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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida

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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Os desastres da política externa do olavo-bolsonarismo - Paulo Roberto de Almeida


Os desastres da política externa do olavo-bolsonarismo

Paulo Roberto de Almeida
  
As decepções e mesmo as derrotas eram previsíveis: conduzida por amadores da própria família presidencial e por um aspone medíocre de um partido sem qualquer credencial no setor, e que, sob recomendação de um guru destrambelhado e completamente inepto em relações internacionais, escolheram um chanceler amestrado para operar a máquina do Itamaraty (sem maiores credenciais para fazê-lo, e devendo sua designação à montagem improvisada de qualificações artificialmente moldadas para agradar os novos donos do poder), a diplomacia “terraplanista” só podia dar errado em toda a linha, e isso pela absoluta ignorância, despreparo e vulgaridade do titular.
Primeiro, foi a servidão voluntária e sabuja demonstrada não em relação a um país, os EUA, mas a um dirigente tosco, Trump, que já tinha amplamente demonstrado as mesmas más qualidades que o seu novo admirador beato. A submissão às piores loucuras do “laranjão” grosseiro e autocentrado, foi muito além do antigo entreguismo tupiniquim, que só queria ampla associação com o capital estrangeiro via investimentos diretos privados, jamais subordinação da política externa a uma potência qualquer, mesmo sendo ela a líder ocidental na luta contra o comunismo. Essa primeira grande ilusão terminou por ser desfeita na questão da OCDE, e parece comprometer irremediavelmente as chances de ter um de seus pimpolhos — o 03, o chanceler real, mas totalmente inepto para o cargo — aprovado como embaixador na capital do império.
Segundo, foi a grosseria demonstrada pelo titular principal no tratamento da questão das queimadas amazônicas, tanto interna quanto externamente, o que implodiu imediatamente a implementação do acordo UE-Mercosul laboriosamente construído pela equipe econômica (com a participação marginal do Itamaraty), sem chances de aprovação pela parte europeia no futuro previsível. A culpa, no caso, incumbe inteiramente ao chefe de Estado, um antidiplomata absoluto, no caso secundado por assessores militares que continuam a ser paranoicos amazônicos, como nos velhos tempos da ditadura militar.
Terceiro, o rompimento virtual de relações pessoais com o provável futuro presidente argentino, e danos irreparáveis nas relações entre os dois grandes vizinhos platinos e sócios no Mercosul, devido a agressões verbais incompreensíveis e irreparáveis por parte do mesmo personagem tosco e vulgar, jamais controlado pelo seu chanceler acidental; ao contrário, este acrescentou a indignidade ao insulto, ao comparar o provável vencedor a uma boneca russa, com dois ou três esquerdistas dentro, numa inacreditável demonstração de grosseria diplomática inadmissível num funcionário de carreira (só pode ter sido por seguidismo burro ao chefe). Como reparar e superar esse terceiro grande desastre ainda é uma incógnita no futuro das relações bilaterais e da agenda do Mercosul, já estressada por uma ignorância do titular da Economia sobre a importância do bloco para o Brasil, e não só economicamente.
Esses três grandes desastres diplomáticos — o fim do sonho do ingresso rápido na OCDE e da aliança com o império, a virtual postergação indefinida do acordo UE-Mercosul e a queima gratuita de pontes na principal relação bilateral — se tinham agregado à crônica de outros pequenos desastres anunciados ainda durante a campanha: a devoção evangélica a Jerusalém, o afastamento irracional do principal parceiro comercial e o anticlimatismo burro defendido pelos encarregados do 1/2 ambiente, ministro setorial e chantecler, felizmente contornados por assessores mais racionais ainda presentes e pela pressão do agronegócio, visivelmente preocupado pelas perdas imensas que decorreriam dessas três outras loucuras diplomáticas.
Tem muitas outras bobagens, reais e potenciais, na frente antidiplomática do governo, entre elas o fracasso imediato da adesão ao aventureirismo eleitoral trumpista na questão da Venezuela, a luta insana contra a “ideologia do gênero”, contra um suposto globalismo e o “marxismo cultural” no plano mundial, a aliança com líderes da extrema-direita nacionalista em outros países e outras obsessões ideológicas dos novos cruzados no poder.
Tudo isso conforma um desastre político e diplomático sem precedentes em nossa trajetória de quase dois séculos de lenta construção de uma política externa respeitável e respeitada em âmbito mundial, e mais do que vergonhoso para o corpo profissional do Itamaraty.
Continuarei acompanhando as confusões na área externa, com a compreensível preocupação de um profissional do setor, estarrecido com a diminuição do nosso prestígio internacional, em proporções nunca antes vistas em nossa história diplomática. Lamento ter de desempenhar esse papel de alerta, mas estou seguro de interpretar o sentimento e as apreensões da maior parte dos meus colegas de carreira e de muitos observadores externos.
Ao corpo diplomático estrangeiro, que ainda busca explicações para certos atos inexplicáveis dos atuais titulares do setor, caberia uma palavra de caução quanto a possíveis novos desenvolvimentos nessa área, que não posso oferecer neste momento, por absoluta falta de clareza em torno da possível trajetória a partir dos desastres atuais já enunciados: ou recrudescimento nos erros e equívocos já materializados, ou modesta correção de rumos, que no momento julgo ser improvável. Isso exigiria uma revolução mental por parte do principal responsável e um abandono dos assessores ineptos que não me parece perto de ocorrer. Ou seja, o Brasil poderá continuar exibindo mediocridade governamental e diplomática pelos três anos à frente.
  
