O texto abaixo, reproduzido parcialmente (seguido de link para o texto completo), foi elaborado pelo Embaixador Amaury banhos Porto de Oliveira, um dos melhores especialistas brasileiros (se não o melhor) em temas da Ásia-Pacífico, bem como econômicos e tecnológicos.
O NECESSÁRIO E IMPRETERÍVEL ENTENDIMENTO EUA-CHINA
Amaury Porto de Oliveira
Em fins de janeiro, tive minha última reunião de trabalho com Gilberto Dupas. Ele me chamou ao IEEI, em São Paulo, para encontrar Clodoaldo Hugueney, recém-instalado na chefia da Embaixada do Brasil na China, e interessado em apoios acadêmicos para projetos de cooperação sino-brasileira. Hugueney mostrava-se impressionado com a amplitude e riqueza das análises da vida internacional, em curso na China, e com a seriedade e profissionalismo dos seus governantes, dando azo a que eu avançasse minha convicção de que a substância do jogo internacional, nas próximas duas ou três décadas, vai consistir num improrrogável entendimento entre americanos e chineses, em busca de novas definições para a ordem mundial. Dupas concordava com que uma dessas definições implicava em mudanças profundas na matriz energética da economia global.
Meu ponto de partida, nesta reflexão, é que o mundo está assistindo ao fim de quase três séculos de liderança anglo-americana, premido a encontrar novas soluções de valor paradigmático para as exigências sócio-econômicas do planeta. E o que distingue uma era, nesse nível, é antes de mais nada sua matriz energética. O governo Bush retardou perigosamente a aceitação, pelos EUA, da dura realidade de que a Terra está ameaçada no seu saudável funcionamento, em conseqüência das opções energéticas feitas na Idade Industrial. Pelos ingleses, inicialmente, com a queima do carvão fóssil para transporte e manufaturas e, mais tarde, a produção de eletricidade. Pelos americanos, no século XX, com o uso avassalante dos hidrocarbonetos na Sociedade do Motor. Na era que raia, a China vai-se tornando em termos absolutos (mercê da sua enorme população), um foco de poluição global ainda maior que Inglaterra ou EUA, embora em termos per capita os EUA sigam de longe imbatíveis. Mas o fato é que a China não tem escolha. Ou se resigna ao atraso ou adota os modelos dos anglo-americanos. Eles conceberam um sistema na medida das ambições de bem-estar deles próprios, sem deixar espaço para possíveis ambições do resto. A China tomou hoje a liderança desse resto, e não haverá saída efetiva para a crise que se abateu sobre o mundo, enquanto os EUA não abrirem espaço para a China e os emergentes.
(...)
para ver o texto completo, clique este link.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sábado, 9 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
1092) Falacias Academicas: a serie completa (até aqui)
Falácias acadêmicas: a série
(ensaios publicados e sugestões futuras)
Paulo Roberto de Almeida
Lista dos ensaios já elaborados e publicados:
1) Falácias acadêmicas, 1: o mito do neoliberalismo, Brasília, 26 julho 2008, 9 p. Considerações em torno de equívocos conceituais, históricos e empíricos de acadêmico selecionado para avaliação crítica. Espaço Acadêmico (n. 87, agosto 2008; arquivo em pdf); 1912.
2) Falácias acadêmicas, 2: o mito do Consenso de Washington, Brasília, 3 setembro 2008, 16 p. Considerações em torno dos equívocos conceituais, históricos e empíricos de setores acadêmicos com respeito ao CW. Espaço Acadêmico (n. 88, setembro 2008; arquivo em pdf); 1922.
3) Falácias acadêmicas, 3: o mito do marco teórico, Buenos Aires-Brasília, 30 setembro 2008, 6 p. Da série programada, com algumas criticas a filósofos famosos. Espaço Acadêmico (n. 89, outubro 2008; arquivo em pdf); 1931.
