Por FRITS SMULDERS *
Transcrevemos, com a devida vênia da revista COLÓQUIO/Letras. Letras em Trânsito, matéria publicada no nº 125/126, Jul. 1992, p. 336.
A
20 de Junho de 1991 faleceu com a idade de 75 anos, na cidade de
Nijmegen, onde residia, o lusitanista holandês José van den Besselaar.
Com uma obra conhecida tanto em Portugal como no Brasil, o seu nome será
o mais das vezes associado, e com razão, ao estudo da obra de António
Vieira. Contudo, o investigador assinou dezenas de publicações em
numerosas outras áreas.
José
van den Besselaar nasceu a 17 de Março de 1916 em Valkenswaard, no Sul
da Holanda. Em 1940, já durante a ocupação alemã, formou-se em Estudos
Clássicos na Universidade de Nijmegen. A tese de doutoramento — sobre o monge e político romano Cassiodorus Senator — estava
pronta em 1943, mas teve de esperar o fim da guerra para ser defendida.
As suas publicações dos anos seguintes mostram-no um defensor dos
Estudos Clássicos. Traduz sermões de, entre outros, Leandro de Sevilha e
Martinho de Braga, e escreve um desenvolvido curso de Grego.
Em
1950, toma uma resolução que seria decisiva na sua vida: parte para o
Brasil, com o propósito de ensinar línguas clássicas numa colônia
holandesa de São Paulo. O fim de sua estada de onze anos no Brasil
vê-lo-ia catedrático de Filologia Latina em Assis, após uma carreira de
docente de línguas clássicas noutras universidades. Data de 1956 a
publicação de uma Introdução aos Estudos Históricos ¹, que viria a ter em 1980 quinta edição. Esta obra metodológica teve continuação, ainda nos anos 50, nos dois volumes de As Interpretações da História através dos Séculos. A esta mesma época se reporta um curso de morfologia e sintaxe latina, Propylaeum Latinum ² (São
Paulo, 1961). A sua expressão em língua portuguesa já então prima por
notória transparência e propriedade, qualidades que haverão de
intensificar-se.
De
regresso à Holanda, José van den Besselaar torna-se o primeiro docente
de língua e literatura portuguesa da Universidade de Nijmegen.
Catedrático em 1967, pronuncia uma lição inaugural sobre "António Vieira
e a Holanda", publicada em 1971 na Revista da Universidade de Lisboa.
Seguem-se inúmeras publicações de interesse clássico ou relativas a
temas brasileiros e, cada vez mais, portugueses. Ficará célebre o vasto
estudo Brazilië: ontwakende reus in de tropen (Brasil: Gigante
que Desperta nos Trópicos), de 1963, que viria a conhecer em seguida
duas edições alemãs. O vivo interesse pelo Brasil e a capacidade de
olhá-lo de perto animam o autor a não ocultar, onde necessário, aspectos
incômodos da sua experiência brasileira.
António Vieira vai ocupar, desde então, intensamente Van den Besselaar. E não só Vieira — o escritor, o diplomata, o missionário, o teólogo, o militante social — como
também o mundo em que estava imerso, particularmente o do profetismo,
temática que sobre todas o atrai. O melhor de si põe-no na prestigiosa
edição da História do Futuro (Münster, 1976). O primeiro volume
contém o texto do "Livro Anteprimeiro', com aparato crítico e uma
introdução histórico-textual. O segundo é um extenso comentário onde o
excelente conhecedor da antiguidade latina e cristã localiza
exaustivamente fontes e referências de Vieira. Deste estudo sairá mais
tarde, em 1983, uma editio minor, aos cuidados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Para público menos especializado, escreveu ainda o volume da Biblioteca Breve António Vieira: o Homem, a Obra, as Ideias, com que pretende prosseguir a obra, que aliás admira, de João Lúcio de Azevedo, a impressionante História de António Vieira.
A sua actividade universitária, encerrou-a em 1984 com uma última lição que intitulou "Bandarra, Sapateiro e Profeta de Trancoso". Aí afirmava:
“O
profetismo é uma tentativa de dar sentido à história dum povo ou da
humanidade. Sempre me interessou examinar como é que essa tentativa
tomou forma na história cultural do Ocidente.”
E o crente José van den Besselaar finalizava:
“Desejo
terminar esta lição com uma variante a uma afirmação de Vieira.
Passando a vista sobre o que foi a minha vida, acho nela razões para rir
ou para chorar, para me espantar ou para me embravecer, mas sobretudo
para estar grato a Deus por todo o bem que me deu. Com o subir dos anos,
cresce de fato o meu convencimento de que quase tudo numa vida humana é
graça, bem pouco mérito próprio.”
*
Editor, nasceu em 1959. Estudou Português e Direito Internacional na
Universidade Católica de Nijmegen e Direito Holandês na Universidade
Católica de Tilburg. Autor da tese de doutoramento apresentada à
Universidade Católica de Nijmegen, Holanda, intitulada ANTÓNIO VIEIRA: Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda,
que teve como orientador José van den Besselaar e com a qual obteve o
grau de doutor. Trabalhou como tradutor e revisor para a União Europeia
em Bruxelas e, atualmente, ocupa um cargo de gestão no Instituto Europeu
de Pesquisa Ferroviária da União Internacional de Ferrovias, em
Utrecht, nos Países Baixos.
II. NOTAS EXPLICATIVAS do gerente do Blog
¹ Possuo a 4ª edição revista e ampliada (São Paulo: EDUSP, 1974, 340 p.)
² Possuo o Propylaeum Latinum
(São Paulo: Editora Herder, 1960) que se compõe de dois volumes: o
primeiro (abrangedo a sintaxe latina superior com 442 páginas) e o
segundo, leitura-exercícios-vocabulário com 304 páginas. Nesta obra,
Besselaar adaptou uma vertente germânica da gramática latina tradicional
e utiliza noções e procedimentos oriundos da linguística
histórico-comparativa para a didática do Latim.
III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BECCARI, Alessandro: José van den Besselaar (1916-1991) e seu Propylaeum Latinum, Curitiba: Revista Letras, UFPR, nº 104, pp. 125-144, jul/dez 2021
Link: https://revistas.ufpr.br/letras/article/view/80236/45501
BRAGA, Francisco J.S.: A MESTRA DA VIDA, texto retirado do capítulo VI do livro Introdução aos Estudos Históricos, 4ª edição, São Paulo: EDUSP, 1974, pp. 103-114 e publicado no Blog de São João del-Rei, em 24/01/2024
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2024/01/a-mestra-da-vida.html
FREIRE, José Geraldes: In memoriam de José van den Besselaar (1916-1991), in NOTÍCIAS E COMENTÁRIOS - Universidade de Coimbra (disponível na Internet)
SMULDERS, Frits: Na Morte de José van den Besselar, in Revista Colóquio | Letras. Letras em Trânsito, nº 125/126, Jul 1992, p. 336.