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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O fantasma da cleptocracia - Simon Schwartzman (Estadão)

 O fantasma da Cleptocracia

Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo, 9/10/2026


Dois resultados do primeiro turno me impressionaram mais: o mapa político do país, que separa com nitidez o Nordeste mais pobre e lulista do Centro-Sul mais rico e bolsonarista, e a vitória esmagadora de Cleitinho para governador de Minas Gerais. O primeiro mostra o esgotamento do sistema político criado por Lula e o PT, baseado na distribuição de benefícios e cooptação de elites políticas tradicionais, que perdeu sentido para a parte mais dinâmica do país. O segundo confirma o que se diz de Minas, que o Estado aponta para onde o Brasil vai: o esvaziamento tanto do PT quanto da oposição conservadora, e a eleição de um governador que aparentemente nada sabe e nada diz.

Partidos e candidatos se apresentam com discursos de direita e esquerda que mobilizam suas militâncias. Ideologias mais conservadoras e autocráticas têm hoje mais força do que as mais liberais e progressisas. Mas interpretar as eleições nesses termos é não entender bem o que está acontecendo. Lula, ao lançar a campanha do segundo turno, prometeu dobrar a aposta no que imagina serem os grandes sucessos de seu governo, como educação, ciência e tecnologia e a velha política industrial, áreas em que o que mais se observa é o contraste entre os discursos, os custos crescentes e a pobreza de resultados. A imprensa mal notou. Flávio se limitou a anunciar o fim da era do PT e a promessa de um STF a seu gosto, sem dizer como seu governo seria diferente da experiência desastrada dos anos de seu pai.

Estamos no fim de uma era, sem saber como será a próxima. Ganhe quem ganhe o segundo turno, o melhor cenário seria um governo com capacidade e condições de enfrentar os desafios do futuro. O pior cenário é que o novo governo continue a remoer os cacoetes e ressentimentos do passado. Nesse caso, corremos o risco de descer ladeira abaixo, pelos desequilíbrios crescentes dos gastos públicos, a esclerose do Judiciário, o envelhecimento da população e a deterioração do meio ambiente. Sabemos hoje, mais do que antes, como desenvolver políticas competentes para a violência, a saúde, a educação, a pobreza, e o funcionamento das cidades, mas todas dependem de condições políticas e institucionais que não sabemos se teremos.

Uma dessas condições é conter a corrupção antes que ela se transforme em cleptocracia. As pesquisas de opinião durante a companha eleitoral diziam que a corrupção era a maior preocupação dos eleitores, Mas o escândalo do Banco Master, em seu ecumenismo, fez com que os candidatos só falassem dela como arma contra o adversário. No Brasil, parece, só é corrupto quando quem rouba é o outro.

Mas, com quanta corrupção podemos conviver, e quando ela se torna intolerável? Se as leis favorecem os mais ricos ou nossos adversários, não seria justo envergá-las a nosso favor?

Émile Durkheim, um dos fundadores da sociologia, ajuda a pensar essa questão com sua distinção entre o normal e o patológico na vida social. Para ele, o crime é normal, existe em todas as sociedades, e cumpre a função de criar seus anticorpos. Quando o criminoso é julgado e punido, a sociedade se robustece, fortalecendo as regras violadas. Patológico não é o crime, mas a situação em que essa reação deixa de funcionar. Com a corrupção é parecido. Ela existe em todos os países, e é ilusão supor que possa ser eliminada. A corrupção “normal” é a que continua sendo tratada como desvio: o corrupto precisa se esconder, a imprensa denuncia, a polícia investiga, os tribunais julgam, e de vez em quando alguém importante vai para a cadeia. Os escândalos não são sinais de doença, mas de que o organismo reage.

A cleptocracia começa quando a corrupção deixa de ser desvio e passa a ser o modo de funcionamento da política. A diferença não é de quantidade, mas de natureza. Os órgãos de controle são capturados por quem deveriam controlar, a sociedade fica sem ter a quem recorrer. No limite, o Estado se torna propriedade pessoal dos governantes e de seus aliados, que o administram em causa própria. A própria ideia de corrupção perde então o sentido, substituída por uma versão depravada de patrimonialismo, em que não há distinção entre o público e o privado.

Quando as instituições funcionam, a questão fiscal, a pobreza, a segurança e a educação podem ser tratadas como problemas de interesse de todos, cuja solução depende de negociar perdas e ganhos entre os diferentes setores da sociedade. Quando se transformam em balcões de negócios, a política se reduz a uma disputa de soma zero, perde - ganha, pela partilha dos recursos do Estado, e ninguém mais acredita no interesse público nem se preocupa com o bem comum.

Por isso, mais do que as ideologias ou promessas de campanha, o grande desafio dos próximos anos será restaurar as instituições que garantem a legitimidade do sistema político: um Congresso que não se aproprie dos recursos públicos em benefício de seus membros, um Judiciário sujeito às regras que aplica, órgãos de controle protegidos da captura política, a autonomia de instituições técnicas como o Banco Central e o IBGE, e uma polícia e Ministério Público que investiguem sem escolher alvos.

O caso Master ainda provoca indignação, e isso é um bom sinal: a sociedade reage. O pior será se, à força de ver investigações paralisadas e culpados protegidos, ela deixe de reagir, e a cleptocracia se instale de vez.

 

domingo, 11 de outubro de 2026

A “volta do cipó de aroeira”, lembram-se da canção de Geral Vandré? - Estadão e PRA (+ comentário de Madame IA)

‘É a volta do cipó de aroeira...”: relembrando certas recorrências

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Nota sobre uma lembrança do ostracismo passado.

  

A famosa canção do compositor e músico Geraldo Vandré, num dos festivais de MPB logo ao início da ditadura militar, me veio à lembrança quando li esta notinha:

“Do Estadão deste domingo, 11/10/2026:

Itamaraty vive ‘temor Flávio’ e embaixadores falam em antecipar aposentadoria

A perspectiva de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente instaurou um clima de tensão entre diplomatas de uma ala do Itamaraty. Com a memória ainda recente da condução da política externa descrita como “desastrosa” durante o governo Jair Bolsonaro, integrantes do alto escalão da pasta afirmaram à Coluna que cogitam antecipar a aposentadoria para não ter que representar o Brasil em um eventual governo bolsonarista.

