terça-feira, 17 de março de 2026

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump? - Sergio Abreu e Lima Florencio (Portal Interesse Nacionsl)

Sergio Abreu e Lima Florencio

Portal Interesse Nacional, 15/03/2026


Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump?

A ofensiva contra o país persa nasce da convergência entre a busca de Donald Trump por afirmar a supremacia militar dos EUA e a pressão estratégica de Israel. Embora o conflito represente risco limitado para Tel Aviv, pode se tornar uma nova derrota para Washington: guerra longa, impopular internamente e enfrentando a histórica resistência iraniana, com impactos energéticos, geopolíticos e econômicos globais


Foto: US Department of War

A guerra contra o Irã resulta da confluência de duas forças: a obsessão de Trump em demonstrar a supremacia militar dos EUA ao mundo e a crença fundamentalista de Netanyahu de que o regime iraniano é ameaça existencial para Israel. 


A guerra traz riscos limitados para Israel, por sua indiscutível superioridade militar diante de um Irã fragilizado após dois anos de conflagração. 


Ao contrário, para os EUA, o conflito tem potencial para ser um novo Vietnã, dada a histórica resistência da civilização iraniana à dominação das grandes potências. 


‘Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial’


“O tempo é o senhor da razão”.  Essa conhecida máxima  precisa ser adaptada, no caso, para “o tempo é o senhor da guerra”. Para os EUA, uma guerra prolongada é muito prejudicial, pois conta com a oposição de cerca de 70% da população. Também exige vitória antes das eleições de meio de mandato em novembro próximo. 


Ao contrário, o regime teocrático-militar iraniano exibe maior resistência ao tempo. A infraestrutura está sendo devastada pelas forças armadas de Israel e EUA, mas o país conta com três poderosos pilares de defesa e de ataque: 


(i) grande arsenal de mísseis de médio alcance e milhares de drones capazes de destruir parte da infraestrutura física e das instalações petrolíferas dos vizinhos; 

(ii) bloqueio do Estreito de Ormuz, rota de 20% do petróleo do mundo; e 

(iii)  imaginário coletivo moldado tanto pelo espírito de luta e martírio do xiismo, como pela histórica resistência à dominação das grandes potências.

Esses fenômenos eram bem conhecidos por todos. A pergunta relevante é: Por que os EUA decidiram se aventurar numa guerra em que  poderiam se transformar na principal vítima? A resposta tem ao menos três dimensões: geopolítica, regional e o imaginário iraniano. 


Dimensão Geopolítica 

A obsessão de Trump em demonstrar supremacia militar ao mundo é uma tentativa de compensar o declínio relativo dos EUA, em contraste com a ascensão da China. 


Em 1970, os EUA representavam 28% do PIB mundial, e a China, menos de 3%. Em 2025, os indicadores foram, respectivamente, 27% e 17%. 


Nos últimos 15 anos, os EUA cresceram em média 2,5%, e a China, 7%. Desde 1978, com as reformas de Den Xiaoping, a China manteve taxas de crescimento econômico entre 8% e 10%. 


A participação no comércio mundial dos EUA, em 1980, era 13%, e a da China, inferior a 1%. Em 2023, a equação se invertia: EUA com 8% e a China, com 15%. 


‘A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países’


A China é o maior mercado para mais de 120 países, em contraste com os EUA, que é o principal parceiro da metade, ou seja, de 60 países. A China forma por ano cerca de 1,5 milhão de engenheiros, em comparação com 200 mil nos EUA. Em papers científicos, a China responde por 28,5% do total, em contraste com 13% dos EUA.


Apesar desses indicadores de declínio relativo, os EUA são a maior potência militar e a única capaz de atuar em todos os continentes. Para compensar o relativo declínio norte-americano no campo econômico, comercial e tecnológico, Trump tenta demonstrar ao mundo a supremacia militar dos EUA. O intervencionismo é o instrumento dessa estratégia compensatória.


Dimensão regional

Na esfera das Américas, as intervenções foram bem-sucedidas e de baixo custo. No Panamá, obrigou o país a romper contratos firmados com a China para exploração do Canal. Na Venezuela, após o sequestro de Maduro, preservou a ditadura chavista, mas o regime de exploração de petróleo e a política externa passaram a ser ditadas por Washington. 


No Oriente Médio, os resultados foram muito mais controvertidos. Apesar da morte de cerca de 700 mil palestinos, da destruição de mais de 70% da infraestrutura da Faixa de Gaza e da tragédia humanitária, o Hamas ainda sobrevive. Mas esses funestos resultados, produziram saldo militar positivo para Israel, que consolidou indiscutível supremacia na região. O Irã saiu inferiorizado em termos militares, nucleares e com proxies enfraquecidos – Hamas, Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque. 


Israel reafirmou superioridade com os ataques cirúrgicos, de junho último, contra as instalações nucleares e, sobretudo, com a tímida represália iraniana. 


‘Essa sequência de exitosas intervenções militares convenceu Trump a dobrar a aposta’


Essa sequência de exitosas intervenções militares cirúrgicas (Venezuela e Irã) convenceu Trump – sob decisiva influência de Netanyahu – a dobrar a aposta e se engajar na política de regime change. 


Foi a estrada do fracasso.


A dimensão do imaginário coletivo iraniano

Desde 1979, o Irã é uma república revolucionária cercada por monarquias conservadoras. Essa condição explica muito do radicalismo, consolidado em dois momentos decisivos – a tomada dos reféns na embaixada norte-americana e a guerra Irã-Iraque. 


Apesar desse traço estrutural, o regime viveu diversas fases que sinalizavam abertura econômica, liberalização de costumes e flexibilização política. 


‘O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, o Líder Supremo, e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica’


O fator determinante desse reformismo era o equilíbrio de poder entre três forças: o presidente, eleito pelo voto popular; o Líder Supremo, escolhido pela Assembleia de Peritos de 88 clérigos; e o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, com cerca de 200 mil membros, que controla a milícia Basij e responde diretamente ao Líder Supremo. 


Ao longo de quase cinco décadas de Revolução, grandes rebeliões populares foram ocorrendo a cada dez anos. Era a resposta indignada da sociedade a um regime que gastava mais com armamento e ajuda financeira aos proxies do que com seu povo. O divórcio entre Estado e sociedade refletia frustração e fadiga com a Revolução.


Esse quadro doméstico, somado à inferioridade militar resultante dos ataques israelenses aos proxies e ao território iraniano na Guerra de 12 dias, fragilizou o país. 


‘Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea’


Trump tomou então sua mais desastrosa decisão. Verdadeiro refém de Netanyahu, iniciou ampla ofensiva conjunta de guerra aérea. O objetivo era derrubar, com bombardeios aéreos cirúrgicos, um regime com meio século de existência, com forte aparato teocrático-militar, contestado pelas classes médias, mas com apoio das camadas mais pobres e de milícias financiadas pelo governo.  


Foi uma sequência de desastrosos erros anunciados. 


Primeiro, ignorar a histórica trajetória iraniana de luta contra grandes potências – Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos. 


Segundo, subestimar a ousadia iraniana de asfixiar o mercado mundial de petróleo com o fechamento do estreito de Ormuz. 


Terceiro, ignorar as advertências das monarquias do Golfo para não atacar o Irã, diante da provável retaliação, com desastrosas consequências para suas dinâmicas mas frágeis economias. 


Daí surgiu o erro fatal – colocar o mundo em crise de muitas dimensões – econômica, militar, energética e geopolítica. Refém de Israel, os EUA insistiram na guerra. 


A Revolução Iraniana derrotou Carter. A guerra contra o Irã poderá ser o Vietnã de Trump.   


Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Eleições brasileiras 2026: Bolsonaro martir? - Felipe Krause

 Felipe Krause no Linkedin, 15/03/2026


Jair Bolsonaro is currently in the ICU with severe pneumonia. If he were to die in the coming weeks, the electoral implications for Flávio Bolsonaro would likely operate through several possible mechanisms.

First, a short-term sympathy effect. In tightly balanced races — recent polls place Luiz Inácio Lula da Silva and Flávio Bolsonaro at roughly 41 percent each — even small emotional shocks can produce measurable shifts. Bolsonaro remains the central symbolic figure of the Brazilian right, and his death could generate a temporary consolidation of support around his political heir.

