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sábado, 16 de março de 2019

Metas na (e para a) educação brasileira - MEC apresenta um novo plano (sem ter cumprido o anterior)


O Plano Nacional de Educação foi aprovado em 2014, com inúmeras metas irrealistas, tendo-se em conta a notória incapacidade do MEC, do governo brasileiro em geral, e dos estados e municípios em cumprir metas, que são "para inglês ver", ficam no papel.
Em todo caso, cabe observar as metas e o seu cumprimento, começando pela última, a formação de professores, onde nada foi feito.
Paulo Roberto de Almeida

Metas na educação: veja comparativo das 7 prioridades do MEC com ações obrigatórias previstas na lei do PNE
G1, 16/03/2019

No fim de fevereiro, o ministro da Educação apresentou os sete pontos prioritários de sua gestão, que incluem uma nova política de alfabetização, mais disciplina na sala de aula e formação de mais intérpretes de Libras.
Sob o comando do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Educação afirma que vai focar sua atuação em sete pontos prioritários. A lista foi apresentada pela primeira vez pelo ministro Ricardo Vélez Rodríguez a senadores no fim de fevereiro. Dos sete pontos, cinco abordam especificamente uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), consideradas por especialistas como a prioridade para a melhoria do ensino no país. 
Na audiência no Senado, o ministro não citou o plano em seu discurso e não chegou a responder às perguntas feitas por senadores e internautas durante a audiência a respeito do PNE – outras perguntas também ficaram sem resposta devido à falta de tempo. 
G1 também tentou entrevistar o ministro, e encaminhou perguntas por e-mail em 13 de fevereiro. As duas perguntas que mencionavam o PNE ficaram sem resposta – o MEC afirmou que estava "aguardando o levantamento das informações que está sendo feito pelas áreas técnicas", mas não apresentou prazo para respondê-las. 
  • O Plano Nacional de Educação (PNE) é uma lei de nível federal que foi aprovada em junho de 2014 por unanimidade no Congresso Nacional e à qual a União, os estados e municípios precisam cumprir;
  • Ele tem duração de 10 anos e 20 metas para a educação, desde o ensino infantil até o superior;
  • Algumas metas mais prioritárias já passaram do prazo, enquanto outras só precisam ser cumpridas em junho de 2024;
  • O órgão responsável por acompanhar o cumprimento das metas é o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), uma autarquia do próprio MEC;
  • Porém, até junho de 2018, o Brasil só havia alcançado uma das 20 metas e, segundo especialistas, o ritmo dos últimos anos mostram que a probabilidade de atingir as demais é cada vez menor.
Veja abaixo os sete pontos prioritários na ordem em que foram apresentados pelo ministro Vélez aos senadores, e leia a seguir o que disse o ministro sobre cada uma delas no Senado e na entrevista ao G1, além do que consta nas metas do PNE. 
  1. Política nacional de alfabetização
  2. Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
  3. Educação básica, com foco da renovação do Fundeb
  4. Novo ensino médio, com foco no ensino profissionalizante
  5. Escola cívico-militar
  6. Educação especial, com foco na formação de intérpretes de Libras
  7. Formação de professores
Dessas prioridades, a alfabetização, o Fundeb entre as fontes de financiamento da educação, o ensino profissionalizante, a educação especial e a formação de professores estão contempladas no PNE. 
1) Política nacional de alfabetização 
  • O QUE DISSE O MINISTRO: 
Vélez Rodríguez disse aos senadores que a alfabetização "é a cesta básica da educação" e ressaltou que os "índices muito ruins de alfabetização" do Brasil não têm como principal motivo a falta de acesso às escolas. "É um problema complexo que exige enfrentamentos em diferentes frentes. Tanto é que criei uma secretaria específica para a questão da alfabetização", afirmou ele. 
O novo ministro citou ainda dois relatórios da Câmara dos Deputados, de 2003 e 2007, que, segundo ele, concluíram que "as políticas e práticas de alfabetização, bem como a formação dos professores alfabetizadores, não acompanhavam o processo científico e metodológico que nas últimas décadas do século 20 ocorreu no campo do ensino e aprendizagem da leitura e da escrita". 
Vélez Rodríguez disse que seu plano é evitar que isso aconteça. "A Política Nacional de Alfabetização terá em alta consideração as evidências e os critérios da ciência cognitiva da leitura." 
