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segunda-feira, 23 de março de 2026

As pérolas do Pequeno Timoneiro Lula - Paulo Roberto de Almeida (revista Crusoé)

As pérolas do Pequeno Timoneiro Lula

"Pode-se espantar, divertir ou discordar de Lula, mas o que não se pode esperar é coerência".

Paulo Roberto de Almeida
Revista Crusoé,  23.03.2026
https://crusoe.com.br/diario/as-perolas-do-pequeno-timoneiro-lula/ 

As pérolas do Pequeno Timoneiro Lula
Lula como timoneiro. Inteligência artifical ChatGPT
 

 Para quem, como eu, cresceu politicamente nos anos 1960, quando a principal novidade literária no cenário mundial era o Livro Vermelho do Presidente Mao, animador das hordas estudantis chinesas a serviço do Grande Timoneiro – então em luta contra os seus opositores do Partido Comunista Chinês (PCC) pelos desastres causados no Grande Salto Para a Frente de 1959-61, que causou a morte, por inanição, de dezenas de milhões de chineses –, a publicação da coletânea O Livro Vermelho do Lula, feita pelo jornalista Duda Teixeira, com 171 frases do presidente (também do sindicalista, do deputado, do candidato múltiplo), apresenta duas virtudes.

A primeira é que o livro não é tão mortífero quanto o livrinho do Mao Tsé-Tung.

A segunda é que ela nos fornece 130 páginas de riso, de raiva, de surpresa e até de estupefação, graças ao verdadeiro trabalho de arqueologia literária feito por Duda Teixeira, garimpando estas “preciosidades políticas” desde as primeiras pérolas de meados dos anos 1970 até este terceiro (talvez não o último) mandato do grande personagem político e social, já em 2026.

O Livro Vermelho de Mao era uma assemblagem de frases retiradas de toda a carreira do antigo guerrilheiro comunista, desde os anos 1920 até sua condição de virtual imperador da China do início dos anos 1960.

As frases foram usadas para esvaziar escolas, universidades e sedes locais do PCC, enviando alunos, professores e funcionários para trabalhar nas aldeias mais isoladas e pobres do imenso país asiático, afundando ainda mais um país já debilitado por anos de invasões estrangeiras e uma guerra civil que já tinha eliminado milhões de vítimas inocentes.

Já o livro de Duda Teixeira tem qualidades mais desopilantes do que combatentes, pela assemblagem verdadeiramente surpreendente de frases contraditórias, já que se estendem por um período tão longo quanto o livrinho de Mao, mas combinando as afirmações mais antigas, do período sindicalista, às mais recentes, dos seus três (até aqui) mandatos presidenciais.

O exímio trabalho de Duda Teixeira foi justamente o de permitir essa confrontação, na mesma página, de frases perfeitamente opostas em intenção e significado, ainda que por vezes separadas por décadas (outras bem mais próximas).

O trabalho de seleção, organização e alinhamento das frases do “Nosso Grande Timoneiro” (introdução em uma página e meia, na qual já constam algumas delas), constando das 128 páginas da seleta feita por Duda é o resultado de um meticuloso esforço de pesquisa e compilação de mais de três centenas de afirmações próprias, respostas em entrevistas, pensamentos expressos voluntariamente e declarações oficiais (discursos gravados pela Imprensa Nacional, cujas fontes constam das duas últimas páginas do livro)

Contei 30 veículos da imprensa (grande e pequena, nacional e estrangeira), oito programas de TV, discursos presidenciais, depoimentos para a Lava Jato e a Comissão de Ética do PT, site do TSE e mais seis livros de autores conhecidos, respeitáveis pela sua credibilidade.

A relação de Lula com o dinheiro – a miséria própria na origem, o salário exíguo como torneiro mecânico, os ganhos obtidos como dirigente sindical, a ascensão como deputado constituinte, como “dono monopolista” do PT e como presidente – vem realçada em muitas páginas, e não me surpreenderia se Lula tentasse obter novas vantagens do jornalista como verdadeiro detentor dos “direitos autorais” sobre a parte principal do livro.

Outro aspecto a ser enfatizado é uma característica que ele partilha com um outro grande personagem da história mundial: Lula, como De Gaulle, fala dele na terceira pessoa, o que evidencia um irrecusável orgulho e entusiasmo com si próprio.

O próprio Lula não se considera uma pessoa como todas as outras. “Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês”, aqui confirmando uma outra de suas características, já com copyright alheio, quando se afirma uma “metamorfose ambulante”.

