O que é este blog?

Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida;

Meu Twitter: https://twitter.com/PauloAlmeida53

Facebook: https://www.facebook.com/paulobooks

Mostrando postagens com marcador textos Paulo Roberto de Almeida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador textos Paulo Roberto de Almeida. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de maio de 2020

Dez coisas que aprendi ao longo da vida (2003) - Paulo Roberto de Almeida

Dez coisas que aprendi ao longo da vida
(e que nunca é demais lembrar porque nelas não se presta atenção)

Paulo Roberto de Almeida


1. Não se deve generalizar situações, tipos e ocorrências

2. Nunca se deve absolutizar avaliações e julgamentos.

3. Não se deve fazer previsões sobre comportamentos.

4. Não se deve deixar a religião interferir com a vida civil.

5. Os resultados são sempre mais importantes do que as intenções, mas os fins não justificam os meios.

6. Interpretações e diagnósticos são sempre parciais e limitados e as ideologias derivam diretamente deles.

7. A justiça distributiva deve ser praticada sobre os fluxos, não sobre os estoques. 

8. Direitos humanos não precisam ser “contemplativos”, eles podem ser “ofensivos”; o respeito das diferenças pode preservar situações de discriminação absoluta.

9. Soberania estatal é um conceito caduco no plano das liberdades individuais.

10. A educação deve ser obrigatória, contínua e de preferência complementada por formação humanista. 

Washington, 19 maio 2003

sábado, 23 de maio de 2020

Elogio da Exploração (1990) - Paulo Roberto de Almeida

Trinta anos depois que escrevi esse texto provocador – que depois foi incorporado a meu livro de quase uma década após; in: Paulo Roberto de Almeida, Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999) – alguém me lembrou dele, no Academia.edu. Vou transcrever novamente, na forma em que foi originalmente escrito.
Paulo Roberto de Almeida


ELOGIO DA EXPLORAÇÃO

Paulo Roberto de Almeida

Cinco séculos depois de Erasmo ter ousado proceder a um elogio da loucura (Encomium moriae) e cem anos após Paul Lafargue ter defendido o direito à preguiça (Le Droit à la Paresse), não deveria haver nada de muito surpreendente no fato de se pretender encontrar aspectos positivos na Exploração. Antes de ser mal interpretado, esclareço que estou referindo-me efetivamente à velha e abominável “exploração do homem pelo homem”.
Se existe algum elemento de verdade no conhecido apotegma, segundo o qual “existe apenas uma coisa pior do que ser explorado, que é a de não ser explorado”, a exploração deveria ter lugar assegurado no panteão das realizações humanas. Com efeito, ela se apresenta como um dos elementos de organização social de maior força agregadora e de maior vitalidade institucional. No entanto, a legitimidade da exploração sempre foi expurgada da memória social, constituindo-se numa espécie de mito fundador rejeitado universalmente pelo inconsciente coletivo. Apesar disso, ela parece ser estruturalmente necessária enquanto sustentáculo da vida social, surgindo historicamente como um verdadeiro requisito de civilização e como um componente indispensável de toda e qualquer sociedade dinâmica. 
Ao lado da Dominação, a Exploração é uma das forças mais poderosas que motivam o progresso social e o avanço material das civilizações, ao organizar a sociedade para o crescimento do produto em bases mais racionais e ao permitir, contraditoriamente, o surgimento de condições sociais favoráveis ao estabelecimento de uma maior igualdade de chances no conjunto da sociedade. 
Mas, antes de que se tome este exercício de crítica intelectual como uma mera provocação — o que ele, de certo modo, o é, efetivamente — devo esclarecer que pretendo tão somente oferecer algumas notas sobre os condicionantes históricos do desenvolvimento social como forma de sustentar um novo tipo de discurso sobre essa relação social tão execrada e no entanto tão generalizada, a ponto de ser verdadeiramente universal nas sociedades complexas. 
Mais do que um simples elogio, a Exploração requer explicação e compreensão, ou aquilo que em termos metodológicos weberianos se chamaria de Verstehen. Minha intenção é, sucintamente, de proceder ao alinhamento de uma série de proposições relativamente diretas — mas de cunho geralmente abstrato — e pedir a meus leitores que tentem encontrar contra-proposições historicamente credíveis e empiricamente sustentáveis. 
É evidente que os partidários da vulgata unilinear marxista sobre a sucessão dos “modos de produção” poderão desde logo argumentar com exemplos retirados da chamadas “sociedades primitivas”. A estes devo, no entanto, advertir que estou referindo-me a sociedades históricas, isto é, dotadas da mola do Progresso e aptas a retirar da atividade produtiva um excedente para investimento futuro e incremento das oportunidades de consumo. Apesar de que este modesto ensaio possa ser também considerado como um exercício de antropologia cultural, ele não pretende circunscrever seus argumentos a um determinado tipo de formação social, mas sim generalizá-los em função da categoria mais comum de sociedade histórica, que é aquela dividida em classes (incluídas neste conceito igualmente as que algum dia tiveram a pretensão de se considerar “socialistas”).
Sem pretender oferecer aqui a teoria e a prática da Exploração, as proposições de caráter abstrato que faço — procurando aproximar-me das categorias universais que Weber chamaria de Ideal-typus — são as seguintes:

