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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Diplomatizzando: postagens mais acessadas da semana

Postagens mais acessadas da semana encerrada em 21/04/2020

Brasilia, 60 anos - Ronaldo Poletti, presidente do IHG-DF

Por ocasião do 60. aniversário de Brasília, agora uma senhora sexagenária – exposta, portanto, aos perigos do Covid-19, pois já entrada no grupo de risco –, o presidente do Instituto Histórico e Geográfico, Ronaldo Poletti, escreve uma mensagem, para preencher o espaço de uma reunião agora dispensada, dadas as agruras do momento, sobre o significado da data.
Um dos membros envia seu poema em homenagem à cidade.
Paulo Roberto de Almeida

BRASÍLIA, 60 ANOS!

O Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal celebra o aniversário de Brasília, e lembra seu patrono Juscelino Kubitschek, o fundador da cidade. E registra a memória dos que criaram a entidade em 1964, pensada desde 1960. Muitos membros do IHGDF foram pioneiros na epopeia da construção da cidade pelo povo vindo de todos os rincões da Pátria. 
Brasília será sempre a expressão da unidade brasileira e o centro da política decorrente de todas as regiões do nosso imenso território, na realização de nosso destino.
No dia de hoje, as circunstâncias impedem a cerimônia que havíamos programado. Porém, todos os sócios acadêmicos estão reunidos, espiritualmente, para a comemoração da efeméride, e cumprimentam todos os habitantes de Brasília, os quais têm sabido continuar a realização do sonho iniciado há 60 anos.
Parabéns a Brasília e a todos nós.
Ronaldo Poletti
Presidente

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Aos Prezados Companheiros do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal

Tenho motivos de sobra para celebrar os Sessenta 
Anos desta cidade.
Cheguei com meus pais 
em Brasília, no dia 19 de outubro de 1959. 
Nasci no Espirito Santo mas aqui vivi mais de 4/5 da minha vida e 
acompanho a sua História desde então.
Meu pai é Cidadão Honorário de  Brasília.
Todas as minhas 
filhas nasceram aqui.
É o meu mundo. É a minha cidade.

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Adonias Santiago,  21 de abril de 2020.  

 BRASÍLIA, MEU TESOURO, MEU LUGAR

Brasília. Minha maravilhosa cidade
Tem especial beleza, valor e energia.
Aqui, no coração do Brasil, é realidade
Que me enche de orgulho a cada dia.

Brasília é feita de gente que trabalha,
Que luta pela vida e se sustenta
Com honestidade e brio que se espalha
Em qualquer lugar que se apresenta

Brasília, marca e símbolo da humanidade,
É a meta de quem busca um novo tempo.
Cidade para quem quer ter oportunidade
De crescer e dar à existência novo alento.

Por isso, ao completar sessenta anos
Vamos todos, de coração alegre celebrar
Esta data especial da cidade que amamos,
Que é Brasília, Meu Tesouro, Meu Lugar.

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terça-feira, 21 de abril de 2020

Consequências geopolíticas da pandemia Covid-19 - Paulo Roberto de Almeida

Nova postagem, na medida em que o debate sobre o Covid-19 assume importância cada vez mais em nosso país. Mas o artigo trata apenas dos aspectos históricos e internacionais da questão.

Consequências geopolíticas da pandemia Covid-19

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: debate público; finalidade: esclarecimento pessoal] 

