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sábado, 15 de agosto de 2026

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

sábado, 7 de outubro de 2023

Hipólito José da Costa, Correio Braziliense, 1808, abertura

Primeiro número e apresentação do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro independente.

Um propósito, um dever, uma missão: a de informar, a de formar, a de esclarecer, a de elevar... 




sábado, 10 de julho de 2021

Os arquivos do Vaticano sobre o pontificado de Pio XII - Le Monde

 Uma boa notícia para os historiadores; a má notícia é que são milhões de documentos, e vai demorar algum tempo até que se consiga extrair alguma grande novidade...


SERGIO AQUINDO

Ce que peut révéler l’ouverture des archives du Vatican sur les silences du pape Pie XII face au nazisme

Par Jérôme Gautheret (Rome, correspondant)
Le Monde, 11/07/2021
ENQUÊTE Les historiens ont accès, depuis le 2 mars 2020, à plus de deux millions de documents relatifs à son pontificat controversé. Mais au-delà de l’attitude du souverain pontife pendant la seconde guerre mondiale, ces archives livrent des indices sur les ambiguïtés de l’Eglise vis-à-vis des juifs. 
Lecture 18 min.
SERGIO AQUINDO

Ce matin du 2 mars 2020, Rome a la tête ailleurs. Au cœur des plaines du nord de l’Italie, l’épidémie de Covid-19, apparue au grand jour dix jours plus tôt, a déjà échappé à tout contrôle, semant dans le pays une terreur que l’Europe entière observe avec une stupeur incrédule.

Malgré ce contexte dramatique, les abords du Vatican, désertés en un clin d’œil par les touristes, sont en proie à une effervescence d’une tout autre nature. La cause en est un événement d’une portée considérable dans le petit monde des chercheurs en histoire contemporaine : l’ouverture au public des archives relatives au pontificat de Pie XII.

Désigné comme pape le 2 mars 1939, au terme du conclave le plus court de l’histoire, Eugenio Pacelli a traversé en près de vingt ans (il meurt le 9 octobre 1958) la seconde guerre mondiale, puis les débuts de la guerre froide, la création de l’Etat d’Israël et le mouvement planétaire de la décolonisation. Son pontificat correspond à une période charnière du XXe siècle, et l’ampleur des fonds mis à la disposition des historiens est proprement vertigineuse : au total, plus de deux millions de documents, préparés par un long travail d’inventaire et de classification, commencé en 2006.

(...)

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