialista, ensaísta — Afonso Arinos de Melo Franco é figura das mais versáteis da cultura brasileira do século XX. Menos lembrado é o fato de que ele deu contribuições duradouras à historiografia econômica do país. São três os livros nesse campo: uma breve síntese da história econômica do Brasil, que chegou aos bancos escolares país afora; um estudo sobre a formação do patrimônio histórico-material do país, que se tornou referência para o Iphan; e uma história do primeiro Banco do Brasil, amplamente considerada o principal registro da fase inicial das finanças brasileiras.

## Das aulas na UDF às conferências em Montevidéu

Em 1936, Arinos aceitou o convite do reitor Afonso Pena para lecionar História do Brasil na recém-criada Universidade do Distrito Federal, idealizada por Anísio Teixeira. Após debater o programa com Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, seus colegas na UDF, Arinos estruturou a história do Brasil em ciclos econômicos: pau-brasil, açúcar, ouro, café e, finalmente, indústria. Dois anos depois, em janeiro de 1938, Arinos foi a Montevidéu representar o Brasil num curso internacional de férias organizado pelo Ministério da Instrução do Uruguai. San Tiago Dantas fazia parte da mesma delegação — dois intelectuais, não diplomatas de carreira, como Arinos fez questão de sublinhar. De suas três conferências, baseadas no curso para a UDF, resultou, ainda naquele ano, a *Síntese da história econômica do Brasil*.

Em 1941, Rodrigo Melo Franco de Andrade — primo do autor e criador do Sphan (atual Iphan) — o convidou a ministrar cinco conferências para os técnicos do serviço. Delas nasceu, em 1944, o *Desenvolvimento da civilização material no Brasil*.

O terceiro livro tem origem peculiar. Ao ingressar no Banco do Brasil também em 1936 como advogado, Arinos recebeu, em fins de 1942, a incumbência de escrever a história da instituição. O trabalho foi árduo: dois assistentes pesquisaram jornais, avulsos e publicações do Primeiro Reinado e da Regência. Mas a publicação foi interrompida: Arinos foi um dos idealizadores do *Manifesto dos mineiros* de 1943, que defendia a restauração da democracia, e Getúlio Vargas o aposentou compulsoriamente do banco. O livro só saiu em 1947.

## *Síntese da história econômica do Brasil* (1938): os ciclos que foram à escola

A *Síntese* é um livro enxuto — 65 páginas na edição original —, mas com grande apelo pedagógico. Nela, Arinos propõe que a economia brasileira pode ser considerada em ciclos sucessivos, cada um com um núcleo dominante: pau-brasil, açúcar, ouro, café. A abordagem facilitou a organização da história do Brasil em fases claras, e sua adoção em livros escolares foi ampla.

Arinos acreditava ser pioneiro nessa abordagem. Não era inteiramente: Normano, em 1935, já falava em “produtos-rei”, e Simonsen usava livremente o termo “ciclo” em seu curso na Escola Livre de Sociologia na década de 1930. A originalidade de Arinos foi centrar toda a análise da história econômica brasileira na sucessão desses ciclos.

Seja como for, obras posteriores trilharam caminhos distintos e de maior impacto intelectual. Caio Prado Jr., em *Formação do Brasil contemporâneo* e em *História econômica do Brasil*, deslocou o foco para a evolução dos modos e relações sociais de produção — com a marca marxista que o caracterizava.Celso Furtado, em *Formação econômica do Brasil*, foi ainda mais “economicista”, organizando o livro estritamente em torno de conceitos econômicos, sem qualquer referência a “superestrutura política”.

Ainda assim, a *Síntese* de Arinos foi um marco. Antecipou estudos mais abrangentes, destacou a complexa relação entre economia, sociedade e política na formação do Brasil, e ofereceu uma visão integrada e acessível que permanece de interesse para os estudiosos da historiografia econômica.

## *Desenvolvimento da civilização material no Brasil* (1944): pedra e cal

O título pode enganar o leitor contemporâneo. “Civilização material” hoje remete à obra monumental de Fernand Braudel, que a usou para designar a economia de subsistência e o cotidiano pré-mercantil. Caio Prado Jr. usou a expressão em sentido diferente: o conjunto das atividades econômicas do país.

Arinos a usa em sentido distinto de ambos. Para ele, “civilização material” é o objeto de trabalho do Sphan: o patrimônio histórico material do país — engenhos, igrejas, fortes, armazéns, casas rurais e operárias, câmaras e fazendas de café, caminhos e estradas. “Pedra e cal”, no jargão patrimonialista.