Grandes mudanças nos equilíbrios econômicos e políticos em escala global costumam ocorrer em consequência de eventos ou processos de grande impacto nacional e mundial: desastres naturais – catástrofes da natureza, epidemias, justamente – e, mais frequentemente, guerras civis e revoluções (domésticas) e guerras entre Estados. Estas são mudanças que podem ocorrer em curto ou médio prazo, e podem ajudar, ou postergar, mudanças “naturais” que já vinham ocorrendo mais gradualmente, sob o peso da demografia, dos grandes deslocamentos de populações – invasões “bárbaras” no Ocidente entre a Antiguidade e a Idade Média, por exemplo – e, mais frequentemente, como resultado de avanços materiais e progressos tecnológicos, que alteram, gradual ou repentinamente, os modos de produção e de intercâmbio entre sociedades e regiões inteiras: disseminação de novas culturas e criações (intercâmbio de espécies nos grandes espaços abertos, como descrito por Jared Diamond em seu clássico Armas, Germes e Aço), invenções práticas (arado, contabilidade de partida dobrada, caravelas, revolução científica, máquinas a vapor, motor a explosão, válvulas, transistores, etc.) e novidades nos meios de intercâmbio (moeda, lettera di câmbio na Idade Média, bill of exchangetelegráfico no século XIX, transações financeiras instantâneas na era contemporânea). Dentre as grandes calamidades epidêmicas, permanecem paradigmáticas, na história da humanidade, a Peste Negra na Europa do século XV – que, contraditoriamente, representou um crescimento da produtividade econômica, ao diminuir a população total – e a “Gripe espanhola”, em 1918-19, que pode ter vitimado entre 50 e 10 milhões de pessoas.
Existem outras mudanças, de natureza contingente ou conjuntural, que também podem alterar profundamente as relações entre Estados, impérios, nações, tanto quanto a evolução interna das sociedades, ações que são o resultado de decisões de dirigentes, atuando sob o impacto de paixões momentâneas, cálculos estratégicos ou pressão das circunstâncias: guerra de Troia, queda de Roma imperial, expansão árabe do islamismo e cruzadas vindas da Europa cristã, invasão mongol do império Song, guerras entre impérios bizantino e persa, invasão otomana do Império Romano do Oriente e nas franjas balcânicas da Europa e na África do norte, e, finalmente, expansão europeia a partir dos Descobrimentos e consequente dominação ocidental sobre o resto do mundo pelos cinco séculos seguintes (até a Segunda Guerra Mundial pelo menos). Acredito que se possa colocar entre essas mudanças de tipo contingente a decisão de um novo Secretário-Geral do PCUS da União Soviética de não continuar preservando as estruturas atrasadas do planejamento centralizado e o duro regime de censura autocrática do Partido. A implosão subsequente do socialismo na Europa foi a “grande transformação” na política e na economia global desde a Grande Guerra, da qual tinha justamente emergido a contestação bolchevique à economia capitalista e às democracias de mercado. Estas são as grandes mudanças de impacto monumental nos últimos três mil anos (desde a guerra de Troia, tão mítica quanto possa ser), ou desde os impérios romanos (república e império) e chineses (várias dinastias sucessivas), até o século XX. 
Ao lado dessas mudanças “objetivas”, existem as grandes mudanças “imperiais” que resultam de choques entre pretensões hegemônicas concorrentes, em diversas regiões: no caso da Europa, o chamado “equilíbrio de potências” do final do século XIX foi precedido de guerras devastadoras entre os impérios britânico, francês, dos Habsburgos, dos czares e muitos outros. A Revolução francesa de 1789 – independentemente do fato objetivo que ela atrasou relativamente o capitalismo na França, segundo Hobsbawm, quando a Grã-Bretanha surfava praticamente sozinha na onda da primeira revolução industrial – representou, em seus muitos episódios e desdobramentos – sob o Diretório, Consulado e Império napoleônico –, a maior alteração conhecida até então naquela ponta da Eurásia: guerras napoleônicas, com o fim do Império Romano Germânico, da Liga Hanseática, impacto nas dinastias da península ibérica e, a partir daí, nas suas colônias do Novo Mundo, que caminharam uma a uma para a independência política, depois das treze colônias da América do Norte pouco antes. 