Nesta sexta-feira (15), em um comunicado, o MEC afirmou que um grupo de trabalho sobre a nova política de alfabetização foi criado em janeiro e, desde então, já realizou audiências com entidades e especialistas e redigiu a minuta do decreto sobre o tema, "que pretende tornar eficaz a alfabetização no Brasil, baseada em experiências bem-sucedidas em países como Inglaterra, EUA, Portugal e França". O teor do documento ainda não foi divulgado. 
Ainda segundo a nota, a nova Secretaria de Alfabetização do MEC (Sealf) vai iniciar a redação de um "caderno explicativo" sobre a nova política. 
A meta 5 estipula que, até 2024, o Brasil precisa "alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º ano do ensino fundamental".
Em junho de 2018, o relatório do Inep afirmou que, entre 2014 e 2016, houve "certa estagnação no desempenho dos alunos do 3º ano do ensino fundamental pela ANA [Avaliação Nacional de Alfabetização]." 
Segundo o Observatório do PNE, em 2016 66,1% dos alunos do 3º ano tinham aprendizagem adequada em escrita, 45,2% em leitura e 45,5% em matemática. 
O ministro não especificou se a alfabetização de adultos está incluída nessa nova política nacional, mas o PNE estipula que, até 2024, 100% dos jovens e adultos brasileiros estejam alfabetizados. Em 2015, esse índice era de 92%. 
2) Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
  • O QUE DISSE O MINISTRO: 
Depois de fatiada em duas, a BNCC deve entrar em vigor em todas as escolas brasileiras até o início do ano letivo de 2020. A Base para o ensino infantil e fundamental foi aprovada em dezembro de 2017, e a do ensino médio, em dezembro de 2018, ambas no governo Temer. O G1 perguntou ao ministro se sua gestão pretende revisar, mudar ou revogar as bases do ensino básico. Ele respondeu que "a BNCC está homologada". 
No Senado, ele afirmou que "para este ano de 2019 está prevista a formação de professores e a revisão dos projetos pedagógicos das escolas, conforme os novos currículos da educação infantil e do ensino fundamental. Para o ensino médio está prevista a elaboração dos novos currículos alinhados à própria Base Nacional Comum Curricular e aos referenciais para os itinerários formativos". 
O PNE não fala especificamente sobre currículo nacional ou a BNCC. A necessidade de o Brasil elaborar o documento, porém, é tida por especialistas como crucial para que o país avance na aprendizagem dos estudantes. A Base determina as habilidades e competências que todos os estudantes devem aprender em cada ano do ensino básico, e agora é a partir dela que as escolas devem elaborar seus próprios currículos. 
  • O QUE DISSE O MINISTRO: 
De acordo com a fala do ministro no Senado, o MEC pretende priorizar o avanço na educação básica por meio da renovação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). "Sabemos que há inúmeras desigualdades regionais no Brasil. O Fundeb cumpre um papel fundamental no financiamento da educação dos locais mais vulneráveis. A distribuição de recursos deve ser justa e inteligente para beneficiar aqueles que mais precisam." 
Vélez Rodríguez defendeu ainda que, na discussão sobre a renovação do Fundeb no Congresso Nacional, os principais atores da educação brasileira sejam ouvidos. 
O Fundeb é composto por recursos oriundos de impostos. Têm direito a receber verba do fundo estados (incluindo o Distrito Federal) e municípios que oferecerem atendimento na educação básica. A distribuição dos recursos leva em conta as matrículas nas escolas públicas apuradas no último censo escolar realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Porém, ele vence em 2020, e o Congresso atualmente discute os novos parâmetros para torná-lo permanente. 
O PNE também não tem metas relacionadas diretamente ao Fundeb, mas ele é citado em uma das diretrizes. A meta 20, sobre o financiamento da educação, obriga o governo a "ampliar o investimento público em Educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do País no 5º ano de vigência desta Lei e, no mínimo, o equivalente a 10% do PIB ao final do decênio". 
Uma das diretrizes dessa meta é "garantir fontes de financiamento permanentes e sustentáveis para todos os níveis, etapas e modalidades da educação básica, observando-se as políticas de colaboração entre os entes federados". 
  • O QUE DISSE O MINISTRO:
O ensino médio faz parte do ensino fundamental, mas foi citado pelo ministro em um ponto prioritário exclusivo. Durante sua fala aos senadores, Vélez Rodríguez explicou que o foco da atuação do MEC será o ensino profissionalizante, seguindo a indicação da reforma do ensino médio do governo Temer. 