O livro conduz o leitor por uma viagem do século XVI ao século XIX, mostrando o lento povoamento do país, o surgimento de feitorias e cidades, o desenvolvimento das técnicas de produção e dos transportes. O tom coloquial do texto é convite à leitura.

Há um ponto discutível: na primeira conferência, Arinos afirma que o desenvolvimento da civilização material do país é de base portuguesa, pois os elementos negro e indígena seriam de difícil identificação. Essa conclusão soa estranha do ponto de vista econômico, pois desconsidera que foi com a mão de obra escravizada de indígenas e africanos que se construiu, em larga medida, o patrimônio material do país. A arquitetura poderá ter sido portuguesa, mas a engenharia foi obra das três raças — para usar a terminologia inadequada dos anos 1940.

As conferências de Arinos impactaram fortemente a gestão do patrimônio no Brasil. Permitiram visualizar os bens e conjuntos urbanos a partir de sua relação com o processo histórico de ocupação das diferentes regiões do país, orientando os técnicos do Sphan na seleção do que deveria integrar o patrimônio histórico e artístico nacional.

## *História do Banco do Brasil (Primeira fase: 1808-1835)* (1947): crônica de um fracasso anunciado

É o mais encorpado dos três livros — 279 páginas, afora cinco grandes tabelas em anexo — e o único que envolveu pesquisa original extensiva. Nas palavras do historiador português José Luís Cardoso, oferece “um dos mais rigorosos e completos registros sobre a primeira fase da história bancária brasileira”. Caio Prado Jr. o definiu como “trabalho minucioso, que oferece um histórico seguro e bem traçado da fase inicial das finanças brasileiras”.

O banco foi criado por D. João VI em 1808 como banco emissor e de crédito — mas, na prática, serviu essencialmente para financiar a Coroa. Os poucos balanços disponíveis demonstram que o grosso de suas atividades consistia em empréstimos ao governo, financiados pela emissão de suas próprias cédulas. Era reduzida a atividade de desconto de letras privadas, o que lhe rendeu pouco apoio político e imprensa francamente desfavorável.

Dado o estado fortemente deficitário das contas do governo — tanto sob D. João VI quanto sob D. Pedro I —, a emissão de cédulas para financiar déficits levou à depreciação progressiva do papel-moeda. Em 1821, as moedas de ouro tinham um prêmio de 28% em relação às cédulas do Banco. Em 1831, por ocasião da liquidação, esse prêmio havia chegado a 210%.

A desvalorização dos bilhetes veio acompanhada de corridas ao banco, intervenções policiais e enorme alvoroço parlamentar. O desfecho foi a liquidação em 1829, processo que se arrastou por mais seis anos.

Arinos acompanha essa odisseia passo a passo, com riqueza de detalhes sobre os debates parlamentares, sua repercussão na imprensa, e algumas histórias paralelas deliciosas. Sua conclusão é que o progresso econômico do país não poderia prescindir de institutos provedores de crédito — e que a liquidação do banco foi um grave erro. Já em 1833 o governo tentou criar um segundo Banco do Brasil, sem sucesso; o segundo banco só viria em 1853, em condições políticas e econômicas mais propícias.

## Conclusões

Cada um à sua maneira, os três livros de Arinos deram contribuições importantes para o conhecimento do passado brasileiro. A *Síntese* mantém seu interesse para os estudiosos da historiografia econômica. O *Desenvolvimento* continua a ser saborosa viagem de descoberta do patrimônio material do país. A *História do Banco do Brasil* impressiona por sua pesquisa original e por nos expor, na pena leve e culta de Arinos, as entranhas financeiras e políticas do turbulento período em que a colônia se fez nação.

Jurista, político, memorialista e ensaista consagrado, Arinos deixou um legado sobre a história econômica do Brasil menos celebrado do que merece. Vale a pena redescobri-lo.


Não blefe com alguém que não sabe desistir - Arnaud Bertrand (Substack)

Não blefe com alguém que não sabe desistir

 arnaudbertrand.substack.com/p/dont-bluff-someone-who-cant-fold  

Arnaud Bertrand

9 de abril de 2026

A guerra contra o Irã ainda não acabou, mas parece que, na verdade, podemos estar diante de uma das maiores derrotas da história dos Estados Unidos e de Israel.

Como Ben Rhodes, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, disse: “É difícil perder uma guerra tão curta de forma tão abrangente.” Yair Lapid, ex-primeiro-ministro de Israel e líder da oposição, afirmou que “nunca houve um desastre político como este em toda a nossa história” e chamou-o de “colapso estratégico”.