1) Todas as sociedades organizam-se estruturalmente segundo uma relação mais ou menos estreita com o seu meio ambiente, mas é nas chamadas sociedades primitivas que a “ditadura da natureza” é mais marcada. Nas sociedades relativamente complexas, isto é, dotadas de meios técnicos suscetíveis de transformar o meio ambiente, a emancipação do Homem vis-à-vis a Natureza acarreta igualmente uma divisão sexual e social do trabalho, base ulterior da divisão da sociedade em classes. 
2) Todas as sociedades históricas são, ou foram, sociedades divididas em classes sociais, ou seja, sociedades organizadas com base em relações de dominação política e de exploração do trabalho produtivo. Não há exemplos, na antropologia ou na história comparadas, de sociedades históricas que não tenham sido, ao mesmo tempo, sociedades desiguais: nessas sociedades, uma determinada categoria de pessoas detém a capacidade de comandar outras pessoas (de fato, a maioria) e delas extrair recursos excedentes em termos de produção econômica.
3) A apropriação de excedentes econômicos produzidos pelas classes trabalhadoras (exploração), e a imposição de uma forma qualquer de comando autoritário sobre o conjunto da população (dominação), parecem obedecer a uma mesma lógica social: a monopolização, por parte de uma categoria de pessoas, de determinados bens raros, nesse caso representados pela Propriedade e pelo Poder. O conceito econômico de “raridade” — ou “escassez relativa” — parece apropriado para caracterizar tanto essa concentração do excedente disponível na esfera econômica como a monopolização do poder político em mãos de uma elite social.
4) A concentração e a centralização desses bens raros nas mãos de uma elite dominante são normalmente legitimadas por algum tipo de racionalização, já que aqueles processos não podem ser mantidos unicamente através do emprego constante (ou da ameaça de uso) da violência institucionalizada. Uma “ideologia da dominação” — que é, ao mesmo tempo, uma justificativa da exploração — tende assim a acompanhar todas as situações de desigualdade estrutural.
5) Nas sociedades de classe modernas e contemporâneas, a exploração assume principalmente a forma do desenvolvimento econômico, cuja característica essencial é a capacidade da sociedade de produzir inovações tecnológicas. Nas civilizações materiais organizadas com base na propriedade privada e no livre comércio (mercado), o desenvolvimento contínuo das forças produtivas deu origem a um verdadeiro “modo de produção inventivo”, transformando o progresso tecnológico em rationale da vida econômica e social.
6) A exploração nem sempre pode ser qualitativamente aferível: em todo caso sua percepção é, mais bem, de ordem subjetiva. Tampouco ela parece ser quantitativamente mensurável, embora exercícios marxianos tenham tentado medir tal indicador através da “taxa de mais valia”. Todas as avaliações estimativas no sentido de traduzir esse conceito na prática econômica corrente se viram, no entanto, frustrados por sérias dificuldades metodológicas e por barreiras empíricas não menos importantes.
 7) O sucesso relativo de uma nova forma de organização social da produção material significa, concretamente, uma maior disponibilidade de bens e serviços anteriormente raros ou de alto custo unitário; ele se traduz, igualmente, numa maior capacidade em exercer um controle ampliado sobre o meio ambiente societal. O modo de produção é tanto mais inventivo quanto ele conseguir transformar um maior número de bens raros em produtos e serviços de consumo corrente: sua funcionalidade social, em termos históricos, está precisamente nessa capacidade em atribuir um valor de troca a uma gama relativamente ampla de necessidades humanas.
8) Ao disseminar mercadorias e transformar ecossistemas, o progresso tecnológico cria desigualdades econômicas e sociais suplementares àquelas ordinariamente existentes, mas que são em grande parte o resultado de uma maior divisão social do trabalho e de uma crescente especialização de funções produtivas. A transformação criativa que deriva do modo de produção inventivo gera, igualmente, desequilíbrios sociais e regionais, que se traduzem não apenas em termos de obsolescência de meios de produção e de subutilização de recursos humanos, mas também na marginalização de regiões inteiras e sua subordinação econômica a centros mais desenvolvidos. Enquanto novos espaços sociais são incorporados aos circuitos da exploração, outros deixam de ser funcionalmente rentáveis na cadeia de expropriação de excedentes, ou seja, sua exploração já não é mais compatível com os custos marginais.
9) As relações desiguais de apropriação de bens raros não ocorrem apenas num âmbito puramente interclassista ou intra-societal, mas prevalecem igualmente num nível inter-societal, confrontando formações nacionais desigualmente dotadas em recursos e diversamente inseridas num mesmo sistema global. A exploração e a dominação não têm, assim, um caráter nacional exclusivo, mas a aplicação desses dois princípios a nível transnacional confunde-se, em muitos casos, com as relações desiguais que prevalecem internamente entre classes sociais.
10) A racionalização conceitual do desenvolvimento histórico e social, ao coincidir no tempo com a formação e o fortalecimento dos Estados-nacionais (séculos XVI-XVIII), impôs, a estes últimos, encargos e responsabilidades muito precisas em relação ao desenvolvimento concreto de suas sociedades respectivas. O estado do Progresso passou a exigir, cada vez mais, o progresso do Estado, tendência apenas minimizada nas formações sociais que atravessaram um processo relativamente completo de Nation making antes de ingressarem numa fase de State building.
11) Na época do Iluminismo, foram criadas legitimações doutrinárias e filosóficas à prática da exploração. Essas formulações ideológicas consubstanciaram-se, posteriormente, no pensamento liberal clássico, de que são exemplos, no plano econômico, os conceitos de “equilíbrio dos mercados”, da “mão invisível”, de “vantagens comparativas” ou de “laissez-faire”. A força doutrinária do pensamento liberal contaminou também as elites dominantes dos próprios países submetidos a alguma forma de exploração e de dominação, a tal ponto que a expropriação direta de recursos (espoliação colonial) ou a apropriação indireta de trabalho materializado (intercâmbio desigual) puderam ser justificadas pela sua funcionalidade em relação ao princípio do desenvolvimento material das sociedades envolvidas. Mas, mesmo um igualitarista radical como Marx viu na instituição colonial, ou seja, na incorporação de novas áreas à exploração capitalista, um grande fator de desenvolvimento material em sociedades mais atrasadas.
12) O debate contemporâneo sobre as origens do atraso de sociedades outrora colonizadas tendeu a ver na exploração e na dominação dessas sociedades uma das molas propulsoras do desenvolvimento nas formações dominantes e, inversamente, naqueles dois fenômenos os principais fatores de subdesenvolvimento nas primeiras. Em que pese a contribuição adicional desses fatores, ao lado da exportação de excedentes demográficos, para o avanço material das sociedades mais poderosas, as alavancas mais significativas no processo de desenvolvimento econômico e social dessas sociedades foram, e são, de ordem propriamente interna. Essas alavancas, que constituem condições prévias ao desenvolvimento sustentado, derivam de um conjunto de relações sociais condizentes com o modo inventivo de produção e situam-se, por assim dizer, na própria raiz da organização social da produção nessas sociedades. Inovação tecnológica e poder econômico constituem requisitos necessários ao - e não efeitos do - exercício da vontade imperial. 
13) A espoliação colonial e a dominação mundial não podem ser implementadas sem a capacitação intrínseca do pretendente, o que significa a existência de uma estrutura social e de recursos materiais e humanos compatíveis com a voluntas dominadora. Embora uma das fontes de “acumulação primitiva” possa ser constituída pela exploração de sociedades dominadas, esta não é nem o mais importante fator de avanço material das sociedades centrais, nem o requisito suficiente para o desenvolvimento contínuo destas últimas. A chamada “aventura colonial” foi antes uma busca de prestígio político do que um empreendimento econômico, envolvendo, na maior parte dos casos, custos superiores aos benefícios incorridos. 
14) A única forma de subtrair-se à exploração e à dominação de outrem, tanto no plano nacional como no das relações inter-societais, parece assim situar-se na auto-capacitação tecnológica e humana, o que vale dizer, dotar-se de seu próprio modo inventivo de produção, base material e fonte primária de poder econômico e político. A soberania, seja a individual ou a coletiva, deriva da faculdade de organizar a exploração e a dominação em bases propriamente autônomas, ou seja, criar o seu próprio fulcro de poder social. Em outros termos, a internalização dos efeitos sociais e econômicos da exploração e da dominação só pode ser obtida por meio da conversão de uma formação social em centro de seu próprio sistema nacional, dotando esta última de sua respectiva periferia.
15) As sociedades que conheceram rupturas violentas da ordem política, durante seu processo de modernização econômica e social, eram, via de regra, as menos desenvolvidas materialmente em relação a seu entorno geográfico, em suma, sociedades onde a exploração menos tinha feito progressos. Em termos históricos concretos, é a insuficiência de desenvolvimento capitalista, e não uma pretendida “super-exploração capitalista”, que abre as portas a revoluções burguesas e anti-burguesas. Isto é válido tanto para as revoluções burguesas “clássicas”, de que a francesa constitui o paradigma par excellence, como para as revoluções sociais na Rússia, na China e, mais perto de nós, no México.
16) As tentativas de superar a “democracia formal”, de caráter burguês, e de eliminar radicalmente a exploração de tipo capitalista, substituindo-as pela “democracia real” e pelo igualitarismo social, não conseguiram, nem mesmo no caso das experiências de cunho auto-gestionário, sequer arranhar o sólido edifício da exploração, logrando apenas destruir toda e qualquer possibilidade de governo democrático, sem adjetivos. Como diz a conhecida anedota, se o capitalismo é um sistema de exploração do homem pelo homem, sob o socialismo ocorre exatamente o inverso.
17) Da mesma forma, não se conseguiu até agora conceber, colocar em prática e fazer funcionar, efetivamente, qualquer sistema de organização social da produção que combinasse eficiência produtiva e equidade social, eliminando, total ou parcialmente, qualquer vestígio de exploração, isto é, que não fosse baseado num sistema de alocação de recursos e de redistribuição de excedentes caracterizado por um processo decisório autoritário e mesmo antidemocrático, em escala microeconômica. A propriedade coletiva dos meios de produção, que, junto com o “planejamento democrático” da produção, deveria garantir o desaparecimento definitivo de qualquer tipo de exploração social, não apenas deu início a formas disfarçadas (quando não abertas) de exploração dos trabalhadores diretos, como conduziu a um sistema eminentemente caracterizado pelo desperdício de recursos materiais e humanos (e, portanto, a uma maior exploração da sociedade, em seu conjunto) e marcado pelo florescimento de práticas políticas antidemocráticas, em escala macrossocial.
18) A experiência histórica indica que a difusão do desenvolvimento, em suas diversas formas materiais (incluindo suas manifestações culturais), emana sempre dos diversos centros de poder econômico e político. Os benefícios da acumulação revertem inevitavelmente aos mesmos centros, após ter o processo global de exploração cumprido sua missão histórica de amealhar recursos adicionais para a sociedade originalmente dominante. 
19) Não parece haver, pelo menos no horizonte histórico do sistema interestatal contemporâneo, alternativas válidas de afirmação nacional que logrem superar a assimetria estrutural da relação centro-periferia: ou as sociedades e nações dominadas conseguem transformar a exploração e a dominação em alavancas autônomas do seu próprio progresso econômico ou elas estão condenadas (num sentido propriamente hegeliano) a continuarem como meros objetos da História. 
20) No entanto, como todo processo histórico, a relação centro-periferia é eminentemente instável e perfeitamente mutável, tanto em seu contorno como em sua composição, podendo substituir atores, transformar cenários e ocupar novos palcos sociais. A História, absolutamente indeterminada, sempre oferece uma margem de liberdade, tanto aos homens quanto às nações.

