João Guimarães Rosa, poeta

João Guimarães Rosa
Amigas e amigos,
Esta é uma edição especial. Traz como autor central o celebrado contista e romancista mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), um dos ficcionistas brasileiros mais respeitados, aqui e no exterior. Mas neste boletim o grande Guimarães Rosa não aparece como prosador, e sim como poeta.
Na verdade, o primeiro livro dele, Magma, do qual foram extraídos os poemas deste boletim, foi um livro de poesia. Mas, curiosamente, essa coletânea só veio à luz postumamente, em 1996, sessenta anos após sua consagração oficial.
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Em 1936, a Academia Brasileira de Letras promoveu um concurso de poesia, no qual o livro Magma conquistou o primeiro lugar. O julgamento dos textos ficou a cargo do poeta paulista Guilherme de Almeida, que diz ter procurado “buscar e premiar poesia, poesia autêntica e completa, que é beleza no sentir, no pensar e no dizer”.
Para Almeida, o único livro da competição que obedecia a tais critérios foi Magma, de Guimarães Rosa, então com 28 anos de idade. Mas o autor, embora elogiado, nunca publicou a coletânea premiada. Em 1965, numa conhecida entrevista concedida por ele ao crítico alemão Günter Lorenz, Rosa explica por que deixou a coletânea de lado durante a vida inteira.
“(..) escrevi um livro (..) de poemas, que até foi elogiado. Mas logo (...) minha carreira profissional começou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas (...). Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes”.
Como não publicou o livro, costuma-se dizer que Guimarães Rosa renegou seus poemas. Na minha opinião, a explicação do escritor é aceitável. Ele descobriu que seu negócio era a ficção. E apostou certo: mudou os rumos de sua escrita.
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Ao lado, vamos ler seis poemas de Magma, a obra “oculta” de João Guimarães Rosa. Comecemos. Em “Lunático”, o poeta empreende um passeio lírico noturno, anunciado no primeiro verso: “Vou abrir minha janela sobre a noite”. E então ele se põe a “sonhar pelas estradas noturnas” e até imagina que ouvirá “a rainha do País do Suave Sonho”.
No poema seguinte, “Paisagem”, o clima é similar. O poeta se põe a descrever o movimento de “libélulas verdes” que têm “asas nervadas” e se movem entre “reflexos de raios” que “hipnotizam muriçocas tontas”. São exercícios de criação/descrição. Guimarães Rosa proporcionava a si mesmo aulas do que hoje chamam “escrita criativa”.
Os poemas seguintes, de uma forma ou de outra, repetem a busca de domínio sobre a palavra. Em “Pavor”, constrói-se um ambiente irrespirável. “Em torno a mim / círculos concêntricos se fecham, / como as órbitas lentas de um corvo...” As reticências parecem sugerir que existe ainda algo mais por dizer.
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No poema seguinte, “Na Mantiqueira”, surge outra paisagem noturna, mais uma vez marcada pela presença da lua. De modo similar, o clima em “Revolta” é de medo e cansaço. Neste caso, porém, a resposta do eu poético faz jus ao título: “Mas não quero ir para mais longe, / desterrado, / porque a minha pátria é a memória. / Não, não quero ser desterrado, / que a minha pátria é a memória...”. O indivíduo, firme, planta suas âncoras no território das lembranças.
Vem, por fim, o poema “Reportagem”. De caso pensado, manobrei para deixá-lo por último. Em minha opinião, este é o poema em que o poeta mais se aproxima do futuro Guimarães Rosa, aquele do Grande Sertão, das veredas e das travessias. Neste poema aparecem personagens reais (o homem que desce na estação, os outros passageiros), lugares reais (o temido Leprosário), ações e reações que se desenvolvem no chão.
Obviamente, há também o medo da lepra (hanseníase). Teria o homem que saltara ficado perto de nós? Tocado de humanidade, o sujeito poético (talvez influenciado pelo médico residente no escritor) expressa a vontade de endereçar um sorriso ao homem que vai para o leprosário. Não havia clima.