A apreensão aumentou depois que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro subiu o tom contra servidores da carreira que declararam apoio a Lula na corrida eleitoral e ameaçou fazer uma “faxina” no Ministério de Relações Exteriores. Embaixadores no topo da carreira alinhados às políticas de esquerda acreditam ser o “fim da linha” para eles.

ALVOS. O desânimo atinge sobretudo os servidores que tratam de temas que já foram rebaixados no governo de Jair Bolsonaro, como órgãos multilaterais, direitos humanos, América Latina – no contexto tratado pelos petistas de alinhamento às correntes bolivarianas –, temas de gênero e meio ambiente.

RECUO. Ao menos três secretários que do MRE que poderiam ter destaque em eventual Lula 4, agora consideram que acabou para eles. Um disse à Coluna prefere se radicar num consulado, com atividades em geral consideradas de menor prestígio a receber ordens de Flávio Bolsonaro.

CRIVO. Integrantes da campanha de Flávio admitem que a escolha para o Itamaraty será uma das tarefas mais difíceis caso ele vença, em razão dos motivos já expostos. Por isso, dizem nos bastidores que a decisão passará por consultas aos senadores Rogério Marinho e a Tereza Cristina.”

 

Retomo:

Pois bem: eu, PRA, já vivi essa situação, logo ao início da longa era lulopetista na diplomacia brasileira, em 2003, e que se estendeu praticamente até os nossos dias, por mais de duas décadas. com um breve intervalo nos anos Temer e Jair Bolsonaro.

Eu está tranquilamente trabalhando como ministro-conselheiro na embaixada em Washington, sob a gestão do embaixador Rubens Barbosa, quando recebi, do entāo diretor do Instituto Rio Branco, convite para conduzir, dirigir, de alguma forma administrar o recém iniciado Mestrado em Diplomacia do IRBr, do qual eu já era, desde 2001, quando foi inaugurado, professor orientador, como um dos poucos diplomatas com PhD na carreira. Lembro-me que, em 2002, ainda como professor orientador convidado, aproveitei curtas férias em Brasília para orientar cinco ou seis alunos do mestrado em seus projetos de dissertação. Ganhei um jantar com eles e um livro do Roberto Gianetti da Fonseca.

Seis ou sete meses depois chegou-me, portanto, esse convite para dirigir o mestrado, um trabalho de grande responsabilidade, não sei se para o próprio Itamaraty, mas pelo menos em minha concepção de excelência didática e de grande responsabilidade intelectual.

Pensei um pouco em minha opções pessoais e familiares e constatei o seguinte: eu poderia ficar mais alguns meses ou até um ano em Washington e depois negociar a embaixada de segunda linha – eu ainda era ministro de segunda-classe, já sancionado telegraficamente algumas vezes por publicar artigos sem autorização (era o jeito: eu mandava artigos e até livros para a SG, para o nihil obstat, e nunca tinha resposta) – ou simplesmente voltar à Brasília, para alguma chefia duvidosa na SERE, ganhando menos e sem perspectivas de alguma chefia com satisfação pessoal e responsabilidade funcional.

Decidi aceitar, e assim respondi ao diretor do IRBr. Para minha surpresa, recebi, alguns dias depois, mil desculpas do referido diretor, dizendo que não poderia confirmar o convite, por dificuldades não explicadas. Eu sabia bem o motivo: tanto o chanceler do primeiro lulopetismo já empossado, quanto o seu SG, se opunham à minha designação como diretor do mestrado do IRBr, por pura prevenção ideológica, pois sabiam que eu não seria um repetidor das “teses” da nova doutrina diplomática.

Assim fiquei mais alguns meses em Washington, mas depois, no meio do ano vim a Brasília, para inquirir sobre o meu futuro destino. Não fui recebido nem pelo chanceler, nem pelo SG, mas pelo chefe de gabinete deste último, um diplomata truculento que eu já conhecia de outras eras. Foi me dito que eu poderia ficar mais algum tempo em Washington e depois negociar algum posto indefinido, ou seja, o que eu já sabia.

Nessa vinda a Brasília, fui contatado, sem o procurar, por um dos membros da famosa “troika” que constituía o inner circle do presidente, que me conhecia dos tempos em que eu, como chefe da Divisão de Política Financeira. tinha de explicar aos parlamentares do PT quais eram as vantagens e os ônus dos famosos APPIS, os Acordos de Promoção e Proteção de Investimentos, bilaterais com países potencialmente investidores – com cláusulas de arbitragem internacional, e não a cargo da Justiça local, ou do OCSID em Washington, acordo ao qual o Brasil não tinha aderido, pelas conhecidas restrições nacionalistas dos parlamentares, até da direita – e que eles não aceitavam de jeito nenhum, contrários como sempre foram a quaisquer acordos de investimentos estrangeiros, assim como recusaram o acordo de 2000, de salvaguardas tecnológicas com os EUA, para a exploração – lançamento de satélites – da Base de Alcântara. Ele respeitava e entendia as minhas razões, mas dizia que o Partido (PT) já tinha decidido ser contra. Em todo caso, me convidou para trabalhar com ele, numa nova entidade que recolhia experiências do governo FHC anterior, o Núcleo de Assuntos Estratégicos, ligado à Presidência da República.

Assim foi feito, e em outubro de 2003 eu desembarcava em Brasília, para trabalhar no NAE, mas, mais importante, para assessorar esse alto mandarim do lulopetismo em diversos temas vinculados às relações exteriores do Brasil. Um dia vou publicar os vários memos que dirigi a ele, confidencialmente, à margem do trabalho no NAE, comentando e propondo posturas do Brasil, e do presidente Lula, em vários assuntos internacionais. Fiquei no NAE enquanto ele lá esteve, depois veio o Mensalão, o grão-petista ficou doente – ou farejou os problemas montantes – e acabou saindo do NAE. Quando foi designado para um “ministério de Estado” naquela área um famoso professor de Harvard, brizolista, mas convertido de forma oportunista ao lulopetismo, acabei saindo do NAE e retornando ao Itamaraty.

