terça-feira, 6 de outubro de 2026

Eleições e incerteza - João Rego (IED)

 O editor da revista Será? (com a qual colaboro) e coordenador do Instituto Ética e Democracia, João Rego, se pronuncia sobre o quadro politico atual do Brasil, dos mais complicados.

Coloquei este texto de João Rego antes das eleições brasileiras do dia 4/10 e volto a reproduzi-lo no dia 6/10, pois o considero seminal, em termos pedagógicos e didáticos, sobre as incertezas e angústias de nossa frágil democracia, muitas vezes submergida pela barbárie, isto é, pela violência, como ocorreu nos EUA no dia 6/01/2021, e no próprio Brasil, em 8/01/2023. Que as lições sejam aprendidas por todas.

Eu o considero um texto, seminal (isto é, portador de frutos que projetam sua influência e determinação por longos anos sobre milhões de pessoas e sobre instituições) sobre as eleições brasileiras de 2026, com impulsos e determinantes de nossa convivência politica e econômica para os próximos anos e mais além, o que pesará sobre nossa evolução, nosso itinerário por algum tempo.

Paulo Roberto de Almeida

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ELEIÇÕES E A INCERTEZA

João Rego

Ontem, vendo os resultados das pesquisas, observa-se uma clara migração de eleitores de candidatos da segunda linha da direita para Flávio Bolsonaro.

No Sul, impressiona a força da direita mais radical. Lula, entretanto, mantém sua força no Nordeste e disputa espaços importantes no Sudeste. Aqui, como já era previsível, está solidamente à frente. No plano nacional, porém, as pesquisas revelam uma disputa apertada, com variações entre os diferentes institutos.

O mar de incertezas nos invade — e esta é a beleza da democracia. *A incerteza é prima legítima da tolerância:* quando ninguém pode ter antecipadamente a certeza de que sua vontade prevalecerá, somos obrigados a admitir a existência da vontade do outro. E, ao final, somos obrigados, por lei, a aceitar resultados que, às vezes, não são aqueles que esperamos — assim como na vida.

Os intolerantes, aqui e nos Estados Unidos, já mostraram que não aceitam resultados contrários à sua vontade, como vimos em 6 de janeiro de 2021, no Capitólio, e em 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes.

Que venham os desafios da democracia, pois essa mãe e herdeira dos valores civilizatórios nunca cessou de enfrentá-los.

Não se trata apenas de conflitos ideológicos. Estes talvez sejam expressões circunstanciais de uma luta muito mais profunda e milenar: *a luta entre a barbárie e a civilização — luta que funda nossa própria humanidade.* 

A barbárie, lembro, está em cada ato de violência de um ser humano contra outro. Ela nos invade a cada guerra, revelando, de maneira espantosa, que conhecimento, técnica e método, conquistas da civilização, podem ser apropriados pela própria barbárie e colocados a seu serviço.

A democracia, depois de milênios de guerras e destruição — e isso a história nos mostra com dolorosas evidências —, talvez seja o *momento civilizatório supremo que a humanidade conseguiu atingir.* 

E o mais surpreendente disso tudo acontece justamente na eleição.

É quando o poder concentrado nas instituições se abre e se pulveriza de forma microscópica. Por algumas horas, milhões de pequenas parcelas desse poder retornam às mãos dos cidadãos para que, por meio do voto, as instituições possam novamente se alimentar de legitimidade.

É como se o gigantesco Leviatã, imaginado por Thomas Hobbes, tivesse sido domesticado pela democracia : periodicamente, ele precisa retornar ao cidadão comum para renovar a legitimidade de sua força.

O pensamento político-filosófico e seus produtos — o conhecimento sobre o Estado e as formas de governo — vêm evoluindo há séculos para que este gesto aparentemente tão simples de votar esteja hoje em nossas mãos.

Milhares lutaram, morreram e foram sacrificados para que chegássemos até aqui.

Por isso, quando for à urna expressar o meu voto, não estarei apenas escolhendo um candidato.

Estarei, com milhões de outros cidadãos, refundando de forma celular a democracia e demarcando, de maneira indelével, a barreira que separa a civilização da barbárie.

Recife, 4 de outubro de 2026

João Rego é presidente do IED — Instituto Ética e Democracia.

www.eticademocracia.org 

REFERÊNCIAS 

HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os Pensadores);

6 de janeiro de 2021 — Estados Unidos. Invasão do Capitólio, em Washington, por apoiadores de Donald Trump durante o processo de certificação, pelo Congresso, do resultado da eleição presidencial de 2020.

8 de janeiro de 2023 — Brasil. Invasão e depredação das sedes dos Três Poderes — Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto —, em Brasília, por participantes de manifestações contrárias ao resultado da eleição presidencial de 2022.

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