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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Renato Prado Guimarães, um passo atrás: capítulo 1 das crônicas imperdíveis de Panamérica

 Última Forma, como dizem os militares. Depois de ter postado o capítulo 1 das crônicas do embaixador Renato Prado Guimarães, volto atrás e publico o capítulo 1, sobre o qual eu tinha passado batido por excesso de entradas por vários canais (e-mails, Facebook, etc etc....


PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
PA N A M É R I C A — C A P Í T U L O 1

1. COLÔMBIA, CASA DA SOGRA?
(Dedicada in memoriam a Vargas Llosa, há pouco falecido, e a suas Visitadoras amazônicas, eternas!
Igualmente dedicada ao Embaixador Julio César Gomes dos Santos, que ao aposentar-se escolheu Bogotá como sua morada definitiva, com Flavia, sua admirável esposa, celebridade na TV colombiana)

Comecinho dos anos 1970. Domingo sim, domingo não, era de esperar: lá pelas onze horas o telefone de plantão da Embaixada tocava em Bogotá. Era o Cônsul Privativo3 em Letícia, nos confins do Solimões, que chamava, desesperado porque um avião militar brasileiro havia invadido o espaço aéreo colombiano e pousado, sem autorização prévia, na pista asfaltada do Apostadero Naval, onde fora apreendido pela Guarnição local e jazia circundado por fuzileiros de arma em riste. A tripulação da FAB vagava pela cidade, livre, mas, pressionado pelo comando militar brasileiro, em Tabatinga, ali perto águas jusantes, o Cônsul implorava para que conseguíssemos a licença a posteriori do comando da Aeronáutica colombiana, na Capital, e com
isso a liberação da aeronave para sua missão periódica de apoio a destacamentos de nosso Exército na fronteira.

[Vcs mesmo ajustem agora os saltos de linha...]