Second, elite and voter coordination on the right. Bolsonaro’s leadership has historically structured the conservative coalition. His death could reduce internal fragmentation and reinforce a “legacy vote,” increasing turnout among Bolsonaroist voters and clarifying the election as a referendum on the continuation of Bolsonaroism.

Third, counter-mobilization. Bolsonaro is also one of the most polarizing figures in Brazilian politics. His death could equally intensify mobilization among anti-Bolsonaro voters aligned with Lula or the broader center-left, offsetting any sympathy effect.

Fourth, sympathy fatigue among moderate voters. Attempts to frame the campaign too heavily around mourning or political martyrdom could alienate centrist voters who prefer a return to programmatic debate rather than emotionally charged narratives. See my earlier post about the importance of moderate voters.

Fifth, fragmentation within Bolsonaroism. Bolsonaro’s personal authority has long functioned as the movement’s organizing anchor. In his absence, internal rivalries among conservative elites could intensify, potentially weakening the coherence of the Bolsonaroist coalition over time.


One thing is certain: timing would be decisive. Sympathy effects tend to be short-lived. A shock closer to the campaign’s peak or the vote itself could shift the race at the margin. Earlier shocks often dissipate. Brazil’s two-round system further moderates these effects, as the runoff typically re-centers competition on coalition breadth rather than emotional momentum.

Projeto Brasil: queremos viver num país digno

PRA: Estou envolvido neste Projeto Brasil, que simplesmente significa para mim que a MORAL é indissociável da política:

https://eticademocracia.org/projetobrasil/


“*Projeto Brasil

O Brasil atravessa um tempo de grandes desafios e profundas transformações. 

Mais do que diagnósticos, é hora de pensar o país com responsabilidade e formular propostas para o seu futuro.


A Revista Será?, o Instituto Ética e Democracia, o Movimento Roda Democrática e o Ateliê de Humanidades lançam o Projeto Brasil, uma iniciativa voltada à reflexão e à formulação de propostas de políticas públicas para o desenvolvimento democrático do país.


Convidamos intelectuais, pesquisadores, lideranças e instituições a contribuir com ideias e propostas para enfrentar os grandes desafios nacionais.


Leia o texto inaugural e saiba como participar:

https://eticademocracia.org/projetobrasil/ 


 *Os Coordenadores* 

Contato:

info@eticademocracia.org

WhatsApp: (81) 9 8699-7905


 *IED | Instituto Ética e Democracia* 

Conhecimento para o Fortalecimento da Democracia

www.eticademocracia.org


 *Revista Será?* 

www.revistasera.info

 *Movimento Roda Democrática* 

https://web.facebook.com/groups/1699905363358128

 *Ateliê de Humanidades* 

https://ateliedehumanidades.com/ 

Três candidatos e uma eleição: o três do PSD no Canal Livre da BandNews TV

 Encaminho um estudo interessante que analisa as respostas dos três pré-candidatos no Canal Livre (dom15mar26). Vale a leitura.


ANÁLISE DAS RESPOSTAS DOS PRÉ-CANDIDATOS NO CANAL LIVRE

UMA AVALIAÇÃO COMPARATIVA DAS PROPOSTAS E DA CONSISTÊNCIA DAS RESPOSTAS


A entrevista do programa Canal Livre, que reuniu os governadores Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, apresentou um formato interessante: três pré-candidatos à Presidência discutindo temas estruturais do país em sequência de perguntas diretas dos jornalistas.


Para avaliar o desempenho de cada participante, foi realizada uma análise baseada em quatro critérios objetivos:


    1. Aderência à pergunta – se o candidato respondeu diretamente ao que foi perguntado.

    2. Consistência técnica – se a resposta apresentou raciocínio estruturado ou argumentos compatíveis com debates acadêmicos e institucionais.

    3. Viabilidade institucional – se as propostas são compatíveis com a Constituição e a estrutura política brasileira.

    4. Precisão factual – se houve exageros ou dados incorretos.


Com base nesses critérios, as respostas foram classificadas como de alta consistência, consistência moderada ou consistência fraca.


A seguir estão as dez perguntas da entrevista, as respostas de cada candidato e a análise comparativa.


--------------------------


1. QUALIDADES PARA SER PRESIDENTE


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

“Quais qualidades o senhor coloca na mesa para o eleitor e quais diferenças em relação aos outros candidatos para ser presidente?”


Respostas:

Ronaldo Caiado destacou sua longa trajetória política, afirmando ter mais de quatro décadas de atuação pública. Apontou resultados de sua gestão em Goiás, especialmente nas áreas de segurança pública, educação e regionalização da saúde.

Ratinho Júnior enfatizou os resultados econômicos do Paraná e afirmou que seu governo aplicou modelos de gestão inspirados em práticas internacionais, com foco em planejamento e desburocratização.

Eduardo Leite destacou sua experiência em governar um estado que enfrentava crise fiscal severa e polarização política, citando reformas administrativas e previdenciárias realizadas no Rio Grande do Sul.


Análise:

Essa pergunta tem caráter mais político do que técnico, pois trata de credenciais pessoais e experiência administrativa. Todos responderam de forma direta e dentro do esperado.


--------------------------


2. COMO QUEBRAR A POLARIZAÇÃO POLÍTICA


Pergunta: (Fernando Schiler)

“Qual é a estratégia ou mensagem para quebrar a polarização no Brasil?”


Respostas:

Ratinho Júnior afirmou que o caminho seria abandonar disputas ideológicas e focar em soluções práticas para a vida das pessoas, citando valores como liberdade econômica e estabilidade institucional.

Eduardo Leite defendeu que o debate político deve voltar a tratar dos problemas concretos do país e sugeriu reformas institucionais, como o fim da reeleição, como forma de reduzir tensões políticas permanentes.

Ronaldo Caiado enfatizou a necessidade de combater simultaneamente corrupção e violência e afirmou que a eleição não deveria se transformar em uma disputa baseada em conflitos passados.


Análise:

Na literatura de ciência política, três caminhos costumam ser citados para reduzir polarização: reformas institucionais, coalizões amplas e deslocamento do debate para políticas públicas concretas. A resposta de Leite se aproxima mais desse terceiro modelo, enquanto as demais foram mais discursivas.


--------------------------


3. COMBATE AO CRIME ORGANIZADO


Pergunta: (Fernando Mitre)

“Como combater o crime organizado com integração nacional sem retirar autonomia dos estados?”


Respostas:

Eduardo Leite defendeu um modelo de cooperação federativa baseado em compartilhamento de dados e coordenação entre forças de segurança.

Ratinho Júnior afirmou que os estados deveriam ter maior autonomia para legislar sobre crimes violentos, enquanto o governo federal deveria focar principalmente no controle das fronteiras.

Ronaldo Caiado defendeu medidas mais duras contra facções criminosas e sugeriu classificá-las como organizações terroristas.


Análise:

As três respostas representam visões diferentes de organização da segurança pública. O modelo cooperativo defendido por Leite se aproxima mais de experiências internacionais. A proposta de autonomia legislativa estadual exigiria mudanças constitucionais relevantes. Já a classificação de facções como terrorismo enfrenta obstáculos jurídicos na legislação brasileira.


--------------------------


4. REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL 


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

“Esse projeto de redução da maioridade penal, o senhor é favorável? Em que sentido?”


Respostas:

Eduardo Leite disse ser favorável à responsabilização em crimes graves, mas condicionou qualquer mudança a reformas no sistema prisional.

Ratinho Júnior afirmou que jovens de 16 anos deveriam responder penalmente como adultos em crimes violentos.

Ronaldo Caiado defendeu posição semelhante, afirmando que crimes contra a vida justificariam punição penal mais severa.


Análise:

A criminologia internacional aponta que a redução da maioridade penal isoladamente tem impacto limitado na redução da criminalidade e pode aumentar reincidência. A resposta de Leite buscou incorporar essa preocupação, enquanto as demais foram mais diretas e punitivas.


--------------------------


5. POLÍTICA ECONÔMICA E FISCAL 


Pergunta: (Rodolfo Schneider)

“Qual é a sua política econômica, especialmente na área fiscal?”


Respostas:

Ratinho Júnior defendeu alinhamento entre política fiscal e monetária e afirmou que o país precisa de previsibilidade econômica.