A despeito de várias promessas da Administração, na qual eu sempre batia à porta, nunca tive nenhum oferecimento de qualquer coisa na SERE. Refugiei-me na Biblioteca do Itamaraty, convertida em escritório de trabalho durante muitos anos, pois eu sempre fui um habitué de bibliotecas desde a infância. Cada vez que eu falava com um encarregado da Administração, ele reconhecia que minha situação era irregular – receber salário sem trabalhar, mas nunca, nenhum deles se dispôs a me oferecer um cargo na SERE ou um posto no exterior. Zero, necas de pitiribas, alguma oferta. Um desses barões da Casa chegou a me confessar que se o chanceler me tinha vetado para alguma função, ele não podia fazer nada. Eu fiquei o frequentador mais recorrente na Biblioteca, onde também aproveitei o lazer forçado para escrever muitos artigos (em alguns jornais com outros nomes, e um dia vou recolher essas peças) e alguns livros (minha lista cronológica está à disposição de todos).

Em algum momento me ofereceram uma missão transitória, por ocasião da Exposição Universal em Shanghai, em 2010, onde passamos, eu e Carmen Lícia, oito belos meses de trabalho, ela de estudos sobre a China, e ambos de várias viagens pela China e arredores. À volta, a despeito de promessas, nada ainda, durante todo o ano de 2011, que também passei na Biblioteca. Resolvi aproveitar uma oportunidade oferecida pela Sorbonne, e em 2012, durante seis meses, fiquei em Paris, num mestrado do Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine. Retorno, e vazio. A promessa de chefiar um Consulado não se cumpriu, tampouco, mas acabei aceitando ser vice-cônsul em Hartford (CT), quando aproveitei para novamente renovar contatos acadêmicos em diversas oportunidades, e comprar muitos livros.

Voltei depois dessa última saída ao exterior, entre 2013 e 2015, e também fiquei aguardando alguma designação, que só apareceu despois do impeachment de Dona Dilma, em 2016: me convidaram não para um cargo executivo na SERE (pois, a despeito da mudança de “regime”, eu era conhecido como heterodoxo em matérias diplomáticas), mas como diretor do IPRI-Funag, onde me diverti bastante, convidando amigos e conhecidos da academia e chamando diplomatas de cada área como debatedores. Foram dois anos e meio extremamente felizes, cujo resultado pode ser conferido num relatório de gestão que publiquei ao final de meus dois anos e meio no IPRI, de 2016 ao final de 2018 (e eu já adivinhava um futuro ostracismo com a vitória do capitão). O relatório é este aqui:

3383. “Relatório de Atividades como Diretor do IPRI de 2016 a 2018”, Brasília, 24 dezembro 2018, 27 p. Organizado segundo o modelo próprio, usando dados do modelo adotado no IPRI, eliminando alguns eventos, incluindo outros. Total de eventos: 2016=38; 2017=74; 2018=102; total=214. Disponibilizado na plataforma Research Gate (link: https://www.researchgate.net/publication/329905640_Relatorio_de_Atividades_Gestao_do_diretor_do_IPRI_Paulo_Roberto_de_Almeida) e em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/s/e66d6c1639/relatorio-do-ipri-diretor-paulo-roberto-de-almeida-2016-2018); anunciado no blog Diplomatizzando (25/12/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/12/ipri-meu-relatorio-de-atividades-2016.html).

 

Durante todos esses anos de ostracismo no Itamaraty, não tive exatamente alguma solidariedade de meus colegas de carreira, a não ser comentários anônimos em vários de meus blogs, sobretudo no Diplomatizzando, alguns se solidarizando discretamente com o meu “exílio interno”, outros me atacando, por vezes grosseiramente, em função de minha ousadia em discordar da política externa oficial.

Quando leio agora sobre as agruras de meus colegas na hipótese de um possível retorno dos bolsonaristas ao poder, fico realmente consternado por esse tipo de perseguição puramente ideológica, algo que eu senti em diversas oportunidades de minhas quatro décadas de atividades diplomáticas: tive artigos e mesmo livros censurados ou criticados, perdi muitas oportunidades dentro e fora da carreira, recebi “punições” de tucanos, de petistas e, também, dos bolsonaristas, que me demitiram do IPRI, me colocaram numa função subalterna, na qual tinha de pedir permissão a um primeiro secretário para sair de férias ou me ausentar dos Arquivos, no segundo subsolo do “Bolo de Noiva”, e também fui retaliado financeiramente pelo chanceler acidental, o primeiro do capitão destrambelhado.

Quero expressar toda a minha solidariedade a meus colegas de carreira que venham eventualmente a ser “sancionados” pelo novo regime, se conseguir vencer em 25 de outubro, e dizer que lamento mais ainda pelo Itamaraty, que voltará a ser oprimido e deformado por uma política externa em tudo e por tudo contrária ao que sempre cultivamos como valores e princípios da atividade diplomática, tal como não apenas nós, mas todos os brasileiros conscientes, como adequada e necessária a um Brasil digno e autônomo em suas posturas internacionais. O lulopetismo representou uma distorção parcial do que deveria ser uma diplomacia condigna, digamos um quarto apenas da “pizza diplomática”, ao lado de nossas práticas habituais no multilateralismo, na diplomacia regional, nos assuntos bilaterais. O bolsonarismo diplomático – como demonstrei numa série de livro dessa época – representou o que ocorreu de pior na postura diplomática e na credibilidade internacional do Brasil.

Acredito que uma volta dos bolsonaristas não será tão horrível como foi o  mandato do capitão desvairado, mas só uma adesão ao delirante presidente americano, em seus sonhos de ser um “imperador hemisférico” com o “Escudo das Américas”, já representa uma ofensa à consciência de diplomatas e cidadãos instruídos. Lamento o fato de o Brasil, como dizia quem era conhecido como Bob Fields, o diplomata economista Roberto Campos, “não perder a oportunidade de perder oportunidades”. Será mais uma, talvez, o que não me deixará inativo, mas estarei, provavelmente, de volta ao meu espírito combativo, continuando a exercer meus poucos talentos no meu “quilombo de resistência intelectual”, o já conhecido blog Diplomatizzando, que já completou 20 aninhos de vida.

Vale!