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 14/10/2019


domingo, 13 de outubro de 2019

Em defesa do globalismo: uma declaração pessoal - Paulo Roberto de Almeida

Em defesa do globalismo: uma declaração pessoal

Paulo Roberto de Almeida

Volto ao mesmo tema que continua a me estarrecer, o do tal “globalismo” e “antiglobalismo”, mas não a uma contraposição idiota com quem defende ideias idiotas, mas a adesão a elas por parte de colegas diplomatas que deveriam saber, por obrigação profissional, que o tal de “globalismo” é simplesmente o universo de trabalho no qual estamos imersos por necessidade de ofício e ambiente natural de exercício de função.
Que ignorantes e mentecaptos, como certo guru governamental e pelo menos um aspone presidencial, sejam adeptos de certas “teorias” conspiratórias — o conceito de teoria não se aplica pela debilidade empírica do argumento — sobre esse tal de globalismo, isso eu até admito, uma vez que existem no mundo centenas, milhares de idiotas que são capazes de acreditar em qualquer coisa, até mesmo as mais inverossímeis. Afinal de contas, idiotas retóricos são capazes de atrair outros idiotas que andavam dispersos pelo mundo. O Rasputin de subúrbio, aquele subsofista da Virgínia, conseguiu fazer isso, e hoje vive financiado por um monte de idiotas que lhe garantem um bom nível de vida em troca de cursinhos fraudulentos de “subfilosofia”. Ele tem o direito de fazer isso numa democracia; o governo faz a mesma coisa com as loterias.

Agora, que diplomatas escolados, formados e instruídos em décadas de trabalho profissional, façam a mesma coisa, aí já é mais grave, na verdade é uma coisa inadmissível para os altos padrões de inteligência que uma diplomacia de respeito exige dos seus profissionais de carreira. A coisa só pode, então, se explicar de duas formas: 1) submissão oportunista e hipócrita aos idiotas que controlam temporariamente o poder e que exibem eventualmente adesão beata a essas ideias idiotas, numa sabujice abjeta por interesses inconfessáveis; 2) por idiotice consumada, no caso de adesão sincera e desinteressada.
Em ambos os casos, trata-se de situação lamentável do ponto de vista da inteligência e da dignidade institucional de um Serviço Exterior que se pretende respeitável e de qualidade.