4) Falácias acadêmicas, 4: o mito do Estado corretor dos desequilíbrios de Mercado, Brasília, 15 novembro 2008, 12 p. Da série programada, com críticas a economistas keynesianos. Espaço Acadêmico (n. 91, dezembro 2008; arquivo em pdf); 1952.
5) Falácias acadêmicas, 5: o mito do complô dos países ricos contra o desenvolvimento dos países pobres, Brasília, 21 janeiro 2009, 11 p. Continuação da série, tratando desta vez das teses do economista Ha-Joon Chang. Espaço Acadêmico (n. 93, fevereiro 2009; arquivo em pdf); 1976
6) Falácias acadêmicas, 6: o mito da Revolução Cubana, Brasília, 1 de março de 2009, 17 p. Continuidade do exercício, tocando nos problemas do socialismo em Cuba. Espaço Acadêmico (n. 94, março 2009). 1986.
7) Falácias acadêmicas, 7: os mitos em torno do movimento militar de 1964, Brasília-Rio de Janeiro, 20 março 2009, 23 p. Continuidade do exercício, tocando no maniqueísmo construído em torno do golpe ou da revolução de 1964, condenando a historiografia simplista que converteu-se em referência nos manuais didáticos e paradidáticos. Espaço Acadêmico (n. 95, abril 2009; arquivo em pdf). 1990.
8) Falácias acadêmicas, 8: os mitos da utopia marxista, Brasília, 3 maio 2009, 15 p. Continuidade da série proposta, enfocando os principais equívocos do pensamento marxista nos campos do materialismo histórico e da análise econômica. Espaço Acadêmico (n. 96, maio 2009; arquivo em pdf). 2002.
9) (ainda não decidido; aceito sugestões...)
Proposta parcial de temas para ensaios a serem elaborados gradualmente:
(sem nenhuma ordem específica programada)
O mito da especulação
O mito da exploração
O mito da deterioração dos termos do intercâmbio
O mito do desenvolvimentismo
O mito da mão invisível do mercado
O mito da mão visível do Estado
O mito da volatilidade financeira
O mito da concentração capitalista
O mito das crises terminais do capitalismo
O mito da reforma agrária
O mito do distributivismo
O mito do igualitarismo
O mito da justiça social
O mito do freudismo
O mito da objetividade acadêmica
Uma teoria das falácias acadêmicas
(sugestões são sempre bem-vindas...)
Primeira elaboração desta lista de sugestões:
Buenos Aires, 30.09.2008
(ensaios publicados e sugestões futuras)
Paulo Roberto de Almeida
Lista dos ensaios já elaborados e publicados:
1) Falácias acadêmicas, 1: o mito do neoliberalismo, Brasília, 26 julho 2008, 9 p. Considerações em torno de equívocos conceituais, históricos e empíricos de acadêmico selecionado para avaliação crítica. Espaço Acadêmico (n. 87, agosto 2008; arquivo em pdf); 1912.
2) Falácias acadêmicas, 2: o mito do Consenso de Washington, Brasília, 3 setembro 2008, 16 p. Considerações em torno dos equívocos conceituais, históricos e empíricos de setores acadêmicos com respeito ao CW. Espaço Acadêmico (n. 88, setembro 2008; arquivo em pdf); 1922.
3) Falácias acadêmicas, 3: o mito do marco teórico, Buenos Aires-Brasília, 30 setembro 2008, 6 p. Da série programada, com algumas criticas a filósofos famosos. Espaço Acadêmico (n. 89, outubro 2008; arquivo em pdf); 1931.
4) Falácias acadêmicas, 4: o mito do Estado corretor dos desequilíbrios de Mercado, Brasília, 15 novembro 2008, 12 p. Da série programada, com críticas a economistas keynesianos. Espaço Acadêmico (n. 91, dezembro 2008; arquivo em pdf); 1952.
