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domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Ou foges ou morres": estes homens dizem ter sido enganados pela Rússia para lutarem na Ucrânia - Larry Madowo e Katharina Krebs CNN

"Ou foges ou morres": estes homens dizem ter sido enganados pela Rússia para lutarem na Ucrânia

CNN , Larry Madowo e Katharina Krebs
7/02/2026
https://cnnportugal.iol.pt/guerra/guerra-na-ucrania/ou-foges-ou-morres-estes-homens-dizem-ter-sido-enganados-pela-russia-para-lutarem-na-ucrania/20260207/69838cb7d34e92a344986fb6

Documentos do exército russo de Patrick Kwoba (CNN)
Primeiro são forçados a alistar-se no exército, depois recebem treino militar - pouco - e, num espaço de semanas, são enviados para a linha da frente com ordens para combater o exército ucraniano. Os contratos são assinados sem direito a advogados ou tradução. Esta é a estratégia da Rússia para recrutar civis vindos de África e torná-los em mercenários.
Anne Ndarua luta para conter as lágrimas quando fala sobre o seu único filho. Há seis meses, Francis Ndung'u Ndarua foi para a Rússia com a promessa de um emprego como engenheiro elétrico. A mãe não consegue entrar em contacto com ele desde outubro e já não consegue ter certezas de que o filho esteja vivo.
Em dezembro, alguém enviou a Anne um vídeo do seu filho a alertar outros africanos para não viajarem para a Rússia por causa de ofertas de emprego. “Vão acabar por ser levados para o exército, mesmo que nunca tenham servido nas forças armadas, e serão postos na linha de frente da batalha. E há mortes reais”, diz ele no vídeo, enviado de um número queniano desconhecido. “Muitos amigos morreram em nome do dinheiro”, acrescenta.

Cerca de uma semana depois, um vídeo perturbador de Francis viralizou nas redes sociais. De uniforme, com uma mina terrestre amarrada ao peito, o homem tem uma expressão assustada enquanto um russo, usando insultos racistas, diz que ele será usado como um “abridor de latas” para romper as posições do exército ucraniano.

“É tão traumatizante”, disse Anne à CNN, acrescentando que não assistiu ao vídeo depois de a sua filha lhe descrever o que se via nele. Desolada com a situação do filho, Anne só concordou em ser entrevistada como um último recurso para tentar levar os governos do Quénia e da Rússia a agir.

“Apelo aos governos do Quénia e da Rússia para que trabalhem juntos para trazer aquelas crianças de volta para casa”, pediu. “Eles mentiram-lhes sobre empregos reais e agora estão na guerra com as suas vidas em perigo.”

Um vídeo viral perturbador mostra Francis Ndung'u Ndarua de uniforme com uma mina terrestre amarrada ao peito enquanto um agente russo profere insultos racistas. (CNN)
Francis, de 35 anos, estava desempregado e morava com a mãe numa pequena comunidade nos arredores de Nairóbi antes de partir, tendo pagado cerca de 620 dólares a um agente para facilitar a oportunidade. Anne ficou surpreendida quando Francis informou a família de que estava a ser forçado a fazer treino militar ao chegar à Rússia. Depois de três semanas de treino básico, o jovem do Quénia foi enviado para a Ucrânia, conta Anne.

Francis é apenas um dos cada vez mais numerosos africanos que lutam pela Rússia na Ucrânia, embora os números exatos não sejam conhecidos.

Uma investigação da CNN revelou novos detalhes sobre as táticas de recrutamento de agentes russos no continente, expondo as promessas otimistas feitas a africanos à procura de emprego, a realidade do serviço militar obrigatório e dos combates sangrentos que acabam por ser o destino de muitos deles na linha de frente. A CNN analisou centenas de conversas em aplicações de mensagens, contratos militares, vistos, voos e reservas de hotéis, além de reunir relatos em primeira mão de combatentes africanos na Ucrânia, para entender como a Rússia atrai homens africanos para reforçar as suas fileiras.

Francis Ndung'u Ndarua é retratado em uniforme militar. (Família de Francis Ndarua)
Vários governos africanos, do Botsuana, do Uganda, da África do Sul e do Quénia, já reconheceram a dimensão do problema. A imprensa local tem demonstrado como os cidadãos foram enganados para se tornarem mercenários da Rússia na Ucrânia, e as autoridades já alertaram outros para não seguirem o mesmo caminho.

Os Ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da Rússia não responderam ao pedido da CNN para comentar as alegações de que alguns recrutas foram enganados ou coagidos. A CNN também tentou entrar em contacto com a embaixada russa em Nairóbi para comentar o assunto.

“Não recebi um único cêntimo”
A CNN falou com 12 combatentes africanos que ainda estão na Ucrânia – do Gana, Nigéria, Quénia e Uganda – que disseram que lhes foram oferecidos empregos civis, como motoristas ou seguranças. A maioria garantiu que lhes foi prometido um bónus de assinatura de 13.000 dólares, salários mensais de até 3.500 dólares e a cidadania russa no final do serviço.

Mas quando aterraram na Rússia, foram forçados a alistar-se no exército e receberam pouco treino antes de serem enviados para a linha da frente. De acordo com os testemunhos, foram obrigados a assinar contratos de serviço militar em russo, sem advogados ou tradução. Alguns tiveram os passaportes confiscados, tornando efetivamente impossível a fuga.

Embora a lei russa estabeleça que só se podem tornar soldados aqueles que conheçam o idioma, nenhum dos africanos entrevistados pela CNN falava russo. Os seus salários e bónus diferiam dos oferecidos aos soldados russos e variavam de recruta para recruta. Alguns dos entrevistados, também acusaram agentes de recrutamento ou colegas russos de roubar as suas contas bancárias. A CNN solicitou comentários ao Ministério da Defesa russo.