Ronaldo Caiado afirmou que o controle da dívida pública em relação ao PIB deveria ser a principal referência fiscal.

Eduardo Leite destacou a necessidade de reduzir despesas obrigatórias e realizar reformas estruturais no orçamento.


Análise:

Os três diagnósticos refletem debates comuns na economia brasileira atual. O foco nas despesas obrigatórias, mencionado por Leite, aparece frequentemente em análises de economistas sobre a rigidez orçamentária do país.


--------------------------


6. SUPERMINISTRO DA ECONOMIA 


Pergunta: (Eduardo Oineg)

“Teremos um super ministro da economia ou uma equipe econômica mais distribuída?”


Respostas:

Eduardo Leite afirmou preferir uma estrutura separando planejamento estratégico e gestão fiscal.

Ratinho Júnior defendeu uma equipe composta por especialistas em diferentes áreas da economia.

Ronaldo Caiado rejeitou a ideia de concentração excessiva de poder em um único ministro.


Análise:

O modelo de concentração extrema da política econômica em um único ministério, adotado no Brasil em 2019, gerou debates sobre problemas de coordenação. As respostas dos três candidatos indicam preferência por estruturas mais distribuídas.


--------------------------


7. REFORMA ADMINISTRATIVA 


Pergunta: (Fernando Mitre)

“Como produzir condições políticas para aprovar uma reforma administrativa?”


Respostas:

Eduardo Leite defendeu avaliação de desempenho no serviço público e revisão de benefícios automáticos.

Ratinho Júnior mencionou redução de vantagens funcionais e ampliação de parcerias público-privadas.

Ronaldo Caiado destacou a necessidade de meritocracia e valorização de servidores produtivos.


Análise:

Todos apresentaram propostas gerais, mas nenhum detalhou como construir maioria política no Congresso para aprovar mudanças constitucionais.


--------------------------


8. REFORMA DO STF 


Pergunta: (Fernando Schiler)

“Qual perfil de ministros do Supremo os senhores indicariam?”


Respostas:

Eduardo Leite defendeu mandato fixo para ministros e limites a decisões monocráticas.

Ratinho Júnior afirmou preferir magistrados com carreira consolidada no Judiciário.

Ronaldo Caiado também defendeu mandatos temporários e regras éticas mais rígidas.


Análise:

Propostas como mandato fixo para ministros do STF e restrições a decisões individuais aparecem em debates institucionais e em propostas de emenda constitucional.


--------------------------


9. PORTA DE SAÍDA DO BOLSA FAMÍLIA


Pergunta: (Eduardo Oineg)

“Como criar uma porta de saída do Bolsa Família?”


Respostas:

Ronaldo Caiado citou programas de qualificação profissional e apoio produtivo em Goiás.

Ratinho Júnior afirmou que o benefício social deveria ser compatível com ingresso no mercado de trabalho.

Eduardo Leite defendeu políticas focadas em educação, infância e ensino integral.


Análise:

Estudos internacionais indicam que educação e qualificação profissional são fatores centrais para mobilidade social, o que aparece de diferentes formas nas respostas.


--------------------------


10. ESCALA DE TRABALHO 6X1 


Pergunta: (Fernando Schiler)

“Qual a visão de vocês sobre a mudança da escala 6 por 1?”


Respostas:

Eduardo Leite argumentou que o principal problema brasileiro é a baixa produtividade e que reduções de jornada dependem de crescimento econômico.

Ratinho Júnior criticou a proposta afirmando que ela poderia aumentar custos para pequenos negócios.

Ronaldo Caiado afirmou que mudanças abruptas poderiam ampliar a informalidade.


Análise:

Experiências internacionais mostram que reduções de jornada costumam ocorrer em economias com maior produtividade e renda per capita.


--------------------------


COMPARAÇÃO QUADRO GERAL DAS RESPOSTAS 


Alta consistência | Moderada | Fraca


Eduardo Leite

6 | 4 | 0

Ronaldo Caiado

0 | 8 | 2

Ratinho Júnior

0 | 9 | 1


--------------------------


FALAS DE ENCERRAMENTO 


Eduardo Leite:

A essência da fala está na defesa da ordem moral e da responsabilização institucional. O candidato enfatiza que ninguém deve estar acima da lei — seja presidente da República, ministro do Supremo ou qualquer autoridade. O foco é restabelecer a credibilidade das instituições e garantir a punição de desvios no alto escalão do poder público. 


Ratinho Júnior:

A essência de sua mensagem está na modernização do Estado e no planejamento de longo prazo. O candidato defende que o Brasil precisa superar práticas políticas antigas e adotar modelos de desenvolvimento já testados por países que prosperaram, com foco em gestão eficiente, crescimento econômico e melhoria da vida das famílias. 


Ronaldo Caiado:

A essência da fala está na liderança política forte e na responsabilidade do eleitorado na escolha de seus governantes. O candidato destaca a necessidade de um presidente com autoridade, independência e coragem para governar, além de reforçar a importância da unidade política e da defesa de ideias e princípios na condução do país. 


Análise:

De modo geral, as considerações finais dos três candidatos foram coerentes com o que defenderam ao longo de toda a entrevista.


Cada um reforçou um eixo central de sua visão política: Eduardo Leite enfatizou a necessidade de ordem moral e responsabilização institucional; Ratinho Júnior destacou a importância do planejamento e do desenvolvimento econômico de longo prazo; e Ronaldo Caiado reforçou a ideia de liderança política firme e autoridade na condução do país.


Assim, os encerramentos funcionaram como uma síntese clara das prioridades e estilos de cada candidato, sem contradições relevantes em relação às posições apresentadas durante o programa.


--------------------------


CONCLUSÃO 


A entrevista revelou três perfis políticos distintos.


- Eduardo Leite apresentou respostas mais estruturadas em temas institucionais e econômicos, frequentemente associando suas propostas a diagnósticos sobre produtividade, estrutura fiscal e funcionamento das instituições.


- Ronaldo Caiado adotou um discurso mais político e enfático, especialmente em temas de segurança pública e combate ao crime, com propostas de caráter mais duro.


- Ratinho Júnior apresentou uma abordagem pragmática focada em resultados de gestão e políticas administrativas, embora algumas respostas tenham sido mais gerais.


No conjunto da entrevista, os três candidatos responderam à maioria das perguntas de forma direta e demonstraram experiência administrativa relevante. As diferenças entre eles apareceram mais no grau de tecnicidade das respostas e no tipo de abordagem política adotada do que em divergências profundas de agenda.


A análise comparativa indica que Eduardo Leite apresentou o maior número de respostas tecnicamente estruturadas, enquanto Caiado e Ratinho Júnior concentraram suas respostas em argumentos políticos e experiências de gestão.


--------------------------


CONSIDERAÇÕES FINAIS: 


Olhando o conjunto das respostas, dá para perceber algumas diferenças claras no estilo de cada candidato.


Algumas falas de Ronaldo Caiado, principalmente na área de segurança pública — como a ideia de tratar facções criminosas como terrorismo — acabam flertando mais com um discurso mais duro e de forte apelo popular, algo comum em momentos de maior polarização política.


Algo parecido aparece na defesa direta da redução da maioridade penal, posição defendida por Caiado e também por Ratinho Júnior. Esse é um tema que costuma dividir muito a opinião pública e frequentemente aparece em debates políticos mais polarizados.


Ratinho Júnior, de modo geral, adotou um discurso mais voltado para gestão e resultados administrativos, falando bastante de programas e experiências do Paraná. No entanto, algumas respostas foram mais genéricas e menos aprofundadas.


Já Eduardo Leite se destacou como o candidato com a postura mais moderada e menos polarizadora ao longo da entrevista. Em vez de apostar em propostas mais duras ou slogans políticos, ele procurou enfatizar soluções institucionais e reformas estruturais, falando sobre produtividade, responsabilidade fiscal e mudanças graduais nas políticas públicas.


Além disso, quando tratou de temas mais sensíveis — como segurança pública ou maioridade penal — Leite tentou apresentar respostas mais condicionais e cautelosas, evitando simplificações e reconhecendo a complexidade dos problemas.