Duda Teixeira traça outras comparações: “Se o chinês Mao Tsé-Tung ganhou o seu Livro Vermelho, o líbio Muamar Kadafi publicou o Livro Verde e o norte-coreano Kim Jong Il escreveu o Sobre a Filosofia Juche, chegou a hora de Lula ganhar uma obra com seus principais pensamentos”.

Alguns desses “pensamentos” revelam um conhecimento ingênuo, ou primário, da história e da geografia mundiais – como inventar uma visita de Napoleão à China (2003), ou desejar um Mercosul que se estendesse da “Terra do Fogo à Patagônia” (2006).

Outros são mais preocupantes, como sua admiração, no início da carreira política, por Adolf Hitler (pela sua “disposição, força, dedicação”, 1979), ou desejar trazer Vladimir Putin ao Brasil, a despeito de um mandado de prisão pelo TPI por crimes de guerra e contra a humanidade (2023), tendo ainda visitado Putin em 2025, indiferente à guerra de agressão à Ucrânia.

Algumas declarações são apenas risíveis, como desconhecer “homossexualismo na classe operária” (1979), outras simploriamente sinceras, revelando uma apreciação etílica das mais evidentes: “Política é como uma boa cachaça. Você toma a primeira dose e não tem como parar mais. Só quando termina a garrafa” (2016).

Fui pessoalmente testemunha, quando trabalhei na Presidência da República ao início do primeiro mandato, de sua tentativa raivosa de expulsar o correspondente do New York Times no Brasil, por revelar, em matéria publicada no suplemento dominical do jornal, um fato notório, o gosto imoderado de Lula por bebidas fortes: lembro-me de que o governo ficou praticamente paralisado durante uma semana inteira entre expulsar ou não o jornalista Larry Rother, um grande amigo do Brasil.

O público brasileiro bem-informado conhece, ou vai relembrar, graças à garimpagem de Duda Teixeira, as frases mais impactantes de Lula, ao passo que os interessados em política externa, ou diplomatas como eu mesmo, estamos redescobrindo as afirmações mais controversas que ele já fez nessa área, algumas das quais contradizem diretamente várias cláusulas de relações internacionais inscritas em nossa Constituição, como a não interferência nos assuntos internos de outros Estados – Lula sempre apoiou, publicamente, os candidatos de esquerda na América Latina – ou o respeito aos direitos humanos, violados em quase todas as ditaduras que sempre contaram com sua “solidariedade”.

A seleção de Duda Teixeira traz os exemplos mais eloquentes – e mais chocantes – dessa identidade de Lula com regimes autoritários (inclusive de direita, como é o caso da Rússia ou do Irã, apenas porque partilham do antiamericanismo anacrônico de Lula e do PT).

O livro talvez possa ter novas edições, pois como disse o próprio Lula: “Eu ainda preciso disputar umas dez eleições, mais uns 20 anos. O Lula de bengala disputando eleição”.

Isso depois de ter dito, na campanha presidencial de 2022 que seria “um presidente de um mandato só”.

Pode-se espantar, divertir ou discordar de Lula, mas o que não se pode esperar é coerência.

Numa nova e mais completa edição deste livro poderemos ter a confirmação dessa qualidade mais cristalina do político que pretende superar Getúlio Vargas em anos de poder, este, 19 ao todo, dos quais 8 como ditador. Lula não vai precisar recorrer à modalidade, mas certamente não vai se furtar de continuar ilustrando um novo Livro Vermelho.

 

Paulo Roberto de Almeida é diplomata e professor

X: @PauloAlmeida53

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista


sábado, 4 de maio de 2024

Revista Crusoé: seis anos de sucesso. Viva a Crusoé! Viva o jornalismo de boa qualidade!

 

6 anos de Crusoé: vigilância sem descanso

A revista Crusoé completa neste sábado, 4 de maio, seis anos de existência.

Ao longo de 313 edições, a revista se manteve fiel à sua linha editorial, definida em um primeiro comunicado aos leitores de O Antagonista.


Em um email convidando as pessoas para assinarem seu conteúdo exclusivo, o tom cético contra o poder aparecia nas primeiras linhas: “Ninguém aguenta mais as patacoadas dos nossos políticos. Eles nos fazem de bobos“.


Em um universo dominado por uma imprensa dócil e por redes sociais repletas de desinformação, Crusoé seguia os passos de O Antagonista e prometia um jornalismo independente e vigilante.


