Análises de Conjuntura PT
A política externa de Lula 3
As perspectivas para a política externa de Lula 3 apareciam como especialmente favoráveis, no imediato seguimento das eleições de outubro de 2022: o experimentado presidente brasileiro durante os oitos anos de seus dois primeiros mandatos (2003-2010), grande patrocinador da vitória de sua sucessora, em 2010 e em 2014, provável vencedor das eleições de 2018 – não fosse por um “veto” político imposto pelo alto comando das FFAA, daí ao STF – foi recebido, pela imprensa nacional e internacional, como o “restaurador” de uma diplomacia deformada e conspurcada pelos seguidores do antiglobalismo inspirado nas teorias lunáticas da extrema-direita, difundidas no âmbito da presidência de Trump 1 (2017-2020) e absorvidas pela governança errática que se instalou no comando do país entre 2019 e 2022 justamente. Ainda antes de tomar posse, Lula foi recebido entusiasticamente numa reunião da COP 27 (Cairo, dezembro de 2022) e transmitiu a todos seu engajamento com uma política brasileira decididamente comprometida com a transição energética, a proteção da Amazônia e outras metas estabelecidas no Acordo de Paris de 2015, que tinham sido deliberadamente rejeitadas no governo de Jair Bolsonaro.
Os prognósticos favoráveis ao retorno da “diplomacia ativa e altiva” dos seus dois primeiros mandatos foram ainda mais realçados quando, ainda nos primeiros meses de 2023, Lula decidiu convidar seus colegas sul-americanos para duas reuniões no Brasil: a primeira foi anunciada quase imediatamente à posse, destinada a reviver ou reestruturar a Unasul, criada sob os auspícios do Brasil e integrada pelos vizinhos continentais, a despeito mesmo de certas manipulações chavistas (ao retirar um possível secretariado no Rio de Janeiro, como proposto por Celso Amorim em 2004, no que era ainda a Comunidade Sul-Americana de Nações, e financiar, com os petrodólares venezuelanos, a construção de um belo edifício na capital do Equador, também bolivariano, de Rafael Correa). Antes mesmo de receber os chefes de Estado ou de governo em Brasília, Lula recebeu, em uma visita praticamente de Estado, o presidente Maduro, sucessor de Chávez, o que causou certo desconforto entre alguns dos demais convidados. O encontro não produziu os resultados esperados, mas, tão simplesmente, a decisão de remeter o “renascimento” da Unasul a um grupo de trabalho composto pelos chanceleres, que deveriam produzir um relatório em seis meses. O documento nunca surgiu.
A segunda reunião, dos países membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), no início do segundo semestre, estava destinada a impulsionar objetivos potencialmente contraditórios: o atendimento de compromissos multilaterais de salvaguarda dos recursos naturais da Amazônia e da sua diversidade biológica, ao mesmo tempo em que seria coerente com a transição energética para fontes renováveis, mesmo com o potencial de riquezas imediatamente disponíveis nos velhos recursos fósseis (que aguardavam exploração pelo próprio Brasil nas cercanias da foz do Amazonas). O encontro terminou sem qualquer acordo coerente entre defensores de uma Amazônia preservada e pragmáticos apoiadores da exploração do ouro negro, o que resultou no mesmo insucesso do primeiro encontro.
Logo em seguida, o ataque do Hamas às localidades israelenses próximas da Faixa de Gaza, em outubro de 2023, deu início ao maior e mais grave conflito entre os apoiadores da causa palestina – entre eles o Irã, via Hezbollah do Líbano e os houthis do Iemen – e as Forças de Defesa de Israel, superando todos os enfrentamentos havidos desde praticamente as guerras dos anos 1960-1970 ou as ondas das diversas intifadas na sua sequência. Lula tomou o partido da causa palestina, como já tinha feito desde 2010 – ao reconhecer a Autoridade Palestina como Estado soberano, criando uma representação brasileira em Ramallah – o que gerou um choque com o governo Netanyahu, ao falar improvisadamente em “holocausto” e em “genocídio”. O Brasil ficou sem representação em Tel Aviv, e as relações diplomáticas bilaterais foram efetivamente rompidas desde então. Novo confronto, entre Israel e os EUA e a República Islâmica do Irã, surgiu na imediata sequência da guerra na Faixa de Gaza, ampliado por bombardeios iranianos contra Israel, seguidos por devastadores ataques contra o Irã e sua cúpula política. Lula, por diversos motivos políticos – entre eles a inclusão do Irã no bloco do BRICS+ –, não escondeu seu posicionamento político, o que, obviamente, criou novas arestas com o segundo governo de Donald Trump, que venceu as eleições de novembro de 2024, antes das quais Lula tinha declarado sua simpatia pela candidata Democrata.
