sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Eleições no Brasil: o que há de velho, o que há de velho? - Paulo Roberto de Almeida

 Madame IA começa por traduzir para o português a postagem que eu fiz, nesta sexta-feira 16/10/2026, para discutir com acadêmicos franceses sobre as eleições do Brasil, neste link: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/elections-au-bresil-quoi-de-neuf-quoi.html

Ela traduz e analisa, por sua própria conta, provocada por meu amigo Airton Dirceu Lemmertz, cujo resultado transcrevo a seguir: 

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Eleições no Brasil; o que há de velho, o que há de velho?
Paulo Roberto de Almeida

"Devemos começar com uma verdade óbvia: ninguém, hoje, a menos de nove dias do segundo turno das eleições presidenciais, pode fazer uma aposta — uma daquelas aceitas pelas casas de apostas de Londres — sobre quem vencerá o voto popular. A segunda verdade óbvia seria dizer que o Brasil está profundamente dividido hoje — aliás, está assim há mais de três décadas — e que continuará politicamente dividido durante o próximo mandato; qualquer pessoa será eleita presidente pelos próximos quatro anos. São duas afirmações banais, mas com algumas diferenças: antes, eram populistas conservadores contra políticos progressistas; depois tivemos 21 anos de ditadura militar que ruiu em meio à inflação e à dívida externa, as mesmas razões pelas quais os militares intervieram contra um governo populista; em seguida, tivemos social-democratas como Fernando Henrique Cardoso contra os esquerdistas de Lula e seus associados. Cada um durou dois mandatos — uma infeliz invenção de Fernando Henrique Cardoso — e Lula representou um inegável progresso social, bem como uma política externa diferente, o que é particularmente importante para mim. O país permaneceu dividido nos últimos dez anos, especialmente com a ascensão de movimentos de direita a partir de 2013, seguida pelo fim do primeiro governo do PT com o impeachment de Dilma Rousseff e, posteriormente, pelo governo centrista do vice-presidente Michel Temer. O que aconteceu em 2018 não foi uma mera repetição de clichês, mas o início de uma completa transformação dos costumes políticos, das interações sociais, das políticas sociais de todos os tipos, da ajuda humanitária, da diplomacia, da proteção ambiental, do tratamento dos povos indígenas e até mesmo das universidades — em suma, uma regressão nunca vista nem mesmo durante a ditadura, promovida por um militar que não se envergonhou de elogiar aqueles que ordenavam torturas nas catacumbas do regime. Acima de tudo, Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente que não hesitou em colocar o país a serviço do jovem Trump, ainda nos estágios iniciais da loucura tarifária e da destruição das instituições multilaterais. A reeleição de Lula para um terceiro mandato em 2022 foi conquistada por uma margem mínima, e Bolsonaro tentou mais uma vez repetir o ataque de Trump ao Capitólio de Joe Biden em janeiro de 2021, numa tentativa frustrada de impedir que Lula assumisse o governo já no início de janeiro de 2023. Por isso, foi condenado a 27 anos de prisão, juntamente com vários membros de seu círculo íntimo, incluindo, pela primeira vez, oficiais militares de alta patente. Agora, seu filho tenta recolocar a família no poder, o que já aconteceu com a maioria dos que se candidataram ao Parlamento e às assembleias estaduais — uma série de novos conspiradores em favor de um regime iliberal ao estilo de Viktor Orbán. O que é antigo no Brasil é a disputa entre populistas de direita e de esquerda, os primeiros amplamente identificados com conservadores à moda antiga, e os últimos com esquerdistas tradicionais que não se reinventaram na renovação da esquerda europeia, como o SPD alemão, o PS francês, o PSOE espanhol e até mesmo o Partido Trabalhista britânico; o PT, por sua vez, permaneceu cubano e neobolchevique, o que assustou a classe média e até mesmo a classe alta, que se voltou para a direita, um cenário bastante facilitado pela ascensão desastrosa de seitas evangélicas exploradoras. O que é novo é a chegada de novas figuras à disputa eleitoral no Brasil em 2026. Pensei muito em um filme antigo, um faroeste spaghetti, enquanto