As proposições alinhadas acima, deliberadamente provocativas, deveriam incitar sua contestação, tanto no plano lógico como no terreno histórico. É, aliás, desejo de seu autor que o presente “elogio da exploração” não seja simplesmente visto como um mero divertissement acadêmico, mas como uma tentativa de engajar a responsabilidade do intelectual na discussão de um tema essencialmente incômodo e altamente propenso a considerações de natureza ideológica. Tanto a crença liberal como a imaginação dialética deveriam se sentir desafiadas a descer na arena conceitual para expor seus próprios argumentos sobre a legitimidade histórica ou a inaceitabilidade moral desta realidade social que constitui a exploração. Pelo menos até aqui, ela parece estar empiricamente validada pelos laboratórios da história.
Deve-se finalmente acrescentar que, o “discurso realista”, de que estas notas constituem um simples exercício, encontra sérias objeções morais a nível da praxis política e social - num contexto nacional ou internacional - razão pela qual ele deve ser freado por princípios éticos suscetíveis de serem defendidos por lideranças político-partidárias e estadistas responsáveis. Não se deve esquecer, porém, de que a realidade subjacente a ele - ou seja, a estrutura das relações de exploração e de dominação - constitui o fundamento último e a razão imanente que sustentam a atuação dos Estados e elites dominantes em todas as épocas históricas.