Rhodes e Lapid estão certos. A magnitude dos danos que os EUA e Israel causaram a si mesmos em tão pouco tempo — e o quanto o Irã ganhou — é realmente impressionante.

Quero dizer, que loucura é essa: o JP Morgan calculou que, de acordo com o novo acordo de pedágio de Ormuz (que os países do Golfo confirmaram ser permitido no plano de cessar-fogo), o Irã pode obter US$ 70 a 90 bilhões em receita anual adicional, representando impressionantes 20% de seu PIB em receita extra. Curiosamente, Trump comentou no Truth Social que o acordo significa que “muito dinheiro será ganho” e que “o Irã pode iniciar o processo de reconstrução”. É verdade: eles conquistaram a renda geográfica mais valiosa do mundo, por uma margem enorme. Para comparação, o Canal de Suez rende ao Egito “apenas” US$ 9 a 10 bilhões/ano, e o Canal do Panamá cerca de US$ 5 bilhões.

Impressionante.

Impressionante também é a sequência de eventos. Na noite de terça-feira, Trump estava — aparentemente — à beira de lançar uma bomba nuclear no Irã, postando que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, apenas para basicamente se render poucas horas depois, concordando em negociar a paz com base no plano de 10 pontos do Irã (que ele chamou de “base viável”) — um plano que não faz praticamente nenhuma concessão aos EUA e representa uma vitória quase total para o Irã. Para ser justo, tratando-se de Trump, não está claro se ele sequer entendeu o que é o plano de 10 pontos do Irã, mas ele confirmou desde então que aceita o princípio de uma taxa iraniana no Estreito de Ormuz (embora agora diga que prefira que seja uma “joint venture” com os EUA).

O que levou disso a isso é uma incógnita — minha suposição é que ele tentou um último blefe gigantesco, e o Irã ainda assim não vacilou. O motivo, porém, não importa muito; o que importa mais é a mensagem que isso transmite: como afirma Jennifer Kavanagh, ex-diretora do programa de Estratégia do Exército da RAND (o think tank de defesa mais influente dos EUA): ao “elevar tanto as apostas de antemão, ele maximizou o dano à [...] percepção global do poder dos EUA”. Ela acrescentou: “esta é uma clara derrota estratégica para os EUA”

Há um ditado famoso no pôquer: “Não blefe contra alguém que não pode desistir.” No entanto, foi exatamente isso que Trump fez. O Irã literalmente não podia desistir. Sua própria sobrevivência como Estado dependia de não capitular. Portanto, a ameaça de Trump foi o pior tipo possível de blefe — apostas máximas, contra um adversário sem saída.

 

Quando não funcionou, ele se viu — tolamente, inteiramente por sua própria culpa — preso entre duas opções impossíveis: cumprir a ameaça e se tornar a figura mais odiada da história moderna (ainda mais do que já é), ou desistir. Ele desistiu.

As implicações geopolíticas são quase grandes demais para serem contempladas.

Em primeiro lugar, correndo o risco de afirmar o óbvio, isso tornaria o Irã a potência dominante no Oriente Médio:

O país ao qual todos os outros agora precisam prestar homenagem pelo privilégio de exportar seus recursos naturais

O país que derrotou os EUA e Israel em pouco mais de um mês

O país que provou ser capaz de, sozinho, sufocar a economia global

O país que provou ser capaz de atacar todos os Estados do Golfo, bem como Israel, e que os EUA não poderiam fazer absolutamente nada para protegê-los

O país que, sozinho, pôs fim à “liberdade de navegação”, a vantagem estratégica mais importante das Forças Armadas dos EUA

O país que sobreviveu a todos os truques possíveis — ataques de decapitação, tentativas de revolução apoiadas pela CIA, instrumentalização de divisões étnicas, operações psicológicas constantes e guerra de informação — e saiu do outro lado mais forte e mais unido do que antes

Como diz o ditado, o que não te mata te fortalece. Com esta guerra, acabamos de testemunhar o (re)nascimento de uma grande potência: agora são a China, a Rússia, os EUA… e o Irã.

Foi isso que argumentei em meu artigo anterior intitulado “A primeira guerra multipolar” (que envelheceu muito bem!): que esta guerra estava revelando o Irã como um verdadeiro polo de poder — um que não pode ser subjugado por outros. O que parecia uma afirmação ousada há três semanas é agora simplesmente a descrição factual do que aconteceu.

Outra consequência provável, que sem dúvida ficará mais clara nas próximas semanas, é que as relações entre os EUA e Israel estão fadadas a ser fundamentalmente remodeladas pelas consequências da guerra, ou pelo menos deveriam ser.

