quinta-feira, 4 de junho de 2026

Momentos finais da guerra de Putin - Fernando Figueiredo

Muitos ainda se recusam a ver a armadilha que a Rússia construiu para si própria, mas o colapso já tem números. Vejamos, o declínio russo passou o ponto de ambiguidade. Já não estamos no domínio da especulação geopolítica ou da propaganda de qualquer dos lados: as perdas são mensuráveis, a trajectória económica é visível, e as opções estratégicas de Moscovo estreitaram-se ao ponto de quase não existirem.

A inversão de poder que ocorreu nesta guerra cabe numa frase: o país que o exército russo quase esmagou, contra o qual chegou a disparar 60.000 projécteis de 122mm por dia contra uma força desesperadamente exausta, mas absolutamente determinada, envia agora os seus drones por toda a Rússia para destruir as suas infraestruturas militares e industriais. Quem acompanhou os primeiros dias da invasão em Fevereiro de 2022 conhece o peso desta inversão.

As baixas russas rondam actualmente 8.500 homens por semana. As perdas de equipamento são descritas como vertiginosas. E os drones ucranianos tornaram-se tão omnipresentes que os soldados russos relatam ter medo de se mover. Não é uma guerra estagnada, é uma guerra em que um dos lados está sistematicamente a ser consumido.

Os mísseis russos lançados sobre civis ucranianos custaram, num único ataque recente, mais de 250 milhões de dólares. O retorno estratégico foi nulo. Isto não é uma ferramenta para ganhar guerras, é o sinal de que não há mais nenhuma disponível. Quando se gasta um quarto de milhar de dólares para aterrorizar populações sem alterar um único metro de linha de frente, o que se está a demonstrar não é força. É ausência de alternativas. A logística russa está debaixo de fogo, não tarda poderá estar na circunstância de ser obrigada a transportar equipamento militar e combustível através da Ponte de Kerch e tudo isso são sinais de ausência de iniciativa. 

Do lado económico, o quadro é igualmente revelador. O défice russo estava orçamentado em 48 mil milhões de dólares para o ano. Em finais de Abril já havia ultrapassado os 80 mil milhões. A trajectória projectada aponta para despesa total próxima dos 240 mil milhões no final do ano, com o complexo militar-industrial a exigir mais recursos enquanto economistas internos avisam que já é tarde demais para travar.

A lógica interna desta espiral é implacável: cortar a despesa significa fechar fábricas, desemprego em massa e colapso económico acelerado. Manter a despesa conduz ao mesmo destino, apenas mais devagar. A Rússia construiu a jaula e depois entrou voluntariamente.

No contexto da força aérea, o acordo entre a Suécia e a Ucrânia para o fornecimento de vinte Gripens de última geração, adquiridos através do mecanismo de empréstimo da União Europeia, mais dezasseis modelos anteriores oferecidos directamente com upgrades, armamento e suporte integral de frota incluídos, somados aos F-16 e aos Mirage-2000 já em operação, faz com que os meios aéreos ucranianos estejam a tornar-se, silenciosamente, mais capazes a cada dia que passa. Este é outro indicador da inversão em curso.

No Fórum Económico de São Petersburgo, os ataques ucranianos a terminais de exportação de petróleo produziram fumo negro sobre céus limpos, visível para cada delegado presente, incluindo o enviado de Trump. A imagem vale mais do que qualquer análise. Igualmente elucidativa foi a ausência de Elvira Nabiullina, governadora do banco central russo, do programa de oradores. Nabiullina tem sido, neste fórum, uma das poucas vozes russas a falar com honestidade sobre os números da economia. A sua remoção da agenda significa uma coisa simples: o Kremlin não quer essa honestidade tornada pública. E cada delegado não alinhado com Moscovo entendeu a mensagem sem necessidade de tradução.

O fio condutor de toda esta evolução é a consistência ucraniana. A estratégia de Kiyv manteve-se deliberada, paciente e orientada para objectivos de longo prazo, enquanto as opções russas se foram contraindo mês após mês. Não houve momento dramático de viragem, houve acumulação metódica de vantagem.

Há um ponto em que "continuar a fazer o mesmo" deixa de ser uma posição de espera e passa a ser, em si mesma, o movimento vencedor. A Ucrânia pode já ter chegado a esse ponto. A Rússia, por seu lado, está encurralada numa armadilha que foi ela própria a construir, tijolo a tijolo, desde Fevereiro de 2022. A paz é a melhor solução que tem pela frente. 

O que resta saber é quando é que todos a reconhecerão em simultâneo. Nessas alturas, as coisas tendem a mover-se depressa e ontem já era tarde.

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