Paulo Roberto de Almeida é Mestre em Economia Internacional, Doutor em Ciências Sociais e ex-Professor de Sociologia Política na UnB.
[Montevideo, 15/08/90]
[Relação de Trabalhos nº 194]
Inédito
Publicado in Paulo Roberto de Almeida, Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999).

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O mundo pós-pandemia: contextos políticos e tendências internacionais - debate Livres - Paulo Roberto de Almeida

Um dos textos que sempre preparo, e não leio, para os eventos em que sou convidado; texto de apoio para mais um debate organizado pelo jornalista Mano Ferreira, do Livres, na companhia do embaixador Rubens Ricupero e da economista Sandra Polonio Rios, em torno do tema-título: 

3670. “O mundo pós-pandemia: contextos políticos e tendências internacionais”, Brasília, 15 maio 2020, 13 p. 
Ensaio sobre os desenvolvimentos econômicos e políticos do mundo atual, para apoiar participação em debate online para o Livres, na companhia do embaixador Rubens Ricupero e da economista Sandra Rios, previsto para o dia 25/05, às 19hs. 
Disponível na plataforma Academia.edu; link:

O mundo pós-pandemia: contextos políticos e tendências internacionais
  
Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: notas para programa do Livres online; finalidade: divulgação pública]
  

Sumário: 
Adivinhos, oráculos e previsões
Mudanças e continuidades, com pandemias que vão e que voltam
Contextos nacionais e forças transnacionais
Globalização micro e macro: qual avança, qual recua?
Da Guerra Fria geopolítica a Guerra Fria econômica: quem perde, quem ganha?
Como será, então, o mundo pós-pandemia: muito diferente do atual?

Adivinhos, oráculos e previsões
A primeira observação que poderia ser feita em relação ao mundo pós-pandemia é, talvez, a de que, todos nós, palestrantes e audiência destes programas online, estaremos todos fartos destes programas online, e com razão. O que estamos assistindo, e participando, desde o início da quarentena, é a uma verdadeira inflação de programas como este, um grande dilúvio, de dimensões bíblicas, do qual talvez poucos poderão sobreviver como náufragos. Ou estaremos enfastiados, enjoados, com síndrome de rejeição destes programas online, ou então, ao contrário, teremos nos acostumado de tal forma, que dispensaremos, doravante, encontros presenciais, passagens, diárias, honorários, para fazer aqueles seminários de um dia, que na verdade nos tomavam três dias, entre a viagem de ida, a de volta e a necessária preparação para encontrar o que falar de minimamente inteligente nesses encontros físicos.
A segunda observação que eu gostaria de fazer, em toda sinceridade também, é a de que nós não sabemos, de verdade, como será o mundo pós-pandemia. Não somos como aqueles astrólogos que, todo início de ano, anunciam o seu lote de catástrofes, de mortes de pessoas famosas, terminando finalmente por dizer que, independentemente dessas pequenas ou grandes misérias, o ano que se inicia será certamente melhor do que aquele que acaba de se encerrar. (...)

Ler a íntegra neste link: 

domingo, 17 de maio de 2020

O declínio de uma nação - Paulo Roberto de Almeida


O declínio de uma nação 

Paulo Roberto de Almeida


Existem momentos, na vida de uma nação— que podem ser simples conjunturas, ou delongar-se num inteiro processo histórico —, nos quais a quase totalidade da classe dominante (que inclui dirigentes políticos, grandes capitalistas da cidade e do campo, banqueiros, líderes de sindicatos de patrões e de empregados, magistrados, militares de alta patente, “bispos” e pastores, intelequituais) resolve embarcar na “nau dos insensatos”, parodiando Barbara Tuchman.
Aí não tem jeito: é declínio na certa, que pode ser temporário ou uma decadência de longa duração.
Vejam por exemplo a Argentina: ela decai há mais ou menos 90 anos. Agora chegou a nossa vez de decair um pouco (ou muito).
Só tem uma coisa: lá atrás, a Argentina era cinco vezes mais rica do que o Brasil e tinha 70% do PIB per capita americano; atualmente, ela só é um pouquinho mais rica do que nós, mas continua decaindo.
Chegou a nossa vez de fazer-lhe companhia no declínio.
Não fiquem muito tristes: nossos netos, ou bisnetos, vão reverter um pouco a coisa.
O país não vai acabar: só continuaremos pobres, desiguais e deseducados por mais quatro ou cinco décadas.
De quem é a culpa?
Daquela classe dominante medíocre, e dividida, mas que embarcou junta na nau dos insensatos. Na verdade, já começamos a viagem lá atrás; só paramos num porto para recolher um novo capitão, porque o anterior foi preso por roubar os mantimentos do navio. O novo prometeu consertar os estragos, mas ainda não se percebeu que se trata de um psicopata estúpido.
Por enquanto, la nave va...

Paulo Roberto de Almeida
17/05/2020

sábado, 16 de maio de 2020

Sobre o verdadeiro Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida

Sobre o verdadeiro Itamaraty e o ataque de insanidade de que é vítima atualmente

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: debate; finalidade: em defesa do Itamaraty] 

Apenas um reparo, mas puramente formal— sem minimamente afetar o seu conteúdo, com o qual concordo inteiramente —, ao título da matéria de Rafael Moro Martins, jornalista do The Intercept Brasil, neste Sábado, 16 de maio de 2020: “A boçalidade infectou o Itamaraty”.
Eu corrigiria também o final: "O Itamaraty não está doente."
Não! Quem está doente, ou já era, são aqueles que o levaram a tal situação de prostração. Todos sabemos quem são, e eles não escaparão do julgamento da História, ou pelo menos da minha história.


