Lula irrita-se com Bolívia e diz que "paciência tem limite"
Fabio Graner e Cida Fontes
Agencia Estado, 14 de setembro de 2006 - 22:51
Lula estava "contrariado" com a atitude de Morales, segundo descreveram interlocutores. Estava ainda mais irritado com as cobranças por uma reação mais enérgica. "Que querem que eu faça? Que invada a Bolívia?", desabafou
BRASÍLIA - Quase 24 horas depois de ter sido surpreendido por uma decisão do presidente da Bolívia, Evo Morales - desta vez confiscando as instalações e o fluxo de caixa das refinarias da Petrobrás boliviana - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu sinais de sua irritação com o assunto. Ao chegar à residência do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, para um jantar com empresários, disse que o Brasil não pode "aceitar decisões unilaterais". "A paciência é importante nas negociações internacionais, mas tem limites."
Morales já havia pego o governo brasileiro desprevenido em maio, quando nacionalizou as reservas de gás de seu país e colocou tropas do exército na porta das refinarias. Agora, ao tomar as refinarias, Evo rompeu uma espécie de acordo pré-eleitoral que havia feito com Lula.
Lula estava "contrariado" com a atitude de Morales, segundo descreveram interlocutores. Estava ainda mais irritado com as cobranças por uma reação mais enérgica. "Que querem que eu faça? Que invada a Bolívia?", desabafou. O Brasil foi brando em suas reações contra a Bolívia em maio, quando Morales tentava eleger um congresso constituinte que o apoiasse. A recíproca não foi verdadeira.
O presidente disse também estar tranqüilo em relação ao abastecimento de gás ao Brasil. "Os consumidores brasileiro de gás não têm que ter nenhum minuto de intranqüilidade porque as coisas estão controladas."
Medida "congelada"
A 17 dias das eleições, o governo correu para evitar que o mais recente ataque boliviano se reflita nas urnas. Antes de ir para o jantar com empresários, depois de gestões feitas durante todo o dia por assessores com o vice-presidente da Bolívia, Álvaro Garcia Linera (Morales estava em Cuba), Lula ganhou uma trégua e pôde anunciar, em entrevista ao Jornal da Band que a decisão boliviana estava "congelada".
Ou seja, o confisco das instalações e o fluxo de caixa das refinarias da Petrobrás boliviana deixará de ser aplicado de imediato e será discutido, depois das eleições, no âmbito das negociações que os dois países mantém em torno do fornecimento de gás natural ao Brasil. O ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, propôs ao seu colega boliviano, Andrés Solíz Rada, uma reunião no dia 9 para retomar as conversas.
Nesta entrevista à TV, Lula já dava sinais de irritação. Ele disse que independente das boas relações que mantém com aquele país e seu presidente Evo Morales, "se a Bolívia teimar em tomar atitudes unilaterais o Brasil vai ter que pensar em como fazer uma coisa mais dura."
No final da noite, o vice-presidente da Bolívia, Alvaro García Linera, confirmou que o governo boliviano decidiu de fato congelar a decisão.
Mesmo irritado, Lula mantém postura de colaboração
Apesar de mostrar desconforto com a atitude do governo de Morales, Lula insistiu na atitude conciliatória que sempre adotou em relação ao vizinho. Segundo ele, é necessário que o governo faça um esforço para garantir a tranqüilidade não só na Bolívia como também em outros países vizinhos, como Uruguai e Paraguai. "São países que o Brasil tem que ajudar na economia a para que eles possam se desenvolver", disse.
Lula disse ainda que pretende fortalecer a relação Brasil-Bolívia. "O Brasil tem que ajudar. Temos projetos importantes para dinamizar a economia da Bolívia junto com o Brasil. Temos um pólo gás químico para construir na divisa, temos rodovias ligando pontos importantes do território boliviano."
Informou também que ainda não conversou com Morales, porque ele estava em vôo da Guatemala para Cochabamba. Mas declarou que vai fazer todo o esforço para que Evo Morales tenha sucesso no governo. "Quero contribuir para que isto aconteça, mas para que haja a contribuição brasileira é preciso a contribuição boliviana."
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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