domingo, 11 de outubro de 2026

Livro a ser publicado: Brasil Pós-JK: 50 anos de legado - Moises Mota (org.)

 Um livro do qual participei e cuja publicação aguardo:

Brasil Pós-JK: 50 anos de legado

Organizador: Moises Mota da Silva (III vice-presidente do IHG-MG)

Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


Sumário

Brasil Pós-JK: 50 anos de legado — Ecos do desenvolvimento no Brasil contemporâneo reúne nove textos de dez autores, organizados em cinco eixos, que vão da formação mineira de Juscelino Kubitschek ao Brasil de 2076. Os resumos a seguir apresentam, para cada capítulo, o autor, o tema, o argumento central e o que o texto traz de singular.

 

Eixo I — O Homem e o Berço (A Raiz Mineira)

Juscelino Kubitschek no Clube da Esquina: encontro em Diamantina

Bruno Viveiros Martins

O capítulo parte de uma fotografia de Juvenal Pereira, feita em julho de 1971 em Diamantina. Por acaso, uma equipe da revista O Cruzeiro que acompanhava Milton Nascimento, Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges cruzou com o ex-presidente, que gravava uma entrevista para a Manchete. Diante de JK, os músicos cantaram "Travessia" e "Beco do Mota". A partir das memórias de Márcio Borges e das crônicas de Fernando Brant, o autor lê o encontro como o diálogo entre duas gerações comprometidas com a liberdade e a cultura democrática. A canção "Beco do Mota", lançada logo após o AI-5, serve de chave para revelar a Diamantina ambígua que formou JK: a cidade que reza de dia e faz serestas de madrugada, entre o esplendor do ouro e a exploração colonial. O texto reconstitui também a perseguição sofrida por Juscelino depois de 1964: a cassação, os inquéritos policiais militares, o exílio, a Frente Ampla com Carlos Lacerda e João Goulart e a prisão no dia do AI-5. Nesse contexto, o encontro de 1971 aparece como um sopro de esperança nos anos de chumbo.

O autor conclui que a memória de JK "está impregnada de democracia": respeito às instituições, diálogo entre contrários e confiança no futuro do país.

 

Eixo II — A Sinfonia do Desenvolvimento

A economia política do desenvolvimento brasileiro sob JK

Paulo Roberto de Almeida

O capítulo situa o governo JK no cenário da economia mundial do pós-guerra, marcado pela reconstrução europeia e japonesa, pela Guerra Fria e pelas instituições de Bretton Woods. O Brasil de meados dos anos 1950 ainda dependia do café e do açúcar, que respondiam por mais de 60% das exportações, e sofria com termos de troca instáveis. 1O autor apresenta o Plano de Metas, elaborado sob Lucas Lopes e Roberto Campos no âmbito do BNDE, como "um dos maiores e mais bem elaborados programas de desenvolvimento" da história econômica do país. Mostra a distribuição dos investimentos entre energia, transportes, alimentação, indústrias de base e educação, o papel da Instrução 113 da Sumoc na atração da indústria automobilística e a criação da SUDENE, sob Celso Furtado.

O texto não esconde os custos: a inflação alimentada por emissões sem contrapartida fiscal e as finanças externas, "calcanhar de Aquiles" do desenvolvimentismo. Na política externa, aponta JK como precursor da Política Externa Independente: a diplomacia presidencial, antes mesmo da posse, e a Operação Pan-Americana, que resultou na criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento. O autor conclui por um desenvolvimentismo "exitoso ainda que controverso", que reduziu a dependência de insumos importados.

 

A sinfonia do desenvolvimento: economia, indústria, Plano de Metas e os impactos do desenvolvimentismo

Carlos Alberto Teixeira de Oliveira

O capítulo contrapõe a política de desenvolvimento do período JK à adotada pelos governos do século XXI. A partir das palavras do próprio Juscelino, o autor sustenta que desenvolvimento exige uma "nova mentalidade" e que a estabilidade não precede o desenvolvimento, mas deve ser construída dentro dele. Critica a primazia absoluta das políticas de estabilização e os juros reais elevados das últimas décadas.

