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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Eleições no Brasil: questionamentos de um jornalista francês em 2022 - Paulo Roberto de Almeida, comentários Madame IA

Recebi, neste dia de jogo do Brasil contra a Escócia, um convite para falar sobre as eleições brasileiras deste ano para uma audiência francesa (provavelmente online). Ainda não é o caso de formular minha avaliação sobre o pleito (os pleitos) deste ano, em outubro, mas lembrei-me de que em 26 de setembro de 2022 eu respondi a questionamentos de um jornalista francês. Respondi às suas poucas questões, nunca divulgadas, o que faço agora:


Élections au Brésil (2022): réponses Paulo Roberto de Almeida
Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, professor
(diplomatizzando.blogspot.com; pralmeida@me.com)
Réponses à questions de journaliste sur les élections au Brésil

1) Est ce que l’on peut dire qu’il y a des Swing States au Brésil ou pas ?
PRA : Non pas dans le sens américain, où la différence d’un seul vote peut faire tourner tout le collège électoral d’un état en faveur d’un seul candidat, qui alors rafle tous les représentants de cet état. Au Brésil chaque voix individuelle compte, dans un unique corpus électoral national, n’importe qui sort vainqueur dans chaque état particulier, dont l’électorat est valable pour chaque circonscription fédérale, mais pas au niveau national.
Cela étant, il y a certainement des états importants, par leur composition démographique et par leurs concentrations économiques, dans les choix des électeurs. Le Brésil est un des pays les plus important par la puissance de l’agrobusiness, et ce secteur (le seul à délivrer des surplus commerciaux significatifs) tend naturellement à être conservateur, sinon droitier à l’extrême, et doit donner beaucoup des votes à Jair Bolsonaro. Mais l’agrobusiness est présent dans tous les états, avec une prééminence dans le vaste hinterland des hauts plateaux.
Minas Gerais, de son côté, possède tous les secteurs économiques du Brésil : l’industrie, les minerais, l’agrobusiness, la petite agriculture de subsistance, tous les petits secteurs et les plus grandes aciéries, et constitue, peut-être, une plaque tournante, dans ces élections, car les gens de Minas Gerais peuvent se tourner à gauche ou à droite. São Paulo est l’état le plus avancé et le plus progressiste, avec Rio, mais aussi le plus conservateur hors de sa capitale. Le Nord-Est, plus arriéré, tend à favoriser les populistes de n’importe quelle tendance, gauche et droite, pourvu qu’ils octroient des bénéfices aux pauvres, qui sont nombreux, mal éduqués et tous dépendants des gouvernements.

2) Il y a des États qui sont fondamentaux pour la présidentielle, lesquels en dehors de Sao Paulo, Rio, Bahia ?
PRA : Même des petits états, comme Santa Catarina et Mato Grosso, peuvent faire la différence, si jamais ils concentrent leurs votes dans un candidat, dans ce cas, dans Bolsonaro. Cette élection n’est pas comme les autres, à cause de la radicalisation.

3) On dit que le vainqueur de la présidentielle dans le Minas est celui élu ? Un état test ou pas ? Pourquoi ?
PRA : Ce n’est pas scientifique, mais peux de présidents ont été élus sans gagner dans les Minas Gerais. Comme indiqué plus haut, c’est un grand état, avec son Nord arriéré et son Sud développé, avec toutes sortes d’activités économiques. Les candidats doivent donc promettre tout à les uns et les autres.

4) Oublie-t ’on trop dans la presse internationale les votes gouverneurs ? Ainsi que les élections parlementaires ? Qui se déroulent en même temps.
PRA : Sauf les préfets et les échevins, tous sont élus à chaque quatre ans, sauf 1/3 ou 2/3 des sénateurs, qui ont un mandat de huit ans. La structure fédérative du Brésil peut compliquer les arrangements au niveau national, car la représentation proportionnelle n’est pas vraiment proportionnelle, le Nord et le Centre-Ouest possédant plus des représentants que population, et les petits états aussi, tandis que São Paulo est plafonné sur 71 députés, quand il devrait avoir 120, car c’est le plus grand nombre d’électeurs. Cela est absolument stratégique quand il s’agit de s’accorder sur les règles tributaires, car il y cinq états qui sont de « payeurs » ou des contributeurs nets, et 21 états qui sont des récepteurs de fonds fédéraux.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4243: 26 setembro 2022, 2 p.
Postado no blog Diplomatizzando (link:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/eleicoes-no-brasil-questionamentos-de.html 

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Eleições no Brasil: questionamentos de um jornalista francês em 2022 - Paulo Roberto de Almeida: 