me preparava para esta videoconferência: Três Homens em Conflito , ou Il buono, il brutto, il cattivo , no original de Sergio Leone de 1966. Nenhum dos três era realmente bom, mas um era realmente mau, e morreu no final. Não sei se é uma comparação justa, mas as eleições brasileiras de 2026 também têm um pouco de tudo isso: elementos bons, maus e horríveis. Refiro-me particularmente à corrupção desenfreada, que não é mais apenas horizontal, afetando toda a classe política, de um extremo ao outro do espectro ideológico, mas também, agora, vertical, atingindo o topo das instituições, até o Supremo Tribunal Federal. Isso mesmo:  se você pensa que estou me referindo a um faroeste italiano quando menciono os candidatos à presidência de 2026, está enganado. Na verdade, estou me referindo aos juízes, tanto os do Tribunal Eleitoral quanto os da Suprema Corte. Desde o ano passado, há uma verdadeira guerra civil entre os ministros da Suprema Corte e, desde o início da campanha eleitoral, uma guerra dentro do próprio Tribunal Superior Eleitoral, entre os juízes, além de uma disputa com seus colegas da Suprema Corte. Esta é a primeira vez que o Tribunal Eleitoral, criado em 1932, quando as mulheres conquistaram o direito ao voto, intervém diretamente na disputa sobre as acusações de notícias falsas e táticas desonestas, disseminadas por todos os lados, a ponto de restar apenas um duelo ao anoitecer, organizado entre o Bom, o Mau e o Feio — três ou quatro juízes, do Supremo Tribunal ou do Tribunal Superior Eleitoral, onde também atuam três juízes do Supremo Tribunal. Esses juízes detêm atualmente mais influência na disputa do que os próprios candidatos, agora reduzidos aos dois que se saíram melhor no primeiro turno: o candidato de extrema-direita, com vários pontos de vantagem sobre Lula, que ficou em segundo lugar. O que os divide nas eleições? Dependendo se um juiz foi indicado pela esquerda antes ou por Jair Bolsonaro depois, eles se alinharam claramente com seus respectivos candidatos. Táticas desonestas já vêm sendo empregadas desde a divulgação dos resultados do primeiro turno; portanto, todos os tipos de surpresas estão por vir até domingo, 25 de outubro. Há, assim, um novo elemento nessas eleições, além da ascensão da direita no Parlamento: o envolvimento político dos juízes, que é muito mais prejudicial à democracia brasileira do que uma vitória da direita ou da esquerda nessas eleições presidenciais. Portanto, se Bolsonaro Jr. for eleito em 25 de outubro, estaremos testemunhando uma possível guinada lenta à direita no Brasil, um fenômeno já em curso em muitos países europeus, agora consolidado nos Estados Unidos sob o governo Trump II, bem como na maioria dos países sul-americanos. Na América Latina, apenas México e Brasil (e o pequeno Uruguai) permanecem fora da ECU das Américas, lançada por Donald Trump em março passado, que já reuniu 19 parceiros, incluindo três membros do Mercosul: Argentina, Paraguai e Bolívia. Em todo caso, não haverá mudanças radicais na economia — que tem suas próprias limitações que precisam ser enfrentadas, independentemente da ideologia do presidente — nem uma grande ameaça à democracia, já que o Brasil possui instituições relativamente fortes, pelo menos até o momento. Os principais desafios, portanto, permanecem na esfera diplomática, o que me preocupa bastante, porque o Brasil nunca se vendeu a aventureiros estrangeiros. Nunca se entregou de bom grado a um imperador estrangeiro, especialmente um de tão baixa qualidade. A sorte está lançada, continuo ansioso…" (Paulo Roberto de Almeida). Link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/elections-au-bresil-quoi-de-neuf-quoi.html ("Eleições no Brasil: O que há de novo, o que há de velho? - Paulo Roberto de Almeida (Academia de Ciências Ultramarinas)"). Apresente uma análise do texto acima, entre aspas [e, também, no link], de autoria do diplomata aposentado, professor e escritor PRA (também administrador do blog Diplomatizzando). A análise será redigida em um texto discursivo (apenas frases e parágrafos); com, no mínimo, 4400 caracteres; usando linguagem acessível brasileira e didática; confrontada com fontes confiáveis; confrontada a partir de múltiplas perspectivas atinentes ao conteúdo. 