“Nosso compromisso será deixar você muito bem informado e bem distante das mentiras disseminadas nas redes sociais. Você fará parte de um grupo exclusivo que vai saber sobre os acontecimentos mais importantes, como eles de fato ocorreram, sem interferência de versões enviesadas. Para atingir esse propósito, vamos manter nossos governantes sob vigilância dia após dia, sem descanso“, dizia a mensagem.


Ao praticar os seus princípios, Crusoé enfrentou diversos problemas.


A reportagem de capa “O amigo do amigo do meu pai“, revelando o codinome usado na empreiteira Odebrecht para se referir ao ministro do STF Dias Toffoli, foi uma das primeiras publicações usadas para vitaminar o “inquérito do fim do mundo”, comandado por Alexandre de Moraes, desde 2019. A revista foi censurada sob a alegação de que o documento com o codinome não existia, mas em poucos dias a acusação foi desmentida, e a reportagem voltou ao ar (neste link, o conteúdo está aberto para não assinantes).


Enquanto a maior parte da imprensa fica de joelhos, Crusoé tem mantido um olhar crítico ao Supremo Tribunal Federal, o STF, e a seus ministros.


Defensora do combate à corrupção, Crusoé é o veículo que mais tem denunciado as iniciativas de enterrar operações que mudaram radicalmente o clima de impunidade para os poderosos, sempre vigente no país.


Crusoé também tem sido implacável com os abusos e equívocos dos presidentes de turno, seja Jair Bolsonaro ou Lula, apontando os conchavos nos corredores da República e as ideologias retrógradas que acometem tanto a esquerda quanto a direita.


Por fim, Crusoé é o veículo que traz as melhores análises na área de internacional, denunciando a aproximação do governo brasileiro com ditaduras e mostrando o impacto que os fatos internacionais têm na vida dos brasileiros.


Agradecemos você leitor (assinante e não assinante) que faz com que o conteúdo produzido semanalmente pela Crusoé ganhe repercussão e vire pauta de discussões criticas sobre os caminhos da democracia.

Redação Crusoé

Crusoé - Uma ilha no jornalismo


O cabidão da República 

A edição 313 da revista Crusoé traz na capa a reportagem “O cabidão da República – Lula volta a contratar, mas mantém ineficiência e privilégios da elite do funcionalismo”.

O texto, assinado por Carlos Graieb e Duda Teixeira, fala sobre o Concurso Unificado do governo federal, o “Enem dos Concursos“, para preencher 6.690 vagas na administração pública.


A matéria fala da propensão petista em inchar a máquina pública e critica a falta de um estudo prévio de dimensionamento da administração federal, que deveria ser feito antes das contratações. Os jornalistas também ressaltam que outras opções de contratação poderiam estar sendo utilizadas. Além disso, a falta de um processo para avaliar as competências dos servidores faz com que eles sejam um peso muito grande no orçamento, pois se tornam um encargo que costuma durar 60 anos.


Outro ponto a destacar é a existência de uma “hiperelite” no funcionalismo, que ganha salários muito altos e gozam de muitos privilégios — e acabam se tornando referência para os demais servidores, que ganham bem menos.


Comunicação camarada 


O jornalista Wilson Lima, de Brasília, escreve uma reportagem sobre o seu próprio furo de reportagem, dado na semana passada. No dia 23 de abril, ele divulgou nas redes sociais o resultado antecipado de uma licitação da Secretaria de Comunicação da Presidência, Secom, comandada pelo petista Paulo Pimenta. Deputados e senadores pediram esclarecimentos e a Secom será obrigada a responder judicialmente sobre o caso. Pimenta reagiu dizendo que a divulgação antecipada da licitação era uma “fake news“.


O mensageiro da justiça 


O repórter Gui Mendes fala sobre a maior operação contra a corrução de Santa Catarina, que prendeu 6% dos prefeitos do estado.


O Temer argentino, pero no mucho


O correspondente em Buenos Aires, Caio Mattos, compara as medidas do presidente Javier Milei para flexibilizar o mercado de trabalho com a reforma trabalhista brasileira, aprovada durante o governo de Michel Temer, em 2017.


Sundfeld: “O Brasil dá dinheiro demais ao Judiciário e ao MP” 


Carlos Graieb entrevista o professor de Direito Público Carlos Ari Sundfeld, professor da FGV-SP, para falar sobre a “hiperelite” no funcionalismo, que prejudica a prestação de serviços à população.


COLUNISTAS DA SEMANA 


Redação Crusoé

O Antagonista - Jornalismo Vigilante


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Não sei bem porque, mas a plataforma Academia.edu está me solicitando para postar novamente trabalhos meus que já tinham sido postados, no ...