O ano de 2025 viu Trump 2 ampliar o desmantelamento do sistema multilateral de comércio, começando com uma ofensiva tarifária dirigida contra praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA, primeiro, em abril, numa “arquitetura” graduada segundo os déficits bilaterais – o que deixou o Brasil numa tarifa-base de 10% –, mas que foi em seguida agravada por novas sobretaxas abusivas, à medida que os atingidos relutavam em atender às imposições unilaterais do presidente americano. No caso do Brasil, a ofensiva comercial se transmutou rapidamente em Blitzkrieg política – impulsionada pela família Bolsonaro – em meados do ano, quando Trump enviou uma carta pessoal a Lula exigindo a extinção do processo e da condenação dos golpistas responsabilizados pelos ataques de janeiro de 2023 aos três poderes federais do Brasil (muito similares aos ataques trumpistas de janeiro de 2021 contra o Capitólio), ao mesmo tempo em que impunha diversas sanções políticas a autoridades do Brasil, inclusive a aplicação da Lei Magnitsky contra o juiz do STF responsável pela condenação do ex-presidente Bolsonaro. As sobretaxas tarifárias alcançaram inacreditáveis 50% ad valorem, o que praticamente inviabilizaria novos fluxos comerciais.
A nova frente de guerra política e comercial foi parcialmente contornada pela ação de empresários dos dois países envolvidos nos intercâmbios bilaterais e pela oportunidade criada pelo encontro aparentemente fortuito entre os dois mandatários à margem dos debates na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025. Um segundo encontro bilateral, realizado quando de uma reunião de cúpula da Asean, na Malásia, no mês de outubro, permitiu aliviar o conflito potencial, mas uma nova realidade dotada de maior impacto geopolítico se impôs quando da publicação de uma nova estratégia de segurança nacional dos EUA, anunciada pelo governo Trump no mês de novembro, com um foco especial na América Latina. Seus proponentes a equipararam equivocadamente à Doutrina Monroe, de 1823, quando ela não representou senão uma repetição canhestra do Corolário Roosevelt, de 1903.
Seus efeitos práticos foram imediatamente transpostos em ataques totalmente ilegais contra barcos no mar do Caribe e no Oceano Pacífico, supostamente de traficantes de drogas, que responderiam a um imaginário Cartel de los Soles, cujo chefe seria ninguém outro que o próprio presidente venezuelano Nicolás Maduro, objeto de um imediato sequestro por forças americanas em Caracas (janeiro de 2026). Lula – que já tinha rompido com o ditador chavista na sequência das eleições fraudadas de meados de 2024 – proclamou a óbvia oposição da diplomacia brasileira a esse gesto inusitado nas relações interamericanas desde intervenções similares do governo Reagan em Granada e no Panamá, nos anos 1980. Na sequência, forças de Israel e dos EUA lançaram devastadores ataques contra o Irã, com o objetivo de derrubar o governo teocrático islamista, abrindo uma nova frente de guerra sem perspectiva de cessar-fogo ou de acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, foco de uma nova crise do petróleo, tão impactante quanto os dois choques dos anos 1970.
Mais relevante do ponto de vista da diplomacia e da política externa do Brasil, assim como de sua própria política interna, consiste na ofensiva política do governo Trump, em parte conduzida pelo Secretário de Estado Marco Rubio, mas impulsionada pelo próprio presidente, no sentido de obter, por pressões abertas e veladas, vitórias eleitorais em diversos países latino-americanos, de molde a concretizar o projeto “Escudo das Américas”, uma espécie de coalizão de governos de direita alinhados explicitamente com o império trumpista. A ofensiva se conecta diretamente ao ambiente fortemente polarizado das próximas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, com o indisfarçável apoio de Trump à família Bolsonaro, não hesitando em mobilizar outros atores no seu empreendimento intervencionista (como foi o caso da participação do presidente argentino Javier Milei na convenção partidária que consagrou o candidato do PL, provocando a maior crise diplomática entre o Brasil e a Argentina desde o conflito dos anos 1970 em torno dos recursos hídricos do rio Paraná). Na sequência, o presidente Trump ainda anunciou uma nova ofensiva comercial contra o Brasil, poucos dias depois da imposição de novas sanções tomadas ao abrigo da Seção 301 da Lei Comercial norte-americana, todas elas politicamente motivadas, pois que alegando “comércio desleal” até para regulações brasileiras completamente independentes dos intercâmbios comerciais (como é o caso do sistema PIX de pagamentos, do suposto desmatamento na Amazônia, ou o uso de trabalho forçado no comércio do Brasil com terceiras partes).