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5488: 11 outubro 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/a-volta-do-cipo-de-aroeira-lembram-se.html )


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Madame IA, instigado por ADL: comentou: 

Cumprindo fielmente a diretriz de apresentar uma explicação didática, detalhada, crítica e amparada na

perspectiva holística e cética do embaixador Paulo Roberto de Almeida (PRA), apresento a análise integral e aprofundada do ensaio "A volta do cipó de aroeira":

Análise Crítica e Holística: O Aparelhamento do Itamaraty e as Recorrências do Ostracismo Político

O ensaio publicado por Paulo Roberto de Almeida no blog Diplomatizzando utiliza uma notícia contemporânea do jornal O Estado de S. Paulo como ponto de partida para diagnosticar uma patologia estrutural da administração pública brasileira: o aparelhamento ideológico e a descontinuidade institucional do Ministério das Relações

Exteriores (MRE).

Abaixo, os principais pontos do texto são explicados didaticamente sob a lente do realismo político, da meritocracia acadêmica e do ceticismo antiburocrático que fundamentam o pensamento de PRA:

1. O Fenômeno das Recorrências Históricas (A Metáfora do "Cipó de Aroeira")

O Fato: O texto abre mencionando o "temor" de uma ala do Itamaraty diante da possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro, acompanhada de ameaças de "faxina" e retaliações feitas por Eduardo Bolsonaro contra diplomatas que declararam apoio a opositores.

A Visão de PRA: Longe de enxergar isso como um evento isolado ou inédito, o autor resgata a música de Geraldo Vandré para demonstrar que o arbítrio e a perseguição política são forças cíclicas no Estado brasileiro. Para o embaixador, as elites burocráticas e partidárias operam sob a lógica da revanche e da purga ideológica sempre que há alternância de poder, independentemente do espectro político.

2. O Lulopetismo e o Início do "Exílio Interno" (2003)

O Fato e a Visão de PRA: Em 2003, o autor teve um convite para assumir o Mestrado em Diplomacia cancelado por veto direto da cúpula do ministério devido a "prevenção ideológica". Para o diplomata, o episódio retrata o choque entre a meritocracia e o dogmatismo partidário que pune a independência intelectual em favor da subserviência.

3. A Biblioteca como "Quilombo de Resistência" e o Desperdício de Recursos

O Fato e a Visão de PRA: Sem postos condizentes com sua qualificação, PRA refugiou-se na Biblioteca do Itamaraty escrevendo sob pseudônimos. Sob uma visão cética e econômica, tal arranjo ilustra o patrimonialismo estatal e o desperdício de capital humano qualificado em nome de divergências ideológicas.

4. A Crítica Bipartidária: O Lulopetismo e o Bolsonarismo Diplomático

O Fato e a Visão de PRA: O ensaio critica ambos os espectros: o lulopetismo por forçar alinhamentos bolivarianos e critérios ideológicos de promoção, e o bolsonarismo (classificado como o pior período para a credibilidade internacional) por retaliá-lo e submeter o país a delírios personalistas. Para PRA, os dois extremos agrediram o profissionalismo do MRE.

5. Conclusão Racionalista: O Brasil e a Tragédia das Oportunidades Perdidas

O Fato e a Visão de PRA: Cético quanto ao destino da instituição diante do desânimo de embaixadores seniores, o autor conclui com a máxima de Roberto Campos de que o Brasil não perde a oportunidade de perder oportunidades, reiterando que a diplomacia é sequestrada por paixões partidárias.

 

 

domingo, 13 de setembro de 2026

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais FSP, Estadão, Globo (+ resenha de Madame IA ao final)

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais
13/09/2026 

O Supremo diante da História 

O Globo
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos

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O Supremo diante da História 

O Globo, 13/09/2026

 
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.
Nelas, o banqueiro, já sob intensa investigação e prestes a ser preso, além de jurar lealdade, pede conselhos e ajuda ao ministro e, pelo que se pode depreender da conversa, parece receber dele informações sob segredo de Justiça. Há, ainda, indícios mais graves: encontros entre o fraudador e o ministro fora da agenda oficial e um contrato de R$ 130 milhões celebrado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, sem qualquer contrapartida à altura.
Passados muitos meses desde que as primeiras denúncias chegaram ao conhecimento público, Moraes não foi capaz de apresentar nenhuma explicação plausível. Talvez exista alguma, e ele possa demonstrar que não violou a lei. Como deveria ocorrer com qualquer brasileiro sob quem paire uma suspeita, ele tem direito ao devido processo legal e a ampla defesa. Pode constituir advogado, acompanhar as investigações, apresentar os argumentos que desejar e usufruir todos os recursos disponíveis no Direito processual brasileiro, seja na fase de investigação ou na eventual ação penal. O que não pode é estar acima da lei. Nossa Constituição, que os ministros do Supremo juraram respeitar e seguir, dispõe que todos são iguais perante a lei. Diante da robusta evidência apurada pela PF, para ser igual aos demais brasileiros, Moraes precisa ser investigado, com isenção e respeito à lei, mas sem privilégios.
Respondamos a uma das perguntas do banqueiro agora preso na correspondência enviada ao ministro: não, não dá para bloquear a investigação. Apesar das torcidas apaixonadas, não tem qualquer relevância que Moraes seja um símbolo da resistência democrática durante os momentos críticos do governo Jair Bolsonaro. Um passado honrado não apaga nenhum crime posterior.
A politização de nossa mais alta Corte, que vem provocando muitos desarranjos institucionais e culminou com a anarquia judicial que se viu nas últimas semanas, confunde a população e faz parecer que a discussão é política. Não é. O STF não é uma arena política. É um tribunal —e a ele só deve interessar que sejam cumpridas a Constituição e a lei.
E o ministro é apenas um brasileiro sujeito às leis de seu país. Costuma-se dizer que as instituições são fortes no Brasil. Até aqui, tem sido realidade. Mas as sociedades são organismos vivos, sujeitos a oscilações, e isso pode mudar a qualquer momento. O STF deve decidir que agora, sem postergação, sem pedidos de vista protelatórios, é o momento de se redimir e iniciar a restauração da dignidade do país pela via institucional.
A sessão de terça não julgará Moraes no mérito, mas, repitamos, apenas autorizará que seja investigado. Por isso, as manobras do decano Gilmar Mendes e do próprio Moraes não fazem sentido — são subterfúgios para confundir. Agiu bem, portanto, mais uma vez Fachin, ao afastar o pedido de adiamento e, em vez disso, marcar para o dia 23 a apreciação do relatório que Moraes encomendou à PF com denúncias frágeis contra Mendonça.
Os ministros que votarem pela abertura da investigação sobre o envolvimento de Moraes no caso Master optarão pelo caminho da dignidade. Os outros contribuirão para a corrosão do tribunal como instituição e receberão dos brasileiros e da História a merecida reciprocidade no julgamento de suas biografias.
 