No conjunto da entrevista, essa postura faz com que Eduardo Leite apareça como o candidato mais moderado e com o discurso mais voltado à redução da polarização, enquanto Caiado e, em menor grau, Ratinho dialogam mais com temas que costumam gerar divisões mais fortes no debate político.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Eleições brasileiras 2026 - Diogo Dutra (Revista ID)

 

Quando o sistema trava

Polarização, atratores políticos e o lock-in da democracia brasileira

Introdução — um sistema que não conseguimos mais enxergar de dentro

Talvez estejamos nos aproximando do quinto ou sexto ciclo eleitoral consecutivo no qual o Brasil convive com um fenômeno que, no início, parecia episódico, mas que ao longo do tempo foi se consolidando como uma estrutura permanente da vida política: a polarização radicalizada. Passamos por momentos de enorme tensão pública. Assistimos a crises institucionais, a rupturas profundas no tecido social, a relações pessoais que se deterioraram sob o peso de disputas políticas cada vez mais agressivas. Famílias se dividiram, amizades se romperam, ressentimentos se acumularam silenciosamente em muitas camadas da sociedade.

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar nosso trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.

Ao longo desse período, muitos de nós experimentamos uma mistura estranha de indignação, cansaço e resignação. Houve momentos de raiva coletiva, momentos de medo real, momentos em que parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Algumas das coisas que temíamos aconteceram; outras, felizmente, não aconteceram. Mas o que talvez seja mais intrigante — e, para mim, cada vez mais perturbador — é perceber que, mesmo depois de atravessarmos tantos ciclos dessa dinâmica, ainda parece não ter caído a ficha coletiva sobre o quão profundamente danoso é esse padrão de organização da vida política.

Observando o cenário que começa a se desenhar para mais uma eleição nacional, algo me impressiona profundamente: mesmo antes do primeiro turno acontecer, já estamos operando mentalmente dentro da lógica de um segundo turno polarizado. As pessoas discutem cenários eleitorais como se fosse inevitável que o sistema político brasileiro continue organizado em torno de dois polos que se antagonizam mutuamente. Comentários, análises e até conversas cotidianas parecem aceitar como natural que, ao final do processo, estaremos novamente diante da mesma estrutura binária que tem organizado a política brasileira nos últimos anos.

Esse fenômeno é tão naturalizado que raramente paramos para fazer uma pergunta fundamental: e se estivermos presos dentro de um sistema que reproduz continuamente essa estrutura?

É justamente essa pergunta que me levou a tentar observar o fenômeno político a partir de uma lente um pouco diferente daquela que costuma orientar o debate público. Em vez de interpretar eleições e disputas ideológicas apenas como fenômenos institucionais ou morais, tenho me interessado cada vez mais por compreendê-los como expressões de sistemas complexos. E quando olhamos a política dessa maneira — como um sistema dinâmico composto por milhões de interações entre indivíduos, instituições e fluxos de informação — alguns padrões começam a emergir.

Um desses padrões é o que a literatura sobre sistemas complexos chama de atrator: um estado relativamente estável para o qual o sistema tende a convergir repetidamente. E quando um sistema entra nesse tipo de configuração, ele pode permanecer ali por muito tempo, reproduzindo continuamente a mesma dinâmica [1].

Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Talvez estejamos presos em um lock-in político.

Este ensaio é uma tentativa de dar um passo para trás e olhar para esse fenômeno sob a perspectiva de sistemas dinâmicos. Não para justificar a polarização, mas para compreender por que ela persiste, por que ela captura inclusive aqueles que não se identificam com os polos mais radicalizados e, sobretudo, por que ela só será superada se certas perturbações ocorrerem dentro do próprio sistema social.


I — Atratores, lock-in e sistemas sociais

Na literatura sobre sistemas complexos e economia evolucionária, o conceito de lock-in descreve uma situação em que um sistema entra em uma trajetória histórica que passa a se auto-reforçar. Uma vez estabelecida determinada configuração institucional, tecnológica ou organizacional, cada decisão subsequente tende a reproduzir as condições que mantêm essa estrutura em funcionamento. O conceito tornou-se particularmente conhecido a partir dos trabalhos de Brian Arthur, que demonstrou como tecnologias ou instituições podem tornar-se dominantes não necessariamente porque são superiores, mas porque um conjunto inicial de escolhas cria um caminho do qual se torna progressivamente mais difícil escapar [2].

Em sistemas desse tipo, pequenas perturbações raramente são suficientes para alterar a trajetória dominante. O sistema tende a absorver essas variações e retornar à configuração anterior. Para que uma transformação estrutural ocorra, normalmente é necessário algum tipo de distúrbio suficientemente intenso para deslocar o sistema para outro atrator.

Essa dinâmica aparece em diversas áreas do conhecimento. Ilya Prigogine mostrou que sistemas físicos complexos frequentemente permanecem em estados metaestáveis até que flutuações internas ou externas criem condições para reorganizações estruturais profundas [3]. Na teoria de redes, pesquisadores observaram que interações sociais tendem a produzir agrupamentos densos — clusters — nos quais identidades coletivas e padrões de comportamento se reforçam mutuamente [4].

Quando aplicamos essa lente à política contemporânea, começamos a perceber que certos fenômenos aparentemente contingentes podem refletir estruturas sistêmicas relativamente estáveis. Polarização política intensa é um desses fenômenos.


II — A polarização como atrator político

Conflitos políticos sempre existiram. Divergências ideológicas, disputas eleitorais e confrontos de visões de mundo fazem parte da própria dinâmica das democracias. O que parece ter se alterado nas últimas décadas, no entanto, não é apenas a intensidade desses conflitos, mas a forma como eles estruturam o sistema político como um todo.

No Brasil — assim como em diversos outros países — a polarização deixou gradualmente de ser apenas uma característica episódica da competição política para tornar-se uma espécie de mecanismo organizador do próprio sistema político. A lógica que orienta a mobilização eleitoral passa a depender cada vez mais da criação de identidades antagônicas relativamente estáveis. Em vez de múltiplos projetos disputando preferências em um campo plural, o sistema passa a gravitar em torno de dois polos que se alimentam mutuamente.

A lógica desse processo é relativamente simples. Criar um campo de pertencimento emocional — o “nós” — e simultaneamente construir uma rejeição intensa ao “eles”. Essa estrutura reduz a complexidade do sistema político e torna a mobilização mais eficiente. Eleitores passam a tomar decisões menos com base em programas e mais com base em identidades.

Esse mecanismo tem um efeito curioso: cada lado passa a depender da existência do outro para sustentar sua própria mobilização. Ataques reforçam identidades. Conflitos ampliam o engajamento. Episódios de indignação coletiva aumentam a coesão interna dos grupos.

Com o tempo, essa dinâmica tende a produzir um verdadeiro atrator político. Uma configuração que passa a organizar grande parte das interações dentro do sistema.

Uma vez que esse padrão se estabelece, praticamente todas as forças institucionais começam a reforçá-lo. Estratégias de comunicação política privilegiam narrativas polarizadas. Redes sociais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas. E até instrumentos que deveriam ajudar a compreender a realidade política — como pesquisas eleitorais — acabam frequentemente reforçando essa estrutura ao enquadrar o debate quase exclusivamente como uma disputa entre dois polos.

Talvez o dado mais relevante — e menos discutido — seja que, no caso brasileiro, os níveis de rejeição entre campos políticos atingiram patamares historicamente elevados. Ou seja, a polarização deixou de ser apenas competição eleitoral e passou a incorporar uma dimensão emocional de rejeição ao adversário.

Do ponto de vista sistêmico, esse é um indicador clássico de um sistema que entrou em lock-in.


III — Quando o centro é capturado pelo sistema

O aspecto mais intrigante dessa dinâmica talvez seja o seguinte: ela não depende apenas dos atores mais radicalizados do sistema político. Na verdade, sistemas polarizados tendem a capturar progressivamente também aqueles que inicialmente se posicionam fora dos polos.

Em termos de sistemas dinâmicos, quando um sistema possui dois atratores dominantes, elementos que se aproximam do campo tendem a ser puxados gravitacionalmente para uma dessas regiões de estabilidade. Traduzido para a política, isso significa que atores moderados frequentemente acabam sendo absorvidos pela lógica da polarização, mesmo quando não compartilham plenamente das posições ideológicas dos extremos.