Anatomia do Sistema Eleitoral e a Inexistência de Estados Pêndulo
O ensaio do embaixador Paulo Roberto de Almeida resgata uma entrevista concedida a um jornalista francês em setembro de 2022 para analisar as engrenagens do sistema político-eleitoral brasileiro, estabelecendo um contraponto crítico com o modelo dos Estados Unidos. A primeira decodificação conceitual promovida pelo autor demonstra a total inaplicabilidade do conceito de "Swing States" (estados pêndulo) no cenário nacional. Enquanto a estrutura norte-americana se ancora em um colégio eleitoral indireto baseado no princípio majoritário distrital do "winner-take-all", o modelo brasileiro para o poder executivo opera sob o crivo do voto popular direto unificado, onde cada sufrágio individual possui peso idêntico dentro de um único corpus nacional. Portanto, a oscilação de maiorias em distritos específicos afeta as bancadas regionais e as dinâmicas locais, mas é incapaz de transferir compulsoriamente blocos fechados de delegados ao candidato presidencial. [1, 2]
Mapeamento Geoeconômico e o Comportamento do Eleitorado
A despeito da unicidade do colégio eleitoral nacional, o diplomata adota uma perspectiva geográfica e sociológica detalhada para mapear os grandes centros de gravidade demográfica e econômica do país, os quais exercem papel decisivo no resultado das urnas. O texto decodifica o comportamento das principais regiões brasileiras por meio das seguintes características estruturais:
  • O Complexo do Agronegócio: Setor vital responsável pelos saldos comerciais positivos do país, cujas lideranças e bases territoriais, concentradas no vasto hinterland dos planaltos centrais e em estados como Mato Grosso, tendem a um posicionamento político conservador e de alinhamento com a direita. [1]
  • Minas Gerais como Estado Teste: Definido como o verdadeiro microcosmo da federação por abrigar em suas fronteiras todas as atividades econômicas nacionais — desde a indústria pesada e mineração no centro-sul até a agricultura de subsistência no norte —, o estado funciona como o principal termômetro político do país, visto que historicamente raros presidentes foram eleitos sem vencer em território mineiro.
  • A Dicotomia de São Paulo e Rio de Janeiro: Representam os polos econômicos mais dinâmicos e industrializados, manifestando uma feição progressista em suas capitais e grandes centros urbanos, que contrasta com um marcado conservadorismo em seus setores interioranos. [1]
  • O Populismo no Nordeste: Região historicamente marcada por gargalos socioeconômicos estruturais e baixos índices educacionais, o que, na análise crítica do autor, fomenta a proliferação de lideranças populistas de variadas matrizes ideológicas, cuja sustentação se ancora na concessão de subsídios estatais e benefícios assistenciais a populações vulneráveis. [1]
Assimetria Federativa e as Distorções do Pacto Fiscal
A análise mais severa do diplomata recai sobre o desenho institucional do Parlamento, denunciando o que qualifica como uma falsa representação proporcional que sabota a igualdade federativa. Por determinação constitucional, estados de menor densidade demográfica nas regiões Norte e Centro-Oeste possuem uma super-representação artificial na Câmara dos Deputados, enquanto estados populosos enfrentam tetos rígidos de representatividade. O autor expõe o impacto estratégico dessa distorção ao revelar que São Paulo se encontra limitado a setenta e um deputados federais, quando critérios estritamente proporcionais ao seu eleitorado deveriam lhe conferir cerca de cento e vinte cadeiras. [1, 2, 3]
Essa distorção legislativa reverbera diretamente na governabilidade e no desenho das políticas públicas, travando reformas estruturais urgentes. A disparidade de cadeiras gera um severo desequilíbrio no pacto federativo, convertendo o Congresso em uma arena de disputa fiscal desigual. O modelo atual perpetua um cenário em que apenas cinco estados atuam como contribuintes líquidos da federação, financiando a transferência contínua de receitas federais para vinte e um estados permanentemente receptores de fundos públicos. Essa assimetria política blinda o modelo de repartição tributária contra alterações substanciais, uma vez que a maioria legislativa super-representada atua ativamente para preservar os privilégios orçamentários das regiões deficitárias. [1, 2]

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O Wilson Center se pronuncia sobre as eleições no Brasil - Anya Prusa (Wilson Center)

WILSON CENTER weekly report: 

 


Eleições no Brasil: a CNN sobre a tensão pré-eleitoral no Brasil - Rodrigo Pedroso, Marcia Reverdosa and Camilo Rocha


Brazil’s presidential vote is just days away. Voters are comparing it to ‘war’

By Rodrigo Pedroso, Marcia Reverdosa and Camilo Rocha, CNN

Updated 12:39 PM EDT, Thu September 29, 2022 - 03:41 - Source: CNN

'There's something strange going on': Some fear a coup in Brazil

CNN  — 


Brazil’s upcoming presidential election has been shrouded by an unprecedented climate of tension and violence. As the Oct. 2 vote approaches, episodes of harassment and attacks have intensified, with even neutral players like poll institutes turning into targets.

Far-right President Jair Bolsonaro, who aims to be reelected, is currently lagging in the main polls behind leftwing former President Luiz Inácio “Lula” da Silva. And the battle between these two very different household names has divided the nation – with experts saying the level of political anger is different this year

“The polarization we’re facing this year is different from just a political polarization,” says Felipe Nunes, CEO of Quaest Research Institute, which conducts polls in Brazil.

“This year we are seeing affective polarization — where different political groups see each other as enemies, not as adversaries.”

Several of his group’s researchers have been harassed while conducting polling this year, Nunes added.

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Bolsonaro stumps for reelection in United Nations speech

Another well-known research institute, Datafolha said that one of its researchers’ lives was threatened, after they refused to interview a self-identified Bolsonaro supporter in the city of Ariranha, outside of Sao Paulo.

The disgruntled man accused the researcher of bias, and accused him of only interviewing “Lula’s supporters” and “tramps”. He then beat and threatened him with a knife, says Datafolha, which filed a police report


“One of the polling guidelines is to not interview someone who offers himself. It has to be random for statistical purposes,” said Jean Estevao de Souza, electoral researcher project coordinator at Datafolha, to CNN.

“The most typical cases (of attacks) are of people who offer themselves and when the researcher explains that he cannot be interviewed under that circumstance, the person starts filming, offending and cursing.”