"O fortalecimento do quinto eixo formativo do novo ensino médio é estratégico para isso. Uma educação profissional e tecnológica robusta é o que marca as economias mais avançadas atualmente", disse o ministro. 
O ensino médio e a educação profissional são citados em mais de uma meta do PNE. A meta 3 estipula que o Brasil deve "universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até o final do período de vigência deste PNE, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%". Em 2015, 84,3% dos jovens de 15 a 17 anos estavam matriculados, e 62,7% dos jovens dessa idade estavam matriculados no ensino médio, ou seja, na idade esperada. 
Já na educação profissional, a meta 11 é "triplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo menos 50% da expansão no segmento público". O Brasil conseguiu bater a segunda parte da meta – 82,2% das matrículas estão na rede pública. Mas o país está longe de triplicar as matrículas. Em 2017, havia quase 1,8 milhões de alunos nessa modalidade, mas o avanço, até 2024, deve chegar a 5,2 milhões de matrículas. 
5) Escola cívico-militar
  • O QUE DISSE O MINISTRO:
Em sua fala aos senadores, Vélez destacou como ponto importante no âmbio da educação básica a criação da subsecretaria de Fomento às Escolas Cívico-Militares. "Experiências já em andamento em diversos estados brasileiros têm mostrado que a presença de militares no espaço escolar é algo bem-visto pelas famílias. Os indicadores de aprendizagem melhoram e ocorre redução da criminalidade", afirmou ele, sem citar números ou exemplos específicos. 
Ao G1, ele explicou que o programa é de adesão voluntária das secretarias de Educação e que tem por objetivo a implementação de "novos modelos de gestão de alto nível, nos padrões empregados nos colégios militares, voltados à educação básica" e para fortalecer "valores cívicos, éticos e morais", mas disse que "a questão pedagógica de cumprimento aos currículos de ensino continuará sob a responsabilidade das secretarias de educação de cada localidade". 
Questionado sobre o repasse de recursos ao Exército Brasileiro e às polícias militares para o programa, ele afirmou que "o fomento para a implementação do modelo das escolas cívico-militares será voltado para o atendimento das necessidades das escolas e suas respectivas secretarias de educação". 
Nenhuma meta do plano fala sobre a ampliação do número de escolas cívico-militares no Brasil. 
  • O QUE DISSE O MINISTRO:
Segundo Vélez Rodríguez, a nova Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp) criada no MEC neste ano tem duas diretorias voltadas para a educação especial, uma delas especificamente para a educação bilíngue de surdos. "Priorizaremos a formação de tradutores de intérpretes de libras", afirmou ele. 
A educação especial está contemplada na meta 4 do PNE, que diz que o Brasil deve, até 2024, "universalizar, para a população de 4 a 17 anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados". 
O Observatório do PNE afirma que o IBGE não tem pesquisas que permitem monitorar o cumprimento desta meta. Segundo o Censo 2010 do IBGE, cerca de 23% dos brasileiros têm pelo menos um tipo de deficiência, e os surdos integram o terceiro maior grupo populacional: 18,8% têm deficiência visual, 7% têm deficiência motora, 5,1% têm deficiência auditiva e 1,4% da população tem deficiência mental ou intelectual. 
7) Formação de professores
  • O QUE DISSE O MINISTRO:
Vélez Rodríguez listou, como sétima e última prioridade de sua gestão à frente do MEC, a formação dos professores. "Vamos investir na formação inicial e continuada de professores", disse ele, explicando que "valorização do professor vai além do salário". 
Segundo ele, "tornaram-se urgentes medidas que assegurem a disciplina dentro das escolas e a promoção de uma cultura de respeito e valorização da dignidade do professor". Na semana passada, o MEC afirmou que vai revisar a proposta da Base Nacional de Formação de Professores entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) em dezembro pelo governo Temer. 
Os professores estão incluídos em 8 das 20 metas do PNE, que abordam tanto a formação inicial e continuada dos professores, quanto a valorização financeira da profissão docente. Veja o status de cada uma delas: 
  • Meta 13 - CUMPRIDA: Elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da proporção de mestres e doutores do corpo docente em efetivo exercício no conjunto do sistema de educação superior para 75%, sendo, do total, no mínimo, 35% doutores. (Em 2016, essas porcentagens eram de 78,2% e 39%, respectivamente.)
