Em seu recente artigo para a The Economist, intitulado “How can we live in a world without rules?”, o Assessor Especial da Presidência, Celso Amorim, pergunta retoricamente como podemos sobreviver em um cenário geopolítico onde as normas internacionais parecem ter colapsado.
O texto, escrito na esteira de uma intervenção em Caracas em janeiro de 2026, é uma peça de retórica refinada, mas intelectualmente desonesta.
Ao analisarmos o texto, o cinismo de Amorim salta aos olhos em quatro incoerências fundamentais.
1. A soberania como escudo para tiranos
Amorim inicia seu lamento comparando a “abdução forçada” do presidente venezuelano à captura de Saddam Hussein, classificando o ato como “tragicamente surreal”.
Aqui, é preciso deixar claro que a ação unilateral ordenada por Trump é, de fato, condenável. Trata-se de mais uma uma operação de “cowboy diplomacy” executada sem qualquer planejamento para o “day after”, sem consulta aos organismos multilaterais e, claramente, sem o bem-estar do povo venezuelano como prioridade criando mais um precedente perigosíssimo de que a lei do mais forte substitui a diplomacia.
No entanto, a crítica de Amorim não nasce dessa preocupação legítima com a ordem global ou com a vida dos venezuelanos. Se nascesse, ele teria condenado com a mesma veemência a invasão russa à Ucrânia.
O cinismo de Amorim reside no uso seletivo da indignação:
Para Amorim, a “tragédia” não é a fome, a tortura sistemática ou o êxodo de 8 milhões de venezuelanos sob o regime que ele protege; para ele, a “tragédia” é o momento em que um aliado ideológico perde o poder, mesmo que pelas mãos de outro agente irresponsável.
Quando tanques russos violam a fronteira de uma democracia soberana (Ucrânia), matando civis e anexando território, Amorim e o governo Lula pedem “paz”, “diálogo” e evitam condenar o agressor, relativizando a soberania ucraniana em nome de “preocupações de segurança” da Rússia.
Mas quando uma intervenção — ainda que ilegal e temerária — remove um ditador sul-americano, Amorim subitamente se torna um purista da Carta da ONU.
A “soberania” defendida por Amorim, portanto, não é a do Estado ou a do povo, e muito menos a soberania das regras; é o habeas corpus do governante amigo. Em seu mundo, a soberania serve para blindar o ditador de interferências externas, enquanto o povo permanece refém tanto da tirania interna quanto dos jogos de poder externos.
Devemos rejeitar tanto a irresponsabilidade de Trump quanto a cumplicidade autocrática de Amorim.
2. O mito do “Continente de Paz”
Amorim afirma, com uma audácia que beira o delírio, que algo foi estilhaçado: “a certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.
Que paz é essa, Embaixador?
A “paz” das prisões políticas em Caracas? A “paz” da perseguição religiosa na Nicarágua? A “paz” das ameaças de anexação de Essequibo (Guiana) feitas pelo próprio regime que o senhor protegeu diplomaticamente por décadas?
Amorim ignora a tortura interna porque, para ele, a violência só conta se vier do Ocidente.
Sua definição de ‘paz’ é a estabilidade do cárcere.
3. A hipocrisia da “Incerteza de Heisenberg”
Amorim invoca o “Princípio da Incerteza” de Heisenberg para descrever o novo cenário global, onde “qualquer coisa pode acontecer”.
O cinismo aqui reside no fato de que o governo brasileiro, sob sua tutela intelectual, trabalhou ativamente para criar essa incerteza.
Quem ajudou a corroer as regras internacionais ao se aliar ao Irã, patrocinador global do terrorismo?
Quem enfraqueceu o sistema de direitos humanos da ONU ao se abster de condenar violações na Nicarágua e na China?
Quem trabalha para expandir o BRICS, transformando-o em um sindicato de autocracias que buscam reescrever as regras globais para favorecer as ditaduras?
Amorim reclama de um mundo sem regras, mas a política externa que ele desenhou dedicou-se a sabotar a “Ordem Baseada em Regras” (Rules-Based Order) liderada pelas democracias liberais, em favor de uma “multipolaridade” caótica onde a Rússia e a China ditam as normas.
4. O cinismo da “solução” via BRICS
Como remédio, Amorim sugere “diversificação de parcerias”, citando explicitamente o BRICS. É o ápice da contradição. Ele sugere que, para restaurar a ordem e o respeito ao direito internacional, devemos nos abraçar mais forte com a Rússia (que rasgou a Carta da ONU), a China (que ameaça Taiwan) e o Irã (que financia o caos no Oriente Médio).
Conclusão: o medo da accountability
A pergunta do título do artigo de Amorim — “Como podemos viver em um mundo sem regras?” — deve ser traduzida para o que ele realmente sente: “’Como nossos parceiros vão sobreviver num mundo onde os EUA decidiram ignorar a lei internacional com a mesma frieza que a Rússia?”
O lamento de Amorim na The Economist é o obituário de uma doutrina de política externa que escolheu, consistentemente, o lado errado da história.
O Brasil merece uma diplomacia que defenda valores, não ditadores.
