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sábado, 14 de dezembro de 2013

Previsões imprevidentes para 2014 - Paulo Roberto de Almeida



Paulo Roberto de Almeida

Como sabem todos aqueles que me leem regularmente, e que já puderam ler, em especial, minhas previsões imprevidentes para vários anos anteriores, meus “chutes” bem humorados em direção ao ano que está prestes a se iniciar não são dirigidos aos crédulos, aos incautos, aos distraídos e aos true believers nas bondades daqueles que nos prometem um futuro radioso, desde que você cometa a bobagem de acreditar neles. Minhas previsões são destinadas, mais exatamente, a não se realizarem, a não se concretizarem, justamente, e quanto mais elas se tornam, ou se revelam, irrealizáveis, mais eu me sinto confortável no meu papel de astrólogo ao contrário. Afinal de contas, ninguém perde nada por acreditar na racionalidade do homem, no bom senso, ou no simples senso comum, para apostar que coisas boas podem, sim, acontecer, mesmo contra todas as evidências em contrário, não é mesmo? Como já disse um bookmaker inglês (estou inventando, claro), nunca, em nenhum país, em qualquer circunstância, alguém perdeu dinheiro apostando na estupidez humana.
Uau! Por que tanto pessimismo? Não se trata de pessimismo, apenas observação realista da realidade, com perdão pela redundância. Como todos sabem, 99% dos problemas que afetam a humanidade são plenamente “resolvíveis” com as técnicas atualmente disponíveis (e o 1% restante será resolvido com o avanço da ciência, da tecnologia, do bom senso, etc.). Estou sendo, talvez, otimista demais, mas essa é uma constatação absolutamente de senso comum, desde que se tenha presente aqueles “inevitáveis” de que falava Benjamin Franklin: “na vida, só tem duas coisas inevitáveis, a morte e os impostos”. Bingo! Ele tinha razão, e mesmo a mais avançada tecnologia não vai dar conta desses dois limites absolutos da vida humana, embora alguns se esforcem, os mais idealistas em prolongar a vida humana, por meio da medicina e da autoajuda, os menos idealistas pela elisão, evasão e a fraude fiscal. Ponto.
Mas, então porque eu insisto em pretender que o mundo – e o Brasil, principalmente – seja melhor, em face de tantas bobagens e equívocos que se cometem diariamente? Com efeito: não deveria haver nenhum obstáculo técnico, ou econômico, ou até político e ideológico, a que se realizem alguns fatos simples da vida: todo mundo deveria se alimentar normalmente, com seus recursos derivados do trabalho – e uma minoria ser atendida pela caridade pública, privada ou estatal – e todo mundo deveria poder desfrutar de uma vida sã, física e mentalmente (menos aqueles que insistem em ver porcarias ao estilo de BBB, claro, esses são irrecuperáveis mentalmente falando).
Problemas como transportes, poluição, habitação, segurança, escolas e muitos outros são totalmente resolvíveis com os meios disponíveis, tudo sendo uma simples questão de organização racional das coisas e das pessoas. E por que isso não acontece? Bem, isso já acontece de forma perfeitamente razoável em diversas sociedades do planeta, e se algumas ainda não chegaram a essa etapa de prosperidade e de bem-estar razoáveis, não há nenhum, repito, não existem nenhum obstáculo técnico ou econômico a que isso acontece também com as sociedades mais miseráveis do planeta. Com educação e boa governança tudo é possível, e se algumas sociedades ainda não o conseguiram – como o próprio Brasil, por exemplo – é por incapacidade das suas elites, má educação do povo em geral, falta de visão de quem é eleito com o voto dos sem visão, justamente. Mas tudo isso é corrigível, certo?
É exatamente por isto que eu insisto, todo ano, regularmente, idealmente, talvez ingenuamente, nas minhas previsões imprevisíveis, ou seja, coisas que deveriam acontecer, mas que, por artes do demônio, insistem em não acontecer. As razões? Bem, eu tenho as minhas e elas estão em parte expostas acima, mas vocês podem vestir a carapuça nos seus personagens favoritos e ficamos acertados assim: para alguns, os culpados de sempre são os perversos capitalistas, a burguesia egoísta, os mercados erráticos e imprevisíveis (que precisam ser corrigidos por burocratas governamentais), os políticos de direita (curiosamente aliados aos de esquerda, atualmente, vocês já repararam?), o neoliberalismo, o conservadorismo, os poluidores, enfim, toda aquela gama de inimigos habituais e irrecuperáveis da humanidade; para outros, serão justamente os representantes das opiniões, posturas e políticas inversas a essas proclamadas pelos amigos da igualdade, justiça e fraternidade.
Cada um, portanto, fique com a sua explicação; eu me contentarei apenas, como sempre faço de modo totalmente incompetente, em proclamar minhas previsões anuais imprevidentes, a serem conferidas ao final do período que nos espera (com vários imponderáveis e muitas outras certezas que vocês busquem nas dicas de astrólogos). Eu não ofereço garantias, nem faço apostas – embora pudesse, com base naquelas regras de senso comum dos bookmakers ingleses –, apenas me contento em tripudiar sobre a nossa inacreditável capacidade de sempre adiar as soluções mais óbvias e mais simples, em troca do mais complicado, equivocado e prejudicial exercício de insistência no que não deu certo. Com isso, começo agora.