According to Datafolha, 42 other cases of harassment and violence against its employees have been reported since September 7 this year.


Critics accuse Bolsonaro of fueling fire

While violence has been seen on both sides of the political spectrum, critics accuse Bolsonaro of deliberately fostering distrust and frustration among supporters toward the Brazilian electoral system. And increasingly, as his performance flags in the polls, Bolsonaro’s ire has turned toward research organizations like Datafolha.

Datafolha has been repeatedly named – and the accuracy of its polls questioned — by Bolsonaro. In a speech in Brasília during the celebrations of Brazil´s 200-year Independence Anniversary on September 7, Bolsonaro discredited Datafolha projections, a common theme in his speeches.

“I’ve never seen such a big sea here with these green and yellow colors. There is no lying Datafolha here,” he said. “Here is the truth, here is the will of an honest, free and hardworking people.”

During a campaign event on Sept. 23, Bolsonaro kept the tone in a speech to his supporters in Divinópolis, Minas Gerais state. “We are the majority. We will win in the first round. There is no election without people in the streets. We don’t see any of the other candidates holding a rally that comes close to 10% of the people here,” he said.

Recent polls have shown Lula leading Bolsonaro in recent weeks.

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As Brazil's military rolls out the tanks for Independence Day, Bolsonaro tells fans to 'make a stand'

Attempts by politicians to discredit polling institutes are not new in Brazil, says Datafolha’s Estevao de Souza. “But we never faced harassment and attacks on the researchers on the streets until this year.”

“The rhetoric of attack on the institutes by the president’s campaign, which tries to discredit the polls, ends up circulating among the most radicalized supporters and it is reflected in the streets,” he said.

Verbal sparring between the two leading candidates — though not uncommon in Brazil — has also added to the poisoned atmosphere, with Bolsonaro repeatedly calling Lula a “thief,” and Lula recently describing Bolsonaro as vermin.

Given the charged national dialogue, some Brazilian voters have chosen to refrain from discussing their electoral preferences in public, according to a Quaest poll.

“We recently asked voters if they feel it’s more dangerous to say their opinions or whoever they want to vote for. And around 80% of respondents claimed it’s more dangerous to talk about politics right now than it used to be in the past,” continued Nunes.

‘Repeat with me: I swear to give my life for freedom’

Attacks on polling researchers are just one example of the political hostility seen in Brazil as the nation prepares for the vote.

During a speech accepting his party’s nomination for reelection on July 23, the Brazilian president called on supporters to give their lives “for freedom.”

“Repeat with me: I swear to give my life for freedom. Once again,” said Bolsonaro to the crowd who repeated his words.

There have been repeated clashes between Bolsonaro and Lula supporters – the most emblematic episode being perhaps the shooting death of Workers Party member Marcelo Arruda on July 9 by the Bolsonaro supporter José da Rocha Guaranho, who was later charged with aggravated murder.

Guaranho, who was also shot and subsequently hospitalized, has said he doesn’t not remember what happened.

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Fatal shooting at a party in Brazil highlights soaring political tensions

Such high profile incidents have caused fear among some potential voters – and could risk deterring people from voting at all. On the streets of Sao Paulo’s iconic Paulista avenue, voters interviewed by CNN expressed frustration over the bitter atmosphere around the coming elections.

“There is too much tension, it’s almost turning into a war. It seems that Lula and Bolsonaro are like football teams. People are angry at each other,” said 33-year-old Erika de Paula, who said she was still undecided but would not vote for Bolsonaro.

Felipe Araujo, who considers himself a moderate supporter of Bolsonaro, wished the elections would end soon. “(The elections) are very polarized between the two main candidates. And there is a lot of fighting between people. I sincerely hope this ends soon. It has contaminated all of the environments, work, family, friends,” he said.

Voter turnout will be crucial at this historic juncture for the country – which could see Brazil’s leadership double down on Bolsonaro’s agenda or else take a left turn under Lula.

But four in ten Brazilians believe that there is a high chance of political violence on election day and – although voting is compulsory in Brazil – 9% said they were are considering not voting at all for fear of violence, according to a Datafolha poll earlier this month.

“These tensions and attacks are very bad for the research work, but also for the election, for the political environment in general, and for democracy itself,” said Estevao de Souza from Datafolha.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Eleições 2022: quando o ridículo sobe à cabeça: sobre o festival de mentiras na exposição do Bozo a embaixadores

Embaixadores são alertados por seus países a não reforçar tese de Bolsonaro em reunião sobre urnas

Por Valdo Cruz
O Globo, 18/0z/2022 11h07  Atualizado há uma hora

Embaixadores convidados por Jair Bolsonaro para uma reunião nesta segunda-feira (18) foram alertados por seus países a não reforçar a tese do presidente sobre urnas eletrônicas. Bolsonaro tem alardeado que quer contar a eles "o que aconteceu no país em eleições passadas".

Segundo representantes de embaixadas em Brasília, os embaixadores vão à reunião com o objetivo de relatar a seus governos qual foi o tom da conversa.

Bolsonaro disse neste domingo (17) que cerca de 40 embaixadores confirmaram presença. Os Estados Unidos devem enviar o encarregado de negócios, Douglas Koneff. O Reino Unido também deve enviar representantes. Há um receio no Palácio do Planalto de que alguns países importantes deixem de enviar representantes.