Eu diria que o Itamaraty, enquanto corpo profissional de alta qualidade, permanece totalmente imune — digamos, a 99,9% — ao bacilo da ESTUPIDEZ e ao virus da BOÇALIDADE OLAVISTA, e seus quadros continuam capazes de produzir posições, posturas, subsídios a processos RACIONAIS de tomadas de decisão, nos métodos de trabalho e nos padrões de excelente qualidade técnica, que sempre foram os seus ao longo da história.
Os convertidos — mais por oportunismo sabujo, do que por crença verdadeira — ao ataque de boçalidade conduzido conjuntamente (mas de forma descoordenada, como é próprio dos personagens) pelo capitão desmiolado e seu suposto guru expatriado (o Rasputin de subúrbio, o subsofista da Virgínia), são muito poucos na outrora Casa de Rio Branco, talvez dois ou três, no máximo, entre os quais se incluem o chanceler acidental e seu chefe de gabinete.
Todos os demais diplomatas, ou dão continuidade normal a seus trabalhos, como sempre fizeram, ou permanecem silenciosos, esperando que o pesadelo termine. Alguns resolveram sair, pediram postos ou ficam enclausurados no silêncio.
Eu devo ser o único da ativa que ainda ousa falar abertamente, mas estou no limbo, lotado formalmente na Divisão do Arquivo, onde respondo a um Primeiro Secretário, de onde disparo estes meus petardos, recolhidos em meu “quilombo de resistência intelectual” (à estupidez e à boçalidade), que é o meu blog Diplomatizzando.
Alguns poucos, por vocação bajuladora, e/ou obsessão por promoção, por belos postos ou chefias remuneradoras, se deixam enredar no festival de patetices que emanam do Gabinete, na verdade controlado de fora, por dois ou três malucos, e amadores (pior que aprendizes) em política externa, anteriormente tutelados de longe por uma suposta “ala militar” que tampouco existe.
O Itamaraty de outrora, vibrante, participante, inteligente, converteu-se hoje em terra arrasada, sob o tacão dos ignaros que manipulam o chanceler acidental e seus subordinados.
Essa miséria destruidora da sua inteligência — como intitulei meu livro dedicado a estes tristes tempos, disponível livremente no meu blog — passará um dia, e vamos reconstruir a instituição em sua plenitude intelectual.
Os poucos que colaboraram ativamente na obra insana de desmantelamento de sua institucionalidade sentirão vergonha de terem servido de capatazes aos algozes de um momento, de uma fase que será superada. Eu pelo menos luto por isso, a que me obriga a minha consciência e minha honestidade intelectual.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16/05/2020