Com o tempo, já sabíamos dos hábitos domingueiros dos brigadeiros colombianos. Em geral os
encontrávamos no "Los Lagartos", clube de golfe, ou em alguma "finca" em "tierra caliente",
algumas dezenas de quilômetros distante e umas tantas centenas de metros abaixo da fria Bogotá
do altiplano. Mas era muito constrangedor, o pedido, embora sempre elegante e pronta a resposta
de nossos interlocutores, que abandonavam sua folga semanal para chamar seus subordinados e
autorizar a liberação do Catalina intruso em Letícia, lá no distante Solimões.
Fui a Letícia/Tabatinga, pela primeira vez, para um Seminário sobre o projeto maluco dos
grandes lagos amazônicos, do Herman Kahn e do Hudson Institute. Mas esse assunto é objeto de
rabiscos vindouros4. Aqui me ocupo de outras questões que vieram a lume na mesma viagem,
ligadas a nosso pesadelo dominical em Bogotá, por conta do Catalina impertinente - e reincidente.
O problema estava em que o avião vinha de Manaus a fim de recolher, na guarnição de
Tabatinga (Brasil), mantimentos e equipamentos necessários para aprovisionar, em duas viagens,
os pelotões de fronteira estabelecidos em Ipiranga e Estirão do Equador, terra e floresta adentro,
ao norte e ao sul do Solimões, acessíveis só por avião ou por barco (no todo, a operação de
reabastecimento comportava três pousos e três decolagens em Tabatinga/Letícia). Se a pista de
Tabatinga, de terra (e barro; Tabatinga quer dizer "barro branco"), não estivesse boa, havia que
pousar, de emergência, no asfalto vizinho de Letícia, seguro e confortável. A escolha cabia à
tripulação do Catalina, à luz de como percebesse as condições de Tabatinga. Se o pouso fosse em
Letícia, os mantimentos e as munições para os pelotões que cabia abastecer, via aeronaval, tinham
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
de vir de Tabatinga por terra, atravessando a fronteira sob os olhos vigilantes mas felizmente
compreensivos dos militares colombianos.
A repetição das emergências começou, contudo, a dar o que falar. Quando fui para o seminário
dos grandes lagos, o Cônsul chamou-me de lado e sussurrou que havia um clima de antagonismo
disfarçado mas delicado entre as duas guarnições, a do Exército brasileiro em Tabatinga e a da
Marinha colombiana em Letícia. Por conta das "invasões" assíduas da Aeronáutica, com a
agravante do temperamento dos comandantes militares do momento, o do lado colombiano
ríspido e autoritário, o da parte brasileira... também.
O Cônsul temia algum incidente grave, que pudesse comprometer as relações entre as duas
guarnições, as duas cidades, os dois países (era megalomaníaco em seus temores), tão boas até
então e como sempre. Ácido, censurava os brasileiros, que estariam se comportando como na
"casa da sogra", agindo na Colômbia como se fosse Brasil. Também fofoqueiro, ele insinuava que
na cidade corria a boca pequena que os jovens tenentes-pilotos brasileiros tinham outras razões
para pousar na Colômbia, e não na pista precária de Tabatinga - razões ligadas a prazeres que
Letícia oferecia e não eram disponíveis em sua vizinha menor brasileira. Já teriam mesmo surgido
rivalidades entre eles e oficiais marinheiros do lado colombiano, a propósito de determinada
musa, pelas duas partes animosamente cobiçada - justificadamente, a julgar pelo que dizia nosso
funcionário, timorato mas ainda interessado, sonhador.
"- Um pedaço de mau caminho! E manhosa: dizem que adora semear ciúme, sobretudo em milico".
Uma diva divisora, e binacional - além de aeronaval, como o Catalina...
Até parecia que era aí mesmo, nesse mau pedaço, que as relações na divisa tropeçavam...
Jovem e zeloso diplomata, arvorei-me prontamente mediador no conflito denunciado. Não sei
como arrumei uma "voadeira" (canoa veloz, com motor de popa) e lá fui para Tabatinga, visitar o
protagonista brasileiro mais importante na confrontação (depois do Catalina, claro), o coronel
titular do Comando da Fronteira do Solimões, o nome, àquela altura, da guarnição nascida com o
valoroso forte de São Francisco Xavier de Tabatinga, no lugar desde 1766.
Topei com um oficial educado, culto e competente5. Revelou-se igualmente muito simpático e
amistoso, mas ante as preocupações do Cônsul, que descrevi, qualificando-as prudentemente -
claro -, sua reação se resumiu num "É isso mesmo" meio brusco; não acenou com nenhuma
mudança de atitude e comportamento, dele ou dos seus colegas aviadores, que cavalgavam os
Catalinas lascivos.
Perguntei, ainda esperançoso: Por que o Catalina, paradigma da aeronave anfíbia, não desce na
água do Solimões, quando a pista em terra não estiver boa? Nem pensar, foi a resposta. Operando
na água o Catalina não pode levar toda a carga que precisamos transportar para os dois pelotões.
Perguntei ainda: por que não pedir, então, com a antecedência de praxe, uma licença de sobrevoo
e pouso condicional em Letícia, válida para o caso de não ser segura a operação em Tabatinga? O
coronel, meio surpreso diante da sugestão, deu de ombros: "Sei lá, isso é coisa da Aeronáutica". Em
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
nenhum momento deixou transparecer, mas acho que a guarnição brasileira de Tabatinga tinha
também algum ressentimento ante os Catalinas esquivos, trabalhando os do Exército todo o tempo
para preparar e conservar a pista lamacenta, só para vê-los ao cabo desprezá-la, atraídos para
mais aconchegante pouso, em Letícia.
Ciúmes pela diva, ainda? A bem da verdade, em minha missão não colhi qualquer indício de