5) Falácias acadêmicas, 5: o mito do complô dos países ricos contra o desenvolvimento dos países pobres, Brasília, 21 janeiro 2009, 11 p. Continuação da série, tratando desta vez das teses do economista Ha-Joon Chang. Espaço Acadêmico (n. 93, fevereiro 2009; arquivo em pdf); 1976
6) Falácias acadêmicas, 6: o mito da Revolução Cubana, Brasília, 1 de março de 2009, 17 p. Continuidade do exercício, tocando nos problemas do socialismo em Cuba. Espaço Acadêmico (n. 94, março 2009). 1986.
7) Falácias acadêmicas, 7: os mitos em torno do movimento militar de 1964, Brasília-Rio de Janeiro, 20 março 2009, 23 p. Continuidade do exercício, tocando no maniqueísmo construído em torno do golpe ou da revolução de 1964, condenando a historiografia simplista que converteu-se em referência nos manuais didáticos e paradidáticos. Espaço Acadêmico (n. 95, abril 2009; arquivo em pdf). 1990.
8) Falácias acadêmicas, 8: os mitos da utopia marxista, Brasília, 3 maio 2009, 15 p. Continuidade da série proposta, enfocando os principais equívocos do pensamento marxista nos campos do materialismo histórico e da análise econômica. Espaço Acadêmico (n. 96, maio 2009; arquivo em pdf). 2002.
9) (ainda não decidido; aceito sugestões...)
Proposta parcial de temas para ensaios a serem elaborados gradualmente:
(sem nenhuma ordem específica programada)
O mito da especulação
O mito da exploração
O mito da deterioração dos termos do intercâmbio
O mito do desenvolvimentismo
O mito da mão invisível do mercado
O mito da mão visível do Estado
O mito da volatilidade financeira
O mito da concentração capitalista
O mito das crises terminais do capitalismo
O mito da reforma agrária
O mito do distributivismo
O mito do igualitarismo
O mito da justiça social
O mito do freudismo
O mito da objetividade acadêmica
Uma teoria das falácias acadêmicas
(sugestões são sempre bem-vindas...)
Primeira elaboração desta lista de sugestões:
Buenos Aires, 30.09.2008
1091) E agora um pouco de diversao: do, re, mi...
Talvez preparada (certamente ensaiada), mas espontaneo em sua simplicidade, um video que vai surpreender, e agradar, gregos e goianos, ou melhor, belgas flamengos e valões, se este foi o caso:
Estação Central de Trens de Antuérpia, na Bélgica, em 23 de março de 2009:
http://www.youtube.com/watch?v=0UE3CNu_rtY
Divirtam-se...
Estação Central de Trens de Antuérpia, na Bélgica, em 23 de março de 2009:
http://www.youtube.com/watch?v=0UE3CNu_rtY
Divirtam-se...
sábado, 2 de maio de 2009
1090) Turismo (pouco) acadêmico (25 e final): uma pequena contabilidade de viagem
Sem tempo, agora, de fazer uma descrição completa da viagem, o que prometo fazer assim que possível, registro apenas alguns dados.
Aluguei um carro médio, muito confortável, seguro e rápido (ainda que americano), com a milhagem registrada em 11.504.
Acabo de devolver na locadora (sorry, não faço propaganda, mas foi muito barato) com o marcador em 18.120.
Foram, portanto, 6.616 milhas, precisamente, ou 10,647 kms de estradas e cidades.
Foram 18 dias em que fiquei quase 'parado', em cidades, como Urbana, lendo, ou como Chicago e New York, visitando, com um total de 372 milhas (ou, cerca de 20,6 por dia).
Nas estradas, foram 19 dias de viagens, num total de 6.273 mi, o que daria uma média de 330 milhas por dia, o que me parece razoável para o meu ritmo viajeiro.
Depois faço um relato pormenorizado.
Aluguei um carro médio, muito confortável, seguro e rápido (ainda que americano), com a milhagem registrada em 11.504.