segunda-feira, 11 de maio de 2020

O legado de Henry Kissinger - Paulo Roberto de Almeida

O legado de Henry Kissinger

Paulo Roberto de Almeida

Não, o velho adepto da realpolitik ainda não morreu. Mas tendo completado 85 anos em maio de 2008, o ex-secretário de Estado e ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Henry Kissinger aproxima-se das etapas finais de sua vida. Seus obituários – não pretendendo aqui ser uma ave de mau agouro – devem estar prontos nas principais redações de jornais e revistas do mundo inteiro, e os comentaristas de suas obras preparam, certamente, revisões de análises anteriores para reedições mais ou menos imediatas, tão pronto este “Metternich” americano passe deste mundo terreno para qualquer outro que se possa imaginar (na minha concepção, deverá ser o mundo das idéias aplicadas às relações de poder). 
Talvez seja esta a oportunidade para um pequeno balanço de seu legado, que alguns – por exemplo Cristopher Hitchens, em The Trial of Henry Kissinger  querem ver por um lado unicamente negativo, ou até criminoso, como se ele tivesse sido apenas o inimigo dos regimes “progressistas” e um transgressor consciente dos direitos humanos e da autodeterminação dos povos. Ele certamente tem suas mãos manchadas de sangue, mas também foi o arquiteto dos acordos de redução de armas estratégicas e da própria tensão nuclear com a extinta União Soviética, além de um mediador relativamente realista nos diversos conflitos entre Israel e os países árabes, no Oriente Médio. Sua obra “vietnamita” é discutível, assim como foi altamente discutível – ou francamente condenável – o prêmio Nobel da Paz concedido por um simplesmente desengajamento americano, que visava bem mais a resolver questões domésticas do que realmente pacificar a região da ex-Indochina francesa. 
Pode-se, no entanto, fazer uma espécie de avaliação crítica de sua obra prática e intelectual, como reflexão puramente pessoal sobre o que, finalmente, reter de uma vida rica em peripécias intelectuais e aventuras políticas. Sua principal obra de “vulgarização” diplomática, intitulada de maneira pouco imaginativa Diplomacia simplesmente, deve constituir leitura obrigatória em muitas academias diplomáticas de par le monde. Seu trabalho mais importante, uma análise do Congresso de Viena (1815), é mais conhecido pelos especialistas do que pelo grande público, mas ainda assim merece ser percorrido pelos que desejam conhecer o “sentido da História”.
 O legado de Henry Kissinger é multifacético e não pode ser julgado apenas pelos seus atos como Conselheiro de Segurança Nacional de Richard Nixon, ou como Secretário de Estado desse presidente e do seguinte, Gerald Ford, quando ele esteve profundamente envolvido em todas as ações do governo americano no quadro da luta anti-comunista que constituía um dos princípios fundamentais da política externa e da política de segurança nacional dos EUA. Esse legado alcança, necessariamente, suas atividades como professor de política internacional, como pensador do equilíbrio nuclear na era do terror – doutrina MAD, ou Mutually Assured Destruction –, como consultor do Pentágono em matéria de segurança estratégica, e também, posteriomente a seu trabalho no governo, como articulista, memorialista e teórico das relações internacionais.
A rigor, ele começou sua vida pública justamente como teórico das relações internacionais, ou, mais exatamente, como historiador do equilíbrio europeu numa época revolucionária, isto é, de reconfiguração do sistema de poder no seguimento da derrocada de Napoleão e de restauração do panorama diplomático na Europa central e ocidental a partir do Congresso de Viena (1815). Sua tese sobre Castlereagh e Metternich naquele congresso (A World Restored, 1954) é um marco acadêmico na história diplomática e de análise das realidades do poder num contexto de mudanças nos velhos equilíbrios militares anteriormente prevalecentes. Depois ele foi um fino analista dessas mesmas realidades no contexto bipolar e do equilíbrio de terror trazido pelas novas realidades da arma atômica. Ele se deu rapidamente conta de que não era possível aos EUA manter sua supremacia militar exclusiva, baseada na hegemonia econômica e militar e no seu poderio atômico, sem chegar a algum tipo de entendimento com o outro poder nuclear então existente, a União Soviética, uma vez que, a partir de certo ponto, a destruição assegurada pela multiplicação de ogivas nucleares torna ilusória qualquer tentativa de first strike ou mesmo de sobrevivência física, após os primeiros lançamentos.
Daí sua preocupação em reconfigurar a equação dos poderes – aproximando-se da China, por exemplo – e em chegar a um entendimento mínimo com a URSS, através dos vários acordos de limitações de armas estratégicas. O controle da proliferação nuclear também era essencial, assim como evitar que mais países se passassem para o lado do inimigo principal, a URSS (o que justifica seu apoio a movimentos e golpes que afastassem do poder os mais comprometidos com o lado soviético do equilíbrio de poder). Numa época de relativa ascensão da URSS, com governos declarando-se socialistas na África, Ásia e América Latina, a resposta americana só poderia ser brutal, em sua opinião, o que justificava seu apoio a políticos corruptos e a generais comprometidos com a causa anti-comunista. Não havia muita restrição moral, aqui, e todos os golpes eram permitidos, pois a segurança dos EUA poderia estar em jogo, aos seus olhos. 
Ou seja, todas as acusações de Christopher Hitchens estão corretas – embora este exagere um pouco no maquiavelismo kissingeriano – mas a única justificativa de Henry Kissinger é a de que ele fez tudo aquilo baseado em decisões do Conselho de Segurança Nacional e sob instruções dos presidentes aos quais serviu. Não sei se ele deveria estar preso, uma vez que sua responsabilidade é compartilhada com quem estava acima dele, mas certamente algum julgamento da história ele terá, se não o dos homens, em tribunais sobre crimes contra a humanidade. Acredito, pessoalmente, que ele considerava as “vítimas” de seus muitos golpes contra a democracia e os direitos humanos como simples “desgastes colaterais” na luta mais importante contra o poder comunista da URSS, que para ele seria o mal absoluto.
O julgamento de alguém situado num plano puramente teórico, ou “humanista” – como, por exemplo, intelectuais de academia ou mesmo jornalistas, para nada dizer de juizes empenhados na causa dos direitos humanos ou de “filósofos morais” devotados à “causa democrática” no mundo –, tem de ser necessariamente diferente do julgamento daqueles que se sentaram na cadeira onde são tomadas as decisões e tem, portanto, de julgar com base no complexo jogo de xadrez que é o equilíbrio nuclear numa era de terror, ou mesmo no contexto mais pueril dos pequenos golpes baixos que grandes potências sempre estão aplicando nas outras concorrentes, por motivos puramente táticos, antes que respondendo a alguma “grande estratégia” de “dominação mundial”. Desse ponto de vista, Kissinger jogou o jogo de forma tão competente quanto todos os demais atores da grande política internacional, Stalin, Mao, Kruschev, Brejnev, Chu En-lai, Ho Chi-min e todos os outros, ou seja, não há verdadeiramente apenas heróis de um lado e patifes do outro. Todos estão inevitavelmente comprometidos como pequenos e grandes atentados aos direitos humanos e aos valores democráticos.
Não creio, assim, que ele tenha sido mais patife, ou criminoso, do que Pinochet – que ele ajudou a colocar no poder – ou de que os dirigentes norte-vietnamitas – que ele tentou evitar que se apossassem do Vietnã do Sul (e, depois, jogou a toalha, ao ver que isso seria impossível cumprir pela via militar, ainda que, na verdade, os EUA tenham sido “derrotados” mais na frente interna, mais na batalha da opinião pública doméstica, do que propriamente no terreno vietnamita). Ou seja, Kissinger não “acabou” com a guerra do Vietnã: ele simplesmente declarou que os EUA tinham cumprido o seu papel – qualquer que fosse ele – e se retiraram da frente militar.
Seu legado também pode ser julgado como “comentarista” da cena diplomática mundial, como memorialista – aqui com imensas lacunas e mentiras, o que revela graves falhas de caráter – e como consultor agora informal de diversos presidentes, em geral republicanos (mas não só). Ele é um excelente conhecedor da História – no sentido dele, com H maiúsculo, certamente – e um grande conhecedor da psicologia dos homens, sobretudo em situações de poder. Trata-se, portanto, de um experiente homem de Estado, que certamente serviu ardorosamente seus próprios princípios de atuação – qualquer que seja o julgamento moral que se faça deles – e que trabalhou de modo incansável para promover os interesses dos EUA num mundo em transformação, tanto quanto ele tinha analisado no Congresso de Viena.
Desse ponto de vista, pode-se considerar que ele foi um grande representante da escola realista de poder e um excelente intérprete do interesse nacional americano, tanto no plano prático, quanto no plano conceitual, teórico ou histórico. Grandes estadistas, em qualquer país, também são considerados maquiavélicos, inescrupulosos e mentirosos, pelos seus adversários e até por aliados invejosos. Esta é a sina daqueles que se distinguem por certas grandes qualidades, boas e más. Kissinger certamente teve sua cota de ambas, até o exagero. Não se pode eludir o fato de que ele deixará uma marca importante na política externa e nas relações internacionais – dos EUA e do mundo – independentemente do julgamento moral que se possa fazer sobre o sentido de suas ações e pensamento.
Por uma dessas ironias de que a História é capaz, coube a um dos presidentes mais ignorantes em história mundial (Ronald Reagan) enterrar, praticamente, o poder soviético com o qual Kissinger negociou quase de igual para igual durante tantos anos. Ele, que considerava o resultado de Viena um modelo de negociação – por ter sido uma paz negociada, justamente, não imposta, como em Versalhes – deve ter sentido uma ponta de inveja do cowboy de Hollywood, capaz de desmantelar o formidável império que tinha estado no centro de suas preocupações estratégicas – e que ele tinha poupado de maiores “desequilíbrios” ao longo dos anos. Seu cuidado em assegurar o “equilíbrio das grandes potências” saltou pelos ares com o keynesianismo militar praticado por Reagan, um desses atos de voluntarismo político que apenas um indivíduo totalmente alheio às grandes tragédias da História seria capaz. Talvez Kissinger tivesse querido ser o arquiteto do grande triunfo da potência americana, mas ele teve de se contentar em ser apenas o seu intérprete tardio. Nada mau, afinal de contas, para alguém que foi, acima de tudo, um intelectual...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 2 de junho de 2008