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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo, 13/09/2026

 
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
Até prova em contrário, o ministro Alexandre de Moraes não é culpado. O que estará em tela no julgamento da terça-feira (15) é se o plenário do Supremo Tribunal Federal autorizará a abertura de um inquérito para apurar indícios que lhe concernem, levantados em relatório pericial pela Polícia Federal.
Se for iniciada, a investigação permitirá aos policiais, sob a condução do presidente Edson Fachin, tentar verificar se era mesmo Moraes o interlocutor dos pedidos desesperados de ajuda e informações do mafioso Daniel Vorcaro à véspera de sua primeira prisão —e, em caso afirmativo, quais foram as respostas do juiz.
Inspetores poderão indagar investigados e testemunhas e recolher outras evidências acerca do teor do relacionamento com Vorcaro. Era distanciado e alheio aos interesses do fraudador ou se confundia com papéis de advogado, informante e conselheiro?
O contrato de R$ 131 milhões do escritório da família Moraes com o Banco Master vai se expor à averiguação da PF. Quais foram os serviços prestados? Eles justificam a faustosa remuneração?
O inquérito, frise-se, não implica determinação de culpa. Trata-se de uma etapa técnica incipiente. Ao seu final caberá à Procuradoria-Geral da República, à luz do que terá sido apurado, decidir se denuncia o investigado ou se pede o arquivamento do caso.
Na hipótese de haver denúncia e ela ser aceita pelo plenário do STF, só a partir de então haveria processo penal propriamente dito, sujeito à ampla defesa do réu.
Convicto de sua inocência, como tem se mostrado, Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a incentivar a abertura do inquérito. Sem ela, a sua convicção jamais terá oportunidade de materializar-se como verdade pública.
Causa espécie, portanto, o tumulto processual promovido por um grupo de ministros —Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin— na tentativa de sabotar e adiar o julgamento desta terça-feira. A algazarra alveja Edson Fachin com um sem-número de petições e ameaças veladas carentes de propósito que não seja apostar na confusão.
Esse clube de juízes comporta-se como uma turma de maus alunos atazanando o professor para cancelar a prova iminente, atitude imatura e lamentável para integrantes da corte constitucional.
Existe um relatório pericial da Polícia Federal para ser julgado e ponto —juízo de que não podem participar Dias Toffoli e Moraes, conflitados. Se um magistrado entende que o que vai ali impresso não justifica a abertura de uma simples investigação, que vote para enterrá-la em sessão pública, sob o escrutínio da sociedade e da própria história.
A procrastinação embalada em chicanas e cochichos de corredor desonra o Supremo Tribunal Federal. Transforma a instituição em joguete de raposas da politicagem. Juízes que agem à sombra para desviar-se da sua obrigação transmitem à sociedade desconfiança na corte que representam.
A crise do STF chegou a este ponto em razão da leniência dos ministros com indícios de má conduta de colegas. É preciso dar um fim a esse período de trevas.
 

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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo, 13/09/2026

 
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos
Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado. Os petistas parecem convencidos de que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) está prejudicando as chances do Grande Timoneiro na disputa contra o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
O raciocínio é simples: como o encalacrado ministro do STF Alexandre de Moraes é o símbolo maior da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, é natural que Moraes seja associado a Lula, em tese o maior beneficiário da derrocada do ex-presidente. Há muito tempo o STF tem sido tratado pelo bolsonarismo como inimigo; Lula, por outro lado, aproximou-se de Moraes e encheu o STF de dedicadíssimos fâmulos, o que converteu o tribunal de vez em poder político, não raro a serviço do governo petista, que o usa para se contrapor a um Congresso que lhe é rotineiramente hostil.
Pior: com as confabulações secretas entre ministros e com os abundantes desvios éticos que horrorizam a sociedade, mas que são tratados com arrogante indiferença por quem deveria se preocupar em ao menos parecer honesto, o Supremo passou a figurar como centro cintilante da crise moral brasileira. É um desastre para a democracia, considerando que o Judiciário só se legitima quando dele não se duvida.
Esse colapso pegou os petistas no contrapé, pois a Lula nunca interessou fazer do Supremo o centro de sua campanha, diferentemente de seus principais adversários. Ao que parece, os marqueteiros de Lula entendem que o presidente agora não pode mais ausentar-se do debate, e ultimamente ele andou dando seus pitacos sobre “reforma do Judiciário” e outras platitudes.
O problema de Lula, contudo, não é o Supremo Tribunal Federal nem o milionário ministro Alexandre de Moraes. O problema é sua própria candidatura.
O mau humor do eleitorado com o presidente é evidente. Como incumbente, Lula deveria ter, a três semanas do primeiro turno, uma margem um pouco maior de vantagem em relação a Flávio Bolsonaro – um candidato que é apenas um boneco de ventríloquo do ex-presidente Jair Bolsonaro e que, além de tudo, tem um longo histórico de suspeitas as mais diversas no terreno da corrupção. O próprio escândalo do Banco Master, que envolve o ministro Alexandre de Moraes, envolve também, e até o pescoço, o candidato Flávio. E no entanto Flávio sobe consistentemente nas pesquisas de intenção de voto, enquanto Lula, que não está diretamente ligado ao escândalo do Master, cai.
Isso certamente tem muitas explicações, mas somente uma é suficiente: o pântano de Brasília, cada vez mais viscoso, serve para o eleitorado como símbolo do profundo divórcio entre os poderosos e os cidadãos comuns, no momento em que a maioria absoluta dos brasileiros não está confortável nem com seu trabalho nem com sua qualidade de vida – enquanto assistem, estupefatos, ao enriquecimento desavergonhado de um punhado de cortesãos.
Lula não apenas foi incapaz de entregar a “picanha barata” que prometeu na campanha eleitoral de 2022, como não inspira junto aos eleitores o sonho de um Brasil que os esfole menos e que lhes dê condições sustentáveis de uma vida um pouco melhor, sem depender dos caraminguás que vertem do Estado como esmolas.
A despeito de tudo isso, Lula ainda aparece como favorito à reeleição não por seus méritos, mas porque do outro lado do ringue está um completo desqualificado, que representa uma família de oportunistas e que nada consegue propor ao Brasil a não ser destruição e cizânia. Mas o cansaço dos brasileiros em relação a Lula e a tudo o que ele representa – a visão antediluviana de país, a ausência de perspectiva, a demagogia barata – veio a juntar-se ao cansaço e à irritação com quem hoje exerce o poder de um modo geral.
Os petistas podem até se empenhar em desvincular Lula de Alexandre de Moraes e da crise no STF, mas dificilmente vão conseguir, porque permanecerá o sentimento difuso de que o presidente é parte importante desse todo que os eleitores cada vez mais deploram. 