  • Meta 14 - AINDA NÃO CUMPRIDA: Até 2024, elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, de modo a atingir a titulação anual de 60 mil mestres e 25 mil doutores. (Em 2016, esses números eram de 59,6 mil e 20,6 mil, respectivamente.)
  • Meta 15 - AINDA NÃO CUMPRIDA: Até 2014, garantir que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam. (Em 2017, 78,3% dos professores da educação básica tinham ensino superior, mas só 47,3% tinham formação na área em que lecionam.)
  • Meta 16 - AINDA NÃO CUMPRIDA: Formar, em nível de pós-graduação, 50% dos professores da educação básica, até o último ano de vigência deste PNE, e garantir a todos os(as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino. (Em 2017, 36,2% dos professores da educação básica tinham pós-graduação, e 35,1% tinham feito formação continuada.)
  • Meta 17 - AINDA NÃO CUMPRIDA: Até 2020, equiparar o rendimento médio dos profissionais do magistério da educação básica pública, para que ele seja equiparado ao rendimento médio dos demais profissionais com escolaridade equivalente. (O rendimento médio bruto mensal dos profissionais do magistério é de 74,8% do que recebem os demais profissionais assalariados com o mesmo nível de escolaridade, de acordo com dados da Pnad Contínua em 2017.)
  • Meta 18 - NÃO CUMPRIDA: Até 2016, criar planos de carreira para os professores do ensino básico e superior das redes públicas, tomando como base o piso salarial nacional. (Há planos de carreiras em todos os estados e no Distrito Federal para os professores. Entre os municípios, o percentual é de 89,2%. De acordo com levantamento do Inep, em fevereiro de 2018, 66% dos municípios cumpriam o piso salarial nacional profissional.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Criacionismo paira sobre o ensino cientifico no Brasil: campanha de Bolsonaro

Não bastasse o atraso normal da educação brasileira, esse atraso pode se aprofundar mais ainda, se propostas idiotas como essa tiverem apoio em nível federal para inviabilizar um ensino decente de ciências nas escolas públicas...
Paulo Roberto de Almeida
Rabat, 15/10/2018

‘É preciso nova bibliografia para escolas’, diz assessor de Bolsonaro para a Educação

General que ajuda a fazer plano de Educação quer retirada de livros com 

‘ideologia’ e ensino da ‘verdade sobre 64’

Entrevista com
Aléssio Ribeiro Souto, general e integrante da equipe de campanha de Jair Bolsonaro (PSL)
Renata Agostini, O Estado de S.Paulo
15 Outubro 2018 | 05h00

À frente do grupo que elabora propostas para o Ministério de Educação de um eventual governo de Jair Bolsonaro (PSL), o general Aléssio Ribeiro Souto diz que “é muito forte a ideia” de se fazer ampla revisão dos currículos e das bibliografias usadas nas escolas para evitar que crianças sejam expostas a ideologias e conteúdo impróprio. Ele defende que professores exponham a "verdade" sobre o “regime de 1964”, narrando, por exemplo, mortes “dos dois lados”. "Existe a verdade, quer se queira ou não. E ela nem sempre tem sido retratada", afirmou o general em entrevista ao Estado.
Ex-chefe do Centro Tecnológico do Exército, foi chamado a coordenar debates de ciência e tecnologia, mas acabou acumulando educação “por afinidade”. Contrário à política de cotas, defende a “prevalência do mérito” e diz que, se a ideia for aceita por Bolsonaro, serão estudadas medidas “não traumáticas” para substituir as regras. “Querem atribuir a Bolsonaro condição ditatorial. É chamado até de nazista. É mentira deslavada”, disse.
Aléssio Ribeiro Souto
General Alessio Ribeiro Souto, assessor de Bolsonaro para a área da Educação Foto: Dida Sampaio/Estadão
Qual a proposta para o desenho do Ministério da Educação?
Há preferência do grupo por manter educação e ciência e tecnologia separados. Achamos que ambos cabem na nova quantidade de ministérios, que será reduzida, mas não entramos na questão. É preciso valorizar os professores e os cientistas, não importa em qual estrutura organizacional estejam. Preconizamos que esporte e cultura devam estar dentro do Ministério da Educação. Ah, o pessoal da cultura é contra. Mas isso é uma besteira tão grande. O Estado pode ser pequeno. O  importante é a funcionalidade e a gestão.