“Enquanto estávamos na linha de frente, um soldado russo obrigou-me a entregar o meu cartão bancário e a senha sob a mira de uma arma”, disse um combatente africano à CNN, sob condição de anonimato. Quando foi verificar, quase 15 mil dólares do seu bónus tinham sido roubados, deixando a sua conta quase a zeros, afirmou a vítima. “Estou aqui há sete meses e não recebi um único cêntimo. Eles continuam a prometer que vão verificar a situação, mas nada acontece.” Quatro outros que vieram para a Rússia com ele morreram, disse, enquanto lutava para conter as lágrimas.

As cláusulas traduzidas do contrato de serviço militar russo obtido pela CNN mostram uma imagem muito mais vinculativa e de longo prazo do serviço do que os agentes de recrutamento normalmente anunciam: além da promessa principal de um salário e benefícios, o contrato vincula o militar a obrigações amplas e indefinidas, incluindo a participação em operações de combate e destacamentos no exterior, requisitos rigorosos de lealdade e a obrigação de reembolsar o Estado pelo treinamento militar, se necessário, com o valor real deixado em branco na assinatura. As letras miúdas também se estendem à vida civil: o acesso a segredos de Estado pode acionar proibições de viagens ao exterior, entrega obrigatória de passaportes, limites à privacidade e restrições vitalícias à divulgação de informações confidenciais.

Embora os agentes de recrutamento anunciem caminhos rápidos para o emprego civil, o contrato estabelece que a ajuda significativa com empregos pós-serviço - através de uma reconversão profissional gratuita numa especialidade civil - só se torna disponível após pelo menos cinco anos completos de serviço (excluindo o tempo gasto na educação militar) e apenas se a demissão ocorrer por motivos específicos, como idade, saúde ou expiração do contrato.

Captura de ecrã de uma mensagem nas redes sociais entre um agente e um potencial recruta em África. (CNN)
Recrutas africanos alegam racismo e abuso
A imagem retratada nas redes sociais é muito diferente. “Para aqueles que estejam em África, na Nigéria, que se querem alistar no exército russo, é muito, muito fácil e muito bom, sem stress”, diz um homem nigeriano não identificado, vestindo um uniforme militar russo, num vídeo com várias partilhas. Menciona o seu estado natal na Nigéria, apresenta um homem venezuelano que está sentado ao seu lado e afirma que sua experiência é boa.

“Como é que perguntas a um militar internacional qual é o meu salário?”, alerta o soldado ganês Kwabena Ballo na sua página na rede social TikTok, também vestindo um uniforme do exército russo. “O meu salário pode alimentar o teu pai, a tua mãe e toda a tua família durante dois ou três anos”, diz em inglês pidgin. Embora alguns dos vídeos publicados nas redes sociais por africanos sejam em inglês e francês, muitos são em línguas como o igbo, suaíli e twi, para atrair diretamente o público dos países-alvo.

Mas todos, exceto um, dos doze recrutas africanos atualmente na Ucrânia que falaram com a CNN estavam desesperados para sair, incluindo aqueles que já tinham servido nas forças armadas dos seus próprios países.

A maioria descreveu um alistamento forçado numa guerra mortal com inúmeras baixas, racismo por parte dos comandantes russos, salários não pagos e nenhuma saída. Alguns contaram ter visto os corpos de outros africanos deixados a apodrecer no campo de batalha durante meses. Compatriotas a perderem membros sem compensação e sofrerem abusos psicológicos constantes por parte dos soldados russos, lamentam as testemunhas.

“A guerra aqui é muito intensa e muitas pessoas estão a morrer em ambos os lados”, disse o único combatente africano que admitiu à CNN que queria cumprir o seu contrato numa mensagem de vídeo. “Esta não era a expectativa destes rapazes que vieram para lutar. Eles pensavam que seria um pouco mais fácil para eles como mercenários.”

Enfrentando enormes pressões de mão de obra à medida que a guerra na Ucrânia se aproxima dos quatro anos, a Rússia promove ativamente a participação de recrutas africanos no seu exército como parte de uma narrativa de relações públicas mais ampla.

A televisão estatal e os legisladores regionais destacam histórias individuais - como combatentes nascidos em África que recebem a cidadania russa, felicitações públicas de legisladores e despedidas transmitidas pela televisão apresentadas como ordeiras e honrosas - para retratar os recrutas estrangeiros como colaboradores comprometidos e gratos ao esforço de guerra da Rússia.

Patrick Kwoba mostra a sua identificação militar russa, recebida após três semanas de treino militar básico antes de ser enviado para a Ucrânia. (CNN)
“Ou foges ou morres”
Patrick Kwoba tem 39 anos e foi convencido por um amigo africano no exército russo a alistar-se, depois de ver como a vida do colega parecia boa nas redes sociais. Carpinteiro, com experiência de trabalho em estaleiros de construção no Catar e na Somália, pagou a um agente queniano cerca de 620 dólares sob a promessa de que receberia um bónus de assinatura de 23 mil dólares em Moscovo.

“Pensei que ia ser guarda de segurança no exército, não um combatente”, disse Kwoba à CNN em Nairóbi, para onde regressou após desertar. Em declarações à CNN descreve os quatro meses que passou na Ucrânia como “um inferno” e considera o seu regresso a casa um milagre. Segundo Patrick Kwoba, recebeu apenas três semanas de treino militar básico e manuseamento de armas de fogo antes de ser enviado para a Ucrânia.

Algumas semanas depois, Kwoba foi ferido numa emboscada por um drone ucraniano e num ataque com granadas, mas disse que o seu parceiro russo se tornou hostil em vez de o ajudar. “Quando se está ferido, o código é ‘3 estrelas’ quando se pede primeiros socorros. Eu disse isso ao meu parceiro russo, mas ele expulsou-me e começou a disparar sobre mim”, lembrou Kwoba, que acabou por receber ajuda, mas, admite, sabia que precisava de fugir antes que fosse enviado de volta para lutar.