Esse fenômeno aparece de diversas maneiras. O medo do adversário leva eleitores moderados a votar estrategicamente. Candidatos que inicialmente tentam ocupar posições intermediárias acabam adotando discursos mais polarizados para sobreviver eleitoralmente. A própria narrativa pública passa a tratar posições centristas como ingenuidade, ambiguidade ou falta de coragem.

O resultado é um processo curioso e profundamente distorcedor. Mesmo quando existe uma parcela significativa da população que não se identifica plenamente com nenhum dos polos, o sistema continua produzindo segundos turnos cada vez mais radicalizados. Em vez de escolhas entre projetos consistentes de país, o eleitorado se vê diante de decisões motivadas principalmente pela tentativa de evitar aquilo que considera o pior cenário possível.

Esse fenômeno produz uma ilusão política perigosa. Governos eleitos dentro dessa dinâmica frequentemente parecem possuir legitimidade majoritária, quando na realidade foram escolhidos por um eleitorado fragmentado, que muitas vezes votou movido mais pelo medo do adversário do que pela adesão ao projeto vencedor.

É exatamente assim que sistemas em lock-in operam: empurrando todos os atores para dentro da estrutura existente.


IV — sair da inércia do sistema

Talvez o aspecto mais fascinante — e ao mesmo tempo mais inquietante — dos sistemas complexos seja o seguinte: quando estamos dentro de um atrator, frequentemente temos a impressão de que aquela configuração é inevitável. O sistema parece natural. Parece inevitável. Parece que sempre foi assim e que sempre continuará sendo assim.

Mas sistemas dinâmicos não funcionam dessa maneira.

Eles permanecem estáveis até que alguma perturbação relevante altere o padrão das interações. Pequenas mudanças acumuladas podem, em determinado momento, deslocar o sistema para outra região do espaço dinâmico.

O que me inquieta profundamente neste momento é perceber que talvez estejamos vivendo exatamente o oposto desse processo. Em vez de produzir perturbações capazes de alterar a dinâmica da polarização, muitos atores sociais parecem simplesmente aceitar sua inevitabilidade. Pessoas que não se identificam com os polos mais radicalizados continuam sendo puxadas para dentro dessa lógica pela força gravitacional do sistema.

E aqui está talvez o ponto mais importante deste ensaio.

Se existe hoje uma parcela significativa da sociedade que não deseja viver dentro dessa estrutura de antagonismo permanente, então essa parcela precisa compreender que a inércia também é uma forma de participação no sistema. Aceitar passivamente a lógica da polarização significa, na prática, reforçá-la.

É por isso que talvez seja urgente produzir um tipo diferente de movimento.

Não apenas institucional.

Mas social, cultural e relacional.

Pessoas que se identificam com posições mais moderadas ou que simplesmente rejeitam a lógica de inimização da política precisam começar a se posicionar de forma mais clara — nas conversas privadas, nos espaços públicos, nas redes sociais, nas organizações em que participam.

Isso significa recusar a lógica do “nós contra eles”.

Significa não amplificar narrativas que reforçam a polarização.

Significa defender explicitamente a existência de alternativas políticas fora desse binarismo.

Significa também, eventualmente, estimular alianças entre candidaturas que tentam ocupar esse espaço intermediário — em vez de contribuir para a fragmentação que frequentemente inviabiliza esse campo.

E, se mesmo assim o sistema insistir em reproduzir apenas escolhas polarizadas, talvez seja necessário sinalizar de forma clara que essa estrutura não é aceitável.

Mesmo que isso implique, em determinadas circunstâncias, recusar participar da lógica binária que o sistema tenta impor.

Não como gesto de indiferença política.

Mas como um sinal explícito de que parte da sociedade não aceita mais ser arrastada pela dinâmica de um sistema que produz continuamente inimigos políticos em vez de adversários democráticos.

Se existe algo que a teoria dos sistemas complexos nos ensina é que atratores não são eternos.

Mas eles também não desaparecem sozinhos.

Eles desaparecem quando novas interações começam a reorganizar o sistema.

A pergunta que fica — e que talvez seja a pergunta política mais importante deste momento — é se estamos dispostos a produzir essas novas interações ou se continuaremos aceitando, ciclo após ciclo, a gravidade de um sistema que parece cada vez mais difícil de abandonar.


Notas

[1] Stuart Kauffman — At Home in the Universe (1995).

[2] W. Brian Arthur — “Competing Technologies, Increasing Returns, and Lock-In by Historical Events” (1989).

[3] Ilya Prigogine — Order Out of Chaos (1984).

[4] Duncan Watts — Six Degrees: The Science of a Connected Age (2003).

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.

Holodomor: depois do genocídio armênio, pelos otomanos, o genocídio do povo ucraniano pelo Stalin - blog Diplomatizzando

 Agradeço a Airton Dirceu Lemmertz ter destacado minhas postagens no Diplomatizzando a propósito do genocídio stalinista contra o povo ucraniano no Holodomor:


As postagens "Holodomor (A Grande Fome) - o genocídio de milhões de ucranianos através da fome pelo regime stalinista - Airton Dirceu Lemmertz" (https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/holodomor-grande-fome-o-genocidio-de.html), "Dossiê Holodomor: o genocídio ucraniano por Stalin - Materiais coletados por Airton Dirceu Lemmertz" (https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/dossie-holodomor-o-genocidio-ucraniano.html) e "A eterna guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia - Euler de França Belém (Jornal Opção)" (http://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/a-eterna-guerra-de-agressao-da-russia.html) possuem links que levam a endereços com material escrito originalmente em língua portuguesa.
Abaixo, outros endereços com a temática Holodomor (A Grande Fome ucraniana); mas, dessa vez, oriundos de material em língua estrangeira (não português), devidamente traduzidos.

=========

Universidade de Minnesota


Holodomor

O genocídio ucraniano:

"No caso do Holodomor, este foi o primeiro genocídio metodicamente planejado e perpetrado, privando justamente as pessoas que produziam alimentos de seu sustento (para a sobrevivência). O que é especialmente horrível é que a privação de alimentos foi usada como arma de genocídio e que isso ocorreu em uma região do mundo conhecida como o 'celeiro da Europa'." – Prof. Andrea Graziosi, Universidade de Nápoles.

Uma Introdução:

Em 1932 e 1933, milhões de ucranianos foram mortos no Holodomor, uma fome provocada pelo governo soviético de Josef Stalin. As principais vítimas do Holodomor (literalmente "morte causada pela inanição") foram os agricultores e moradores de vilarejos, que representavam cerca de 80% da população da Ucrânia na década de 1930. Embora seja impossível determinar o número exato de vítimas do genocídio ucraniano, a maioria das estimativas de estudiosos varia de aproximadamente 3,5 milhões a 7 milhões (com algumas estimativas apontando para números maiores). Os estudos demográficos mais detalhados estimam o número de mortos em 3,9 milhões. Os historiadores concordam que, como em outros genocídios, o número exato jamais será conhecido.

Por meio do estudo do Holodomor (também conhecido como a Grande Fome), os alunos podem compreender que o Holodomor é um exemplo de como o preconceito e o desejo de dominar e controlar um determinado grupo étnico podem levar ao abuso de poder, à opressão em massa e ao genocídio.

Ucrânia antes do Holodomor:

A partir do século XVIII, os territórios ucranianos foram divididos entre os impérios austríaco e russo. Após a Primeira Guerra Mundial e a queda da monarquia russa em fevereiro de 1917, a Ucrânia estabeleceu um governo provisório, declarando-se a República Popular Ucraniana independente em janeiro de 1918. A República Popular Ucraniana lutou contra o Exército Vermelho bolchevique por três anos (1918-1921), mas perdeu a batalha pela independência.

A maior parte do território ucraniano foi incorporada à força à União Soviética, ou URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), e em 1922 a Ucrânia tornou-se a República Socialista Soviética da Ucrânia (RSSU). Em seguida, a URSS autorizou a requisição de todos os excedentes de produtos agrícolas da população rural, resultando em um colapso econômico.

O descontentamento entre os agricultores forçou Lenin a suspender as requisições e a implementar a Nova Política Econômica (NEP) em março de 1921. A NEP visava proporcionar maior liberdade econômica e permitir a iniciativa privada, principalmente para fazendas independentes e pequenas empresas. A partir de 1923, as autoridades soviéticas também adotaram uma política de indigenização, que na RSS da Ucrânia assumiu a forma de ucranização, uma política de liberalização nacional e cultural que promoveu o uso da língua ucraniana na educação, nos meios de comunicação e no governo. O objetivo da implementação tanto da NEP quanto da ucranização era aumentar o apoio ao regime soviético na Ucrânia. [...].

