Madame IA começa por traduzir para o português a postagem que eu fiz, nesta sexta-feira 16/10/2026, para discutir com acadêmicos franceses sobre as eleições do Brasil, neste link:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/elections-au-bresil-quoi-de-neuf-quoi.html
Ela traduz e analisa, por sua própria conta, provocada por meu amigo Airton Dirceu Lemmertz, cujo resultado transcrevo a seguir:
Sob a perspectiva histórica e sociológica, o autor situa o Brasil em uma trajetória de divisão crônica que remonta a mais de três décadas, perpassando o regime militar, a redemocratização, os embates entre a social-democracia do PSDB e o esquerdismo do PT, culminando na ascensão dos movimentos de direita a partir de 2013. O texto confere um peso singular ao ano de 2018 e ao governo de Jair Bolsonaro, classificando aquele período como uma regressão inédita e uma transformação profunda nos costumes e nas instituições, marcada pelo alinhamento automático à política externa do primeiro governo de Donald Trump nos Estados Unidos. O autor contextualiza o pleito de 2022 como uma vitória estreita de Luiz Inácio Lula da Silva, seguida pelos eventos de janeiro de 2023, que culminaram na condenação criminal e prisão do ex-presidente Bolsonaro e de militares de alta patente. Essa retrospectiva factual alinha-se amplamente com os registros históricos oficiais do período recente da Nova República.
Contudo, ao abordar a configuração partidária contemporânea, o texto adota uma perspectiva política acentuadamente crítica e contundente em relação ao Partido dos Trabalhadores. O autor sustenta que, diferentemente das siglas da esquerda europeia que passaram por processos de modernização e renovação programática, o PT permaneceu ideologicamente ancorado em moldes que classifica como "cubano e neobolchevique". Segundo a ótica expressa no ensaio, esse posicionamento dogmático teria afastado as classes média e alta brasileiras, empurrando-as em direção ao conservadorismo de direita, um movimento sociológico que, na visão do diplomata, foi significativamente catalisado pelo crescimento expressivo e pela influência de lideranças evangélicas.
A tese central e mais controversa do texto emerge na análise legal, jurídica e institucional do processo eleitoral. O diplomata transfere o foco dos candidatos à presidência — onde aponta a liderança do candidato de extrema-direita (Bolsonaro 'Filho') sobre o atual presidente Lula — para os juízes das altas cortes. Almeida denuncia o que descreve como uma "guerra civil" interna entre os ministros do STF e do TSE, acusando-os de corrupção vertical e de atuar como os verdadeiros protagonistas e decisores do pleito por meio de intervenções diretas sobre alegações de notícias falsas e táticas desonestas. O texto argumenta explicitamente que o partidarismo e o envolvimento político dos juízes, alinhados conforme a coloração ideológica dos governos que os indicaram, representam um dano à democracia muito mais profundo e severo do que a vitória eleitoral de qualquer um dos espectros políticos em disputa.
Do ponto de vista econômico e de governança interna, o ensaio adota uma postura mais moderada e pragmática. O autor pondera que, independentemente do resultado das urnas no dia 25 de outubro, a economia brasileira não sofrerá rupturas radicais, dado que o país possui limitações estruturais e fiscais históricas que se impõem a qualquer governante, independentemente de sua matriz ideológica. Da mesma forma, expressa uma relativa confiança na resiliência institucional interna, afirmando que o Brasil possui instituições fortes o suficiente para mitigar ameaças diretas à sua ordem democrática formal no curto prazo.
É na dimensão diplomática e geopolítica, entretanto, que o autor manifesta seu maior grau de preocupação profissional como diplomata de carreira. Ele insere o cenário eleitoral brasileiro dentro de uma ampla dinâmica internacional de avanço da direita, citando o retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos e as transformações na América Sul. O texto introduz um elemento geopolítico específico: a criação de um bloco denominado provisoriamente "Escudo das Américas" por iniciativa de Washington, que já contaria com a adesão de vizinhos sul-americanos do Mercosul, como a Argentina, o Paraguai e a Bolívia. Nesse panorama, o autor alerta que o México, o Uruguai e, momentaneamente, o Brasil permanecem como as destacadas nações da região fora desse alinhamento. O diplomata conclui seu raciocínio expressando o receio de que uma eventual mudança de comando no Executivo brasileiro resulte na perda da tradicional autonomia da política externa do país, submetendo a diplomacia nacional a interesses de potências ou lideranças estrangeiras, o que ele define como uma entrega a "aventureiros".
Em suma, o texto discursivo de Paulo Roberto de Almeida oferece uma leitura densa e multifacetada do Brasil contemporâneo. Ao confrontar o processo eleitoral com as tensões do Poder Judiciário e as pressões da nova geopolítica hemisférica, o autor convida o leitor a enxergar as eleições não apenas como um embate de partidos ou propostas econômicas, mas como um reflexo de uma crise institucional mais profunda, onde os guardiões da Constituição tornaram-se personagens centrais e ativos no tabuleiro do poder político nacional.