Patrick Kwoba, na foto com uniforme militar, diz que ficou ferido enquanto estava destacado na Ucrânia. (Patrick Kwoba)
“A partir do momento em que te alistas no exército russo, ou foges ou morres”, disse o antigo soldado. “Não há como ir para a Rússia e voltar vivo. Porque, se terminar o contrato, essas pessoas obrigam-te a ficar lá. Não te podem libertar.”

Kwoba fugiu quando lhe deram uma licença para recuperar em São Petersburgo, conseguindo chegar à embaixada do Quénia em Moscovo e apanhar o primeiro voo para casa. O pessoal da embaixada emitiu-lhe um documento de viagem temporário para evitar que fosse detetado, contou, uma vez que tinha excedido o prazo do visto de turista de entrada única que utilizou para entrar na Rússia em setembro de 2025.

Kwoba ainda precisa de ser submetido a cirurgia para remover fragmentos das nádegas e da parte de trás das coxas. Mas sabe que tem sorte em estar vivo.

Patrick Kwoba mostrou à CNN a sua documentação do exército russo. (Patrick Kwoba)
Ucrânia: interrompam o fluxo
O fotógrafo queniano Charles Njoki, de 32 anos, também descobriu os horrores da guerra em primeira mão. Na esperança de ganhar mais para sustentar a sua esposa grávida e a sua família, candidatou-se diretamente a um portal de recrutamento do exército russo para uma vaga de operador de drone e recebeu uma resposta em duas horas, explicou à CNN.

Vendeu o seu carro para pagar o voo e a acomodação e aterrou na Rússia, tudo no espaço de uma semana, planeando surpreender os pais com uma grande quantia de dinheiro e a cidadania russa ao final do seu serviço. Mas os seus planos foram rapidamente por água abaixo.

A mulher de Charles Njoki abortou enquanto decorria o treino. O marido só descobriu alguns dias depois, uma vez que os telemóveis dos recrutas tinham sido confiscados. Njoki aprendeu a montar e desmontar drones, mas nunca chegou a pilotá-los quando foi enviado para a frente de batalha.

Charles Njoki é fotografado com uniforme militar russo na Ucrânia. (Charles Njoki)
Algumas semanas depois, um ataque com drones ucranianos deixou-o com a mão esquerda ferida e um problema na coluna que requer cirurgia. “Um médico russo disse-me que eles só estão interessados nos dois dedos que uso para atirar”, disse o combatente à CNN em Nairobi.

Njoki afirma que os combatentes africanos foram deliberadamente expostos a situações perigosas, servindo de isco para os drones ucranianos. “Eles dizem às pessoas que vais guardar o local, que não vais para a linha da frente, mas dás por ti e estás na linha da frente, a lutar.” Também Njoki fugiu de São Petersburgo, recorrendo à embaixada do Quénia em Moscovo, de onde regressou a casa.

“Eles estão a mentir às pessoas. O dinheiro que dizem que vão pagar às pessoas, não é verdade”, sublinhou.

A Ucrânia instou as nações africanas a interromperem o fluxo de homens para as fileiras russas.

“Se eles estão na linha da frente, são nossos inimigos e a Ucrânia defende-se”, disse o embaixador ucraniano no Quénia, Yurii Tokar, à CNN. “Este fluxo deve ser interrompido”, reforçou.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

As Russia approaches a grim milestone, Putin projects confidence - Nathan Hodge (CNN)

As Russia approaches a grim milestone, Putin projects confidence

Nathan Hodge

CNN, 31/12/2025

https://edition.cnn.com/2025/12/31/europe/russia-ukraine-putin-confident-zelensky-intl?cid=ios_app

Russia is approaching a grim milestone: by mid-January, President Vladimir Putin’s “special military operation” in Ukraine will have dragged on longer than the war on the Eastern Front that began with the German invasion of the Soviet Union in June 1941 and ended with the fall of Berlin in May 1945.

Putin is famously obsessed with World War II and official veneration of the Soviet victory over Nazi Germany is part of the ideological glue that holds together the Russian state. Putin’s Russia has even seen the rehabilitation of Josef Stalin, the Communist dictator who presided over a ruthless purge in the 1930s before leading his country in what is known in Russia as the Great Patriotic War.

But nearly four years after the full-scale invasion of Ukraine, a decisive victory over Kyiv eludes the Kremlin leader: Russia controls about 20% of Ukrainian territory, the war is estimated to have cost Moscow more than a million casualties, and in perhaps the biggest affront to Putin’s war aims, Ukrainian President Volodymyr Zelensky remains in power.

But as the year comes to an end, Putin is projecting confidence that time is on his side and that winning is inevitable. Ahead of a summit with Indian Prime Minister Narendra Modi in December, Putin gave an interview with India Today where he said Russia would “liberate Donbas and Novorossiya in any case – by military or other means,” doubling down on his demand to acquire all the regions of Ukraine that Russia claims, including those that his troops have not managed to take by force.

And that bloody-mindedness seems to be a bargaining strategy. Putin is surely aware that US President Donald Trump is determined to reach a deal on Ukraine and the Russian leader has done everything in his power to extract the maximum gain from Washington’s eagerness to end the conflict.

In his year-end press conference, the Russian president said his country was ready and willing “to finish the conflict by peaceful means” — but not without boasting that his forces were “advancing across the whole of the front line.”

And a few days later, in his traditional televised New Year’s Eve address, Putin urged Russians to “support our heroes” fighting in Ukraine, adding, “We believe in you and in our victory!”

utin’s reasons for projecting swagger are clear. For starters, the Kremlin leader has been able to watch as a once-unified Western front supporting Kyiv showed serious fractures after Trump took office in January.