Causas do Holodomor:

No final da década de 1920, o líder soviético Josef Stalin consolidou seu controle sobre o Partido Comunista da União Soviética. Sentindo-se ameaçado pela crescente autonomia cultural da Ucrânia, Stalin tomou medidas para destruir o campesinato ucraniano e as elites intelectuais e culturais ucranianas, a fim de impedi-las de buscar a independência da Ucrânia.

Para impedir uma "contrarrevolução nacional ucraniana", Stalin iniciou uma repressão política em massa através de intimidação generalizada, prisões e encarceramentos. Milhares de intelectuais ucranianos, líderes religiosos e funcionários do Partido Comunista Ucraniano que haviam apoiado políticas pró-Ucrânia foram executados pelo regime soviético.

Ao mesmo tempo, Stalin decretou o Primeiro Plano Quinquenal, que incluía a coletivização da agricultura, pondo fim à NEP (Nova Política Econômica). A coletivização deu ao Estado soviético controle direto sobre os ricos recursos agrícolas da Ucrânia e permitiu que o Estado controlasse o fornecimento de grãos para exportação. As exportações de grãos seriam usadas para financiar a transformação da URSS em uma potência industrial.

A maioria dos ucranianos rurais, pequenos agricultores independentes ou de subsistência, resistiu à coletivização. Foram forçados a entregar suas terras, gado e ferramentas agrícolas, e a trabalhar como operários em fazendas coletivas do governo (kolhosps). Historiadores registraram cerca de 4.000 rebeliões locais contra a coletivização, a tributação, o terror e a violência das autoridades soviéticas no início da década de 1930. A polícia secreta soviética (GPU) e o Exército Vermelho reprimiram esses protestos com brutalidade. Dezenas de milhares de agricultores foram presos por participarem de atividades antissoviéticas, fuzilados ou deportados para campos de trabalho forçado.

Os fazendeiros ricos e bem-sucedidos que se opunham à coletivização eram rotulados de "kulaks" pela propaganda soviética ("kulak" significa literalmente "punho"). Eles eram declarados inimigos do Estado, a serem eliminados como classe. A eliminação dos chamados "kulaks" era parte integrante da coletivização. Servia a três propósitos: como um aviso para aqueles que se opunham à coletivização, como um meio de transferir terras confiscadas para as fazendas coletivas e como um meio de eliminar a liderança das aldeias. Assim, a polícia secreta e a milícia despojaram brutalmente os "kulaks" não apenas de suas terras, mas também de suas casas e pertences pessoais, deportando-os sistematicamente para as regiões mais remotas da URSS ou executando-os.

Essas repressões em massa, juntamente com a manipulação das compras de grãos controladas pelo Estado e a coletivização por meio da destruição da vida comunitária rural ucraniana, prepararam o terreno para o terror total – um terror pela fome, o Holodomor.

O Holodomor:

A Ucrânia, com seu histórico de resistência ao domínio soviético, representava uma ameaça ao regime soviético. Temendo que a oposição às suas políticas na Ucrânia pudesse se intensificar e possivelmente levar à secessão do país da União Soviética, Stalin estabeleceu cotas de aquisição de grãos irrealisticamente altas. Essas cotas foram acompanhadas por outras medidas draconianas destinadas a dizimar uma parte significativa da nação ucraniana.

Em agosto de 1932, o decreto dos "Cinco Talos de Grãos" estabelecia que qualquer pessoa, mesmo uma criança, flagrada retirando qualquer produto de um campo coletivo, poderia ser fuzilada ou presa por roubo de "propriedade socialista". No início de 1933, cerca de 54.645 pessoas foram julgadas e condenadas; destas, 2.000 foram executadas.

Com o agravamento da fome, um número crescente de agricultores abandonou suas aldeias em busca de alimentos fora da Ucrânia. As diretrizes enviadas por Stalin e Molotov (o colaborador mais próximo de Stalin) em janeiro de 1933 os impediram de sair, selando efetivamente as fronteiras da Ucrânia.

Para garantir ainda mais que os agricultores ucranianos não abandonassem suas aldeias em busca de comida nas cidades, o governo soviético instituiu um sistema de passaportes internos, que eram negados aos agricultores, impedindo-os de viajar ou obter passagens de trem sem autorização oficial. Essas mesmas restrições se aplicavam à região de Kuban, na Rússia, que faz fronteira com a Ucrânia e onde os ucranianos representavam a maior parte da população – 67%.

Na época do Holodomor, mais de um terço das aldeias na Ucrânia foram incluídas em "listas negras" por não cumprirem as quotas de grãos. As aldeias nessas listas foram cercadas por tropas e os moradores foram impedidos de sair ou receber qualquer suprimento; era essencialmente uma sentença de morte coletiva.

Para garantir que essas novas leis fossem rigorosamente cumpridas, grupos de "ativistas" organizados pelo Partido Comunista foram enviados para o interior. Conforme descrito pelo historiador Clarence Manning: "O trabalho dessas 'comissões' e 'brigadas' especiais era marcado pela extrema severidade. Eles entravam nas aldeias e faziam buscas minuciosas nas casas e celeiros de cada camponês. Reviravam a terra e arrombavam as paredes dos edifícios e fogões onde os camponeses tentavam esconder seus últimos punhados de comida."

Para escapar da morte por inanição, os moradores das aldeias comiam tudo o que fosse comestível: grama, bolotas, até mesmo gatos e cachorros. Os arquivos da polícia soviética da época contêm descrições do imenso sofrimento e desespero dos agricultores ucranianos, incluindo casos de desrespeito à lei, roubo, linchamento e até canibalismo.

Essa fome, o Holodomor, resultou em mortes em larga escala e valas comuns cavadas por todo o campo. Os registros oficiais não apresentavam um relato completo do que estava acontecendo na Ucrânia — muitas vezes, as mortes não eram registradas e a causa da morte não era informada — para ocultar a verdadeira situação.

No auge do Holodomor, em junho de 1933, os ucranianos morriam a uma taxa de 28.000 pessoas por dia. Cerca de 3,9 milhões de ucranianos morreram durante o Holodomor de 1932-33 (conforme estabelecido em um estudo de 2015 por uma equipe de demógrafos do Instituto Ucraniano de Estudos Demográficos e Sociais e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill).

Enquanto ucranianos morriam, o Estado soviético extraiu 4,27 milhões de toneladas de grãos da Ucrânia em 1932, o suficiente para alimentar pelo menos 12 milhões de pessoas durante um ano inteiro. Registros soviéticos mostram que, em janeiro de 1933, havia reservas de grãos suficientes na URSS para alimentar bem mais de 10 milhões de pessoas. O governo poderia ter organizado ajuda humanitária e aceitado auxílio externo. Moscou rejeitou a ajuda estrangeira e denunciou aqueles que a ofereceram, preferindo exportar os grãos e outros alimentos da Ucrânia para o exterior em troca de dinheiro.

A maioria dos historiadores que estudaram esse período da história ucraniana concluiu que a fome foi deliberada e ligada a uma política soviética mais ampla de subjugação do povo ucraniano. Com a queda da União Soviética e a abertura dos arquivos do governo soviético (incluindo os arquivos dos serviços de segurança), os pesquisadores puderam demonstrar que as autoridades soviéticas tomaram medidas especificamente na Ucrânia sabendo que o resultado seria a morte de milhões de ucranianos por inanição.

"O Terror-Fome de 1932-33 foi um subproduto da coletivização com duplo propósito: suprimir o nacionalismo ucraniano e, ao mesmo tempo, eliminar a concentração mais importante de camponeses prósperos." – Norman Davies, Europa, Uma História.

O Holodomor como Genocídio:

Raphael Lemkin (1900-1959), especialista em direito penal internacional (com particular interesse na prevenção do extermínio humano em massa), que cunhou e promoveu o termo "genocídio", identificou o Holodomor como "o exemplo clássico de genocídio soviético".

As ideias de Lemkin sobre genocídio serviram de base para a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e a Repressão do Genocídio, de 1948. A Convenção define genocídio como atos "que tenham a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal".