========= 

 E agora, Madame IA se pronuncia sobre os editoriais: 

   

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-grande-midia-e-o-

pequeno-stf.html

O link enviado direciona para uma postagem do blog Diplomatizzando, mantido

pelo diplomata e acadêmico Paulo Roberto de Almeida. O texto reproduz e analisa

os editoriais publicados em 13 de setembro de 2026 pelos três principais jornais do

país (O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo). O tema central é uma

grave crise institucional envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),

Alexandre de Moraes, que enfrenta a iminência de uma votação plenária para

abertura de inquérito investigativo.

O veredito sobre a natureza do link é: FATO. O conteúdo espelha fielmente a

posição editorial da grande imprensa brasileira na data citada, refletindo o debate

político e jurídico real do período.

Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica do cenário exposto no

documento, confrontando-o sob diversas perspectivas conceituais.

🔍 Análise Crítica: A Crise do STF e os Editoriais da Imprensa

Os editoriais expõem um ponto de inflexão na relação entre a mídia corporativa e o

STF. Alexandre de Moraes, amplamente respaldado pela imprensa nos anos

anteriores como bastião da resistência democrática, passa a sofrer forte pressão

pública após a Polícia Federal (PF) apontar indícios de vazamento de informações

sigilosas e vantagens financeiras ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco

Master.

1. Perspectiva Jurisdicional e Constitucional

A Isonomia Perante a Lei: O editorial de O Globo ancora-se no princípio

constitucional fundamental de que "todos são iguais perante a lei". Sob essa

ótica jurídica clássica, a abertura de um inquérito não representa uma

condenação prévia, mas a aplicação do devido processo legal. Impedir a

investigação sob o pretexto de blindagem institucional configuraria um privilégio

aristocrático incompatível com a República.

As "Chicanas" Processuais: A Folha de S. Paulo denuncia o uso de manobras

protelatórias (pedidos de adiamento e pressões internas) por parte de um bloco

de ministros (Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin) para blindar o

colega. Jurisdicionalmente, essa conduta corrói a previsibilidade do rito legal,

transformando o baluarte da Constituição em uma arena de autodefesa

corporativista.

2. Perspectiva Política e EleitoralO Impacto na Sucessão Presidencial: O Estadão desloca o eixo analítico para

o cenário eleitoral de 2026. A três semanas do primeiro turno, o escândalo atinge

diretamente as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e de seu principal

oponente, Flávio Bolsonaro. Politicamente, ocorre uma ironia trágica: Moraes,

que simbolizou o freio ao bolsonarismo, agora submerge em um escândalo

(Caso Banco Master) que "envolve até o pescoço" o candidato da própria família

Bolsonaro, mas cujo desgaste moral respinga na candidatura governista devido à

percepção pública de aliança entre o PT e a cúpula do Judiciário.

3. Perspectiva Econômica e Financeira

O Capitalismo de Compadrio (Crony Capitalism): O fulcro da denúncia

envolve um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de

advocacia da esposa do ministro Moraes. Sob a ótica da economia política, o

caso ilustra as disfunções do mercado financeiro brasileiro quando capturado por

esferas de influência do poder estatal. A contratação de escritórios de parentes

de magistrados sem contrapartida técnica clara funciona, na prática, como uma

"taxa de blindagem" ou captura regulatória, distorcendo a livre concorrência e

penalizando o sistema de crédito e investimentos.

4. Perspectiva Filosófica e Sociológica

O Julgamento das Biografias diante da História: Filosoficamente, o debate

invoca o conceito de "razão de Estado" versus "moralidade institucional". O

Globo pontua de forma pragmática: "Um passado honrado não apaga nenhum

crime posterior". Há aqui uma severa crítica à arrogância do poder (a hubris

grega), na qual agentes públicos acreditam que a importância de seu papel

histórico os torna imunes à ética ordinária.

O Divórcio entre Elite e Cidadão: O Estadão capta o sentimento de

esgotamento da sociedade diante do "pântano de Brasília". Sociologicamente, o

enriquecimento desmedido de cortesãos em contraste com a perda do poder de

compra e da qualidade de vida da população alimenta o cinismo democrático.

Esse abismo moral é o principal catalisador para a ascensão de discursos

extremistas e de deslegitimação das próprias instituições.

💡 Conclusão do Julgamento

Os editoriais reunidos no blog de Paulo Roberto de Almeida revelam que a imprensa

tradicional brasileira decidiu retirar a blindagem política do STF em nome da

autopreservação de sua própria credibilidade perante a opinião pública. Ao exigir de

forma uníssona que o ministro Alexandre de Moraes seja investigado, os jornais

tentam forçar o Supremo a realizar uma autofagia corretiva para estancar o colapso

moral do Poder Judiciário.