In February, US Vice President JD Vance stunned European leaders at the Munich Security Conference with a speech excoriating Washington’s transatlantic allies. That spectacle was followed by a very public dressing-down of Zelensky by Trump and Vance in the Oval Office.

A few months later, another public-relations coup for the Kremlin followed with the summit meeting in Anchorage, Alaska, between Putin and Trump. While the summit fell short of yielding a thaw in US-Russian relations, it was more than a photo opportunity for Putin: The Russian president was able to play for more time in his relentless war of attrition against Ukraine.

But Putin’s apparent reluctance to engage more seriously in peace efforts after Anchorage did eventually test Trump’s patience. An invitation to a second US-Russian bilateral summit in Budapest fell through and the Trump administration slapped sanctions on Russia’s two largest oil companies. The US president, who often has words of praise for Putin, expressed frustration with his Russian counterpart.

Still, enough ice appears to have been broken between Washington and Moscow to allow an unconventional US diplomatic effort led by Trump’s former business associate Steve Witkoff and his son-in-law Jared Kushner to advance.

Following Witkoff and Kushner’s visit to the Kremlin in early December, a flurry of high-level diplomacy involving Zelensky and European leaders ensued, with much talk about hammering out the finer points of a potential agreement.

By mid-December, Trump’s prognosis was optimistic, with the US president telling reporters that “we’re closer now than we have been, ever” to a peace deal.

But at year’s end, Putin still appears to occupy the role of potential dealbreaker: While Zelensky gained an audience with Trump at Mar-a-Lago last weekend to talk through a revised peace deal, the Kremlin leader bookended that meeting with his own phone calls to the American president.

And the Russian position on peace talks now appears to be hardening. In his conversation with Trump on Monday, Putin informed his American counterpart about an alleged Ukrainian drone attack on his Valdai residence in Novgorod region, according to a readout given to Russian state radio by Kremlin aide Yuri Ushakov.

Russian Foreign Minister Sergey Lavrov also telegraphed outrage over the claimed attack – which Zelensky dismissed as “a complete fabrication” – by saying that “Russia’s negotiating position will be revised” amid the ongoing peace process.

Some Kremlin-watchers are skeptical about Putin accepting a deal that would cross any of his red lines. The contours of such a deal are still emerging, but the Russian side has long been clear about the main sticking points.

Most recently, Russian Deputy Prime Minister Sergey Ryabkov reiterated them in an interview with ABC News: No surrender of any Ukrainian territory that Moscow lays claim to, and no NATO boots on the ground in Ukraine after the war ends.

“Lavrov, Ushakov, (Kremlin spokesman Dmitry) Peskov, and Putin himself (who has visibly ramped up engagements with the military while doubling down on ‘we will achieve our goals’) have made it clear that the revised plan is entirely unacceptable. Yet Washington continues engaging Kyiv, touting ‘progress’ that Moscow views as illusory,” Russian political observer Tatiana Stanovaya wrote on X after the latest talks in Mar-a-Lago.

“This is precisely what the Russian story about a drone attack on Putin’s residence is about: a forceful ‘pound on the table’ to make the West finally hear that the current peace negotiations are heading in a completely unacceptable direction for Moscow and to derail the emerging US-Ukrainian framework,” she said.

Putin has Trump’s ear but he has not succeeded yet in drowning out those competing voices. How much of the Kremlin’s confidence is smoke and mirrors is the big question.

In November, Putin donned camouflage to pay a visit to a military command post in an undisclosed location, where the commander-in-chief of Russia’s military, Gen. Valery Gerasimov, claimed Russian troops were in control of the eastern town of Kupiansk.

Just a few weeks later, Putin was upstaged by Zelensky, who posted a video of a visit to Kupiansk, wearing body armor and standing in front of a pockmarked – and very geolocatable – sign. Asked later about the video during his year-end press conference, Putin was dismissive, mocking the Ukrainian president as “a talented artist” engaged in theatrics.

The mood in Russia is hard to gauge – criticizing the military can land a person in jail – and the economy keeps lumbering along, despite slowing growth and a Ukrainian campaign of strikes on Russian energy infrastructure, the cornerstone of Moscow’s economic power.

Yet Putin’s unchallenged grip on power gives him leverage in any peace process. The graveyards in provincial Russia may continue to grow with war dead, but no parliament can pressure him, no political opposition seems to threaten him and an apparently passive population means he can continue his war on Ukraine.


terça-feira, 6 de maio de 2025

Ida ao Dia da Vitória em Moscou coloca Lula ao lado de líderes autoritários - Lourival Sant'Anna (CNN)

 Ida ao Dia da Vitória em Moscou coloca Lula ao lado de líderes autoritários

Único governante eleito democraticamente é o primeiro-ministro da Eslováquia, ultraconservador aliado de Putin
Lourival Sant'Anna
CNN, 06/05/2025
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/lourival-santanna/internacional/ida-ao-dia-da-vitoria-em-moscou-coloca-lula-ao-lado-de-lideres-autoritarios/

A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Moscou nessa sexta-feira (9), para a celebração dos 80 anos da vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista, coloca o Brasil ao lado de ditaduras e de governos ultraconservadores alinhados com o autocrata russo Vladimir Putin.
As democracias da Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Coreia do Sul, entre outras, ignoraram o convite, como têm feito desde a primeira invasão da Ucrânia ordenada por Putin, em 2014.

Da América Latina, além de Lula, confirmaram presença até agora apenas os ditadores de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e da Venezuela, Nicolás Maduro. Da Europa, só o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, ultranacionalista e conservador, aliado de Putin, contrário à imigração e às minorias.
Aleksander Vucic, presidente da Sérvia, havia anunciado sua ida também, mas está doente. Os sérvios são tradicionais parceiros da Rússia na disputa por influência dos cristãos ortodoxos contra católicos croatas e muçulmanos bósnios e kosovares.