Com séries do IPEA, do IBGE e da FGV, o texto mostra que o PIB cresceu 47,5% no acumulado do governo JK, com média de 8,1% ao ano, contra 4,3% da média mundial. A indústria acumulou alta de 61%, os serviços de 37,5% e a agricultura de 20,3%, e o PIB per capita cresceu 5% ao ano, mesmo com a população crescendo acima de 3% ao ano.

O autor detalha o funcionamento do Plano de Metas e do Conselho de Desenvolvimento, com depoimentos de João Pinheiro Neto, Celso Lafer, Carlos Lessa e Nelson Mello e Souza. Destaca Brasília como "meta-síntese" e, com Paulo Haddad, o impacto da nova capital no Centro-Oeste, cuja economia cresceu mais de 11% ao ano entre 1959 e 1980. Conclui que a integração territorial e a produção de grãos no Cerrado estão entre os maiores legados de JK, e que o crescimento vigoroso e contínuo deve voltar a ser a meta número um do país.

 

Eixo III — A Interiorização e a Integração

Brasília e a conquista do território nacional

José Theodoro Mascarenhas Menck

O capítulo desfaz a ideia de que a mudança da capital nasceu com JK e reconstitui quatro séculos de história. Começa em Salvador, primeira capital planejada, em 1549, e mostra como o ouro de Minas e as invasões francesas de 1710 e 1711 tornaram o Rio de Janeiro o centro do poder, mas também revelaram sua vulnerabilidade.

O autor segue a ideia mudancista nos depoimentos dos inconfidentes mineiros, nos artigos de Hipólito da Costa no Correio Braziliense (1813), na memória de José Bonifácio à Constituinte de 1823, que propunha a comarca de Paracatu, e na viagem de Varnhagen ao Planalto, em 1877. Inclui o sonho profético de Dom Bosco, de 1883, e percorre as Constituições republicanas, a Missão Cruls, a pedra fundamental de 1922 e os projetos de lei que tramitaram por décadas. 

O texto chega ao comício de Jataí, em 4 de abril de 1955, quando JK se comprometeu a cumprir a Constituição e mudar a capital, e fecha com uma cronologia, hora a hora, da inauguração de Brasília, nos dias 20 e 21 de abril de 1960.

 

Brasília, a capital da esperança: interiorização, geopolítica e monumentalidade (1946–1961)

Lenora de Castro Barbo

A autora contesta a imagem de que Brasília "nasceu do nada" e a apresenta como uma "solução histórica" amadurecida por quase dois séculos. Mostra como as comissões de Luiz Cruls (1892–1896) deram base científica ao sonho e como a Constituição de 1946 tornou a mudança obrigatória.

O capítulo narra o "duelo das capitais" entre o Triângulo Mineiro, defendido por Lucas Lopes, e o Planalto Goiano, que venceu na Comissão Polli Coelho por sete votos a cinco, em 1948. Analisa a justificativa geopolítica da "Terra Central", inspirada na teoria do Heartland, e o ano decisivo de 1955, quando o governo de Goiás desapropriou as terras e abriu estradas e campos de pouso.

Em seguida, trata da "inflexão de Juscelino", que transformou um preceito constitucional inerte em meta-síntese, da arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, saudada por André Malraux como "a capital da esperança", e dos efeitos geopolíticos e demográficos da nova capital. A autora conclui que Brasília foi "obra de muitas mãos", com destaque para o papel de Goiás, e prova de que o Brasil "pode ser maior do que as suas próprias dúvidas".

 

O legado de JK

Silvestre Gorgulho

Texto de memória e documento, ilustrado com cerca de quinze imagens. O autor compara a posse de JK, em 1956, à chegada da família real, em 1808, como os dois grandes divisores de águas da história do país. Narra a difícil chegada de Juscelino ao Catete, as articulações contra sua candidatura e o "Golpe da Legalidade" do marechal Lott, que garantiu a posse.

O capítulo trata de Brasília como meta-síntese, desde o desafio lançado em Jataí, e se detém no "trágico ano de 1976": as anotações do diário de JK, o Prêmio Intelectual do Ano, a visita à fábrica da Fiat em Betim e a morte na Via Dutra. Descreve o velório na Catedral, quando o povo de Brasília levou o caixão do aeroporto ao cemitério, e reúne as homenagens de Tancredo Neves e de Carlos Lacerda.