Segundo o blog apurou, alguns países lembraram a seus embaixadores que já têm uma posição firmada de apoio ao sistema eleitoral brasileiro e não concordam com os ataques que o presidente Bolsonaro faz às urnas eletrônicas. Por isso, segundo um diplomata, o presidente vai acabar “pregando no deserto” e será ouvido apenas por aqueles que têm posições semelhantes à do brasileiro.

O receio de assessores de Bolsonaro é que o encontro possa acabar virando uma agenda negativa para o próprio presidente, a depender do que os embaixadores divulguem depois da conversa.

Bolsonaro decidiu fazer a reunião após o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Edson Fachin, fez uma reunião com embaixadores para falar sobre a eleição deste ano no Brasil. Ele reclamou do encontro e acabou pedindo à sua equipe para organizar um semelhante.

Em uma transmissão ao vivo no dia 7 de julho, o presidente disse que iria apresentar aos embaixadores um power point com dados sobre as eleições de 2014 e 2018, nas quais ele afirma terem ocorrido fraudes, mas nunca apresentou provas para confirmar suas suspeitas.

https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/noticia/2022/07/18/embaixadores-sao-alertados-por-seus-paises-para-nao-reforcarem-tese-de-bolsonaro-em-reuniao-sobre-urnas.ghtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=g1

 China e Argentina não receberam convite para reunião de Bolsonaro com embaixadores


São esperados entre 30 a 40 embaixadores; os embaixadores do Reino Unido e da Alemanha não estarão presentes

Por Eliane Oliveira — Brasília
O Globo, 18/07/2022 11h47  Atualizado há 39 minutos

Países importantes para a política externa brasileira, a Argentina e a China não deverão estar representadas na reunião desta segunda-feira, no Palácio da Alvorada, entre o presidente Jair Bolsonaro e embaixadores. Segundo interlocutores do governo, não foram enviados convites a várias embaixadas, inclusive para esses dois postos.

O encontro está previsto para acontecer às 16h, no Palácio da Alvorada. São esperados de 30 a 40 altos funcionários de governos estrangeiros, para ouvir o que Bolsonaro tem a dizer sobre o sistema eleitoral brasileiro. O presidente costuma questionar publicamente a eficácia das urnas eletrônicas sem apresentar provas, o que causa preocupação dentro e fora do Brasil.

China e Argentina estão sem embaixadores efetivos em Brasília, assim como outras representações, como a do Chile. Porém, a embaixada dos Estados Unidos está na mesma situação, mas recebeu convite do cerimonial do Palácio do Planalto e o encarregado de negócios Douglas Koneff estará na reunião.

De acordo com uma fonte do governo ligada à área internacional, o critério para o envio de convites é o “bom senso”. Outro interlocutor disse que outro critério é o nível de interesse do país sobre a eleição no Brasil.

De férias na Europa, os embaixadores do Reino Unido e da Alemanha, Melanie Hopkins e Heiko Thoms, não estarão presentes. Os de Portugal, (Luís Faro Ramos), da Rússia (Alexey Labetskiy), da França (Brigitte Collet), do Uruguai (Guillermo Valles Galmés), entre outros, disseram que vão comparecer.

O embaixador da Espanha, Fernando García Casas, foi convidado, mas ainda não há informação se ele irá ou não ao Alvorada. Alegando compromissos em São Paulo, o embaixador do Japão, Teiji Hayashi, não deve comparecer à reunião.

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2022/07/china-e-argentina-nao-receberam-convite-para-reuniao-de-bolsonaro-com-embaixadores.ghtml


Bolsonaro fracassou na reunião dos embaixadores antes do encontro

Por Míriam Leitão
O Globo, 18/07/2022 • 09:04

A insólita tentativa do presidente da República de difamar o processo eleitoral brasileiro, convocando os embaixadores para uma reunião sobre supostas fraudes eleitorais, já fracassou. Primeiro, ele queria levar um grande número de embaixadores, falou em 50, depois mandou convite para todos e agora fala em 40 confirmados, sendo que algumas das principais representações não vão. Segundo, ele imaginou uma manobra para constranger o Judiciário, especialmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele diria as mentiras que sempre diz na presença do presidente do TSE, e o ministro Luis Fachin teria que ouvir.

O que ele esperava era que, como convite de presidente da República em geral não se recusa, o ministro fosse comparecer. Fachin recusou com uma excelente resposta. Lembrou que como presidente da Corte não pode ir a atos de campanha. Preservou-se de estar nesse teatro de absurdos e ainda deixou claro que tipo de evento é. Bolsonaro fracassou também porque as urnas eletrônicas brasileiras têm um alto grau de confiabilidade e ele nunca apresentou provas do que acusa. O presidente do STF também não vai.

De qualquer maneira, é uma derrota para a democracia brasileira ter um presidente que tenta desqualificar o processo eleitoral diante de representantes de outros países. O Brasil viu tantos absurdos neste governo que foi se acostumando. É de novo inaceitável esse comportamento do presidente da República.

Bolsonaro demonstrou que ficou irritado porque Fachin já tinha chamado os embaixadores para falar da integridade das urnas. Mas esse papel o TSE faz bem de fazer, até porque observadores internacionais sempre houve em qualquer eleição brasileira, e são bem-vindos. Bolsonaro disse que quem faz política externa é o presidente da República. Sim, ninguém discute isso. Essa reunião, além de ser um absurdo institucional, é ridícula.

https://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/bolsonaro-fracassou-na-reuniao-dos-embaixadores-antes-do-encontro.html

terça-feira, 10 de maio de 2022

Queremos eleições livres e justas no Brasil, diz subsecretária de Estado dos EUA - Mariana Sanches (BBC Brasil, Washington)

 Tomar lições de democracia de um país que sempre se vangloriou de ser a maior democracia estável do mundo, há mais de dois séculos, mas que atualmente enfrenta problemas com o seu próprio sistema político-eleitoral, contestado por uma imensa maioria do GOP, o partido Republicano, pode ser instrutivo, mas também pode ser humilhante para o Brasil, que possui uma democracia de menor qualidade, mas um sistema eleitoral dos mais seguros e efetivos do mundo.

