Uma legítima foto histórica e suas imitações baratas
Paulo Roberto de Almeida
A foto possivelmente mais famosa da política mundial retrata três poderosos líderes, reunidos para uma última conferência diplomática, em fevereiro de 1945, em Yalta, para discutir os destinos do mundo, quase ao final da guerra. O presidente Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill sentaram-se com o ditador soviético Stalin, para acertar as respectivas “zonas de influência”, na fase final da luta contra os nazistas.
A foto da conferência é icônica, representando o entendimento para a convocação de uma conferência multilateral que decidiria o formato da ONU, em substituição à frustrada Liga das Nações. Esta tinha sido criada em 1919, ao cabo da Grande Guerra (1914-1918), mas revelou-se incapaz de evitar a ascensão de potências revisionistas, vocacionadas à destruição da ordem existente, desejosas de instalar em seu lugar uma ordem autoritária, dominada pela preeminência indisputada de grandes potências agressivas.
Curiosamente, 81 anos depois da icônica foto, um dirigente autocrático e belicista dá evidentes demonstrações de que gostaria de ter uma nova foto, ao mesmo estilo de Yalta: três poderosos líderes da atualidade discutindo “zonas de influência”, num mundo não mais guiado pela Carta da ONU, ou por normas elementares do Direito Internacional, apenas pela vontade das grandes potências. O americano já deu sobejas provas de que está ansioso por uma foto tão representativa dos novos “donos do mundo” quanto aquela imortalizada em meados do século XX, podendo ser em Yalta ou em qualquer outro lugar próprio a estes tempos guiados mais pelo direito da força do que pela força do Direito. Estou seguro de que o neoczar toparia isso de pronto e até se sentiria tão empoderado quanto o antecessor soviético.
Não creio, contudo, que o novo imperador do Meio toparia tal imitação canhestra de uma nova divisão do mundo com dois colegas que ele deve julgar extremamente rústicos do ponto de vista do confucianismo mandarinesco que ele encarna. O Império do Meio nouvelle manière não tem nada a ver com o novo Lebensraum que o neoczar bárbaro pretende criar na Europa central, nem com o imperialismo cow-boy que o narcisista maligno gostaria de recriar a partir de uma contrafação do “corolário Roosevelt” (Theodore) à Doutrina Monroe. Dois mil e quinhentos anos de civilização chinesa serviram para polir um cerimonial imperial que fica muito acima dos modos truculentos dos dois candidatos a um Yalta de araque.
Mas, o slogan do momento, pelo menos no Brasil, parece ser o de que “todo mundo quer uma foto com Trump”, não talvez por apreciar o personagem, mas pelo eventual retorno de marketing político e de dividendos eleitorais. Cabe, no entanto, distinguir entre fotos dotadas de substância política e aquelas construídas improvisadamente por um oportunismo dos mais rasteiros, como parece ser o caso nos últimos dias.
No primeiro caso, se situa a foto de Lula com Trump, mais uma etapa de um longo e complicado quiproquó que começou antes da segunda presidência do imprevisível magnata imobiliário, quando Lula cometeu a impropriedade diplomática de apoiar sua opositora nas urnas. Seguiram-se diatribes verbais a propósito da insanidade tarifária de Trump, da ameaça de “limpeza étnica” na Faixa de Gaza, ainda agravadas pela ofensiva retaliatória a propósito do processo judicial contra o golpista pai, confrontos verbais que começaram a ser superados pela “química” iniciada na abertura dos debates da Assembleia Geral da ONU, em setembro do ano passado. Dois novos encontros ocorreram, um em terreno neutro, o outro na própria capital americana, que parecem ter selado a paz política entre ambos. Lula se orgulha de sua foto legítima, apertando a mão de Trump.
Diferente é a súplica de Flávio Bolsonaro, candidato periclitante às próximas eleições presidenciais, em virtude de suas notórias relações com bandidos de baixo e de alto coturno, entre estes o banqueiro que comprou meia Brasília e fraudou muitos fundos de aposentadoria. A fotomontagem que emergiu desse “encontro” implorado pelo candidato mambembe tem tudo para ser uma concessão improvisada para atender às conveniências e necessidades de uma campanha que já começou estrebuchando nas patifarias bem conhecidas pela trajetória de uma família embebida no universo miliciano do Rio de Janeiro.
Mais importante, porém, do ponto de vista da diplomacia brasileira, é a vassalagem oferecida a um megalomaníaco que pretende ser o imperador das Américas. Entre as concessões feitas prematuramente estão a caracterização do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, assim como a promessa de generosas concessões em recursos naturais do Brasil. O primeiro gesto do pai tinha sido o de prestar total submissão a Trump, em sua casa na Florida; depois alinhou a diplomacia brasileira ao bel prazer do megalomaníaco. Bolsonaro já mandou um “I love you Trump!” na ONU. Flávio pretende fazer o mesmo?
Paulo Roberto de Almeida
Contribuição à revista Crusoé, número especial.
Brasília, 5332: 28 maio 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (31/10/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/yalta-1-e-uma-possivel-yalta-2-uma.html)

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