O New York Times publicou na terça-feira um relato extraordinariamente detalhado de “como Trump levou os EUA à guerra com o Irã”, no qual explica que essa foi, essencialmente, uma situação de “a cauda balançando o cachorro”, com Netanyahu tendo conseguido persuadir Trump a entrar na guerra em uma apresentação confidencial na Sala de Situação em 11 de fevereiro.

De acordo com o relato, Netanyahu prometeu que “o programa de mísseis do Irã poderia ser destruído em semanas”, que o governo ficaria “tão enfraquecido que não poderia bloquear o Estreito de Ormuz”, que “a probabilidade de o Irã desferir golpes contra os interesses dos EUA nos países vizinhos era mínima” e que protestos de rua — fomentados pela Mossad — levariam a uma mudança de regime. Apesar do diretor da CIA, John Ratcliffe, ter chamado essas alegações de “ridículas”, Trump se convenceu e seguiu em frente.

O resultado que todos testemunhamos hoje: absolutamente tudo o que Netanyahu previu para Trump acabou se revelando errado. As alegações de Netanyahu eram, de fato, ridículas.

Uma advertência justa: por se tratar do New York Times, devemos ter cuidado ao aceitar a matéria pelo valor nominal. O NYT é, antes de tudo, um veículo para a construção de narrativas da elite — e, com tais narrativas, a questão mais interessante raramente é o que está sendo dito em uma determinada matéria (o que muitas vezes é errado ou enganoso), mas por que uma matéria é uma matéria em primeiro lugar.

O “porquê” aqui é difícil de ignorar: com razão ou sem razão, a narrativa está sendo montada para fazer de Israel o bode expiatório — Trump e o establishment de segurança dos EUA têm pouca influência nessa história; eles são vítimas infelizes enganadas por um líder estrangeiro manipulador.

 É uma história conveniente: a culpa recai sobre o exterior, o establishment mantém sua credibilidade — TODOS se opuseram à guerra (sendo o fracasso, como se sabe, um órfão) — e ninguém precisa fazer perguntas mais difíceis sobre o que poderia levar a um erro estratégico tão desastroso.

O que significa que o terreno político está mudando sob a “relação especial”, o que já ficou evidente pelo fato de que, como Yair Lapid apontou em seu post, Israel nem sequer estava à mesa quando Trump decidiu decretar o cessar-fogo e negociar com base no plano de 10 pontos do Irã.

Acima de tudo, porém, a consequência mais dramática desta guerra é o que ela significa para o poder dos EUA.

Como argumentei em meu artigo anterior, esta guerra é qualitativamente diferente de outras guerras dos EUA nas últimas décadas, como Vietnã, Afeganistão, Líbia, Iraque, Sérvia, etc. (a lista é, infelizmente, muito longa). Nessas guerras, o padrão era basicamente sempre o mesmo, com uma imensa diferença de poder entre agressor e vítima. Eram guerras imperiais, o império tentando esmagar um povo muito mais fraco cujo único recurso realista era a resistência guerrilheira.

Como escrevi, como espectadores dessas guerras, se você tivesse algum senso moral, a emoção dominante era uma espécie de repulsa impotente: você estava vendo um gigante pisoteando a casa de outra pessoa.

Esta guerra não foi nada assim: surpreendentemente, o Irã conseguiu se manter firme simetricamente e taticamente contra os Estados Unidos e Israel. Essa é uma diferença absolutamente crucial, pois muda o que significa perder. Quando os EUA perderam no Vietnã ou no Afeganistão, foi embaraçoso, mas, no fim das contas, administrável — o gigante saiu de lá com o ego ferido, e o mundo deu de ombros. Impérios perdem para guerrilheiros às vezes; isso não diz muito sobre a capacidade do império de travar uma guerra de verdade.

Mas perder simetricamente — perder quando seus caças stealth mais avançados são abatidos do céu, suas bases militares são neutralizadas em todo o teatro de operações, seus sistemas de defesa antimísseis mais avançados são destruídos, seu inimigo assume o controle da via navegável mais estratégica do mundo, sua marinha não consegue reabri-la e seus “aliados” são bombardeados impiedosamente apesar de sua “proteção” — isso é um tipo de derrota totalmente diferente.

Isso diz ao mundo que o gigante não é mais tão gigante assim.

Está se tornando clichê dizer isso, mas imagine uma guerra convencional contra a China neste momento. Os EUA conseguiram resistir 40 dias contra o Irã: quanto tempo durariam contra a China? O próprio Pete Hegseth admitiu que a China poderia “afundar todos os porta-aviões dos EUA nos primeiros 20 minutos de um conflito”. E esse é um homem que, como o Irã deixou claro, superestima ENORMEMENTE o poder das Forças Armadas dos EUA.