Os americanos estão dizendo para confiarmos em nossos sistema. Não precisariam, se não fosse um chefe de Estado e de governo que se esforça, todos os dias, para lançar dúvidas sobre esse sistema que o elegeu muitas vezes, assim como toda a sua família, para cargos que talvez não mereçam...

Paulo Roberto de Almeida

Queremos eleições livres e justas no Brasil, diz subsecretária de Estado dos EUA

  • Mariana Sanches - @mariana_sanches
  • Da BBC News Brasil em Washington, 10/05/2022

Homens seguram bandeira onde está escrito 'intervenção militar'

Crédito, EPA - Legenda da foto: Militantes de direita pedem golpe militar na Avenida Paulista durante manifestações do 7 de setembro

No momento em que o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL) volta a lançar dúvidas sobre o processo eleitoral, sugerindo que os militares deveriam supervisionar a contagem de votos do pleito presidencial de 2022, a subsecretária de Estado dos Estados Unidos, Victoria Nuland, afirmou em entrevista exclusiva à BBC News Brasil que, no Brasil, "o que precisa acontecer são eleições livres e justas, usando as estruturas institucionais que já serviram bem a vocês (brasileiros) no passado".

Nuland, responsável por assuntos políticos na diplomacia americana comandada por Antony Blinken, esteve há poucas semanas no Brasil, junto a uma delegação americana de alto nível. Os diplomatas dos dois países trataram, entre outros temas, de cooperação na área de defesa e de agricultura. 

Na ocasião, os americanos voltaram a expressar "confiança na democracia brasileira". Segundo Nuland, no entanto, ela alertou o governo e a oposição sobre o risco de interferência russa nas eleições deste ano.

Na semana passada, a agência de notícias Reuters noticiou que, em julho de 2021, o diretor da agência de inteligência americana, a CIA, William Burns, teria advertido assessores diretos de Bolsonaro de que o presidente, que àquela altura já levantava dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral, deveria deixar de questionar a integridade das eleições no país. 

Tanto Bolsonaro como o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que teria estado presente na conversa, negam que ela tenha acontecido. 

Victoria Nuland, subsecretária de Estado dos EUA

Crédito, Divulgação/Departamento de Estado; Legenda da foto: Victoria Nuland, subsecretária de Estado dos EUA

Questionada sobre o que os EUA fariam em caso de uma tentativa de golpe no país, Nuland afirmou: "Queremos eleições livres e justas em países ao redor do mundo e, particularmente, nas democracias. Julgamos a legitimidade daqueles que se dizem eleitos com base em se a eleição foi livre e justa e se os observadores, internos e externos, concordam com isso. Então, queremos ver, para o povo brasileiro, eleições livres e justas no Brasil". 

Ao citar observadores externos, Nuland toca indiretamente em mais um ponto sensível no atual debate político brasileiro. Depois que o TSE remeteu dezenas de convites para instituições estrangeiras acompanharem o pleito, em outubro, o Itamaraty reclamou do convite à União Europeia, e o TSE teve de recuar. Bolsonaro também disparou críticas públicas à presença dos observadores, que acompanham eleições brasileiras ao menos desde 1994. 

Brasil e EUA vivem uma "recalibragem" de suas relações, depois do mal-estar causado nos americanos pela visita do presidente brasileiro a Moscou em fevereiro, dias antes de o líder russo Vladimir Putin ordenar a invasão da vizinha Ucrânia. Entre diplomatas brasileiros existe a expectativa de que Bolsonaro e Biden se falem pela primeira vez pessoalmente em Los Angeles (EUA), em junho, durante a Cúpula das Américas. 

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, editada por concisão e clareza. 

BBC News Brasil - Os EUA mudaram recentemente de tom em relação à Rússia: falam em 'enfraquecer' o país, enviam altos funcionários e parlamentares (como a presidente da Câmara, Nancy Pelosi) a Kiev, estão treinando soldados ucranianos. Não existe o risco de que essa nova postura contribua para o discurso de Putin de que esta é uma guerra do Ocidente contra a Rússia e aumente as chances de uma guerra nuclear? O que há para os EUA ganharem com essa nova abordagem?

Victoria Nuland - Eu diria que nosso tom em relação à Rússia é uma resposta direta ao fato de que Putin e seus militares invadiram a Ucrânia e à agressão cruel que estão perpetrando no país, incluindo os tipos de crimes de guerra que temos visto em Bucha e Kramatorsk etc. E os Estados Unidos, junto com o Brasil e muitos outros países, 141 países, foram ao Conselho de Segurança da ONU e à Assembleia Geral da ONU e disseram 'não' à agressão da Rússia. 

Portanto, temos que chamar as coisas pelos seus nomes, e isso não é apenas uma guerra cruel contra a Ucrânia, mas uma violação de todos os princípios da carta da ONU e da soberania e integridade territorial dos países. Estamos defendendo o Estado de Direito, as regras globais que levaram à paz e à segurança por tantos anos e que a Rússia está violando flagrantemente agora.