Acabo de devolver na locadora (sorry, não faço propaganda, mas foi muito barato) com o marcador em 18.120.
Foram, portanto, 6.616 milhas, precisamente, ou 10,647 kms de estradas e cidades.
Foram 18 dias em que fiquei quase 'parado', em cidades, como Urbana, lendo, ou como Chicago e New York, visitando, com um total de 372 milhas (ou, cerca de 20,6 por dia).
Nas estradas, foram 19 dias de viagens, num total de 6.273 mi, o que daria uma média de 330 milhas por dia, o que me parece razoável para o meu ritmo viajeiro.
Depois faço um relato pormenorizado.
1089) Turismo (quase) acadêmico (24): ultimas visitas culturais
Last visits in a big trip
De Nova York até Miami, nossa última grande etapa de viagem, seriam, segundo o Google directions, 1.286 milhas, em 19 horas e 59 minutos, segundo uma precisão surpreendente: nem um minuto mais (para arredondar para 20hs), nem um a menos, se por acaso o motorista for do tipo rápido, como eu (por isso mesmo tomei uma multa de velocidade logo no primeiro dia de Flórida, depois me comportei).
Na verdade, eu vim no meu ritmo particular, por vezes acelerando, por vezes parando num Starbucks para refazer a disposição...
Na verdade, no primeiro dia, depois de viajar por 12hs, fiz 716 milhas até Santee, na Carolina do Sul. Na manha seguinte, entramos em Savannah, a primeira cidade costeira da Georgia (aliás são poucas, pois espremaram a Georgia entre a CS e a Flórida, e lhe deixaram uma nesga de Atlântico. Savannah, como várias outras cidades do Sul escravista, tem uma arquitetura senhorial muito interessante, feita de casas de dois andares, com sacadas, um passado de supostas glórias na conquista da terra (contra os índios) e uma quase indiferença em relação aos escravos. Diferente de uma ou duas décadas atrás, o número de negros bem vestidos, com carros elegantes -- sem qualquer laivo de preconceito, aqui -- é bastante impressionante, pois denota um progresso real no que se acreditava ser ainda uma das características da paisagem social americana.
Fiz umas fotos do fundador da cidade, em estilo conquistador no seu pedestal marcado por uma longa declaração típica do passado colonial e século 19 (guerra contra os selvagens...).
Depois foram mais 616 milhas até o hotel de Miami, onde pernoitamos.
Nesta sexta-feira, 1ro. de maio, que não é feriado nos EUA (como todos sabem), escapamos mais uma vez para o que seria o último passei: as Keys, no prolongamento da Flórida, entrando no Atlântico em direção de Cuba: foram mais 340 milhas, ida e volta, mas que valeram a pena.
Em Key West, onde a estrada número 1 acaba, por falta de mais terras (mas alguns pedaços são pontes no mar), visitamos a casa de Ernest Hemingway, que eu já conhecia, mas muito rapidamente, de um passeio precedente.
Ele viveu aqui nos anos 1930, mais exatamente de 1931 a 1939, com uma escapada no meio para acompanhar brevemente a guerra da Espanha.
Na sua casa de Key West, uma bela construção de um armador de navios de meados do século 19, Hemingway escreveu alguns de seus melhores romances, e dezenas de contos, convivendo com uma (ou duas) mulher(es) e muitos gatos.
Nosso guia, Stan (de Ohio), que talvez propositadamente manteve um look à la Hemingway (barba enbranquecida e chapéu), explicou que todos os 64 gatos que vivem tranquilamente na residência atualmente, estão devidamente identificados no site da casa na internet.
Ainda não tive tempo de conferir, mas os curiosos e os 'gatófilos' podem entrar no site para verificar: www.hemingwayhome.com.
Em todo caso, acreditei no nosso guia, que me parecia decididamente heminguiano: tinha até uma cartelinha de 'mojito' saindo do bolso da camisa, no que imaginei que fosse uma receita para se embebedar, como o personagem fazia, quando não estava escrevendo. Para conservar a atmosfera, acabei lhe pagando mais dois mojitos, quando ele estivesse precisando, claro.