Em contrapartida, Lula estará ao lado do ditador chinês, Xi Jinping, que aliás visitará na sequência, em Pequim; de Belarus, Aleksander Lukashenko, aliado de Putin na agressão contra a Ucrânia; das cinco ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, Armênia e Azerbaijão, além da Mongólia, todos satélites da Rússia.
A lista de confirmados até agora inclui também o capitão Ibrahim Traoré, homem-forte de Burkina Faso, que depende do grupo mercenário russo Afrika Corps, ligado a Putin, para permanecer no poder contra a ameaça de células jihadistas. E o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas.

Antes da invasão da Ucrânia em 2014, Moscou recebia os mais importantes líderes ocidentais nas comemorações do Dia da Vitória, celebrado na Rússia um dia depois dos países europeus, por causa do fuso horário.

Em 2006, por exemplo, no 60º aniversário da derrota nazista, quanto Putin já estava no poder, estiveram presentes em Moscou o presidente americano George W. Bush, o francês Jacques Chirac, o chanceler alemão Gerhard Schröder e o primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi.

Depois da invasão, no entanto, deixou de ter sentido, para americanos, europeus e japoneses, celebrar a data junto com Putin. Afinal, a celebração é sobre a paz e o respeito à soberania, que o ditador russo atropelou. Hoje ele representa a ameaça, além de ser réu em um processo do Tribunal Penal Internacional, do qual o Brasil é integrante, por ter ordenado a sequestro de milhares de crianças ucranianas.
O governo brasileiro pretende justificar a ida como um esforço para mediar a paz entre Rússia e Ucrânia. As inúmeras declarações a favor de Putin e contra o presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, privam Lula de credenciais perante a Ucrânia e a Europa, além da própria irrelevância do Brasil no contexto do Leste Europeu. A ida a Moscou nessa data simbólica não ajudará a reforçar essas credenciais.

Curiosamente, em seu apreço por Putin, Lula se aproxima do ex-presidente Jair Bolsonaro, que visitou o ditador russo uma semana antes da segunda invasão, em fevereiro de 2022, e disse: “Somos solidários à Rússia”.

Bolsonaro explicou que o ponto de convergência eram a religiosidade e a crença de que a família devia ser formada por um homem e uma mulher. Putin patrocinou a aprovação de leis na Rússia que impedem os homossexuais de se casar e adotar filhos.

Os motivos da afinidade de Lula por Putin são de outra natureza: ele tenta restaurar o antigo império soviético e representa, na visão da esquerda, um contraponto ao poder dos Estados Unidos. Sob o governo de Donald Trump, no entanto, esses alinhamentos se embaralharam: o presidente americano também é um admirador da forma como Putin concentra o poder político e econômico em suas mãos e se perpetua no Kremlin.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Chefe da diplomacia americana fala com 58 países, mas ignora Brasil - Daniel Rittner CNN

Chefe da diplomacia americana fala com 58 países, mas ignora Brasil

Em 45 dias, Marco Rubio conversou pessoalmente ou por telefone com representantes de dezenas de nações; Mauro Vieira ainda não teve contato com secretário de Estado

Daniel Rittner

CNN, Brasília, 06/03/2025 às 04:30

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/marco-rubio-brasil-contatos/


O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, teve conversas telefônicas ou encontros pessoais com representantes de pelo menos 58 países em um mês e meio de governo Donald Trump nos Estados Unidos, mas deixou o Brasil fora de sua lista de contatos.

O levantamento foi feito pela CNN com base em registros do Departamento de Estado.

A lista contempla, por exemplo, chanceleres ou primeiros-ministros de todos os integrantes do G20 (o grupo das 20 maiores economias do planeta) — à exceção apenas do Brasil e da África do Sul.

Desde a volta de Trump à Casa Branca, o secretário de Estado conversou com autoridades de dez países do continente americano: Canadá, México, Argentina, Costa Rica, El Salvador, Guiana, Jamaica, Panamá, República Dominicana e Venezuela — no último caso, houve diálogo com o líder oposicionista Edmundo González, que os Estados Unidos reconhecem como presidente legítimo.

Em janeiro, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviou uma carta a Rubio cumprimentando-o por sua nomeação. Os dois, porém, não se falaram nenhuma vez.

Desde então, o Brasil tem sido citado frequentemente por Trump como um parceiro comercial com tarifas elevadas sobre produtos americanos, como o etanol.

Fora das questões meramente comerciais, que são tocadas por outras áreas de governo, o Departamento de Estado esteve no centro de uma polêmica com o Brasil.

Na semana passada, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental — uma divisão do Departamento de Estado — postou uma mensagem nas redes sociais com críticas ao Brasil.

“Bloquear o acesso à informação e impor multas a empresas sediadas nos EUA por se recusarem a censurar indivíduos que lá vivem é incompatível com os valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão”, disse o escritório no X (antigo Twitter).

Em resposta, uma nota publicada pelo Itamaraty acusou o escritório de distorcer decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a exigência de representantes legais das big techs que operam no país.

“O governo brasileiro rejeita, com firmeza, qualquer tentativa de politizar decisões judiciais e ressalta a importância do respeito ao princípio republicano da independência dos poderes, contemplado na Constituição Federal brasileiro de 1988”, afirmou o Itamaraty, na nota.


Contatos de Rubio

Em 45 dias, Marco Rubio conversou com os presidentes, primeiros-ministros ou chanceleres dos seguintes países (por ordem cronológica do contato):

·       Europa (21): Polônia, Dinamarca, Lituânia, Letônia, Estônia, França, Reino Unido, Hungria, Itália, Alemanha, Comissão Europeia, Finlândia, Bélgica, Ucrânia, Suécia, Rússia, Polônia, Grécia, República Tcheca, Irlanda, Chipre.