A postura da política externa brasileira no novo contexto de recrudescimento das ações ilegais e das imposições unilaterais do governo Trump contra a postura independente da diplomacia nacional no contexto hemisférico, assim como no quadro mais geral das relações regionais e extrarregionais do Brasil, deve ser vista num contexto desafiador que é relativamente inédito na situação democrática em que vive atualmente o país, talvez só comparável às difíceis escolhas que tiveram de ser feitas nos anos 1930, de ameaças externas e de confrontos provocados por potências expansionistas, cujo desenvolvimento sequencial, não controlado pela própria nação, levou ao envolvimento do país na mais terrível guerra conhecida até aquela conjuntura, de meados do século XX. O mundo vive, atualmente, uma situação de instabilidade nas relações internacionais talvez só comparável às condições prevalecentes naquela conjuntura, na qual os governantes brasileiros tinham de defender os interesses nacionais em face de potências mais poderosas do que as capacidades nacionais.
Nesse contexto cabe examinar as condições sob as quais deveria ser idealmente definida e conduzida a política externa do país, em consonância com os fundamentos doutrinais da diplomacia brasileira e as possibilidades abertas à definição das principais diretrizes que devem guiar as relações exteriores no quadro da instabilidade criada precisamente pelas grandes potências, ou pelo menos por algumas delas, especificamente as duas grandes potências que estão na origem das guerras atualmente em curso em duas regiões do mundo, na Europa central e oriental e no Oriente Médio. Os fundamentos doutrinais da diplomacia nacional foram sendo cuidadosamente construídos ao longo dos estadistas do Império, depois aperfeiçoados e formalizados pelo trabalho reflexivo e pelas orientações práticas de diplomatas de altas qualidades intelectuais, entre os quais cabe reconhecer as figuras do Barão do Rio Branco e o jurista Rui Barbosa, ambos fornecendo o múnus substantivo com que trabalhou um outro estadista, Oswaldo Aranha, encarregado de definir a melhor condução que cabia imprimir às escolhas de política externa, nas horas mais sombrias dos anos 1930, situação extremamente desafiadora, tanto no ambiente internacional, quanto no ambiente interno, também marcado por profundas divisões ideológicas entre direita e esquerda, ademais de uma governança autoritária que obstou e impediu a ação de forças políticas centristas ou mais moderadas, em consonância com a estrutura social da nação.
Naquela conjuntura, sob a orientação do estadista Oswaldo Aranha, a diplomacia brasileira imprimiu uma condução às relações exteriores da nação que preservou ao máximo a autonomia decisória de uma política externa marcadamente presidencialista, até o limite no qual as diretrizes práticas conseguiram manter a neutralidade do país em face dos conflitos entre as grandes potências. No momento de maior perigo, quando ameaças externas se concretizaram mediante ataques diretos aos interesses nacionais, a diplomacia soube orientar a política externa para a postura necessária à preservação da independência da nação, indo até o engajamento pragmático nas ações voltadas para tais objetivos existenciais.
Na presente conjuntura, cabe uma reflexão sobre as melhores condutas e diretrizes para a política externa, comprometidas com a manutenção da autonomia decisória do país em face dos desafios já colocados à preservação dos interesses nacionais, em princípio, de maneira imparcial e independente vis-à-vis confrontos e choques entre as grandes potências, em função de objetivos vinculados a seus objetivos estritamente nacionais ou imperiais. Tais são as lições dos anos 1930-1940, tal como iluminadas por aqueles fundamentos doutrinais da diplomacia brasileira que ainda guardam consistência para os tempos presentes.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5415: 29 julho 2026
Recebido: 29 de julho de 2026
Aceito para publicação: 30 de julho de 2026
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