incursão dela também em nossa valente força terrestre.
Era aeronaval, mas não anfíbia.
De volta a Letícia, achei-me na obrigação diplomática de visitar a outra parte, o Comandante do
Apostadero Naval colombiano. Muito simpático, também, cooperativo. Um tanto formal.
Minimizou as inquietações do Cônsul ("Você sabe como ele é, sozinho aqui acaba vendo chifre em
cabeça de cavalo..."), mas admitiu que a convivência e a indispensável cooperação na fronteira
poderiam beneficiar-se de uma mudança de tom e temperamento nas relações entre as duas
guarnições, por alguma razão desmerecidas.
Quando retornei a Bogotá, e narrei essas coisas a meu Embaixador6, ele riu muito, sobretudo
das razões que comandariam o tráfego aéreo na região, mas me ordenou que pusesse tudo
imediatamente no papel. Quando leu meu rascunho, discreto, diplomático, determinou mais:
"Transforma isso numa carta minha ao tal Comandante brasileiro de Tabatinga". Não gostei da
ideia e o disse ao Chefe: essas mensagens têm de seguir um caminho, via Brasília e o Estado-Maior
do Exército, Comando Militar da Amazônia, etc. etc. Ele desprezou minha argumentação, mais
experiente da gente de farda e com as costas aquecidas7 por um antepassado Almirante,
pranteado herói da Marinha, e por dois irmãos também coronéis, em Brasília.
Saiu a carta, direta a Tabatinga.
Resposta?
Nunca houve, postal, ou ao menos nunca nada nos chegou de volta às mãos. Mas talvez a
mensagem não se tenha perdido, a carta pode ter até merecido a reação mais pertinente e
desejável nas circunstâncias: em pouco tempo o Cônsul inquieto nos comunicava seu alívio ante
convites que passara a receber, para ricas feijoadas oferecidas aos oficiais colombianos em
Tabatinga, lautos "ajiacos de pollo" (são uma delícia!) promovidos em Letícia para os brasileiros do
outro lado, churrascos fraternos, lá e cá, para toda a oficialidade do Exército brasileiro e da
Marinha colombiana.
Em tudo o Cônsul pegava carona, de ofício, gostosamente. Não tardou muito, também, para que
o Brasil construísse uma pista de categoria internacional em Tabatinga. E para que os colombianos
passassem a igualmente usá-la, sobretudo quando tiveram que renovar, em Letícia, a favorita de
nossos tenentes da FAB (refiro-me à pista!). Não me lembro bem, mas acho que a escala em Letícia
da SATENA, ligada à Força Aérea Colombiana, dava-se na verdade em Tabatinga, onde despejava e
recolhia seus passageiros nos já então antiquados DC-4 da Segunda Guerra Mundial, de enésima
mão, a mais recente da própria FAB, da qual haviam sido adquiridos.
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
Os colombianos operavam no Brasil como se em Colômbia fosse.
"Casa da sogra"? Não, casa de irmão, fraterno abrigo!8
NOTAS DE RODAPÉ
3. Categoria Funcional antiga no Itamaraty; nem sei se ainda existe. Era ocupada por funcionários de fora da Carreira.
4. As futuras "Crônicas Tardias, Memórias Precoces".
5. Nada menos do que o então Coronel Moraes Rego, não sei por que isolado na fronteira distante pela cúpula da
"Revolução", mas que mais tarde viria a ter papel de relevo em Brasília, General de confiança de Ernesto Geisel nos
governos militares e na Abertura do regime político.
6. Fernando Ramos de Alencar, grande Embaixador e admirável figura humana. Com sua Paz Baraona, viúva chilena com
cinco filhos ainda crianças, casou-se e formou uma família admirável e até comovente no amor puro e perene que todos
os seus membros ciosamente entretinham e mesmo contagiavam os que desfrutavam o privilégio de com eles conviver. O
colega Embaixador Julio Cesar Gomes dos Santos foi testemunha de um pedido de apoio logístico em posto que ele foi,
modestamente (era, à época, nosso Embaixador mais jovem, e já havia ocupado a Chefia da Administração e a Secretaria-
Geral do Ministério), apresentar ao então Chefe da Administração, e que este acabou patrocinando no todo, alegando,
comovido e entusiasta, ante seus Assistentes, atônitos: "Este menino está apaixonado!". Se houve diplomatas movidos pelo
Amor, Fernando terá sido um deles. Amor e paixão por sua família, por seu País e pelo Chile, onde viria a falecer, muito
cedo, cercado pelos seus. Gostava de contar estórias em torno da relação Brasil-Chile, em particular sobre o Baile da Ilha
Fiscal e o fato pouco divulgado de que dito festejo fora de acolhida a tripulação de fragata que viera ao Rio em missão de
agradecimento do povo do Chile por gesto geopolítico e fraternal de Pedro II, que ajudara aquele país a sobreviver como
nação soberana. Na mesma belonave o Imperador deposto se asilou depois da Proclamação da República a 15 de
novembro, enquanto aguardava o paquete transoceânico que o levaria a seu penoso exílio na Europa.
7. "Costas aquecidas". Diz-se em português de quem tem as "costas quentes", bem protegidas.
8. Eita! Tropeço pro tradutor! A tão útil expressão "Casa da Sogra" não existe em espanhol, com o sentido que lhe damos
em português, de abuso abagunçado em morada alheia. Amigos hispano-hablantes me sugeriram alternativas: Guillermo
Gianelloni: "Esto es um viva la Pepa!"; "Te crees que esto es un conventillo?"; Julio César Gomes dos Santos: "Hacían lo que
se les daba la gana, como se estuvieran em su misma casa!"; "Hacían lo que les daba la p... gana!". Falta a malvada sogra
em espanhol, enquanto nossa língua, profusa na trapalhada, tem mais, ainda, para a mesma situação, a "casa da mãe
Joana" (JCGS). Vamos ver como o tradutor se vira; Eita 2! - Alertei para um tropeço de tradução e acabei gerando outro:
"abagunçado"?