Putin e Biden se cumprimentam

Crédito, Reuters Legenda da foto: Biden e Putin se reuniram em Genebra em meados de 2021, em uma que reunião durou menos do que era previsto e não impediu o início da guerra na Ucrânia em fevereiro de 2022

BBC News Brasil - O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, favorito para vencer as eleições de 2022 segundo pesquisas eleitorais, deu uma entrevista recente à revista Time em que critica o presidente dos EUA Joe Biden por não ter embarcado em um avião para Moscou para tentar dissuadir o líder russo Vladimir Putin da guerra. Como os EUA recebem essa crítica?

Nuland - Bem, em primeiro lugar, o presidente Biden falou com o presidente Putin duas, três, quatro vezes antes desta guerra, argumentando com ele. Como você deve se lembrar, os EUA descobriram esses planos de guerra no final de outubro e começaram a alertar o mundo em novembro, dezembro, janeiro, fevereiro que Putin tinha esses planos. 

E durante esse período, o presidente Biden trabalhou muito para tentar convencer o presidente Putin a não ir à guerra, e em vez disso, seguir um caminho diplomático, trabalhar conosco, trabalhar com aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), trabalhar com a Ucrânia, negociar quaisquer preocupações que ele tinha sobre as visões de segurança russas na Ucrânia. E nos oferecemos para ajudar. Tivemos uma rodada de conversas. 

Enviamos uma proposta de dez páginas analisando todos os tipos de coisas, como preocupações (russas) com armas ocidentais, etc. Mas, em vez de vir à mesa diplomática, o presidente Putin optou por invadir e invadir de uma maneira muito, muito sangrenta. Portanto, não acreditamos que ele esteja ouvindo alguém. 

BBC News Brasil - O presidente brasileiro Bolsonaro sugeriu ao governo turco recentemente uma missão conjunta a Moscou para participar das negociações para o fim da guerra. Os EUA diriam que essa tentativa é bem-vinda?

Nuland - Não temos dificuldade com nenhum líder global tentando convencer Putin a acabar com esta guerra. E vários já tentaram. O presidente Putin não está ouvindo. Esse é o problema. Então, torna-se uma questão de, se ao ir a Moscou você não for muito cuidadoso, parece estar dando apoio à guerra de Putin, especialmente visto que ele não mostrou nenhuma evidência de mudança de rumo com telefonemas e visitas recentes.

BBC News Brasil - Cerca de uma semana antes do início da guerra na Ucrânia, dois grandes líderes da América Latina, os presidentes da Angentina e do Brasil, foram a Moscou para se encontrar com Putin. O que isso diz sobre as relações dos EUA com esses países da região?

Nuland - Sabíamos que essas visitas iriam acontecer. Exortamos tanto o Brasil quanto a Argentina a darem a Putin a mesma mensagem que o presidente Biden estava enviando a ele e aos funcionários russos em todos os níveis, pública e privadamente, de que esta guerra seria um desastre, não apenas para a Ucrânia, mas para a Rússia, para a liderança de Putin e para sua economia e sua posição militar. E nosso entendimento é que em ambas as visitas, ambos os líderes, tentaram argumentar com Putin, mas ele não estava ouvindo. Então este é o problema, Putin não está ouvindo ninguém.

BBC News Brasil - Teremos eleições presidenciais este ano no Brasil. Os EUA têm alguma preocupação ou motivo para acreditar que os russos tentarão interferir ou se intrometer no processo?

Nuland - Obviamente, temos preocupações. Vimos a Rússia se intrometer em eleições em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos e na América Latina. Por isso, em minha recente visita ao Brasil, exortei o governo a ser extremamente vigilante, e a oposição também, para garantir que forças externas não estejam manipulando seu ambiente eleitoral de forma alguma. Isso precisa ser uma eleição de brasileiros para brasileiros, sobre seu próprio futuro.

Bolsonaro e Trump

Crédito, Reuters Legenda da foto: Assim como aconteceu com Trump 2020 nos EUA, o presidente Bolsonaro está lançando dúvidas sobre o processo eleitoral no Brasil antes do pleito

BBC News Brasil - Assim como aconteceu em 2020 nos EUA, Bolsonaro está lançando dúvidas sobre o processo eleitoral no Brasil de antemão, exigindo a participação do Exército na apuração dos votos e dizendo que pode não reconhecer os resultados. Como os EUA veem esse tipo de declaração?

Nuland - Acreditamos que o Brasil tem um dos sistemas eleitorais mais fortes da América Latina. Vocês têm instituições fortes, salvaguardas fortes, uma base legal forte. Então, o que precisa acontecer são eleições livres e justas, usando suas estruturas institucionais que já serviram bem a vocês no passado. Temos confiança no seu sistema eleitoral. Os brasileiros também precisam ter confiança.

BBC News Brasil - O que os EUA fariam caso alguma tentativa de subversão dos resultados eleitorais acontecesse no país?

Nuland - Queremos eleições livres e justas em países ao redor do mundo e particularmente nas democracias. Julgamos a legitimidade daqueles que se dizem eleitos com base em se a eleição foi livre e justa e se os observadores, internos e externos, concordam com isso. Então, queremos ver, para o povo brasileiro, eleições livres e justas no Brasil. Vocês têm uma longa tradição nisso. E isso é o mais importante para manter a força do Brasil daqui para frente.