domingo, 10 de maio de 2020

A direita alternativa, simétrica à esquerda identitária - Nikos Sotirakopoulos

Este artigo é a melhor apresentação e análise que já li sobre o chamado movimento dito “alt-right”, ou direita alternativa, com o qual parece estar identificado  o atuL chanceler acidental, na esteira de seu desmiolado guru expatriado (seu patrão e protetor).
Pois bem, como argumenta o seu autor, um sociólogo de origem grega, professor numa universidade americana e autor de obras críticas sobre os movimentos identitários de direita, estes constituem a melhor antítese, e portanto são quase que perfeitamente simétricos, aos movimentos identitários de esquerda, ou aos racialistas negros, contra os quais se insurgem os atuais racialistas de direita, nazistas e supremacistas brancos de um novo tipo, também aderentes a uma espécie de “metapolítica”.
Quem diria? Nosso chanceler que se pretende um intelectual de direita, praticando as mesmas deformações subintelequituais que seus alegados opositores de esquerda, ambos aliados não intencionais nas mesmas causas obscurantistas e intelectualmente perversas, apenas que de sinal (aparentemente) trocado.
Vale ler, apesar de longo e puramente americano: se dirige também a uma realidade vivida atualmente por nós, no Brasil, ou pelo menos por nós, diplomatas profissionais, que vivemos sob a ditadura subintelequitual de um diplomata destrambelhado.
Este ensaio também deveria servir de lição reflexiva ao patético chanceler acidental, se ele obviamente se prestar a ler e a pensar, fora da caixinha do seu mestre da Virgínia, o Rasputin de subúrbio, que já foi chamado, de forma totalmente equivocada, de maior filósofo brasileiro da atualidade; não, não é; é apenas um louco, que leu muitos livros, e misturou tudo em sua cabeça disfuncional.
PS: grato a meu amigo Hugo Suppo, por ter me chamado a atenção para este importante artigo.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 10/05/2020


LONG-READ

The alt-right: identity politics on steroids

Today's white nationalists draw inspiration not from the Nazis, but from the identitarian left.