Por fim, reúne as "profecias que não se cumpriram": editoriais, discursos e reportagens de 1956 a 1959, de Carlos Lacerda, Gustavo Corção e jornais como Correio da Manhã e O Globo, que davam Brasília como impossível ou inútil.

 

Brasília: estranheza e fascínio

Frederico de Holanda

Arquiteto recifense radicado em Brasília desde 1972, o autor parte da estranheza que a cidade lhe causou para entender sua natureza. Lê Brasília em duas escalas: como peça da configuração do território nacional e como cidade, com atenção ao Plano Piloto e às relações com a região metropolitana de quase cinco milhões de habitantes.

Na primeira parte, discute a formação de uma sociedade "voltada para fora", a integração nacional e a natureza do Estado brasileiro. Mostra como JK retomou a industrialização, puxada pela indústria automobilística, e a integração do mercado nacional, com Brasília como elemento mais simbólico que instrumental. Na segunda, examina o centro urbano, as superquadras e o Eixo Monumental, e pergunta se o Plano Piloto é, de fato, moderno.

O autor compara Brasília a outros "espaços de exceção" da história, de Stonehenge e dos centros cerimoniais maias à Acrópole e a Versalhes. Conclui que a capital não foi apenas a síntese do desenvolvimento de JK, mas o que esse processo teve de mais avançado, e que compreendê-la exige superar oposições simplistas como moderno e arcaico ou democrático e autoritário.

 

Eixo IV — A Democracia e o Legado Político

Os impasses da conciliação: a experiência política de Juscelino Kubitschek e os limites da estabilidade institucional

Marcelo Cedro

O capítulo examina a imagem de JK como político conciliador e mostra que ela não nasceu da ausência de conflitos, mas de uma prática de negociação. Com apoio em Norbert Elias, Robert Dahl e José Honório Rodrigues, o autor situa a conciliação como traço recorrente da cultura política brasileira, do Império ao varguismo.

O texto acompanha esse estilo desde a Prefeitura de Belo Horizonte, com a Pampulha e a criação do Museu Histórico da cidade, passando pelo Governo de Minas, com a CEMIG e a siderurgia Mannesmann. Na Presidência, com base em jornais da época, analisa a posse sob contestação, a revogação do estado de sítio, a anistia aos militares da Revolta de Jacareacanga e a negociação com os estudantes nos protestos contra o aumento dos bondes no Rio, em 1956.

O autor mostra também os limites dessa estratégia: parte dos militares anistiados voltou a conspirar em Aragarças, em 1959, e as anistias sucessivas reduziram o custo político de novas rupturas até 1964. Conclui que a conciliação garantiu um equilíbrio sempre provisório e deixa uma lição atual: lidar com as diferenças sem transformar o adversário em inimigo permanente.

 

Eixo V — Prospectiva (O Brasil de 2076)

A infraestrutura invisível do Brasil: JK e a reconstrução do "nós" — cultura, pertencimento e a superação do subdesenvolvimento

Glaucia Nasser e Lea Vidigal

As autoras propõem a noção de "infraestrutura invisível": o tecido de pertencimento, confiança e horizonte comum que sustenta uma nação antes da economia e das leis. A tese é que JK foi o último grande construtor dessa base no Brasil e que Celso Furtado foi o seu teórico mais lúcido, ao mostrar que o subdesenvolvimento é uma estrutura, inclusive cultural, que o crescimento econômico não supera sozinho.

O artigo relê o Plano de Metas e o lema "cinquenta anos em cinco" como uma convocação nacional, e o otimismo do período como uma "tecnologia de coesão". Destaca a dimensão democrática de JK, que cumpriu o mandato e entregou o poder a um sucessor da oposição, e trata Brasília como obra de arte a céu aberto, com Lucio Costa, Oscar Niemeyer e o engenheiro-poeta Joaquim Cardozo. O encontro entre JK e Furtado se materializa na criação da SUDENE.

O texto aborda também a "construção interrompida" em 1964, com a cassação dos dois, e registra a decisão de maio de 2026 da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que reconheceu a morte de JK como não natural e causada pelo Estado. Defende a cultura como política de nação e, olhando para 2076, centenário da morte de Juscelino, propõe traduzir o seu otimismo audacioso para os desafios da tecnologia, da inteligência artificial e do trabalho, sem abrir mão do espírito democrático e conciliador.


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