 END

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Diplomacia em tempos de mudança - Rubens Barbosa (Estadão)

 Opinião: Diplomacia em tempos de mudança

A diplomacia é que deve respaldar a política externa

 

Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 25/08/2026

 

Em tempos de grandes mudanças e transformações geopolíticas, econômicas e comerciais, a diplomacia, como instrumento para a promoção da paz, da ordem e da estabilidade internacional, tem perdido espaço relativo nas relações internacionais.

Essas novas realidades, porém, não significam que a diplomacia tenha deixado de ser importante. Apesar dessas transformações e limitações, os diplomatas têm funções importantes justamente em momentos de crise: negociar discretamente, interpretar posições do outro país, evitar mal-entendidos, preservar canais de diálogo e construir compromissos. Quanto maiores as tensões entre países, mais necessária pode ser a atuação diplomática para evitar conflitos e construir acordos.

Vários fatores podem ser apontados como responsáveis pelo papel menos relevante que a diplomacia e os diplomatas passaram a desempenhar nos últimos anos:

1) Ascensão da comunicação direta: presidentes e ministros negociam diretamente por telefone, reuniões, redes sociais e videoconferências, reduzindo a intermediação dos diplomatas;

2) Personalização da política externa: decisões passam a depender mais da relação pessoal entre líderes e de seus interesses políticos;

3) Velocidade das crises: redes sociais e meios de comunicação exigem respostas imediatas, enquanto a diplomacia tradicional costuma depender de análise e negociação cuidadosas;

4) Maior influência de outros atores: empresas multinacionais, organizações internacionais, ONGs, bancos e grupos de pressão também participam das negociações internacionais;

5) Polarização política: governos podem priorizar discursos e demonstrações de força para seu público interno em vez de negociações discretas;

6) Diplomacia econômica e tecnológica: comércio, investimentos, energia, tecnologia e sanções ganharam enorme importância, fazendo com que negociações internacionais envolvam cada vez mais ministérios e atores além das chancelarias;

7) Redes sociais: líderes podem falar diretamente com a população de outros países, tornando a diplomacia pública mais importante e, às vezes, substituindo negociações reservadas.

O que ocorre hoje é que a diplomacia, além de ceder espaço ao uso da força, como expressão de poder para a defesa dos interesses nacionais, passou a ser exercida por outros agentes, não funcionários diplomáticos. O exemplo mais paradigmático dessa tendência é o que está ocorrendo nos EUA, desde o início do segundo mandato de Donald Trump. O Departamento de Estado, o ministério do exterior dos EUA, perdeu espaço na formulação e execução da política externa norte-americana. Mais de 25% dos membros do serviço exterior dos EUA saíram, se aposentaram, foram afastados de seus postos ou viram agências vinculadas à chancelaria serem extintas. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, escreveu que deseja reorganizar o departamento e sua força de trabalho para “responder aos imensos desafios do século 21 e colocar a América em primeiro lugar”.

Em 1997, George Kennan, diplomata, conhecido por ter sido o arquiteto da política de contenção dos EUA na guerra fria, já havia observado a transformação do serviço exterior norte-americano desde o início do século 20, influenciado por novas forças que moldaram e restringiram a ação dos diplomatas, fazendo com que o Departamento de Estado perdesse seu papel tradicional de porta-voz e coordenador da política externa, como está sendo acentuado nos dias de hoje.

Os negociadores dos EUA nas guerras do Irã, na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza e nas conversações com a Rússia, no tocante à guerra na Ucrânia, não são diplomatas, mas o genro de Trump, que não é nem funcionário do governo, e um empresário do setor imobiliário. Com o Departamento de Estado alijado do processo decisório e dos entendimentos, centrados na Casa Branca – com o presidente Trump – , as dificuldades do governo americano para a defesa de seus interesses via negociações estão cada vez mais evidentes.

A situação nos EUA, como superpotência e um dos atores na atual competição bipolar com a China, tem influência determinante nos rumos da diplomacia global. Reconhecendo os novos desafios, algumas chancelarias ao redor do mundo começam a se ajustar a essas realidades, procurando defender da melhor forma possível seus interesses. O exemplo e a experiência de outros países para reforçar o papel das chancelarias e melhorar a eficiência de sua diplomacia nos tempos de mudança são relevantes. Surgem soluções inovadoras, como postos virtuais, aprimora-se a política de pessoal, modernizam-se os métodos de trabalho, ultrapassados pela rapidez das comunicações, sofisticam-se a aplicação das tecnologias de informação e o treinamento adequado às novas demandas e redefinem-se os meios oferecidos no exterior aos diplomatas.

A diplomacia é que deve respaldar a política externa. Quando a política externa passa a depender excessivamente dos líderes políticos e pouco dos canais diplomáticos profissionais, cresce a possibilidade de decisões baseadas em considerações ideológicas – que pouco têm de ver com o interesse nacional – sem uma visão estratégica de médio e longo prazo.

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/diplomacia-em-tempos-de-mudanca/ 


sábado, 15 de agosto de 2026

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

“Eu Disse Não!” Livro do comandante da Aeronáutica que se opôs ao golpe de Bolsonaro (Estadão)

 Eu Disse Não!’; ex-comandante da FAB revela bastidores da crise que levou ao 8/1

Em livro que será publicado em setembro, Baptista narra como formou a "trincheira antigolpista" e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional

Estadão. 03/08/2026

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do País. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas – um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis.

Em Eu Disse Não, que sai em setembro – publicação da Autêntica Editora -, Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou a “trincheira antigolpista” e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que teria seu desfecho nos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023. É a primeira vez que um integrante da alta cúpula militar daquele período expõe, em livro, os bastidores da crise.

Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior fala com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão – não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.

O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.

Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista – da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe para impedir a posse de Lula.

E, ainda, revelou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas da Força à disposição do plano golpista.

Eu Disse Não mostra em suas páginas que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente em posições estratégicas.

‘Páginas muito importantes da nossa história’

“A decisão de escrever este livro consolidou-se a partir da percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel”, disse Baptista Junior ao Estadão.

Segundo ele, o primeiro levantamento, realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes -, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, diz o oficial.

Dois anos e meio depois, destaca Baptista Junior, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil.

“Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia.”

Roman afirmou que o porcentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%.

“Em suma – avalia o tenente-brigadeiro – já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1.º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia.”