Falando agora concretamente, eu concluo pela seguinte constatação: o Itamaraty, ao qual sirvo por mais de 42 anos, atravessa atualmente uma das situações mais sombrias e estarrecedoras de toda a sua história, dominado por ignorantes, beatos e oportunistas, como nunca antes aconteceu em toda a sua trajetória de quase duzentos anos de trabalho profissional. Ele sobreviverá, certamente, à horda de bárbaros que ensombrecem atualmente o seu trabalho profissional, e que o tornam objeto do ridículo universal (salvo no pequeno círculo de fanáticos que se distinguem nessa obra de desmantelamento institucional e de redução de sua inteligência).
Num futuro ainda indeterminado, a qualidade do trabalho de seus profissionais voltará a ser reconhecida e dignificada. Aos colegas que se desesperam com o seu embrutecimento atual, com o ridículo das posturas antiglobalistas ou francamente ignorantes, reacionárias ou simplesmente idiotas, eu digo que existe dignidade na resistência surda às, e na denúncia constante, ainda que discreta, das idiotices mais evidentes e mais ultrajantes para a dignidade e a inteligência dos diplomatas “normais”, isto é, profissionais (não os vendidos à nova ordem).
Voltaremos à normalidade, mesmo ao custo de algum desgaste emocional. Minha única recomendação: sejamos fortes e confiantes em nossa história de qualidade no serviço público.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 13 de outubro de 2019

sábado, 12 de outubro de 2019

Ingresso frustrado do Brasil na OCDE - Luiz Guilherme Medeiros e Paulo Roberto de Almeida

Leio isto, no Facebook do

Luiz Guilherme de Medeiros
O governo Bolsonaro já está na picaretagem de acusar de “fake news” aquilo que não lhe convém.
Os tweets de Trump e Pompeo jurando compromisso com a entrada do Brasil na OCDE são pastel de vento: ar quente e nenhuma substância.
É um teatro que custa nada aos EUA fazer.
‪A dita proximidade entre Eduardo Bolsonaro e Trump fracassou em cumprir a alardeada grande parceria entre nossos países.‬
‪A verdade é que abrimos mão de nosso tratamento especial na OMC e mesmo assim fomos preteridos por Argentina e Romênia na OCDE‬.
O resto é passada de pano.

Meu comentário (PRA): 

Apenas uma retificação: não fomos preteridos por Argentina e Romênia, pois esses países já tinham entrado na lista dos demandantes antes do Brasil. Segundo o SG da OCDE, o Brasil viria numa segunda leva, talvez em 2020, se não houvesse objeções dos países membros.
FOMOS, SIM, PRETERIDOS PELOS EUA, a despeito do alardeado apoio do mentiroso Trump, mas que sabemos só faz aquilo que interessa a ele pessoalmente.
O fato é que os EUA endossaram aquelas duas primeiras candidaturas e não se pronunciaram sobre NENHUMA OUTRA, ou seja, deixando para as calendas a pretensão do Brasil, mas claramente manifestado a intenção de fazer com que a OCDE interrompa sua expansão, pois acham que ela já cresceu demais (serão 38 membros com os dois no pipeline).
Não tem absolutamente nada a ver com as condições que o Brasil apresenta – ou apresentava até 2018 – para ingressar na OCDE, e sim com a preocupação dos EUA e de outros países membros de ter um GRANDE candidato, capaz de alterar certos equilíbrios internos. O Brasil, de esquerda, de centro ou de extrema-direita, como hoje, é um país dotado de capacidade para pesar na agenda e nos trabalhos da organização. Por outro lado, nenhuma das "grandes potências" neste caso, quer um outro grande, capaz de alterar certas coisas, o que já se tinha visto no caso da reforma da Carta da ONU e ampliação do CSNU.
UMA DIFICULDADE A MAIS, sobretudo para os europeus, é o comportamento lunático do presidente atual, um homem que, sem qualquer noção de diplomacia, ou de mero comportamento cortês, briga com todo mundo, conduz políticas nacionais em TOTAL CONTRADIÇÃO com o que desejam os demais membros da OCDE, capaz de destruir todo o patrimônio de credibilidade que tinha sido duramente construído pela diplomacia profissional do Brasil ao longo das últimas décadas.
O homem é um perigo para o próprio Brasil.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12/10/2019