Em um discurso proferido em 1953, bem como em artigos escritos na década de 1950, Lemkin aplicou o termo genocídio ao Holodomor e à tentativa de destruir a nação ucraniana.

Lemkin identificou quatro componentes essenciais no processo genocida na Ucrânia:
- O extermínio das elites nacionais ucranianas (líderes políticos e culturais),
- A destruição da Igreja Ortodoxa Autocéfala (independente) da Ucrânia (seu clero e hierarquia),
- A fome que assolou a população agrícola ucraniana (o Holodomor), e
- Sua substituição por cidadãos não ucranianos da RSFSR e de outros lugares.

Historiadores renomados e outros estudiosos, como James Mace, Robert Conquest, Timothy Snyder, Norman Naimark e Anne Applebaum, que dedicaram um tempo considerável ao estudo do Holodomor e publicaram extensivamente sobre o assunto, concluíram que se tratou de um genocídio.

"O Holodomor ucraniano foi um genocídio? Sim, na minha opinião, foi. Ele atende aos critérios da lei sobre genocídio de 1948, a Convenção – atende às ideias que Raphael Lemkin estabeleceu." – Timothy Snyder (Professor Richard C. Levin de História na Universidade de Yale e Pesquisador Permanente do Instituto de Ciências Humanas em Viena), 15ª Palestra Anual Arsham e Charlotte Ohanessian e Simpósio do Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio.

[...]

Negação do Holodomor:

Na época do Holodomor, o governo soviético e o Partido Comunista negaram a existência de uma fome e recusaram qualquer ajuda externa. Uma sucessão de governos soviéticos manteve a negação formal do Holodomor. Na Ucrânia, era impossível falar publicamente, discutir abertamente ou ensinar sobre o Holodomor até o final da década de 1980. Informações sobre a fome estavam disponíveis apenas no Ocidente, principalmente por meio de relatos de testemunhas oculares, refugiados que sobreviveram ao evento e escaparam da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial.

Ainda hoje, as autoridades da Federação Russa admitem que houve fomes na URSS na década de 1930, mas recusam-se a reconhecer a natureza deliberada da fome de 1932-1933 na Ucrânia.

Além da negação soviética na época do Holodomor, jornalistas estrangeiros estacionados na URSS praticamente o ignoraram, enquanto a maioria dos governos, cujos países atravessavam a Grande Depressão, tinha conhecimento do ocorrido, mas nada fez. O jornalista Walter Duranty, do The New York Times, ganhador do Prêmio Pulitzer por seus artigos sobre a URSS, escreveu: "Não há fome ou mortes por inanição, mas há mortalidade generalizada por doenças devido à desnutrição... as condições são ruins. Mas não há fome." Recentemente, Duranty foi desacreditado por acobertar a fome na Ucrânia.

Houve alguns jornalistas que escreveram sobre a fome na Ucrânia, como Gareth Jones , que escrevia para o New York American e o Los Angeles Examiner, e Malcolm Muggeridge, um correspondente estrangeiro britânico. [...].

Legado e Consequências:

O Holodomor terminou em 1933. A coletivização foi completa, com todas as terras agrícolas se tornando propriedade socialista e todos os agricultores trabalhando para o Estado. De acordo com estudos demográficos recentes, 13,3% da população da Ucrânia morreu durante o Holodomor. Em algumas regiões da Ucrânia, a porcentagem de mortes devido à fome foi maior; por exemplo, a taxa foi de 19% em Kiev e 29% na região de Kharkiv. O Holodomor dizimou milhões de ucranianos. A promoção de uma "nova identidade soviética" e a pressão oficial sobre os ucranianos para que usassem a língua russa se intensificaram. Mesmo após o fim do Holodomor, o sofrimento dos ucranianos não cessou. As famílias das vítimas do Holodomor temeram a fome e novas repressões pelo resto de suas vidas, e esse medo foi transmitido às gerações futuras. Elas logo vivenciariam novos traumas: os expurgos de Stalin em 1937-38, a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista e o Holocausto, e a fome de 1946-47.

Outra consequência do Holodomor na Ucrânia foi a perda da memória coletiva. Na Ucrânia soviética, o Holodomor foi mantido fora do discurso público oficial até pouco antes da Ucrânia conquistar sua independência em 1991. Agora sabemos que instruções explícitas foram emitidas em toda a União Soviética proibindo o uso da palavra "fome", não apenas em documentos partidários e militares, mas também em registros médicos e estatísticas. Irena Chalupa, diretora do Serviço Ucraniano da RFE/RL, afirmou: "O motor criativo de um povo foi destruído, retardando e distorcendo a construção da nação por décadas. O regime soviético impediu que famílias e indivíduos processassem o luto pessoal e nacional. Por mais de 50 anos, a Ucrânia não pôde lidar abertamente com esse trauma."

Na década de 1980, com a publicação do relatório da Comissão dos EUA sobre a Fome na Ucrânia e as conclusões da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Fome de 1932-33 na Ucrânia, bem como o lançamento do documentário revelador " Harvest of Despair" (Colheita do Desespero), a atenção mundial finalmente se voltou para o Holodomor.

Em 28 de novembro de 2006, a Verkhovna Rada (Parlamento da Ucrânia) aprovou um decreto definindo o Holodomor como um ato deliberado de genocídio. O Holodomor foi reconhecido como genocídio por 16 nações  e 22 estados dos EUA, incluindo Minnesota.

Sugestão para educadores:

É importante que todos os alunos conheçam e compreendam alguns dos aspectos mais importantes do Holodomor, o genocídio ucraniano. O Holodomor e outros exemplos de genocídio têm um significado duradouro para os americanos e para o mundo como um todo, pois há lições importantes a serem aprendidas sobre direitos e responsabilidades humanas, opressão e o desafio da democracia em sociedades multiétnicas e multiculturais.

===

Consórcio de Pesquisa e Educação sobre o Holodomor,
Instituto Canadense de Estudos Ucranianos,
Universidade de Alberta


O Consórcio de Pesquisa e Educação sobre o Holodomor (HREC):
Promove a pesquisa, o estudo e a compreensão do Holodomor – a fome na Ucrânia de 1932-33. O HREC foi criado em 2013 pela Fundação Temerty no Instituto Canadense de Estudos Ucranianos (CIUS), da Universidade de Alberta. O mandato do HREC é executado por funcionários em um escritório em Toronto, funcionários do CIUS em Edmonton e pesquisadores na Ucrânia.

Informações básicas sobre o Holodomor:

Curso online sobre Holodomor:

Pesquisar calendário de eventos:

O canal no YouTube (Holodomor Research and Education Consortium):

Trailer [no YouTube] do curso online sobre Holodomor: 
- Aqui está uma prévia do curso online "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor". O curso, que foi disponibilizado gratuitamente ao público pela plataforma Coursera, reúne a experiência de mais de uma dezena de acadêmicos internacionais para explorar uma série de tópicos, incluindo história soviética, história ucraniana, o que o mundo sabia na época da Grande Fome, o Holodomor no contexto da fome no século XX e a questão do genocídio. Na Universidade de Alberta, o curso é oferecido com créditos acadêmicos e ministrado por um instrutor que integra os módulos e materiais online. 
- A obra "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor" explora de forma abrangente a fome que assolou a Ucrânia entre 1932 e 1933. Os leitores obterão uma compreensão profunda do Holodomor no contexto de outras fomes do século XX, dos estudos sobre genocídio, da experiência dos sobreviventes, da disseminação do conhecimento, da desinformação e da negação, bem como da história ucraniana e soviética. O Holodomor, uma das maiores tragédias do século XX, tornou-se objeto de estudo sério somente após a queda da URSS. Através da análise de pesquisas recentes e sob as perspectivas do colonialismo, do império, do genocídio, da fome e da segurança alimentar, da disseminação de (des)informação e das relações ucraniano-russas, "Fome como Genocídio no Século XX: O Caso do Holodomor" defende a importância crucial do Holodomor para a compreensão da história ucraniana, soviética, europeia e mundial, bem como dos eventos atuais. 