Também revisitei o "Southernmost point of the United States", uma elevação de concreto, em forma de sino, marcando o ponto mais meridional dos EUA, a apenas 90 milhas de Cuba (o que deve interessar mais os cubanos candidatos a náufragos, do que propriamente os americanos). Ali por perto, os marketólogos aproveitam para anunciar "the Southernmost house of the USA", para fazer festas e casamentos, "the Southernmost hotel of the USA", para os fanáticos por geografia, e outras coisas mais. Como sempre, as lembranças são "made in China", mas tirei fotos e comprei um postal desse ponto apenas emblemático por causa da Guerra Fria: depois do fracasso da invasão da Baía dos Porcos pelos mercenários da CIA, em 1961, John Kennedy promoveu uma reunião com aliados da OTAN em Key West não apenas para acabar com a histeria de um confronto bipolar na região, como para demonstrar a solidariedade atlântica no momento mais tenso daquela era.
Em Key West também há um pequeno museu Truman (de quem ouvi a biografia em audio por David McCullough, na viagem), que costumava vir passar férias na base da Marinha (que agora leva o seu nome), mas não pudemos visitar o museu, porque tudo aqui fecha as 5hs da tarde (como se sabe, os americanos jantam as 6hs, e depois dormem com as galinhas, no horário das galinhas, quero dizer...).
A volta foi tranquila, sem mais necessidade de ficar parando para tirar fotos das paisagens marinhas e das pontes, que são realmente espetaculares (acho que muitos já viram um filme cujo nome agora me escapa, que se passa nessas autoestradas das Keys, com cenas hollywoodianas de perseguição em caros, helicópteros, foguetes e tudo o mais a que temos direito nesses crash-punk-bang da indústria cinematográfica americana).
Bem, agora vamos só terminar de arrumar as malas e verificar se o voo (sem acento agora) ainda existe... O avião vai ficar um bocado mais pesado com os os livros, sobretudo da Carmen Lícia: só espero que não me cobrem excesso, do contrário vai ultrapassar o alugue do carro, que foi até barato para tudo o que fizemos...
Bye bye Miami... (só amanha cedo).
De Nova York até Miami, nossa última grande etapa de viagem, seriam, segundo o Google directions, 1.286 milhas, em 19 horas e 59 minutos, segundo uma precisão surpreendente: nem um minuto mais (para arredondar para 20hs), nem um a menos, se por acaso o motorista for do tipo rápido, como eu (por isso mesmo tomei uma multa de velocidade logo no primeiro dia de Flórida, depois me comportei).
Na verdade, eu vim no meu ritmo particular, por vezes acelerando, por vezes parando num Starbucks para refazer a disposição...
Na verdade, no primeiro dia, depois de viajar por 12hs, fiz 716 milhas até Santee, na Carolina do Sul. Na manha seguinte, entramos em Savannah, a primeira cidade costeira da Georgia (aliás são poucas, pois espremaram a Georgia entre a CS e a Flórida, e lhe deixaram uma nesga de Atlântico. Savannah, como várias outras cidades do Sul escravista, tem uma arquitetura senhorial muito interessante, feita de casas de dois andares, com sacadas, um passado de supostas glórias na conquista da terra (contra os índios) e uma quase indiferença em relação aos escravos. Diferente de uma ou duas décadas atrás, o número de negros bem vestidos, com carros elegantes -- sem qualquer laivo de preconceito, aqui -- é bastante impressionante, pois denota um progresso real no que se acreditava ser ainda uma das características da paisagem social americana.
Fiz umas fotos do fundador da cidade, em estilo conquistador no seu pedestal marcado por uma longa declaração típica do passado colonial e século 19 (guerra contra os selvagens...).