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Crônicas diplomáticas: depois da iniciativa pioneira do Renato Prado Guimarães, outros escrevinhadores diplomáticos se apresentam: Christiano Whitaker

Crônicas diplomáticas: depois da iniciativa pioneira do Renato Prado Guimarâs, outros escrevinhadores diplomáticos se apresentam: Christiano Whtaker


Senhores, 

Permito-me submeter a crônica que se segue, recordação de bons tempos idos.


VIETNAM -1       O SANTO GUERREIRO

Bonum certamen certavi
 
       Demorou três anos. Cheguei, fiz as visitas de praxe: autoridades, colegas. E fui já pedindo, por Nota formal: “A Embaixada do Brasil cumprimenta”, etc. e tal que todos conhecemos, e solicita que se marque uma entrevista com o Santo Guerreiro. Semana, mês, meses: eu, novato de Vietnam e de coisas asiáticas, estranhei – por quê não respondem? Na primeira ocasião que me apareceu, perguntei aos do Protocolo local, e a minha visita ao Santo Guerreiro? Ah, Embaixador, o Senhor há de comprender: ele está muito velho, adoentado, quase não recebe ninguém, quase não sai de casa.
      Tá bem, comprendo. Mas daí a poucas semanas vou ao casamento de um figurão do Partido e da Assembléia. “Le tout Vietnam” lá estava, e eu me sentia só e estranho naquele mar de nativos que me olhavam com prudente curiosidade. Diviso ao longe outro estranho e solitário, o Embaixador da Argentina, que também me vê, e corremos um em direção do outro, em busca de amparo mútuo. “Ola, que tal, que contás”? “Tudo bem contigo? Qu’é qu’cêtá fazendo aqui?” “Lo mismo que vos, pues”. E trocamos nossas impressões sobre aquele vai e vem de gente asiática, comentamos a importância que deve ter o figurão que nos convidou, equilibramos pratos e copos. E eu diviso ao longe, sorrindo e com aparência de muita saúde, o Santo Guerreiro, que acaba de dar um abraço final no figurão e se escorre pela porta de saída. Não dava para largar o prato e o copo nas mãos de meu colega, amigo e co-mercosulino, tentar varar a barreira humana dos convidados e correr atrás do Grande Soldado, que vi afastar-se de braço dado com sua esposa, tranquilo, devagar, escapar-me. Bem, pelo menos ele sim sai de casa, pensei.
    Meses depois fui à casa do Turco, excelente colega, que estava sempre explicando detalhes da história de seu país e da insuspeitada influência da Turquia na cena mundial. Foi ele que me ensinou que o  pirata conhecido como “Barba Roxa” era, na verdade, o “rais” Babrus, almirante turco, terror do Mediterrâneo, que por coincidência sim tinha uma longa barba ruiva. E ele também me ensinou que a carne em conserva chamada “bästramë”, de origem túrquica, havia emigrado para os Estados Unidos com o nome de “pastrami” – e eu que jurava que era italiana! Grande Turco! Mas não tão grande assim que merecesse aquilo que eu estava vendo em cima de uma movel de sua sala: um porta-retrato de dentro do qual me sorriam, formais, sentados juntos, ele e o Santo Guerreiro. Essa não!
Saí furioso, e expressei minha indignação a todo o Governo local, por intermédio de ácida ironia a meu chofer de então.  No dia seguinte, o chofer veio e me disse que ele próprio, que tinha parentes entre os militares – não tivesse ele mesmo sido capitão, e andado nas estrepolias do Camboja – ia ver se poderia agendar um encontro para mim. Dias, semana, duas semanas – e o meu encontro com o Santo Guerreiro?  “Sorry, Ambassador. It is winter, very cold, and he is in Ho Chi Minh City.” Verdade? Desculpa? Como saber? Pelo menos estava realmente frio aquele meu segundo inverno em Hanói, e era possível que o Santo Guerreiro de fato tivesse ido invernar no Sul, onde o clima ora é quente e úmido, ora úmido e quente.
    Deixei correr a dor-de-cotovelo e o tempo, mas todas as vezes que passava diante do casarão de grandes árvores onde vive o Santo Guerreiro, sentia a discreta pontada da frustração.
