sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Novidade Monstruosa: Frankenstein, de Mary Shelley - Martim Vasques da Cunha (Substack)

 A Novidade Monstruosa

Um ensaio (completamente) inédito sobre o livro "Frankenstein", de Mary Shelley
MARTIM VASQUES DA CUNHA, APR 10

Alexandre Desplat on Creating the Score for Frankenstein with Guillermo del Toro | Netflix - YouTube
Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe, aí está o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate edifícios, desenraiza as árvores, suspende montanhas de água no mar, destrói falésias e arremessa grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que sopra, que geme, que ruge – o senhor o viu, pode vê-lo? No entanto, ele existe.

O abade, em “O Horla (segunda versão)”, de Guy de Maupassant.

1. Desde a juventude até a morte, Mary Shelley (1797-1851) ouviu apenas uma única pergunta em sua vida, uma pergunta que, de início, a irritava profundamente, mas depois acostumou-se a ela e decidiu que teria de respondê-la mais cedo ou mais tarde: “Como teria eu, então uma jovem, chegado a uma ideia tão horripilante e, depois, a elucubrar tão longamente sobre ela?”.

Os dois aspectos temporais do trecho acima – “então” e “tão longamente” – mostram que, na mente de Shelley, havia algo que a obcecava nessas décadas todas. Não era o fato do livro que surgiu da noite tenebrosa em que Lorde Byron a impeliu a escrever uma história de horror – o hoje mítico Frankenstein, ou: o Prometeu Moderno, escrito em 1816 e publicado em 1818 – se tornou um tremendo sucesso entre os leitores, influenciando o imaginário europeu; muito menos o próprio encontro em si, quando ela, uma moça precoce de 18 anos de idade, acabara de se casar com outro poeta famoso, Percy Shelley, dividiu uma casa em Genebra, na Villa Diodati, com o marido e Byron, e em um divertissement concebido numa madrugada fria e cheia de trovoadas, se sentia a pessoa menos importante daquele triângulo.

A sua obsessão particular, se podemos chamá-la assim, foi a descoberta de algo novo, uma novidade que deve ser classificada como monstruosa e a qual, articulada em um símbolo poderosíssimo (como a de uma Criatura nascida de restos de cadáver e ressuscitada por meios científicos próximos da magia negra), foi também vislumbrada pelos outros dois participantes presentes naquela mansão – sim, nunca é demais repetir: Byron e Shelley – e marcaram igualmente a vida e a obra de ambos.

Lorde Byron (1788-1824), ou George Gordon para os íntimos, era então a celebridade mais famosa daquele movimento literário que enfurecia a Europa chamado Romantismo (apelidado assim porque seus maiores idealizadores – Schelling, Coleridge, Fichte, Wordsworth, entre tantos que viviam na Alemanha e na Inglaterra – acreditavam recuperar a concretude verbal dos romanos, por meio do latim, em contraposição ao racionalismo filosófico dos Iluministas, em particular os franceses). Nobre decadente, na verdade, com pouco dinheiro nas algibeiras, ainda assim conseguia transitar com desenvoltura na alta sociedade britânica, e tinha um talento métrico fora do comum. Seus poemas têm uma força melódica impressionante, aliada a um conhecimento de formas poéticas que vão do épico (Don Juan, de 1819-22) até o intimista (a elegia “Darkness”, ou “As Trevas”, concebida em 1816, justamente na época do encontro com Percy e Mary Shelley e que veremos em breve), passando pelo autobiográfico (Childe Harold’s Pilgrimage, de 1812 a 1819). Se há um tema que unifica essa variedade de gêneros é o de que o ser humano é capaz de reformar a realidade, seja pelos meios políticos, pelos meios amorosos e até mesmo pelos meios luciferinos.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822) se via como um discípulo direto de Byron, e talvez estivesse certo, se não fosse o fato de que ele era infinitamente superior em talento e em vocação, comparado ao seu mestre. Era um poeta no sentido pleno da palavra, um verdadeiro vate, certamente alguém próximo do visionário, capaz de jogar com a flexibilidade dos versos ao modo de um Shakespeare ou de um John Milton, além de de refletir sobre os mistérios do real, antecipando-os verbalmente, como fica evidente ao lermos Prometeu Desacorrentado (1817, criado como complemento ou resposta ao Frankenstein de Mary), os sonetos brilhantes ao modo de “Ozymandias” (1819, uma meditação aguda sobre a futilidade do poder terreno) e o épico inacabado que é O Triunfo da Vida (1822). Em sua obra, o que lhe dá unidade é o vislumbre de que o mundo, apesar de petrificado pela máquina da modernidade, ainda é capaz de ser reencantado na sua origem, seja pelas mãos do próprio homem (mesmo que isto esteja fadado ao fracasso) ou por forças subterrâneas que atuam no mundo como se fossem “espectros” ou daimonion, demônios que nos apossam e que nos transformam em meros receptáculos dos desejos deles.

Percy e Mary Shelley, junto com Lorde Byron, eram a trupe insólita formada na Villa Diodati, quando no dia 16 de junho de 1816 (segundo alguns estudiosos, o que dá margem para ser um evento simétrico ao Bloomsday posteriormente celebrado por James Joyce em Ulysses), os três se reuniram (havia também o Dr. John Polidori e a irmã de Mary, Claire, respectivamente o médico e a amante de Byron) para aquela competição que já se tornou clichê na mente dos aficionados dos livros e dos filmes de horror (Ken Russell tiraria sarro disso em seu filme incompreendido, Gothic, de 1986): segundo o relato da própria Mary, foi num “verão úmido e desagradável, em que a chuva incessante com frequência nos confinava durante dias em casa”, quando, ao se divertirem com histórias macabras (entre elas, os trechos iniciais de Hamlet), a conversa “avançou noite dentro” e então Byron sugeriu o seguinte: “Cada um de nós escreverá uma história de fantasmas; e sua proposta foi acatada”.

Reparem que, ao contrário do que dizem por aí, Byron pediu uma “história de fantasmas”, e não uma “história de monstros”. Polidori escreveu um conto chamado “O Vampiro”, que teria suas ramificações mais famosas em outra obra célebre escrita por Bram Stoker (vocês sabem qual é, correto?), mas obviamente fracassou porque se recusou a atender o preceito. Shelley esboçou algumas linhas, daí desistiu (em compensação começaria a rascunhar o Prometeu Desacorrentado); Byron nem se mexeu, como bom superstar que era; e Mary e Claire ficaram batendo a cabeça entre si, incessantemente, tudo para agradar os dois grandes homens ali presentes em suas vidas.

2. A caçula Claire (um ano mais nova) idolatrava Mary acima de tudo, quando ambas eram filhas (ou enteada por parte do pai, no caso da primeira) de William Godwin e Mary Wollestonecraft, intelectuais britânicos de clara influência iluminista – e fiéis daquela seita informal que girava ao redor do genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O nome de Rousseau é importante porque ele é uma das chaves de leitura para entender corretamente Frankenstein...
(...)
O resto para os pagantes...

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