Concretamente, isso significa que o próprio conceito de ser um “aliado” dos Estados Unidos tornou-se completamente sem sentido: de que adianta ser protegido por alguém que obviamente não pode protegê-lo?

Isso também significa, porém, que o inverso é igualmente verdadeiro, e talvez ainda mais consequente: o Irã acaba de provar que você não precisa de um protetor, para começar.

Aqui está um país que está sob sanções devastadoras há mais de quatro décadas, isolado da tecnologia ocidental, incapaz de comprar um único caça avançado — e acabou de lutar contra os EUA e venceu. Fez isso com mísseis produzidos internamente, defesas aéreas de fabricação própria e tecnologia de drones desenvolvida localmente. A lição para todas as potências de médio porte do mundo é extremamente óbvia: se o Irã consegue fazer isso nessas condições, praticamente qualquer um consegue.

Tive uma espécie de discussão com um amigo jornalista no início do conflito, que argumentou que a China não estava sendo uma boa “aliada” do Irã por não se juntar à luta ao lado deles. Um argumento também hilariamente apresentado pelo ex-embaixador dos EUA na China, Nicholas Burns, que literalmente zombou da China no início do conflito por ser o que ele chamou de “um amigo irresponsável” ao não ajudar o Irã a repelir os americanos. Isso diz muito sobre o quão sociopatas as elites americanas se tornaram, a ponto de um alto funcionário dos EUA zombar de uma grande potência com armas nucleares por não entrar em guerra com os Estados Unidos…

Eu ouvi novamente o que respondi ao meu amigo na época (em uma mensagem de voz no WhatsApp no dia 2 de março):

Você tem uma grande suposição aí: que o Irã vai perder. Eu não apostaria nisso. Pode ser o que você está dizendo, com o precedente estabelecido de que “resista aos Estados Unidos e seu destino estará selado” se, de fato, o Irã perder feio. Mas também pode ser que, desta vez, os iranianos dissuadam, em certa medida, os americanos, e então o precedente exatamente oposto esteja sendo estabelecido.

Além disso, talvez os iranianos simplesmente tenham algum senso de dignidade, querendo não depender de ninguém e traçar seu próprio caminho independentemente de qualquer outro ator.

De Gaulle tinha essa ótima citação de que os americanos tendem a confiar no que é brando em vez do que é sólido, no sentido de que eles realmente insistem que seus “aliados” sejam vassalos e representantes, não aceitando qualquer forma de independência. Isso fomenta fraqueza e brandura, sendo a União Europeia um exemplo muito claro disso. A abordagem de não ter aliados que a China está adotando é certamente muito menos gentil com aliados em potencial, porque é como se dissesse “você está por conta própria, lide com isso” — talvez eu esteja exagerando, mas há um pouco disso —, mas, por outro lado, também gera força.

Alguns países se oporão aos EUA, não porque sejam encorajados pela China, pela Rússia ou por qualquer outra coisa, mas simplesmente porque não querem ser vassalos de ninguém. A abordagem dos EUA fomenta a oposição porque insiste em ter representantes e vassalos, e a abordagem chinesa, que é o oposto disso, não fomenta a oposição à China porque todos ficam felizes em se limitar ao comércio. E isso também gera — a longo prazo — força, porque você precisa confiar em si mesmo, então precisa ser forte.

E aqui estamos nós, cinco semanas depois, com o Irã comprovando meu argumento além de tudo que eu poderia imaginar. Eles não precisaram da China para travar sua guerra. Eles precisaram de si mesmos — isso foi o suficiente, e torna o que cada vez mais parece uma vitória incontestável ainda mais honrosa e significativa.

Essa é a lição mais profunda da guerra, e a que tem a meia-vida mais longa: o modelo chinês de relações internacionais, em que os países se mantêm em pé com sua própria soberania em vez de se amontoarem sob o guarda-chuva de outra nação, acaba de receber a validação empírica mais espetacular da história moderna.

A distinção de De Gaulle entre o que é flexível e o que é sólido nunca foi tão vívida: o sistema de vassalagem dos EUA produziu Estados do Golfo que não conseguiam defender suas próprias refinarias; a lógica da autossuficiência produziu um Irã capaz de enfrentar os EUA e vencer.

Postagem em destaque

Na morte de José Van Den Besselaar - Francisco José dos Santos Braga

Transcrevo, do blog do eminente estudioso de São João del-Rei, Francisco José dos Santos Braga, uma postagem do maior interesse para os estu...