Quais as mudanças na área da educação o senhor vê como prioritárias?
Levantamos 14 “ideias básicas” para educação. Elas incluem valorização dos professores, motivação dos alunos, treinamento continuado dos 2,6 milhões professores que aí estão, alteração da formação das licenciaturas, revisão completa dos processos educacionais da base curricular, efetivo emprego dos recursos. Há muito dinheiro indo para o ralo da corrupção e há má gestão pura e simples. Você não pode dobrar o recurso para a educação, mas pode a cada ano aumentar 0,5% a mais do que a média do orçamento e, assim, em dado momento, terá aumento real.
Preveem reorganização na destinação dos recursos?
Em qualquer país razoável, 30% ou 40% dos recursos são destinados ao ensino superior. Este ano, aqui, a matriz deve ter chegado a 70% dos recursos para o ensino superior. Precisamos alterar, mas não se faz facilmente, porque teria de mandar metade das pessoas embora, professores e funcionários. Não é assim que as coisas acontecem, não queremos o regime ditatorial. Na democracia é diferente, tem de ser pactuado, aos poucos. Nossas “14 ideias básicas” darão resultado em médio e longo prazos. Para ter transformação efetiva da sociedade, como ocorreu no Japão e na Finlândia, precisamos de 60 anos. Estamos pensando em medidas para o curtíssimo prazo, como replicar a experiência de escolas públicas de bom desempenho para outras do mesmo Estado. Além disso, tudo que é de médio e longo prazo tem de ser desencadeado agora. Valorizar professor não dá resultado agora, mas tem de começar agora.
Inclui melhorar a remuneração?
A remuneração é quinto ou sexto tópico a se considerar. Pagar muito bem é uma absoluta impossibilidade agora. Antes disso, precisa do discurso de que magistério é importante. Os professores que estão aí precisam começar a acreditar que são importantes, porque hoje ninguém quer ser professor. Discurso, formação, aperfeiçoamento dos que já estão aí, resgate da autoridade do professor. Depois dos pais, tem de ter a ideia de que, em segundo lugar, reverenciamos professores. É absolutamente inaceitável a agressão ao professor. Isso tem de ser reprimido.
Como fazer isso nas escolas públicas?
Dentro dos meios democráticos e legais. Aquele que ameaçar agredir o professor, que dirigiu a palavra mal dita para o professor, tem de haver repressão. Democrática.
Como é repressão democrática?
Tem de ser retirado da sala. E, se agredir, polícia. Vai a polícia, leva as crianças e atua naquele que agrediu fisicamente através do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)para os menores. E, para os adultos, polícia pura e simples. Delegacia. Não pode haver dúvida quanto a isso.
Mas há propostas de modificações?
O candidato Jair Bolsonaro é acusado de misógino porque queria a punição de alguém que estuprou a namorada e depois a matou. E a punição desse menor? Na minha visão, o menor bandido deve ser preso. Mas vai colocar na prisão junto dos maiores? Não. No pavilhão dos menores bandidos,  precisa ter tratamento do psicólogo, educador etc. Agora, nesse sentido, o ECA tem de ser mudado. Se ele permite que bandidos sejam protegidos, discordo. Assim que eu vejo.
Isso está na proposta?
Não entramos nesse tipo de detalhamento agora. Estamos levando as ideias básicas que passarão pela equipe de transição e para quem for o ministro.
Como ficará a política de cotas?
Uma das ideias básicas é a prevalência do mérito. O País deve chegar ao momento que não precisará de cotas. A cota é um remendo. Sou de família extremamente modesta, saí de casa aos sete anos de idade. Sou neto de negro e bisneto de índia. Nunca precisei disso, porque o Estado, a sociedade e a Nação me propiciaram educação pública de qualidade.
Cotas então não são necessárias?
Elas estão sendo necessárias para alguns e mal utilizada por outros para resolver um problema de má gestão governamental. Nossa proposta é a prevalência do mérito. Mas como fazer? Eliminar agora? É preciso equilíbrio. Que tal  ensino complementar aos desassistidos?
Quem são os desassistidos?
Pobre branco de olhos azuis não tem direito? Existem no Nordeste e no Rio Grande do Sul. No meu dicionário, não pode ter cor para o ser humano. Que tal se, em vez de cota, propiciarmos ensino adicional, correção dos erros existentes, complementariedade?
