Transcrevo, entre aspas, o que acabo de ler, neste 3 de janeiro de 2009:
"EXPRESAN SU ADHESIÓN AL PUEBLO DE CUBA INTELECTUALES ARGENTINOS
Ante la situación política de Cuba, un grupo de intelectuales argentinos dio a conocer una declaración, en la que expresa su apoyo moral al pueblo de ese país en su lucha para restabelecer el imperio de la libertad y la justícia en la tierra de Martí. La declaración dice así:
Los escritores y artistas argentinos que subscriben, en estos momentos en que, luego de superado un período de dictadura, el país se apresta a recuperar su plena normalidad institucional, dentro del orden democrático basado en ele respeto de los derechos fundamentales de la persona humana, expresan su solidaridad con quienes, en otros pueblos de América, luchan por la liberación de sus respectivos países, sometidos a regímenes de fuerza. Desean manifestar especialmente su apoyo moral al pueblo cubano, que, tremendamente agraviado y despojado de las garantias elementales de la civilización política, sufre persecución, vejamen y tortura, y lucha con admirable decisión y valentia para abatir la dictadura y restablecer, en la tierra de Martí, el imperio de la libertad y la justicia, cimentados en la soberania del pueblo y la vigencia del derecho."
Firmam o documento dezenas de nomes de intelectuais conhecidos na história artística e literária argentina, entre eles Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges...
Sim, retomo eu agora, ambos escritores, como se sabe, já não estão mais entre nós desde algum tempo, o que me permite fazer dois esclarecimentos:
1) O texto, na verdade, não é atual, tendo sido publicado no diário El Mundo, de Buenos Aires, em 2 de março de 1958.
2) O trecho no qual os intelectuais argentinos fazem menção a uma "ditadura superada", se refere, mais exatamente, ao primeiro período peronista, que durou, como se sabe, de 1945 a 1955. Eles se orgulhavam, assim, de ter deixado para trás um triste período de sua história e se dispunham a ajudar outros povos da América Latina que também lutavam contra a ditadura em seus respectivos países, antecipando um pouco o que seria a chamada "doutrina Betancourt", formulada depois de superada a ditadura na Venezuela nesse mesmo ano de 1958 (e que levou inclusive o governo venezuelano a suspender relações diplomáticas com o Brasil, quando instalada entre nós a ditadura militar de 1964).
Se me permito fazer um comentário atual, na verdade uma triste constatação, seria esta:
Não creio que, atualmente, intelectuais brasileiros ou argentinos, ou de qualquer outro país latino-americano, se dispusessem a assinar um manifesto do mesmo teor -- poderia ser inclusive EXATAMENTE O MESMO TEXTO, retirada, eventualmente, a menção inicial à ditadura superada na Argentina - em favor do povo cubano, em luta pelo restabelecimento da democracia e do império da liberdade, da justiça e do direito naquela ilha, desde cinquenta anos dominada por um regime que prometeu acabar com uma ditadura opressiva.
Pode ser patético fazer tal tipo de constatação "regressiva", mas ela nos revela quanto recuamos na defesa da democracia e da liberdade em nossos países. Em nome de não se sabe qual soberania popular e de não se sabe qual ameaça de dominação imperialista, intelectuais de nossos países se dispõem, de forma totalmente servil e incompreensível, a assinar manifestos em favor da CONTINUIDADE DA DITADURA E DA OPRESSÃO.
Triste constatação sem dúvida...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 3 de janeiro de 2009
PS.: Retirei o texto acima do seguinte livro, que estou lendo: Jorge Luis Borges, Textos Recobrados (1956-1986). Buenos Aires, Emecé Editores, 2007, p. 323-324.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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