Era uma vez um mundo em que a inflação era controlada através do câmbio fixo. Este é o mundo que emergiu de Breton Woods, a conferência que determinou a arquitetura financeira global pós 2a Guerra Mundial.
A experiência da hiperinflação na Alemanha, no início dos anos 20, foi traumática, e compôs o quadro que permitiu a ascenção do nazismo naquele país. As potências vencedoras da guerra queriam uma arquitetura financeira que dificultasse o surgimento de outro processo como aquele. A solução encontrada foi atrelar todas as moedas ao dólar, em paridades fixas, enquanto o governo americano garantiria a continuidade do câmbio fixo dólar/ouro. A âncora cambial serviria como uma limitação da expansão monetária nas principais economias do mundo, mantendo a inflação sob controle.
O problema, claro, é que as economias crescem de maneiras diferentes entre si, e os governos têm comportamentos fiscais também diferentes entre si. Assim, aquela paridade inicial foi ficando insustentável ao longo do tempo e, na segunda metade da década de 60, vários países europeus começaram a desvalorizar as suas moedas em relação ao dólar. Por fim, foi a vez dos EUA fazerem o mesmo, e o presidente Richard Nixon, em agosto de 1971, chutou o pau da barraca, e desvinculou o dólar do ouro. Essa decisão, na prática, inaugurou o sistema de câmbio flutuante.
Sem ter o câmbio como âncora, restaram as políticas monetária e fiscal para controlarem a inflação. Ou seja, taxas de juros altas e contração fiscal, o que provocava desaceleração da atividade econômica, uma consequência pouco desejada pelos governantes. Depois de um início turbulento, com direito a dois choques de preços do petróleo, o Banco Central americano, sob a batuta de Paul Volcker, deu o primeiro choque de juros de que se tem notícia no final da década de 70, elevando a taxa básica de juros para inacreditáveis 20%! E estamos reclamando com 15% aqui... A inflação recuou nos anos seguintes, demonstrando a eficácia das taxas de juros como regulador da demanda por moeda.
Mas foi no início dos anos 90 que se formalizou o sistema de metas de inflação, em que um BC independente persegue uma meta, usando a taxa básica de juros como instrumento. Nova Zelândia, Canadá e Reino Unido foram os primeiros países a implementar a sistemática, que nada mais era do que o que já vinham praticando, mas agora de maneira formal. Temos quase 40 anos de um sistema que permitiu o controle da inflação com baixa volatilidade da atividade econômica.
Notem que, até aqui, abordamos apenas dois métodos para o controle da inflação: a âncora cambial e a taxa de juros básica. O primeiro foi abandonado por introduzir muita volatilidade e insegurança no sistema econômico. O segundo é o que prevalece até hoje em todos os países com alguma estabilidade macroeconômica.
Aqui no Brasil, passamos por essas duas fases. Na primeira, entre 1995 e 1999, tentamos uma âncora cambial. Tivemos que abandonar essa âncora por total falta de dólares. Na segunda, que completa 28 anos no ano que vem, temos um BC independente que determina uma taxa de juros para atingir determinada meta de inflação. Não há uma terceira alternativa.
A proposta de André Lara Resende, discutida em meu post anterior, propõe, na prática, a volta da âncora cambial, abandonando a taxa de juros como instrumento de controle da inflação. Ele não diz isso explicitamente, mas é o que se deduz da proposta. Se os juros não podem mais ser determinados livremente pelo BC, e se o BC vai vender dólares das reservas para controlar o câmbio, chame como quiser, mas isso é uma âncora cambial.
Já vimos esse filme antes e já sabemos o final. Os políticos de esquerda reclamam que existe uma espécie de visão única imposta pelo mercado financeiro, e não há espaço para discutir visões alternativas para a política monetária. Ocorre que não há visão alternativa. Ou melhor, a tal “visão alternativa” é, bem mexida e sacudida, a mesma experiência que vivemos no passado. Não se trata de algo novo e nunca dantes tentado, pelo contrário.
O governo Lula pode muito bem decidir girar a roda da economia brasileira para trás. Só não nos venha tentar convencer de que se trata de uma “visão alternativa”. Seria só mais do mesmo, com todas as consequências conhecidas. Como dizia o poeta Cazuza, somos um museu de grandes novidades.

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