A segunda revolução industrial sinalizou o processo que os economistas historiadores chamam de “Grande Divergência”, ou seja, o aprofundamento da distância entre as nações industrialmente avançadas e as dependências coloniais e nações periféricas que preservaram essa status praticamente até a contemporaneidade; apenas recentemente, a partir da terceira onda da globalização (desde os anos 1980), o processo se encaminha para uma Convergência que atinge mais decisivamente os novos países industriais que se inseriram nas grandes cadeias de valor da nova interdependência global. Mas, o evento ainda mais decisivo para uma alteração radical nas relações interimperiais e entre grandes economias foi representado pela Grande Guerra (1914-1918), que modificou profundamente não apenas a geopolítica do mundo contemporânea, mas também as bases de funcionamento da economia global. Ao lado das demais mudanças políticas – fim de impérios: alemão, austríaco, russo, otomano; criação de novos Estados, no quadro dos princípios wilsonianos das negociações de 1919 –, o que repercutiu gravemente pelo resto do século foi a intervenção estatal na vida econômica, com toda a panóplia do regulacionismo intrusivo e da assunção pelo Estado de inúmeros setores de interesse público: não apenas energia, transportes e comunicações, mas também indústrias ditas “estratégicas”. 
O multilateralismo nascente, na Liga das Nações, não foi capaz de evitar o crescente apelo ao nacionalismo econômico, ao protecionismo, às políticas de “beggar-thy-neighbour” (empurre a crise para o seu vizinho). Foi o que justamente ocorreu a partir da crise da bolsa de Nova York, em outubro de 1929 (aprovação de novas tarifas americanas, em 1930), mas sobretudo a partir da quebra de bancos em 1931, que precipitou o mundo numa nova e gigantesca crise: fim da conversibilidade, restrições quantitativas, desvalorizações agressivas e, enfim, a Grande Depressão que se arrastou praticamente até a Segunda Guerra Mundial. Esta precipita movimentos que já tinham começado na Grande Guerra: erosão paulatina dos grandes impérios europeus e emergência de duas grandes potências antagônicas, que vão marcar os quarenta anos seguintes de Guerra Fria, sob o signo do terror nuclear e da oposição irredutível entre o mundo socialista e o capitalista, com um Terceiro Mundo espremido entre os dois. A grande divisão geopolítica do mundo, resumida nas obras clássicas de John Lewis Gaddis, nunca representou, na verdade, um congelamento do poder mundial, pois que outras potências, grandes e médias, continuaram emergindo e alterando gradualmente o verdadeiro nervo central dos equilíbrios mundiais, o poder econômico, os novos “Estados comerciais”, na caracterização de Richard Rosencrance (Rise of the Trading State: Commerce and Conquest in the Modern World; mais aplicável a Japão, Alemanha e outros).
A ordem econômica multilateral de Bretton Woods seguiu uma trajetória de sucesso a partir do segundo pós-guerra, com percalços eventuais, sobretudo representado pela quebra do padrão ouro-dólar (1971-73) e suas crises habituais absolutamente “normais”: do petróleo (1973-79), da dívida externa dos países emergentes (1982-90), das crises financeiras dos países asiáticos e da Rússia (1997-98), com seus efeitos no resto do mundo. A crise de 2008-09, precedida da bolha imobiliária e das instituições financeiras (2007-08), esteve mais centrada nos próprios países avançados, num momento em que a China já despontava como a segunda grande potência econômica mundial, ao lado dos velhos parceiros-inimigos do CSNU, que são também as potências nucleares “autorizadas”.
Cabe agora contemplar o cenário atual, absolutamente inovador por causa da irrupção da pandemia do Codiv-19, cuja “globalidade” deve provocar imensos efeitos econômicos em todo o mundo e também mudanças geopolíticas no momento imprevisíveis, mas que podem confirmar certas tendências já presentes na fase pós-Guerra Fria. Nos 30 anos seguintes, o mundo parecia se encaminhar para um cenário de “convivência pacífica” entre grandes contendores econômicos, comerciais e tecnológicos, ou seja, a substituição da antiga Guerra Fria geopolítica da era nuclear para uma nova Guerra Fria Econômica, que teria tudo para se desenvolver de modo relativamente harmônico, não fossem as novas tendências surgidas a partir do relativo declínio das antigas potências industriais do século XX. Observadores otimistas – como Niall Ferguson, por exemplo – chegaram a cunhar o termo de “Chimerica”, que seria uma espécie de osmose entre as duas grandes economias planetárias, absolutamente complementares entre si, e que poderiam, se animadas pelos princípios cooperativos do multilateralismo econômico – Gatt-OMC, instituições de Bretton Woods, Ocde, etc. – contribuir para uma nova fase de prosperidade universalmente partilhada por países ricos, emergentes e em desenvolvimento, assim como ocorreu nas “trinta gloriosas”, as três décadas de crescimento contínuo no pós-Segunda Guerra, mas que beneficiaram mais os países avançados do que os socialistas (et pour cause) ou os países “subdesenvolvidos”. 