NIKOS SOTIRAKOPOULOS




Over the past five years, the ‘alt-right’ has been one of the most abused terms in Anglo-American political discourse. The label has been used to refer to a range of figures, from US president Donald Trump to best-selling psychologist Jordan Peterson, from any member of Boris Johnson’s cabinet to full-blown neo-Nazi thugs and avowed racists.
This stretching of the term is not only disingenuous — it is also dangerous. By making the alt-right a mundane catch-all smear, the hideousness and danger of the actual alt-right is hidden.
Such intellectual laziness has another negative outcome: it fails to understand the deeper reasons that gave breathing space to the alt-right. Because if we scratch the surface, we are in for a surprise: the alt-right is not the resurrection of Nazi Germany or the resurgence of the Ku Klux Klan, but the unwitting by-product of some of the dominant mainstream ideas of our time.
Over the past decade we have witnessed the development of various forms of anti mainstream conservatism and even a countercultural right. But the alt-right is a distinct phenomenon. It has certainly been a fellow traveller of the countercultural right, hence the appropriation of the term ‘alternative’ from 1960s hippiedom. And it received an initial boost by associating itself with the transgressive ethos and euphoria around Trump’s 2016 presidential campaign. Yet the alt-right should not be confused with people like Milo Yiannopoulos, Mike Cernovich, and other noisy figures and provocateurs who have been at the forefront of the culture wars. Rather, what differentiates the alt-right from the rest of the transgressive, anti-mainstream right is its distinctive racial worldview. And at the centre of its racial worldview lies white nationalism. 
For the alt-right, whiteness refers to an identity, to a culture, and to a race. Richard Spencer, the 41-year-old godfather and de facto spokesperson of the current alt-right movement, sums up this worldview as follows: ‘Race is real. Race matters. Race is the foundation of identity.’ This is why the alt-rightists proudly declare themselves to be ‘identitarians’.
According to the alt-right identitarian worldview, identity, in terms of one’s race, culture and heritage, defines who one is. This would mean that there is a white culture, a white history and, therefore, a white worldview; in short, a white mind. This is race tribalism at its purest. According to this view, individuals see themselves, others and the world around them through the prism of the group – in this case, the racial group. Using such a worldview, other groups are viewed with suspicion, or even hostility, and communication with them is difficult. After all, they have their own distinct worldviews and minds.
Do these themes sound familiar, and have we heard them elsewhere? As we will shortly see, the answer is yes.
Since different groups of people think, act and view the world in different ways, the next logical step, politically speaking, is segregation. Thus, Spencer and others in the alt-right movement envision the establishment of a white ethno-state, where the white race can fulfil its destiny. Such an ethno-state will be built on traditionalist values, and will reject many of the tenets of a supposedly alienating modern world.
Predictably, Spencer and the alt-right are sceptical of Enlightenment ideas and critical of the gains of modernity. The modern, Enlightenment view of individuals as sovereign agents, capable of making sense of the world through reason, which is universal and unrelated to race or identity, stands against everything that the alt-right stands for. Being philosophically opposed to individual agency and autonomy, most alt-rightists even have a disdain for capitalism, insofar as it manifests a form of individual freedom. As Spencer said in a video now removed from YouTube (as most of the material related to the alt-right tends to be), ‘a nation based on freedom is just another place to go shopping’. Despite some of its prominent members flirting with libertarianism in the early days of the alt-right, its politics are small n-and-s national socialist, and they apply in one state: the white ethno-state.
One of the ugliest parts of the alt-right, which links it to the dark tradition of national socialism, is its anti-Semitism. For Spencer, including Jews in the white ethno-state would be problematic, as ‘the preservation of their identity as Jews was and is contingent on resistance to assimilation, sometimes expressed as hostility towards their hosts’. Another alt-rightist is overt in his hate towards Jews: ‘When any element of the organised Jewish community is the counterparty in an agreement, like the fable of the frog and the scorpion, the compulsion towards betrayal, even against allies, is irresistible for the Jew.’ (1)
One might wonder how the sewer of history broke, and such ugly and vile racist views resurfaced. The answer is not that it is a resurrection of national socialism, or of older forms of white supremacy and racism. Its members might view such movements sympathetically, and consider themselves heirs to their legacy. But the alt-right is a distinctive 21st-century phenomenon. This is because the worldview of the alt-right is the logical result of the dominant ideology in the West today — namely, tribalism. Spencer’s talent, such as it is, lay in his ability to adapt his racist message to the prevailing cultural climate of our times. Thus, the alt-right is focusing on two areas possessed of a strong currency in today’s politics: identity and victimhood. 
We are constantly being told that our identity is special, that we should be proud of it, and that it makes us who we are. It tells us we are not sovereign individuals; rather, we are male, female, cis heterosexual, LGBT, BAME, minorities… the list goes on. The alt-rightists see this trend, nod approvingly, and simply add their identity to the list. We are white, they say, and this is who we are.
In this sense, the alt-right is entirely on trend, intellectually speaking. In academia, for example, racial thinking has also experienced a powerful revival in recent decades. But it has come back wearing a progressive face. Critical-race studies, and similar disciplines, tell us that colour-blindness is problematic, and that ‘whiteness’ is an inescapable predicament for white people. Indeed, critical-race theorists present whiteness as something close to a modern form of original sin.
The alt-right has seized on this revamped concept of race, and appropriated it for its own ends. In its hands, whiteness becomes something that must be defended. As Jared Taylor, a sixtysomething ‘race realist’ intellectual, who is popular in the alt-right movement, puts it:
‘What do you call a black person who prefers to be around other black people, and likes black music and culture? A black person. What do you call a white person who listens to classical music, likes European culture, and prefers to be around white people? A Nazi. All non-whites are expected to have a strong racial identity; only whites must not.’ (2)
Whiteness, here, has first been turned into an identity, and then into a source of pride, equivalent to blackness in mainstream identity politics. This shows how the promotion of identity politics by the progressive left has fuelled, and paved the intellectual ground for, the adoption of identity politics on the right.
This is why the identitarianism of the left has been a boost for the alt-right. As Spencer wrote in 2015
‘Conservatives like to demean such things as “identity politics”, as just another car on the gravy train. But the reality is that leftists are engaging in the kind of ideological project that traditionalists should be hard at work on – the formation of “meta-politics”.’
By meta-politics, Spencer means the culture wars. He views this arena as a battle for cultural hegemony, a rightist version of the long march through the institutions, in which the alt-right aspires to turn its values and beliefs into the socially dominant values and beliefs. If all this sounds redolent of the thought of Italian Marxist Antonio Gramsci, that’s because it is.
This is due to the strong ideological influence on the alt-right wielded by the French New Right (Nouvelle Droite), an intellectually peculiar movement that emerged during the 1960s, which argued that people should be segregated according to their ethno-cultural backgrounds, and subsequently set the tone for rightist identitarianism in Europe and the US (though it avoids some of the ugly racist overtones of the alt-right). Its leader, Alain de Benoist, was influenced not just by reactionary traditionalists (such as Italian thinker Julius Evola), but also by intellectuals associated with the New Left, including the Frankfurt School and, of course, Antonio Gramsci.
Some right-wing identitarians even call themselves ‘Gramscians of the right’. They understand well the importance of culture and of ideas in shaping the development and direction of society. And in a society in which the idea of identity plays such a prominent role, the alt-right has made itself firmly at home. The alt-right’s worldview could be characterised as identity politics on steroids.
The other mainstream value the alt-right embraces is that of vulnerability, which is both a status requiring special recognition and a basis for political organisation. Ironically, it is perhaps more accurate to portray the alt-right as a white-vulnerability movement, rather than a white-supremacy one. After all, this is the ultimate justification for the alt-right’s dream of an ethno-state — namely, that it will provide a ‘safe space’, as Spencer himself puts it, for white people, threatened, as they allegedly are, by globalism and multiculturalism.
Indeed, Spencer, Taylor and others in the alt-right openly claim that other races have, on average, a higher IQ than whites. Such a claim would have been unimaginable for old-style white supremacists. But here it provides another reason as to why whites need their own racial ethno-state – because they are not as bright, as, say, Asian people.
Fortunately, a world of ethno-states is not going to happen anytime soon. The actually existing alt-right has always had a very limited appeal, despite many mainstream commentators and politicians boosting the actual size and threat of the movement. The ugliness of the Nazi-like parades, the Aryan salutes, and, most importantly, the horror show of the Charlotesville riots in 2017, which cost the life of a counter-protester, have delegitimised Spencer and his movement. In fact, many on the anti-establishment right have gone out of their way since Charlottesville to distinguish their position from that of the alt-right.
Yet, a danger remains. Until the tribalism and anti-humanism, so prevalent in mainstream culture, are properly challenged, a more sophisticated version of the alt-right could still have a wide appeal. This is why we need to challenge identitarian ideology as a whole. We need to challenge the idea that people are mere members of groups, and start seeing people as individuals again. Too often, someone starts a sentence by saying ‘as a person of…’ x race, or of y gender, or of z sexual orientation, ‘I think…’. We need to reply that we don’t think with our skin colour or our gender, but with our minds – minds that are universally capable of reason and sympathy.
We are constantly being told that our ethnicity, our gender, our upbringings and our culture define who we are. We need to stand up to this view, and defend our individual free will and our capacity to change our predicament. Only then, perhaps, will it be possible to change the world for the better. This is how we will defeat the alt-right and its misanthropy – through a defeat of tribal thinking and identitarianism in general.
Nikos Sotirakopoulos is a lecturer in sociology at York St John University and the author of The Rise of Lifestyle Activism: from New Left to Occupy. Follow him on Twitter: @Nikos_17
(1) ‘What the Alt Right Isn’t’, by P Le Brun, included in The Alternative Right, edited by G Johnson, Counter-Currents Publishing Ltd, 2018, loc, 1936

(2) ‘Race Realism and the Alt Right’, by J Taylor, included in The Alternative Right, edited by G Johnson, Counter-Currents Publishing Ltd, 2018, loc, 594