O senhor fala em reforço escolar, mas a cota garante o ingresso na universidade.
Quis mencionar minha posição pessoal. Nossa equipe não está tratando especificamente disso.  Se a ideia da prevalência do mérito for acolhida por Bolsonaro, estudaremos soluções não traumáticas (para mudar a política atual). Querem atribuir ao Bolsonaro a condição ditatorial. É chamado até de nazistas. É mentira deslavada.
Como ficariam Prouni e Fies?
Achamos que é preciso continuar o financiamento do estudo. O País nunca vai transformar os pobres em ricos. Não é todo mundo que chegará lá. Mas os mais talentosos entre os pobres precisam ter acesso ao nível superior. O Prouni requer estudo, mas, pelo que li, não vejo razão para pensar em acabar.
Por que é necessário revisar o currículo escolar?
É muito forte a ideia básica de revisão dos processos curriculares, das bibliografias.  Isso precisa ser muito cuidado para não termos absurdos que vimos na TV como livros distribuídos para crianças de sete anos que deixa mães estupefatas. Determinadas coisas são responsabilidade dois pais. A escola tem de tratar do problema, mas não tem de influenciar para uma direção ideológica. E, nesse sentido, estamos colocando uma revisão completa dessas questões curriculares.
Com qual objetivo?
Impedir que tenhamos na escola a orientação de um determinado partido ou corrente ideológica em dado momento. Isso é inaceitável. Foi pregado pelo Bolsonaro que ele vai combater num eventual governo dele a ideologização das escolas, a transmissão das questões relacionadas à sexualidade, à ideologia de gênero, que é um direito inalienável dos pais. Ele transmitiu isso e por isso me convenceu de que eu poderia contribuir para a campanha dele.
E se um pai desejasse que o professor ensinasse criacionismo em vez de a teoria da evolução?
Isso que eu saiba não está errado. Foram questões históricas que ocorreram. Se a pessoa acredita em Deus e tem o seu posicionamento, não cabe à escola querer alterar esse tipo de coisa, que é o que as escolas orientadas ideologicamente querem fazer, mudar a opinião que a criança traz de casa. Cabe citar o criacionismo, o darwinismo, mas não cabe querer tratar que criacionismo não existe.
Mas no currículo escolar não consta o criacionismo. Fala-se da teoria da evolução.
A questão toda é que muito da escola na atualidade está voltada para a orientação ideológica, tenta convencer de aspectos políticos e até religiosos. Houve Darwin? Houve, temos de conhecê-lo. Não é para concordar, tem de saber que existiu.
O senhor já se manifestou a favor de retirar livros que não contassem “a verdade” sobre 1964.
A única coisa que vou falar sobre 64 é que eu só aceito ler e debater aspectos do regime de 64 à luz da liberdade e de praticar a verdade, a coragem e a ética. Fora disso, sequer aceito a ideia de debater.
O senhor entende que os livros de história não refletem a verdade ao tratar 1964 como golpe militar?
Não entro na questão de golpe, porque é algo menor. Há quem diga que o afastamento da Dilma, feito no âmbito do Congresso e do Poder Judiciário, foi golpe. Felizmente, o povo mineiro disse para ela: você não estava falando a verdade. Impediram que ela fosse eleita. A questão da palavra golpe me parece menor. Agora, sonegar para crianças de dez, 12, 16 anos o que ocorreu? Não concordo. Não gostaria de falar mais sobre o assunto.
Mas é preciso esclarecer sua posição.
Não tenho medo de debater com transparência. No período de 1945, cerca de 400 e poucos brasileiros morreram para derrotar o nazismo. Em 1964, houve 450 mortes dentre aqueles que queriam implantar a ditadura do proletariado. Mas houve 117 mortes daqueles que não queriam. Quando você trata dos problemas e das mortes  - e guerra traz mortes - tem de tratar dos dois lados. Existe a verdade, quer se queira ou não. E ela nem sempre tem sido retratada. Com frequência, minhas filhas chegam em casa falando coisas que não posso aceitar. Mas não está no livro de história, está na boca do professor.
Como pretende atacar isso?
Orientar toda a cadeia de gestão, até o professor na sala de aula, que nós buscamos a paz e a harmonia através da democracia e de praticar a verdade. E não usar a mentira e a canalhice. E aí é a mudança que Bolsonaro ofereceu ao povo brasileiro e foi acolhida majoritariamente.