Infelizmente essa perspectiva de um reforço na interdependência global não se materializou, em virtude da introversão dos países ricos, em especial os EUA, no novo protecionismo comercial (mais padrões do que tarifas), no nacionalismo xenofóbico, nas políticas tendentes a preservar suas estruturas industriais já condenadas desde o declínio da segunda revolução industrial. Depois da fase otimista da “globalização”, o mundo caminhou para uma “desglobalização” moderada, até a irrupção catastrófica do Codiv-19 a partir do final de 2019, mas que só revelou toda a sua extensão nos primeiros meses de 2020. O que pode ocorrer a partir de agora, em termos de impacto na economia global, no emprego e na renda de centenas de milhões de pessoas, na política de diferentes regimes ao redor do mundo, é propriamente imprevisível, mas algumas tendências poderiam ser sinalizadas. 
Não há por que subestimar o impacto amplamente catastrófico da pandemia atual, em termos humanos, sociais e econômicos, mas existem, igualmente, consequências geopolíticas do Covid-19, com incidência progressiva ou continuada em termos de mudanças no cenário global, principalmente quanto aos papeis globais dos EUA e da China. Esta vem sendo acusada de responsável pela disseminação do elemento vetor, que se converteu na maior pandemia conhecida na história da humanidade, com capacidade de superar, talvez, em incidência, a chamada “gripe espanhola”, ainda que não dotada, provavelmente, da mesma letalidade que o influenza de cem anos atrás. No plano estritamente técnico, cabe registrar que o regime autoritário chinês pode, sim, ser acusado de ter postergado as primeiras reações ao novo vírus em sua província central, mas, uma vez aferida a seriedade e gravidade desse desafio, atuou prontamente, em bases científicas e em total cooperação com a OMS, para lugar contra seus efeitos mais nefastos em seu próprio território e em direção dos demais países. A hostilização ideológica da ditadura chinesa não contribui em praticamente nada para o esforço conjunto de combate à pandemia, tanto porque os ensinamentos e lições derivadas do dramático episódio chinês podem servir, e em alguns casos estão sendo, de aprendizado a novos países afetados pelo mesmo mal. A centralização dos esforços e a rápida introdução de medidas coercitivas de isolamento, de controle, prevenção e remissão dos vetores constituíram, possivelmente, para o virtual corte nas novas fontes de contaminação, sendo que novos casos detectados são todos importados. Ou seja, depois de estar na origem da pandemia, a China passa a oferecer know-how, cooperação técnica, equipamentos e pessoal aos países afetados, com destaque para a Itália e o próprio Brasil.
O que parece relativamente certo é que, sendo a epidemia global, sua reversão não se fará facilmente em bases puramente nacionais ou exclusivamente autocentradas, o que pode dificultar a necessária coordenação e cooperação entre países e organismos internacionais. Aqui se situam as possíveis consequências geopolíticas do Codiv-19, e tal perspectiva se situa inteiramente na capacidade de projeção externa das grandes economias do mundo atual, a partir de uma sólida base nacional. Desde os tempos nos quais a Grã-Bretanha se constituiu como o berço e o motor da primeira revolução industrial, não se assistia a uma mudança tão rápida na geopolítica do poder mundial. A Royal Navy exerceu uma preeminência notável sobre quase todos os oceanos no decorrer do século XIX, assim como a libra britânica e a City de Londres se constituíram na base incontornável dos grandes fluxos e circuitos de comércio, de investimentos, de finanças internacionais durante mais de um século, enquanto a Europa ocidental se alçava na liderança do mundo na passagem para a segunda revolução industrial (que também foi a era dos impérios e colonialismo contemporâneo). A Alemanha caminhou rapidamente para estabelecer sua supremacia no continente, e ao fazê-lo, devido à natureza de seu regime político, foi responsável por três guerras – começando pela de 1870, mas se prolongando mais enfaticamente em 1914 e 1939, a “segunda guerra de Trinta Anos” – que justamente destruíram o poderia europeu sobre resto do mundo, abrindo o caminho para a emergência dos dois grandes da era nuclear. 
