CRÉDITO EDITORIAL: Folha de S.Paulo
SEÇÃO: Opinião
AUTOR: Marcos Degaut
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1º.out.2026 às 13h42
O Itamaraty não pode ter medo de mudar
Política externa não é mera administração da conjuntura; exige antecipação, prioridades e articulação
Não se trata de promover uma suposta 'Reforma Rubio', mas de reconstrução orientada pelos interesses do Brasil
Marcos Degaut
Ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-18, governo Temer), ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa (2019-22, governo Bolsonaro) e ex-secretário-executivo da Camex (2019)
O Brasil não precisa de um Itamaraty menor, mas de um mais forte, mais estratégico e mais valorizado. Uma instituição capaz de antecipar transformações, formular opções para o Estado e converter a diplomacia brasileira em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.
Esse deveria ser o debate. Em vez disso, tenta-se enquadrar qualquer proposta de modernização em narrativas políticas preconcebidas.
Antes de se conhecerem as ideias, escolhem-se os rótulos. Antes de discutir seu conteúdo, atribuem-se intenções. Constrói-se controvérsia artificial na qual fortalecer a instituição é apresentado como ameaça; rever procedimentos, tentativa de desmonte; questionar disfunções, ataque à carreira. Isso não protege o Itamaraty. Apenas empobrece o debate e favorece os que veem qualquer mudança como ameaça ao status quo.
O mundo mudou. Comércio, tecnologia, defesa, inteligência, energia, minerais críticos e infraestrutura tornaram-se instrumentos de poder. A fronteira entre geopolítica e geoeconomia desapareceu. Política externa não pode ser mera administração da conjuntura. Exige antecipação, prioridades e articulação dos instrumentos do poder nacional.
É nesse contexto que defendo a modernização do Ministério das Relações Exteriores (MRE), uma das instituições mais qualificadas do Estado. Tenho contribuído com ideias e reflexões sobre o tema. Não falo por Flávio Bolsonaro (PL) nem por sua campanha à Presidência da República, e essas ideias não constituem programa fechado ou proposta oficial de governo.
A modernização necessária possui quatro dimensões. A funcional deve recuperar a capacidade de formular, antecipar e propor, fortalecendo análise prospectiva, inteligência estratégica e avaliação de riscos. A administrativa deve simplificar processos, reduzir burocracia e ampliar a delegação de competências. A organizacional deve dar maior centralidade à diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e defesa.
A quarta é profissional. Não existe diplomacia de excelência sem carreira valorizada. As promoções precisam reduzir o peso de critérios subjetivos e ampliar critérios objetivos e verificáveis de mérito, desempenho, experiência e qualificação. É preciso rever o vínculo entre promoção e remoção, criar horizontes profissionais mais previsíveis e reduzir o peso de relações pessoais e grupos de influência na progressão funcional.
Diplomatas mais jovens podem assumir responsabilidades maiores muito antes de alcançarem o topo da carreira. Instituições modernas não desperdiçam experiência esperando que a antiguidade autorize alguém a pensar, decidir e liderar.
A valorização deve alcançar igualmente oficiais de chancelaria e demais servidores com melhores perspectivas de carreira, capacitação, reconhecimento e responsabilidades compatíveis com sua experiência.
Há ainda questão que não deve ser tratada como promessa eleitoral, mas problema estrutural: a remuneração. A diplomacia brasileira perdeu posição relativa em relação a outras carreiras típicas de Estado e acumulou defasagens que precisam ser enfrentadas. Recomposição remuneratória, quando necessária, não é privilégio nem favor, mas instrumento de valorização e retenção de quadros.
Também é preciso desfazer o mito de que servir no exterior significa vida de conforto financeiro. Em muitos postos, custos de moradia, instalação, educação, câmbio e limitações profissionais impostas às famílias tornam os vencimentos insuficientes para uma vida digna e compatível com as responsabilidades de representar o Estado. Valorizar o serviço exterior custa recursos; permitir sua deterioração custa muito mais.
É precisamente diante dessa agenda que causa estranheza reduzir o debate a uma suposta "Reforma Rubio", como noticiou esta Folha. Nunca se discutiu projeto com esse nome nem se defendeu transplantar para o Brasil a reforma do Departamento de Estado americano. O enquadramento desvirtua um debate institucional e transforma ideias de modernização em instrumento de disputa eleitoral.
Não se trata de desmontar a Casa, mas de fortalecê-la; de marginalizar diplomatas, mas de lhes devolver tempo, responsabilidade e protagonismo; de politizar a carreira, mas de reduzir subjetividades; de romper com a tradição, mas de preservar sua excelência preparando-o para um mundo diferente.
Modernizar também significa avaliar resultados. Uma embaixada deve ser avaliada por sua contribuição para abrir mercados, remover barreiras, atrair investimentos, incorporar tecnologia, apoiar empresas brasileiras, produzir informação estratégica e ampliar a influência nacional, não pelo número de recepções ou evento.
O Brasil possui ativos de potência, mas carece de arquitetura capaz de transformá-los sistematicamente em poder, influência e prosperidade. O Itamaraty é peça central dessa reconstrução.
Não se trata, portanto, de importar modelo americano algum, muito menos de promover suposta "Reforma Rubio". Trata-se de pensar uma reforma brasileira para uma instituição brasileira, orientada pelos interesses do Brasil.
Inventar um nome, atribuí-lo a terceiros e depois construir uma narrativa em torno dessa invenção pode produzir uma manchete chamativa, mas não transforma ficção em fato e expõe um problema elementar: quando a premissa é fictícia, todo o edifício construído sobre ela perde sustentação.
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