        Meses e meses – mais de ano! – depois, mencionei por acaso a meu Intérprete Khoa o objetivo ainda não atingido, sempre tão longínquo, de visitar o Santo Guerreiro, e meu língua disse que ia ver o que ele podia fazer a respeito. Expressei meu agradecimento cético e de antemão resignado, e arquivei o assunto. Um mês depois, o Intérprete me veio informar que o Santo Guerreiro estava nas montanhas, mas devia voltar dali a uns quinze dias. Agradeci, arquivei. Mais um mês, e uma tarde chega o Intérprete e me anuncia, rebrilhando de mal-disfarçado orgulho: “El General Vo Nguyen Giap lo recibirá el próximo Jueves.”
        Nunca cheguei a saber exatamente como foi que Khoa havia logrado o feito: estranha mania tem o língua de dar as mais circunloquiais explicações. Algo a ver com a cultura local. A uma pergunta símples, como “por quê não foi assinado o acordo de pesca com a Romênia?”, segue-se uma resposta que frequentemente se inicia com episódio histórico ocorrido na Dinastia Le. Quando perguntei como havia conseguido minha visita ao General, Khoa respondeu com um enigma: “En Vietnam, Embajador, cada cosa tiene su tiempo proprio…” E mais não disse. Aceitei, mas fiquei perguntando-me por quê o tempo do Turco tinha chegado antes do meu, se tínhamos apresentado credenciais no mesmo dia…
    Chegou a quinta-feira. Preparei presentes: um livro sobre o Corpo de Fuzileiros Navais e CDs de música brasileira: Nazareth, sobretudo. O General é uma pessoa fora do comum. Nunca estudou Artes Militares: é professor de História – ou de Geografia? – por formação. E pianista, de corte chopiniano; porisso a escolha de Nazareth, o Chopin  de Pindorama. Receberam-nos, a Khoa e a mim, o General e dois coronéis; um deles, do Departamento de Relações Internacionais do Exército, fluente em espanhol, intérprete para o caso de necessidade; o outro, sabe-se lá de que Departamento, presente ou em função do Embaixador de uma potência estrangeira, ou  em função do próprio General, figura por vezes grande demais e que tem de ser discretamente contido, reconduzido a sua condição de monumento vivo. Frustraram-se – acho – todos os intépretes presentes, pois o General e eu escolhemos o francês para comunicar-nos.  Trocamos amabilidades, falei-lhe sobre Nazareth, mas o soldado nele falou mais alto, e foi pelo livro sobre os Fuzileiros Navais que se interessou mais. Perguntou-me sobre o Brasil, perguntei-lhe sobre o Presidente Ho Chi Minh (“Um homem simples que estava genuinamente à vontade com qualquer pessoa, que sabia como tocar o coração de cada um”).
    Terminada a visita, veio a cerimônia das fotografias – e as que tiraram de mim em conversa com o General são bem mais vívidas que aquela dele com o Turco. Mas a melhor de todas é a do jovem chofer Lai, que durante todo o ritual das fotos, desenrolado no jardim das Grandes Árvores, manteve-se à parte, junto do meu carro, perfilado como se ele também fosse um soldado (pode ser, nunca se sabe…). O General o percebeu, chamou-o, estendeu-lhe a mão, e – clic! – lá está estampada no rosto do jovem Lai a profunda admiração de todo um país por um dos seus maiores heróis, um homem que não perdeu seu rumo.
    Nunca estudou Artes Militares, repito: e foi quem conduziu o Dragão, os milhares e milhões de dragões, que roeram Dien Bien Phu, e que foram roendo, cuspindo fogo, morrendo aos magotes, recuando, avançando, até que o último helicóptero decolou uivando de um terraço de Saigon. E ali estava ele, o Santo Guerreiro, recebendo-me na sala de seu casarão de grandes árvores, livros e mais livros nas estantes, um que outro enfeite de cativante mau-gosto. Um homem fardado, de pequena estatura, muito velho. E que transpirava serenidade, os bons combates que combateu, a marca que deixará.
.   Um santo; e quando se for, será um dos jardineiros do Jardim. Cultivará flores.

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Postagem em destaque

Certas coincidências são muito coincidentes sobre uma postagem de Julio Benchimol

Post de Julio Benchimol Pinto Julio Benchimol Pinto   S͏ t͏ s͏ r͏ d͏ n͏ o͏ o͏ p͏ e͏ c͏ 8͏ g͏ 4͏ 5͏ 7͏ 2͏ 2͏ 7͏ 8͏ 3͏ l͏ h͏ 1͏ h͏ 1͏ 6͏ u͏ 4͏...