Os Estados Unidos emergiram como a grande potência econômica e tecnológica no bojo da segunda revolução industrial e recuperaram, parcialmente, o papel econômico da Grã-Bretanha no comando da economia mundial no decorrer do século XX. Sua emergência como potência militar se dá apenas no decorrer e após a Segunda Guerra Mundial, mas sua base econômica continuou declinando relativamente, pari passu à emergência de novos competidores: Alemanha, Japão, e desde o início do novo milênio, a China. O fato de a atual liderança política nos EUA estar retrocedendo o país para um tipo semelhante – não similar – de isolacionismo como o conhecido no entre guerras pode acelerar o declínio relativo da potência hegemônica do pós-Guerra Fria, que o historiador Niall Ferguson gostaria que assumisse, como novo Colossus, o papel anteriormente exercido pelo Empire britânico. Este é um fato objetivo, confirmado pelas tendências detectadas no período recente, assim como pelas políticas implementadas no país, ambas coincidentes no retrocesso à introversão. 
Mais importante ainda, em termos geopolíticos, são duas outras tendências que podem ser detectadas em dois ambientes paralelos na governança dos grandes impérios, dois típicos símbolos do poder estatal, exemplificados nas figuras que Raymond Aron identificava como os personagens centrais desse poder: o soldado e o diplomata. O primeiro, sabe-se desde as lições de Clausewitz, representa a ultima ratio da defesa e da projeção do poder do Estado; o segundo também emerge na mesma época, ou seja, o Congresso de Viena, como o enviado formal e regular para administrar as relações cooperativas, ou seja, amistosas, e não bélicas, entre os países. O diplomata é uma espécie de acadêmico que está a serviço dos governos, ao passo que o soldado é o braço armado do Estado, para ser usado apenas em última instância. 
Paradoxalmente, a arrogância imperial faz com que a paranoia normal dos militares – que é necessária por pura coerência com os seus propósitos, de dissuadir e de ameaçar – seja projetada igualmente entre acadêmicos e diplomatas, com o que se constrói um ambiente pouco propenso à construção da interdependência global que deveria abrir uma nova era de prosperidade para o mundo. Ao eleger a China, não como mera concorrente tecnológica ou militar, mas como “adversária estratégica”, os paranoicos do Pentágono podem estar dando início a uma nova corrida armamentista, como já houve tantas no passado – entre Roma e Cartago, entre os impérios centrais que precipitaram a Grande Guerra, entre a URSS e os EUA, na Guerra Fria – e que pode desviar importantes recursos econômicos numa conjuntura de esgotamento dos Tesouros nacionais para cuidar do declínio demográfico e da pressão competitiva dos mercados emergentes. Por outro lado, a adesão de diplomatas e acadêmicos a essa visão confrontacionista do ambiente internacional impede, paralelamente, ou pelo menos retrasa, a integração econômica e cultural do mundo, tal como construída pela globalização microeconômica, aquela conduzida por empresas e indivíduos (em contraposição ao segundo tipo de globalização, a macroeconômica, isto é, aquela administrada por governos e entidades internacionais, e que pode ser, na verdade, uma antiglobalização).
Tal como eu vejo o atual cenário mundial no plano geopolítico, creio que as atuais tendências e políticasnacionalistas em ação em importantes países do Ocidente – uma manifestação que vem sendo identificada com o paranoico fenômeno do antiglobalismo – farão retroceder a interdependência global, mas elas serão tanto mais prejudiciais às economias nacionais quanto mais seus dirigentes adotarem o recurso ao nacionalismo protecionista. Na outra vertente do mundo, defendendo resolutamente a globalização, o livre comércio, a abertura aos investimentos – ainda que fazendo um uso malicioso das regras multilaterais que eventualmente regulem essas áreas, e recorrendo também a práticas desleais nos mercados globais –, situa-se a China atual, lançada com ardor na nova interdependência, embora agora temporariamente afetada pelo seu terrível surto epidêmico (em remissão). Como interpreto o curso da atual Guerra Fria Econômica em curso no mundo – com suas evidências tópicas simbolizadas pelo Belt and Road, 5G, conflitos em termos de propriedade intelectual de inovações tecnológicas, práticas desleais de comércio, etc. – aplicando, como se deve, justamente os critérios de tendências e políticas, acredito que a China já emergiu dessa “guerra” como a vencedora indiscutível nesse processo, uma vez que ela apresenta tendências e políticas coincidentes e conducentes com os requerimentos da globalização no seu presente estágio de desenvolvimento. A pandemia pode frear moderadamente o ritmo desse processo, mas assim como a Europa emergiu mais forte e mais produtiva da sua terrível experiência com a Peste Negra, acredito que a China emergirá mais capacitada, mais bem dotada de know-how, experiência e conhecimento, ou seja, melhor preparada para enfrentar eventuais choques entre impérios, fricções normais no longo caminhar do processo histórico.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 19 março 2020.