1) O Brasil já é o “país do futuro” ou apenas um país que pode ter algum futuro, dependendo de quem estiver no comando de suas principais políticas?
Minha previsão, como já disse alguém, é a de que não só não sabemos o futuro que nos espera, como também que o passado nos é totalmente desconhecido, uma vez que ele está mudando todos os dias. Cada vez mais, nossos dirigentes vão se esquecer de planejar nossos desafios à frente, e continuar procurando ajustar o passado, para que ele se encaixe em suas convicções confortáveis sobre o belo país que pretendiam fazer, no passado distante, e que foi obstado pela sanha de todos aqueles malvados anti-povo, anti-democracia, anti-igualdade, anti-justiça, etc. Talvez desenterrem mais alguns cadáveres, e tratem de punir aqueles que os puniram, no passado, justamente por planejar um futuro de escravidão, sofrimentos humanos, ditadura. Esqueceram uma das lições de um desses homenageados recentes, supostamente por ter libertado um povo da escravidão: “vamos surpreendê-los, sendo tolerantes e generosos”. Parece que tolerância e generosidade não são traços do presente, e provavelmente nem do futuro.

2) Nossa inflação é convergente com a média mundial, e está cada vez mais sendo reduzida a patamares aceitáveis para países normais de economia de mercado.
Deve ser por algum acidente infeliz, não cooperação da natureza, complô dos especuladores e atravessadores, que a média inflacionaria tem insistido em ficar acima da meta nos últimos oito anos, insistindo em bater no teto por alguma tendência malévola dos mercados livres, onde os capitalistas e intermediários insistem em fixar preços acima do que seria justo e esperado. Certamente nossos dirigentes estão conscientes desses obstáculos e desafios, e vão continuar insistindo em baixar os preços, colocando limites às tarifas públicas, reduzindo impostos setorialmente, estimulando o crédito para aumentar a demanda, enfim, fazendo todas aquelas coisas boas que bons keynesianos sabem fazer para conduzir a economia de mercado a uma trajetória compatível com a vontade política de quem nos comanda.

3) As desigualdades estão se reduzindo dramaticamente e dentro em pouco todo mundo vai ser de classe média (média), sobrando pouca gente nos estratos inferiores da sociedade.
Ainda bem: é insuportável viver numa sociedade com tantos pedintes nas ruas, tantos delinquentes de ocasião, tantos bandidos aguardando seu lugar na fila para assaltar caixas eletrônicos, tantos andrajosos sujando a cidade, quando turistas começam a vir para cá para ver nossas maiores realizações em termos de aeroportos, metrôs, estádios, hotéis, restaurantes, trânsito fácil e transportes públicos praticamente de graça, segurança impecável e burocracia eficiente. Com mais algumas centenas de concursos públicos, um terço da população vai estar trabalhando no setor mais bem pago da economia, aquele justamente que apresenta alta produtividade, e garante um futuro tranquilo para todos os membros da corporação. Nada compensa mais do que ser um país majoritariamente de classe média, todos satisfeitos com os padrões atuais.

4) O crescimento econômico atingiu um patamar de estabilidade conhecido por poucos países no planeta, com uma linha tendencial apontando para o limite do PIB potencial, que é justamente o nível da produtividade total de fatores no país.
Países menos organizados que o nosso conhecem aqueles indicadores em dentes de serra, ou seja, para cima e para baixo, gerando toda uma instabilidade nos resultados em função de uma dependência malsã em mercados voláteis e manipulados. Graças à correta administração de todos os vetores de produção, dos principais insumos e de regras muito claras e detalhadas para o gerenciamento da mão-de-obra, por exemplo – inclusive com a constitucionalização dos empregados domésticos – o Brasil está próximo da perfeição na boa governança das políticas macroeconômicas e setoriais, o que traz previsibilidade aos empreendedores e trabalhadores: todos sabem o futuro que os espera, e podem se preparar para ele (em alguns casos, décadas à frente).

5) A autossuficiência em petróleo e os recursos do pré-sal vão garantir um futuro brilhante para o país, faltando apenas mais duas estatais: uma para o etanol, outra para o biodiesel.
Pior coisa que pode acontecer são essas altas e baixas nos preços dos combustíveis, e bem fazem as autoridades do setor em manter estáveis os preços na bomba. Seria preciso aumentar apenas a oferta de combustíveis alternativos, o que o setor privado tem se revelado incapaz de fazer, cabendo então ao preclaro governo um passo à frente para realizar grandes investimentos no setor. Nada que algumas leis – que o Congresso prontamente aprovará – não possam corrigir em tempo hábil, colocando o Brasil à frente de qualquer outro país na sua matriz limpa, eficiente, sustentável.