O texto em análise, de autoria do diplomata aposentado Paulo Roberto de Almeida, apresenta uma reflexão profunda, incisiva e altamente provocativa sobre o cenário político-eleitoral brasileiro projetado para o segundo turno das eleições presidenciais. Utilizando a metáfora cinematográfica do clássico faroeste Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo), o autor constrói uma narrativa onde o foco principal de instabilidade institucional e de ameaça à democracia não reside apenas na polarização ideológica entre a esquerda e a extrema-direita, mas sim no protagonismo e no envolvimento político direto de magistrados do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. A análise do diplomata engloba uma perspectiva histórica da divisão política nacional, uma dura crítica partidária, uma denúncia sobre a judicialização da política e considerações de ordem geopolítica e econômica regionais.
Sob a perspectiva histórica e sociológica, o autor situa o Brasil em uma trajetória de divisão crônica que remonta a mais de três décadas, perpassando o regime militar, a redemocratização, os embates entre a social-democracia do PSDB e o esquerdismo do PT, culminando na ascensão dos movimentos de direita a partir de 2013. O texto confere um peso singular ao ano de 2018 e ao governo de Jair Bolsonaro, classificando aquele período como uma regressão inédita e uma transformação profunda nos costumes e nas instituições, marcada pelo alinhamento automático à política externa do primeiro governo de Donald Trump nos Estados Unidos. O autor contextualiza o pleito de 2022 como uma vitória estreita de Luiz Inácio Lula da Silva, seguida pelos eventos de janeiro de 2023, que culminaram na condenação criminal e prisão do ex-presidente Bolsonaro e de militares de alta patente. Essa retrospectiva factual alinha-se amplamente com os registros históricos oficiais do período recente da Nova República.
Contudo, ao abordar a configuração partidária contemporânea, o texto adota uma perspectiva política acentuadamente crítica e contundente em relação ao Partido dos Trabalhadores. O autor sustenta que, diferentemente das siglas da esquerda europeia que passaram por processos de modernização e renovação programática, o PT permaneceu ideologicamente ancorado em moldes que classifica como "cubano e neobolchevique". Segundo a ótica expressa no ensaio, esse posicionamento dogmático teria afastado as classes média e alta brasileiras, empurrando-as em direção ao conservadorismo de direita, um movimento sociológico que, na visão do diplomata, foi significativamente catalisado pelo crescimento expressivo e pela influência de lideranças evangélicas.
A tese central e mais controversa do texto emerge na análise legal, jurídica e institucional do processo eleitoral. O diplomata transfere o foco dos candidatos à presidência — onde aponta a liderança do candidato de extrema-direita (Bolsonaro 'Filho') sobre o atual presidente Lula — para os juízes das altas cortes. Almeida denuncia o que descreve como uma "guerra civil" interna entre os ministros do STF e do TSE, acusando-os de corrupção vertical e de atuar como os verdadeiros protagonistas e decisores do pleito por meio de intervenções diretas sobre alegações de notícias falsas e táticas desonestas. O texto argumenta explicitamente que o partidarismo e o envolvimento político dos juízes, alinhados conforme a coloração ideológica dos governos que os indicaram, representam um dano à democracia muito mais profundo e severo do que a vitória eleitoral de qualquer um dos espectros políticos em disputa.
Do ponto de vista econômico e de governança interna, o ensaio adota uma postura mais moderada e pragmática. O autor pondera que, independentemente do resultado das urnas no dia 25 de outubro, a economia brasileira não sofrerá rupturas radicais, dado que o país possui limitações estruturais e fiscais históricas que se impõem a qualquer governante, independentemente de sua matriz ideológica. Da mesma forma, expressa uma relativa confiança na resiliência institucional interna, afirmando que o Brasil possui instituições fortes o suficiente para mitigar ameaças diretas à sua ordem democrática formal no curto prazo.
É na dimensão diplomática e geopolítica, entretanto, que o autor manifesta seu maior grau de preocupação profissional como diplomata de carreira. Ele insere o cenário eleitoral brasileiro dentro de uma ampla dinâmica internacional de avanço da direita, citando o retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos e as transformações na América Sul. O texto introduz um elemento geopolítico específico: a criação de um bloco denominado provisoriamente "Escudo das Américas" por iniciativa de Washington, que já contaria com a adesão de vizinhos sul-americanos do Mercosul, como a Argentina, o Paraguai e a Bolívia. Nesse panorama, o autor alerta que o México, o Uruguai e, momentaneamente, o Brasil permanecem como as destacadas nações da região fora desse alinhamento. O diplomata conclui seu raciocínio expressando o receio de que uma eventual mudança de comando no Executivo brasileiro resulte na perda da tradicional autonomia da política externa do país, submetendo a diplomacia nacional a interesses de potências ou lideranças estrangeiras, o que ele define como uma entrega a "aventureiros".
Em suma, o texto discursivo de Paulo Roberto de Almeida oferece uma leitura densa e multifacetada do Brasil contemporâneo. Ao confrontar o processo eleitoral com as tensões do Poder Judiciário e as pressões da nova geopolítica hemisférica, o autor convida o leitor a enxergar as eleições não apenas como um embate de partidos ou propostas econômicas, mas como um reflexo de uma crise institucional mais profunda, onde os guardiões da Constituição tornaram-se personagens centrais e ativos no tabuleiro do poder político nacional. 



 

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