BBC News Brasil - Os fertilizantes são um suprimento crítico para a produção de alimentos e o Brasil enfrenta a falta do produto, importado principalmente da Rússia. Os EUA apoiariam a criação de algum corredor seguro ou um salvo-conduto para navios russos carregados de fertilizantes para o Brasil, como o presidente brasileiro solicitou recentemente à diretora da Organização Mundial do Comércio?

Nuland - O fato de haver uma escassez global de fertilizantes - e uma escassez no Brasil - é resultado direto da decisão de Putin de lançar essa guerra. No meu entendimento, a única coisa que impede o fertilizante russo de chegar ao mercado é a guerra que Putin lançou. 

Então, o que os Estados Unidos estão tentando fazer é trabalhar com países como o Brasil. E o secretário Blinken terá uma reunião, para a qual o Brasil está convidado, em algumas semanas sobre alimentação, segurança e fertilizantes etc., para ajudar países como o Brasil que precisam de fertilizantes. E então, com fertilizantes, podemos ajudar a alimentar o mundo, porque também temos muitos países com insegurança alimentar que dependem de grãos vindos da Ucrânia. 

Quando eu estive no Brasil, nós trabalhamos em um projeto do Departamento de Agricultura dos EUA, para ver como vocês usam os fertilizantes nas lavouras (brasileiras). Estamos tentando aumentar a produção de fertilizantes nos EUA. 

Estamos trabalhando com o Canadá e outros países que podem ajudar, para acelerar isso, para que vocês tenham uma safra muito forte, para poder alimentar a si mesmos e seus parceiros de exportação habituais, mas também possa ajudar a alimentar o mundo, (para o Brasil) ser generoso com alimentos, como já foi com o petróleo, com o aumento da produção brasileira de petróleo neste momento de necessidade para o mundo.


quarta-feira, 13 de abril de 2022

EUA alertam Bolsonaro contra perturbação das eleições de outubro: Arturo Valenzuela - Rafael Balago (FSP)

 EUA devem reagir de modo sério se Bolsonaro recusar derrota, diz Arturo Valenzuela

Ex-secretário para América Latina no governo Obama considera que fertilizantes não são argumento para se isentar sobre Guerra da Ucrânia

Folha de S. Paulo, 13.abr.2022 às 9h01
Rafael Balago

WASHINGTON - O diplomata americano Arturo Valenzuela diz estar otimista sobre o futuro da democracia no Brasil, apesar das dificuldades atuais, e avalia que uma eventual tentativa de ruptura será levada muito a sério, tanto pelos brasileiros como por países como os Estados Unidos —por ruptura entenda-se uma recusa por parte do presidente Jair Bolsonaro (PL) a aceitar uma eventual derrota nas urnas.

"É preciso haver um esforço constante para fortalecer as instituições. Há certa fragmentação das forças políticas no mundo, falta coesão, mas estou confiante de que vamos ver forças se unindo —e será o caso do Brasil também", avalia.

Valenzuela, 78, foi o principal nome do Departamento de Estado para a América Latina no início do governo Barack Obama e colaborou na campanha do atual presidente, Joe Biden. Hoje, é professor emérito da universidade Georgetown.

O ex-secretário participa nesta quarta (13), às 18h, de um debate virtual sobre as relações entre EUA e Brasil do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). O centro está lançando um projeto de debates e estudos sobre o relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, sob coordenação de Sérgio Amaral, ex-embaixador em Washington.

Como avalia a relação atual entre Brasil e EUA, especialmente frente ao distanciamento entre Biden e Bolsonaro? A relação é muito profunda. Precisamos fazer uma distinção entre o que é a relação entre EUA e Brasil em uma grande variedade de questões e as diferenças que pode haver entre os dois chefes de Estado nesse momento particular.

A relação tem sido muito forte nos tempos recentes: envolve comércio, investimento, tecnologia, mudança climática, educação. A longo prazo, continuará a haver uma relação forte, os dois países têm muita coisa em jogo. O fato de o Brasil comprar fertilizantes da Rússia não se compara com os investimentos extraordinários que o setor privado dos EUA tem no Brasil em uma ampla variedade de áreas.

Espero que possamos voltar para uma agenda na qual falemos sobre interesses comuns em termos de educação, inclusão social, comércio, investimentos, direitos humanos e democracia. O mais importante agora é a paz e a segurança.

A questão não é se o Brasil está se afastando só dos EUA, mas o país está claramente se afastando significativamente de seus aliados tradicionais na Europa. São tempos complicados, não é algo que eu já tenha experimentado. É catastrófico o que acontece na Ucrânia hoje. Não podemos deixar esse tipo de coisa prosseguir, não é um tempo para se equivocar.

Os EUA devem se aproximar mais do Brasil e da América Latina, ao buscar um consenso internacional contra a Rússia? Os EUA não vão dizer algo como "ok, nós discordamos de você, e vamos tentar fazer ajustes". Estamos encarando um momento crítico, no qual você não pode usar um argumento como "bem, veja, precisamos proteger a importação de fertilizantes". Isso inclui o que tem acontecido na ONU, onde a ampla maioria dos países decidiu que era preciso suspender a Rússia do Conselho de Direitos Humanos.

Uma das preocupações no mundo hoje é o avanço de líderes autoritários e populistas, de esquerda ou de direita. É muito revelador que os dois maiores países da América Latina, México e Brasil, se abstiveram na votação para suspender a Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Os dois têm líderes populistas, um de direita e outro de esquerda.

Abster-se nesse tipo de questão é algo que vai requerer muitos reparos depois. Cabe ao povo brasileiro decidir exatamente o que sua liderança deve ser no futuro, assim como o dos EUA decidiu que o governo anterior era um que não poderia mais ser aceito.