Livros que nunca lerei - Arturo Pérez-Reverte (O Estado da Arte)



Pérez-Reverte: Livros que nunca lerei


Este ensaio, ‘Libros que nunca leeré’, foi originalmente publicado em espanhol nas páginas da XLSemanal. Com toda sua gentileza, don Arturo Pérez-Reverte autorizou a tradução e publicação de seu ensaio aqui em nosso Estado da ArteTradução de Gilberto Morbach.……………….

Livros que nunca lerei

por don Arturo Pérez-Reverte
É uma tarde tranquila de inverno, com reflexos do sol sob as árvores. Caminho pela Cuesta de Moyano, detendo-me nas banquinhas de livros de segunda mão que a esta hora estão abertas. São poucas e isso me entristece. Um dia com tão boa temperatura, uma hora agradável, e não há quase ninguém aqui. Paro para olhar os balcões, converso com os livreiros. Em todos, encontro poucas esperanças de que isso tudo sobreviva. Uma veterana, experiente no negócio, diz que “nos restam dois telediarios”,* e eu compartilho do pessimismo. Acabarão colocando aqui, suponho, bares de tapas ou algum tipo de artesanato de rua; e então, seguramente, o lugar estará cheio. No momento, a falta de interesse do público, a indiferença dos políticos, os tempos que passam, tudo isso sentencia a médio prazo esta joia da cultura madrilena; este paraíso dos leitores onde, pelo preço de duas cervejas, é possível levar, se se escolhe com cuidado, duas ou três boas edições de livros espetaculares. Aqui não há desculpas no sentido de que um livro é caro. Enquanto existir lugares como este, quem não lê não é porque não pode. É porque não quer.
…………….