·       Américas (10): Venezuela, Canadá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Panamá, El Salvador, Argentina, México, Jamaica.

·       Ásia (19): Filipinas, Índia, Japão, Indonésia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Turquia, Israel, China, Vietnã, Iêmen, Jordânia, Catar, Bahrein, Uzbequistão, Iraque, Omã, Cingapura

·       África (6): Egito, Congo, Marrocos, Argélia, Quênia, Angola.

·       Oceania (2): Austrália, Nova Zelândia.


Segundo fontes da diplomacia brasileira, uma aproximação com o Departamento de Estado está sendo conduzida pela embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.

A avaliação no Ministério das Relações Exteriores, entretanto, é que questões como a deportação de brasileiros em voos precários puderam ser resolvidas pelos canais diplomáticos existentes — sem a necessidade de “subir de nível hierárquico”.

Uma oportunidade de contato entre Mauro Vieira e Marco Rubio, esperada pelo Itamaraty, era a reunião de chanceleres em Joanesburgo (África do Sul), em fevereiro.

No entanto, o secretário de Estado não compareceu e o governo Trump foi representado no encontro apenas pela encarregada de negócios (chefe temporária) da embaixada americana no país.

De acordo com a avaliação de uma fonte diplomática ouvida pela CNN, há vantagens no “esquecimento” do Brasil pela Casa Branca e pelo Departamento de Estado.

Essa fonte argumenta que mesmo aliados históricos dos Estados Unidos, como o Canadá e países europeus, têm sido tratados com “agressividade” pelo governo Trump.

Nesse cenário, acrescenta o interlocutor, é mais benéfico para um país como o Brasil não chamar (ou chamar pouco) a atenção dos americanos do que ter uma suposta “linha direta” de diálogo com Rubio.

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Quanto tempo de "vida" tem o Secretário de Estado de Trump? Muito, pouco, muito pouco? - Stephen Collinson, Caitlin Hu and Shelby Rose (CNN)

 Os analistas políticos americanos não confiam em que o Secretário de Estado de Trump dure muito tempo:


'When Marco speaks ... toilets flush themselves'
Stephen Collinson, Caitlin Hu and Shelby Rose
CNN Meanwhile in America, Jan 15, 2025

Marco Rubio has the chance to be an excellent secretary of state and his Senate pals are sure to confirm him in the job.

But how long can he last?

Running US diplomacy for Donald Trump is like having a root canal every day. The president-elect's first, first-term Secretary of State Rex Tillerson had a nightmare, which culminated in his calling Trump a “moron” and getting fired by tweet. His successor Mike Pompeo did last three years, but only by downplaying his own power and influence and giving Trump credit for anything that went right.

Rubio’s nomination was greeted with huge relief by US allies and foreign policy professionals in Washington because he’s seen as stable and reasonable. This despite amping up his histrionics to fit his hawkish conservative internationalism within Trump’s “America First” creed. His painful genuflecting before his 2016 primary opponent is typical of the rite of humiliation Trump demands of former foes.

But his best qualities were on display when the Florida senator held court in his confirmation hearing Wednesday, conducting a sweeping global seminar, without notes, and displaying impressive depth. Not only did he know what ASEAN was -- unlike his counterpart for Trump's pick for secretary of defense, Pete Hegseth, who testified on Tuesday -- he offered a intricate analysis of the Southeast Asian grouping’s internal political dynamics and views on Beijing.

Rubio also showcased his intense suspicion of China, describing the rising giant as the most “potent and dangerous near peer adversary this nation has ever confronted.” Despite his long-term hostility towards Vladimir Putin, Rubio argued that Ukraine would be unable to fully repel the Russian invasion and that the war should end, aligning himself with the president-elect. But he reassured foreign policy traditionalists by saying he still supports a law that he helped write that means Trump can’t quit NATO without Senate approval.

After Trump refused to rule out sending troops to take back the Panama Canal, Rubio suggested that the terms under which the US turned over the critical waterway may have been violated by two Chinese ports at its ends. But he stressed Panama’s government was a friend of the United States and that the situation could probably be sorted out. This is an example of how Rubio hopes to leverage Trump’s saber rattling to fashion a cohesive American foreign policy.

Not everyone in the Senate Foreign Relations Committee agrees with Rubio, but senators on both sides were wowed by his expertise. Democratic Sen. Tim Kaine said, “We are used to nominees who know a lot about a couple of things or sometimes who know very little about virtually everything.”

Rubio is taking a big risk in leaving the Senate’s clubby confines for Trump’s three-ring circus. The fault lines of an eventual schism with the new president are already evident. While he wants to crack down on China, the president-elect seems to be itching to do deals with leader Xi Jinping. Rubio is a long-time proponent of human rights, a universal value for which his new boss has little time. Trump has also boxed Rubio in by appointing a slew of envoys who will bite chunks out of his portfolio. Turf wars also rage between the State Department and the White House. But it’s all magnified ten-fold under Trump.

And sooner or later, Trump sours on everyone. While Rubio travels the world, MAGA loyalists will be trashing him to the president and reminding Trump of their “small hands” showdown during the 2016 campaign. This is where Rubio’s relationship with new national security adviser Mike Waltz, a Florida House member, who is said to be close to the Florida senator, will be especially critical.

Rubio knows the drill. He repeatedly stressed Wednesday that Trump will be making foreign policy and he’ll just be implementing it, showing how Cabinet members must minimize their own clout to keep the president-elect sweet.