6) As relações raciais caminham enfim para a paz de todas as cores, sobretudo agora que os afrodescendentes são maioria e podem se beneficiar de uma miríade de políticas de ação afirmativa que vão determinar, realmente, quem são os grandes criadores da cultura nacional, os que mais contribuíram para fazer do Brasil o país que ele é hoje.
Mais um pouco, até loiros de olhos azuis poderão se declarar afrodescendentes (o que aliás já ocorre), com o que o país terá alcançado uma situação de justiça social poucas vezes vista neste planeta tão injusto e desigual, embora também marcado por um mosaico de povos com suas religiões particularistas (e várias teologias associadas). As cotas raciais vão certamente acompanhar as novas realidades demográficas, com o que a maioria da população será contemplada por medidas especiais, alcançando-se, assim, uma maioria de beneficiados com programas de inclusão (poucos serão os que ficarem de fora, e esses já são privilegiados e não precisam da assistência governamental em matéria de felicidade redistributiva).

7) O agronegócio já é vitorioso, por isso o essencial das políticas públicas nessa área será dirigido para os agricultores sem terra, pequenos produtores não competitivos em situação de mercado, cooperativas de aprendizes, quilombolas em fase de reciclagem e índios desejosos de sair do neolítico para a era dos tablets.
O governo já gasta a maior parte das verbas com programas de assistência à agricultura familiar, que é onde está o futuro do Brasil, como todos sabem e aceitam. O agronegócio tem condições de buscar no mercado a solução para os seus problemas, inclusive endemias e epizootias, crédito e seguro rurais, logística e acordos comerciais. Um imposto sobre as exportações de commodities agrícolas será criado para financiar aquelas medidas prioritárias, com o que esse setor menos competitivo chegará enfim perto da perfeição do que já é o Bolsa Família, que tem um quarto da população inscrita nas suas listas. País rico é país com pequenos agricultores ricos, e para isso, o Estado é indispensável para corrigir as desigualdades atualmente existentes.

8) Os empresários reclamam com razão do ambiente de negócios. O governo vai justamente criar um novo ministério do empreendedorismo, para facilitar a vida de todos aqueles que não querem ser funcionários públicos ou empregados de alguém. O ambiente vai melhorar radicalmente.
O problema, hoje, é que os empresários precisam ser atendidos numa enorme variedade de serviços públicos, nos três níveis da federação, para poder começar a trabalhar nos seus negócios. O governo vai reduzir a multiplicidade de janelas, criando apenas um grande guichê informatizado para acelerar a inovação e o gênio privado. O empresário necessitará apenas dirigir os seus pleitos online, e o novo ministério terá como função responder as suas dúvidas em 24 horas. Testes estão sendo feitos e um novo concurso público será prontamente organizado para começar os serviços.

9) O déficit orçamentário e a dívida pública serão problemas equacionados em pouco tempo, com novos princípios de contabilidade pública que passam a corrigir automaticamente os desequilíbrios existentes numa área com saldos favoráveis em outras esferas. Esta será a função da “Secretaria dos Vasos Comunicantes”.
Como nessas experiências de laboratórios infantis, o governo também terá o seus superávit primário – e o nome se aplica – imediatamente preenchido, abrindo-se a válvula correspondente da drenagem de recursos obtidos na sociedade por todos os escaninhos governamentais. O Congresso prometeu colaborar na montagem desse novo mecanismo de equilíbrio imediato das receitas e despesas públicas.

10) O Mercosul e a diplomacia Sul-Sul estão finalmente produzindo seus melhores resultados, como consequência de dez anos de insistência governamental nessa via estratégica para as relações internacionais do Brasil.
Como não podia deixar de ser, nenhum país é uma ilha, e o fato de o Brasil estar no hemisfério sul determina, naturalmente, os cenários prioritários para a atuação de nossa gloriosa diplomacia, sempre previdente e sempre orientada para os terrenos de maior retorno potencial. A sábia orientação dessa política, devidamente confirmada em foros relevantes das nossas relações exteriores (como Ibas, Brics e o próprio Mercosul), já provou que esse é o caminho de nossa crescente afirmação mundial: os emergentes são os que mais crescem no planeta e devem contribuir para mudar a relação de forças no mundo, por meio de uma nova geografia comercial. É preciso persistência, e até mesmo insistência, com grande vontade política a sustentar esse curso de ação, para que os bons resultados apareçam no futuro próximo. Persistir nessa linha pragmática.

Paulo Roberto de Almeida, Hartford, 14 de dezembro de 2013.


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