La Cuesta de Moyano, fotografada por Juan Sardá

……….
Sou um velho caçador de livros, com todos os modos e instintos para ser. De modo que, nesta tarde, como sempre, movo-me pelas bancas com olhos atentos e dedos rápidos para encher minha bolsa, tão disposto quanto no dia em que, há cinquenta anos, cheguei em Madrid e comecei, livro a livro, a construir a trincheira em que vivo e sobrevivo: a biblioteca que cresceu pouco a pouco, primeiro para reconstruir a dos meus avós e meu pai, e logo se tornando mais pessoal e própria. A que me permitiu compreender o mundo complexo e violento pelo qual caminhei desde muito jovem e que, agora, multiplicada em centenas de estantes e milhares de livros, me permite digerir o quanto vivi. A que, combinada com aquilo que recordo e imagino, me ajuda a contar histórias e interpretar o mundo. Inclusive, a suportá-lo quando não me agrada. Essa biblioteca que é lugar de trabalho, refúgio e, como disse muitas vezes, analgésico: do tipo que não elimina as causas da dor, mas ajuda a suportá-la.
Nesta idade, como digo, é puro instinto. Necessidade compulsiva, ainda que já tenha este ou aquele título em uma edição diferente. Ler o velho papel que outros já leram, tocar as páginas tocadas por outras mãos, encher a bolsa que eu costumo trazer quando venho aqui: Círculo de Lectores, Editorial Molino, Colección Reno, Austral, etc. Já não sinto, claro, a emoção dos primeiros anos; essa vibração quase física de encontrar um título procurado ou descobrir outros que piscavam pra mim, prometendo fazer parte de minha vida e até mesmo muda-la: El diablo enamorado, Cuadros de viaje, La flecha de oro, Vidas paralelas, Sistema de la naturaleza, El buen soldado… Mas o impulso, a necessidade de acumular livros como a pega que busca objetos brilhantes pro seu ninho, isso não mudou. Sigo caçando, rápido, apaixonado, cheio de alegria. Então, em casa, esvazio a bolsa para colocar cada um em seu lugar com a companhia que lhe corresponda. Como esses quatro de Graham Greene que acabo de comprar por dez euros, ainda que já os tenha em outras edições, apenas porque o ex libris ali colocado faz pensar que sua proprietária — uma mulher, talvez já morta —, fosse quem fosse, sorriria consolada se me visse resgatá-los.
Às vezes, alguém que vê minha biblioteca pergunta se já li todos esses livros. A resposta é sempre a mesma: alguns sim, outros não; mas preciso que todos eles estejam aí. Uma biblioteca é memória, companhia e projeto de futuro, ainda que esse projeto não chegue a se completar jamais. Uma biblioteca mobilia, e define, uma vida. Estranho é não perceber o coração e a cabeça de um ser humano depois de um olhar minucioso sobre os livros que tem em casa, ou os que não tem. Por isso, não me lamento por aqueles que não lerei. Cumprem sua função, inclusive ali, quietos, silenciosos, alinhados com seus títulos em suas lombadas. Posso abri-los, folheá-los, percorrê-los devagar, coloca-los na mochila para uma viagem. E ainda que eu jamais chegue a ler muitos deles, terão cumprido sua missão. Sua nobre tarefa. Quando compreendi que nunca leria todos os livros que gostaria de ler, e aceitei essa realidade com resignada melancolia, mudou minha vida de leitor. Fez-se mais plena e madura, do mesmo modo em que, na primeira guerra que eu conheci, reconhecer que eu também poderia morrer mudou minha forma de ver o mundo. Os livros que eu nunca lerei me definem e me enriquecem tanto como aqueles que eu li. Estão ali, e eles sabem quem eu sei. Se sobreviverem ao tempo, ao fogo, à água, ao desastre, à estupidez humana, um dia serão de outra pessoa. E graças a mim, que tive o privilégio de resgatá-los de seus milhares de naufrágios, unindo-os à minha vida.
………


‘Librerie’, Giuseppe Maria Crespi, c. 1725

Nota:
Nota do tradutor: No espanhol, quando “le quedan dos telediarios” a alguém, significa que falta pouco para o fim. O Telediario é um tradicional programa de televisão que reúne as principais notícias do dia e dura por volta de meia hora.
Arturo Pérez-Reverte
XLSemanal 02.02.2020

Cinema gratuito (mas sem pipoca): entrevistas e documentários - Paulo Roberto de Almeida

Algumas video-entrevistas e documentários que vou redescobrindo, ao ser levado, mais do que o hábito, a frequentar esse cineminha particular do YouTube:

Entrevista ao jornalista Eumano Silva, do Metrópoles

Documentário do Plano Real 25 anos

Entrevista sobre a diplomacia brasileira e as relações internacionais

Crise no mundo. E o Brasil, como fica?

Apresentação-debate do livro Miséria da Diplomacia

Globalismo é uma mistificação, Olavo é um embuste

RBPI: itinerário de uma revista essencial

Sessão especial no Senado em homenagem a Roberto Campos:

Um anarco-liberal: entrevista à Sociedade Frederic Bastiat: 

A política externa paralela do lulopetismo diplomático

O Estudo das Relações Internacionais do Brasil

A Aliança dos Avestruzes, e os seus idiotas - Ishaan Tharoor (WP)