It’s no secret Rubio still pines to be president. So he must stay in Trump’s favor and build bonds with the MAGA base so he can run as his heir. He could then leave Foggy Bottom to launch a GOP primary campaign in 2027, in a crowded field that may include Vice President-elect JD Vance, Florida Gov. Ron DeSantis and even Trump’s son Don Jr.

In 2015, Dan Gelber, a former Florida House Democratic minority leader, told CNN about a warning he gave to his party when the young Rubio was the speaker of the state’s legislature. “When Marco Rubio speaks, young women swoon, old women faint and toilets flush themselves,” he said. “This guy is really good. Marco is instinctive. He is also very, very disciplined.”

Soon-to-be-Secretary of State Rubio will need all those skills to keep his political career alive.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Diplomacia brasileira criou uma armadilha para si e caiu nela na Venezuela - Vitelio Brustolin, Arthur Ambrogi (CNN)

Comentário inicial de Paulo Roberto de Almeida:

A politica externa brasileira apresentou certa consistência conceitual com a diplomacia profissional desde o segundo governo da ditadura militar até o segundo governo FHC, uma diplomacia presidencial mas fortemente amparada na metodologia prática do Itamaraty. Essa coerência foi rompida desde o primeiro governo Lula, quando são introduzudos os primeiros elementos de uma diplomacia partidária de um partido sectário e anacronicamente antiamericano e de uma diplomacia presidencial extremamente personalista. Um apparatchik a serviço dos interesses cubanos passou a desviar algumas vertentes da politica externa oficial para objetivos partidários inconsistentes com os interesses nacionais e em desconformidade com as práticas do Itamaraty (contatos clandestinos conduzidos mais pelos “mestres” cubanos que influenciaram as pressões partidários).

A incoerência foi exacerbada sob o bolsolavismo diplomático, quando o Itamaraty foi dominado por ignorantes submissos a um dirigente incompetente fascinado pelo personalismo trumpista. Nunca o Itamaraty foi tão humilhado quanto nesse periodo de isolamento internacional.

Lula 3 representa o retorno confuso a uma diplomacia partidária que é também um exagero no presidencialismo personalista, tornando a politica externa ainda mais incoerente e inconsistente.

O artigo abaixo reflete um dos aspectos dessa politica externa incoerente e inconsistente com os valores e princípios da diplomacia brasileira tradicional, aliás valores e principios que já estão consolidados constitucionalmente e que são desprezados pelos dirigentes despreparados que ocupam o poder no Brasil atualmente. Mais um período de submissão do Itamaraty a desígnios contraditórios com os interesses nacionais.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 11/02/2025

Análise: Diplomacia brasileira criou uma armadilha para si e caiu nela na Venezuela

Vitelio Brustolin, colaboração de Arthur Ambrogi

CNN, 10/01/2025


O governo brasileiro está reconhecendo Nicolás Maduro como o chefe de Estado da Venezuela. No entanto, já que o governo brasileiro não vai validar o resultado das eleições venezuelanas de 2024, está implícito que o Brasil reconhece Maduro como ditador daquele país. Em outras palavras: Maduro não venceu, mas ganhou.

Pelo Direito Internacional, o reconhecimento de um governo pode ocorrer por meio de duas formas: expressa ou tácita. A forma expressa se dá por escrito – publicando uma declaração ou nota diplomática. A forma tácita se dá pelo relacionamento com esse governo. Na prática, só muda o formalismo, os efeitos são os mesmos.

Conforme resume Hildebrando Accioly, em seu “Manual de Direito Internacional Público”, os Estados Unidos sustentam, desde a sua independência, que se deve reconhecer como legítimo o governo oriundo da vontade nacional, claramente manifestada.

A esse princípio foi adicionado, posteriormente, o da intenção e capacidade do governo de cumprir as obrigações internacionais do estado. A doutrina brasileira se aproxima muito dessa formulação, no entanto, historicamente o Brasil leva em conta, também, as seguintes circunstâncias:

  • Primeiro, a existência real de governo aceito e obedecido pelo povo;
  • Segundo, a estabilidade desse governo;
  • Terceiro, a aceitação, por este, da responsabilidade pelas obrigações internacionais do respectivo estado.

É bastante questionável que o governo de Maduro seja “aceito pelo povo”, já que seu poder é imposto com punho de ferro, por meio da opressão. Maduro seguiu os passos de Hugo Chávez, cooptando as Forças Armadas da Venezuela.

O país é um dos que têm maior proporção de generais no mundo: são mais de 2 mil. Para fins de comparação, o Brasil tem cerca de 300 generais, embora a quantidade de militares nos dois países seja praticamente a mesma: 360 mil.

Promoções, benesses e salários comparativamente elevados para as maiores patentes tornam os militares parte fundamental do regime. A isso soma-se o temor de responderem pelos crimes contra a população.

Relatórios produzidos por uma missão criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) elencam os seguintes crimes cometidos há anos pelo aparato opressivo: tortura, espancamento, asfixia, violência sexual, prisões arbitrárias, censura, repressão e violações de direitos humanos.

Também é questionável que o governo seja estável, já que as pessoas que fogem do país denunciam os abusos do regime para se perpetuar no poder.

Segundo a Agência da ONU para as Migrações, em agosto de 2023, havia mais de 7,7 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos em todo o mundo. A maioria deles vive em países da América Latina.

Desde 2017, mais de 800 mil venezuelanos entraram no Brasil, quase todos a partir de Roraima, que faz fronteira com aquele país. São 7,7 milhões de pessoas que fugiram de um país cuja população é de 28 milhões.

A estabilidade também não é percebida nas eleições. As últimas a que se pode creditar alguma legitimidade foram em 2015, quando a coalizão oposicionista conquistou 99 dos 167 assentos da Assembleia Nacional.