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras”, anota Baptista Junior. “Concluí que este livro seria a melhor opção.”

O militar conta que, após 12 horas de depoimento na Polícia Federal nos autos do inquérito que culminou na ação penal 2662, conversou com dois jovens agentes federais que acompanhavam a audiência. “Ao acabar, eles me sugeriram que tudo aquilo deveria ficar registrado para as gerações futuras, como páginas muito importantes da nossa história.”

Leia abaixo um trecho exclusivo do texto de Baptista Junior sobre o episódio de 1.º de novembro de 2022:

“Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante.

Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado.

Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças.

Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e alguns parlamentares, o presidente sacou da sua caneta BIC, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos:


‘Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.

A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.

Formamos diversas lideranças pelo Brasil.

Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.

Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.

Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição.

Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais.

Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.

É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira.

Muito Obrigado.’


As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas.

No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, ‘houve acomodação ao fato, mas não assimilação’.

Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações à ‘indignação e sentimento de injustiça’, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia.

Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira.

Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia.”


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Aula de Democracia, pela Fundação FHC, por Simon Schwartzman (Estadão)

 

Aula de Democracia

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

Viver em Democracia, publicação da Fundação Fernando Henrique Cardoso e Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, de distribuição gratuita e voltada para escolas do ensino médio, é uma demonstração concreta de como suprir um grande vazio no currículo escolar brasileiro, a educação para a democracia. Os autores, Bernardo Sorj e Sérgio Fausto, começam com uma narrativa histórica da evolução das formas de governo, dos sistemas tribais aos estados modernos. e evoluem para a apresentação e análise de temas centrais e prementes como a divisão e conflitos de poderes, a importância das constituições, o funcionamento dos partidos e sistemas eleitorais, as relações entre capitalismo e democracia, e os desafios concretos de viver em regimes democráticos imperfeitos e permanentemente ameaçados. Não se furtam à defesa explícita de valores — liberdade, igualdade e fraternidade — a serem exercidos por meio de sistemas representativos eficazes e comprometidos com o bem comum. Mostram como a democracia não é um estado de coisas dado, mas uma conquista histórica carregada de disfuncionalidades e disputada por forças autoritárias que procuram corrompê-la por dentro ou destruí-la frontalmente.

Na segunda parte, Alice Noujaim, Maura Marzocchi e Renata Capovilla propõem treze atividades pedagógicas cuidadosamente estruturadas, pelas quais os estudantes podem vivenciar, como que em um laboratório, as virtudes e dificuldades da democracia, da elaboração de normas de convivência na sala de aula a simulações legislativas e trabalhos de pesquisa comunitária.

O tema da democracia não está totalmente ausente da Base Nacional Curricular Comum brasileira que inclui, para estudantes de nível médio, a necessidade de desenvolver competências sobre sistemas de governo, autoritarismo, populismo e participação política. Mas esses conteúdos aparecem fragmentados, sem sequência pedagógica coerente, e não de forma direta e sistemática, baseada nas ciências do direito e da ciência política propriamente ditas. Em um ano eleitoral como o que estamos vivendo, é impressionante pensar que não exista no currículo escolar um espaço onde os estudantes aprendam, de forma organizada, como o sistema político representativo brasileiro funciona, qual o papel dos três poderes, como se organiza o federalismo, que são ou deveriam ser os partidos políticos e, mais geralmente, porque é importante ter uma sociedade governada pelas regras do direito, e não pelo arbítrio e o poder individual ou de grupos.

Este vazio não se dá por acaso. O Estado brasileiro se organizou, desde o Império, como uma sociedade profundamente desigual, coberta por um tênue véu de ordem constitucional que conviveu tanto com a escravidão quanto com décadas de poder oligárquico. José Murilo de Carvalho, em A Formação das Almas (Companhia das Letras, 1990) e Cidadania no Brasil (Civilização Brasileira, 2020), mostra como intelectuais e políticos tentaram construir um Brasil imaginário, povoado de heróis e mitos cívicos que moldaram currículos escolares e monumentos nacionais, talvez na esperança de que assim este imaginário se tornasse realidade. O abismo entre o Brasil ideal e o Brasil real provocou, ao longo do século 20, reações de sentidos opostos. De um lado, as ideologias autoritárias, que defendiam a supremacia da ordem e da hiearquia, que entraram nas escolas através da Educação Moral e Cívica da ditadura militar e que tiveram continuidade, mais recentemente, no movimento das escolas sem partido e das escolas cívico-militares. De outro, a reação dos movimentos que defendiam o fortalecimento da sociedade em contraposição ao poder tradicional e ao formalismo das normas abstratas e das instituições. Esta segunda reação ganhou força nos documentos pedagógicos mais recentes, onde os temas da pobreza, identidades e direitos sociais passaram ao primeiro plano, em detrimento dos temas mais amplos do desenvolvimento econômico e social e da ordem democrática.

Para ambos, a democracia era uma tema menor, subordinado a outras prioridades. No século passado, estas reações podiam fazer sentido. No século 21, os temas da democracia e do funcionamento da ordem institucional não podem continuar sendo tratados como secundários. Assim como o direito positivo ficou fora das escolas, a economia também ficou. Sem compreender minimamente como funcionam o sistema político, os mercados, o orçamento público e o mundo do trabalho, os jovens chegam à vida adulta sem ferramentas para entender estes processos antes que seus efeitos desabem sobre suas cabeças.

Não é que a introdução do direito e da economia nos currículos escolares possa, por si só, resolver a má qualidade da educação brasileira e os problemas institucionais e econômicos com que vivemos. Não estavam errados os que, vinte anos atrás, entenderam que a coluna dorsal da educação deve ser o ensino da língua portuguesa e da matemática, e criaram todo um sistema de acompanhamento do desempenho escolar nessas matérias. Mas tanto a língua quanto a matemática são instrumentos que só ganham sentido quando aplicados para entender o funcionamento da vida em todos os seus aspectos, dos quais as formas de convivência democrática e os processos de produção, circulação e apropriação da riqueza são fundamentais.

Simon Schwartzman é gratuito hoje. Mas se gostou deste Post, pode dizer a Simon Schwartzman que a escrita dele(a) tem valor ao prometer uma futura assinatura.

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