By Ishaan Tharoor
with Ruby Mellen
 Email 
The Washington Post, April 20, 2020

Trump aligns with the world’s ‘ostrich’ leaders

President Trump at the White House on Friday. (Leah Millis/Reuters)
President Trump at the White House on Friday. (Leah Millis/Reuters)
Last week, Oliver Steunkel, a Brazil-based political scientist, offered a new grouping for world leaders who refuse to take the coronavirus pandemic seriously. He tweeted about an “ostrich alliance” of strongmen with their proverbial heads in the sand, disregarding international advisories and local public health fears. They were, as later enumerated by the Financial Times and The Washington Post’s editorial page, Brazilian President Jair Bolsonaro, Nicaraguan President Daniel Ortega, President Alexander Lukashenko of Belarus and President Gurbanguly Berdymukhammedov of Turkmenistan.
These men are not only linked by their denial of the severity of the threat, but also by a seeming contempt for the panic and concerns of others. Long-ruling autocrat Lukashenko, who recently played in a hockey game before a crowd of spectators, described the global alarm over the virus as a “psychosis” and boasted that no one in his nation would die of covid-19. Ortega reemerged last week after a mysterious 34-day absence. His regime in Nicaragua has resisted imposing social distancing measures and dismissed the virus as an “imported” menace. In Turkmenistan, reports indicate that police have arrested people discussing the pandemic in public, while despotic Berdymukhammedov has refused to cancel a slate of public events, including the Central Asian nation’s annual Horse Day later this month.
Bolsonaro, meanwhile, has raged against the lockdowns imposed by his country’s state governors. And, after a weeks-long public feud, the president fired Health Minister Luiz Henrique Mandetta, who had repeatedly clashed with Bolsonaro over his hostility toward expert public health warnings.
“The move comes as hospitals and clinics teeter on the brink of collapse. Emergency rooms in Amazonas state are running at capacity, with 95percent of intensive care beds and ventilators occupied,” reported my colleague Marina Lopes. “Rio de Janeiro’s famed Maracana soccer stadium has been converted to a makeshift hospital to accommodate coronavirus patients. Gravediggers in the country’s largest cemeteries are working overtime to bury the dead.”



There’s a case to expand the roster of “ostriches.” A damning exposé by the Sunday Times found that British Prime Minister Boris Johnson skipped five major crisis meetings regarding the virus, focusing, instead, on other affairs, including a protracted divorce. British health workers still face critical shortages in protective gear and the country’s testing apparatus lags behind those of other major European countries. (After first embracing the idea of “herd immunity,” Johnson is now taking the pandemic more seriously, not least after emerging from his own bout with the virus.)
And there’s President Trump, who is bent on “opening up” the United States by May even as deaths and infections continue to rise. Public health officials, including some of Trump’s top lieutenants, have cautioned against easing restrictions without implementing widespread testing. Despite Trump’s insistence that his administration has built up adequate testing capacity, the numbers tell a different story, with the country still lagging behind many industrialized countries in tests per capita.
The administration says the country is conducting about 150,000 tests a day, but public health experts warn that number needs to be around 500,000 for it to make sense to ease restrictions. That looks improbable, so Trump has taken instead to lashing out at (the often Democratic) state governors who have balked at his demands to lift lockdowns and expressed incredulity at White House claims that testing has reached a sufficient level.
“That’s just delusional to be making statements like that. We have been fighting every day for PPE,” Virginia Gov. Ralph Northam (D) said Sunday, referring to personal protective equipment. “We have been fighting for testing. … We don’t even have enough swabs, believe it or not. And we’re ramping that up. But for the national level to say that we have what we need and really to have no guidance to the state levels is just irresponsible, because we’re not there yet.”
Trump’s daily coronavirus briefings have turned into spectacles of political grievance, with the president fuming against his opponents, asserting his “total” authority, and then playing the victim, at the whim of the country’s decentralized power structures. The difficulty in dealing with the Trump administration has led various state governments to form compacts with their regional neighbors to more efficiently source critically needed supplies and aid.

“The past two months only confirm that state reliance on the federal government during the pandemic is foolish (unless, perhaps, you happen to be a partisan ally of the White House),” wrote University of Chicago law professor Aziz Huq. “Absent effective national action, compacts permit coalitions of willing states to protect public health gains and prevent the backsliding that a precipitous economic reopening would allow.”
Trump may be setting the stage for a political showdown rather than an economic opening. He has already laid the blame for America’s predicament on China and the World Health Organization. On Friday, he tweeted calls to “liberate” a few states run by Democratic governors who were unwilling to lift lockdowns according to Trump’s desired timeline. Bewildered critics interpreted the tweets as a call for open insurrection from a sitting president.
“Trump has a populist’s sixth sense for exploiting the frustrations of the masses,” noted CNN commentator Frida Ghitis. “The shutdown has already destroyed tens of millions of jobs, leaving countless Americans bereft of income and afraid for the future. Trump doesn’t want to be held responsible for any of it.”