===

Biblioteca da Câmara dos Lordes


Holodomor ucraniano

O Holodomor ucraniano, também conhecido como a "Grande Fome", ocorreu entre 1932 e 1933. As políticas agrícolas implementadas sob o regime soviético de Josef Stalin foram responsabilizadas pela morte de milhões de pessoas durante esse período. Nos últimos anos, diversos governos e parlamentos reconheceram o evento como genocídio. O governo do Reino Unido afirmou que só se referirá ao evento como genocídio após uma decisão judicial competente.

1. O que foi o Holodomor ucraniano?

O Holodomor — traduzido diretamente do ucraniano como "morte por fome" — refere-se a uma fome que ocorreu na Ucrânia entre 1932 e 1933. [1] Isso ocorreu após a implementação das políticas de coletivização agrícola introduzidas sob o regime soviético de Josef Stalin. [2] Essas políticas exigiam que os ucranianos contribuíssem com altas cotas de grãos para o Estado soviético. [3] Aqueles que não conseguiam cumprir essas cotas tinham suas casas revistadas e seus alimentos confiscados. Relata-se que os ucranianos foram proibidos de deixar o país durante esse período, apesar da escassez de recursos alimentares. Embora a Rússia tenha reconhecido o Holodomor como uma tragédia, contesta que o regime soviético tenha causado a fome intencionalmente. [4]

Não existe um número oficial de mortos para o Holodomor. Alguns acadêmicos, incluindo Oleh Wolowyna, diretor do Centro de Pesquisa Demográfica e Socioeconômica de Ucranianos nos EUA, estimaram que ocorreram cerca de 4 milhões de mortes. [5] Outros estimaram o número de mortos em um valor muito maior. [6] No entanto, de acordo com Olga Andriewsky, professora associada da Universidade Trent, no Canadá, demógrafos e historiadores concordaram que não seria possível estabelecer um número preciso devido a problemas com os materiais do censo soviético da época. [7] Serhii Plokhy, professor de história ucraniana na Universidade Harvard, também aludiu à ausência de dados confiáveis sobre as perdas populacionais durante esse período. [8]

Alguns governos e parlamentos, incluindo o governo canadense, o parlamento australiano e o Congresso dos Estados Unidos, classificaram o Holodomor como um genocídio perpetrado pelo regime soviético de Stalin. Mais detalhes sobre alguns desses países que reconheceram o evento como genocídio são fornecidos na seção 4.

2. O que é genocídio?

Genocídio é um crime internacional. Refere-se a qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:
- matar membros do grupo;
- causar danos físicos ou mentais graves aos membros do grupo;
- infligir deliberadamente ao grupo condições de vida calculadas para provocar sua destruição física, total ou parcial.;
- impondo medidas destinadas a prevenir nascimentos dentro do grupo;
- transferir à força crianças do grupo para outro grupo.

A Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (Convenção sobre o Genocídio) forneceu esta definição. O crime pode ser cometido tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra.

O advogado polonês Raphael Lemkin é considerado a primeira pessoa a cunhar o termo 'genocídio' numa tentativa de fornecer um conceito jurídico para o Holocausto nazista. [9]

3. Como se define o genocídio?

Tribunais internacionais e nacionais são responsáveis por condenar pessoas ou estados por genocídio.

A convenção sobre o genocídio foi o primeiro instrumento de direito internacional a codificar o crime de genocídio. [10] O Reino Unido e outros Estados signatários da convenção são obrigados a tomar medidas para prevenir e punir o genocídio, incluindo a introdução de legislação nacional relevante e a condenação dos perpetradores.

O genocídio também é definido como crime em vários outros acordos internacionais, incluindo o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Estatuto de Roma) . O Estatuto de Roma levou ao estabelecimento do Tribunal Penal Internacional (TPI), que tem o poder de proferir condenações por crimes de genocídio cometidos a partir de 1 de julho de 2002. O Reino Unido ratificou o Estatuto de Roma em 2001. [11]

O Reino Unido também possui seu próprio crime de genocídio na legislação nacional. A Lei do Tribunal Penal Internacional de 2001 incorporou as obrigações do Reino Unido sob o Estatuto de Roma à legislação nacional. Isso conferiu aos tribunais do Reino Unido poderes para condenar cidadãos e residentes do Reino Unido por genocídio. Além dos tribunais do Reino Unido, o TPI também tem o poder de processar cidadãos ou residentes do Reino Unido acusados de genocídio se os tribunais nacionais não puderem ou não quiserem fazê-lo. [12]

As Nações Unidas exigem que seus funcionários usem o termo "genocídio" apenas quando se referirem a eventos que tenham sido determinados por um tribunal como constituindo genocídio. [13] Referir-se a algo como genocídio sem uma determinação judicial pode ser politicamente controverso, alerta a ONU. A organização afirma que, quando tal determinação não tiver sido feita por um tribunal, o uso desse termo poderá ser "vigorosamente contestado" pelas comunidades afetadas e poderá resultar em "tensões políticas".

Até o momento, apenas um número limitado de eventos foi determinado como genocídio por um tribunal. Isso não inclui o Holodomor. Apesar disso, diversas legislaturas nacionais optaram por reconhecer o Holodomor como genocídio em solidariedade à Ucrânia.

4. Quais legislaturas reconhecem o Holodomor como genocídio?

Diversos governos e parlamentos em todo o mundo reconheceram o Holodomor como genocídio. Isso inclui o governo canadense, que apoiou a aprovação de um projeto de lei de iniciativa parlamentar em 2008 que reconheceu oficialmente o Holodomor como um ato de genocídio e estabeleceu um dia de memória para comemorá-lo. [14] Em novembro de 2022, o parlamento federal alemão aprovou uma resolução apresentada pelos partidos da coalizão governista que declarou o Holodomor um genocídio. [15] Outros parlamentos que aprovaram resoluções semelhantes incluem Austrália, Bélgica, França e Estados Unidos. [16]

Mais recentemente, em dezembro de 2022, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que reconheceu o Holodomor como um genocídio, tendo anteriormente reconhecido o evento como um crime contra a humanidade. [17]

5. Qual é a posição do governo do Reino Unido?

A política de longa data do governo é que um tribunal competente deve tomar a decisão sobre se um genocídio foi cometido, e não o governo. Um "tribunal competente" refere-se a um tribunal que tem poder para julgar tais questões. O governo considera que isso inclui tribunais internacionais como o TPI, bem como tribunais penais nacionais que cumprem as normas internacionais. [18]

O governo reconheceu anteriormente cinco casos de genocídio, todos após determinações de tribunais competentes. [19] Esses casos são os genocídios em Ruanda, Srebrenica e Camboja, além do Holocausto e do genocídio contra o povo yazidi.

O governo reafirmou sua posição sobre a determinação de genocídio durante um debate em maio de 2023 na Câmara dos Comuns sobre o Holodomor. [20] Leo Docherty, subsecretário parlamentar de Estado do Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento, afirmou que a política do governo garantiria que as determinações de genocídio permanecessem “acima da política, acima do lobby e acima dos interesses individuais, políticos ou nacionais”. O ministro argumentou que essa abordagem daria “autoridade” a quaisquer referências do governo do Reino Unido ao genocídio e seria “mais difícil de ser rejeitada pelos responsáveis por atos de genocídio”. No entanto, o ministro enfatizou que a política não diminuía o reconhecimento, por parte do governo, das atrocidades que ocorreram durante o Holodomor.

Alguns parlamentares discordaram da política do governo. Durante o mesmo debate na Câmara dos Comuns, os deputados aprovaram uma moção segundo a qual a Câmara dos Comuns “acredita que o Holodomor foi um genocídio contra o povo ucraniano”. [21]

Mais recentemente, Patricia Gibson (deputada do SNP por North Ayrshire e Arran) apresentou uma moção de urgência em julho de 2023 para que a Câmara dos Comuns 'reconheça o Holodomor de 1932-33 na Ucrânia como um genocídio do povo ucraniano'. [22] A moção foi assinada por 14 deputados de vários partidos antes de ser rejeitada quando a sessão parlamentar de 2022-23 terminou.

[...]
Referências (link para cada uma das 22 referências):

===

Museu do Holodomor


Postagem em destaque

Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump? - Sergio Abreu e Lima Florencio (Portal Interesse Nacionsl)

Sergio Abreu e Lima Florencio Portal Interesse Nacional, 15/03/2026 Guerra contra o Irã – O Vietnã de Trump? A ofensiva contra o país persa ...