Depois foram mais 616 milhas até o hotel de Miami, onde pernoitamos.
Nesta sexta-feira, 1ro. de maio, que não é feriado nos EUA (como todos sabem), escapamos mais uma vez para o que seria o último passei: as Keys, no prolongamento da Flórida, entrando no Atlântico em direção de Cuba: foram mais 340 milhas, ida e volta, mas que valeram a pena.
Em Key West, onde a estrada número 1 acaba, por falta de mais terras (mas alguns pedaços são pontes no mar), visitamos a casa de Ernest Hemingway, que eu já conhecia, mas muito rapidamente, de um passeio precedente.
Ele viveu aqui nos anos 1930, mais exatamente de 1931 a 1939, com uma escapada no meio para acompanhar brevemente a guerra da Espanha.
Na sua casa de Key West, uma bela construção de um armador de navios de meados do século 19, Hemingway escreveu alguns de seus melhores romances, e dezenas de contos, convivendo com uma (ou duas) mulher(es) e muitos gatos.
Nosso guia, Stan (de Ohio), que talvez propositadamente manteve um look à la Hemingway (barba enbranquecida e chapéu), explicou que todos os 64 gatos que vivem tranquilamente na residência atualmente, estão devidamente identificados no site da casa na internet.
Ainda não tive tempo de conferir, mas os curiosos e os 'gatófilos' podem entrar no site para verificar: www.hemingwayhome.com.
Em todo caso, acreditei no nosso guia, que me parecia decididamente heminguiano: tinha até uma cartelinha de 'mojito' saindo do bolso da camisa, no que imaginei que fosse uma receita para se embebedar, como o personagem fazia, quando não estava escrevendo. Para conservar a atmosfera, acabei lhe pagando mais dois mojitos, quando ele estivesse precisando, claro.
Também revisitei o "Southernmost point of the United States", uma elevação de concreto, em forma de sino, marcando o ponto mais meridional dos EUA, a apenas 90 milhas de Cuba (o que deve interessar mais os cubanos candidatos a náufragos, do que propriamente os americanos). Ali por perto, os marketólogos aproveitam para anunciar "the Southernmost house of the USA", para fazer festas e casamentos, "the Southernmost hotel of the USA", para os fanáticos por geografia, e outras coisas mais. Como sempre, as lembranças são "made in China", mas tirei fotos e comprei um postal desse ponto apenas emblemático por causa da Guerra Fria: depois do fracasso da invasão da Baía dos Porcos pelos mercenários da CIA, em 1961, John Kennedy promoveu uma reunião com aliados da OTAN em Key West não apenas para acabar com a histeria de um confronto bipolar na região, como para demonstrar a solidariedade atlântica no momento mais tenso daquela era.
Em Key West também há um pequeno museu Truman (de quem ouvi a biografia em audio por David McCullough, na viagem), que costumava vir passar férias na base da Marinha (que agora leva o seu nome), mas não pudemos visitar o museu, porque tudo aqui fecha as 5hs da tarde (como se sabe, os americanos jantam as 6hs, e depois dormem com as galinhas, no horário das galinhas, quero dizer...).
A volta foi tranquila, sem mais necessidade de ficar parando para tirar fotos das paisagens marinhas e das pontes, que são realmente espetaculares (acho que muitos já viram um filme cujo nome agora me escapa, que se passa nessas autoestradas das Keys, com cenas hollywoodianas de perseguição em caros, helicópteros, foguetes e tudo o mais a que temos direito nesses crash-punk-bang da indústria cinematográfica americana).
Bem, agora vamos só terminar de arrumar as malas e verificar se o voo (sem acento agora) ainda existe... O avião vai ficar um bocado mais pesado com os os livros, sobretudo da Carmen Lícia: só espero que não me cobrem excesso, do contrário vai ultrapassar o alugue do carro, que foi até barato para tudo o que fizemos...
Bye bye Miami... (só amanha cedo).
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