Essa oposição passou a levar questões contra o governo para o Supremo Tribunal de Justiça (TSJ). Maduro então iniciou um processo de aposentadoria dos juízes do TSJ e a substituição deles por correligionários seus. As eleições seguintes passaram a ser boicotadas pela oposição, que não encontrava condições justas para concorrer.

Por fim, é questionável que o governo Maduro aceite cumprir as “obrigações internacionais” da Venezuela. A dívida da Venezuela com o Brasil ultrapassa R$ 15 bilhões, na cotação de hoje.

Em dólares, são US$ 1,5 bilhão via BNDES, mais cerca de US$ 1 bilhão em exportações de produtos brasileiros ao país. Hoje não há qualquer expectativa de que o Brasil venha a receber esses valores. A Venezuela também não cumpre as resoluções da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em agosto, os países-membros aprovaram por consenso a cobrança da publicação das atas das eleições presidenciais de 2024.

Maduro não publicou e não irá publicar as atas. Não fará isso, porque perdeu as eleições, conforme demonstra o Centro Carter, que foi um dos poucos observadores internacionais autorizados pela Venezuela para as eleições de 28 de julho de 2023.

Em outubro, o Centro Carter apresentou cópias feitas por conta própria das atas à OEA, explicitando que Edmundo González obteve mais de 67% dos votos e Nicolás Maduro conseguiu 31%.

A oposição tinha conseguido fotografar 80% das atas, que já demonstravam a vitória de González. O Centro Carter, no entanto, conseguiu registrar todas as atas, incluindo seus códigos QR. Trata-se de uma prova incontestável da vitória de González no pleito.

A ONU já havia atestado que as atas apresentadas pela oposição eram verídicas, com base em um relatório produzido por um painel de seus especialistas que observaram as eleições na Venezuela. Tanto os funcionários da ONU quanto os do Centro Carter tiveram que sair do país após as eleições.

Em 2023, Lula posicionou o Brasil como observador dos Acordos de Barbados. Os Acordos garantiriam que as sanções impostas à Venezuela pelos Estados Unidos, União Europeia e outros países fossem retiradas. Em troca disso, seriam promovidas eleições justas.

Maduro sempre criticou as sanções como principal motivo de empobrecimento do país, a despeito dos 300 bilhões de barris de petróleo confirmados – a maior reserva do mundo.

Apesar desse discurso, as sanções da União Europeia são apenas um embargo às armas e ao equipamento que o regime usa para repressão interna.

Foi imposta a proibição de viajar e o congelamento de bens de 54 funcionários responsáveis por violações de direitos humanos e por minar a democracia e o Estado de direito na Venezuela.

Por sua vez, os Estados Unidos impuseram sanções de bloqueio de bens a 11 indivíduos e 25 empresas que possuem ligações com o governo Maduro, designando-os como narcotraficantes.

Seja como for, é evidente que a retirada das sanções nunca foi uma prioridade para Maduro, pois bastaria que tivesse promovido eleições justas para que elas fossem eliminadas.

Ocorre que após as denúncias da oposição sobre a fraude nas eleições de 2024, bem como a apresentação de fotos das atas, não restou opção ao governo brasileiro, a não ser exigir a apresentação das atas eleitorais por parte de Maduro.


Isso, a despeito do partido de Lula, o PT, ter reconhecido a suposta vitória de Maduro, além de enviar representantes para sua posse, juntamente com o MST.

A opressão ditatorial de Maduro que se seguiu à eleição, com a prisão de mais de 2 mil opositores, sepultou qualquer avanço na reaproximação com a Venezuela, que vinha sendo operacionalizada pelo assessor Celso Amorim.

A relação entre Lula e Maduro continuou esfriando. Maduro acusou “a diplomacia brasileira” de ter vetado o ingresso da Venezuela no BRICs+. Também insinuou que Lula deveria “tomar um chá de camomila” para se acalmar, entre outras farpas lançadas publicamente.

Nesse contexto, e diante do rompimento das relações diplomáticas de vários países com a Venezuela, dentre os quais, Argentina, Chile, Costa Rica, Peru, Panamá, República Dominicana e Uruguai, o governo brasileiro deixou claro que não desejaria seguir pelo mesmo caminho.

Há cerca de 20 mil brasileiros na Venezuela e romper relações seria potencialmente prejudicial a eles. Além disso, em julho de 2024, o Brasil assumiu a Embaixada da Argentina na capital venezuelana.

O precedente do chefe da representação brasileira na Nicarágua, Breno Souza da Costa, em agosto, já havia deixado o Itamaraty em alerta. Ao não comparecer ao evento de aniversário da Revolução Sandinista, comemorado no dia 19 de julho, o diplomata brasileiro foi expulso pelo ditador Daniel Ortega.

Antes que o Brasil adotasse o princípio de reciprocidade e expulsasse a embaixadora da Nicarágua, Fulvia Castro, ela foi chamada de volta para Manágua.

O envio da embaixadora brasileira em Caracas, Glivânia de Oliveira, para a posse de Nicolás Maduro constitui um reconhecimento tácito do governo Maduro. A diplomacia ‘presidencial’ brasileira avançou demais e criou uma armadilha para si.

Historicamente, Lula foi um apoiador dos governos Chávez e Maduro. Receber este com honrarias de chefe de Estado em Brasília, em 2023, no entanto, foi um erro.

Também foi um erro ter relativizado o conceito de democracia. Já naquela época eram públicos os relatórios sobre as violações de direitos humanos, crimes generalizados e a opressão do ditador venezuelano.

Também era notório o fluxo de refugiados venezuelanos para o Brasil. Alguns poderiam acusar o governo brasileiro de ingenuidade, porém Lula seguiu apenas o modus operandi que sempre teve com os governos do país vizinho.

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**Texto em colaboração com Arthur Ambrogi – Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Mackenzie.


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