Não sei o que explica a deterioração sensível (e visível) da qualidade da capacidade analítica na academia, mas sei que a combinação da mediocridade intelectual com a miopia política, acrescidas de má-fé na manipulação de números e conceitos, se instalam de maneira perigosamente rápida no seio mesmo do aparelho de Estado, justamente ali onde a isenção e a imparcialidade analíticas deveriam primar e ser cultivadas como virtudes inerentes ao exercício da atividade de estudo e análise da realidade econômica: um órgão de planejamento e de políticas econômicas aplicadas como o IPEA.
Li, estarrecido, o lixo acadêmico que vai abaixo parcialmente reproduzido, sem querer acreditar que tal mediocridade analítica pudesse realmente ter sido produzida por quem leva a função de "diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do IPEA".
Mais surpreendido ainda fiquei ao saber que o personagem em questão é "professor-doutor do Instituto de Economia da UFRJ". Pergunto-me qual a qualidade de certos doutores da academia.
Eis trechos da matéria, com poucos comentários meus:
Re-visões do desenvolvimento
João Sicsú
Carta Maior, 15/07/2010
Os últimos 20 anos marcaram a disputa de dois projetos para o Brasil. Há líderes, aliados e bases sociais que personificam essa disputa. De um lado estão o presidente Lula, o PT, o PC do B, alguns outros partidos políticos, intelectuais e os movimentos sociais. Do outro, estão o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), o PSDB, o DEM, o PPS, o PV, organismos multilaterais (o Banco Mundial e o FMI), divulgadores midiáticos de opiniões conservadoras e quase toda a mídia dirigida por megacorporações.
PRA: Um economista pretende servir ao governo mantendo a ilusão de que o mundo, o Brasil, o cenário político se dividem em bonzinhos e malvados, em gregos e goianos, em brancos e pretos, entre os que carregam todas as virtudes e os que são responsáveis por todos os vícios da economia e da política brasileira. Apenas este começo já serviria para desqualificar um artigo pretensamente sobre o "desenvolvimento" como lixo político.
O primeiro mandato [de Lula] estava contaminado por “heranças” do período FHC. Eram “heranças” objetivas, tal como a aguda vulnerabilidade externa, e “heranças” subjetivas, ou seja, ideias conservadoras permaneceram em alguns postos-chave do governo. O presidente Lula fez mudanças importantes no seu segundo mandato: trocou o comando de alguns ministérios e de instituições públicas. E, também, implementou programas e políticas claramente opostos à concepção do seu antecessor. Um exemplo foi o lançamento, no início de 2007, do Programa de Aceleração do Crescimento (o PAC), muito criticado pelos oposicionistas, mas que foi a marca da virada para um projeto de governo com contornos mais desenvolvimentistas.
PRA: A má-fé e a mentira desse articulista a soldo são inacreditáveis. A prepotência, a arrogância e o autoritarismo no plano das ideias sao evidentes, pois o objetivo era acabar com "ideias conservadoras" em postos-chaves do governo (entre os quais o seu próprio, talvez).
"O projeto implementado pelo PSDB e seus aliados no período 1995-2002 tinha as seguintes bases econômicas:
(1) estabilidade econômica, que era sinônimo, exclusivamente, de estabilidade monetária, ou seja, o controle da inflação era o único objetivo macroeconômico; (2) abertura financeira ao exterior e culto às variações da taxa de câmbio como a maior qualidade de um regime cambial; (3) busca do equilíbrio fiscal como valor moral ou como panaceia, o que justificava corte de gastos em áreas absolutamente essenciais; e (4) privatização de empresas públicas sem qualquer olhar estratégico de desenvolvimento.
E os objetivos econômico-sociais eram: (1) desmantelamento do sistema público de seguridade social; (2) criação de programas assistenciais fragmentados e superfocalizados; e (3) desmoralização e desmobilização do serviço público."
PRA: Como era perverso e vendido o governo FHC! Como ele pretendia desmantelar o Estado e entregar nossas riquezas ao estrangeiro! Como ele era estúpido na busca da estabilidade econômica! Como ele podia ser tão ruim?
A fraude acadêmica atinge aqui um dos pontos mais baixos a que já assisti em artigos publicados. Poucas vezes se consegue deparar com ajuntamento de palavras tão estúpidas como nesse trecho.
"A dívida líquida do setor público, como proporção do PIB, cresceu de uma média, por ano, no primeiro mandato do presidente FHC de 32,3% para 50,7% no seu segundo governo. A média esperada dessa relação no segundo mandato do presidente Lula é de 42,7%."
PRA: A fraude persiste: o autor desonesto dessas linhas não menciona que o governo FHC teve de lidar com duas dezenas de bancos estaduais falidos pela má-gestão de governos irresponsáveis, e teve de absorver bilhões de reais em buracos financeiros de estados e municípios, procedendo a uma gigantesca negociação das dívidas públicas, federalizadas a um custo enorme para o país. Sem falar de todos os esqueletos deixados no armário pelas gestões precedentes. A desonestidade do autor é inqualificável para um acadêmico.
Fico por aqui, pois apenas esses trechos dão uma ideia do lixo moral com que estamos lidando.
Eu me pergunto até onde o Brasil caminhará no sentido da desqualificação intelectual de gestores públicos, até onde a mediocrização acadêmica alcançará o debate público. Até quando a mentira, a fraude deliberada, a degradação moral na manipulação de números e dados vão continuar.
A degringolada intelectual (se este adjetivo se aplica) e a desonestidade acadêmica são realmente inacreditáveis no Brasil atual.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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