Estão aí, portanto, não apenas os devaneios, mas a vida completa, com seus bolsões de receios e brutalidades, ao lado da leveza e da empatia. As palavras que Guimarães Rosa buscava na poesia foram encontradas, mais verdadeiras e mais vastas, lá adiante, na prosa. Ave, Palavra!
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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Minha pátria é a memória |
• João Guimarães Rosa |
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Pablo Picasso, pintor espanhol, Cabeça de mulher (1939)
LUNÁTICO
Vou abrir minha janela sobre a noite.E já bem noite, a lua,alta a um terço do seu arco,terá de deslizar pelo meu quarto a dentro,e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,que levam à região dos desabrigos,..Sonharei com mares muito brancos,de águas finas, como um ar dos cimos,onde o meu corpo sobrenada solto,por entre nelumbos que passam boiando...Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,cantando no alto sempre o mesmo canto,como a sereia do sempre mais alto...E a janela se fecha, prendendo aqui dentroo raio suave que prendia a lua...Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,onde remoinham as formas inacabadas,onde vêm morrer as almas, afogadas,e onde os deuses se olham como num espelho...
PAISAGEM
No quadrilátero do arrozal,verde-aquarela,cortam-se em ângulos retoscanais azuis de água polida.No ar de alumínio,as libélulas verdes vão espetandojoias faiscantes, broches de jade,duplas cruzetas, lindos brinquedos,nos alfinetes de sol.Pairam suspensas, em voo de caça,horizontal,e jogam, a golpes da tela metálicadas asas nervadas, reflexos de raios,que hipnotizam as muriçocas tontas...A libelinha pousa na pontado estilete de uma haste verde,que faz arco (pronto!...)e a leva direta à boca,aberta e visguenta, de um sapo cinzento..,— Glu!... Muitas bolhas na escuma...E as outras aeroplanam, assestandopara o submersível,os grandes olhos redondos,com quarenta mil lentes facetadas...Pablo Picasso, Retrato de Germaine (1902)
PAVOR
Em torno a mimcírculos concêntricos se fecham,como as órbitas lentas de um corvo...Tudo é torvo e pesado,falta de ar e de amor...Para mim já se apagou a última cor.E a minha alma se enfurnaem poços velhos de hulheiras,de onde foi tirado e queimado o carvão todo.Como um cegoque dormisse na treva, amedrontado,para sonhar que mais uma vez cegou...
NA MANTIQUEIRA
Por entre as ameias da cordilheiradormida,a lua se esgueira,como um lótus brancona serra de dorso de um crocodilo,brincando de esconder.Dá para o alto um arranco,repentino,de balão sem lastro.E sobe, mais clara que as outras luas,quase um sol frio,redonda, esvaindo-se, derramando,esfarelando luz pelos rasgões, do bojofarpeado nas pontas da montanha.Pablo Picasso, Mulher com coque (1901)
REVOLTA
Todos foram saindo, de mansinho,tão calados,que eu nem seise fiquei mesmo só.Não trouxe mensageme não me deram senha...Disseram-se que não iria perder nada,porque não há mais céu.E agora, que tenho medo,e estou cansado,mandam-me embora...Mas não quero ir para mais longe,desterrado,porque a minha pátria é a memória.Não, não quero ser desterrado,que a minha pátria é a memória...
REPORTAGEM
O trem estacou, na manhã fria,num lugar deserto, sem casa de estação:a parada do Leprosário...Um homem saltou, sem despedidas,deixou o baú à beira da linha,e foi andando. Ninguém lhe acenou...Todos os passageiros olharam ao redor,com medo de que o homem que saltarativesse viajado ao lado deles...Gravado no dorso do bauzinho humilde,não havia nome ou etiqueta de hotel:só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...O trem se pôs logo em marcha apressada,e no apito rouco da locomotivagritava o impudor de uma nota de alívio...Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,como quem não tem frente, como quem só tem costas.