Como os EUA e o Brasil podem se alinhar mais em questões de paz e segurança? Houve vezes em que os EUA, durante a Guerra Fria, criaram relações com os países da América Latina que configuravam esforços para afastar o que era visto como uma ameaça comunista —um dos primeiros golpes de Estado que ocorreram, de fato, foi no Brasil. Mas com o fim da Guerra Fria começou uma nova era, de solidificação das instituições democráticas. Conheço o Brasil bem o suficiente para saber que a maioria apoia isso.

Precisamos deixar claro que não se trata de os EUA darem exemplo para o mundo. Os EUA têm mostrado ter alguns problemas significativos com a própria democracia, e isso requer mudanças e reformas. O Brasil enfrentará o mesmo tipo de coisa. Então, espero que sejamos capazes de voltar a um ponto em que, junto com europeus e a América Latina, possamos colocar o foco em tentar reconstruir as instituições, de modo a ter um mundo mais pacífico.

Jair Bolsonaro já sinalizou que pode não aceitar o resultado das eleições de 2022. Como avaliaria que os EUA reagirão nesse caso? Acho que não só os EUA, mas os países pelo mundo que estão preocupados com questões assim vão levar isso muito a sério, assim como muitos brasileiros.

É um erro achar que há um processo que leva do subdesenvolvimento às instituições perfeitamente desenvolvidas. É preciso haver um esforço constante para fortalecer e renovar as instituições. Há certa fragmentação das forças políticas no mundo, falta coesão, mas estou confiante de que vamos ver forças se unindo. E certamente espero que será o caso do Brasil também

Sou otimista. Trabalhei no Brasil como pesquisador acadêmico por muitos anos. Fui convidado para ir ao Brasil quando a democracia foi restabelecida, para discutir como fortalecer as instituições. Estou bem confiante de que esse momento difícil será superado, mas não será fácil. Vemos uma fragmentação das instituições e a falta de partidos fortes e coesos.

Brasil e EUA enfrentam altas na inflação. Os dois países poderiam se ajudar na questão? O problema fundamental é que as cadeias de suprimento foram rompidas, em parte por causa das inseguranças no mundo —há a grande ironia de que a inflação agora é produto do rompimento das cadeias de derivados de petróleo. Biden mencionou várias vezes que precisamos nos mover para além da dependência deles.

Temos que enfrentar essas duas questões gêmeas, da mudança climática e do suprimento de energia. Não será feito da noite para o dia, mas as bases estão colocadas.

Vê espaço para mais parcerias econômicas? São dois grandes países buscando fortalecer seus laços econômicos. Há sempre uma conversa sobre ter ou não um acordo de livre comércio nas Américas, e o Brasil se colocava fora disso. E o Mercosul não é mais o que costumava ser. Os EUA têm relações importantes com os países do hemisfério Ocidental, e todos se beneficiariam disso. Não é uma questão de ser o quintal do Brasil ou dos EUA, esse tipo de mentalidade não é o que precisamos no século 21.

Como avalia a forma com que Biden tem atuado em relação à Venezuela? Todo governo encara uma ampla lista de desafios pelo mundo e não pode resolver todos os problemas. Mas isso não significa que não haja preocupações com uma situação como a da Venezuela.

O que esse governo percebeu, e que não havia sido notado pelo anterior [de Donald Trump] é que não se trata de uma questão de fazer algo como encorajar um golpe militar e isso resolveria a questão. Alguns dos erros do governo anterior tornaram mais difícil dar apoio à oposição na Venezuela, que é dividida. A Venezuela é essencialmente uma economia falida, um Estado falido, que vai requerer muito trabalho. Não víamos um colapso tão grande de um país na América Latina talvez desde o caso do Paraguai depois da guerra com a Tríplice Aliança no século 19. Mas isso não significa que haja negligência, só que as políticas adotadas antes eram incorretas.

O Brasil poderia atuar junto aos EUA no tema? Há um interesse nacional significativo para Brasil e EUA na questão. Quando fui secretário-assistente [de Estado], tive uma relação muito boa com os ministros da Defesa [do Brasil]. Eles estavam tentando ver se a situação na Venezuela poderia ser resolvida e se haveria risco de um potencial conflito entre Venezuela e Colômbia. Havia também preocupação com a crise de migração.

Como avalia a forma com que Biden tem lidado com a questão da imigração? Houve muitos danos às políticas da área no passado, e é difícil reajustá-las. Há uma crise porque muitas pessoas querem deixar seus países. Estamos vendo um país europeu ser bombardeado até a submissão, em que os alvos não são as Forças Armadas, mas as pessoas. Há países com organizações criminosas significativas, tráfico de drogas, questões de regressão econômica.

Os EUA são uma nação de imigrantes e devemos continuar a sê-lo, ter portas abertas. O governo Biden está comprometido com isso, mas você não pode ir de uma coisa à outra tão rápido, essas políticas precisam de muito tempo para serem implantadas.

RAIO-X | ARTURO VALENZUELA, 78
Professor emérito da Universidade Georgetown, com graduação em ciência política e religião pela Universidade Drew e mestrado e doutorado em ciência política pela Universidade Columbia, foi secretário-assistente de Estado dos EUA no governo Barack Obama (2009-2011).

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/04/eua-devem-reagir-de-modo-serio-se-bolsonaro-recusar-derrota-diz-arturo-valenzuela.shtml

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